sábado, 24 de dezembro de 2016

Pessoas que ficam deprimidas no Natal




Embora eu já tivesse compartilhado esta mensagem há exatos três anos atrás em meu blogue pessoal, senti no coração o desejo de republicá-lo aqui. Isto porque continuo encontrando pessoas deprimidas na atual época do ano, o que novamente chamou a minha atenção por estes últimos dias.

Por que num período festivo desses alguém se sente tão mal a ponto de, por exemplo, trancar-se num quarto ou afogar a cara num copo de bebida alcoólica?

Qual a razão do Natal ser uma data tão difícil para alguns e, ao mesmo tempo, uma celebração maravilhosa para outros?

Pessoas que são muito alegres, ou mais ligadas à religião, como é o meu caso, costumam se chocar quando se deparam com casos assim e, por isso, têm dificuldades para compreender a dor do outro. Recordo que, quando ainda morava na cidade serrana de Nova Friburgo, no centro-norte do estado do Rio de Janeiro, estranhava o fato de muitos jovens passarem o resto da madrugada do dia 25 num evento secular chamado Rock Noel. Tão logo terminavam a ceia natalina, eles se dirigiam para a tal balada que, durante anos seguidos, foi realizada no tradicional Nova Friburgo Country Clube.

Contudo, os encontros do Natal, quase sempre estabelecidos pela moral social, expõem a falência dos relacionamentos em muitas famílias da nossa sociedade. O momento faz com que, ao rever o parente, alguns acabem se recordando de traumas passados em relação a pai, mãe, irmãos, avós, tios, padrasto e madrasta, bem como os sogros e cunhados. Então, inconscientemente, há quem busque na droga da bebida um tipo de anestesia para suportar o momento sendo que, não raramente, a convivência indesejada acaba resultando em brigas violentas e boletins de ocorrência policial. E, neste sentido, os que trocam o lar por uma noitada na boate estariam encontrando um meio de escaparem do assédio provocado pelo familiar que nem sempre sabe conviver respeitando as escolhas e o modo de ser do outro.

Quem sou eu para julgar e condenar meu próximo?! Prefiro procurar entender do que jogar pedra. Mas da mesma maneira como existe gente que se sente mal por estar em família, outros se deprimem porque já não possuem mais a companhia dos seus parentes que partiram. É o que costumo verificar entre os mais idosos de modo que o Natal faz com que velhinhos solitários se lembrem do antigo mundo que tinham num período passado. Mostram assim certa dificuldade em lidar com o perecimento formal das coisas e em se fixarem no que é eterno.

Finalmente, resta considerar os que gastam quantias bem elevadas para o padrão econômico que têm e acabam ficando frustrados bem como endividados. Deixam-se levar pelo comportamento consumista perdulário e a aquisição de bens acaba não proporcionando a felicidade que tanto desejam achar. Esquecem, porém, de procurar dentro de si, em suas consciências, pois é muito mais cômodo qualquer um se iludir achando que a fonte de águas vivas esteja no carro novo ou na TV de plasma com alta resolução.

Creio, meus amigos, que as pessoas estão se esquecendo facilmente do verdadeiro sentido do Natal que está em Jesus Cristo. Lendo a Bíblia, verificamos que a vinda do Salvador ao mundo foi motivo de grande alegria e de louvor a Deus! Quando os pastores receberam o anúncio do anjo do Senhor, este assim proclamou:

"Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo; é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor" (Lc 2:10-11; ARA)

Também o coro celestial entoou esta bênção no verso 14 do mesmo capítulo 2º de Lucas:

"Glória a Deus nas maiores alturas,
paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem."

Quando colocamos Cristo nas nossas vidas, podemos encarar as festividades do Natal e todos os demais momentos numa outra perspectiva. Com Cristo, passamos a perdoar e também reeditar as memórias ruins lidando melhor com o passado. O outro já não é mais visto como o nosso adversário e, sim, como um ser humano carente de Deus. Uma ovelha que, como nós, está buscando chegar ao aprisco do qual se perdera. Então, se vamos a uma celebração natalina na casa de alguém, fazemos isso como uma tarefa missionária. O foco passa a ser alcançar vidas e não a nossa própria curtição.

Igualmente a ausência física das pessoas queridas já não é mais fonte de tristezas porque passamos a enxergar a existência pelo ângulo multidimensional da eternidade. Podemos amadurecer, enterrar nossos pais, envelhecer e sofrer uma perda tipo a partida prematura de um filho ou do cônjuge amado. Só que nada disso deve ser motivo de infelicidade pois a realização plena de cada um de nós encontra-se em nosso Criador. É o que aprendemos com Cristo que soube fazer de Deus o seu Pai.

Embora já tenha desejado a todos os leitores nas redes sociais os meus votos de feliz Natal, reitero aqui esse desejo já expresso. Acrescento um forte abraço a todos vocês e que tenham momentos de muita paz, muita luz e experimentem o amor de Deus no final deste ano e no decorrer de 2017.


