quarta-feira, 28 de março de 2018

A "inutilidade" da Cruz


Por Hermes C. Fernandes*

Tomando por certa a disposição de Deus em nos perdoar graciosamente, deparamo-nos com uma intrigante questão: qual teria sido a necessidade da morte vicária de Cristo? Ou em outras palavras: por que Cristo teria que se oferecer pelos nossos pecados?

Não seria mais simples se Ele tão somente nos perdoasse? Não é justamente isso que Ele requer que façamos àqueles que nos magoam?

Na oração do Pai Nosso, Jesus nos ensina a pedir que sejamos perdoados assim como temos perdoado os nossos devedores.[1] Não há ali qualquer menção à reparação do dano. Perdoar é abrir mão de um direito. É aceitar o prejuízo. Se devemos buscar o padrão divino (“Sede imitadores de Deus como filhos amados”[2], lembra?), então, nada mais justo do que perdoar mediante reparação. Mas, peraí, isso não seria perdão!

É verdade que o pecado se constitui uma dívida com Deus. Ele nos fez com um propósito específico, mas insistimos em viver à nossa própria maneira. Ele nos fez para o outro, mas preferimos viver para nós mesmos. Por isso, contraímos uma dívida com Aquele que nos projetou e criou.

Geralmente, acredita-se que a morte de Cristo tenha sido um pagamento feito a Deus. Ficamos quites com Ele mediante a oferta da vida de Seu próprio Filho. Passa-se a impressão de um Deus relutante em nos oferecer perdão. Não é de se admirar que os cristãos tenham tanta dificuldade em perdoar. Ninguém aceita ficar no prejuízo. A gente até perdoa, mas desde que alguém se disponha a reparar o dano.

Sinceramente, prefiro acreditar que haja um grande mal entendido.

Não era Deus que precisava da cruz para poder nos perdoar. Éramos nós que precisávamos de algo que nos revelasse a gravidade de nossos pecados, a fim de que atribuíssemos o devido valor à Sua graça.

A salvação nos saiu a um custo zero, mas custou-Lhe a própria vida.

Foi o próprio Deus quem arcou com a consequência da nossa rebelião.

Na cruz, vemos um Deus exposto, vulnerável, fragilizado. Um Deus justo que não pode ser conivente com o pecado, e que, por isso, estabelece uma sentença, mas aplica-a a Si mesmo.

O amor ali revelado deve nos constranger ao ponto de nos fazer sentir nojo de nossos próprios pecados.[3] Um constrangimento análogo ao experimentado pelo filho pródigo ao ser recebido de volta ao lar.[4]

Já ouvi argumentos contrários à necessidade da cruz baseados justamente nessa parábola. Afinal, o pai recebeu em casa o seu filho sem exigir qualquer ressarcimento dos bens desperdiçados.  Se conhecêssemos melhor o contexto social e cultural em que esta parábola transcorre, entenderíamos o que significou àquele pai sair correndo em direção ao filho, abraçá-lo e beijá-lo, dar-lhe um anel, bem como roupas e calçados novos, mandar matar o bezerro cevado (especialmente preparado para ocasiões especiais) e ainda por cima, recepciona-lo com festa. Numa sociedade patriarcal, aquele homem expôs sua autoridade, abrindo um perigoso precedente.

Na cruz, dois dos principais atributos divinos que correm paralelos convergem e se cruzam. A justiça e o amor se harmonizam. Apesar de jamais ter havido qualquer atrito entre eles, era necessário que percebêssemos através de um gesto radical o alto custo para mantê-los devidamente afinados. A haste horizontal da cruz bem que poderia representar a justiça. Ela não poderia pender nem para a esquerda, nem para a direita, mas manter o equilíbrio (equidade). A haste vertical representaria o amor. Ele que dá sustentação à justiça. Ele é a base que se ergue entre o céu e a terra. É sobre o amor que a justiça está estabelecida. Sem a haste vertical fincada no chão da existência, a haste horizontal não se elevaria. O lugar de encaixe entre as duas hastes se chama graça. Ela é o árbitro que anuncia a vitória da misericórdia sobre o juízo.

Deus jamais poderia ser acusado de agir com impunidade ou conivência. Sua justiça segue imaculada. Nossos pecados foram perdoados. Porém, o prejuízo que eles causaram custou Sua própria vida.

Não há perdão sem cruz! Cada vez que perdoamos a alguém, experimentamos a crucificação do nosso ego. Arcamos com o prejuízo. Liberamos o outro da obrigação de se retratar.

Lemos que o Cordeiro foi morto desde antes da fundação do mundo.[5] No momento em que Deus decidiu criar todas as coisas, sabendo o que Lhe esperava, Ele Se entregou. Portanto, a cruz não foi um plano tapa-buraco. Não foi um improviso. Um Deus soberano e todo-amoroso resolveu apostar Suas últimas fichas em Sua criação. Ele decidiu nos perdoar muito antes que houvéssemos pecado.

Ele não pagou a nossa dívida. Ele rasgou a promissória. Pelo menos, é disso que Paulo fala em Colossenses 2:14: “E havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz.”

