quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Caminhadas a altares




A vida de Abraão pode ser caracterizada por duas coisas que o patriarca costumava fazer: (i) suas peregrinações em busca de uma terra para se fixar com os seus animais; e (ii) o erguimento de altares para ir renovando/aprofundando o relacionamento que teve com Deus. Cada lugar onde viveu tem uma significação espiritual demonstrando para nós uma progressiva caminhada de elevação até alcançar o nível mais alto em Gênesis 22, quando o Senhor resolve prová-lo pedindo que levasse o filho Isaque para ser sacrificado (claro que um anjo impediu-o de consumar a oferta).

Tão logo chegou a Canaã, Abraão levantou um altar a Deus em Siquém, junto ao carvalho (ou terebinto) de Moré. Naquele tempo, as grandes árvores eram usadas como locais de culto religioso pelos povos do antigo Oriente Próximo (e em outras culturas pelo mundo também). E, apesar desse costume ser considerado "pagão", Abraão não estava procurando por outras divindades, mas apenas pelo Senhor, tendo recebido ali a confirmação a respeito da futura posse da terra à sua descendência (Gn 12:6-7).

A respeito dos terebintos/carvalhos, vale transcrever aqui um interessante comentário feito pelo rabino Arieh Kaplan (1934-1983) traduzido por Adolpho Wasserman: 

"(...) O terebinto da Torá é uma grande árvore (Pistácia atlântica) da família da sumac, também relacionada ao pistácio. Também, algumas vezes, é identificada com o carvalho. O terebinto podia viver por milhares de anos, chegando a alcançar, muitas vezes, o diâmetro de 6 m. O Terebinto de Moré poderia ter sido uma árvore particularmente grande e que serviria como marco na área (...)" - A Torá Viva - Os cinco livros de Moisés e as Haftarot. São Paulo: Maaynot, 2000, pág. 56.

Pouco nos é relatado na Bíblia sobre essa passagem de Abraão por Siquém e depois pelo local seguinte, entre as cidades de Betel e de Ai, onde outro altar foi edificado. Talvez o nome Betel (em hebraico Beth El), cujo significado em nossa língua seria "Casa de Deus", constitui a única pista que as Escrituras dão acerca dessa experiência sagrada. Ou seja, Abraão parece ter subido mais um degrau na sua intimidade relacional com o Senhor. Só que agora não mais debaixo de um carvalho, mas, sim, num monte (os povos antigos também faziam seus cultos religiosos nos altos das montanhas).

Vale ressaltar que, nas narrativas bíblicas sobre os velhos patriarcas hebreus anteriores a Moisés, inexiste a rígida observância de regras rituais na forma como ocorrerá nos livros seguintes da legislação mosaica. Abraão é mostrado como um homem comum que, ao escutar o chamado divino, deixa a casa paterna e sai a procura da Terra Prometida (Gn 12:1-6). Nesta busca é que ele vai aos poucos amadurecendo na fé e se santificando.

Entretanto, ocorreu que houve um período na vida de Abraão em que ele não ergueu altares ao Senhor. Ao deixar Betel e prosseguir até à região do deserto do Neguebe, no sul de Israel, o patriarca deparou-se com a triste realidade da fome. Deixando-se levar pela necessidade, ele atravessa então a fronteira de Canaã com o reino do Egito onde resolve se fixar.

Ora, o Egito, segundo podemos verificar pela sua geografia, tratava-se de um país próspero nos tempos bíblicos. O volumoso rio Nilo, tão extenso quanto o nosso Amazonas, era uma fonte permanente de água para a sua gente, proporcionando o abastecimento das casas, a irrigação das lavouras e a dessedentação dos animais, o que assegurava desenvolvimento econômico e atraía estrangeiros de inúmeros países. Ali, através da beleza de sua esposa Sara, a qual Abraão apresentou como sendo sua irmã, muitos benefícios foram concedidos pelo rei ao patriarca hebreu.

"Quando Abrão chegou ao Egito, viram os egípcios que Sarai era uma mulher muito bonita. Vendo-a, os homens da corte do faraó a elogiaram diante do faraó, e ela foi levada ao seu palácio." (Gn 12:14-15; NVI)

Só que não era esse o plano de Deus para a vida de Abraão! O Senhor havia lhe destinado uma terra cuja posse seria entregue à sua descendência. Esta deveria nascer de um casamento legítimo com Sara, a qual não poderia jamais pertencer a outro homem. E, mesmo que fosse o sujeito mais poderoso do mundo antigo, como eram os ricos faraós egípcios no segundo milênio antes de Cristo, a soberania divina encontra-se acima de todos os reis da Terra.

Ainda que nenhum altar tivesse sido erguido no Egito, Deus não esqueceu de seu servo. Por isso o Senhor castigou o governante egípcio que, ao saber por algum meio do matrimônio de Sara com Abraão, entendeu o motivo da repreensão divina e mandou que deportassem o casal com todos os bens adquiridos.

"Mas o Senhor puniu o faraó e sua corte com graves doenças, por causa de Sarai, mulher de Abrão. Por isso o faraó mandou chamar Abrão e disse: 'O que você fez comigo? Por que não me falou que ela era sua mulher? Por que disse que ela era sua irmã? Foi por isso que eu a tomei para ser minha mulher. Aí está a sua mulher. Tome-a e vá!'. A seguir o faraó deu ordens para que providenciassem o necessário para que Abrão partisse, com sua mulher e com tudo o que possuía." (Gn 12:17-20)

De volta à Terra Prometida, Abraão restabelece o altar que erguera no monte próximo a Betel. Ele retorna pelo mesmo caminho através do qual havia se afastado, atravessando novamente o deserto do Neguebe. Recorda-se do lugar onde, no princípio, havia armado a sua tenda e torna a invocar o nome do Senhor ali.

"Saiu, pois, Abrão do Egito e foi para o Neguebe, com sua mulher e com tudo o que possuía, e Ló foi com ele. Abrão tinha enriquecido muito, tanto em gado como em prata e ouro. Ele partiu do Neguebe em direção a Betel, indo de um lugar a outro, até que chegou ao lugar entre Betel e Ai onde já havia armado acampamento anteriormente e onde, pela primeira vez, tinha construído um altar. Ali Abrão invocou o nome do Senhor." (Gn 13:1-4) 

Meus amados, todos nós nos desviamos de Deus nos nossos caminhos. Muitas vezes as diversas necessidades vêm nos tirar do propósito original de vida que o Senhor um dia preparou para que nos realizássemos dentro da sua vontade soberana. Aí fazemos escolhas erradas, aceitamos propostas sedutores que parecem ser financeiramente mais vantajosas, deixamos a família em segundo plano, arriscamos/relaxamos a aliança do casamento e nos esquecemos de cuidar do lado espiritual. Até na condução de um ministério eclesiástico também podemos nos afastar do Senhor procurando atalhos a fim de lotar templos, alcançar fama, prestígio, contribuições financeiras e poder político, mas que nem sempre promovem a edificação das pessoas como Jesus ensinou a seus discípulos.

Seja qual foi o rumo errado que tomamos, Deus nos quer de volta à sua Canaã espiritual. Ele deseja que restauremos o relacionamento, reiniciando do mesmo ponto onde nos desviamos. E, certamente, seremos novamente acolhidos com o seu terno amor e as muitas misericórdias.

De volta à Terra Prometida, Abraão ainda vai edificar novos altares ao Senhor e experimentar uma intimidade relacional cada vez maior, o que caracterizará a celebração de uma futura aliança e importará na mudança de nomes do casal (de Abrão para Abraão e de Sarai para Sara), como podemos ler no capítulo 17. No tempo devido, o milagre acontece na vida daquela família e a esposa, mesmo já idosa e até então considerada estéril, gesta um filho do seu marido colocando na criança o nome de Isaque. 

Concluo esse texto, amados, lembrando da fidelidade do Senhor para conosco. Em Cristo, temos uma aliança eterna com Deus e jamais seremos abandonados. Por isso, devemos nos inspirar em Abraão, o "pai da fé", sendo certo que chegará a hora do cumprimento do propósito divino nas nossas vidas. Tudo conforme a vontade do nosso Pai Celestial e não a nossa! Pois, como a Bíblia e a experiência nos mostram, o Senhor tem sempre o melhor pro seu povo. Creia e não desista!

Tenham todos uma ótima quinta-feira com Jesus. 


OBS: A ilustração acima refere-se a uma obra do artista húngaro József Molnár (1821 - 1899). Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia, conforme consta em https://pt.wikipedia.org/wiki/Abra%C3%A3o#/media/File:Moln%C3%A1r_%C3%81brah%C3%A1m_kik%C3%B6lt%C3%B6z%C3%A9se_1850.jpg 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Nós e as fornalhas ardentes



"Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das suas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer". (Daniel 3:17-18; NVI)

O livro bíblico de Daniel fala da experiência de três rapazes israelitas que, vivendo num país estrangeiro hostil, mantiveram-se fieis a Deus mesmo diante dos desafios enfrentados. Hananias, Misael e Azarias, cujos nomes foram mudados para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego (Dn 1:7), guardaram a fé no Senhor, apesar da cruel sentença de morte proferida contra eles.

