sábado, 31 de dezembro de 2011

Pastores leigos



"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;
Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, (Ef 4:11,13)"

Um assunto pouco discutido nos meios pentecostais, é a consagração de leigos para ocuparem uma cadeira nos púlpitos de nossas igrejas. Muito diferente de muitas igrejas tradicionais, onde é exigido além de vocação, uma boa formação acadêmica, ter no mínimo o grau de bacharelado, seguido de alguns anos de estágios, e assim mesmo só será credenciado após passar por uma rigorosa sabatina, onde o postulante ao ministério terá que provar que tem total domínio na área em que irá atuar, no caso, a teologia, ter pleno conhecimento da teologia sistemática, bem como todos os sistemas teológicos tanto extintos como vigentes.

Os critérios adotados por parte das denominações evangélicas, sobretudo as pentecostais para a ordenação de pessoas para o oficio ministerial são de uma pobreza sem tamanho. Há casos onde as regras são duas apenas. Ser batizados com o Espírito Santo e dizimista. 
Há alguns anos aconteceu um fato lamentável  numa grande denominação, onde foi feito um verdadeiro arrastão no seio da igreja na tentativa de agrupar um numero x de pessoas, homens e mulheres para ocuparem uma vaga de ministro do evangelho. Não haveria nenhum problema se tal evento não fosse de cunho político. Na verdade o que planejavam era tornar pessoas aptas para votarem numa determinada convenção. A ordenação em si não é o grande problema, mas sim os pressupostos que levaram a essa atitude.

Cito como exemplo casos que aconteceram no século XVIII, com avivamento da igreja em alguns países europeus, onde houve um crescimento sem precedentes na historia do protestantismo, como os Pietistas na Alemanha, os Moravianos na Europa central e até mesmo o metodismo Wesleyano na Inglaterra. A demanda exigia com urgência pessoas dispostas a serem enviadas como missionários desbravadores com a mensagem do evangelho reformado. Pelo que se tem noticia foi a primeira vez (com exceção da igreja primitiva) que foi levado em consideração mais o fator disponibilidade do que propriamente o preparo básico exigido para desempenhar tal função. 
Neste caso, especificamente, houve uma carência, uma necessidade urgente em função da demanda. Bem diferente do caso lamentável ao qual me referi anteriormente.

No meu ponto de vista, e acredito que seja o de muitas pessoas, é que há a necessidade sim, de que o vocacionado obtenha  certo grau de instrução no que se refere a teologia, para depois ter sua credencial de ministro do evangelho. 
A pergunta que se faz é a seguinte: se qualquer instituição séria, utiliza sempre o modelo convencional e histórico, porque então o pentecostalismo e suas vertentes continuam fazendo vista grossa a algo tão primário? A resposta tem um nome; pragmatismo. Nenhum outro movimento cristão cresce mais do que o pentecostalismo. Mas  sabemos que há um preço a ser pago por um crescimento insustentável. Qual é o preço? É o seguinte: o evangelicalismo pentecostal é rápido até demais na sua capacidade de agrupar pessoas sob suas respectivas placas denominacionais, porém frágeis, fragilíssimo, no que diz respeito ao preparo e a instrução intelectual de seus membros. Daí para o nominalismo, para a perda da identidade cristã e o apego a crendices é um passo.  

O texto de Efésios diz que o ministério foi instituído com vistas o aperfeiçoamento dos Santos, objetivo este que só poderá Ser alcançado com a habilitação e a capacitação daqueles que estão encarregados dessa missão

A realidade porém é outra . O que existe é uma grande quantidade de obreiros sem nenhuma qualidade, e as mensagens pregadas por eles seguem esta mesma ordem. O resultado não poderia ser outro; uma grande quantidade de crentes desejando ardentemente ouvir mensagens com conteúdo, no entanto são obrigadas a ouvir histórias e conceitos que aprenderam no jardim da infância. (Hb 5:11,14). 

Particularmente estou cansado de ouvir a Bíblia sendo pregada apenas em forma de alegorias. Sermão típico daqueles que não procuram se aprimorar na arte de elaborar sermões expositivos.  
Cabe então a pergunta, ser aperfeiçoado por quem? 

Abraços. Donizete.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

DEUS É CAPRICHOSO




“Sabemos que em todas as coisas Deus intervém para o bem dos que lhe amam.” (Romanos 8.28).


Ouvimos demasiado esta "celebre" frase: “Não foi a vontade de Deus.” Sequer questionamos ou analisamos o motivo dos nossos fracassos, dos nossos equívocos. É bem mais fácil nos escondermos atrás de um Deus caprichoso que simplesmente, sem palavras, sem respeito, trava o caminho que escolhemos seguir, e ainda nos deixa navegando à mercê da imensidão dos mares, sem bússola, e sob qualquer tempestade.