Ele simplesmente aceitou o prejuízo. Por amor.

Isso é graça! O resto é contabilidade. Sem amor, a conta nunca vai fechar. Sempre haverá quem nos deva e não nos possa pagar.


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[1] Mateus 6:12
[2] Efésios 5:1
[3] 2 Coríntios 5:14
[4] Lucas 15:11-32
[5] Apocalipse 13:8; 1 Pedro 1:20


(*) Hermes Carvalho Fernandes é um pensador, ativista, conferencista, autor de livros e fundador da REINA (Rede Internacional de Amigos), sendo um bispo consagrado pela International Christian Communion, comunhão que reúne bispos de tradição anglicana/episcopal dos cinco continentes.



OBS: Artigo e ilustração extraídos do blogue do autor em http://hermesfernandes.blogspot.com.br/2017/03/a-inutilidade-da-cruz.html

segunda-feira, 26 de março de 2018

Com o Papa Francisco termina a Igreja só ocidental e começa a Igreja universal



Por Leonardo Boff*

Passaram-se já cinco anos do papado de Francisco, bispo de Roma e Papa da Igreja universal. Muitos fizeram balanços minuciosos e brilhantes sobre essa nova primavera que irrompeu na Igreja. De minha parte enfatizo apenas alguns pontos que interessam à nossa realidade.

O primeiro deles é a revolução feita na figura do papado, vivida em pessoa por ele mesmo. Não é mais o Papa imperial com todos os símbolos, herdados dos imperadores romanos. Ele se apresenta como simples pessoa como quem vem do povo. Sua primeira palavra de saudação foi dizer aos fiéis”buona sera”: boa noite. Em seguida, anunciou-se como bispo de Roma, chamado a dirigir no amor a Igreja que está no mundo inteiro . Antes de ele mesmo dar a benção oficial, pediu que o povo o abençoasse. E foi morar não num palácio – o que teria feito chorar Francisco de Assis – mas numa casa de hóspedes. E come junto com eles.

O segundo ponto importante é anunciar o evangelho como alegria, como superabundância de sentido de viver e menos como doutrinas dos catecismos. Não se trata de levar Cristo ao mundo secularizado. Mas descobrir sua presença nele pela sede de espiritualidade que se nota em todas as partes.

O terceiro ponto é colocar no centro de sua atividade três pólos: o encontro com o Cristo vivo, o amor apaixonado pelos pobres e o cuidado da Mãe Terra. O centro é Cristo e não o Papa. O encontro vivo com Cristo tem o primado sobre a doutrina.

Em vez da lei anuncia incansavelmente a misericórdia e a revolução da ternura, como o disse, falando aos bispos brasileiros em sua viagem ao nosso país.

O amor aos pobres foi expresso na sua primeria intervenção oficial:”como gostaria que a Igreja fosse a Igreja dos pobres”. Foi ao encontro do refugiados que chegavam à ilha de Lampeduza no sul da Itália. Ai disse palavras duras contra certo tipo de civilização moderna que perdeu o sentido da solidariedade e não sabe mais chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Suscitou o alarme ecológico com sua encíclica Laudato Si:sobre o cuidado da Casa Comum (2015), dirigida a toda a humanidade. Mostra clara consciência dos riscos que o sistema-vida e o sistema-Terra correm. Por isso expande o discurso ecológico para além do ambientalismo. Diz enfaticamente que devemos fazer uma revolução ecológica global(n.5). A ecologia é integral e não apenas verde, pois involucra a sociedade, a política, a cultura, a educação, a vida cotidiana e a espiritualidade. Une o grito dos pobres com o grito da Terra(n. 49). Convida-nos a sentir como nossa a dor da natureza, pois todos somos interligados e envolvidos numa teia de relações. Convoca-nos a “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo….uma mística que nos anima, nos impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n. 216).

O quarto ponto significativo foi apresentar a Igreja não um castelo fechado e cercado de inimigos, mas um hospital de campanha que a todos acolhe sem reparar sua extração de classe, de cor ou de religião. É uma Igreja em permanente saida para os outros especialmente para as periferias existenciais que grassam no mundo inteiro. Ela deve servir de alento, infundir esperança e mostrar um Cristo que veio para nos ensinar a viver como irmãos e irmãs, no amor, na igualdade, na justiça, abertos ao Pai que tem características de Mãe de misericórdia e de bondade.

Por fim, mostra clara consciência de que o evangelho se opõe às potências desse mundo que acumulam absurdamente, deixando na miséria grande parte da humanidade. Vivemos sob um sistema que coloca o dinheiro no centro e que é assassino dos pobres e um depredador dos bens e serviço da natureza. Contra esses tem as mais duras palavras.

Dialoga com todas as tradições religiosas e espirituais. No lava-pés da Quinta-Feira Santa estava uma menina muçulmana. Quer as Igrejas, co m suas diferenças, unidas no serviço ao mundo especialmente aos mais desamparados. É o verdadeiro ecumenismo de missão.