Segundo o texto, quem não adorasse a estátua de ouro feita por Nabucodonosor, rei da Babilônia, corria o risco de ser imediatamente lançado numa fornalha de fogo ardente (Dn 3:4-6). Tratava-se de um decreto que não respeitava a liberdade de crença dos súditos, agredindo frontalmente as culturas dos povos conquistados.

Para um judeu seguidor dos ensinamentos de Moisés representa um grave pecado encurvar-se em adoração diante de uma imagem de escultura prestando culto a outro deus (ler Dt 5:7-9). Pois, sendo Deus um Ser totalmente transcendente, tal concepção exclui qualquer representação idólatra da Divindade sob a forma de objetos animados, bem como toda adoração da ordem criada (Dt 4:15-19).

Curioso como que a ameaça de uma morte torturante nas chamas de uma fornalha não acovardou aqueles três jovens! Nem tão pouco acomodaram-se com os elevados cargos que tinham no reino (Dn 2:49). Porém, continuaram firmes no propósito de não pecarem contra o Senhor.

Algo que acho bem interessante nessa passagem seria o fato dos três jovens desconhecerem se escapariam ou não do castigo. Eles responderam ao rei de cabeça erguida e se entregaram por completo à vontade divina. Se o Senhor desejasse, iria livrá-los da fornalha. Do contrário, morreriam queimados mas não adorariam a tal imagem.

Ora, fico pensando se realmente estamos dispostos a ser fieis a Deus mesmo sem sabermos se será da vontade do Senhor tirar-nos de uma complicada situação que surge em nossas vidas por recusarmos agradar ao mundo abstendo-nos do que é mal?!

Será que só iremos prestar a devida obediência a Deus apenas se estivermos imunes contra os acontecimentos desfavoráveis?!

Você estaria disposto a arriscar o seu emprego, todo o conforto que tem e até mesmo os bens que possui por amor ao Senhor?!

Que cada qual procure responder para si mesmo, mas o certo é que, na atualidade, a Igreja tem muitas vezes negado a fé por muito menos. E, embora vivendo num país onde há liberdade religiosa constitucionalmente garantida, não raras vezes os cristãos permitem corromper os seus valores a troco de benefícios pessoais. Deixamos de servir a Deus por oportunismo, vantagens imediatas, facilidades, comodismo, medo de praticar a justiça, constrangimento em desagradar alguém, avareza, apetite carnal compulsivo e indiferença pela dor alheia. Por nossa causa, o nome santo de Jesus é envergonhado na sociedade onde vivemos, sendo conhecida de todos a hipocrisia dos líderes que dizem seguir o Evangelho.

Quer vivamos em ambientes livres ou onde haja perseguição religiosa, precisamos ser fieis ao Senhor e preservarmos a essência dos elevados valores éticos, os quais se mostram a nós no modelo do varão perfeito que temos em Cristo Jesus. Toda a Lei de Deus se resume na prática do amor de modo que, tendo o nosso estre dado a sua vida por nós, devemos oferecer a nossa pelos irmãos (1Jo 3:16). E aí o verdadeiro amor manifesta-se por atitudes sinceras com coragem para dizer não às coisas ruins do mundo que seriam hoje os ídolos modernos.

Termino esse artigo desejando que os exemplos de Hananias, Misael e Azarias sirvam de inspiração para os cristãos da atualidade. Que possamos aprender a servir a Deus mesmo diante dos desafios e independentemente de alcançarmos ou não qualquer livramento imediato das situações, pois nada poderá nos afastar do amor do Senhor. Por onde venhamos a andar, a Divina Presença irá nos acompanhar.

Uma ótima tarde a todos!


domingo, 27 de setembro de 2015

Lembrando das palavras que um dia escrevi...

Durante a década de 90, enquanto exercia Fernando Henrique Cardoso o seu primeiro mandato como Presidente, a opinião pública ficou meio que surpresa quando lhe atribuíram a frase "esqueçam tudo eu escrevi", supostamente justificando a diferença entre o discurso que ele fizera no passado (como um crítico sociólogo autor de livros) e os atos de seu governo. Só que não demorou muito para que a suposta afirmação fosse colocada em dúvida como se lê neste trecho da entrevista concedida ao jornal O GLOBO do dia 24/08/1997:

"Esta frase que eu teria dito: 'Esqueçam tudo que eu escrevi', eu nunca disse a ninguém. Já perguntei um milhão de vezes: a quem eu disse, onde foi que eu disse, quando? Essa é uma frase montada para me embaraçar. Acontece exatamente o contrário: o que eu escrevi dentro das condições da época, tem bastante validade. Houve uma evolução, em alguns pontos, mas a maneira básica de encarar o mundo continua a mesma."

Verdade seja dita que a imagem de FHC como um sociólogo de esquerda perseguido pelo governo militar foi substituída pela figura presidencial. O público já não se baseou mais pela referência que uma parcela culta da sociedade tinha a seu respeito antes de ele ser nomeado ministro do Itamar Franco e se tornar o "pai" do Plano Real (1994). E acho que os jovens eleitores mais alienados, os quais estavam na minha faixa etária de seus 20 anos, simplesmente ignoravam o tempo em que S. Exa. ficou exilado na França...

Mas sem entrar no mérito dessa questão do século passado, será possível esquecermos as coisas que algum dia pensamos depois de tê-las confirmado por meio de palavras pronunciadas ou escritas?

Até que ponto as ideias construídas no passado não estão contribuindo para o nosso presente?

Sempre que releio um artigo escrito por mim anos atrás, encontro opiniões e conclusões que hoje já não tenho mais. Ou que já não encaro da mesma maneira. Noto apenas que já não sou mais o mesmo a nadar no rio de outrora, pois passo a andar por aí como uma "metamorfose ambulante" e me recusando a ficar petrificado dentro de um conceito fechado.

Tal flexibilidade tenho não somente em relação à Política, mas também ao conhecimento da História, do Direito e da Teologia. Pois é o que sinto quanto a um texto meu publicado no portal jurídico Jus Navegandi , cujo título era "Aspectos interessantes sobre o julgamento do apóstolo Paulo". Na época recebi muitos elogios e diversas pessoas enviaram e-mail através do site parabenizando-me pelo artigo. E houve até quem desejasse confirmar qual era a minha orientação religiosa dentro do cristianismo (se católico ou evangélico).

Fazendo cinco anos depois uma releitura, mantenho uma boa parte da análise feita por mim, mas confesso que, se fosse escrever novamente o artigo na atualidade, trataria de mudar algumas coisinhas principalmente quanto à historicidade dos textos sagrados, conforme a versão estabelecida pela ortodoxia cristã. Por exemplo, hoje duvido da atribuição de autoria feita pela Igreja Católica (e seguida pela maioria dos teólogos protestantes) quanto aos evangelhos e ao livro de Atos dos Apóstolos, os quais passei a considerar como obras anônimas. Outra mudança de concepção diz respeito à datação de tais obras que, no meu ponto de vista, não foram elaboradas antes das supostas perseguições de Nero, mas, sim, no século II.

De qualquer modo, por se tratarem de detalhes de pequena importância, não desisto de divulgar o artigo reproduzindo-o integralmente. Por isso, compartilho com vocês o mesmo conteúdo do texto publicado em janeiro de 2010, modificando apenas uns erros de português encontrados, mais precisamente quanto à colocação dos parágrafos:

Aspectos interessantes sobre o julgamento do apóstolo Paulo





O livro de Atos dos Apóstolos, o quinto do Novo Testamento da Bíblia, considerado também uma continuação do Evangelho segundo Lucas, contém preciosas informações não apenas de interesse teológico, despertando a atenção de historiadores e até mesmo de estudiosos do Direito. A empolgante narrativa de 28 capítulos começa na região de Jerusalém, com uma breve conversa entre Jesus e os apóstolos, alguns instantes antes de sua ascensão aos céus, e termina na cidade de Roma, com o apóstolo Paulo cumprindo a sua prisão domiciliar numa casa por ele alugada enquanto aguardava em custódia o julgamento de seu caso pelo imperador romano.

O apóstolo Paulo, sem dúvida, deu uma grande contribuição à expansão da fé cristã no século I da era comum. Depois de ter sido um implacável perseguidor da Igreja, Paulo converteu-se ao cristianismo e começou a pregar o Evangelho por diversas regiões da parte oriental do Mar Mediterrâneo, empreendendo três viagens missionárias que incluíram territórios atuais de Síria, Chipre, Turquia e Grécia.