O nosso Adão continua procurando sempre alguém a quem acusar, jamais assume suas irresponsabilidades, sua falta de sensatez nas escolhas, seu desejo de conquistar sem o mínimo esforço. A nossa Eva continua buscando alguém em quem se apoiar para ver se dá certo. Gastar tempo analisando os prós e os contras é muito trabalhoso. Finalmente quando tudo vier abaixo, "foi esta a vontade do Pai!”

O que seria realmente a vontade de Deus para nós? Se acreditamos em um Deus que é pleno amor, concluímos que Ele tem prazer em nos ver realizados. Felizes com as nossas conquistas idealizadas e sonhadas por nós mesmos. Entenderemos que Ele é aquEle amigo com quem podemos compartilhar os nossos projetos; e como sendo sábio e conhecendo perfeitamente a nossa estrutura, aqui e acolá, Ele vai colocar diante de nós uma opção que se adequaria mais satisfatoriamente às nossas aspirações no nosso cotidiano. Sem embargo, será apenas um parecer, jamais uma imposição.

Por vezes, embora tenhamos apenas conhecimentos teóricos, achamos que as nossas escolhas são mais suficientes e desprezamos a sabedoria deste amigo que, não sendo soberbo, não nos abandonará à mercê de uma má sorte por havermos descartado a sua inteligente opinião. Seguimos teimosos no nosso hipotético entendimento... Às vezes até por caminhos mais rápidos, mas de repente, nosso mundo vai abaixo. Então exclamamos: “Castigo de Deus!”

Mais uma vez estamos equivocados atribuindo a Deus a consequência por nossos tropeços, nossas ações mal planejadas, nossas boas intenções fracassadas. “A vontade de Deus é perfeita para as nossas vidas.”

Quando, deliberadamente, buscamos a direção de Deus para algo que não estamos seguros se realmente é o melhor para nós, embora desejemos que fosse, e Ele nos traz uma resposta negativa, não é porque Ele é caprichoso, nem simplesmente, como muitos equivocadamente afirmam, que “Ele está quebrando o nosso EU”. Antes, porém, é exatamente como já dissemos acima, porque Ele conhece a nossa estrutura e sabe o que é realmente o melhor para nós.

Ouvi a história de uma senhora que quando ia vestir sua pequena filha para escola dominical, colocava sobre a cama dois vestidos e lhe ordenava escolher qual ela queria vestir, após a escolha feita, ela guardava o vestido escolhido e dizia você vai é com este para quebrar o seu EU.

Como muitos de nós agimos como esta senhora citada, tendemos a enxergar Deus da mesma maneira. Deixamos de ser conforme a Sua imagem e semelhança e passamos a construí-Lo à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.

Necessitamos crescer, reconhecer que devemos ser senhores das nossas ações; que podemos encaminhar nossos passos ao nosso bel prazer. Devemos reconhecer que somos livres para dar à nossa vida o sentido que bem entendermos; que estamos sujeitos apenas às leis naturais que regem o universo ou à nossa cultura, e que quanto a Deus, somos livres para tomá-Lo como Senhor ou não das nossas vidas. No entanto, particularmente, e sei que para milhões de outros, a melhor opção para termos uma vida menos trabalhosa e com acertos, é nos submetendo ao senhorio sábio de Cristo.

Guiomar Barba.





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publicado também em http://davidguiomar.blogspot.com/

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Aviso aos navegantes!








Mais um ano acabando...mais um natal chegando...o tempo passa, o tempo voa, e os bons debates continuam numa boa...Quero aproveitar este espaço para desejar um bom natal em família para os confraternos da Logos e Mythos, a todos  visitantes e leitores, e fazer alguns avisos sobre o blog.



Pronto, coloquei uma ordem de postagem. Não coloquei o JL pois ele não respondeu ao convite e parece mesmo não estar com tempo para participar. Por isso, segui a ordem de postagem que foi feita até agora e as próximas a postar serão Mari e Gui. (já que eu acabei postando o texto do(e para) o  Levi. Mas Levi, se quiser, você tem o direito de postar outro texto rs).



Os textos ficarão 4 dias sendo debatidos, e logo no quinto dia, o próximo na lista deve postar. Se não o fizer, por qualquer motivo, segue a listagem! Acho que ninguém deve ser "obrigado" a postar, claro, por isso, se é a sua vez  e você não quiser fazê-lo, avise logo com antecedência para que a dinâmica do blogue não perca solução de continuidade.



