sábado, 19 de outubro de 2013

O arcaico no moderno





Por Donizete Vieira



As religiões arcaicas se baseavam na violência e no medo de Deus.

Havia entre elas algo em comum: o conceito de que sacrifícios de sangue seria o único meio de aplacar a ira de seus deuses.

Moisés, seguindo os padrões primitivos e motivado pelas mesmas premissas, elaborou engenhosamente um sistema que tornasse os sacrifícios cruentos viáveis.

A tese central do cristianismo no tocante ao meio de salvação, contém os mesmos mecanismos de bode expiatório presente nestas religiões.

Apesar do moroso avanço dos saberes, o cristianismo percebeu que uma religião para continuar viva precisava parar de matar. As religiões que matavam morreram ali.

Entretanto, o "espanto" diante do poder dos fenômenos naturais, originador da religião, que por sua vez originou no homem o sentimento de culpa, continua presente.

Rudolf Otto disse que o sagrado tem duas faces. Ele é ao mesmo tempo fascinante e repugnante. maravilhosa e temível, necessária e perigosa. Atrai, seduz e dá medo com sua ameaça.

O sagrado tem às vezes uma face angélica, quando traz a uma mensagem que atinge no mais profundo de nós e que nos coloca no caminho a um futuro ou uma alteridade.

Mas assume em outras ocasiões uma face demoníaca, quando nos enclausura e nos imobiliza. Ela é esmagadora e destruidora quando nos impõe o limite de práticas insensatas e de dogmas incompreensíveis que, em vez de nos remeter a Deus, se substituem por Ele. 

Esta face demoníaca nos remete a um sacrifício para ser imobilizada.

O passado chegou ao futuro e o presente voltou ao passado. A religião desperta até no homem pós moderno os instintos mais primitivos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

COMO VEJO A MISSÃO DE JESUS


Por Eduardo Medeiros

A mensagem de Jesus era A vinda do Reino de Deus mas a igreja passou a pregar a mensagem da salvação dos pecados pelo sacrifício de Jesus.
Jesus sentia-se imbuído da missão de trazer o Reino de Deus à Terra. Essa era a sua missão. Sua missão nunca foi pregar a si mesmo como um cordeiro que iria ser morto para salvar a humanidade.

A única salvação para a humanidade seria a vinda vitoriosa do Reino de Deus, que destruiria os alicerces da opressão, principalmente contra os mais pobres (daí a bem-aventurança a eles).

Em seu sermão escatológico, Jesus disse que aquela sua geração não passaria sem que ela visse isso acontecer - ou seja - a vinda do Reino.
Mas a prisão e a condenação de Jesus precipitou as coisas. Na cabeça de Jesus, a sua prisão seria o ponto ômega de sua missão; seria a hora que Deus irromperia na história para mudar a história.

Jesus perguntou a Pedro quantas espadas eles tinham. Pedro disse "duas", e Jesus disse "basta".

Ora, não seria a mão humana que destruiria os alicerces da opressão, seria o próprio Deus, por isso, bastariam "duas espadas".
Mas Jesus foi para a cruz.
O grande evento não se deu. 
Jesus não sabia o que estava acontecendo. Onde estava Javé, seu Pai? 
O brado na cruz seria a síntese histórica que ficou preservada no evangelho: "Pai, por que me abandonaste"?
Ou seja - "Pai, por que não ages?" 
Jesus morreu sem ver sua missão cumprida.
Desde então, seus seguidores reinterpretaram sua missão,
Adicionando outros elementos que lhe eram estranhos, mas
que de uma forma ou de outra, contribuiu para perpetuar
a história daquele nazareno formidável.

Para mim, essa é a síntese histórica mais provável e mais lógica para a história de Jesus.
Como disse Albert Schweitzer, Jesus pôs a pedra da história para rolar, mas por fim, foi esmagado por ela.

Amém.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Jesus salva! Mas de quê? E para quê?



Por Donizete Vieira



Há grupos cristãos que sustentam a ideia da não existência 

de um mundo porvir. Para estes não existem nem  

“paraíso” e nem “inferno”. Ou seja, comungam a ideia de 

uma salvação essencialmente materialista, como 

na  visão vétero-testamentária por exemplo. Para outros, a 

salvação representa a redenção de almas 

individuais no além, o que acontecerá por ocasião do 

apocalipse ou da morte individual do crente. Outros 

ainda,  advogam que a salvação se dá em termos holísticos. 

E assim por diante! 