Contudo, o ex-perseguidor da Igreja tornou-se perseguido. Em muitas das cidades nas quais Paulo exerceu o seu ministério apostólico, ele veio a sofrer uma forte oposição tanto de judeus quanto de pagãos, vindo a ser injustamente preso e violentado sem que houvesse qualquer condenação criminal contra ele. Na cidade macedônica de Filipos, Paulo chegou a demonstrar um razoável conhecimento a respeito dos direitos que tinha como cidadão romano quando as autoridades locais mandaram libertá-lo de sua prisão ilegal.

É importante lembrar que, nos tempos de Paulo, nem todos eram iguais perante as leis de Roma. Uns eram escravos e tratados como mercadorias. Outros eram meros estrangeiros para os romanos, embora vivessem dentro da circunscrição do Império pagando os seus pesados impostos. E existiam ainda aqueles que, por motivo de nascimento, ou de aquisição mediante algum pagamento ao governo, tornavam-se cidadãos romanos e que, portanto, passavam a ter alguns direitos naquela sociedade. Pois Roma era a cidade que governava o mundo no século I e, deste modo, quem tivesse a cidadania romana teria direitos protegidos pelas leis, entre os quais o de receber um julgamento justo, caso fosse feita alguma acusação.

Sendo assim, mesmo naquela época, uma autoridade não poderia jamais prender uma pessoa que fosse cidadão romano sem que houvesse um justo motivo. E muito menos castigar com açoites, dando um tratamento desumano, conforme tinha ocorrido com Paulo e Silas na cidade de Filipos. Logo, Paulo teve que ser libertado e ainda recebeu desculpas das autoridades locais pelo ocorrido.

Contudo, após concluir a sua terceira viagem missionária e retornar mais uma vez para Jerusalém, Paulo veio a enfrentar um processo criminal, o que desperta até hoje o interesse de muitos pesquisadores. Nesta ocasião, o ministério apostólico de Paulo já tinha muitos colaboradores. Lucas diz que, desta vez, quando o apóstolo retornou a Jerusalém, acompanharam-no vários discípulos oriundos de lugares anteriormente evangelizados na primeira e na segunda missão evangelística.

Ao chegar na cidade, Paulo é orientado por Tiago a submeter-se aos costumes dos judeus para evitar conflitos, pois alguns de seus compatriotas tinham espalhado boatos de que o apóstolo estaria negando a Moisés e ensinando os judeus a não circuncidarem mais os seus filhos. Entretanto, a atitude praticada por Paulo, no sentido de externar aos judeus a observância das tradições de seu povo, não foi capaz de evitar a sua prisão. E, justamente quando ele se encontrava no templo judaico, o apóstolo veio a ser repentinamente acusado por alguns de seus compatriotas por ter "profanado" aquele local introduzindo gentios ali, pelo que passaram a espancá-lo e toda cidade ficou tumultuada, de modo que o comandante as forças romanas em Jerusalém precisou intervir para fazer cessar a confusão. Paulo, então, escapou do linchamento, mas ficou detido.

Pouco depois de sua prisão, Cláudio Lísias, o comandante da fortaleza de Jerusalém, tomou a providência de enviar Paulo para o governador da província da Judeia, na cidade de Cesareia, a fim de zelar pela segurança do apóstolo por ser ele um cidadão romano. Lucas, em sua narrativa, chega a transcrever o teor da correspondência que comunicava a sua transferência:

"Cláudio Lísias ao excelentíssimo governador Félix, saúde. Este homem foi preso pelos judeus e estava prestes a ser morto por eles, quando eu, sobrevindo com a guarda, o livrei, por saber que ele era romano. Querendo certificar-me do motivo por que o acusavam, fi-lo descer ao Sinédrio deles; verifiquei ser ele acusado de coisas referentes à lei que os rege, nada, porém, que justificasse morte ou mesmo prisão. Sendo eu informado de que ia haver uma cilada contra o homem, tratei de enviá-lo a ti, sem demora, intimando também os acusadores a irem dizer, na tua presença, o que há contra ele." (ver Atos 23:26-30)

Nos primeiros momentos, a sua prisão havia ocorrido por causa de um tumulto na cidade de Jerusalém. Porém, ao chegar em Cesareia, Paulo passou a ser efetivamente processado pelo sumo sacerdote judeu que pretendia matá-lo como havia sido feito anteriormente com Jesus e com Estevão.
Nesta época, a sede do governo romano na região da Judeia não estava mais situado em Jerusalém e sim em Cesareia. Contudo, o Sinédrio ainda se reunia em Jerusalém onde também havia um comando das forças romanas e, ao que parece, seria uma unidade subordinada ao governador daquela província romana.

Para o comandante das forças romanas em Jerusalém seria mais tranquilo livrar-se de Paulo, mandando-o para junto do governador numa outra cidade, do que suportar toda aquela pressão dos judeus querendo assassinar um prisioneiro que portava a cobiçada cidadania romana. Mais uma vez, tal como no incidente de Filipos, Paulo havia prevalecido de sua cidadania romana, a qual iria lhe assegurar o direito a um julgamento justo, conforme as leis da época. Pois, se Paulo fosse apenas um judeu, provavelmente teria sofrido injustos açoites e teria sido entregue nas mãos dos seus compatriotas para ser julgado e condenado pelo Sinédrio por se tratar de uma questão meramente religiosa. E, caso viesse a ser linchado publicamente como foi Estevão, as autoridades romanas nem teriam com o que se preocupar, se não fosse ele um cidadão romano.

Ao ser conduzido preventivamente preso para a cidade de Cesareia, Paulo ficou distante do foco de tensão, de modo que o seu julgamento ali receberia menos pressões por parte dos judeus do que se fosse realizada uma audiência em Jerusalém.

Interessante perceber que todos esses acontecimentos no final colaboraram que Paulo fosse mais tarde dar prosseguimento ao seu apostolado na cidade de Roma, conforme se verá. Porém, Paulo precisou permanecer por pelo menos dois anos preso em custódia na cidade de Cesareia sob os cuidados do governador da Judeia devido à queixa apresentada pelos judeus, cinco dias depois de ter sido transferido de Jerusalém. Isto porque uma vez sendo formalizada a acusação, foi instaurado um verdadeiro processo criminal dentro dos moldes a época, segundo as leis romanas.

Embora na época não existisse ainda a separação entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, tal como nos dias de hoje, já era proibido uma autoridade condenar um cidadão romano a cumprir qualquer tipo de pena arbitrariamente. Pois, para que alguém fosse morto ou condenado a trabalhos forçados, seria preciso passar por um processo criminal com direito à defesa e à produção de provas, como que se encontra registrado por Lucas em Atos:

"A eles respondi que não é costume dos romanos condenar quem quer que seja, sem que o acusado tenha presentes os seus acusadores e possa defender-se da acusação" (Atos 25:16).

Como ocorre nos dias de hoje numa CPI do Congresso Nacional, o então governador da Judeia, Marco Antônio Félix, procurou tirar vantagens políticas e pessoais a respeito do caso Paulo. Lucas conta que Félix ficou protelando o andamento do processo de Paulo e, com frequência, mandava chamá-lo alimentando a vã expectativa de arrumar alguma propina (Atos 24:26).

Agindo com ousadia, Paulo certa vez chegou a pregar sobre Jesus para Félix e sua jovem esposa Drusila, filha do rei Herodes Agripa. Porém, o governador apenas sentiu-se amedrontado e se recusou a abraçar a fé, tendo mantido contatos com Paulo pelo período de dois anos, deixando-o encarcerado em custódia a fim de agradar os judeus e, talvez, aumentar sua influência política sobre a região.

Segundo a História, Félix tinha um casamento considerado adúltero com Drusila, sob o ponto de vista judaico-cristão, pois ela havia sido casada com Azis de Emesa e, portanto, jamais poderia contrair novas núpcias enquanto vivesse o seu marido. Porém, como ela era filha de Herodes Agripa, a afinidade com aquela influente família da Palestina poderia dar mais poderes a Félix na região.

Ao fim de dois anos depois, Félix foi substituído por Pórcio Festo em seu cargo. O novo governador, na certa desejando conquistar o apoio político dos judeus na região, planejou então realizar logo o julgamento de Paulo em Jerusalém e para isto convocou uma audiência em Cesareia para decidir sobre a questão.

Sabiamente, Paulo utilizou-se de um recurso previsto nas leis romanas – o apelo para César. Isto porque, naquela época, as leis garantiam a um cidadão romano o direito de requerer uma audiência com o imperador, caso entendesse estar sofrendo injustiças no seu processo.

Ao fazer uso desse instrumento jurídico (o apelo para César), Paulo estaria ganhando a sua passagem de ida para Roma, o que, em breve, iria lhe acontecer. Porém, antes disto, Paulo ainda iria prestou um depoimento perante o rei Agripa e à sua irmã Berenice, os quais vieram visitar Festo em Cesareia naqueles dias.