Estou muito satisfeito com o teor dos textos até agora. Foram bem debatidos e tiveram muitas visualizações como vocês podem ver nas estatísticas do blog. Espero que o Logos e Mythos  vire referência como um blog aberto a todas as tendências teológicas e onde as discordâncias são motivos de reflexões e não de combates acalorados em defesa de alguma  crença doutrinária. Aqui não há hereges nem ortodoxos, e sim, pessoas com diferentes níveis de fé e de visões que são inteligentes o bastante para concordar ou discordar em bases argumentativas sólidas, ainda que tal base seja o simples "eu creio".



A BIBLIOTECA DO BLOG



Na parte superior direita do blog coloquei uma página onde poderão ser baixadas revistas e livros. Eu estou aos poucos, colocando os meus arquivos digitais (que são muitos!) e quem desejar colaborar com a biblioteca, fique a vontade para fazê-lo. Vale até gibi do TEX (né, Doni???) rssss


Então acho que é isso. Qualquer observação, sugestão ou reclamação, deixe seu comentário. Abraços e beijos. 


Edu







quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

“Ateísmo 2.0” ― Reaviva o Sentimento “Religa-re”










O filósofo Alain de Botton na escadaria da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (foto: Orestes Locatel)




O ESCRITOR E FILÓSOFO ateu, Alain de Botton, natural de Zurique (Suíça) afirmou, recentemente, que o mundo necessita urgentemente de um “ateísmo 2.0”, que deixe de lado a luta histérica para provar que Deus não existe, a fim de tirar proveito do que as religiões têm a oferecer.No seu best seller, “Religião Para Ateus”, lançado esse ano pela editora Intrínseca, ele propõe um resgate de tudo que a religião reivindicou como domínio exclusivo de sua área que deveria pertencer a toda humanidade.

Para exemplificar o seu intento, afirmou: “o que existe de melhor no Natal gira em torno de temas da comunidade, festividade e renovação que, na sua ótica, antecedem o contexto em que foram colocados ao longo dos séculos pelo cristianismo”.

 Em uma recente entrevista à revista VEJA, Alain de Botton, quando perguntado por que achava que os ateus estavam exagerando no intelectualismo e na racionalidade, assim se expressou:

 “O ponto de partida das religiões é que somos crianças e que precisamos de orientação. O mundo secular em geral se ofende com isso. Essa postura ofendida pressupõe que todos os adultos são maduros e devem odiar o didatismo, a orientação e a instrução moral. Mas é claro que somos crianças, grandes crianças que precisam de orientação, de guias que nos lembrem como devemos viver, embora o sistema de educação moderna negue isso, ao nos tratar como seres demasiadamente racionais, razoáveis e controlados. Nós somos muito mais desesperados do que o nosso sistema de educação reconhece. Todos estamos à beira do pânico e do terror quase todo o tempo – e a religião reconhece isso”.

No livro “Religião Para Ateus”, ele descarta os dogmas e o sobrenatural, mas faz uso das ferramentas empregadas pela religião para mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular.

Há descrições ousadas, como esta de retirar da missa e dos cultos elementos para imaginar como deveria ser o modelo do seu restaurante comunitário, que cognominou de Ágape:

“Tal restaurante teria uma porta aberta, uma modesta taxa de entrada e um interior projetado para ser atrativo. A distribuição dos assentos romperia os grupos e as etnias em que normalmente nos segregamos; parentes e casais seriam separados e amigos seriam favorecidos em detrimento de familiares. Todos teriam segurança para se aproximar e dirigir a palavra sem medo de rejeição ou censura. Pelo simples fato de ocuparem o mesmo espaço, os convidados estariam — como em uma igreja — sinalizando sua adesão a um espírito de comunidade e amizade. A proximidade exigida por uma refeição — algo que tem a ver com passar as travessas para os outros, pedir o saleiro a um desconhecido — perturba nossa capacidade de nos agarrar à crença de que estranhos que vestem roupas incomuns e falam com sotaques distintos merecem ser atacados ou mandados para casa [...]. [...] Graças ao restaurante Ágape, nosso medo de estranhos diminuiria. O pobre comeria com o rico, o negro com o branco, o ortodoxo com o secular, o bipolar com o equilibrado, trabalhadores com gerentes, cientistas com artistas.” (Religião para Ateus – páginas 37 e 40).

Freud, foi um que pretendeu, talvez de forma inconsciente, purificar a religião de suas impurezas. Ao sustentar o objetivo do desenvolvimento humano amparados nos seguintes ideais: razão, verdade, logos, amor fraternal, estava, na verdade, corroborando com os princípios éticos de todas as grandes religiões, quer orientais, quer ocidentais, baseadas nos ensinamentos de Confúcio, de Buda, dos profetas e deJesus.

Jung, por sua vez, tratou de transpor para a linguagem psicanalítica, a experiência religiosa de submissão a um poder superior, sucedâneo do pai natural, que no caso da religião é simbolizada por Deus, Javé, Buda, etc, naquilo que foi denominado por ele de"arquétipo patriarcal".

