terça-feira, 15 de novembro de 2016

"quando te converteres, fortalece os teus irmãos"




Segundo o Evangelho de Lucas, os discípulos de Jesus chegaram a disputar entre si sobre qual deles seria o maior. Mesmo tendo andado com o Senhor por três anos e meio, eles ainda cometiam muitas imaturidades sem compreenderem os profundos ensinamentos que receberam acerca do Reino de Deus. Por isso, o Mestre alerta Pedro sobre o que estava para acontecer com o grupo depois que ele viesse a ser preso:

"Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos. Ele, porém, respondeu: Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte. Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante." (Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos de 31 a 34; versão e tradução ARA)

Como podemos ver, Pedro pensava que seria suficientemente forte e corajoso para estar ao lado de Jesus diante de qualquer circunstância adversa que se apresentasse. O discípulo expôs uma visão errada de si mesmo e era ainda incapaz de reconhecer  as debilidades que tinha. Penso, inclusive, que nem Simão e nem os demais conheciam ainda em essência o que significa seguir a Cristo.

No entanto, Jesus era um profundo conhecedor da alma humana. Ele sabia das vulnerabilidades e incapacidades de cada integrante de seu grupo e, ainda assim, apostou naquele coletivo bem problemático. Quando os escolheu para apóstolos (Lc 6:12-16), o Mestre preferiu contar com homens simples e humildes do que com religiosos de elevada reputação, tipo os fariseus, ou com os doutores da Lei, os quais eram considerados os teólogos da época.

De fato, Jesus precisou ter grande fé para acreditar no trabalho que os seus seguidores desenvolveriam depois dele. Todos demonstravam uma patente infantilidade espiritual naquela última noite na companhia física do Mestre, mas, apesar disto, o Senhor continuou contando com praticamente todos os membros da equipe afim de que transmitissem ao mundo a mensagem revolucionária das boas-novas do Reino de Deus.

O que muito me chama a atenção nesta passagem bíblica em estudo é o fato de Jesus querer contar com Pedro para fortalecer os ânimos dos demais discípulos (verso 32). O apóstolo que negou confessionalmente o Senhor por três vezes (suponho que tenha sido mais pela vergonha do que pelo medo), tomaria posteriormente uma atitude oposta. Simão faria algo que, sob certo aspecto, podemos identificar como parte do exercício natural da liderança.

Igualmente vejo Deus agindo conosco de uma maneira bem semelhante. As nossas fraquezas passam a ser usadas para ajudar pessoas que sofrem dificuldades parecidas com a nossa. Quem um dia achava-se envolvido com o uso de drogas, com a prática de crimes, meretrício ou com qualquer outro caminho de perdição, pode vir a se tornar um atuante ganhador de almas através de seu testemunho de vida/salvação. Aliás, pessoas que passaram por experiências assim, em via de regra, costumam ser livres das inibições do falso moralismo que tanto paralisa a Igreja e impede muitos crentes de se aproximarem verdadeiramente de quem se encontra caído.

Recordo que, alguns anos atrás, assisti na TV um pouco da história de um ex-desmatador que havia então se tornado um ambientalista. Após ter passado anos de sua vida derrubando florestas, ele resolveu deixar de lado a motosserra para plantar árvores. Tornou-se um agente da preservação da natureza trabalhando firmemente pela recuperação dos nossos ecossistemas nativos.

Assim também desejo que sejamos plantadores de coisas boas. O mesmo potencial que temos para a prática da maldade pode ser igualmente usado para o bem. Para tanto torna-se necessário o arrependimento e a mudança de mentalidade (conversão). A Deus devemos sujeitar a condução de qualquer ministério sendo certo que, se cultivarmos uma postura de humildade e de dependência do nosso Criador, até as nossas fraquezas serão usadas para o seu elevado propósito.

Tenham todos um ótimo final de feriado abençoado com a mais profunda paz!


OBS: A ilustração acima refere-se a um mosaico anônimo do século VI encontrado na Basílica de Santo Apolinário Novo, província de Ravena, Itália. Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Apollinare_Nuovo_Christ_Peter_and_Peter_s_Denial.jpg 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O Deus que deu "uivos" por Moabe



"Por isso, uivarei por Moabe, sim, gritarei por todo o Moabe; pelos homens de Quir-Heres lamentarei. Mais que a Jazer, te chorarei a ti, ó vide de Sibma" (Jr 48:31-32a; ARA)

capítulo 48 do livro de Jeremias é dedicado ao julgamento de Deus sobre a nação dos moabitas.

Moabe era um país à leste de Israel, situado às margens orientais do Mar Morto. De acordo com a Bíblia, seu povo descendia de Ló, sobrinho de Abraão, da mesma maneira como eram os amonitas (Gn 19:30-38). Porém, essa consciência sobre ser uma nação-irmã de Israel foi perdida tempos depois. Nos anos que seguiram ao êxodo egípcio, quando os hebreus preparavam-se para conquistar Canaã, Balaque, rei dos moabitas, adotou uma política hostil ao povo de Deus. Contam os capítulos 22 a 24 do livro de Números ter o monarca contratado o mercenário Balaão para que este amaldiçoasse o acampamento dos israelitas, mas o Eterno impediu que qualquer palavra negativa fosse proferida neste sentido.