OBS: Foto extraída de uma página do jornal Tribuna do Norte com atribuição de autoria a Alex Régis conforme consta em http://tribunadonorte.com.br/noticia/christmas-blues-a-depressao-natalina/206998

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Deus Está Sendo Usado para Encobrir Lavagem de Dinheiro Público




Deus está sendo usado para encobrir lavagem de dinheiro público

Tudo o que é sadio pode ficar doente. Também as religiões e as igrejas. Hoje particularmente assistimos a doença do fundamentalismo contaminando setores importantes de quase todas as religiões e igrejas, inclusive da Igreja Católica. Há, às vezes, verdadeira guerra religiosa. Basta acompanhar alguns programas religiosos de televisão especialmente, de cunho neopentecostal, mas não só também de alguns setores conservadores da Igreja Católica para ouvir a condenação de pessoas ou de grupos, de certas correntes teológicas ou a satanização das religiões afro-brasileiras.
A expressão maior do fundamentalismo de cunho guerreiro e exterminador é aquele representado pelo Estado Islâmico que faz da violência e do assassinato dos diferentes, expressão de sua identidade.
Mas há um outro vício religioso, muito presente nos meios de comunicação de massa especialmente na televisão e no rádio: o uso da religião para arrebanhar muita gente, pregar o evangelho da prosperidade material, arrancar dinheiro dos fregueses e enriquecer seus pastores e auto-proclamados bispos. Temos a ver com religiões de mercado que obedecem à lógica do mercado que é a concorrência e o arrebanhamento do número maior possível de pessoas com a mais eficaz acumulação de dinheiro líquido possível.
Se bem repararmos, para a maioria destas igrejas mediáticas, o Novo Testamento raramente é referido. O que vigora mesmo é o Antigo Testamento. Entende-se o porquê. O Antigo Testamento, exceto os profetas e de outros textos, enfatiza especialmente o bem estar material como expressão do agrado divino. A riqueza ganha centralidade. O Novo Testamento exalta os pobres, prega a misericórdia, o perdão, o amor ao inimigo e a irrestrita solidariedade para com os pobres e caídos na estrada. Onde que se ouve, até nos programas católicos, as palavras do Mestre: "Felizes vocês, pobres, porque de vocês é o Reino de Deus"?
Fala-se demais de Jesus e de Deus, como se fossem realidade disponíveis no mercado. Tais realidades sagradas, por sua natureza, exigem reverência e devoção, o silêncio respeitoso e a unção devota. O pecado que mais ocorre é contra o segundo mandamento:"não usar o santo nome de Deus em vão". Esse nome está colado nos vidros dos carros e na própria carteira de dinheiro, como se Deus não estivesse em todos os lugares. É Jesus para cá e Jesus para lá numa banalização desacralizadora irritante.
O que mais dói e verdadeiramente escandaliza é usar o nome de Deus e de Jesus para fins estritamente comerciais. Pior, para encobrir falcatruas, roubo de dinheiro público e de lavagem de dinheiro. Há quem possui um empresa cujo título é "Jesus". Em nome de "Jesus" se amealharam milhões em propinas, escondidas em bancos estrangeiros e outras corrupções envolvendo bens públicos. E isso é feito no maior descaramento.
Se Jesus estivesse ainda em nosso meio, seguramente, faria o que fez com os mercadores do templo: tomou o chicote e os pôs a correr além de derrubar suas bancas de dinheiro.
Por estes desvios de uma realidade sagrada, perdemos a herança humanizadora das Escrituras judeo-cristãs e especialmente o caráter libertador e humano da mensagem e da prática de Jesus. A religião pode fazer o bem melhor mas também pode fazer o mal pior.
Sabemos que a intenção originária de Jesus não era criar uma nova religião. Havia muitas no tempo. Nem pensava reformar o judaismo vigente. Ele quis nos ensinar a viver, orientados pelos valores presentes em seu sonho maior, o do Reino de Deus, feito de amor incondicional, misericórdia, perdão e entrega confiante a um Deus, chamado de "Paizinho" (Abba em hebraico) com características de mãe de infinita bondade. Ele colocou em marcha a gestação do homem novo e da mulher nova, eterna busca da humanidade.
Como o livro dos Atos dos Apóstolos o mostra, o Cristianismo inicialmente era mais movimento que instituição. Chamava-se o "caminho de Jesus", realidade aberta aos valores fundamentais que pregou e viveu. Mas na medida em que o movimento foi crescendo, fatalmente, se transformou numa instituição, com regras, ritos e doutrinas. E aí o poder sagrado (sacra potestas) se constituíu em eixo organizador de toda a instituição, agora chamada Igreja. O caráter de movimento foi absorvido por ela. Da história aprendemos que lá onde prevalece o poder, desaparece o amor e se esvai a misericórdia. Foi o que infelizmente aconteceu. Hobbes nos alertou que o poder só se assegura buscando mais e mais poder. E assim surgiram igrejas poderosas em instituições, monumentos, riquezas materiais e até bancos. E com o poder a possibilidade da corrupção.
Estamos assistindo a uma novidade que cabe saudar: o Papa Francisco nos está resgatando o Cristianismo mais como movimento do que como instituição, mais como encontro entre as pessoas e com o Cristo vivo e a misericórdia ilimitada que a férrea disciplina e doutrina ortodoxa. Ele colocou como Jesus, a pessoa no centro, não o poder, nem o dogma, nem o enquadramento moral. Com isso permitiu que todos, mesmo não se incorporando à instituição, podem se sentir no caminho de Jesus na medida em que optam pelo amor e pela justiça.