Auguste Comte quis fundar uma religião que não se agarrasse às tradições eclesiásticas, descartando alguns dos seus elementos beligerantes, ao mesmo tempo em que se aproveitou dos aspectos mais relevantes e racionais da Eclésia, para utilizá-los em sua excêntrica teoria.

No fundo, no fundo, não vejo outra coisa em Freud, Jung, Comte e no novato Alain de Botton, que a presença do nobre sentimento RE-LIGARE, afeto este, exteriorizado pela preocupação em compreender as experiências interiores do homem religioso e sua necessidade de rituais de limpeza, cuja finalidade é a de reduzir o próprio sentimento de culpa internalizado em seu ser.

Erich Fromm, discípulo de Freud, certa vez, dissertando sobre o sentimento religioso, disse: "Se focalizarmos nossa atenção na compreensão da realidade humana que preside às doutrinas religiosas, verificaremos que a mesma realidade serve de alicerce a diferentes religiões, e que atitudes humanas opostas se ocultam atrás de uma mesma religião. Por exemplo, a realidade emocional que preside aos ensinamentos deBuda, de Isaías, Cristo, Sócrates e Spinosa, é essencialmente a mesma; o anseio pelo amor, a verdade e justiça caracteriza-a" (Psicanálise e Religião - páginas 77 e 78).

Ora, bem sabemos hoje que, o anseio de paz, de fraternidade e de comunhão entre os diferentes, são ressonâncias de um desejo primitivo de RE-LIGAÇÃO ao "Éden idílico"impresso na gênese de nossa formação (real conceito de religião). Esse sentimento indestrutível arquivado indelevelmente na memória tanto do ateu, quanto do não ateu, como um motor, está sempre funcionando no sentido de expandir os anseios e desejos humanos por um mundo melhor e mais justo.


Levi B. Santos
Guarabira, 04 de dezembro de 2011
publicado originalmente no  Blog do Levi Bronzeado

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Jesus histórico: uma busca interminável










A PRIMEIRA VEZ que eu tomei conhecimento da expressão  “Jesus histórico” fiquei intrigado.  Para mim só existia um Jesus, aquele que é retratado nos evangelhos e nas epístolas paulinas. Ele era Deus, apesar de ser também humano, possuía a mesma natureza de Deus e fazia parte da segunda pessoa da Trindade. Consequentemente, também achava que o Jesus dos evangelhos e o Jesus das epístolas  eram o mesmo.  Não que eu compreendesse esses conceitos plenamente, mas os aceitava pela fé; mas minha fé era do tipo “aceito pela fé mas eles são verdadeiros e não admitem contestação”; vejo hoje que isso é um paradoxo, pois se aceito alguma coisa pela fé, é por que não tenho a certeza cabal empírica e sensível que tal coisa é verdadeira; a certeza da fé é de uma natureza diferente da certeza que eu tenho que se me jogar do  vigésimo andar de um prédio, eu estarei morto. A não ser, é claro, que aconteça alguma variável totalmente inesperada.

DEPOIS QUE DESCOBRI que existia um Jesus histórico que não necessariamente era o mesmo do Jesus da fé, passei a contragosto, a ler tudo o que eu pudesse sobre o tema. Depois de várias leituras, fiquei convencido de que existiu um “Jesus real” e um “Jesus ideal”; um Jesus que foi apenas um homem de visão existencial surpreendente e o Jesus que era(ou se tornou) Deus. Confesso que isso abalou bastante minha fé. Como eu poderia ter a certeza da fé num Jesus que era outro? Um desconhecido pela maioria dos cristãos que nunca ouviram falar dessa discussão  Jesus histórico x o Jesus da fé?

MEU PRÓXIMO PASSO foi tentar conciliar o Jesus da fé, o Jesus que eu cultuava na igreja como Filho de Deus e “verdadeiramente Deus”, o Jesus que provocava em meu coração um transbordante fluxo de alegria e energia, com o Jesus humano, agitador social messiânico  e reformador das tradições da sua religião que eu tinha descoberto. Confesso outra vez que isso não foi ( é) uma tarefa fácil. Sempre que eu ouço uma palavra pastoral onde esse Jesus mítico da fé é tomado como o “Jesus real” fico com vontade de interpelar e dizer que existe  um outro Jesus desconhecido pelos cristãos e que conhecê-lo é imprescindível para aqueles que desejam uma fé mais madura e mais esclarecida.