Com esse Papa que “vem do fim do mundo” se encerra uma Igreja só ocidental e começa uma Igreja universal, adequada à fase planetária da humanidade, chamada a encarnar-se nas várias culturas e construir ai um novo rosto a partir da riqueza inesgotável do evangelho.

(*) Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Francisco de Assis-Francisco de Roma, a irrupção da primavera, Mar de Ideias, Rio 2013.

OBS: Artigo extraído diretamente do blogue do autor (clique AQUI para conhecer), sendo os créditos da imagem acima atribuídos a Nuno Veiga/Pool/Agência Lusa.

domingo, 25 de março de 2018

Palavras ou pedras?



Tradicionalmente hoje, o último domingo antes da Páscoa, é comemorado pela cristandade como sendo o "Domingo de Ramos", quando muitos devotos, cultivando as tradições, participam de algum culto religioso trazendo consigo ramos de palmeiras rememorando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado num burrinho.

No entanto, observo nessa passagem bíblica, mais precisamente no Evangelho de Lucas, uma interessante resposta dada por Jesus aos fariseus que exigiam dele que repreendesse a voz de louvor dos seus discípulos. Vamos ao texto:


"Quando ele já estava perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus alegremente, em alta voz, por todos os milagres que tinham visto. Exclamavam: 'Bendito é o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!' Alguns dos fariseus que estavam no meio da multidão disseram a Jesus: 'Mestre, repreende os teus discípulos!' 'Eu lhes digo', respondeu ele, 'se eles se calarem, as pedras clamarão.'" (Lucas 19:37-40; NVI)

Na manhã desta data, eu estava lendo uma entrevista dada pelo Frei Beto ao UOL e achei bem interessante a resposta que ele deu ao jornalista sobre quem teria matado a vereadora do PSOL Marielle Franco e com qual objetivo. O religioso, seguidor da Teologia da Libertação, que não é nenhum investigador policial e nem poderia dar esse tipo de esclarecimento ao repórter (sem agir de maneira leviana se acusasse alguém), aproveitou então para fazer uma sábia aplicação da passagem bíblica em tela:


"Aqueles que se sentem incomodados com as bandeiras que ela encarnava e defendia. Nunca prestaram atenção nestas palavras de Jesus: 'Se calarem as suas vozes, as pedras gritarão'" (Evangelho de Lucas, 19, 38-40). Agora somos todos(as) Marielle." (Veja mais em https://eleicoes.uol.com.br/2018/noticias/2018/03/25/entrevista-frei-betto.htm?cmpid=copiaecola)

A tradução empregada por Frei Beto me pareceu bem interessante e oportuna pois mostra a importância de se dar a palavra ao povo para que clame pelos seus direitos e anseios tal como fazia Marielle em defesa dos negros, das mulheres, dos homossexuais e dos moradores das comunidades carentes do Rio de Janeiro. Pois, embora fosse vereadora num país democrático, ela era a voz de quem até hoje não conquistou o seu essencial direito de expressão por viver em locais dominados pelo tráfico e as milícias, onde o ser humano se torna vulnerável às mais diversas covardias. Inclusive aos abusos que também podem ser cometidos por alguns maus policiais que deveriam combater o crime.

Certo é que, quando se tira do povo a palavra na voz de seus representantes, os representados tendem a clamar e muitas das vezes com "pedras", sendo que a consequência disso nem sempre é positivo para o bem estar de uma sociedade democrática, podendo ou não produzir resultados construtivos. Isto porque nem sempre a mobilização dos que se revoltam é feita objetivamente, embora sempre cause impactos.

Tornando à mensagem do Mestre, creio que Jesus não deva ter tirado do nada aquela resposta que me faz lembrar uma passagem do Antigo Testamento, mais precisamente do profeta Habacuque que viveu na época da reconstrução do Templo de Jerusalém:


"Você tramou a ruína de muitos povos, envergonhando a sua própria casa e pecando contra a sua própria vida. Pois as pedras clamarão da parede, e as vigas responderão do madeiramento contra você. 'Ai daquele que edifica uma cidade com sangue e a estabelece com crime!'" (Habacuque 2:10-12)

Fazendo aqui uma última reflexão, vejo o quanto esse país e suas cidades carecem de justiça social. É urgente que essa casa chamada Brasil, cujas pedras são o seu sofrido povo, seja limpa de tanto crime e do sangue que se derrama pelas ruas. E mais do que nunca há que se usar da palavra para que denunciemos corajosa e continuamente todas as ilicitudes cometidas contra a população ao mesmo tempo em que devemos nos abster de praticar o mal.

Ótima semana a todos!

OBS: Imagem acima extraída de http://sombradoonipotente.blogspot.com.br/2016/03/as-pedras-clamarao.html

sábado, 10 de março de 2018

Uma reflexão sobre o discípulo João Marcos




Marcos é geralmente lembrado na cristandade como o autor do 2º Evangelho da Bíblia, em que haveria sido primeiramente um discípulo do apóstolo Paulo e depois de Pedro, além de primo de Barnabé. E, de acordo com as tradições eclesiásticas, ele teria fundado a Igreja de Alexandria, no Egito, fato que o torna patriarca da Igreja Ortodoxa Copta.