Postado nesse recanto em 21/12/2016 por Levi B. Santos www.levibronze.blogspot.com 




terça-feira, 15 de novembro de 2016

"quando te converteres, fortalece os teus irmãos"




Segundo o Evangelho de Lucas, os discípulos de Jesus chegaram a disputar entre si sobre qual deles seria o maior. Mesmo tendo andado com o Senhor por três anos e meio, eles ainda cometiam muitas imaturidades sem compreenderem os profundos ensinamentos que receberam acerca do Reino de Deus. Por isso, o Mestre alerta Pedro sobre o que estava para acontecer com o grupo depois que ele viesse a ser preso:

"Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos. Ele, porém, respondeu: Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte. Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante." (Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos de 31 a 34; versão e tradução ARA)

Como podemos ver, Pedro pensava que seria suficientemente forte e corajoso para estar ao lado de Jesus diante de qualquer circunstância adversa que se apresentasse. O discípulo expôs uma visão errada de si mesmo e era ainda incapaz de reconhecer  as debilidades que tinha. Penso, inclusive, que nem Simão e nem os demais conheciam ainda em essência o que significa seguir a Cristo.

No entanto, Jesus era um profundo conhecedor da alma humana. Ele sabia das vulnerabilidades e incapacidades de cada integrante de seu grupo e, ainda assim, apostou naquele coletivo bem problemático. Quando os escolheu para apóstolos (Lc 6:12-16), o Mestre preferiu contar com homens simples e humildes do que com religiosos de elevada reputação, tipo os fariseus, ou com os doutores da Lei, os quais eram considerados os teólogos da época.

De fato, Jesus precisou ter grande fé para acreditar no trabalho que os seus seguidores desenvolveriam depois dele. Todos demonstravam uma patente infantilidade espiritual naquela última noite na companhia física do Mestre, mas, apesar disto, o Senhor continuou contando com praticamente todos os membros da equipe afim de que transmitissem ao mundo a mensagem revolucionária das boas-novas do Reino de Deus.

O que muito me chama a atenção nesta passagem bíblica em estudo é o fato de Jesus querer contar com Pedro para fortalecer os ânimos dos demais discípulos (verso 32). O apóstolo que negou confessionalmente o Senhor por três vezes (suponho que tenha sido mais pela vergonha do que pelo medo), tomaria posteriormente uma atitude oposta. Simão faria algo que, sob certo aspecto, podemos identificar como parte do exercício natural da liderança.

Igualmente vejo Deus agindo conosco de uma maneira bem semelhante. As nossas fraquezas passam a ser usadas para ajudar pessoas que sofrem dificuldades parecidas com a nossa. Quem um dia achava-se envolvido com o uso de drogas, com a prática de crimes, meretrício ou com qualquer outro caminho de perdição, pode vir a se tornar um atuante ganhador de almas através de seu testemunho de vida/salvação. Aliás, pessoas que passaram por experiências assim, em via de regra, costumam ser livres das inibições do falso moralismo que tanto paralisa a Igreja e impede muitos crentes de se aproximarem verdadeiramente de quem se encontra caído.

Recordo que, alguns anos atrás, assisti na TV um pouco da história de um ex-desmatador que havia então se tornado um ambientalista. Após ter passado anos de sua vida derrubando florestas, ele resolveu deixar de lado a motosserra para plantar árvores. Tornou-se um agente da preservação da natureza trabalhando firmemente pela recuperação dos nossos ecossistemas nativos.

Assim também desejo que sejamos plantadores de coisas boas. O mesmo potencial que temos para a prática da maldade pode ser igualmente usado para o bem. Para tanto torna-se necessário o arrependimento e a mudança de mentalidade (conversão). A Deus devemos sujeitar a condução de qualquer ministério sendo certo que, se cultivarmos uma postura de humildade e de dependência do nosso Criador, até as nossas fraquezas serão usadas para o seu elevado propósito.

Tenham todos um ótimo final de feriado abençoado com a mais profunda paz!


OBS: A ilustração acima refere-se a um mosaico anônimo do século VI encontrado na Basílica de Santo Apolinário Novo, província de Ravena, Itália. Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Apollinare_Nuovo_Christ_Peter_and_Peter_s_Denial.jpg 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O Deus que deu "uivos" por Moabe



"Por isso, uivarei por Moabe, sim, gritarei por todo o Moabe; pelos homens de Quir-Heres lamentarei. Mais que a Jazer, te chorarei a ti, ó vide de Sibma" (Jr 48:31-32a; ARA)

capítulo 48 do livro de Jeremias é dedicado ao julgamento de Deus sobre a nação dos moabitas.