MAS É POSSÍVEL encontrar esse “Jesus histórico” nas páginas do Novo Testamento? Ao que parece, não totalmente, mas com as ferramentas metodológicas certas, pesquisas arqueológicas e de fontes fora da Bíblia, pode-se vislumbrar esse Jesus humano  que transformou a história do Ocidente. Como já vimos no texto do Doni, equilibrar o entendimento dogmático cristão que Jesus tinha duas naturezas, uma humana e outra divina, ambas operando plenamente na mesma pessoa, não foi estabelecido sem controvérsias que persistem até hoje. Por muito tempo eu não quis saber desse “Jesus histórico humano” pois ele me soava como herético, mas na verdade, descobri que herético mesmo são as diversas ideias que se tem do Jesus da fé; mesmo que sejam “heresias” do ponto de vista da história.

ESPERO NOS MEUS próximos textos abordar esse tema da historicidade do homem Jesus  e do Deus-Homem Jesus; Não pretendo colocá-los cada um de um lado do ringue para brigarem, mas procuro afirmar um sem negar o outro; mesmo que hoje me soe bem estranho dizer que Deus se encarnou num homem se tornando Deus-Homem ou Homem-Deus e que ele foi um judeu, praticante da religião que ele mesmo estabelecera para seu povo.

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Ilustração: revolução.net
Este foi um retrato que pesquisadores fizeram de como Jesus deveria ter sido, baseados em pesquisas históricas e antropológicas do povo israelita do primeiro século. Causa um choque em nós, acostumados com o Jesus europeu, loiro, olhos azuis e cabelos longos escovadinhos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Além do bem e do mal


“E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva” Gênesis cap. 32 vs. 30

Ambigüidade, sagacidade, habilidade de trafegar entre o sagrado e o profano são só algumas expressões que definem um dos mais polêmicos e controversos personagens da Bíblia.

Quem em sua honesta auto-avaliação, nunca teve um dia(s) de Jacó na vida?

Admirado por alguns, desprezado por outros e totalmente insignificante por aqueles que fogem de si mesmo não querendo ou não tendo a coragem de assumir um pouco que seja desse que é um rascunho bem definido de todos nós.

Um típico exemplo de como a escandalosa e indecifrável Graça de Deus pode ser projetada em personalidades nada convencionais e totalmente contraditórias as concepções elaboradas pelas cartilhas da moralidade desprovidas do sentimento de identificação com a própria natureza, equivocada quanto a imagem de si mesmo.

Só muda o endereço e o momento dos acontecimentos, mas a história alimentada por uma biografia que de inusitada passa a ser padronizada e repleta de altos e baixos, assume personalidades bem conhecidas do nosso cotidiano a começar por nós mesmos.

O que fica bem associado entre Jacó e nós, é que somos definidos e absorvidos pelas pessoas prioritariamente pelas nossas visíveis ações, ainda que o todo do contexto e do conteúdo do nosso interior seja a expressão da verdade de quem somos e de como fazemos a leitura da vida com as suas diversas dinâmicas e propostas.

Por esta razão, é que Jacó encarna bem a lição de que “o que se planta é o que se colhe”, independente da consciência ou inconsciência, boas ou más intenções com que traduzimos na prática nossas convicções.

A crise de “to be or not to be: that’s the question” se instala de vez, quando somos visitados por um insight da benevolência Divina, é aí exatamente que entramos numa luta pelas rédeas da nossa existência, que só conseguimos equilibrar quando aceitamos o fato de que A GRAÇA está além do bem e do mal.

Mesmo depois de discernir e ser discernido pela revelação de uma experiência com a DIVINDADE inerente a qualquer mero mortal, o “to be or not to be: that’s the question” continua latente e bem presente nas nossas inclinações que agora “devem satisfação” a duas realidades com potencial de nos conduzir em caminhos de plenitude e novidade e caminhos de obscuridade.

A pergunta que não cala é: E a Graça continua como habitante do meu ser? A resposta é: Sempre!

Sempre porque ela não se decifra com códigos de ética moral, sempre porque ela escandaliza até mesmo os pudores de quem se percebe impróprio e que se sente constrangido com a decisão unilateral do Criador em re-inventar uma relação com sua criatura que era irremediável pela própria consciência.

Jacó é a representação da possibilidade de pacificação da alma a nossa disposição mesmo envolvidos em sentimentos de inadequação, rejeição e menosprezo, pois é aí que reside a GRAÇA da GRAÇA, que não imputa, mas absolve, sempre nos convidando a um relacionamento que nos conduza em escolhas de paz consigo mesmo, como conseqüência da decisão de invocá-la nos sucessos e retrocessos da vida, sabedores de que é o imerecimento mesmo que nos credencia a sermos alvo das mãos estendidas do SER que é PAI.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A ideia de Deus como um “pastor”

O salmo 23 é um dos mais conhecidos da Bíblia pela fé que suas palavras transmitem ao leitor, proporcionando conforto e segurança para quem espera em Deus. Em seus seus versículos, o poeta descreve a solicitude divina para com os justos através de duas imagens, apresentando o Eterno como um pastor (versos 1 a 4) e também como um anfitrião que oferece um banquete a um convidado de honra (versos 5 a 6).