No entanto, se lermos o livro de Atos dos Apóstolos, encontraremos uma passagem nada heroica sobre o personagem em questão. Principalmente no capítulo 13 em que a narrativa bíblica relata o seu acompanhamento como assessor na primeira viagem missionária de Paulo, a qual este liderou junto com Barnabé. Pois, logo que se encerraram os trabalhos em Pafos, uma cidade portuária de Chipre, João Marcos resolveu retornar para Jerusalém ao invés de prosseguir no evangelismo rumo a regiões da Ásia Menor:

"De Pafos, Paulo e seus companheiros navegaram para Perge, na Panfília. João os deixou ali e voltou para Jerusalém." (Atos 13:13; NVI)

Tal episódio, antes do início da segunda viagem missionária, veio a se tornar um motivo de separação ministerial entre os dois líderes evangelistas. Isto porque Paulo não concordava que Barnabé levasse outra vez João Marcos com o grupo, como se lê nestes versos a seguir transcritos:

"Algum tempo depois, Paulo disse a Barnabé: 'Voltemos para visitar os irmãos em todas as cidades onde pregamos a palavra do Senhor, para ver como estão indo'. Barnabé queria levar João, também chamado Marcos. Mas Paulo não achava prudente levá-lo, pois ele, abandonando-os na Panfília, não permanecera com eles no trabalho. Tiveram um desentendimento tão sério que se separaram. Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre, mas Paulo escolheu Silas e partiu, encomendado pelos irmãos à graça do Senhor." (Atos 15:36-40; NVI)

Fato é que muitos leitores das Escrituras Sagradas preferem não se deter nesses trechos nada prodigiosos nos quais os personagens deixam de ser aqueles santos milagreiros e passam a revelar as falhas humanas que todos temos. Preferimos recordar de Davi vencendo o gigante Golias ao invés de aprendermos com o grave erro cometido pelo rei quando, após adulterar com Bate-Seba, ainda armou uma cilada para que Urias, o marido desta, fosse covardemente morto numa batalha contra um povo adversário.

No caso da desavença com Barnabé, se nos basearmos no que é dito acerca de Marcos em Colossenses 4:10 e em Filemon 24:1, assim como no verso 11 do capítulo 4 da carta de 2 Timóteo, poderíamos, por estas fontes, até considerar que Paulo, num momento posterior, soube reconhecer o valor da atuação de João Marcos. E daí uma suposição válida a ser levantada é que haja faltado certa dose de compreensão da parte de Paulo quanto ao discípulo que abortara a missão no meio do caminho.

Ontem, quando parei para refletir sobre a necessidade que algumas pessoas sentem em não conseguir conduzir com continuidade um trabalho por elas iniciado, lembrei-me dessa passagem bíblica sobre João Marcos no capítulo 13 de Atos dos Apóstolo. Resolvi tentar compreender através dos poucos elementos dados pelo texto sobre o que poderia ter se passado com o discípulo de Paulo naquela frustrante ocasião.

Uma das primeiras coisas que vem à mente de um leitor questionador seria a falta de coragem de enfrentar os desafios e para tanto fazem menção ao caso do jovem anônimo envolto num lençol que havia fugido nu quando os soldados seguraram as suas vestes para detê-lo na ocasião da prisão de Jesus (Mc 14:51-52), o qual é identificado com o autor do 2º Evangelho que seria Marcos. Outros, porém, cogitam da hipótese de que a desistência da viagem foi uma mera desídia. Já eu resolvi considerar, embora sem exclusividade de motivos, que os acontecimentos presenciados em Chipre, acerca do castigo temporário de cegueira imposto por Paulo ao mágico Elimas, causou uma grande perplexidade a ponto de mexer com os valores de João Marcos. Senão leiamos o que dizem os fatos ocorridos na cidade de Pafos e que foram imediatamente anteriores à decisão tomada no versículo 13:

"Viajaram por toda a ilha, até que chegaram a Pafos. Ali encontraram um judeu, chamado Barjesus, que praticava magia e era falso profeta. Ele era assessor do procônsul Sérgio Paulo. O procônsul, sendo homem culto, mandou chamar Barnabé e Saulo, porque queria ouvir a palavra de Deus. Mas Elimas, o mágico ( esse é o significado do seu nome ) opôs-se a eles e tentava desviar da fé o procônsul. Então Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para Elimas e disse: 'Filho do diabo e inimigo de tudo o que é justo! Você está cheio de toda espécie de engano e maldade. Quando é que vai parar de perverter os retos caminhos do Senhor? Saiba agora que a mão do Senhor está contra você, e você ficará cego e incapaz de ver a luz do sol durante algum tempo'. Imediatamente vieram sobre ele névoa e escuridão, e ele, tateando, procurava quem o guiasse pela mão. O procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, profundamente impressionado com o ensino do Senhor." (Atos 13:6-12; NVI)

Inegável é que a ordem de Paulo a fim de que o homem viesse a perder o sentido da visão para não prejudicar o processo de conversão de alguém destinatário de sua mensagem faria com que muitos de nós hoje discordássemos do método utilizado pelo apóstolo. Pois, embora a narrativa de Atos leve o leitor a concordar com aquele aparente anti-milagre, há que se buscar a percepção de quem teria presenciado a cena. Ainda mais se levarmos em conta que Marcos talvez alimentasse uma visão, digamos, romântica do evangelismo.