Por tal motivo teria se criado uma inimizade histórica entre Israel e Moabe a ponto dos moabitas serem excluídos de participação na santa assembleia do Senhor (Dt 23:3-6). E, após a posse da Terra Prometida, muitas foram as guerras entre os dois países havendo nas Escrituras Sagradas o relato de domínio sob outro rei moabita de nome Eglom (Jz 3:12-14) bem como o registro de diversos conflitos no período da dinastia davídica. A rivalidade foi tanta a ponto do salmista chamar pejorativamente Moabe de "bacia de lavar" (ler Sl 60:8; 108:9).

Mesmo na época de Jeremias, no século IV a.C, os moabitas permaneciam orgulhosos e arrogantes (Jr 48:29). No oráculo do profeta dá para entendermos ter Moabe exultado com a destruição de Israel devido à comparação feita no versículo 13. Algo que se esclarece melhor quando avançamos na leitura:

"Moabe se revolverá no seu vômito e será ele também objeto de escárnio. Pois Israel não te foi também objeto de escárnio?" (Jr 48:26b-27a)

Ora, mas será que agradou ao coração do Senhor ver a destruição das cidades de Moabe pelo exército dos caldeus? Certamente que não! Pois o próprio texto inicialmente citado revela-nos que Deus teria uivado por Moabe, o que significava um gesto de lamentação na cultura do antigo Oriente Próximo. E o verso 36 assim nos diz:

"Por isso, o meu coração geme como flautas por causa de Moabe, e como flautas geme por causa dos homens de Quir-Heres" (Jr 48:36a)

Meu amigo leitor, não creio que esses sentimentos de Deus pelos inimigos de Israel, conforme captados pelo autor bíblico, sejam explicados pelo simples fato de Moabe descender do sobrinho do patriarca Abraão. Tão pouco seria porque Obede, o avô de Davi, foi gerado de um ventre moabita (Rute) ou ter esse herói israelita procurado refúgio entre o povo de sua bisavó quando escapava da implacável perseguição de Saul (1Sm 22:3-4). Porém, acredito que a resposta reside no amor misericordioso do Altíssimo. Isto porque o Criador bendito não se compraz com a morte do perverso, mas deseja que todos se arrependam e vivam eternamente diante de sua Presença.

Assim como Moabe deixou de existir como nação, muitos têm hoje se perdido por não darem ouvidos à voz de Deus. Caminham obstinados para o abismo pois a escuridão cega-lhes os olhos. Tornam-se com isso escravos das próprias compulsões egoístas esquecendo-se dos bons princípios éticos escritos pelo Criador antes da fundação do mundo afim de que fossem observados pelo homem.

Entretanto, Jesus Cristo veio salvar o perdido!

Vivendo numa época tão opressora quanto foram os dias de Jeremias, o Mestre anunciou suas boas novas aos pecadores. Falou ao coração das ovelhas desgarradas de seu povo sobre uma nova oportunidade para que se reconciliassem com Deus porque o Reino "é chegado". A sofrida morte na cruz veio a se tornar a maior prova desse amor sem fim que o Pai Eterno sente por todos nós. Pois, na teologia cristã, trata-se do próprio Ser Divino fazendo-se presente na figura humana de seu Messias para sofrer substitutivamente aquilo que seria a pena de todos nós abolindo-a de uma vez por todas. Logo, dentro desta nova maneira de ver a realidade, todos passam a se encontrar debaixo da graça, por mais que se tenha cometido no passado os piores delitos.

Quer alguém entenda o sacrifício de Cristo como um evento histórico-literal ou meramente simbólico, pouco importa desde que se assimile a essência do seu rico significado. Vale é que temos aí uma inegável expressão graciosa da bondade divina, a qual também se encontra no precioso oráculo de Jeremias. Pois apesar do juízo profetizado contra Moabe, nota-se, no texto bíblico, o amor incondicional por uma nação pagã capaz que é capaz superar qualquer consequência dolorosa decorrente das veredas errantes. Por isso o capítulo encerra com a promessa da mudança sorte de Moabe (verso 47), algo que se torna extensivo também aos perversos amonitas (Jr 49:6). Ou seja, Deus não desiste de nenhum de seus filhos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao mapa em inglês, licenciado pela Creative Commons, sobre os antigos reinos de Judá e de Israel por volta de 830 a.C., no qual consta o território da nação de Moabe em coloração marrom. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Kingdoms_around_Israel_830_map.svg

domingo, 21 de agosto de 2016

Manter-se sábio diante do "vinho"



"Disse comigo mesmo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade. Do riso disse: é loucura; e da alegria: de que serve? Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria, e entregar-me à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida." (Eclesiastes 2:1-3; ARA)

Entre o primeiro e o terceiro capítulos do livro bíblico de Eclesiastes, há várias partes que tratam sobre o trabalho e a sabedoria com foco na ideia de que, apesar da satisfação que encontramos em nos realizar nesta vida, qualquer ganho é cancelado pelo evento morte. Assim, nos onze primeiros versos do capítulo 2, o autor fala da vaidade das possessões e usa a metáfora do vinho.

Na história de Israel, o vinho sempre teve reconhecida a sua importância sócio-cultural. Embora a Bíblia contenha advertências diversas sobre o mal da embriaguez, jamais as Sagradas Escrituras censuraram as pessoas pela ingestão da bebida alcoólica. Por isso, muitas festas típicas do povo judeu sempre foram regadas a vinho assim como os casamentos. Aliás, na cerimônia celebrada pelo rabino, é costume oferecer dois cálices aos nubentes sobre os quais são recitadas as sete bênçãos (Nessuin Shevah Brachot) que simbolizam os sete dias da criação do mundo, a transformação da matéria para formar o ser humano, assim como a criação da mulher, que assegura a continuidade da espécie. 