Assim, aproveitando a presença do rei Agripa na cidade, Festo resolve lhe expor o caso de Paulo pedindo-lhe uma orientação, pelo que o governador convocou uma nova audiência a fim de ser colhido mais um depoimento pessoal do apóstolo.

Embora a jurisdição de Festo tivesse sido esvaziada com o apelo de Paulo, o governador ainda pretendia obter o posicionamento do rei Agripa a fim de poder justificar qual seria o motivo das acusações que pesavam contra o apóstolo e que teriam dado ensejo à sua injusta prisão e à manutenção daquela absurda custódia. Festo acreditava que Agripa, por ser judeu, poderia ajudá-lo na compreensão daquele difícil caso para o qual ele não conseguia encontrar uma justificativa já que Paulo não cometera nenhum crime que contrariasse as leis romanas e tão pouco teria profanado a religião judaica. 

Pela lógica do sistema romano, Paulo jamais deveria ter ficado preso! Desde o momento em que foi agredido, em Jerusalém, cabia às autoridades romanas tê-lo protegido dos judeus que tentavam matá-lo, sem restringir-lhe a liberdade. Contudo, essas autoridades desejavam satisfazer às multidões conquistando o apoio político dos líderes judeus e, como não encontraram permissão das próprias leis para permitirem o linchamento de um cidadão romano em praça pública, ficaram todos embaraçados para decidir.

Ora, se dois anos antes Félix recebeu Paulo em Cesareia mantendo-o em custódia por todo este período, longe de Jerusalém, logo precisaria haver um justo motivo que justificasse esta providência excepcional. E, uma vez que outra autoridade assumiu o caso, cabia ao novo governador da Judeia (Festo) julgar Paulo, uma vez que ele havia resolvido levar o caso para Jerusalém a fim de dar andamento ao processo e lá proferir a sentença. Só que, com o apelo de Paulo ao imperador, Festo precisava escrever algo a respeito de seu prisioneiro. E, como não tinha o que dizer para justificar aquela prisão, aproveitou a presença de Agripa em Cesareia para lhe apresentar o caso confiando na possibilidade do rei identificar alguma conduta desabonadora capaz de justificar a restrição de liberdade praticada.

Ousadamente, Paulo aproveita aquela nova audiência perante Festo para pregar o Evangelho perante o próprio governador, Agripa, sua irmã Berenice e várias outras pessoas presentes, demonstrando pouca preocupação com o que poderia ser decidido a seu respeito.

Interessante que Paulo poderia muito bem ter reclamado das injustiças cometidas em seu processo, mas preferiu pregar sobre Jesus para esse público de autoridades corruptas e injustas, fazendo com que toda aquela situação se tornasse mais uma oportunidade para falar a respeito do Evangelho. Em Atos 26:1-23, Lucas reproduz o discurso de Paulo até ser interrompido pelo governador no versículo 24, sendo que a defesa de Paulo perante o rei Agripa representa um emocionante testemunho sobre a sua vida. Paulo não escondeu o seu passado perverso como perseguidor da Igreja e de ex-seguidor da seita dos fariseus. Mencionou sua conversão quando ia prender cristãos na cidade de Damasco, falou sobre a missão evangelística que recebeu e quanto ao trabalho eclesiástico que desempenhou durante seus últimos anos.

Além de Paulo ter informado ao rei sobre o seu passado e a sua vocação apostólica, ele também contextualizou o seu julgamento dentro de uma visão religiosa, "por causa da esperança da promessa que por Deus foi feita" (At 26:6-7), explicando que o motivo pelo qual chegou a ser preso foi o fato de anunciar o arrependimento e a conversão (Atos 26:20-21).

Curioso que, mesmo interrompido pelo governador (Atos 26:24), Paulo conseguiu completar a sua mensagem abordando os principais aspectos da evangelização cristã: o sacrifício de Jesus, a necessidade de arrependimento e de conversão a Deus, bem como a ressurreição dos mortos. Ao prestar um depoimento sobre a sua vida, Paulo foi capaz de reunir na sua mensagem todos os pontos essenciais de uma pregação, agindo com ousadia e liberdade diante de reis e das autoridades da época, ainda que estivesse aparentemente algemado.

Segundo a narrativa de Lucas em Atos, verifica-se que o governador Festo resolveu interromper a pregação de Paulo chamando-o de louco. E, quanto ao rei Agripa, mesmo conhecendo as Escrituras e o que diziam os profetas a respeito de Cristo, preferiu afirmar que "por pouco" teria se tornado um cristão.

De acordo com a História, havia rumores na época de que Agripa vivia uma relação incestuosa com sua irmã Berenice, a qual foi mais tarde amante do imperador Tito. O seu apego ao poder político e a um estilo de vida fora dos padrões judaico-cristãos podem ter se tornado um impedimento para que se convertesse ao cristianismo. Contudo, ao se retirarem do local da audiência e se reunindo separadamente, Festo e Agripa concordaram entre si que Paulo nada havia praticado que merecesse a morte ou a prisão (Atos 26:31).

Dando uma solução para o caso de Paulo, Agripa resolve proferir o seu parecer pela absolvição do apóstolo, justificando a permanência da sua custódia apenas pelo fato do recurso interposto à César (Atos 26:32), como se o uso deste instrumento processual de defesa tivesse sido desnecessário.

Assim, reconhecendo a inocência de Paulo, as autoridades romanas da região da Judeia estavam se justificando formalmente diante do imperador, no sentido de que Paulo era realmente inocente e só estava sendo enviado para Roma porque recorreu para César ao invés de ter aceitado o julgamento ali na Palestina.

Deste modo, Paulo seguiu para Roma com um parecer em favor de sua inocência, o que só contribuiu para a sua absolvição, o que, de fato, veio a ocorrer, segundo sabemos pela História da Igreja, visto que a decisão do imperador não consta registrada na Bíblia.

Importante esclarecer que a decapitação de Paulo, ocorrida anos depois, em nada tinha a ver com os acontecimentos relacionados à sua prisão descrita em Atos dos Apóstolos. Pois, ao deixar Cesareia em um navio, Paulo ainda permaneceu em custódia e continuou neste estado ainda por mais dois anos em Roma (Atos 28:30).

Outra observação relevante é que até então não tinha se levantado nenhuma perseguição declarada do Império Romano contra a Igreja. Os fatos descritos no Livro de Atos dos Apóstolos diziam respeito à intolerância de integrantes do judaísmo e a incidentes ocorridos em algumas cidades com os gentios como em Filipos (Atos 16:16-24) e também em Éfeso (Atos 19:23-41).

Para a época em que foi escrito, Atos dos Apóstolos, ao mesmo tempo, alcançou o objetivo de manter registrada a história inicial da Igreja e, principalmente, encorajar os demais cristãos que tão logo seriam massacrados por Nero, o qual, dentro de um contexto diferente das passagens narradas por Lucas, mataria Paulo e também a outros discípulos contemporâneos a Jesus.

Não demorou muito, Jerusalém veio a ser destruída pelas tropas de Tito durante o governo de seu pai, o general Verpasiano, sucessor de Nero. O templo judaico, tal como fora profetizado por Jesus no Evangelho de Mateus, foi verdadeiramente devastado pelas tropas romanas, restando apenas pedras e ruínas. 

Por tais motivos, pode-se dizer que a maioria dos livros do Novo Testamento, entre os quais Atos e os três primeiros Evangelhos, foram escritos justamente antes da grande perseguição que se levantou por Nero e da destruição de Jerusalém. Não só para que houvesse memória histórica dos acontecimentos sobre a formação da Igreja como também para encorajamento dos cristãos diante das perseguições futuras. E, sem dúvida, Lucas encontrou a melhor maneira para encerrar o seu segundo livro, mostrando Paulo cumprindo dando continuidade ao seu ministério apostólico na cidade de Roma (Atos 28:30-31).


OBS: A ilustração acima refere-se a um quadro pintado por Rembrandt (1606 - 1669) retratando o apóstolo Paulo na prisão. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_the_Apostle#/media/File:Paul_in_prison_by_Rembrandt.jpg 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Compreenda e aprenda a viver o seu tempo!



"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
há tempo de nascer e tempo de morrer;
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar e tempo de curar;
tempo de derribar e tempo de edificar;
tempo de chorar e tempo de rir;
tempo de prantear e tempo de saltar de alegria;
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras;
tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;
tempo de buscar e tempo de perder;
tempo de guardar e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar e tempo de coser;
tempo de estar calado e tempo de falar;
tempo de amar e tempo de aborrecer;
tempo de guerra e tempo de paz."
(Eclesiastes 3:1-8; ARA)

Estamos diante de uma das mais comentadas passagens da Bíblia muito citada nas pregações religiosas e na literatura em geral devido à grande sabedoria contida em tais palavras. Porém, também é um texto que nos leva a concluir sobre a limitação do nosso conhecimento acerca da própria existência de modo que sentimos dificuldades para compreender qual o "tempo determinado" ou "apropriado".

