sábado, 11 de outubro de 2014

Os Perfeitos Não Sabem Amar ― ou Um Hino "Evangelicamente" Incorreto



O destino deve estar nos olhando
Com aquela cara de quem diz
Eu tentei juntar vocês dois

O destino deve estar nos olhando
Decepcionado
Que pena, que pena

Que a gente estragou tudo
Porque pensamos tanto em ser perfeitos
E os perfeitos não sabem amar

A gente estragou tudo
Por apontarmos tanto os nossos erros
Os erros vão sempre estar aqui

O destino deve estar nos olhando
Com aquela cara de quem diz
Eu tentei juntar vocês dois

O destino deve estar nos olhando
Decepcionado
Que pena, que pena

O destino deve estar nos olhando
Com aquela cara de quem diz
Eu tentei juntar vocês dois

O destino deve estar nos olhando
Decepcionado
Que pena, que pena

Não foi amor
E o que faltou?
Foi o que então? Não me pergunte não...






P.S.: 
      Clique no Título, para conferir o hino.



domingo, 28 de setembro de 2014

Uma reflexão tirada do livro de Isaías



"Porque assim diz o SENHOR Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na confiança, a vossa força, mas não o quisestes." (Isaías 30:15; ARA)

Lendo este versículo enquanto estudava o livro bíblico de Isaías na manhã de um outro domingo, tive a atenção despertada para o significado de mais uma mensagem das Escrituras capaz de transcender os limites de seu tempo.

Contextualmente, o profeta estava advertindo o povo de Israel sobre a inutilidade da aliança militar que seus governantes vinham fazendo com o Egito. Pois, temendo a invasão do exército assírio, os príncipes de Judá enviaram uma comitiva de embaixadores ao faraó, buscando um apoio do país que era considerado a maior super potência do antigo Oriente Próximo. E, certamente, tal proteção envolveria o pagamento de pesados tributos que representariam a perda de uma boa parte da riqueza nacional (verso 6 do cap. 30).

Segundo o texto, Deus não estava aprovando aquele pacto, o qual demonstrava desespero ao invés de fé. Os filhos de Israel estavam voltando as suas expectativas para o auxílio humano ao invés de exercitarem a confiança no Onipotente, no Deus de relacionamento de seus ancestrais libertos da escravidão egípcia. Estavam esquecendo-se Daquele que tem em suas mãos o controle soberano da História.

Se avançarmos um pouco mais no livro, veremos nos capítulos 36 e 37 que o reino de Judá livrou-se da opressão do exército assírio sem receber nenhuma ajuda do Egito ou das forças armadas de qualquer outro país. Através de uma milagrosa intervenção divina, o acampamento inimigo foi aniquilado e Jerusalém conseguiu resistir à maior ameaça que enfrentaram no século VIII a.C.

"Então, saiu o Anjo do SENHOR e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco mil; e, quando se levantaram os restantes pela manhã, eis que todos estes eram cadáveres. Retirou-se, pois, Senaqueribe, rei da Assíria, e se foi; voltou e ficou em Nínive" (Isaías 37:36-37)

Diz-se, com base na Bíblia, que Deus não divide a sua glória com ninguém e esse proceder tem a sua razão relacional para que o homem aprenda a ter fé. As profecias de Isaías, cujo ministério ocorreu mais de 700 anos antes de Jesus, ainda servem de encorajamento para as experiências que temos hoje em dia. Tanto coletivamente (para a Igreja) quanto para a peregrinação pessoal de cada um.

Quantas vezes não nos sentimos ansiosos para resolver um problema grave? Se somos ameaçados por alguém, ou confrontados por qualquer circunstância desafiadora, logo tememos e, ignorando a fé, pensamos somente nas soluções humana possíveis. Dobrar os joelhos e colocar a cara no pó são umas das últimas coisas que costumam vir na cabecinha incrédula das pessoas. Principalmente de quem ainda não teve uma experiência de conversão ou, em algum momento, anda relaxando neste processo de se voltar para Deus (em muitas vezes este autor também se inclui entre os que vacilam na demonstração da fé diante das dificuldades apresentadas).