Tal como no uso do vinho, há que se ter a devida cautela ou moderação diante das alegrias da vida. Ou seja, o que Salomão está dizendo na passagem citada é que, na experimentação das coisas prazerosas, não se pode negligenciar a orientação protetora da sabedoria, sendo fundamental mantermos a consciência de que as realizações terrenas não são de fato satisfatórias por razões de transitoriedade.

Acredito que manter esse entendimento, em nada prejudica o aproveitamento do que é bom. Pelo contrário, permite que possamos degustar melhor o sabor das coisas. Pois, da mesma maneira que um homem embriagado já não distingue mais as características de uma bebida fina, perdemos a boa percepção dos alegres momentos quando nos deixamos dominar pela matéria. Isto porque, neste caso, tornamo-nos escravos das riquezas e dos prazeres, os quais, não passam de "vento", segundo a linguagem metafórica do livro.

Ainda que a sabedoria e a insensatez sejam canceladas pela morte, melhor é viver como sábio do que permanecendo um estulto. Afinal, este ignora a "vaidade" das coisas enquanto o homem consciente consegue ser mais feliz sabendo quando se corre atrás do que é passageiro e aplicável tão somente a uma vida terrena.

Tenham todos uma ótima semana! 


OBS: Créditos autorais da imagem acima atribuídos a André Karwath, conforme consta no acervo virtual da Wikipédia em https://pt.wikipedia.org/wiki/Vinho#/media/File:Red_Wine_Glass.jpg

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Lacan e a Teologia Judaico-cristã






O francês, Jacques Lacan, filho de pais católicos, sob o pretexto de retornar o estudo da psicanálise onde o pai da psicanálise tinha deixado, empreendeu uma releitura do inconsciente freudiano surpreendentemente muito próxima dos conceitos da Teologia Judaico-cristã.

Mas o que levou Lacan a se interessar tanto pela Teologia Cristã, da qual o “Judeu infiel”, Freud, passou ao largo? Ressalte-se, aqui, que o Judaísmo de Freud nunca deixou de estar presente em seu inconsciente, como denota essa afirmação que fez em 1927: “o pai sempre esteve oculto por trás de toda figura divina, como seu núcleo”.

Lacan, por seu turno, empreendeu uma exegese pós moderna da bíblia. Foi com o auxílio da linguística que conseguiu realizar uma interpretação psicanalítica dos textos bíblicos mais articulada que a de Freud, que considerava os rituais religiosos uma neurose obsessiva.

No polêmico seminário “Nomes do Pai” , Lacan afirmou: “… É diante desse Deus (judaico) que Freud se deteve”.

Contudo, no que diz respeito ao Corão, tanto Freud quanto Lacan permaneceram praticamente mudos, talvez, quem sabe, pela razão de os muçulmanos não perceberem Deus como Pai, como também pela sua total rejeição à família da Santíssima Trindade. Os que seguem o Corão não admitem que Deus seja pai do messias cristão. O conceito de “Pai Celeste” para o muçulmano é uma blasfêmia. O Corão não comporta a dedução psicanalítica de que Deus é um “Pai Simbólico ou imaginário”, sucedâneo do pai natural, ou tutor, que a criança um dia teve, e que lá dos arquivos profundos e impossíveis de ser delatados da psique do adulto ocidental, continua a emitir suas ressonâncias.

Nos países Islâmicos é mais complicado, não porque os muçulmanos não tenham inconsciente. O fato é que um xiita em crise jamais procuraria um analista. É mais provável que procurasse um líder religioso” disse Renato Mezan, em uma entrevista em 2006.

Jacques Lacan, no seminário 11 (falando sobre o Sujeito e o Outro) disse uma grande verdade: “cada um de nós é um Eu somente porque há um conceito de outro” ou seja, é pela existência do outro que definimos e redefinimos a nós mesmos.” Para Lacan o sujeito é sempre um efeito da linguagem de um Outro que lhe antecede. “Quanto mais o sujeito tenta resgatar a si mesmo, buscando a verdade de sua conduta, mais depara com algo não seu, que vem do outro”. O sujeito ao nascer no campo do outro a sua linguagem, em consequência, vai ser portadora dos significantes materno e paterno.

Não sei, mas pode ter sido as raízes do catolicismo bem plantadas em sua infância que intuiu em Jacques Lacan a ideia de criar o conceito de um “Grande Outro”. O que seria esse “Grande Outro” senão a imago paterna do Deus católico que nomeia mas não é nomeado, como fez seu pai, um padre católico que, em homenagem ao Grande Jacó, o nomeou de Jacques Jacó, em sua variante francesa.

Ao enunciar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem Lacan evoca a Teologia Judaico cristã. Valeu-se da interpretação metafórica do “...no início era a Palavra do prólogo do evangelho de João para explicar a esfera do inconsciente. Se no início era a palavra, pode-se concluir que o inconsciente tem a ver com a linguagem. Françoise Dolto (pediatra e psicanalista das crianças que perderam seus pais na primeira grande guerra mundial), em seu livro Tudo é Linguagem, disse: tudo que se refere ao agir das pessoas, ao que elas dizem, ao seu comportamento, estrutura a criança”.

A influência do catecismo católico que manejava quando criança, fez-se presente em suas elaborações psicanalíticas. Não foi à toa que em um dos seus mais concorridos seminários, denominado por ele Nomes do Pai, Jacques Lacan assim se referiu: “...é importante apontar que o conceito 'O-Nome-do-Pai' tem a ver com a religião e não com a ciência”. Ele considerava um paradoxo precioso o fato de o pai dar a seus filhos e filhas o nome pelo qual os judeus se referiam a Deus.