Moabe era um país à leste de Israel, situado às margens orientais do Mar Morto. De acordo com a Bíblia, seu povo descendia de Ló, sobrinho de Abraão, da mesma maneira como eram os amonitas (Gn 19:30-38). Porém, essa consciência sobre ser uma nação-irmã de Israel foi perdida tempos depois. Nos anos que seguiram ao êxodo egípcio, quando os hebreus preparavam-se para conquistar Canaã, Balaque, rei dos moabitas, adotou uma política hostil ao povo de Deus. Contam os capítulos 22 a 24 do livro de Números ter o monarca contratado o mercenário Balaão para que este amaldiçoasse o acampamento dos israelitas, mas o Eterno impediu que qualquer palavra negativa fosse proferida neste sentido.

Por tal motivo teria se criado uma inimizade histórica entre Israel e Moabe a ponto dos moabitas serem excluídos de participação na santa assembleia do Senhor (Dt 23:3-6). E, após a posse da Terra Prometida, muitas foram as guerras entre os dois países havendo nas Escrituras Sagradas o relato de domínio sob outro rei moabita de nome Eglom (Jz 3:12-14) bem como o registro de diversos conflitos no período da dinastia davídica. A rivalidade foi tanta a ponto do salmista chamar pejorativamente Moabe de "bacia de lavar" (ler Sl 60:8; 108:9).

Mesmo na época de Jeremias, no século IV a.C, os moabitas permaneciam orgulhosos e arrogantes (Jr 48:29). No oráculo do profeta dá para entendermos ter Moabe exultado com a destruição de Israel devido à comparação feita no versículo 13. Algo que se esclarece melhor quando avançamos na leitura:

"Moabe se revolverá no seu vômito e será ele também objeto de escárnio. Pois Israel não te foi também objeto de escárnio?" (Jr 48:26b-27a)

Ora, mas será que agradou ao coração do Senhor ver a destruição das cidades de Moabe pelo exército dos caldeus? Certamente que não! Pois o próprio texto inicialmente citado revela-nos que Deus teria uivado por Moabe, o que significava um gesto de lamentação na cultura do antigo Oriente Próximo. E o verso 36 assim nos diz:

"Por isso, o meu coração geme como flautas por causa de Moabe, e como flautas geme por causa dos homens de Quir-Heres" (Jr 48:36a)

Meu amigo leitor, não creio que esses sentimentos de Deus pelos inimigos de Israel, conforme captados pelo autor bíblico, sejam explicados pelo simples fato de Moabe descender do sobrinho do patriarca Abraão. Tão pouco seria porque Obede, o avô de Davi, foi gerado de um ventre moabita (Rute) ou ter esse herói israelita procurado refúgio entre o povo de sua bisavó quando escapava da implacável perseguição de Saul (1Sm 22:3-4). Porém, acredito que a resposta reside no amor misericordioso do Altíssimo. Isto porque o Criador bendito não se compraz com a morte do perverso, mas deseja que todos se arrependam e vivam eternamente diante de sua Presença.

Assim como Moabe deixou de existir como nação, muitos têm hoje se perdido por não darem ouvidos à voz de Deus. Caminham obstinados para o abismo pois a escuridão cega-lhes os olhos. Tornam-se com isso escravos das próprias compulsões egoístas esquecendo-se dos bons princípios éticos escritos pelo Criador antes da fundação do mundo afim de que fossem observados pelo homem.

Entretanto, Jesus Cristo veio salvar o perdido!

Vivendo numa época tão opressora quanto foram os dias de Jeremias, o Mestre anunciou suas boas novas aos pecadores. Falou ao coração das ovelhas desgarradas de seu povo sobre uma nova oportunidade para que se reconciliassem com Deus porque o Reino "é chegado". A sofrida morte na cruz veio a se tornar a maior prova desse amor sem fim que o Pai Eterno sente por todos nós. Pois, na teologia cristã, trata-se do próprio Ser Divino fazendo-se presente na figura humana de seu Messias para sofrer substitutivamente aquilo que seria a pena de todos nós abolindo-a de uma vez por todas. Logo, dentro desta nova maneira de ver a realidade, todos passam a se encontrar debaixo da graça, por mais que se tenha cometido no passado os piores delitos.

Quer alguém entenda o sacrifício de Cristo como um evento histórico-literal ou meramente simbólico, pouco importa desde que se assimile a essência do seu rico significado. Vale é que temos aí uma inegável expressão graciosa da bondade divina, a qual também se encontra no precioso oráculo de Jeremias. Pois apesar do juízo profetizado contra Moabe, nota-se, no texto bíblico, o amor incondicional por uma nação pagã capaz que é capaz superar qualquer consequência dolorosa decorrente das veredas errantes. Por isso o capítulo encerra com a promessa da mudança sorte de Moabe (verso 47), algo que se torna extensivo também aos perversos amonitas (Jr 49:6). Ou seja, Deus não desiste de nenhum de seus filhos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao mapa em inglês, licenciado pela Creative Commons, sobre os antigos reinos de Judá e de Israel por volta de 830 a.C., no qual consta o território da nação de Moabe em coloração marrom. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Kingdoms_around_Israel_830_map.svg

domingo, 21 de agosto de 2016

Manter-se sábio diante do "vinho"