Na sua advertência, o profeta convoca a nação de Israel para se converter e creio que tais palavras não estão ali registradas inutilmente. Pois não restam dúvidas de que o relacionamento com Deus, o Santíssimo, só pode existir a partir do momento em que o homem tem o seu coração transformado. É quando reconhecemos a nossa condição de pecadores e optamos por uma mudança de rumo. Quando passamos a dar ouvidos atentamente à voz do Grandioso Rei do Universo com toda a reverência que lhe é devida.

Sendo restabelecido o nosso relacionamento com Deus, a fé passa a ser exercitada. Quando atravessamos dificuldades, sentimos então o desejo de dividi-las com o nosso bendito Pai Celestial deitando em seu colo. O Eterno torna-se então um amigo inseparável a quem passamos a buscar em todo o tempo. E aí, se formos perseverantes, Ele se tornará tudo nas nossas vidas.

Toda essa confiança, quanto mais for exercitada, produz uma paz e uma tranquilidade infinitas no nosso interior. Tornamo-nos crentes maduros e já não tememos mais o homem ou as situações adversas. Tudo o que sofremos é levado a Deus nas orações ainda que o Onisciente já pré-conheça as nossas petições antes de serem pronunciadas por palavras ou formadas em pensamento. Só que o ato de orar vai servir justamente para que mantenhamos a nossa comunhão e direcionemos todo o nosso ser para um propósito espiritual visto que, até morrer, nunca deixamos de ser carne (ter emoções que nos abalam ou pensamentos duvidosos).

Como resultado dessa conduta espiritual contínua vem o fortalecimento. Um homem, uma família, uma congregação e um povo que agem com confiança podem ser chamados de fortes. E isto não vem deles, mas de Deus que nos anima, orienta e jamais abandonará as ovelhas de seu pasto. Tal como escreveu o poeta autor do Salmo 121, um crente de verdade reconhece que o Eterno é como a própria sombra ao seu lado. Ele nos guarda em todo o momento e para sempre.


OBS: A ilustração acima retrata o profeta Isaías. Trata-se de uma obra feita em 1509 por Michelângelo (1475-1564) no teto da Capela Sistina, Vaticano. Foi extraída através do acervo da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Michelangelo,_profeti,_Isaiah_01.jpg

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

As neblinas que tentamos alcançar



"Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém: Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?" (Ec 1:1-3; ARA)

No começo deste ano de 2014, comecei a leitura do livro bíblico de Cohélet (Eclesiastes), o qual, segundo a tradição judaica, teria sido escrito pelo rei Salomão nos dias de sua velhice, pouco antes de morrer. Foi quando o sábio monarca de Israel também teria composto o Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos) e Mishlê (Provérbios).

Ainda que para muitos o livro pareça um tanto pessimista, eu diria que o seu autor habilmente provoca nos leitores um choque de realidade com o proveitoso fim de auto-questionarmos as nossas futilidades. A palavra traduzida em muitas bíblias como "vaidade" significa literalmente, no idioma original hebraico, os termos "sopro" ou "neblina". Ou seja, o homem passa a sua vida correndo atrás do não-substancial, das coisas incapazes de preenchê-lo, assim como a água nunca enche o mar, conforme a linguagem poética muito bem empregada no texto:

"Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr." (1:7)

Por mais que as coisas experimentadas pelos nossos sentidos possam proporcionar um imediato sentimento de realização, eis que, com a morte física dos corpos, as obras feitas "debaixo do sol" (ou "debaixo do céu") tornam-se completamente inúteis para o espírito humano. Para quem já não se encontra mais aqui perde todo o significado ter acumulado bens, títulos, fama, notoriedade, muitos seguidores nas redes sociais, prestígio e até mesmo o conhecimento.

Enfim, qual seria o proveito de muitas dessas realizações?

Isso é o que o livro nos propõe a pensar desde o seu começo até a sua conclusão. E aí eu coloco a seguinte questão: será que conseguiremos ficar verdadeiramente livres desse constante desejo de realizar algo?