O trecho replicado abaixo, que trata principalmente do conceito “Nome do Pai”, evidencia o quanto ele bebeu da tradição judaica na formulação de seus conceitos psicanalíticos:

O Nome-do-Pai” é o próprio nó. E o que é um nó? É um furo e uma modulação em torno deste furo. O nome próprio é um furo(como a coisa não tem nome, dá-se um nome à ausência da coisa). Os judeus são muito claros a respeito daquilo que chamam de Pai. Enfiam-no em algum lugar do furo que não podemos sequer imaginar: Eu sou o que sou” isto é um furo, não é? Um furo(…) engole as coisas, e às vezes torna a cuspi-las. O que ele cospe? O Nome, o Pai como um nome”.

Quando afirma que o nome do Pai é um furo ele se reporta ao vazio do interior do vaso. O espaço vazio do vaso é estruturante. O furo deve permanecer lá, contornado pelas paredes do vaso. Adorar o contorno do furo, é o mesmo que idolatrar Deus ou fazer Dele um ídolo. Afinal, o que interessa é que o furo é um furo, como o célebre “Eu sou o que sou” relatado no livro de Gênesis.

Sobre os conceitos psicanalíticos criados por Jacques Lacan, Elisabeth Roudinesco, autora de sua única biografia, assim se referiu: “esta doutrina pertence a tradição cristã”.

Na páscoa de 1953 Lacan redigiu uma carta a seu irmão beneditino na qual reivindicava nas entrelinhas e sem ambiguidade o pertencimento de sua doutrina, à tradição cristã”. (Gérard Haddad)

A tradição judaico-cristã em suas obras falou tão alto, que o título Escritos posto na Capa do seu primeiro camalhaço, foi considerado por muitos dos seus seguidores, uma homenagem a velha bíblia de estudos em hebraico que levava sempre consigo a tiracolo, em cuja capa principal reluzia em letras douradas: “Escrituras Sagradas”

Gérard Hadadd, em O Pecado Original da Psicanálise - (Editora Civilização Brasileira -2012), nos dá uma ideia de como a vivência religiosa estava tão profundamente arraigada no inconsciente lacaniano. Diz Hadadd:

Em 1941, Sylvia, esposa de Lacan dá a luz a uma filha a quem ele chamou Judith, um perfeito nome judeu, já que significa simplesmente judia. Lacan queria uma filha, filha de Israel, e que disso trouxe a insígnia. Uma tal escolha não deixa de ser audaciosa e imprudente, naqueles anos em que o antissemitismo matava sem intimação”.

Em O Triunfo da Religião, Lacan, enfim, reconhece “o poder da religião ao dar um sentido às formas mais insólitas da experiência humana”. Entretanto, não deixa de dar uma alfinetada ao dissertar sobre o lado avesso da função consoladora da religião:

a religião é feita para isso, para curar os homens, isto é, para que não percebam o que não funciona”.

Ao forjar a célebre pergunta “O que o Outro quer de mim?”, Lacan, com o auxílio da linguística, pode perceber claramente que o inconsciente é o discurso do outro. Bem antes, ele já entendia que na psique do seguidor da cultura judaico-cristã, o inconsciente era estruturado como o discurso ou o Desejo de um Grande Outro, arquétipo que no mundo ocidental costuma ser chamado Deus, ou Pai celestial. No Cristianismo, é o desejo internalizado de um Grande Outro a que se refere Lacan ou de um Pai, (da tradição judaico cristã), que prevalece sobre o desejo do Filho: “… contudo não seja feita a minha vontade, mas a tua.” (Lucas 22. 41-42) A ambivalência do homem nascido na cultura judaico-cristã que projetava em seu Deus Desejos e contradesejos exercia uma tremenda fascinação em Lacan. Fascinação essa advinda de seus próprios afetos ambivalentes: é que ele sentia tanto empatia quanto antipatia à religião dos judeus. Quando retornou a falar sobre seu concorrido seminário O Avesso da Psicanálise em numa longa entrevista em 1968, fez questão de acentuar a semelhança entre o midrash, a arte judaica de ler a Bíblia, e a psicanálise.

Gérard Haddad, um dos discípulos mais famosos de Lacan, foi, talvez, quem mais disseminou pelo mundo o conteúdo dos seminários lacanianos e sua correspondência com a religião deduções conceituais, em sua maioria, atreladas aos símbolos da cultura judaico-cristã. Sobre as incursões exegéticas psicológicas que Lacan empreendeu nas muitas leituras de sua Bíblia em hebraico, Haddad chegou a dizer algo emblemático em sua obra “O Pecado Original da Psicanálise”:

Não é ilegítimo considerar a psicanálise, sobretudo na sua origem, como produzida por essa Coisa judaica. Ela nasceu justamente sobre as ruínas do judaísmo e alimentou-se de seus restos. […] O mito fundador do judaísmo, o “sacrifício de Abraão”, Lacan transformou no equivalente do Complexo de Édipo, como mostra esse trecho de sua obra escrita em 1938, Os Complexos Familiares na Formação do Indivíduo (Outros Escritos Lacan Zahar editora, edição 2003): '[…] ao advento da autoridade paterna corresponde uma moderação da repressão social primitiva. Legível na ambiguidade mítica do sacrifício de Abraão, que, além do mais, o liga fundamentalmente a expressão de uma promessa, esse sentido não é menos visível no mito de Édipo'”.