Na soteriologia, é elementar a compreensão dos diferentes 


modelos de salvação adotada pela igreja. Por 

exemplo, em dado momento da história cristã, a salvação 

era projetada para o âmbito da objetividade e da 

prática, (sou salvo por “fazer”, por “ser”) em outros para a 

subjetividade e abstração. (por “crer” por 

“assentimento”) Durante a maior parte do tempo a salvação 

esteve ligada ao campo físico e tangível, em 

outros a salvação é sempre associada à esfera espiritual, 

metafísica. (como crê a tradição protestante por 

exemplo). Grupos cristãos advogam que a salvação é 

holística, (Teologias da libertação) abarca o indivíduo 

na sua plenitude, enquanto outros defendem a tricotomia 

na composição humana, e que a parte onde à 

salvação é levada ao efeito, é apenas a espiritual. (teologia 

clássica)

Salvação em Jesus concretizava-se em termos holísticos. 


Não era apenas metafísica, ou um convite à 

transcendência. O aspecto transcendente da salvação surgiu 

na voz, ou melhor na pena de Paulo. 

Paradoxalmente, Paulo não esboçou nenhuma “doutrina de 

inferno”. Isso ocorreu nas narrativas dos 

evangelhos, com palavras supostamente atribuídas a Jesus.

Este é um tema riquíssimo de nuances que vale muito a 


pena se aprofundar.

sábado, 31 de agosto de 2013

JESUS E O REINO



Quando comparado com a pregação geral de Jesus e com os resumos que dela fazem os Sinóticos, o primeiro discurso de Pedro depois da ressurreição de Jesus deixa perplexo o leitor de Atos. Em resumo, Pedro diz à multidão de ouvintes, no dia de Pentecostes: “...Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais...Este homem, entregue...vós o matastes, crucificando-o...A este Jesus Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas...Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (Atos 2,22-24.32.36)

Que aconteceu com o “evangelho”? Aquilo no qual Jesus centralizava toda a atenção de seus ouvintes, ou seja, o Reino e sua proximidade, está ausente aqui. Pelo motivo que seja, desapareceu da mensagem a palavra central da boa notícia de Jesus. Tudo agora gira em torno do triunfo e da dignidade do próprio Jesus. É claro que o costume e, mais ainda, uma sutil manipulação da teologia hipnotizam, por assim dizer, o leitor cristão, fazendo-o pensar que, como se trata da Igreja, o acento colocado no triunfo de Jesus ressuscitado tem que, forçosamente, equivaler ao cumprimento da boa notícia da próxima chegada do Reino.

Ao chegar a esse preciso ponto, E. Schillebeeckx, (teólogo católico) escreve: “Equivocou-se Jesus, anunciando a vinda iminente do Reino de Deus?...A convicção cristã de que Jesus não se havia equivocado em sua experiência do abba (Pai) constituiu um dos elementos que levaram os cristãos a identificar o Reino de Deus pregado por Jesus com o Crucificado ressuscitado: nele chegou o Reino de Deus. Tal era a grande intuição de fé que os primeiros cristãos articularam anunciando que Jesus havia ressuscitado dentro os mortos”.

A experiência da ressurreição  é fruto e não a causa da intuição, da fé. Parece-me que se faz uma terrível violência à história de Jesus e de todo o seu trabalho anunciador do Reino, ao supor que as testemunhas dessa história veem, depois da ressurreição, o Reino como realizado.  O único motivo para crer nela (na ressurreição), uma vez que ainda se trate de crer, é – no fundo – a identificação com a luta histórica de Jesus pelo Reino, ou seja, opção pelos pobres. Mas, precisamente nos discursos de Pedro, esse período da vida de Jesus desapareceu.

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Juan Luis Secundo. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré. Dos sinóticos
a Paulo. Ed Paulus

domingo, 18 de agosto de 2013

"Verdades invisíveis" (o caso da maça, dos três reis magos e da Trindade)





Coisas que a Bíblia não diz explicitamente foram ditas explicitamente ao sabor da imaginação e da curiosidade dos teólogos. O primeiro caso: a maça como fruto proibido. A Bíblia diz que Adão e Eva comeram do fruto proibido da árvore  do conhecimento do bem e do mal mas não diz qual era esse fruto. Os judeus que escreveram o Talmud fizeram várias suposições: um figo, uma uva ou até o trigo. Um antigo texto judaico sugere que o fruto seria o tamarindo. Pensadores mulçumanos afirmaram que era uma  azeitona. Essa era uma questão erudita naqueles tempos!

 
Para os cristãos era importante saber qual o fruto já que os artistas precisavam saber como descrever a cena. Pinturas eram proibidas no judaísmo e no islamismo mas era fundamental no cristianismo. A igreja se dividiu por causa do fruto misterioso. O Ocidente de fala latina, optou pela uva, enquanto o Oriente de fala grega, optou pelo figo. Uma terceira via sugeriu que o fruto fosse uma maça (olha ela aí!) e foi logo aceita devido a um trocadilho: a palavra latina para “maça”, malum, também é a palavra para “mal”. A maça, nativa da Ásia, era também a fruta mais encontrada nos países não convertidos do norte da Europa. Havia também uma tradição que via na maça símbolo de conhecimento. Missionários cristãos, com a famosa habilidade de se apropriar de ideias e imagens pagãs, fizeram um inteligente uso dessa associação antiga em seus sermões.  Por volta do século XII, a maça foi firmemente estabelecida na imaginação cristã como o fruto que levou à queda.