Creio que faça parte da nossa existência corrermos sempre atrás de alguma coisa. Tal como a Terra gira e o vento sopra continuamente sobre a sua superfície, existe em nós o impulso, sendo certo que precisamos estar bem orientados interiormente em relação à vida para buscarmos as melhores coisas. Logo o livro vem nos ensinar a ter saudáveis atitudes.

Curioso que Cohélet costuma ser lido nas sinagogas judaicas durante o sábado de celebração de Sucót (Festa dos Tabernáculos). As palavras do "Pregador" são então lembradas pelos rabinos justamente numa alegre época de Israel, quando os celeiros encontram-se abastecidos de alimentos e o homem tem a oportunidade de se satisfazer com a sua porção nesta vida debaixo do céu.

Assim, Eclesiastes trás um importante ensino que não podemos negligenciar e daí o seu autor mencionar um tipo de conflito entre as gerações que vão e que vêm (1:4,10-11). Erramos muitas vezes por ignorar as experiências dos mais antigos, daqueles cujos olhos já não se deixam mais enganar por supostas novidades. Daí manter viva na consciência a memória histórica e exercitar a capacidade de reflexão pessoal tornam-se úteis ferramentas para não sairmos por aí tentando apalpar miragens.

Uma excelente semana para todos!


OBS: A imagem acima acima trata-se de uma ilustração do rei Salomão feita pelo artista francês Paul Gustave Doré (1832 - 1883). Extraí do acervo virtual da Wikipédia conforme conta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Dore_Solomon_Proverbs.png

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O que Jesus disse e ainda não conhecemos?




Na fase conclusiva sobre o estudo que fiz em meu blogue pessoal sobre o Evangelho de Lucas, no ano de 2013, deparei-me com alguns questionamentos na internet acerca do período de 40 dias em que Jesus teria permanecido com seus discípulos transmitindo-lhes supostos ensinamentos não divulgados pelos textos canônicos. Embora o referenciado livro bíblico não dê nenhuma indicação de tempo, sabemos pela leitura de Atos dos Apóstolos (uma continuação do 3º Evangelho), que, até o momento de sua ascensão, nosso Senhor havia dado "mandamentos por intermédio do Espírito Santo". E isto realmente abre espaço para várias indagações. Principalmente quando, na literatura não oficial (tida por "apócrifa" pela ortodoxia cristã), encontramos referências a uma suposta "doutrina secreta" do Mestre.

De acordo com algumas histórias, Jesus teria estado com seus seguidores por dezoito meses (Adversus Haereses I 3:2) enquanto que, em outras, o tempo total das aparições do Cristo ressurreto duraram quinhentos e quarenta e cinco dias (Ascensão de Isaías 9:16). Já o Pistis Sophia, um livro "gnóstico" combatido pelo apologeta Irineu de Lyon no mencionado Adversus Haereges (literalmente Contra Heresias), informa que esse espaço de tempo foi de longos doze anos, cerca de quatro vezes o ministério terreno do Senhor na Palestina. E, neste contexto, há quem acredite ser as sentenças do Evangelho de Tomé a reunião dessas "últimas palavras" do Salvador.

Seja como for, o certo é que há inúmeras especulações acerca desses ensinamentos "misteriosos" em que hoje pesquisadores científicos e amadores esforçam-se por restaurar a partir de fontes encontradas/recuperadas pela Arqueologia. O fato do catolicismo que se oficializou em Roma no século IV ter destruído inúmeras obras reputadas como "heréticas" tem levado muitos nessas últimas décadas a alimentarem a crença de que, procedendo assim, aproximarão do que teria sido o cristianismo primitivo ainda mitologizado como um modelo perfeito de Igreja.

Considerando a decepção que há hoje em dia com o meio religioso, tanto entre evangélicos como no catolicismo, com sacerdotes acusados de corrupção e de pedofilia, consigo compreender melhor o porquê dessa busca por um outro cristianismo. Contudo, fico a indagar se o aprendizado de um novo conteúdo informativo fará uma diferença substancial para a humanidade. Questiono se muitos não estariam querendo fazer dos livros redescobertos pela Arqueologia uma espécie de "pílula" para resolverem essa necessidade de orientação/conhecimento espiritual quando, na verdade, podemos encontrar Deus dentro de nós mesmos e sermos guiados pelo seu Espírito Santo.