"Disse comigo mesmo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade. Do riso disse: é loucura; e da alegria: de que serve? Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria, e entregar-me à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida." (Eclesiastes 2:1-3; ARA)

Entre o primeiro e o terceiro capítulos do livro bíblico de Eclesiastes, há várias partes que tratam sobre o trabalho e a sabedoria com foco na ideia de que, apesar da satisfação que encontramos em nos realizar nesta vida, qualquer ganho é cancelado pelo evento morte. Assim, nos onze primeiros versos do capítulo 2, o autor fala da vaidade das possessões e usa a metáfora do vinho.

Na história de Israel, o vinho sempre teve reconhecida a sua importância sócio-cultural. Embora a Bíblia contenha advertências diversas sobre o mal da embriaguez, jamais as Sagradas Escrituras censuraram as pessoas pela ingestão da bebida alcoólica. Por isso, muitas festas típicas do povo judeu sempre foram regadas a vinho assim como os casamentos. Aliás, na cerimônia celebrada pelo rabino, é costume oferecer dois cálices aos nubentes sobre os quais são recitadas as sete bênçãos (Nessuin Shevah Brachot) que simbolizam os sete dias da criação do mundo, a transformação da matéria para formar o ser humano, assim como a criação da mulher, que assegura a continuidade da espécie. 

Tal como no uso do vinho, há que se ter a devida cautela ou moderação diante das alegrias da vida. Ou seja, o que Salomão está dizendo na passagem citada é que, na experimentação das coisas prazerosas, não se pode negligenciar a orientação protetora da sabedoria, sendo fundamental mantermos a consciência de que as realizações terrenas não são de fato satisfatórias por razões de transitoriedade.

Acredito que manter esse entendimento, em nada prejudica o aproveitamento do que é bom. Pelo contrário, permite que possamos degustar melhor o sabor das coisas. Pois, da mesma maneira que um homem embriagado já não distingue mais as características de uma bebida fina, perdemos a boa percepção dos alegres momentos quando nos deixamos dominar pela matéria. Isto porque, neste caso, tornamo-nos escravos das riquezas e dos prazeres, os quais, não passam de "vento", segundo a linguagem metafórica do livro.

Ainda que a sabedoria e a insensatez sejam canceladas pela morte, melhor é viver como sábio do que permanecendo um estulto. Afinal, este ignora a "vaidade" das coisas enquanto o homem consciente consegue ser mais feliz sabendo quando se corre atrás do que é passageiro e aplicável tão somente a uma vida terrena.

Tenham todos uma ótima semana! 


OBS: Créditos autorais da imagem acima atribuídos a André Karwath, conforme consta no acervo virtual da Wikipédia em https://pt.wikipedia.org/wiki/Vinho#/media/File:Red_Wine_Glass.jpg

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Lacan e a Teologia Judaico-cristã






O francês, Jacques Lacan, filho de pais católicos, sob o pretexto de retornar o estudo da psicanálise onde o pai da psicanálise tinha deixado, empreendeu uma releitura do inconsciente freudiano surpreendentemente muito próxima dos conceitos da Teologia Judaico-cristã.

Mas o que levou Lacan a se interessar tanto pela Teologia Cristã, da qual o “Judeu infiel”, Freud, passou ao largo? Ressalte-se, aqui, que o Judaísmo de Freud nunca deixou de estar presente em seu inconsciente, como denota essa afirmação que fez em 1927: “o pai sempre esteve oculto por trás de toda figura divina, como seu núcleo”.

Lacan, por seu turno, empreendeu uma exegese pós moderna da bíblia. Foi com o auxílio da linguística que conseguiu realizar uma interpretação psicanalítica dos textos bíblicos mais articulada que a de Freud, que considerava os rituais religiosos uma neurose obsessiva.

No polêmico seminário “Nomes do Pai” , Lacan afirmou: “… É diante desse Deus (judaico) que Freud se deteve”.

Contudo, no que diz respeito ao Corão, tanto Freud quanto Lacan permaneceram praticamente mudos, talvez, quem sabe, pela razão de os muçulmanos não perceberem Deus como Pai, como também pela sua total rejeição à família da Santíssima Trindade. Os que seguem o Corão não admitem que Deus seja pai do messias cristão. O conceito de “Pai Celeste” para o muçulmano é uma blasfêmia. O Corão não comporta a dedução psicanalítica de que Deus é um “Pai Simbólico ou imaginário”, sucedâneo do pai natural, ou tutor, que a criança um dia teve, e que lá dos arquivos profundos e impossíveis de ser delatados da psique do adulto ocidental, continua a emitir suas ressonâncias.

Nos países Islâmicos é mais complicado, não porque os muçulmanos não tenham inconsciente. O fato é que um xiita em crise jamais procuraria um analista. É mais provável que procurasse um líder religioso” disse Renato Mezan, em uma entrevista em 2006.