 
Um segundo caso é dos “três reis magos”.  Somente o evangelho de Mateus cita-os mas não diz quem eram, quais seus nomes e nem diz que eram reis. Mas como a imagem desses magos se tornou importante no quadro geral do nascimento de Jesus, muito se especulou sobre isso. Afinal de contas, eles teriam sido os primeiros estrangeiros a adorar a Jesus. O grande teólogo egípcio Orígenes (sec III) disse que deviam ser três sábios, porque os presentes mencionados eram três. Em outras tradições os sábios são dois, quatro ou oito. Nas igrejas do Oriente dizia-se que haviam 12 deles e cada um conhecido pelo nome. Mas a noção de que eram três foi aceita no Ocidente por volta do século VI. A ideia de que eram reis foi sugerida pelo escritor romano Tertuliano, contemporâneo de Orígenes. O nome dos agora “Três reis Magos” aparece em um fragmento de um texto escrito por volta de 550. Diz: “Durante o reinado de Augusto, os magos lhe trouxeram(para Jesus) presentes e o veneravam. Os magos se chamavam Baltazar, Melchior e Gaspar”. Textos posteriores foram acrescentado detalhes aos Reis Magos, como o de que cada um deles era de uma raça diferente, um teor simbólico para demonstrar a autoridade do Messias sobre os gentios e judeus.  

 
Uma terceira questão é a “Trindade”. De onde vem a Trindade se em nenhum lugar da Bíblia se fala nela? Nem Jesus nem os apóstolos falaram de uma Trindade. Os primeiros cristãos eram judeus impregnados com a fé monoteísta: um só Deus e não “três”. Mas esses cristãos também criam que Jesus era o Messias e “o Filho de Deus” que havia morrido para livrá-los do pecado, o que implicava em dar a Jesus um certo “ar divino”. Isso foi um grande problema para os primeiros teólogos cristãos. A expressão “Filho de Deus” sugere que Jesus tinha sido criado por Deus, e assim, inferior ao Pai; como ele poderia então perdoar os pecados? Mas se ele fosse Deus ao lado do Pai, como ficava a crença no monoteísmo? E para complicar mais as coisas, havia o Espírito Santo, que era entendido como a força onipresente de Deus na terra.

 
Assim, a natureza de Cristo e do Espírito Santo foi objeto de muitos debates nos dois primeiros séculos da era cristã. Era preciso solucionar essa questão teológica, mas só no século IV, quando o imperador Constantino se  tornou cristão que o problema seria resolvido.  A questão tinha-se reduzido a dois pontos de vistas distintos, ambos apoiados em versículos bíblicos. A maioria dos bispos dizia que Cristo e o Espírito Santo sempre haviam existido junto com Deus-Pai, eram da mesma essência (homoousian) e que eles eram três pessoas numa Divindade. A outra crença minoritária defendida pelo teólogo de Alexandria Ário e também aceita por diversos cristãos, defendia que  apenas o Pai era Deus e de que Cristo era subserviente a ele e de que o Espírito Santo era subserviente a Cristo. Cristo seria semelhante em essência ao Pai(homoousion) e criado por ele.

 
Em 325, um concílio com 300 bispos foi convocado em Nicéia para resolver a questão.Ário compareceu mas foi rejeitado, e sua facção foi derrotado no voto. Os bispos então elaboraram uma relação de palavras que definiam os elementos essenciais da fé cristã. Esse documento, é o Credo Niceno, que ainda hoje é recitado nas igrejas:“Creio em um só Deus, pai todo-poderoso (...); e em um só senhor Jesus Cristo, filho unigênito de Deus (...)gerado, não feito, da mesma substância do Pai (...). Creio no Espírito Santo (...)que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado (...)”. A doutrina da Trindade se transformou na pedra de toque da ortodoxia cristã. Os arianos perderam a discussão e foram declarados hereges e perseguidos até sumirem.


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Referências:"Como Tudo Começou" - 
a história por trás do mundo atual. Ed Seleções

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Considerações sobre as cartas aos Tessalonicenses



A segunda carta aos Tessalonicenses foi escrito para contestar o ponto de vista que o “Dia do Senhor está próximo” (2:2):

“que não vos deixeis abalar, assim tão depressa, em vossas convicções, nem vos alermeis com alguma pretensa revelação do Espírito ou alguma instrução ou carta atribuída a nós e que desse a entender que o dia do Senhor já está chegando”

O autor da carte diz que o fim não seria logo, pois antes, deveria acontecer algumas coisas: A revolta geral contra Deus, o surgimento do anti-Cristo que tomará seu lugar no Templo judaico, declarando-se Deus, fazendo milagres e sinais. Só depois disso viria o Dia do Senhor.