A princípio, para que possamos melhor compreender a ideia de Deus como um pastor, é importante nos familiarizarmos mentalmente com o meio ambiente seco da Palestina onde o salmista teria composto o seu belo poema no idioma hebraico. Pois, aqui no Brasil, em quase todas as nossas religiões onde a vegetação e a água costumam ser abundantes para a agropecuária (exceto o sertão nordestino), pode-se dizer que as ovelhas cuidam de si mesmas ficando soltas no pasto. Porém, em lugares semiáridos como são a nossa Caatinga e mais ainda o Oriente Médio, a presença do pastor é indispensável já que, por diversas vezes, é preciso conduzir o rebanho por horas pelas paisagens desérticas até encontrar água e pasto verde para os animais.

Sem dúvida que, nestes locais secos e de criação extensiva, as ovelhas acabam desenvolvendo uma relação de confiança em relação ao pastor, passando até a reconhecer a voz de quem lhes guia e protege. Pois, sem o pastor, as dóceis e domesticadas ovelhas simplesmente vagariam sem rumo pela hostilidade do ambiente desértico até morrerem de fome, sede, frio ou serem atacadas por um predador. Por isto, esses animais indefesos não seguem a nenhum outro que não seja o verdadeiro cuidador.

Para a história do povo israelita, guiado pelo deserto do Sinai após o êxodo egípcio, a imagem de Deus como pastor torna-se algo de fácil identificação cultural. De acordo com a Torá, os filhos de Israel viveram 40 anos sob a proteção do Eterno num ambiente. Foram milagrosamente protegidos do sol forte através de uma nuvem (durante o dia) e aquecidos por uma coluna de fogo (à noite), além de receberem o maná como alimento de domingo à sexta-feira com porção dobrada neste dia da semana para que não laborassem no Shabat. É como relata poeticamente o livro de Neemias num re-exame pós-exílico da lei mosaica:

“Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir. E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede. Desse modo os sustentaste quarenta anos no deserto, e nada lhes faltou; as suas vestes não envelheceram, e os seus pés não se incharam.” (Ne 9.19-21; ARA)

Ora, ninguém precisa acreditar literalmente na ocorrência desses fenômenos. Toda a jornada de travessia dos israelitas pelo deserto é uma imagem da orientação do homem pela Torá em sua caminhada. Significa sermos guiados e cuidados por Deus na trajetória de vida através de uma experimentação mística, relacionando-se também com o aspecto coletivo e não se restringindo somente ao individual.

Voltando ao Salmo, cuja autoria é atribuída ao rei Davi, tem-se logo no começo o incentivo á confiança de que Deus irá suprir totalmente o seu “rebanho”, conhecendo as necessidades fundamentais das “ovelhas” melhor até do que elas mesmas. Então, tudo o que elas realmente precisam o Pastor irá lhes proporcionar ainda que nada Lhe seja pedido. E, como se vê, a grama não é seca, mas fresca, adequada para o animal deitar e repousar. Também as águas, ao invés de serem agitadas, são tranquilas e seguras, permitindo a ovelha saciar sua sede.

Tal cenário bíblico dos versos 1 e 2 parecem até a habitação celestial descrita no Apocalipse sobre a Nova Jerusalém. Porém, não é propriamente sobre o futuro que o salmista está falando, mas sim do conforto recebido no presente, capaz de levantar seus ânimos em meio às lutas do cotidiano. Assim, quando o versículo 3 fala em refrigério para a alma, certamente podemos entender isto como uma restauração das nossas forças espirituais em Deus. Isto porque é o Eterno quem sustenta a nossa vida pela sua Torá (orientação), dando-nos mais do que pão para o estômago.

A Palavra de Deus, a qual também podemos entender por “instrução” (vocábulo mais adequado do que “lei” para traduzir Torá no nosso idioma), é também o caminho de justiça pelo qual a ovelha é guiada. Ou seja, quando permitimos que o Eterno nos dirija, podemos alcançar a verdadeira paz através de uma tranquilidade e de uma serenidade no nosso interior.