Como não dá para sermos conclusivos em nenhuma dessas conjecturas, digo que toda e qualquer tese é bem vinda para promover edificações no campo da ética com inspiração nos polêmicos textos das Escrituras Sagradas. Até porque, em todos os ministérios, quer estes sejam religiosos ou seculares, podemos facilmente nos chocar diante das diversas situações que ocorrem divergindo da nossa maneira de pensar.

Ora, uma das coisas que podem paralisar (ou atrasar) a nossa caminhada existencial é a falta de maturidade. É quando, por exemplo, precisamos dizer não para alguém contrariando as pretensões de uma pessoa, disciplinar condutas erradas, adiar respostas e até partirmos para um necessário confronto de interesses. Daí não podemos ignorar que haverá sempre momentos certos na vida para que as pessoas possam assumir determinados encargos que envolvam um nível maior e responsabilidade bem como um fortalecimento de caráter.

Pelo que se depreende da narrativa bíblica, apesar do livro de Atos não mais mencionar novos feitos de Marcos e de seu primo Barnabé depois do capítulo 15, ambos parecem ter sido bem sucedidos no retorno ao Chipre. Aliás, aquela segunda viagem tornou-se a oportunidade para o desenvolvimento das potencialidades do discípulo que, como já colocado aqui, chegou a ser bem considerado pelo próprio apóstolo Paulo em três epístolas que lhe são atribuídas.

Que possamos aprender com esses erros e acertos, tornando-nos mais compreensivos com o aprendizado dos outros e também tomando a atitude certa (sem culpa) quando tornar-se indispensável recuar de um trabalho que envolva uma responsabilidade que hoje não conseguimos ainda assumir.

Ótima semana a todos!

OBS: A imagem acima refere-se a uma obra do pintor italiano Agnolo di Cosimo di Mariano (1503 — 1572), mais conhecido como il Bronzino, conforme extraído do acervo virtual da Wikipédia em https://it.wikipedia.org/wiki/Marco_evangelista#/media/File:Angelo_Bronzino_008.jpg

domingo, 11 de fevereiro de 2018

As Escrituras patriarcais falam do feminino



Por Leonardo Boff*

Fundamentalmente importa reconhecer que a tradição espiritual judaico-cristã vem expressa predominantemente no código patriarcal. O Deus do Primeiro Testamento (AT) é vivido como o Deus dos Pais, Abraão, Isaac e Jacó, e não como o Deus de Sara, de Rebeca e de Miriam. No Segundo Testamento (NT), Deus é Pai de um Filho único que se encarnou na virgem Maria, sobre a qual o Espírito Santo estabeleceu uma morada definitiva, coisa que a teologia nunca deu especial atenção, porque significa a assunção de Maria pelo Espírito Santo e desta forma colocando-a do lado do Diivino. Por isso se professa que é Mãe de Deus.

A Igreja que se derivou da herança de Jesus é dirigida exclusivamente por homens que detém todos os meios de produção simbólica. A mulher foi considerada, por séculos, como não-persona jurídica e até hoje é excluída sistematicamente de todas as decisões do poder religioso. A mulher pode ser mãe de um sacerdote, de um bispo e até de um Papa, mas jamais poderá aceder a funções sacerdotais. O homem, na figura de Jesus de Nazaré, foi divinizado, enquanto, a mulher é mantida, segundo a teologia comum, como simples criatura, embora no caso de Maria, seja feita Mãe de Deus.

Apesar de toda esta concentração masculina e patriarcal, há um texto do Gênesis, verdadeiramente, revolucionário, pois afirma a igualdade dos sexos e sua origem divina. Trata-se do relato sacerdotal (Priesterkodex escrito por volta do século VI-V a.C.). Aí o autor afirma de forma contundente: “Deus criou a humanidade (adam em hebraico que significa os filhos e filhas da Terra, derivado de adamah: terra fértil) à sua imagem e semelhança e criou-os homem e mulher”(Gn 1,27).

Como se depreende, aqui se afirma a igualdade fundamental dos sexos. Ambos lançam sua origem em Deus mesmo. Este só pode ser conhecido pela via da mulher e pela via do homem. Qualquer redução deste equilíbrio, distorce nosso acesso a Deus e desnatura nosso conhecimento do ser humano, homem e mulher.

No Segundo Testamento (NT) encontramos em São Paulo a formulação da igual dignidade dos sexos: “não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”(Gl 3,28). Num outro lugar, diz claramente: “em Cristo não há mulher sem homem nem homem sem mulher; como é verdade que a mulher procede do homem, é também verdade que o homem procede da mulher e tudo vem de Deus”(1Cor 11,12).