Mas há uma divergência séria entre a primeira carta e a segunda, se ambas foram escritas por Paulo. A primeira carta aos  Tessalonicenses também foi escrita para tratar do fim dos tempos, na volta de Jesus. (1 Ts 4:13-18). Paulo escreveu essa carta porque os membros da congregação de Tessalônica tinham sido ensinados por ele que o fim era iminente; ia se dar logo, naqueles dias. A congregação ficou então perturbada pois vários de seus membros tinham morrido antes do retorno de Jesus. E agora? Perderiam eles a oportunidade de serem levados com Jesus? Então Paulo escreve para tranquiliza-los. Ensina que os mortos serão os primeiros a serem arrebatados no segundo advento de Jesus, pois todos ressuscitariam antes.

Paulo escreve (1 Ts 5.1-2) que o advento de Jesus será repentino e inesperado,  que produziria repentina destruição, por isso os tessalonicenses deveria estar preparados para não serem pegos de surpresa. Mas em 2 Tessalonicenses diz que o fim não será imediato pois haverá claros sinais para indicar que está próximo o fim; Sinais estes que ainda não tinham surgido. Na carta de 2 Ts Paulo escreve “vos dizia isto quando estava convosco” (2;5). Mas se Paulo já tinha dito estas coisas por que a congregação ficara preocupada com os que haviam morrido? Eles saberiam que o fim não era imediato, que teria vários eventos antes.

Então estamos diante de dois problemas: o tema central das duas cartas não batem; uma contradiz a outra. Solução? Existe uma ampla concordância que a primeira carta aos Tessalonicenses é autêntica de Paulo, mas não a segunda. Mas há também o problema das duas cartas serem muito parecidas tanto em estilo quanto em vocabulário.  Mas isso não prova que ambas foram escritas por Paulo, pois se alguém escreveu em nome dele, faria de tudo para imitar seu estilo e vocabulário.

Mas por que este autor desconhecido teria imitado a Paulo mas ter escrito o oposto do que ele escrevera antes, na primeira carta? Podemos imaginar algumas respostas para isso: uma mudança na situação da igreja; talvez o autor não tenha compreendido bem a primeira carta; isso já acontecera antes como podemos ler em Rm 3.8.


É possível também que as altas expectativas dos cristãos perto do fim do século I tenham levado um autor desconhecido nas igrejas de Paulo a escrever 2 Ts para acalmá-los um pouco, dizer que o fim chegaria sim, mas que não seria imediatamente. Ou esta é a solução, ou temos que admitir que Paulo contradisse a si mesmo na segunda carta; ou ainda, que ele mudou de ideia e estava enganado na primeira carta.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

"Uma só coisa é necessária"

Palavra da Liturgia – Lc 10, 38 a 42


            
Celebrar a vida cristã é acima de tudo acolher quem chega e quem precisa chegar; sentar-se à mesa e juntos repartirem o Pão Eucarístico. Acolher plenamente: com a matéria (pão) e com o espírito cristão (comunhão). Acolher com a alma e o coração.
            
A liturgia deste final de semana nos vem lembrar como é importante na vida comunitária as “Marias e Martas”.
            
A palavra relata a viagem de Jesus a uma aldeia: Betânia. Marta acolheu Jesus em sua casa, preparou todo o ambiente para melhor acolhê-lo, e o fez por amor. Quem acolhe encontra-se com Jesus e pratica na ação o amor concreto e não filosófico.
            
Se não fosse Marta, Maria não estaria aos pés de Jesus.

Mas acolher alguém é ir além das necessidades financeiras e materiais, a matéria é importante, porém não deve ser a principal, os sentimentos de carinho, de amizade, de amor, de admiração, de compromisso e fé ultrapassam a matéria e é o que justamente permanecem. Aqui não é uma questão de dizer o que é mais importante e sim essencial.

Maria acolheu Jesus com o coração, tornou-se amiga de Jesus, por isso Jesus gostava de Betânia, pois a amizade de Maria O cativou e ela cativada por Jesus sentava aos seus pés para conhecê-lo melhor. Muitas vezes erramos quando caímos no ativismo, quando tentamos resolver as coisas, só pelos caminhos humanos, quando deixamos de rezar, de ouvir o Mestre, saber qual sua vontade e o que Ele quer de nós. O ativismo é uma praga do novo século e que tem deixado muita gente na pobreza da matéria e do espírito. O acolhimento de Maria a Jesus é solidário, assim como deve ser solidária a nossa fé, comprometendo-nos e sofrendo junto com os mais sofridos.

Disse Jesus:

“Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto uma só coisa é necessária...”.

Vivemos numa sociedade agitada e complicada: empresas que exploram seus funcionários trabalhando em horários “malucos”, desrespeitando o domingo, a noite, assim como desrespeitam a vida humana, a família. A produção e o lucro estão acima de tudo e de todos.