A esse respeito, a Bíblia é riquíssima em exortações. Os mandamentos divinos são orientações dadas aos homens para que todos possam viver bem e em harmonia com o Universo. Isso encontra-se explícito nos cinco livros da Lei de Moisés, no Salmo 1º que fala dos caminhos do justo e do ímpio, além de inúmeros outros poemas, provérbios e advertência dos profetas:

“Filho meu, não te esqueças dos meus ensinos e o teu coração guarde os meus mandamentos; porque eles aumentarão os teus dias e te acrescentarão anos de vida e paz. Não te desemparem a benignidade e a fidelidade, ata-as ao pescoço; escreve-as na tábua do teu coração e acharás graça e boa compreensão diante de Deus e dos homens. Com fia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal; será isto saúde para o teu corpo e refrigério, para os teus ossos.” (Pv 3.1-8; ARA)

Assim como um homem honrado cumpre com a sua palavra, mais ainda a instrução do Eterno não pode falhar e Ele nos conduzirá em paz pelos caminhos da vida. Tal como a gravidade atrai o corpo ao chão, os mandamentos divinos são leis que regem metafisicamente o Universo. E aí, reverenciar a instrução torna-se o primeiro passo para alcançarmos a sabedoria interior.

Na sequência, o salmista fala sobre a ausência de receio ou de temor do mal caso viesse a andar “pelo vale da sombra da morte”, o que traduz o apoio de Deus nos nossos momentos de adversidade. Segundo o teólogo congolês Nupanga Weanzana, doutor em estudos do Antigo Testamento pela Universidade de Pretória, África do Sul, a referida expressão poderia ser um local de perigo onde as ovelhas fossem vítimas de animais selvagens “ou um vale íngreme que o rebanho precisava escalar ao se deslocar de um pasto para outro” (Comentário Bíblico Africano, pág. 639). Para ele, esta imagem também lembra a experiência de Israel em sua jornada espiritual pelo deserto do Sinai fazendo uma referência a um trecho do verso 6 do capítulo 2 do livro de Jeremias que assim diz: “e sem perguntarem: Onde está o SENHOR, que vos fez subir da terra do Egito? Que nos guiou através do deserto, por uma terra de ermos e de covas, por uma terra de sequidão e sombra de morte, por uma terra em que ninguém transitava e na qual não morava homem algum?”

Aduza-se que o “vale da sombra da morte” poderia significar também uma descrição negativa do reino dos mortos que os antigos hebreus construíram em seu imaginário coletivo. Tanto é que Jó, no auge do seu desespero, chegou a pedir para Deus deixá-lo em paz antes de partir “para a terra das trevas e de sombra da morte” (ver Jó 10.20-22). Só que para o salmista não importaria por onde ele caminhasse porque a presença envolvente do Eterno seria suficiente para protegê-lo e ampará-lo nas diversas situações.

Sinceramente, eu não vejo outra maneira de viver plenamente saudável senão através da fé.

Quando colocamos a nossa confiança em Deus, sem reservas, nenhuma situação vai nos amedrontar. É claro que não estamos isentos de sofrer com as más notícias, perdas e acontecimentos ruins porque somos humanos, não de ferro. Contudo, no momento em que tomarmos consciência da Divina Providência operando a nosso favor, passamos a desfrutar da doce paz do Eterno em nossos corações mesmo que tudo esteja desabando ao nosso redor.

Nessas horas precisamos nos lembrar bem do “bordão” e do “cajado” de Deus, instrumentos com os quais os pastores traziam de volta a ovelha desgarrada e protegiam o rebanho do ataque das feras do campo. Pois, caso um lobo surgisse repentinamente, o cajado seria capaz de afugentar o predador e até mesmo evitar uma aproximação.

Bendito cajado!

Quer nos desviemos ou passemos por dificuldades, certamente o Eterno não nos abandonará porque Ele ama o seu povo. A sua proteção e a sua provisão jamais nos faltarão. Logo, devemos prosseguir confiantes, sabendo que um banquete espiritual aqui e agora nos aguarda. E que bondade e misericórdia vão nos acompanhar todos os dias de nossas vidas, tendo em Deus o nosso lar eterno, com quem estaremos para sempre unidos.

Uma boa semana e que possamos deixar Deus nos conduzir e nos saciar completamente. Segue aí um excelente vídeo encontrado no Youtube com o Salmo 23 cantado na língua hebraica:

OBS: A imagem acima trata-se da obra "O Bom Pastor", mosaico no Mausoléu de Galla Placidia, Ravenna, datado da primeira metade do século V da era comum. Já a segunda ilustração seria uma retratação do Salmo 23 da versão King James de 1880 em que ó provável autor talvez seja Edward Evans (1826-1905).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

União hipostática






Por Donizete Vieira


AS DOUTRINAS POSSUEM DIFERENTES níveis de importância, e  às vezes verdadeiros embates eram travados não pela palavra em si, mas por entendimentos provincianos da verdade. O escolasticismo(1) porém, enxergava esta questão sob outra ótica. Tanto o escolasticismo medieval como o protestante reformado considerava a sistematização do todo da doutrina cristã como A VERDADE.