Muitas vezes erramos por ignorar as estações da vida sendo hoje grande o número de pessoas frustradas por conta disso. Numa época em que a juventude é excessivamente valorizada (por causa dos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade e sua mídia), há quem acabe não cultivando corretamente a maturidade que chega no decorrer dos anos.

Talvez ainda se encontre bem distante do alcance humano estabelecer tendências para todas as coisas pois isso importaria em controlar a dimensão do tempo. Mal conseguimos descobrir quando é a época adequada para certas atitudes. Ou melhor, nem sempre somos capazes de definir a conduta correspondente ao momento atual. Seja em relação à nossa idade, ao contexto histórico e aos diversos períodos de crise que atravessamos, bem como das coisas pertinentes ao nosso próximo.

Por outro lado, tal dificuldade pode estar relacionada com a nossa falta de sensibilidade e até mesmo com a ideia equivocada de que iremos determinar os acontecimentos futuros. Pois, embora dotados do livre arbítrio, nem sempre podemos modificar conforme o nosso bem querer toda a realidade que há em volta. Às vezes seremos mais felizes aceitando alguns fatos superiores à nossa vontade do que passarmos a vida lutando contra eles.

Assim, creio que essa limitação de certa maneira ajuda a nos aproximar de Deus. Pois desconhecendo o homem o seu futuro (Ec 3:11), ele passa a desenvolver uma atitude de reverência para com o Eterno (3:14). Com isso, temos a oportunidade de nos arrepender dos pretensiosos erros e trilharmos o caminho de retorno para o Criador bendito.

Acredito que é andando com Deus e cultivando uma espiritualidade autêntica que conseguimos entender melhor o tempo. Seguindo pelas veredas de luz de sua Palavra, podemos ver claramente onde os pés estão pisando. Então, quando chega cada estação da vida, sentimo-nos mais preparados para enfrentar os desafios que se apresentam e encontramos o verdadeiro propósito existencial capaz de proporcionar satisfatória realização ao nosso espírito. E, como disse o salmista, "nas Tuas estão os meus dias" (Sl 31:15a).

Enfim, você pode aceitar as condições do tempo ou ser esmagado por ele! E esta escolha sábia cabe a cada um fazer e não podemos tomar decisões por ninguém.

Que o Eterno ilumine os nossos caminhos e sejamos guiados pelo seu Santo Espírito!


OBS: Ilustração acima extraída do acervo virtual da Wikipédia sendo a autoria do trabalho atribuída a Meinolf Wewel, conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Jahreszeiten_Jahresringe.jpg

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A entrada triunfal e o modelo do governante humilde



Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: "Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo encontrarão uma jumenta amarrada, com um jumentinho ao lado. Desamarrem-nos e tragam-nos para mim. Se alguém lhes perguntar algo, digam-lhe que o Senhor precisa deles e logo os enviará de volta". Isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta: "Digam à cidade de Sião: ‘Eis que o seu rei vem a você, humilde e montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta’". Os discípulos foram e fizeram o que Jesus tinha ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou. Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: "Hosana ao Filho de Davi! " "Bendito é o que vem em nome do Senhor! " "Hosana nas alturas!" Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou agitada e perguntava: "Quem é este?" A multidão respondia: "Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia". (Mateus 21:1-11; NVI - destaquei) 

Na última semana que antecede o Domingo de Páscoa, os cristãos tradicionalmente celebram o chamado "Domingo de Ramos", comemoração que relembra a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém descrita pelos evangelhos. Trata-se de um episódio que, nos sinóticos, é seguido pela purificação do Templo judaico, quando o Mestre havia expulsado de lá os cambistas e vendedores de animais.

Entretanto, umas das cenas que mais caracteriza esse momento bíblico refere-se ao fato de ter Jesus montado num humilde jumentinho que, no relato de Mateus acima citado, seria então um animal bem novo necessitando até da companhia da mãe para ser periodicamente amamentado. E, como bem podemos observar pela leitura do texto, Jesus realmente planejou tudo aquilo consciente da passagem profética do livro de Zacarias.

Ora, antes mesmo daquela época, já era costume que um rei fosse honrado cavalgando um animal. Assim havia feito Davi na coroação de Salomão quando fez o herdeiro do trono entrar em Jerusalém montado na sua mula (conf. 1Rs 1:33-44). Por sua vez, o estender dos mantos pelo caminho do messias também guardava um significado semelhante como ocorreu na unção de Jeú como novo monarca de Israel (2Rs 9:13). Aliás, até na nossa história, encontramos as idealizações do Grito da Independência e da Proclamação da República com os seus principais personagens, D. Pedro I e Marechal Deodoro, em cima de um cavalo, a exemplo dos célebres quadros de Pedro Américo e Henrique Bernardelli, respectivamente.

Mas afinal de contas, por que teria Jesus se inspirado na leitura de Zacarias 9:9 ao invés de se apresentar de maneira que sugerisse um porte rígido e marcial, talvez sobre um daqueles imponentes cavalos árabes? Bem, se formos ao texto do profeta, acredito que encontraremos lá algo que nos leve à resposta desejada:

Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém! Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e os arcos de batalha serão quebrados. Ele proclamará paz às nações e dominará de um mar a outro, e do Eufrates até aos confins da terra. (Zacarias 9:9-10 - o destaque é meu)

Acredito, meus amigos, que a reivindicação messiânica exposta no episódio da Entrada Triunfal teve por objetivo promover uma inversão de valores. Antes de subir de Jericó para Jerusalém, a mãe de Tiago e João havia formulado um pedido bem "nepótico" a Jesus, querendo que seus dois filhos ocupassem as posições de maior destaque em seu futuro reino, assentando-se um à direita e o outro à esquerda. Mas a este respeito o Mestre muito bem respondeu quando os demais discípulos se indignaram contra a pretensão dos dois apóstolos:

Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos". (Mateus 20:25-28) 

O ministério de nosso senhor certamente teve um propósito diferente dos demais governantes e líderes revoltosos de seu tempo. Jesus veio com uma nova proposta que chamava de "Reino de Deus" onde os valores divergem da relação dominadora entre o monarca e seus súditos. Caberia ao rei e a seus ministros servirem ao povo buscando satisfazer às necessidades da população. E ainda que os presentes no episódio em comento não devessem ter tal concepção (suponho que muitos ali preferissem um messias montado num cavalão poderoso usado pelos soldados), será que aquele ato profético não teria deixado as pessoas com uma pulga atrás da orelha?

Hoje em dia, 125 aós após a Proclamação da República, muitos políticos brasileiros quando se candidatam nas eleições dizem que querem servir ao povo. Só que, na verdade, tudo não passa de mera demagogia pois o que temos visto por aí são prefeitos, governadores e parlamentares sendo muito bem servidos e ainda roubando o dinheiro público. Parece que o absolutismo monárquico ainda se encontra bem entranhado na maneira de pensar da sociedade brasileira não passando os discursos nos palanques de uma falsa humildade.

O fato é que só conseguiremos seguir os grandiosos passos do Mestre através de atitudes coerentes. Quer venhamos a exercer uma liderança política ou religiosa, precisamos cultivar um permanente hábito de doação em nossas vidas como fez Jesus ao se entregar "em resgate por muitos". Pois só assim estaremos revolucionando essa triste realidade de submissão e de exploração que acompanha a humanidade há milênios.

Um ótimo final de semana a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao afresco Entrada triunfal em Jerusalém, 1320, pintado por Pietro Lorenzetti (c. 1285 — 1348), o qual se encontra na Basílica de São Francisco, Assis, Itália, conforme extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Domingo_de_Ramos#/media/File:Assisi-frescoes-entry-into-jerusalem-pietro_lorenzetti.jpg

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Cristianismo x Islamismo: o inevitável Choque de Civilizações

"Nenhum de vocês crê verdadeiramente até que deseje aos outros o que deseja para si mesmo." Maomé, fundador do Islamismo

Por Hermes C. Fernandes

O mundo ocidental tem assistido horrorizado às barbáries perpetradas pelo mais cruel grupo terrorista dos últimos tempos: o Estado Islâmico. Diferentemente de outras redes terroristas como a Al-Qaeda, o EI tem empregado recursos dramáticos na execução de prisioneiros, filmando e difundindo pelas redes sociais imagens de decapitações em massa, afogamentos e incinerações de prisioneiros confinados em gaiolas, homossexuais empurrados do alto de edifícios, além de destruição de sítios arqueológicos importantes. Tudo isso, somado ao radicalismo religioso de alguns grupos do Islã têm despertado ojeriza por parte das sociedades ocidentais.