O homem não foi feito para o trabalho, mas o trabalho foi feito para o homem.

As conseqüências estão aí: muita gente depressiva, pessoas doentes e escravas do consumismo. Famílias dilaceradas.

Maria nos lembra do tempo em que as pessoas tinham mais tempo para uma boa prosa, tempo de amizades, de diálogo na família e de atenção aos filhos. Tempo que a família se reunia para um diálogo, ir à igreja celebrar a gratidão de poder estar aos pés de Jesus.

Corremos, gastamos, consumimos, adquirimos e nunca estivemos tão pobres de tudo, tão insatisfeitos com tudo, tão solitários e tão autodestrutivos. Acolher é tomar a consciência de que a maioria das coisas que precisamos já temos, pois é dádiva, o restante é consequência. O caminho para aproveitar as oportunidades da vida é o acolhimento.

Maria nos ensina que devemos estar à espera de tudo que vier a nós, sem desejarmos o que não temos. Esta espera não deve ser um desejo e sim uma disponibilidade para acolher. Esta questão de procurar e desejar nos faz sempre reféns e escravos de desejos. A atitude de acolher é sempre um caminho mais exigente.  Porém sem a liberdade é impossível acolher a felicidade. A principal característica d’alma educada é saber acolher.

Optar por Deus e pelas coisas essenciais da vida: amizade, amor, respeito, família, trabalho digno, solidariedade é optar pelo que permanece. O mundo precisa encontrar o equilíbrio entre a ação e a oração, entre a matéria e a espiritualidade, entre o que passa e o que permanece, entre o desejo e a necessidade, entre o que o importa e o que é essencial. Betânia é o lugar ideal para aprendermos isso. Em Betânia aprendemos que uma só coisa é necessária, portanto os que levam a vida de forma simples é que conseguem compreender o que aconteceu em Betânia. A minha vida precisa aprender a ser hospitaleira. Que adianta estruturas se em meu coração não há espaço para o outro e para Deus?

O acolhimento é o cartão de visita da comunidade. As palavras passam, mas um ato de amor e atenção ao próximo é o que fica, “o que lhe não será tirado”.

Que nosso coração seja Betânia, uma casa de acolhimento para o outro e para Deus.


Gilberto Ângelo Begiato

gilberto@comunidadebompastor.com.b

Jesus, o judeu




A questão da judaicidade de Jesus ainda não foi bem percebida pela teologia dogmática cristã. O fato de Jesus ter sido judeu e não cristão é uma verdade que incomoda os pensadores cristãos. Jesus deu total adesão à Lei judaica, inclusive a lei cultual.(Mc 1.44; Mt 8,64; Lc 5.14). Após curar um leproso, ele lhe ordenou que se apresentasse ao sacerdote para ser examinado e, quando declarado "purificado", fizesse os ritos de sacrifícios prescritos em levíticos 14.1-7. Ao sacerdote era dado o monopólio do tratamento da lepra, inclusive, fato confirmado nos Manuscritos do Mar Morto.

O máximo que os teólogos cristãos pensaram, foi que Jesus era judeu antes de morrer; depois que ressuscitou, ressuscitou cristão...uma tese que convenhamos, é ridícula.

Validando os apócrifos





A origem dos livros apócrifos nos remete a segunda metade do IV século, quando um Bispo católico por nome Atanásio, seguindo ordens superiores, também talvez em função das resoluções do concílio de Nicéia em 325, destruiu inúmeros manuscritos, que no parecer dos membros desse concílio, eram fantasiosos e deturpavam as bases da doutrina cristã nascente.

Contudo, existe um dado importante a frisar; um grupo importante de eruditos, cientes da importância desses escritos, optaram por não destruí-los. Alguns desses, mais zelosos, resolveram guardar os manuscritos em potes de argila e enterraram, ou colocaram em cavernas nas regiões montanhosas do Mar Morto. Só vindo a serem descobertos em 1947.

Esta descoberta, para a ortodoxia, serve para atestar, a fidelidade de textos bíblicos considerados canônicos. Por outro lado, serve também para revelar, (e endossar que na história) havia grupos claramente insatisfeitos com a forma ou critérios adotados na formação final do Cânon das escrituras.

Abrindo um parêntese, ainda que a ortodoxia não aceite, ou faça vista grossa, não existe nenhuma doutrina do cristianismo que tenha surgido do nada. Epistemologicamente veremos que cada pensamento cristão surgiu e foi articulado através de conflitos, tensões e controvérsias.

O juiz que determinou quem estava certo e errado, na deliberação final do Canon, segunda a ortodoxia foi o Espírito Santo. (visão fideísta). Contudo essa ideia não resiste a nenhuma crítica. Muito pelo contrário, revela sua fragilidade exatamente por recorrer a tal argumento.