O certo é que Lacan tomou emprestado muitos elementos míticos da cultura judaico-cristã para elaborar sua exegese psicoteológica, como o autor do livro das Edições Loyola “A Bíblia Pós Moderna – Bíblia e Cultura Coletiva(página 202), faz ver:

Uma dificuldade no desenvolvimento de um discurso psicanalítico apropriado a textos teológicos surge porque o conteúdo inconsciente é, em grande parte, visto de forma não discursiva, em termos de campos de força, imagens e arquétipos, e, por isso, não podem ser lidos da mesma forma que a linguagem teológica. É exatamente aqui que Lacan revela a possibilidade de unir o inconsciente ao discurso teológico… Lacan atribui caráter linguístico e textual ao próprio inconsciente. Nessa perspectiva, textos teológicos e manifestações do inconsciente são homólogos e abertos à estratégias interpretativas comuns”.

Em 1991, na comemoração dos dez anos da morte do pensador e católico rebelde Jacques Lacan, a revista CULT nº 77, publicou o artigo Um Morto Contra a Morte” de autoria do psicanalista Fabio Herrmann , encimado por um subtítulo ousado e provocador, que reproduzo abaixo:

Lacan é como Cristo que fala por parábolas, para que, nesse caso, tendo ouvidos para ouvir, não ouçam aqueles que não merecem”.

No seu resumido artigo, sobre as analogias que Lacan, em seus longos e enigmáticos seminários, fez da Teologia Judaico-Cristã com a Psicanálise, assim se expressou Fabio Herrmann:

...a obscuridade do cânon interpretativo propicia, inelutavelmente, o efeito magistral: na incerteza, faz-se mister um intérprete autorizado, já que a evidência se escondeu. Como nas religiões, o sentido vago favorece a proliferação de mestres e discípulos”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de agosto de 2016


domingo, 17 de julho de 2016

A evolução de Deus



"E sucedeu que o Senhor arrependeu-se do mal que ameaçara trazer sobre o povo."  (Êxodo 32:14; NVI)

Sem querer aqui gerar controvérsias quanto à ideia da imutabilidade de Deus, tida praticamente como um dogma em todo o cristianismo, pretendo promover uma breve reflexão sobre a conceituação que construímos sobre a Divindade, a qual certamente evoluei acompanhando a nossa trajetória humana.

Na Bíblia, mais precisamente nos livros de Moisés, temos narrativas em que Deus teria se "arrependido" de seus feitos ou intenções ao mesmo tempo em que, na passagem de Números 23:19, nega-se qualquer possibilidade de arrependimento por parte do Senhor. Para explicar tais divergências, há na Teologia vários argumentos, inclusive sobre a tradução do hebraico para o português, o que não me interessaria tratar aqui porque não corresponde ao meu objetivo com esse texto.

Entretanto, quando consideramos os livros sagrados como uma coletânea de impressões humanas sobre a Divindade, torna-se fácil concordar com o citado arrependimento de Deus bem como com a maneira pela qual o Eterno passa a lidar com seu povo no avançar da história mítica de Israel. É o que fica caracterizado nos escritos dos profetas a exemplo do início do livro de Naum sobre a ira do Senhor contra os inimigos da nação:

"O Senhor é Deus zeloso e vingador; o Senhor é vingador e cheio de furor; o Senhor toma vingança contra os seus adversários, e guarda a ira contra os seus inimigos. O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente; o Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés." (Naum 1:2-3; ACR)

Tem-se com isso a ideia de uma Divindade nacional vingadora dos adversários embora disciplinadora do próprio povo. Se os israelitas guardassem os mandamentos, seriam abençoados na terra. Porém, caso viessem a se desviar, iriam ser lançados fora de Canaã, sofrendo de vários males como consta no capítulo 26 do livro de Levítico:

"Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, Então eu vos darei as chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua colheita, e a árvore do campo dará o seu fruto (...) Mas, se não me ouvirdes, e não cumprirdes todos estes mandamentos, E se rejeitardes os meus estatutos, e a vossa alma se enfadar dos meus juízos, não cumprindo todos os meus mandamentos, para invalidar a minha aliança, Então eu também vos farei isto: porei sobre vós terror, a tísica e a febre ardente, que consumam os olhos e atormentem a alma; e semeareis em vão a vossa semente, pois os vossos inimigos a comerão." (Levítico 26:3-4,14-16; op. cit.)

A meu ver, nenhuma dessas ideias é de se desprezar pelos atuais estudiosos da Bíblia. Pois, muito pelo contrário, elas devem ser vistas como leituras que o homem antigo fazia da realidade em que significava o relacionamento ético com Deus e com o próximo, quer no plano individual ou coletivo. Deste modo, se determinados princípios de vida fossem observados, eles seriam bem sucedidos no que realizassem.

Mas, ainda nas Escrituras Hebraicas, verifica-se nos livros de sabedoria, principalmente em Eclesiastes, que a concepção de uma Divindade castigadora dos maus e recompensadora dos justos torna-se passível de questionamento já que o infortúnio e as coisas boas da vida podem ocorrer com qualquer pessoa: 

"Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los." (Eclesiastes 9:2; NVI)

Posteriormente, no cristianismo, a mudança conceitual sobre Deus foi tão grande que criou uma nova religião distinta do Judaísmo, seja porque rompeu com valores culturais próprios dos israelitas como também pela outra visão de mundo que o Novo Testamento trouxe junto com as doutrinas posteriores da Igreja. E, sem pretender afirmar que uma tradição seja superior a outra (até porque o Judaísmo igualmente evoluiu nesses últimos dois milênios), podemos considerar que houve a adoção de pensamentos mais inclusivos para que fossem colocados no Reino os impuros pecadores e as nações gentílicas. Claro que todos condicionados a um proselitismo religioso dependente da conversão pelo exercício da fé assim como os judeus de nascimento precisariam "nascer de novo".