Jacques Lacan, no seminário 11 (falando sobre o Sujeito e o Outro) disse uma grande verdade: “cada um de nós é um Eu somente porque há um conceito de outro” ou seja, é pela existência do outro que definimos e redefinimos a nós mesmos.” Para Lacan o sujeito é sempre um efeito da linguagem de um Outro que lhe antecede. “Quanto mais o sujeito tenta resgatar a si mesmo, buscando a verdade de sua conduta, mais depara com algo não seu, que vem do outro”. O sujeito ao nascer no campo do outro a sua linguagem, em consequência, vai ser portadora dos significantes materno e paterno.

Não sei, mas pode ter sido as raízes do catolicismo bem plantadas em sua infância que intuiu em Jacques Lacan a ideia de criar o conceito de um “Grande Outro”. O que seria esse “Grande Outro” senão a imago paterna do Deus católico que nomeia mas não é nomeado, como fez seu pai, um padre católico que, em homenagem ao Grande Jacó, o nomeou de Jacques Jacó, em sua variante francesa.

Ao enunciar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem Lacan evoca a Teologia Judaico cristã. Valeu-se da interpretação metafórica do “...no início era a Palavra do prólogo do evangelho de João para explicar a esfera do inconsciente. Se no início era a palavra, pode-se concluir que o inconsciente tem a ver com a linguagem. Françoise Dolto (pediatra e psicanalista das crianças que perderam seus pais na primeira grande guerra mundial), em seu livro Tudo é Linguagem, disse: tudo que se refere ao agir das pessoas, ao que elas dizem, ao seu comportamento, estrutura a criança”.

A influência do catecismo católico que manejava quando criança, fez-se presente em suas elaborações psicanalíticas. Não foi à toa que em um dos seus mais concorridos seminários, denominado por ele Nomes do Pai, Jacques Lacan assim se referiu: “...é importante apontar que o conceito 'O-Nome-do-Pai' tem a ver com a religião e não com a ciência”. Ele considerava um paradoxo precioso o fato de o pai dar a seus filhos e filhas o nome pelo qual os judeus se referiam a Deus.

O trecho replicado abaixo, que trata principalmente do conceito “Nome do Pai”, evidencia o quanto ele bebeu da tradição judaica na formulação de seus conceitos psicanalíticos:

O Nome-do-Pai” é o próprio nó. E o que é um nó? É um furo e uma modulação em torno deste furo. O nome próprio é um furo(como a coisa não tem nome, dá-se um nome à ausência da coisa). Os judeus são muito claros a respeito daquilo que chamam de Pai. Enfiam-no em algum lugar do furo que não podemos sequer imaginar: Eu sou o que sou” isto é um furo, não é? Um furo(…) engole as coisas, e às vezes torna a cuspi-las. O que ele cospe? O Nome, o Pai como um nome”.

Quando afirma que o nome do Pai é um furo ele se reporta ao vazio do interior do vaso. O espaço vazio do vaso é estruturante. O furo deve permanecer lá, contornado pelas paredes do vaso. Adorar o contorno do furo, é o mesmo que idolatrar Deus ou fazer Dele um ídolo. Afinal, o que interessa é que o furo é um furo, como o célebre “Eu sou o que sou” relatado no livro de Gênesis.

Sobre os conceitos psicanalíticos criados por Jacques Lacan, Elisabeth Roudinesco, autora de sua única biografia, assim se referiu: “esta doutrina pertence a tradição cristã”.

Na páscoa de 1953 Lacan redigiu uma carta a seu irmão beneditino na qual reivindicava nas entrelinhas e sem ambiguidade o pertencimento de sua doutrina, à tradição cristã”. (Gérard Haddad)

A tradição judaico-cristã em suas obras falou tão alto, que o título Escritos posto na Capa do seu primeiro camalhaço, foi considerado por muitos dos seus seguidores, uma homenagem a velha bíblia de estudos em hebraico que levava sempre consigo a tiracolo, em cuja capa principal reluzia em letras douradas: “Escrituras Sagradas”

Gérard Hadadd, em O Pecado Original da Psicanálise - (Editora Civilização Brasileira -2012), nos dá uma ideia de como a vivência religiosa estava tão profundamente arraigada no inconsciente lacaniano. Diz Hadadd:

Em 1941, Sylvia, esposa de Lacan dá a luz a uma filha a quem ele chamou Judith, um perfeito nome judeu, já que significa simplesmente judia. Lacan queria uma filha, filha de Israel, e que disso trouxe a insígnia. Uma tal escolha não deixa de ser audaciosa e imprudente, naqueles anos em que o antissemitismo matava sem intimação”.

Em O Triunfo da Religião, Lacan, enfim, reconhece “o poder da religião ao dar um sentido às formas mais insólitas da experiência humana”. Entretanto, não deixa de dar uma alfinetada ao dissertar sobre o lado avesso da função consoladora da religião:

a religião é feita para isso, para curar os homens, isto é, para que não percebam o que não funciona”.