Lembro-me de que pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas, fui visitar minha irmã Odília que morava em Newark, cidade vizinha à Nova Iorque. Na manhã do ataque terrorista, ela tinha uma entrevista de emprego lá, mas graças à providência divina, perdeu a hora. Ao acordar, assistiu da janela do seu quarto à queda do World Trade Center. Foram dias de muita apreensão por parte da minha família que não conseguia contatá-la. Tão logo tive oportunidade, aproveitei minha ida à Flórida na companhia de um amigo para esticar até Nova Iorque. Na fila para embarcar, enquanto éramos minuciosamente revistados, mesmo depois de termos passado por detectores de metais, notamos que um homem que usava um turbante árabe passou direto. Todos na fila demonstraram preocupação com a cena seguindo-o indiscretamente com os olhos. Naqueles dias, qualquer um que embarcasse num voo comercial usando turbante era considerado um forte candidato a terrorista. Ao chegar na porta da aeronave, aquele homem abriu o paletó e exibiu à tripulação sua insígnia. Era um agente do FBI. Todos suspiraram aliviadamente. Mesmo assim, a tensão persistia. Durante todo o voo, duas comissárias de bordo se alternavam ao microfone, brindando-nos com um verdadeiro stand up comedy no afã de aliviar as tensões. Quando avistamos os arranha-céus da Big Apple pela janela, a tensão aumentou consideravelmente. Ninguém mais conseguia prestar a atenção nas comissárias. Bastou que as rodas do avião tocassem no solo para que os passageiros irrompessem num barulhento e demorado aplauso. Ufa! Havíamos sobrevivido.

Sinceramente, não queria estar na pele de um muçulmano que morasse ou pretendesse visitar os Estados Unidos naqueles dias.

Da última vez que morei com a minha família nos Estados Unidos, entre os anos de 2009 e 2011, meus filhos estudaram numa High School próxima de nossa casa em Lake Mary, na Flórida. Minha filha caçula, Revelyn, contou-me de sua preocupação com um colega Iraniano que era hostilizado pelos colegas. Como se não bastasse sua religião e nacionalidade, ele não sabia falar uma única palavra em inglês. Revelyn perguntou-me se haveria algum problema se ela se propusesse a ajudá-lo. Senti-me orgulhoso por sua iniciativa. Durante aquele período escolar, minha filha foi sua amiga e incentivadora.

Ser muçulmano não significa ser terrorista. Na verdade, ninguém deveria ser julgado por sua opção religiosa, nacionalidade ou etnia.

Enquanto minha filha fez amizade com um muçulmano, meu filho Rhuan fez amizade com uma jovem egípcia (bonita, por sinal), uma cristã copta, de uma família extremamente austera. Lembro-me do constrangimento que ele passou com o pai da menina ao visitá-la. Ele chegou em casa ofegante e visivelmente assustado, dizendo que nunca mais queria passar por aquilo novamente. O pai achou que ele queria pedi-la em namoro e praticamente o escorraçou da casa.

Quando estávamos para voltar para o Brasil, fizemos um Moving Sale, expondo nossos móveis e utensílios domésticos em nossa garagem com o objetivo de vendê-los por preços módicos. Nossa vizinhança era bem diversificada. Tínhamos vizinhos de várias partes do mundo, e muitos deles vieram checar nosso material. Chineses, judeus, mexicanos, porto-riquenhos, guatemaltecos e... egípcios. Isso mesmo. Aquela querida família encostou sua van em frente à nossa garagem e veio nos visitar. Não vieram para se despedir, nem para se desculpar pelo episódio em que meu filho foi escorraçado de sua casa, mas para aproveitar as pechinchas. Pechinchar é uma prática comum neste tipo de venda de garagem. Mas eles extrapolaram. O pai tinha um bloquinho nas mãos, onde anotava tudo, perguntando o preço de cada item. No fim, ele somou os valores e fez uma oferta bem inferior ao total. Tentei argumentar com ele, mas não deu. Acabei vencido pela sua insistência. Ele arrematou boa parte de nossas bugigangas. Até aí, tudo bem. Pelo menos nos livramos de tudo aquilo. O único problema é que eles ficaram de voltar mais tarde para pagar. Já faz quatro anos que retornamos ao Brasil e até agora, nada. Apesar do calote, eram cristãos coptas, da mesma tradição religiosa daqueles cristãos que foram decapitados pelo EI por não negarem sua fé em Jesus.

Jamais julgaria todos os cristãos coptas do mundo por causa da atitude daquela família. Assim como não julgo todas as igrejas brasileiras tomando por base algumas que usam os veículos de comunicação de maneira agressiva e antiética.

Posso assegurar que a maioria dos seguidores de Maomé não aprova o que tem sido feito em nome de sua fé por grupos fundamentalistas radicais. São homens e mulheres de bem, zelosos de suas tradições e valores, que trabalham com afinco para garantir a subsistência de suas famílias.

Assim como há maus cristãos, também há maus muçulmanos. Que direito temos de medir uns pelos outros?

Nem todo muçulmano é terrorista, como nem todo pastor é um explorador da fé, e nem todo padre é pedófilo. Cada um deve ser avaliado de per si. Pelos frutos conhecereis a árvore, alertou-nos Jesus.

E quanto ao EI? Como deveríamos nos posicionar quanto a esta milícia terrorista? Deveríamos pagar com a mesma moeda?

O EI é para o Islã o que as Cruzadas foram para o Cristianismo. Foram necessários séculos para que alcançássemos um grau de civilidade que nos permitisse perceber o quão distante estávamos daquilo que Jesus nos ensinara. E o que dizer da Santa Inquisição? Quantos foram condenados por tribunais eclesiásticos, sendo torturados com requinte de crueldade e queimados vivos por serem considerados hereges! Por que digo isso? Para relembrar que temos telhado de vidro.

O Islamismo é uma religião bem mais nova que o Cristianismo. Eu diria que é a caçula dentre as grandes religiões monoteístas. É inevitável que haja grupos sectários que não entenderam bem a proposta de sua religião. Quando digo “não entenderam bem”, estou afirmando que há muitas maneiras de se entender. Se nem a Bíblia está imune a interpretações equivocadas, que dirá o Alcorão. O problema não é o livro ou a religião em si, mas o estado do coração humano, carregado de ódio e preconceito.

Para que o ciclo do ódio seja quebrado, faz-se necessário apelarmos ao perdão, não à vingança.
Recentemente, foi criada a primeira brigada cristã iraquiana com a tarefa de retomar as cidades e localidades cristãs das mãos dos jihadistas do EI.

Os novos soldados marcharam e saltaram sobre pneus em chamas diante de uma fileira de autoridades curdas e assírias em Fishkabur, no nordeste do Iraque, lembrando cenas de produções cinematográficas americanas.

Após a invasão americana de 2003, muitos cristãos iraquianos deixaram o país, enquanto outros preferiram manter a discrição em um momento em que o país mergulhava na violência. Porém, alguns destes remanescentes decidiram tomar as armas nos últimos meses, formando várias milícias cristãs.

Não demoraria muito para que, imbuídos de um sentimento revanchista, as milícias cristãs se espelhassem em seus próprios inimigos. No dia 28 de maio de 2015, um soldado cristão membro das forças curdas decapitou um militante do EI na Síria. A decapitação do jihadista teria sido um ato de vingança pela morte de centenas de cristãos pelas mãos do EI, incluindo homens, mulheres e crianças. O soldado cristão escolheu matá-lo usando o mesmo método brutal de execução que se tornou uma marca do grupo terrorista, adicionando-se a isso o fato de ter sido obrigado a cavar a própria cova antes de ser executado.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma ONG exilada, sediada no Reino Unido, destacou que há muita discussão se “as ações do soldado cristão sírio não-identificado foram corretas ou morais sob a ótica do cristianismo”. Ainda segundo o artigo publicado pela ONG, se  “o motivo da decapitação foi uma vingança, o assassinato poderia ser interpretado como um crime de guerra”.[1]

Quem diria...uma ONG tendo que aguçar nossa consciência, lembrando-nos que condutas como esta destoam completamente do que foi ensinado por Jesus.

Em abril de 2012, o polêmico pastor norte-americano Terry Jones queimou exemplares do Alcorão, além de uma representação do profeta Maomé para protestar contra a prisão do pastor Youcef Nadarkhani no Irã. O Pentágono veio a público pedir que o pastor reconsiderasse os atos, alegando que seu inconsequente protesto poderia prejudicar soldados americanos no Afeganistão. Em 2010, ele já havia ameaçado fazer o mesmo, mas foi dissuadido pelas autoridades. Como previsto, o insano protesto provocou uma onda de violência no Afeganistão e no Oriente Médio.

Em 11 de setembro de 2013, Terry Jones foi detido na Flórida antes de queimar 2.998 exemplares do Alcorão como protesto pela passagem do décimo segundo ano de aniversário dos atentados que derrubaram as Torres Gêmeas, matando número equivalente de pessoas.