Já nas últimas décadas, em que pese o fundamentalismo pentecostal de muitas igrejas evangélicas, surgiu a tendência de despir Deus de qualquer religião. No catolicismo romano, por exemplo, para neutralizar os efeitos do dogma papal de que "fora da Igreja não há salvação", surgiu a ideia de "cristãos anônimos", expressão típica da teologia do jesuíta alemão Karl Rahner (1904 - 1984). Com seu lúcido pensamento, ganhou força no meio cristão a aceitação do ecumenismo e da pluralidade de crenças, ainda que poucos hoje em dia o considerem (mesmo entre os católicos).

Acredito que essa conceituação evolutiva sobre a Divindade nunca terminará pois se trata de uma busca e de uma construção sempre transcendentes no homem, embora tenhamos as nossas limitações para compreender a perfeição. Pois o que conseguimos alcançar de que seria mais elevado encontra-se perceptível apenas em nós mesmos pela prática do amor fraternal, quando vivido de maneira ampla e universal. Afinal, se somos capazes de aceitar o outro, independentemente de nacionalidade, etnia, credo religioso, classe social ou orientação sexual, desejando estender a salvação até para os que não vieram a reconhecer o senhorio de Jesus Cristo, por que Deus estaria num plano inferior ao nosso fazendo acepção de pessoas?

Para concluir, torço muito por essa evolução humana acerca das ideias sobre a Divindade. Pois ainda projetamos em Deus muitos dos nossos recalques, frustrações e sentimentos de intolerância, além das ideologias que seguimos. Só que nenhuma destas vestes resistem diante do Transcendente cuja extensão infinita  encontra-se para além dos nossos olhares físicos ou metafísicos.

Uma ótima semana a todos!


OBS: Ilustração acima extraída de http://www.webalice.it/bmaurys/cristo.gif

domingo, 3 de julho de 2016

O livro de Levítico e o nosso aperfeiçoamento ético



"Eu sou o Senhor que os tirou da terra do Egito para ser o seu Deus; por isso, sejam santos, porque eu sou santo." (Lv 11:45; NVI)

Atualmente eu e Núbia temos lido o livro bíblico de Levítico, dando sequência ao estudo que estamos fazendo da legislação de Moisés e de parte do chamado "Antigo Testamento".

Para muitos cristãos é desafiador tentar entender o terceiro livro das Escrituras Sagradas visto que o texto trata de diversas questões culturais relativas ao povo judeu, contendo inúmeras normas de caráter religioso, sendo muitas delas aplicáveis, por exemplo, ao sacerdócio israelita, aos sacrifícios de animais (suspensos desde a destruição do segundo Templo), aos alimentos, à purificação para fins rituais e às festas nacionais típicas. Só que nenhum verso pode ser considerado sem significado por mais que, aparentemente, a orientação contida ali não tenha a ver com a nossa realidade eclesiástica atual. 

Surpreendentemente, no meio de vários mandamentos, aparece no capítulo 19 de Levítico o basilar princípio do amor ao próximo "como a ti mesmo" (v. 18) que, séculos depois, Jesus de Nazaré e outros sábios judeus de seu tempo tanto se referiram como a explicação sintética de toda a Lei de Deus. Pois foi o que o Mestre certa vez respondeu a um conhecedor das Escrituras:

Um deles, perito na lei, o pôs à prova com esta pergunta: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?" Respondeu Jesus: "‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas". (Mateus 22:35-40)

Por sua vez, o ancião Hillel argumentou de uma maneira bem próxima a Jesus quando um gentio, desejando ser recebido no judaísmo, pediu-lhe um curso sobre a Torá. Na ocasião, o impaciente prosélito recebeu como resposta do mestre esta frase que resumiria os quarenta dias em que Moisés ficou no Monte Sinai: 

"não faças aos outros o que não queres que te façam" (bShab 31a)

O curioso é que, se o leitor deixar de lado as questões meramente culturais, mas buscar um aprofundamento em todos os ensinos de Levítico, ele encontrará excelentes mandamentos para que possa buscar uma convivência equilibrada com o seu próximo. Aliás, no mencionado capítulo 19, temos ali a repetição de diversas leis sobre as quais os homens do Talmude e outros rabinos muito debateram cabendo até hoje uma análise. Senão vejamos alguns exemplos por mim selecionados:

1) Respeitar os pais e guardar os sábados (v. 3): Cuidam-se, respectivamente, dos quinto e do quarto mandamentos do Decálogo, os quais não foram colocados juntos no versículo por acaso. Ali a ordem de descansar no sétimo dia semanal, em reverência ao repouso divino após a obra da criação (e à necessidade do homem descansar), não pode ser quebrado por causa de uma exigência paterna ou materna de impor ao filho a realização de tarefas laborais num dia que não é destinado ao trabalho. Ou seja, obedecer aos pais não pode ser motivo para a prática de coisas erradas.