Além disso, a mulher não deixou de aparecer ativamente nos textos fundadores. Nem poderia ser diferente, pois sendo o feminino estrutural, ele sempre emerge de uma forma ou de outra. Assim na história de Israel surgiram mulheres politicamente ativas como Miriam, Ester, Judite, Débora ou as anti-heroínas como Dalila e Jezabel. Ana, Sara e Rute serão sempre lembradas honrosamente pelo povo. Inigualável é o idílio, numa linguagem altamente erótica, que cerca o amor entre o homem e a mulher no livro do Cântico dos Cânticos.

A partir do século terceiro a. C. a teologia judaica elaborou uma reflexão sobre a graciosidade da criação e da eleição do povo na figura feminina da divina Sofia (Sabedoria; cf. todo o livro da Sabedoria e os primeiros dez capítulos do livro dos Provérbios). Bem o expressou a conhecida teóloga feminista E. S. Fiorenza, “a divina Sofia é o Deus de Israel na figura da deusa”(As origens cristãs a partir da mulher, São Paulo 1992 p. 167).

Mas o que penetrou no imaginário coletivo da humanidade, de forma devastadora, é o relato anti-feminista da criação de Eva (Gn 1,l8-25) e da queda original (Gn 3,1-19: literariamente o texto é tardio, (por volta do ano 1000 ou 900 a.C). Segundo este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: “eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; chamar-se-á varoa (ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir à sua varoa: e os dois serão uma só carne”(Gn 2,23-25).

O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher (ish-ishá) e fundamentar a monogamia. Entretanto, esta compreensão que em si deveria evitar a discriminação da mulher, acabou por reforçá-la. A anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi interpretada como superioridade masculina.

O relato da queda é mais contundentemente anti-feminista: “Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer..tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus”(Gn 3,6-7). O relato quer etiologicamente mostrar que o mal está do lado da humanidade e não do lado de Deus. Mas articula essa ideia de tal forma que trai o anti-feminismo da cultura vigente naquele tempo.

No fundo interpretará a mulher como sexo fraco, por isso ela caiu e seduziu o homem. Daí a razão de sua submissão histórica, agora teologicamente (ideologicamente) justificada: “estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará”(Gn 3,16). Eva será para a cultura patriarcal a grande sedutora e a fonte do mal. No próximo artigo veremos como essa narrativa masculinista distorceu uma anterior, feminista, para reforçar a supremacia do homem..

Jesus inaugura outro tipo de relação para com a mulher, o que veremos também proximamente.


(*) Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu O rosto materno de Deus, Vozes 2005.

OBS: Imagem acima ilustrada por mim e oriunda da Wikipédia, com atribuição de autoria a Friedrich Müller, sendo o artigo constante no blogue do autor, Leonardo Boff, conforme consta em https://leonardoboff.wordpress.com/2018/02/09/as-escrituras-patriarcais-falam-do-feminino/

sábado, 20 de janeiro de 2018

A masmorra da perfeição




Por Ricardo Gondim

Meu amigo Elienai Junior escreveu “Salvos da Perfeição” como um convite para abandonarmos pretensões onipotentes. Aceitei o convite. Eu desejo ser salvo de todas as minhas pretensões perfeccionistas. Aliás, há algum tempo ando crescentemente em paz com as minhas ambiguidades. Aceito as sombras da interioridade sem o terror religioso, que antes me esbofeteava. Já encarei defeitos como moinhos que precisam ser destruídos; hoje vou no sentido contrário e pergunto: posso me valer de minha própria precariedade para aprofundar a minha humanidade? Entendo que aquilo que me faz paradoxal não me levará à perdição.

Se perfeição, no sentido metafísico, tem a ver com o finito menos valioso do que o infinito, prefiro um milhão de vezes a finitude. O absolutamente puro não pode relacionar-se com o impuro – ele nunca sabe se corre risco de contaminar-se. O perfeito se faz inamovível. Estagna. Empaca. Paralisa. Se algum dia, improbabilidade das improbabilidades, alguém conseguisse atingir a perfeição, tal pessoa se condenaria à solidão. Não poderia zangar-se já que raiva é um estado inferior à placidez. Não poderia amar, pois amor implica em vulnerabilizar-se ao outro.

Se o imaculado alcança o SER como estado puro, perde-se como pessoa; e do patamar de sua altivez, morre. Superior a todos, estanca a possibilidade de qualquer transfusão de sangue, de vida, que algum mal avisado amigo – imperfeito – quisesse doar. Sem experimentar processo, sem admitir que lhe falta algo, se isola, e vai para o inferno.

Não ambicionar ser perfeito (mesmo que fosse possível) significa atrever-se a continuar em transformação. O impecável se condena a encalhar na esfera que teólogos chamam de mundo ideal – da pura imobilidade, do marasmo completo, da placidez mais profunda de onde exala enxofre.