Fica então a pergunta: Não seria o apocalipse de João muito mais fantasioso do que a maioria dos apócrifos?

Quais foram os critérios para a excomunhão e desqualificação dos ensinos de Celso, pelágio, ário e tantos outros que não eram de maneira nenhuma alienados intelectuais? E ao seus estilos, também fizeram apologia às suas convicções? 

Será que não são os mesmos critérios adotados atualmente para a classificação de alguns segmentos como sendo heréticos? Ou seja, chegando ao veredicto através de axiomas? Sem uma epistemologia confiável?

Donizete

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quem é o Salvador?




Catedral de Berlim



Por José Lima.


Quem é mesmo o salvador?
Ao longo da história, as igrejas institucionais patentearam a salvação.
"Salvo" é preciso batizar e participar dos 7 sacramentos. (sei que nem todos os católicos creem assim, estou apenas falando da confissão de fé da instituição)
A Igreja evangélica é diferente?
Na pregação diz que Jesus salva. Na prática muitos líderes pregam para a pessoa ser salva precisa "aceitar" Jesus, batizar, tomar ceia, dar dízimos, caso contrário, o homem também não será salvo...(da mesma forma que os católicos, nem todos os líderes e cristãos protestantes pensam iguais, há exceções).
Católicos e Evangélicos tem discursos diferentes quanto a forma da salvação, mas, a essência é a mesma! 
Jesus fica em segundo plano, as instituições ficam em primeiro!
Na óptica Católica e Evangélica, serão salvos, somente quem estiver dentro da instituição.
Na pregação Jesus é o salvador...
Na prática quem salva mesmo são as instituições...
(mais uma vez ressalto salvo as exceções)







quarta-feira, 19 de junho de 2013

Efeito colateral dos dogmas



Donizete Vieira



Até o século XIX a ideia de que as doutrinas cristãs haviam passado por processos de desenvolvimento soava como heresia em ouvidos ortodoxos. Porém esse pensamento veio a ser referência na altíssima atividade teológica daquele século.

Alguns defendiam a tese de que a evolução teológica não era nada mais do que um desenvolvimento previsto e que já estava implícito na mensagem original.

Entretanto, Adolph Von Harnack e outros teólogos de seu tempo, viam na história dos dogmas da igreja o abandono progressivo da mensagem original de Jesus, que não era acerca de Jesus. Segundo Harnack, o que Jesus pregou foi a paternidade de Deus, a fraternidade universal, o valor infinito da alma humana e o mandamento do amor. Foi depois, por um processo que levou anos, que Jesus veio a ser o centro e a essência da sua mensagem foi perdida. Os dogmas estabelecidos não alinharam Jesus à sua mensagem.

Outro crítico da dogmatização foi Albrecht Ritschl. Esse influente teólogo do século XIX afirmou que a religião, mais particularmente o cristianismo, não é uma questão de especulação metafísica, nem de sentimento subjetivo, mas de vida prática.

Segundo ele o pensamento transcendente a nossa esfera gera um comportamento demasiadamente frio, e não obriga a quem segue esse caminho a um compromisso com o outro. Individualmente, todo esforço pessoal visa o enlevo espiritual próprio. No aspecto coletivo, primariamente preocupa-se com a alma da pessoa. Toda a atenção é voltada para essa dimensão. Esse misticismo típico em ambientes da igreja, cria pessoas individualistas com sua atenção voltada para a subjetividade em detrimento à atenção às carências humanas reais e imediatas.

Não há como discordar desses dois pesos pesados da teologia. Pois o centro dos ensinamentos de Jesus foi o Reino de Deus e a ética do Reino, que é a organização da humanidade mediante a ações inspiradas no amor.


sábado, 15 de junho de 2013

Amor "incondicional"?



Por Donizete Veira



Quem disse: Se alguém disser: amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso... E nós temos dele este preceito: que quem ama a Deus ame também a seu irmão? João, o apóstolo.

Mas quem odeia os nicolaítas? Quem tem sede de vingança e quer atirar Jezabel num leito de doença e fazer seus filhos morrer de peste? Quem não é capaz de se contentar apenas com fantasias sanguinárias? O mesmo Apóstolo João.

Jung explica!

Esta alteração de humor ou irascibilidade, não revela necessariamente um psicopata desequilibrado, mas sim um indivíduo religiosamente apaixonado, que, apesar de estar consciente da incomensurabilidade de Deus, pode afirmar que quem ama a Deus e seus semelhantes pode receber a "gnose", mas que, após receber este conhecimento de Deus, viu, quão temível e violento é o seu caráter; por esse motivo sentiu como o seu evangelho do amor era unilateral, e com a convicção de que Deus pode ser amado mas deve ser temido, escreveu o apocalipse, completando assim o primeiro com um evangelho do temor.