2) Permitir que parte da colheita agrícola seja para o sustento dos pobres (vv. 9-10): Embora os antigos isralitas, por viverem numa sociedade de economia rural, devessem praticar literalmente o mandamento deixando de colher todos os frutos da terra (e não catando os caídos no chão), o seu significado para a atualidade é que parte da produção de um povo precisa se destinar aos programas sociais. Tal ordem constitui um freio quanto à ganancia e ao acúmulo predatório de riquezas. Era algo que tanto os poderosos quanto as pessoas de condição estável precisam observar.

3) Não atrasar a diária do trabalhador (v. 13): Significa que os créditos trabalhistas devam ser pagos em dia, o que os torna prioritários a fim de que o empregador ou o contratante não venha a oprimir o seu próximo tocando no sustento deste através da injusta demora. É algo que não só os empresários e governantes deveriam ficar mais atentos para cumprir, mas também qualquer que solicitar serviços a um profissional. Aliás, eu diria que, na Justiça, muitos juízes andam ignorando que, quando é feito um depósito judicial sobre os honorários sucumbenciais ao advogado do vencedor, era para a ordem de pagamento ser disponibilizada o mais rápido possível por tratar-se do ganha pão dos nossos ilustres causídicos.

4) Não fazer o cego tropeçar (v. 14): Certamente que o sentido aqui vai além do literal porque, no caso, inclui a indução de alguém a cometer erros. Seja levando a pessoa a praticar um ilícito inconscientemente ou enganá-la de um modo que venha a sofrer danos por suas decisões. São as armadilhas que uns maliciosos armam contra o próximo.

5) A imparcialidade nos julgamentos (v. 15): Seja no exercício de uma magistratura pública ou nas nossas análises pessoais sobre uma situação controversa, devemos buscar ser imparciais. Se alguém fez algo errado, a sua condição econômica jamais pode viciar o nosso juízo porque, do contrário, estaríamos pervertendo a Justiça. Logo, não se deve acovardar diante do rico e nem permitir que a hipossuficiência do outro venha a isentá-lo de responsabilidade pelos atos ilícitos que cometeu. Pois verdade seja dita que nem sempre a vulnerabilidade social do pobre pode ser vista como causa das condutas erradas da pessoa humilde.

6) Não ser mexeriqueiro e nem atentar contra a vida do próximo (v. 16): Creio que a proximidade das duas ações mencionadas no mesmo versículo possa mostrar alguma relação entre elas. Significa que espalhar as intrigas não só pode colocar a vida de alguém em perigo como também não seria correto "permanecer calado sobre o sangue do próximo", como seria expresso idiomaticamente no hebraico. Em outras palavras, entendo que devemos refletir sobre como a nossa comunicação é capaz de repercutir na esfera social ao prejudicar pessoas em razão da maledicência ou fofoca, valendo lembrar que o silêncio também é um tipo de mensagem.

7) Repreender o próximo (v. 17): Ao encontrarmos alguém cometendo erros não temos que cultivar dentro de nós o ódio contra tal pessoa e nem envergonhá-la publicamente. Cabe aí a repreensão amorosa, buscando a correção do outro. E isto se faz de maneira bem pacífica e discreta, dando espaço para que a consciência do próximo reflita tal como fez o profeta Natã quando procurou o rei Davi para lhe falar sobre o pecado que havia cometido (2 Sm 12:1-15).

8) Amar o próximo como a si mesmo (v. 18): Como já dito, este seria o resumo de boa parte dos mandamentos bíblicos incluindo os que dizem respeito ao nosso relacionamento com o outro. Ele vem após a advertência contra a vingança e o cultivo da ira, sendo uma orientação universal capaz de abranger também o estrangeiro (v. 34). Daí eu concluo que para nós que somos de cultura cristã significa aplicar a ordem também às pessoas de religião diversa da nossa ou mesmo as que a nenhum credo seguem. Ou seja, não temos que amar somente os membros da própria seita! Por sua vez, o mandamento impõe não apenas a advertência de nos abstermos do mal como também fazermos ao outro aquilo que desejamos que seja feito a nós.

9) Honrar o idoso (v. 32): Uma sociedade que não sabe respeitar aos mais velhos está sujeita ao fracasso. Ter uma atitude de reverência para com o ancião não seria apenas algo exterior, mas inclui aí darmos ouvidos à voz de sua experiência. Interessante que, no mesmo versículo, é lembrado sobre o temor ao Senhor, o que pode ser entendido comparativamente quanto à honra que deve ser dada ao ancião.

10) Ter pesos e medidas justas (vv.  35-36): Assim como o comerciante desonesto utilizava-se de balanças fraudulentas, em que havia um medidor menor para a compra e outro maior para a venda, permanece nos dias de hoje a advertência a fim de que sejamos íntegros em tudo quanto fazemos. E, numa época de enorme decadência moral como a nossa, esse mandamento vem se mostrar bem atual.

Assim, considerando o que Jesus proferiu no Sermão da Montanha, sobre não ter vindo para revogar a Lei, mas cumpri-la (Mt 5:17), ressalto que toda a legislação prescrita por Moisés no Pentateuco precisa ser investigada e refletida pelo cristão estudioso das Escrituras Sagradas. Logo, além do conhecimento cultural proporcionado por Levítico sobre o judaísmo nos tempos antigos, temos também a oportunidade de refletir  em busca da "santificação", o que, em outras palavras, seria nada mais do que o aperfeiçoamento ético pessoal.