Por favor, alguém avise a este pastor que se sua intenção é a de chamar a atenção para si, ele conseguiu. Mas como efeito colateral, ele só fez aumentar a animosidade entre o mundo islâmico e o "grande Satã" (maneira como alguns islâmicos radicais se referem aos EUA).
Definitivamente, não precisamos de novas cruzadas. Aliás, jamais precisamos delas. Em vez disso, carecemos de homens e mulheres dispostos a levar a sério os ensinamentos de Jesus, permitindo que seu amor extrapole as fronteiras religiosas.

Jamais nos esqueçamos de que, na qualidade de seguidores de Cristo, “as armas de nossas milícias não são carnais, mas poderosas em Deus para destruição de fortalezas” (2 Co. 10:4). Portanto, em vez de balas, bombas, espadas, nosso arsenal é composto de amor, perdão, acolhimento e oração. As fortalezas contra as quais marchamos são as do preconceito, do ódio, do desamor e de tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana.

Em meio a tanto ódio, sempre nos surpreendemos com lampejos de amor.

No primeiro dia de fevereiro de 2011, o mundo foi impactado por uma foto postada no twitter em que cristãos coptas do Egito faziam um cordão de isolamento para proteger os muçulmanos em sua hora de oração em plena Praça Tahrir no coração da cidade do Cairo. Milhares de egípcios saíram às ruas para protestar contra o governo, sendo duramente recebidos por forças policiais. Chegada a hora em que os muçulmanos tradicionalmente se ajoelham em direção a Meca para orar, os cristãos presentes ao protesto formaram uma corrente humana para protegê-los dos cassetetes da polícia.

São exemplos como este que nos fazem voltar a ter esperança no convívio pacífico entre os homens.

Estes cristãos coptas decidiram viver o mandamento de Jesus às últimas consequências. Cada golpe que levavam nas costas para proteger os membros de uma religião considerada rival fazia-os lembrar das palavras de Jesus: “Amai-vos uns aos outros...”

Pouco mais de dois anos depois, em agosto de 2013, muçulmanos se uniram aos cristãos para protegerem suas igrejas de serem destruídas. Naqueles turbulentos dias, dezenas de igrejas e escolas, além de casas e lojas pertencentes a cristãos foram atacados no Egito por um grupo chamado Irmandade Muçulmana. Em um dos ataques, membros deste grupo jogaram coquetéis molotovs num centro comunitário cristão que ajuda crianças de rua, sejam elas cristãs ou muçulmanas. Apesar de ninguém ter ficado ferido, este ataque causou consternação entre muçulmanos e cristãos. Depois deste ataque, uma multidão formada por pessoas de ambas as religiões dirigiu-se a uma igreja para impedir que fosse depredada. Esta atitude desencadeou uma onda do bem em que cristãos e muçulmanos se uniram para apagar incêndios em igrejas ou conter ataques em outras cidades. Vigílias eram feitas ao redor de templos cristãos para impedir que fossem depredados.

Não precisamos concordar em tudo para que somemos esforços pelo bem comum. Mas, por mais constrangimento que possa causar em alguns, o fato é que muçulmanos e cristãos têm mais em comum do que a maioria esteja disposta a admitir.

O Deus a quem veneram é identificado como o mesmo que revelou-se a Abraão. "Allah" é simplesmente a palavra árabe para "Deus" (que também não é nome próprio). Basta pegar uma Bíblia ou Torá escritas em árabe, para constatar isso. É interessante reparar que o som da palavra hebraica "El" (de onde provém "El Shaday" e outros nomes compostos usados pelos hebreus em referência a Deus), assemelha-se mais ao som da palavra "Allah" do que o vocábulo português "Deus", que por sua vez se origina do vocábulo grego "Théos" usado fartamente nas epístolas paulinas. Isso se deve ao fato de que tanto o árabe, quanto o hebraico e o aramaico serem línguas semitas. Os hebreus comumente se referiam a Deus como "Eloha" ou em sua forma majestática "Elohim". Alguns acreditam que a palavra "Allah" seria uma corruptela de "Eloha."[2]

Apesar de judaísmo, cristianismo e islamismo terem conceitos diferentes acerca de Deus, eles O identificam como o Criador dos céus e da terra, sendo considerados "Fés Abraâmicas". Tanto judeus quanto muçulmanos, por exemplo, rejeitam as crenças cristãs da Trindade e da Encarnação Divina.  

Mesmo que não reconheçam a divindade de Jesus, prezam-no como o Messias[3] e um grande profeta. Seu respeito por Ele é tamanho, que cada vez que pronunciam o Seu nome, repetem a frase “Que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele”. Entre muitas coisas, eles creem em Seu nascimento virginal, nos milagres descritos nos evangelhos, em Sua ascensão ao céu e em Seu retorno no último dia. Eles também creem que não serão os únicos a serem salvos, “mas também os seguidores de outras religiões divinas e monoteístas quando praticam e seguem as suas doutrinas autênticas e puras as quais foram reveladas aos profetas Moisés e Jesus filho de Maria.”[4] e Obviamente que temos inúmeras diferenças que não podem ser desprezadas. Todavia, isso não nos impede de amá-los e respeitá-los em sua própria fé.

Uma das coisas que mais aborrecem a comunidade islâmica é o desrespeito à figura de Maomé, seu profeta. É difícil para um muçulmano compreender a razão pela qual Maomé tem sido execrado pelos cristãos, enquanto eles fazem questão de honrar a figura de Jesus.

Alguns mais radicais demonstram ser capazes de qualquer coisa para vindicar a honra de seu profeta. Não admitem brincadeiras, piadinhas, caricaturas envolvendo aqueles que consideram o mais importante porta-voz de Deus para a humanidade.

Mesmo sendo irrestritamente a favor da liberdade de expressão, penso que deveríamos, ao menos, respeitar a sua devoção e evitar profanar o que lhes é tão caro. Não é porque estamos acostumados a ouvir piadinhas envolvendo a nossa fé que vamos nos achar no direito de fazer o mesmo com a fé alheia.

O que o mundo espera de nós é que sejamos coerente com aquilo que Jesus nos legou. “Nisso conhecerão que sois meus discípulos”, afirmou, “se vos amardes uns aos outros.”

Somente um choque de amor poderá evitar um choque de civilizações.[5]

Enquanto muitos cristãos preferem manter distância do mundo islâmico, temendo por sua vida, ou por puro preconceito, um número crescente de muçulmanos tem se convertido a Cristo através de sonhos. De acordo com Karel Sanders, missionário cristão na África do Sul, 42% dos recém convertidos entre africanos muçulmanos vieram a Cristo através de sonhos e visões. O fenômeno também tem ocorrido entre outras comunidades muçulmanas, como os Tausugs nas Filipinas, onde muitos fiéis relataram ter visto Jesus em seus sonhos após o Ramadã (mês em que os muçulmanos praticam um ritual de jejum). Há relatos no Iraque, na Turquia, no Turcomenistão e Quirguistão.

O mesmo Jesus que apareceu a Saulo de Tarso no caminho de Damasco, segue se manifestando pelo mundo afora, sem respeitar nossas convenções e conveniências.

Talvez isso seja um recado claro à igreja, de que o mundo islâmico tem grande importância para Cristo. Mas para apresentar-lhes o evangelho, temos antes que aprender a amá-los, compreender suas tradições, despojando-nos de nossos preconceitos e receios.



[1] http://www.ebc.com.br/observatorio-sirio-dos-direitos-humanos
[2] A palavra Alá está na origem de algumas palavras do português  como "oxalá" (w[a] shā-llāh, "queira Deus"), "olá", "olé" (w[a]-llāh, "por Deus") e "hala" (yā-llāh, "oh, Deus").
[3] Alcorão: 5:75
[4] Confira no site: http://www.ibeipr.com.br/perguntas_ver.php?id_pergunta=22
[5] Choque de civilizações é uma teoria proposta pelo cientista político Samuel P. Huntington segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos serão a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria

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OBS: Texto extraído do blog do autor em http://www.hermesfernandes.com/2015/08/cristianismo-x-islamismo-o-inevitavel.html

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Ser FELIZ em Cristo



"Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se! Seja a amabilidade de vocês conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus. Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas. Tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim, ponham-no em prática. E o Deus da paz estará com vocês." (Filipenses 4:4-9; NVI)

A Bíblia pode ser mesmo considerada uma manual de vida e aplicável às diversas situações do nosso cotidiano? Acredito que sim, meus caros leitores, sendo possível construirmos uma interessante teologia da felicidade através de um estudo atento dos textos sagrados.

Na citação feita acima, o apóstolo Paulo escreve aos cristãos da cidade macedônica de Filipos que cultivassem a alegria entre eles. Era algo que deveria ser realizado de modo contínuo e "no Senhor", o que significa estarem sempre buscando meios de não se deixar dominar pelo sentimento contrário (a tristeza), reagindo com fé e colocando Deus em todos os aspectos de suas vidas.