Não pretendo de modo algum desestimular as pesquisas arqueológicas, históricas e teológicas sobre um outro cristianismo que de fato existiu nos primeiros séculos da nossa era e foi tão perseguido pelos católicos antigos. Muito pelo contrário! A ampliação da nossa enciclopédia sempre haverá de ser algo proveitoso para os mais diversos fins e a humanidade tem o seu direito de saber. Paulo mesmo orientou os tessalonicenses que examinassem tudo retendo o que fosse bom (1Ts 5:21). Somente não concordo que a mera leitura de qualquer escrito, por si só, promoverá uma experiência transformadora. E digo isto até mesmo em relação à Bíblia que considero a minha bússola da qual não me desfaço por mais que a ciência avance e várias concepções filosóficas modernas tenham surgido. As Escrituras Sagradas continuam sendo minha companheira de todas as horas e que não deixo aberta num dos Salmos pegando poeira na estante, mas consulto frequentemente suas páginas.

Voltando a Lucas, consta no verso 45 do capítulo 24 que Jesus "abriu o entendimento" dos discípulos para que eles compreendessem as Escrituras. E, deste modo, falando numa linguagem popular, penso que a experiência da ressurreição fez "cair a ficha" no coração deles. Os ensinamentos transmitidos que durante a vida terrena do Mestre nem sempre bem compreendidos, começaram então a fazer sentido juntamente com uma nova maneira progressista de interpretação da Bíblia. Lembremos também da palavras dos anjos ditas às mulheres quando foram ao sepulcro levar aromas (Lc 24:5-9) e dos dois discípulos de Emaús (24:30-31). Aliás, foi o que tratei em algumas postagens feitas em dezembro no meu blogue, as quais se referem ao capítulo final do 3º Evangelho: "Ele não está aqui, mas ressuscitou" (17/12/2013), Caminhando e conversando com Jesus (19/12/2013) e Compreendendo as Escrituras (22/12/2013).

Respondendo à pergunta formulada no título deste artigo, eu diria que há ainda muita coisa que hoje precisamos conhecer para darmos um salto de qualidade na nossa caminhada espiritual. Falo em conhecer não apenas com a mente, mas num sentido espiritualmente mais íntimo. Pois não basta alguém simplesmente decorar um conteúdo ou entendê-lo pelas razões da lógica. Deve-se buscar uma experiência com a Palavra da mesma maneira que um homem só conhece a sua esposa quando se relaciona com ela na privacidade matrimonial, dentro de um contexto verdadeiramente amoroso.

Sendo assim, precisamos aprender mais sobre o amor fraternal através da prática de atos condizentes com este princípio basilar que rege toda a Lei de Deus e sua aplicação.

Precisamos desenvolver um profundo sentimento de respeito pela Vida que há em nós, no nosso semelhante e também nos seres das outras espécies, pois só assim estaremos verdadeiramente reverenciando o grande Arquiteto do Universo.

Precisamos entender que somos todos iguais em direitos e, portanto, devemos saber partilhar o nosso excedente com quem tenha falta de alguma coisa.

Precismos tomar a consciência de que todos cometemos erros de modo que não podemos ser tão intolerantes, arrogantes e julgadores quanto às falhas dos outros.

Precisamos enfrentar com fé os desafios que se apresentam no nosso cotidiano ao invés de alimentarmos dentro de nós o medo, a inútil ansiedade e a paralisia espiritual que é a falta de esperança.

Precisamos sentir fome e sede de justiça, esforçando-nos coletivamente para construir um mundo melhor para a nossa geração e dos nossos descendentes mesmo que não venhamos a ter filhos biológicos.

Precisamos ter a simplicidade de uma criança arrancando de dentro todo o orgulho que nos mata interiormente e impede que contemplemos as coisas do Reino de Deus.