Esta natureza paradoxal do homem, que o torna capaz de amar e desejar o mais cruel castigo ao desobediente fornece as bases para sua concepção acerca de Deus, que o divide em seus contrários e o deixa entregue a um conflito aparentemente sem solução.

Chegamos ao ponto de concluir que as mesmas restrições que permeia as relações humanas no tocante ao amor é encontrado em Javé. Logo, amor incondicional não pode ser encontrado nEle.

Audodidatismo teológico





Por Donizete Vieira


Autodidatismo, uma saída para a teologia brasileira.


Não podemos ignorar que existem igrejas que prezam pela qualidade tanto espiritual como intelectual dos seus líderes.

Porém esta formação, na maioria absoluta dos casos é feita através de seminários ou faculdades indicadas pelo próprio ministério onde ele está filiado.

Este modelo cria obreiros com cabresto, sem ação, pensamento ou visão autônoma.
E acontece em qualquer modelo de governo eclesiástico. Seja ele congregacional, episcopal ou presbiteriano. Nenhum deles foge dessa regra.

Alguns líderes para se verem livres destas rédeas fundaram suas próprias comunidades, contudo estruturada com uma liderança ultra-centralizadora, o que faz descambar de vez! Pois estes menosprezam qualquer órgão de ensino teológico, tendo em suas alas apenas sessões de treinamento para que os obreiros sigam a risca as orientações de seu líder máximo.

É bom também lembrar que em todos esses casos, o objeto de estudo são as cosmovisões dos pioneiros das suas respectivas tradições, de modo que o estudante parte para a Bíblia apenas para ratificar os pressupostos que a priori já foi estabelecido como regra de fé e prática daquela facção.

Encontrar na atualidade um seminário inter denominacional, totalmente independente, com autonomia de cosmovisão, sem "rabo preso" com qualquer tradição ou movimento, pelo menos a nível de Brasil, eu diria que, é como encontrar uma agulha no palheiro.

Até mesmo os institutos de apologética seguem esta mesma lógica!

Por isso que no meu ponto de vista, em termos de teologia, o AUTODIDATA está alguns passos a frente dos que não são!





domingo, 2 de junho de 2013

Rumo a uma comunidade alternativa.



Por Donizete Vieira



É interessante analisar as causas e efeitos das mudanças que ocorreram sistematicamente na história da igreja.

Por exemplo: O liberalismo teológico foi um meio de salvação da teologia no contexto do iluminismo. Menos de um século depois já não servia mais para uma igreja que ainda não havia rompido radicalmente com os princípios das “solas” dos reformadores.

Seu retorno ao velho paradigma associado ao movimento carismático emergente produziu um enrijecimento ainda maior da sua doutrina. O pentecostalismo fundamentalista tem ali a sua gênese.

O pentecostalismo por sua vez pareceu ser a salvação da igreja, pois teve um crescimento vertiginoso. Entretanto isso é visto apenas pela ótica do pragmatismo.

Mas e agora, com a iminente derrocada desse movimento, que teve sua raiz ferida com o advento do neo-pentecostalismo, que rumo tomará a igreja?

Com a inserção cada vez maior de seus jovens em ambientes acadêmicos, gerando neles uma visão mais crítica, qual serão as respostas apresentadas pela liderança eclesial?

Esperemos pra ver! Mas pode ser que a tão sonhada mudança (se é que irão ocorrer de fato) no Vaticano provoque algumas também nos meios protestantes.

Enquanto isso vou continuar sonhando em ver estabelecido um modelo alternativo de comunidade, livre desse pragmatismo utilitarista selvagem que vê no capital seu principal indicador de sucesso.

Com uma releitura da Bíblia divorciada desses elementos místicos que insistem em se opor à lógica e a inteligência.

Com sua teologia contextualizada, dialogando afinadamente com outras tradições, mas sobretudo com as demandas humanas, tendo suas bases estabelecidas em baixo. Logicamente.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Apocalíptica




Por Eduardo Medeiros



Os tempos da Guerra Fria foram tempos apocalípticos. O mundo vivia numa tensão diária por conta da polarização de forças políticas e econômicas entre o Império Americano e o Império Soviético. Por mais de uma vez, o mundo esteve a beira de uma guerra atômica, como no episódio da crise dos mísseis em Cuba, uma guerra que se fosse deflagrada, não haveria vencedores, só perdedores, pela imensa capacidade dos oponentes se autodestruírem, levando consigo, o mundo todo.


Existe um gênero literário forjado no antigo Israel - a Apocalíptica -  que é fruto desse estado de tensão destruidora, que sempre foi uma sombra na história do povo bíblico. A grande maioria dos livros apocalípticos foram escritos no chamado "período intertestamentário", que compreende mais ou menos os anos de 250 aC a 100 dC. Tais livros não podem ser bem compreendidos fora das circunstâncias religiosas, políticas e econômicas da época; tempos em que a esperança e temores do povo de Israel estavam à flor da pele. Segundo D.S. Russell, "A literatura apocalíptica é essencialmente literatura de um povo que não via nenhuma esperança para sua nação simplesmente em termos de política ou no plano da história"(p 35).