Ao forjar a célebre pergunta “O que o Outro quer de mim?”, Lacan, com o auxílio da linguística, pode perceber claramente que o inconsciente é o discurso do outro. Bem antes, ele já entendia que na psique do seguidor da cultura judaico-cristã, o inconsciente era estruturado como o discurso ou o Desejo de um Grande Outro, arquétipo que no mundo ocidental costuma ser chamado Deus, ou Pai celestial. No Cristianismo, é o desejo internalizado de um Grande Outro a que se refere Lacan ou de um Pai, (da tradição judaico cristã), que prevalece sobre o desejo do Filho: “… contudo não seja feita a minha vontade, mas a tua.” (Lucas 22. 41-42) A ambivalência do homem nascido na cultura judaico-cristã que projetava em seu Deus Desejos e contradesejos exercia uma tremenda fascinação em Lacan. Fascinação essa advinda de seus próprios afetos ambivalentes: é que ele sentia tanto empatia quanto antipatia à religião dos judeus. Quando retornou a falar sobre seu concorrido seminário O Avesso da Psicanálise em numa longa entrevista em 1968, fez questão de acentuar a semelhança entre o midrash, a arte judaica de ler a Bíblia, e a psicanálise.

Gérard Haddad, um dos discípulos mais famosos de Lacan, foi, talvez, quem mais disseminou pelo mundo o conteúdo dos seminários lacanianos e sua correspondência com a religião deduções conceituais, em sua maioria, atreladas aos símbolos da cultura judaico-cristã. Sobre as incursões exegéticas psicológicas que Lacan empreendeu nas muitas leituras de sua Bíblia em hebraico, Haddad chegou a dizer algo emblemático em sua obra “O Pecado Original da Psicanálise”:

Não é ilegítimo considerar a psicanálise, sobretudo na sua origem, como produzida por essa Coisa judaica. Ela nasceu justamente sobre as ruínas do judaísmo e alimentou-se de seus restos. […] O mito fundador do judaísmo, o “sacrifício de Abraão”, Lacan transformou no equivalente do Complexo de Édipo, como mostra esse trecho de sua obra escrita em 1938, Os Complexos Familiares na Formação do Indivíduo (Outros Escritos Lacan Zahar editora, edição 2003): '[…] ao advento da autoridade paterna corresponde uma moderação da repressão social primitiva. Legível na ambiguidade mítica do sacrifício de Abraão, que, além do mais, o liga fundamentalmente a expressão de uma promessa, esse sentido não é menos visível no mito de Édipo'”.

O certo é que Lacan tomou emprestado muitos elementos míticos da cultura judaico-cristã para elaborar sua exegese psicoteológica, como o autor do livro das Edições Loyola “A Bíblia Pós Moderna – Bíblia e Cultura Coletiva(página 202), faz ver:

Uma dificuldade no desenvolvimento de um discurso psicanalítico apropriado a textos teológicos surge porque o conteúdo inconsciente é, em grande parte, visto de forma não discursiva, em termos de campos de força, imagens e arquétipos, e, por isso, não podem ser lidos da mesma forma que a linguagem teológica. É exatamente aqui que Lacan revela a possibilidade de unir o inconsciente ao discurso teológico… Lacan atribui caráter linguístico e textual ao próprio inconsciente. Nessa perspectiva, textos teológicos e manifestações do inconsciente são homólogos e abertos à estratégias interpretativas comuns”.

Em 1991, na comemoração dos dez anos da morte do pensador e católico rebelde Jacques Lacan, a revista CULT nº 77, publicou o artigo Um Morto Contra a Morte” de autoria do psicanalista Fabio Herrmann , encimado por um subtítulo ousado e provocador, que reproduzo abaixo:

Lacan é como Cristo que fala por parábolas, para que, nesse caso, tendo ouvidos para ouvir, não ouçam aqueles que não merecem”.

No seu resumido artigo, sobre as analogias que Lacan, em seus longos e enigmáticos seminários, fez da Teologia Judaico-Cristã com a Psicanálise, assim se expressou Fabio Herrmann:

...a obscuridade do cânon interpretativo propicia, inelutavelmente, o efeito magistral: na incerteza, faz-se mister um intérprete autorizado, já que a evidência se escondeu. Como nas religiões, o sentido vago favorece a proliferação de mestres e discípulos”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de agosto de 2016


domingo, 17 de julho de 2016

A evolução de Deus



"E sucedeu que o Senhor arrependeu-se do mal que ameaçara trazer sobre o povo."  (Êxodo 32:14; NVI)

Sem querer aqui gerar controvérsias quanto à ideia da imutabilidade de Deus, tida praticamente como um dogma em todo o cristianismo, pretendo promover uma breve reflexão sobre a conceituação que construímos sobre a Divindade, a qual certamente evoluei acompanhando a nossa trajetória humana.

Na Bíblia, mais precisamente nos livros de Moisés, temos narrativas em que Deus teria se "arrependido" de seus feitos ou intenções ao mesmo tempo em que, na passagem de Números 23:19, nega-se qualquer possibilidade de arrependimento por parte do Senhor. Para explicar tais divergências, há na Teologia vários argumentos, inclusive sobre a tradução do hebraico para o português, o que não me interessaria tratar aqui porque não corresponde ao meu objetivo com esse texto.