Precisamos não abandonar a vigilância e nem a rotina oracional afim de estarmos sempre prontos para uma boa obra e olhando para os acontecimentos em nossa volta na perspectiva do Cristo, sendo certo que o nosso Jesus sempre buscou cumprir fielmente a vontade do Pai.

Tudo isso e muito mais encontra-se suficientemente documentado nas palavras atribuídas ao Mestre Jesus, o qual, por sua vez, soube dar um adequado significado à Lei de Moisés e aos Profetas numa sensível conexão com o tempo. E, se formos competentes em assimilar a essência dos ensinamentos que ele nos deixou (não basta apenas alguém memorizar), promoveremos uma diferença transformadora neste planeta gestificando a Mensagem pelas ações realizadas.

Que o Espírito de Deus nos ilumine!


OBS: A ilustração acima trata-se de um manuscrito do Evangelho de Lucas datado do século III. Encontra-se na Chester Beatty Library, Dublin, Irlanda. Extraí a foto do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:P._Chester_Beatty_I,_folio_13-14,_recto.jpg

domingo, 24 de agosto de 2014

Águia ou Abutre?



Nas traduções da Bíblia em português, o texto de Êxodo 19.4 diz:

Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias, e vos trouxe a mim;
(Almeida Corrigida e Revisada Fiel)


vistes o que fiz aos egípcios, e como vos tenho trazido sobre asas de águia para junto de mim.
(versão católica)


Vocês viram o que fiz ao Egito e como os transportei sobre asas de águias e os trouxe para junto de mim.
(Nova Versão Internacional)


Mas no texto hebraico, o termo não é "águia" e sim, "abutre" como bem traduz a versão mais literal de André Chouraqui:

"Vistes o que fiz a Misraîms e como vos trouxe sobre asas de abutres para vos fazer vir a mim"

 O autor bíblico provavelmente está se referindo ao Gyps fulvus, este bicho aqui embaixo.



Segundo  “The Ten Commandments: A Short History of An Ancient Text”, de Michael Coogan, Por que comparar o Senhor Deus a um comedor de carniça? Bem, porque o folclore sobre esses bichos entre os antigos israelitas dizia que, quando os filhotes começavam a aprender a voar, pulando do ninho, os pais rapidamente saíam voando por baixo e apoiavam os abutrezinhos nas suas costas, até que seus músculos estivessem suficientemente desenvolvidos para baterem as asas sozinhos. É uma metáfora de solicitude, portanto — apesar da comparação aparentemente pouco lisonjeira. 


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citado por Reinaldo Blog, da Folha SP

domingo, 10 de agosto de 2014

Rios no deserto: um comentário sobre Isaías 35




A linguagem poética dos profetas bíblicos nem sempre é bem compreendida pelo leitor fantasioso. Muitos se alienam em suas tentativas vãs de encontrar previsões para os acontecimentos do futuro folheando as páginas das Escrituras sendo que, na verdade, os autores sagrados estavam bem focados na situação do momento presente em que foi comunicada a mensagem.

Lendo Isaías 35, percebo ali uma pregação bem profunda  capaz de nos levar a um auto-conhecimento. Pois, embora seja identificada com o ministério de cura praticado 700 anos depois por Jesus, conforme os versos 5-6a, há algo muito mais além da literal abertura dos olhos aos cegos, do desentupimento dos ouvidos dos surdos, do fim da paralisia dos coxos e do desenrolar da língua dos mudos.

No contexto de Isaías, o profeta teria falado ao povo de Israel na ocasião das invasões dos assírios. Mas, na época dos redatores do livro, bem depois de sua morte, suponho que a experiência foi atualizada conforme os últimos instantes do exílio babilônico ou até mesmo quando os judeus teriam retornado para a terra de origem no final do século VI a.C. Só que, em qualquer tempo ou lugar, existirá sempre algo em comum capaz de atualizar aquela pregação milenar.

O texto do capítulo 35 aborda vários sentimentos humanos e nos aponta o caminho para a verdadeira felicidade. Vamos então ao comentário que podemos fazer ao texto bíblico analisando cada trecho da profecia.