Foi um movimento literário e histórico judaico cujo temática era  a iminente convulsão social e terrena em grandes catástrofe cósmica com o ápice do curso predeterminado da história; nesse contexto, os "anjos as nações" desempenham um grande papel nesse drama cósmico.  O período de tempo mencionado, viu a enorme expansão da cultura grega que tinha começado com Alexandre Magno (336-323 aC) e continuado com seus sucessores; a apocalíptica judaica é em grande parte, um protesto contra muito dos valores que o helenismo representava.

As características principais dos escritores apocalípticos demonstram que eles se viam cercados por "outro mundo", cósmico, além do mundo presente, onde Deus morava na companhia de seus santos anjos. Deus era o "o Altíssimo", "o Antigo dos Dias", "o Senhor dos Espíritos", "o Transcendente" que habita o reino da luz; esse Deus controlava os destinos dos homens e das nações, que no fim julgaria todas as criaturas vivas e levaria todas as coisas à consumação. Mas havia um jeito de fazer uma ponte entre o mundo material e esse "outro mundo", ponte essa que levavam não somente à presença de Deus mas também aos segredos divinos. Duas das mais importantes "pontes" eram as visões em sonhos com suas viagens ao outro mundo e a mediação dos anjos.

Os escritores deixavam transparecer sua grande admiração por terem se tornado recebedores dessas revelações, de terem adentrado aos mistérios de Deus. A mediação de anjos é importante no gênero apocalíptico. Os anjos faziam uma dessas pontes entre o "lá e o cá". Na história do AT sempre podemos ver aparições angelicais, mas nos escritos posteriores a ele, "realçou-se enormemente este papel, sem dúvida refletindo influência de crenças persas e ilustrando ainda mais a evolução do pensamento dualista dentro do judaísmo em seu conjunto" (Russel p 143).

Essa ideia dos "dois mundos" pode também ser entendida como "duas dimensões" de tempo e espaço. J.J Collins definiu "apocalipse" como uma "forma de literatura revelatória que desvela um realidade transcendente que se deve entender em duas dimensões: é temporal (visando à salvação escatológica) e espacial (envolvendo outro mundo sobrenatural)" (Russel, p 144). Assim, no livro de Daniel, o Reino Celeste transcendente abala, na forma de de grande pedra cortada "por nenhuma mão" de uma montanha, todos estes reinos (reinos históricos) e os leva ao fim. (Dn 2.44); isso quer dizer que os valores transcendentais não estão escondidos em algum canto celeste, mas tem incidência visível na realidade desta vida, em suas políticas de tirania e opressão. No mesmo livro de Daniel capítulo 10, os "príncipes", que se referem aos anjos da guarda da Pérsia e da Grécia se confrontam com Gabriel, o anjo intercessor de Israel, companheiro do "príncipe" Miguel: "As batalhas combatidas por eles 'lá em cima' refletem e são determinantes das batalhas combatidas pelos homens e pelas nações 'daqui embaixo' ! (Russel, p 144).

Concluindo, a literatura apocalíptica nasce da crise; nasce da situação histórica de Israel oprimido pela cultura grega e depois, no apocalipse cristão de João, na situação de perseguição por Roma. A visão de mundo da época, constituído pelas duas dimensões e pelo dualismo, vê no cenário terrestre o teatro de operações dos guerreiros celestes. Era exatamente esse clima apocalíptico que imperava nos tempos de Jesus, quando a "esperança de redenção do reino de Israel" estava na ordem do dia. Jesus de Nazaré, com certeza, não deixou de ser influenciado pela apocalíptica do seu tempo; ele também se via no plano terrestre participando de um drama maior, cósmico; sua chegada era a chegada do Reino Transcendente de Deus ao nível do imanente terrestre; uma das frases atribuídas a ele deixa essa perspectiva bem clara: "Eu via Satã caindo do céu" - os tronos da maldade e da opressão estavam caindo diante do Messias de Javé. Mas como sabemos, hoje, de uma ampla perspectiva histórica, parece que Satã caiu do seu trono mas depois voltou a tomá-lo de volta. A tão esperada redenção de Israel não veio pelo Messias Nazareno, que morreu perplexo pelo fracasso do seu intento; "Deus meu, por que me desamparaste", o clamor na cruz, lamenta o abandono de Deus ao "Projeto do Reino". Outra vez, precisava-se da Esperança; os seguidores do Nazareno postergaram o Reino para um futuro ainda incerto. Mas, nas palavras de Albert Schweitzer, Jesus colocara a grande roda da história para rodar, mas por fim, foi esmagado por ela.