Embora muitos céticos e ateus critiquem a nós cristãos, acusando-nos de criar uma "ficção religiosa" diante dos problemas, tenho aprendido que o exercício da fé ajuda a tornar o homem mais feliz no seu caminhar. Pois, quando nos deparamos com os desafios do cotidiano, com as perdas de bens ou de pessoas queridas, podemos colocar todas as situações diante do Senhor. Por meio da oração, encontramos paz, sabendo que temos ao nosso lado um Deus que é sempre presente: "Perto está o Senhor" (verso 5b).

Interessante que esse sábio ensino de Paulo tanto pode servir de antídoto contra a tristeza como para a ansiedade, ambos males que a todo instante afetam o homem moderno. E aí o autor fala de algo importantíssimo que seria a guarda do coração e dos pensamentos (v. 7).

Muitas vezes, amados, uma pessoa pode estar frequentando a sua congregação religiosa, fazendo rotineiras orações, agradecendo a Deus antes de cada refeição ingerida e até mesmo lendo a Bíblia todos os dias, porém ainda não sabe como monitorar o que pensa. As ideias ruins pousam em sua mente e fazem ninho ali. Tal como ocorre no primeiro exemplo da célebre Parábola do Semeador contada por Jesus nos evangelhos sinóticos (Mt 13:1-9; Mc 4:3-9; Lc 8:4-8), a boa palavra acaba sendo subtraída pelas notícias ruins dos jornais, pela futilidade de certos acontecimentos nos quais ficamos concentrados, pelas preocupações excessivas com as coisas terrenas (geralmente incertezas quanto ao futuro), temores irracionais, ideias maliciosas, etc.

Entretanto, o ensino final desse trecho do Novo Testamento que transcrevi mostra o quanto devemos conscientemente organizar os pensamentos. Cabe ao cristão selecionar e fixar na mente aquilo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, de boa fama, virtuoso e louvável. As ideias negativas podem até nos assaltar de maneira repentina e involuntária, contudo, ao diagnosticarmos a "invasão", cabe a nós tentar compreender a causa da tristeza ao mesmo tempo em que damos um pronto combate com os recursos espirituais disponibilizados por Deus: orar com fé e meditar nos bons ensinamentos.

No livro não canônico de Eclesiástico (não confundir com Eclesiastes), presente na Bíblia dos católicos, há uma interessante passagem que assim diz:

"Não entregues tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos. A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida. Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a Deus, e sê firme; concentra teu coração na santidade, e afasta a tristeza para longe de ti, pois a tristeza matou a muitos, e não há nela utilidade alguma." (Eclo 30:22-25)

Sem dúvida, prezados internautas, não existem razões para permanecermos tristes pelo resto da vida. Podemos até passar por momentos difíceis e atribulados que, por algum tempo, afasta o sorriso de nosso rosto. Entretanto, a melhor coisa a ser feita é superarmos, buscando a verdadeira harmonia com a santidade, o que, em outras palavras, significa adotar uma postura íntegra conforme os princípios éticos mais elevados.

Uma ótima quarta-feira a todos em Cristo Jesus!


OBS: Imagem extraída de http://blog.cancaonova.com/phn/files/2012/11/Felicidade_11.jpg

sábado, 15 de agosto de 2015

Assunção de Nossa Senhora

 “A mãe do meu Senhor!”

Palavra da Liturgia – Lc 1, 39 – 56. 
            
Estamos festejando a festa da Assunção de Nossa Senhora no céu! Depois de terminado o curso da vida terrestre, Maria foi assunta em corpo e alma à glória celeste, após a sua “dormição”. Eis um dos quatros dogmas de Maria em nossa Igreja: 1 – A Imaculada Conceição; 2 – A Maternidade Divina de Maria; 3 – Maria Sempre Virgem; 4 – Assunção de Nossa Senhora.
            
Quando falamos de Maria não falamos de um personagem qualquer, mas alguém muito especial e filha obediente de Deus.  Ninguém em terra, com exceção de Jesus, viveu Deus com tanta intensidade e amor como Maria viveu, porque nenhum amor é maior do que o amor de mãe. O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo, ele não obedece a leis, ele ousa todas as coisas. A mãe é aquela que assumi de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. O amor de mãe é o amor mais próximo do amor divino.
            
A humildade de Maria a fez digna de todas as virtudes. Maria, assim como a lua que se deixa iluminar pelo sol, se deixa iluminar por Jesus. Sua intercessão é o reflexo desta luz que chega até nós que é Jesus.

Mesmo sendo a mãe de Deus, Maria não teve nenhum privilégio ou proteção, desde o seu sim, ela começou a viver o calvário e encarar a dor com fé, por isso ela era feliz, por que optou em viver o sonho de Deus em sua vida.

Diz na palavra deste final de semana que após a anunciação a Maria, o anjo afastou-se dela. Se você reparar na história de Maria em nenhum outro momento o anjo lhe apareceu, inclusive nos momentos de maior dor que foi o caminho do calvário. Por que será? Porque Maria viveu Deus na fé e não nos sinais visíveis, pois era uma mulher crente. Aliás, o seu sinal visível era Jesus!
            
Maria era pura e menina simples, muito nova, provavelmente uns quinze anos no máximo quando recebeu a notícia do anjo e como vivia a caridade, diz a palavra, que se levantou logo após o anjo anunciar que Isabel estava grávida e viajou aproximadamente uns 160 km até a casa da prima para ajudá-la e acolher-lha no amor de Deus. Humildade e acolhimento são atos cristãos.
            
Recebeu dois elogios de Isabel: “Bem-aventurada” e “Bendita”. Maria foi bem aventurada porque viveu em vida as bem-aventuranças e foi bendita porque carregou consigo o Verbo que se fez carne e portanto é Santuário da Vida.
            
Humildade não é se declarar fraca e sim reconhecer suas forças e suas fraquezas e perante isso buscar o seu melhor para Deus. Não dá para ignorar a figura da mulher em Maria até porque foi a mulher Maria que foi escolhida para suportar a dor de ver seu filho humilhado, crucificado e derramando até a última gota do sangue por todos nós. A sua postura diante de seu filho na cruz? Estava em pé! Maria disse sim até a morte, não só na alegria, mas principalmente na dor foi fiel. A serva Maria enfrentou a dor de mãe com a força da mulher.

Maria é a Arca da Aliança, àquela que carregou o Amor para humanidade ser liberta e salva. O ventre de uma mãe é feito de ternura e o filho que este ventre carrega é rodeado de conforto, proteção, intimidade. Ninguém em vida foi mais íntima de Jesus do que Maria.
            
Ela no evangelho se auto-intitulou no magnificat: pobre serva. Ela serviu na aceitação resignada, no silêncio do coração e principalmente na presença ao lado de Jesus até a sua morte. Costumo dizer que o amor de mãe é o que mais se aproxima do amor de Deus, consequentemente, a dor de mãe é a dor que mais se aproxima da dor do filho. Penso que Maria sentiu a pior dor que se possa ter: a dor onde você sofre por não poder sofrer no lugar de alguém que ama muito.
            
Por isso o mínimo que nós cristãos podemos fazer é venerar esta mulher para que se cumpra a Escritura: “Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada”.

Nenhuma criatura viveu Deus tão intensamente e intimamente como Maria viveu! Sua humildade foi tão grande que pelo seu silêncio de coração passou quase que despercebida não fosse a obediência daqueles que a proclamam Bem-Aventurada! Lucas e João dão destaque à figura de Maria! Lucas por causa da sua origem, era gentio, tinha uma visão de respeito à figura da mulher e João por ser o discípulo amado de Jesus o qual obedeceu a última ordem dada por Ele: acolher Maria como mãe. Só quem ama enxerga o valor de uma mãe!

Em um tempo onde estruturas, distribuições de “milagres e curas”, barulho, artistas da fé, teologia da prosperidade, interesse em ver sinais visíveis o tempo todo têm sido o norte da evangelização; o silêncio de Maria e a espiritualidade mariana é sem dúvida alguma o grande desafio a voltarmos os olhos para o que realmente importa: a humildade, a fé e o desapego de tudo para viver Deus! 

Maria dos pobres, dos que sofrem, dos humildes, dos pequeninos. Maria mãe de todos.

Com Maria, Deus manifestou seu poder, desconcertou os corações soberbos, derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes, saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos cumprindo a sua promessa.
            
Até mesmo o Profeta João Batista ainda no ventre de Isabel manifestou a alegria do encontro com Jesus no ventre de Maria e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

A mãe que apresenta o pai é também aquela que sempre apresenta o filho! Ter um encontro mariano é encontrar-se com Jesus, é ficar cheio do Espírito Santo, pois quem se aproxima de Maria tem a honra de encontrar-se com a mãe do meu Senhor! Haja felicidade para este encontro.

E você? Já teve a honra de encontrar a Mãe do meu Senhor? Viver a espiritualidade mariana é tornar-se verdadeiro adorador do Deus Único!