Nos versos 1 a 2, o autor proclama uma promessa e usa a aridez da terra como metáfora. Ele prega a mudança de paisagem do deserto que se comparará à verdejante região do Líbano. E, antes que alguém faça uma interpretação de cunho sionista em favor da irrigada agricultura de Israel atualmente, eu diria que Isaías estava referindo-se mais profundamente à restauração do ser humano. Ou melhor, dos nossos corações.

Pessoas amargas, infelizes, deprimidas e desesperançadas podem ser mudadas pela glória de Deus. O "deserto" que há em seus corações, ainda que devastado pelos acontecimentos negativos que marcam a trajetória humana, a ponto de destruir sonhos, pode ser transformado em um lindo "pomar". Por isso o texto nos incentiva a recobrarmos os ânimos, não permitirmos que o medo nos acorrente e que venhamos a crer na operação salvadora de Deus (versos 3 e 4). Do Deus que tem o controle da história e aguarda nas suas mãos o momento certo de agir na caminhada de um povo e na vida de cada pessoa individualmente.

Por muitas vezes, os acontecimentos ruins e o pecado vão fechando a nossa  visão da realidade espiritual. Quanto mais o homem afasta-se de Deus, mais escuros ficam os seus horizontes e ele não consegue enxergar mais além das circunstâncias (cegueira). Torna-se insensível à voz do Espírito (surdez) a ponto de se perder nos caminhos por onde anda. Por fim, ele acaba se paralisando diante dos desafios que se apresentam (torna-se coxo) e a sua língua já não louva mais ao seu Criador (vira um mudo). Porém, quando abrimos as portas do coração para o mover divino, o milagre da ressurreição para a eternidade acontece. É quando, poeticamente falando, rios brotam no deserto transformando toda a paisagem seca do nosso interior. A sede que há em cada um de nós é preenchida pela Divina Presença.

Nos versos 8, 9 e 10, o profeta fala de um "Caminho Santo". Trata-se, pois, de uma estrada espiritual que exige uma inclinação para a pureza e para a santidade de quem se propõe a passar por ela. Deus, o Santíssimo, exige que todo aquele que O busca deixe o pecado através de um arrependimento sincero. Do contrário, não conseguimos nos apossar da Sião Celestial.

Certamente que, enquanto estivermos contaminados com os valores mundanos, em que estes interferem na nossa maneira de agir, vamos permanecer com as expectativas voltadas para o pecado. Erramos por procurar a felicidade nos prazeres, no acúmulo de poder e nas riquezas. Assim, nutrimos o engano dentro de nós, distanciando-nos cada vez mais da verdadeira Vida proposta por Deus aos homens. Vida esta que é revelada em Cristo - o Caminho Santo que se faz visível e palpável pelo exemplo de obediência trilhado por Jesus de Nazaré.

Mesmo sendo Santo, esse Caminho é posto para os pecadores passarem. Isto é, para os remidos, para quem aceitou o resgate divino do reino da maldade. Desta maneira, a pregação de Isaías torna-se uma espécie de Evangelho para todos os tipos de gente porque propõe uma aceitação do indivíduo pelo perdão incondicional e promete aos que atenderem seu chamado à experimentação da verdadeira alegria. Um gozo que é permanente ao invés do prazer passageiro do pecado ou da glória das riquezas que logo murchará.

Termino este texto desejando que a prática do bem e do amor torne-se algo no qual tenhamos prazer. Que possamos interiorizar os princípios da Lei de Deus em nossos corações, mergulhando por inteiro na Palavra. Pois, como disse o salmista, trata-se de lâmpada para os pés e luz no nosso caminho.

Tenham todos uma boa semana!


OBS: A foto acima trata-se de uma imagem do rio Jordão cruzando o deserto da Judeia em Israel. Foi extraída da internet em http://exegeserbiblica.webnode.com.br/news/uma%20introdu%C3%A7%C3%A3o%20%C3%A0%20geografia%20do%20mundo%20biblico/

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"Pai, por que me desamparaste?"