A história acontece repleta de senões. Não é necessário um exame minucioso para detectar: ainda não nasceu humano que prescinda de retoques. Mesmo o filho de Maria, diz a Escritura, “aprendeu a obediência naquilo que sofreu” – se aprendeu, progrediu; se progrediu, não era perfeito, simétrico, completo, terminado, absoluto.

O Éden está na Bíblia não para lamentar a perda de um estado de pureza, idílico, protegido e inocente. A Bíblia parece não admoestar que se volte ao paraíso perdido – como propôs o chatíssimo Milton.  Pelo contrário, a narrativa sagrada parece sugerir que encaremos aquele estágio da humanidade como não desejável. Permanecer no paraíso seria infantilizante. Para a história desenrolar, acontecer de verdade, foi imperioso sair do Éden – Filhos se tornam adultos quando quebram as grades do berço infantil, largam a barra da saia da mãe e entendem que a super proteção do pai idealizado era falsa.

Imperfeição, longe de qualquer parentesco com pecado, é condição humana. Admitir isso não significa humildade, mas simples constatação. Nunca humano algum vai conseguir desvencilhar-se de sua condição deficiente. O que é bom, pois crescimento e maturidade se iniciam a partir dessa admissão. A Bíblia também ensina que qualquer possibilidade de uma existência pós-morte deve contemplar ambiguidade humana, imperfeição e espaço para crescimento. O Apocalipse acena que o porvir eterno manterá as duas realidades mais presentes da existência: inferno e céu. Tanto céu como inferno continuarão depois da ressurreição. Na narrativa escatológica, inferno e céu representam não estado estático ou destino final das almas. O último livro da Escritura revela que tanto no passado, como agora e no futuro só se pode conceber vida humana com sombras e luzes – termo junguiano para as ambiguidades – que criam inferno e céu.

Exatidão, simetria ou pureza não passam de abstrações. No mundo das ideias é possível pensar um círculo perfeito. Contudo, no exato instante em que qualquer círculo for desenhado, defeitos aparecerão. Quem recusa admitir imperfeição se condena a culpa e hipocrisia – ambos adoecedores da alma.

Sistemas totalitários – filosóficos, religiosos ou políticos – tentam entalhar fundo na constituição humana, procurando adequar as pessoas aos imperativos da perfeição. E como nunca conseguem, assassinam. Torna-se imperioso para eles eliminar os que não alcançaram a medida proposta. O sarrafo dos saltos rumo ao ideal foi colocado tão acima da possibilidade humana que ninguém escapa. Daí o suplício dos que estão sujeitos a tais sistemas. Que jugo! Os que já sofreram podem relatar o terror de se verem amaldiçoados por uma divindade que não admite comportamentos que não sejam absolutamente certos. Quanta neurose, paranóia, psicose e morte!

Quando falo de imperativos, lembro que Graça nunca pode deixar de ser o norte cardeal da espiritualidade cristã. Graça ensina que Deus não só tolera os erros humanos, Deus celebra os limites da nossa imperfeição. Ele conhece a finitude de homens e mulheres e a enorme complexidade de viver. E não nos odeia por pisarmos os cadarços de nossos sapatos existenciais. Deus reconhece o valor do erro nos processos pedagógicos.

“O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno… Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor do que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó”[Salmos 103.8-14].

O futuro da espiritualidade talvez dependa da capacidade dos crentes reavivarem a teologia da Graça. Se conseguirão, ainda não sabemos. O tempo dirá.

Soli Deo Gloria


OBS: Artigo extraído de http://www.ricardogondim.com.br/estudos/a-masmorra-da-perfeicao/

sábado, 13 de janeiro de 2018

São José: santo dos sem-nome, dos sem-poder e dos operários





Por Leonardo Boff*

Ao lado dos quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) que representam a inteligência da fé, pois são verdadeiras teologias acerca da figura de Jesus, existe uma vasta literatura apócrifa (textos não reconhecidos oficialmente) que levam também entre outros, o nome de evangelho, como o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Maria Madalena e a História de José, o Carpinteiro que iremos comentar. Não foram acolhidos oficialmente por não se enquadraram na ortodoxia então dominante no século II e III quando a maioria surgiu. Eles obedecem à lógica do imaginário e preenchem o vazio de informações dos evangelhos, especialmente acerca da vida oculta de Jesus. Mas tiveram grande importância para a arte, especialmente na Renascença e, em geral, na cultura popular. A própria teologia hoje, com novas hermenêuticas os valoriza.

Este apócrifo, A história de José,o carpinteiro (edição da Vozes 1990), é rico de informações sobre Jesus e José. Na verdade, se trata de uma longa narrativa de Jesus sobre seu pai José feita aos apóstolos. Jesus inicia assim: “Agora escutai: vou narrar-vos a vida de meu pai José, o bendito ancião carpinteiro”.

Então Jesus conta que José era um carpinteiro, viúvo, com 6 filhos, quatro homens (Tiago, José, Simão e Judas) e duas mulheres (Lísia e Lídia). “Esse José é meu pai segundo a carne, com quem se uniu, como consorte, com minha mãe Maria.”