Entretanto, quando consideramos os livros sagrados como uma coletânea de impressões humanas sobre a Divindade, torna-se fácil concordar com o citado arrependimento de Deus bem como com a maneira pela qual o Eterno passa a lidar com seu povo no avançar da história mítica de Israel. É o que fica caracterizado nos escritos dos profetas a exemplo do início do livro de Naum sobre a ira do Senhor contra os inimigos da nação:

"O Senhor é Deus zeloso e vingador; o Senhor é vingador e cheio de furor; o Senhor toma vingança contra os seus adversários, e guarda a ira contra os seus inimigos. O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente; o Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés." (Naum 1:2-3; ACR)

Tem-se com isso a ideia de uma Divindade nacional vingadora dos adversários embora disciplinadora do próprio povo. Se os israelitas guardassem os mandamentos, seriam abençoados na terra. Porém, caso viessem a se desviar, iriam ser lançados fora de Canaã, sofrendo de vários males como consta no capítulo 26 do livro de Levítico:

"Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, Então eu vos darei as chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua colheita, e a árvore do campo dará o seu fruto (...) Mas, se não me ouvirdes, e não cumprirdes todos estes mandamentos, E se rejeitardes os meus estatutos, e a vossa alma se enfadar dos meus juízos, não cumprindo todos os meus mandamentos, para invalidar a minha aliança, Então eu também vos farei isto: porei sobre vós terror, a tísica e a febre ardente, que consumam os olhos e atormentem a alma; e semeareis em vão a vossa semente, pois os vossos inimigos a comerão." (Levítico 26:3-4,14-16; op. cit.)

A meu ver, nenhuma dessas ideias é de se desprezar pelos atuais estudiosos da Bíblia. Pois, muito pelo contrário, elas devem ser vistas como leituras que o homem antigo fazia da realidade em que significava o relacionamento ético com Deus e com o próximo, quer no plano individual ou coletivo. Deste modo, se determinados princípios de vida fossem observados, eles seriam bem sucedidos no que realizassem.

Mas, ainda nas Escrituras Hebraicas, verifica-se nos livros de sabedoria, principalmente em Eclesiastes, que a concepção de uma Divindade castigadora dos maus e recompensadora dos justos torna-se passível de questionamento já que o infortúnio e as coisas boas da vida podem ocorrer com qualquer pessoa: 

"Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los." (Eclesiastes 9:2; NVI)

Posteriormente, no cristianismo, a mudança conceitual sobre Deus foi tão grande que criou uma nova religião distinta do Judaísmo, seja porque rompeu com valores culturais próprios dos israelitas como também pela outra visão de mundo que o Novo Testamento trouxe junto com as doutrinas posteriores da Igreja. E, sem pretender afirmar que uma tradição seja superior a outra (até porque o Judaísmo igualmente evoluiu nesses últimos dois milênios), podemos considerar que houve a adoção de pensamentos mais inclusivos para que fossem colocados no Reino os impuros pecadores e as nações gentílicas. Claro que todos condicionados a um proselitismo religioso dependente da conversão pelo exercício da fé assim como os judeus de nascimento precisariam "nascer de novo".

Já nas últimas décadas, em que pese o fundamentalismo pentecostal de muitas igrejas evangélicas, surgiu a tendência de despir Deus de qualquer religião. No catolicismo romano, por exemplo, para neutralizar os efeitos do dogma papal de que "fora da Igreja não há salvação", surgiu a ideia de "cristãos anônimos", expressão típica da teologia do jesuíta alemão Karl Rahner (1904 - 1984). Com seu lúcido pensamento, ganhou força no meio cristão a aceitação do ecumenismo e da pluralidade de crenças, ainda que poucos hoje em dia o considerem (mesmo entre os católicos).

Acredito que essa conceituação evolutiva sobre a Divindade nunca terminará pois se trata de uma busca e de uma construção sempre transcendentes no homem, embora tenhamos as nossas limitações para compreender a perfeição. Pois o que conseguimos alcançar de que seria mais elevado encontra-se perceptível apenas em nós mesmos pela prática do amor fraternal, quando vivido de maneira ampla e universal. Afinal, se somos capazes de aceitar o outro, independentemente de nacionalidade, etnia, credo religioso, classe social ou orientação sexual, desejando estender a salvação até para os que não vieram a reconhecer o senhorio de Jesus Cristo, por que Deus estaria num plano inferior ao nosso fazendo acepção de pessoas?

Para concluir, torço muito por essa evolução humana acerca das ideias sobre a Divindade. Pois ainda projetamos em Deus muitos dos nossos recalques, frustrações e sentimentos de intolerância, além das ideologias que seguimos. Só que nenhuma destas vestes resistem diante do Transcendente cuja extensão infinita  encontra-se para além dos nossos olhares físicos ou metafísicos.

Uma ótima semana a todos!


OBS: Ilustração acima extraída de http://www.webalice.it/bmaurys/cristo.gif