Os 4 evangelhos relatam cenários diferentes da crucificação. Nos evangelhos de Marcos e Mateus, as últimas palavras de Jesus foram: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste"? Em Lucas e João o cenário é diferente. Em Lucas Jesus pede ao Pai perdão por aqueles que o crucificam, promete o paraíso ao ladrão arrependido e termina dizendo "Em tuas mãos entrego o meu espírito" - morre quase serenamente, sem crise. Em João, o cenário é ainda mais diferente. Jesus diz à sua mãe e ao discípulo, que eles são filho e mãe, e diz: "Tenho sede" e morre dizendo "Tudo está realizado!". Aqui também não há palavra de revolta, abandono ou desespero!

Por que Marcos e Mateus são tão diferentes em seus relatos?

Uma interpretação antiga sugeria que Jesus teria dito "Meu Deus, meu Deus..." por que estava sofrendo as dores dos pecados de toda humanidade. Mas o que nos solta aos olhos, é que os escritores de Marcos e Mateus construíram suas narrativas baseadas no tema do Antigo Testamento do "Servo Sofredor", ou do justo que sofre. O livro de Jó é um exemplo que explora esse tema do justo que sofre injustamente. Mas as passagens mais significativas são os poemas do livro de Isaías 42, 49, 50 e 52-53.

Esses poemas falam de alguém cuja missão é sofrer injustamente, ser perseguido por ser justo, sofrer violência por não praticar violência, mas que resiste firme até implantar o direito  no país se tornando exemplo para o mundo todo. Foram esses poemas de Isaías que serviram de base para Marcos e depois Mateus escreverem seus cenários da paixão de Jesus. 

As palavras ditas por Jesus em Marcos e Mateus não são exatamente de Isaías, e sim, são o primeiro verso da oração de um pobre, inocente, perseguido e que e viu a morte de perto do salmo 22. O salmo tem duas partes: A primeira é a oração do pobre, justo e inocente ameaçado de morte. A segunda é de agradecimento a Deus porque "não desprezou nem desdenhou a desgraça do pobre" (v. 25)

Todos os detalhes da primeira parte do salmo 22 estão em Marcos e Mateus como antecedentes da crucificação. Os versículos 8 e 9 do salmo dizem: "Todos os que me veem zombam de mim, abrem a boca e maneiam a cabeça: Ele recorreu a Javé...pois que o salve! Que o liberte, se é que o ama de fato!" Também no verso 17, 18 e 19: "Um bando de malfeitores me envolve furando minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos. As pessoas me observam e me encaram, entre si repartem minhas vestes e sorteiam minha túnica".

Até o verso 22 o salmo reproduz a oração do pobre, do justo, do sofredor, e a partir do 23 segue-se a celebração de ação de graças que incluía um "sacrifício de comunhão", que era uma espécie de churrasco popular, para o qual eram convidados os pobres que viviam em torno do templo (v 27). O salmo lembra a súplica feita no momento de dor, mas no todo é a oração de ação de graças "porque Deus não desprezou nem desdenhou a oração de um pobre". Marcos e Mateus não poderiam ter escolhido melhor base para construir suas narrativas da crucificação. A mensagem estava dada.


sexta-feira, 11 de julho de 2014

O que é ser judeu?




Mesmo para aqueles que acham que judaísmo é apenas uma religião, o assunto provoca divergências. Não é por acaso que se conta a história do náufrago judeu que, após dez anos desaparecido, é encontrado numa ilha deserta por um navio que por lá passava. O capitão encantou-se com as estratégias de sobrevivência dele, que incluíam a construção de uma casa bastante sólida, a confecção de redes de pesca e arpões e, para sua surpresa, duas sinagogas. “Duas sinagogas”, perguntou o capitão, “para que construir duas sinagogas se você está sozinho na ilha”? “Muito simples”, respondeu o náufrago. “Naquela eu rezo todos os sábados. Já na outra eu não entro de jeito nenhum”.