OBS: A ilustração acima refere-se ao Livro de Levítico, Warsaw, 1860, página 1, extraído do acervo virtual da Wikipédia em https://en.wikipedia.org/wiki/Book_of_Leviticus#/media/File:Book_of_Leviticus,_Mikraot_Gdolot,_Warsaw_edition,_1860,_Page_1.jpg

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O sexo como entretenimento do casal na Bíblia e na religião




Certa vez, quando ainda morava na cidade serrana de Nova Friburgo (RJ), um religioso conservador veio me falar que considerava errado o uso e a comercialização de determinados tipos de peças íntimas voltadas para a diversão sexual dos casais. Repliquei-lhe dizendo que não havia nada de pecado o homem e sua esposa terem uma vida conjugal picante, realizada com criatividade e exclusividade. Ele então reconsiderou suas posições, concordando que a prática de tais fantasias amorosas funcionaria como uma prevenção para as traições conjugais uma vez que, neste caso, o marido não precisaria procurar "fora de casa" a satisfação que encontraria em seu leito conjugal.

Nova Friburgo, como se sabe, é tida como uma das capitais da moda íntima do país. Lá se vende tanto as peças mais convencionais como aquelas que são usadas para brincadeiras amorosas. Ao andar pelo município, o turista se depara facilmente com cartazes de lindas modelos com seus belos corpos fazendo publicidade das fábricas de lingerie, algo que ajuda a aquecer as camas e a economia da cidade. Porém, embora as confecções de calcinha fossem o ganha pão de muitas famílias friburguenses, eu ouvia os religiosos reclamarem constantemente, tentando ver pecado onde não existe, como se uma roupinha sexy de enfermeira, de policial, de juíza, ou mesmo de sádica, fossem artigos "demoníacos" e "destinados à prostituição".

Penso que, se a maioria dos crentes estudasse profundamente as Escrituras Sagradas, essas pessoas de mente conservadora saberiam que a repressão sexual no casamento não tem o mínimo respaldo bíblico. E o fato do livro de Gênesis dizer "crescei e multiplicai-vos", isto jamais significou que o sexo deva ser praticado apenas com a finalidade reprodutiva. Pois, se fizermos uma análise da própria Bíblia, encontraremos uma interessante passagem em que Abimeleque, rei dos filisteus, viu através de uma janela Isaque acariciando (ou brincando) com Rebeca, sua mulher, segundo se lê em Gênesis, capítulo 26, verso 8:

"Isaque estava em Gerar já fazia muito tempo. Certo dia, Abimeleque, rei dos filisteus, estava olhando do alto de uma janela quando viu Isaque acariciando Rebeca, sua mulher." (NVI)
"E aconteceu que, como ele esteve ali muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhou por uma janela, e viu, e eis que Isaque estava brincando com Rebeca sua mulher." (ACR)

Acontece que o verbo hebraico correspondente à palavra "acariciava", escolhida pelos tradutores, também significa brincar e vem da mesma raiz do nome de Isaque (riso), dando a entender que o patriarca hebreu e a sua esposa estavam fazendo uma brincadeira de conteúdo sexual, sem fins reprodutivos, sendo este um detalhe pouco aprofundado nos estudos bíblicos das igrejas. Aliás, para uma boa parte do público religioso, mesmo hoje em dia, ter um relacionamento picante dentro do casamento ainda é um tabu como se certa orientação do livro de Provérbios nem existisse:

"Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade. Como cerva amorosa, e gazela graciosa, os seus seios te saciem todo o tempo; e pelo seu amor sejas atraído perpetuamente." (Provérbios 5.18-19; ACR)

Para os judeus sempre prevaleceu o ideal matrimonial em que a geração de filhos é vista como uma benção divina, o que também era comum nas diversas religiões da Antiguidade. E, quanto aos muçulmanos, eles têm pensamento idêntico. Uma exceção no judaísmo talvez possam ter sido os monges essênios contemporâneos de Jesus e que viviam em comunidades isoladas dentro de um padrão de vida ascética celibatária. Porém, o que acabou prevalecendo dentro do judaísmo foi a visão dos mestres perushim (fariseus), os quais deram origem ao rabinato.

Não tenho dúvidas de que o cristianismo tomou o seu rumo repressor, com maior honra ao solteirismo do que ao casamento, por causa da influência grega dos primeiros padres (os "Pais da Igreja"). Inclusive porque a origem do celibato não é católica e muito menos judaica, mas, sim, pagã. Diferentemente dos povos do Médio Oriente, os gregos antigos foram monógamos sendo provável que o celibato fosse praticado entre eles, o que aconteceu também em Roma com as vestais, as sacerdotisas virgens que deviam manter o fogo "sagrado" sempre aceso. E, como se sabe através da História, o real motivo da proibição do matrimônio ao clero foi justamente uma questão de poder a fim de preservar a unidade dos bens da Igreja, de modo que a castidade tornou-se um alto padrão de comportamento moral para o cristianismo.

Entendo que é preciso promover uma desconstrução de todos esses valores repressores e contrários à natureza trazidos pelo catolicismo e dos quais os evangélicos ainda não se libertaram. A face humana do prazer deve ser motivo de celebração e não de culpa, de modo que as carícias trocadas entre o homem e a mulher, as técnicas destinadas a promover a excitação sexual, o uso de vestes sensuais, os contraceptivos, o cunnilingus e a obtenção do orgasmo clitoriano não podem jamais ser considerados pecado.

Um ótimo final de semana a todos e aproveitem bastante para namorar!


OBS: A gravura acima trata-se da pintura Fazendo Amor do húngaro Mihály Zichy (1827-1906).