Narra a perturbação de José ao encontrar Maria grávida, sem a participação dele. Narra outrossim o nascimento de Jesus em Belém, a fuga para o Egito e a volta à Galileia. Termina dizendo: ”Meu pai José, o ancião bendito, continuou exercendo a profissão de carpinteiro e assim com o trabalho de suas mãos pudemos manter-nos. Jamais se poderá dizer que comeu seu pão sem trabalhar”.

Referindo-se a si mesmo, Jesus diz: “Eu de minha parte, chamava a Maria de ‘minha mãe’ e a José de ‘meu pai’. Obedecia-lhes em tudo o que me ordenavam sem me permitir jamais replicar-lhes uma palavra. Pelo contrário, dedicava-lhes sempre grande carinho”.

Continuando, Jesus conta que José casou pela primeira vez quando tinha 40 anos. Permaneceu casado por 49 anos até a morte da esposa. Tinha portanto 89 anos. Ficou viúvo um ano. Depois dos esponsais com Maria até o nascimento de Jesus ter-se-iam passado 3 anos. José teria, pois, 93 anos. Ficou com Maria por 18 anos. Somando tudo, teria morrido com 111 anos.

Depois, com detalhes, narra que seu pai “perdeu a vontade de comer e de beber; sentiu perder a habilidade no desempenho de seu ofício” Ao acercar-se a morte, José se lamenta proferindo onze ais. É o momento em que Jesus entra no aposento e se revela grande consolador. Diz: “Salve, José, meu querido pai, ancião bondoso e bendito”. Ao que José responde: “Salve, mil vezes, querido filho. Ao ouvir tua voz, minha alma recobrou a sua tranquilidade”. Em seguida, José recorda momentos de sua vida com Maria e com Jesus até recorda o fato de “ter-lhe puxado a orelha e o admoestado: ‘sê prudente, meu filho’ porque na escola fazia artes e provocava o rabino.

Jesus então confidencia: “Quando meu pai pronunciou estas palavras, não pude conter as lágrimas e comecei a chorar, vendo que a morte ia se apoderando dele. “Eu, meus queridos apóstolos, fiquei à sua cabeceira e minha mãe a seus pés…por muito tempo segurei suas mãos e seus pés. Ele me olhava, suplicando que não o abandonássemos. Pus minha mão sobre seu peito e senti sua alma que já subira à sua garganta, para deixar o corpo.”

Vendo que a morte demorava por vir, Jesus fez uma oração forte ao Pai: “Meu Pai misericordioso, Pai da verdade, olho que vê e ouvido que escuta, escuta-me: Sou teu filho querido; peço-te por meu pai José, obra de tuas mãos… Sê misericordioso para com a alma de meu pai José, quando for repousar em tuas mãos, pois esse é o momento em que mais necessita de tua misericórdia”. “Depois ele exalou o espírito e eu o beijei; eu me atirei sobre o corpo de meu pai José…fechei seus olhos e cerrei sua boca e levantei-me para contemplá-lo”. José acabara de falecer.

No sepultamento Jesus confidencia aos apóstolos: “não me contive e lancei-me sobre seu corpo e chorei longamente”, Termina fazendo um balanço da vida de seu pai José:


“Sua vida foi de 111 anos. Ao fim de tanto tempo, não tivera um só dente cariado e sua vista não se enfraquecera. Toda sua aparência era semelhante à de uma criança. Nunca sofreu qualquer indisposição física. Trabalhou continuamente em seu ofício de carpinteiro até o dia em que lhe sobreveio a enfermidade que o levaria à sepultura”.

Ao encerrar seu relato, Jesus deixa o seguinte mandato:“Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Espírito Paráclito e fordes enviados a pregar o evangelho, pregai também a respeito de meu querido pai José”. O livro que escrevi sobre São José que me custou 20 anos de pesquisa, até na Rússia, quis responder a este mandato de Jesus.

A bem da verdade, ele ficou quase esquecido pela Igreja oficial. Mas o povo guardou-lhe a memória, pondo o nome de José a seus filhos, a cidades, a escolas e a ruas. Ele é o símbolo dos sem-nome, dos sem-poder, dos operários e da Igreja dos anônimos.


(*) Leonardo Boff é teólogo e escreveu o livro São José, a personificação do Pai, Vozes 2005.

OBS: A ilustração acima (foto obtida através de uma postagem no blogue Suma Teológica) refere-se à cena da morte de São José, instalada atrás do altar principal da Igreja de São José, situada na Avenida Presidente Antonio Carlos, no Centro do Rio de Janeiro. Para chegar até o local é preciso conduzir-se através de uma passagem estreita, onde só é possível passar uma pessoa por vez. Já o artigo aqui reproduzido foi originalmente publicado no blogue do autor dia 12/01/2018, conforme consta em https://leonardoboff.wordpress.com/2018/01/12/sao-jose-santo-dos-sem-nome-dos-sem-poder-e-dos-operarios/