Assim são os judeus religiosos: uns, ortodoxos, outros conservadores, os terceiros liberais e ainda os reformistas, alem de várias outras denominações. A convivência nem sempre é pacífica, mas a ausência de um poder central e de uma função sagrada para os rabinos (eles não falam em nome de Deus, não dão sacramentos, e qualquer ato religioso judaico pode ser realizado sem a sua presença) faz com que as diferentes comunidades contratem diferentes tipos de rabino. Há, inclusive, rabinos gays e “rabinas”. Seu papel mais importante é adaptar leis milenares às práticas de cada grupo. É por isso que uma comunidade tão pequena como a brasileira (menos de 0,1% da população do país) tem tantas sinagogas, organizações e porta-vozes. É muito cacique para pouco índio.

Mas limitar o judaísmo à identidade religiosa é não responde todas as situações. É possível dizer que Philip Roth não seja um escritor judeu, que Woody Alen não é um cineasta judeu, que Marc Chagall não foi um pintor judeu, que Sigmund Freud não tenha sido judeu? O judaísmo está presente em suas obras de todos esses gênios.


Uma parcela significativa da juventude israelense, como protesto pela inexistência do casamento civil no Estado de Israel, recusa-se a se casar na sinagoga e viaja até Chipre para oficializar sua união. Seriam esses jovens não judeus? 

Não há uma única forma de identificar os judeus. Eles não permaneceram identificados como tais apesar da História, mas por causa da História. Não fossem necessários, teriam desaparecido como povo. O grande segredo da sua permanência é que não permaneceram, mudaram. Nada mais distante de um judeu do gueto do que um outro que transcenda a ideia da nação. Quando, depois de muitos séculos, os judeus obteveram sua emancipação como cidadãos – isso tudo só após a Revolução Francesa – muitos saíram da cidadezinha para o mundo, tocando música, escrevendo, pintando, marcando, enfim, sua presença no mundo a partir do início do século XX.


Isso, contudo, só ocorre para uma pequena fração de judeus. A maioria continuava nas aldeias e nos bairros pobres das cidades da Europa Oriental. E é nesses ambientes que surge o nacionalismo judaico. Deve-se localizar as raízes da identidade nacional judaica no século XX, na Europa Centro Oriental e atribuí-la a três fatores complementares: o esgotamento das formas de existência judaica nas cidadezinhas e nos guetos das cidades da Polônia e região; a “primavera das nações”, então em curso, que se apresentava como panacéia universal, remédio destinado a superar pobreza e perseguições (não foi, como sabemos); o profundo sentimento de identidade cultural.

Embora a colonização moderna da Palestina pelos judeus tenha se iniciado no final do século XIX , ela não era ainda muito significativa em termos quantitativos até a década de 1930. A ascensão de Hitler ao poder, a “solução final” concebida e executada pelos nazistas, (com o assassinato sistemático da maioria da população judaica européia) fez com que grande parte dos judeus não percebessem outra solução que não a “reconstrução” de um estado que pudesse funcionar como refúgio a todos os judeus do mundo que se sentissem perseguidos. Essa é a história de Israel. 


Isso faz com que todos os judeus sejam israelenses e que todos os israelenses sejam judeus? Claro que não. Em Israel existe um importante número de israelenses árabes, muçulmanos ou cristãos. E bem menos da metade da população judaica do mundo vivem em Israel, por qualquer critério que se queira identificar esses judeus. 

Há, sempre, quem olhe o judeu de forma preconceituosa, francamente negativa ou falsamente positiva, mas nem por isso menos discriminatória. Há quem diga que existe um judaísmo gastronômico, outro ufanista (esgrimindo com violinistas, escritores e cientistas judeus que ganharam o prêmio Nobel). Há mesmo quem ainda acredite que os judeus sejam o povo eleito. Tenho, contudo, a convicção de que sua experiência como discriminados habilitou os judeus a lutar contra qualquer discriminação, e o período da vida na aldeia isolada ou nos guetos desenvolveu em muitos judeus o ódio ao etnocentrismo, ao horizonte limitado. 

Há um judaísmo universal e ele pode ser praticado.



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publicado na revista Aventura da História
http://www.jaimepinsky.com.br