O método escolástico vê todas as verdades no mesmo nível e considera a negação de qualquer parte do sistema a negação de todo o sistema. Não havia uma divisão sistemática, mas uma única estrutura que incorporava todo o conhecimento teológico, ou seja; um único sistema que abrangia todo o complexo doutrinário. Em função disso não faziam uma distinção qualitativa em torno das convicções teológicas. De modo que doutrinas consideradas secundárias dentro de um estudo sistemático, eram consideradas de igual valor às questões que envolvem a definição da natureza de Deus. Detalhes periféricos da teologia eram defendidos com o mesmo vigor com que defendiam as doutrinas cruciais do cristianismo. Estavam dispostos a encarar o paredão por questões mínimas da soteriologia, como fazem ainda hoje os monergistas radicais que tentam impor na base da força convicções que a tempo foram excluídas do rol das doutrinas essenciais para o cristão.

Nesta oportunidade colocarei para discussão aquele que é considerado o segundo maior desenvolvimento teológico da história da Igreja, que é a articulação da natureza da pessoa encarnada de Jesus Cristo, especificamente a doutrina das duas naturezas, a divindade e a humanidade. E a explicação de como as duas naturezas se unem numa só pessoa. (União Hipostática).

Desde o nascimento da igreja, havia um reconhecimento implícito de que Jesus, de modo singular, era plenamente humano e plenamente divino. A princípio a igreja não se preocupou em explicar a natureza da encarnação ou relacionar o divino com o humano na pessoa histórica de Jesus Cristo. As conclusões cristológias foram forjadas à medida que iam surgindo às controvérsias acerca desta doutrina.  

Assim como no caso de Ario, que criou a controvérsia em relação Trindade e à divindade de Jesus, o entendimento da pessoa de Cristo, mais especificamente sobre as duas naturezas, originou também através de polêmicas, neste caso, o entendimento só foi refinado e concluído em três controvérsias sucessivas. Para entender melhor as conclusões cristológicas que se tornaram definitivas no concílio de Calcedônia em 451, precisamos entender o clima teológico daquela época.

Na igreja dos séculos IV e V, existia duas escolas teológicas de fala grega. A de Alexandria, que por ser pesadamente influenciada pela filosofia platônica, tinha mais interesse pelas realidades espirituais, e sua tendência era enfatizar a divindade de Cristo em detrimento de sua humanidade. Um dos grandes defensores da ortodoxia nicena (referência ao concílio de Nicéia onde foi definida a doutrina da trindade), foi Apolinário, teólogo da escola alexandrina. Apolinário não admitia um Cristo plenamente humano. Sua teoria era de que, na encarnação, Jesus Cristo assumira corpo e alma humanos, mas o espírito (a mente racional) fora substituído pelo Logos divino, a segunda pessoa da trindade. A reação contra o ensino de Apolinário veio rapidamente, e seu ensino foi considerado herético pelo concílio de Constantinopla, no ano 381.

A segunda importante escola teológica de fala grega tinha sua sede em Antioquia. Essa escola estava interessada na interpretação histórica das escrituras e destacava a humanidade de Cristo. Embora não negasse a divindade de Jesus, sua atenção estava voltada para sua humanidade. Seu representante no que diz respeito ao entendimento das duas naturezas de Jesus foi Nestório, patriarca de Contantinopla. Nestório traçou, como era típico da escola de Antioquia, uma distinção acentuada entre a humanidade e a divindade na pessoa encarnada de Jesus. Esta distinção era tão acentuada que ele foi acusado de ensinar que Jesus era na realidade duas pessoas habitando um único corpo: o filho de Maria e o filho de Deus. O concílio de Éfeso em 429 condenou Nestório e sua doutrina dos “dois filhos.”

Vinte anos depois eclodiu outra crise cristológica. Dessa vez, o centro da controvérsia era Êutico, respeitado ancião de Contantinopla. Êutico, influenciado pela teologia espiritualista de Alexandria, ensinava que, após a encarnação, Jesus possuía apenas uma natureza, a divina. Acreditava que a humanidade de Jesus fora absorvida por sua divindade e que na encarnação as duas naturezas se fundiram para compor uma terceira, mais que humana e menos que divina, um “tertium quid” (“uma terceira coisa”).
Êutico e sua teoria, por fim, foi condenado em Calcedônia em 451. Note, portanto, que há uma diferença significativa entre as convicções dessas duas escolas. A primeira afirmava que as duas naturezas fundiram-se em uma só, a divina. A segunda reconhecia a dupla natureza de Cristo, porém criava um grave problema ao dividir em duas à pessoa de Cristo. Mais conforme já foi dito, o apolinarismo, bem como o nestorianismo e o eutiquismo foram devidamente condenados no Concílio de Calcedônia que formulou as suas conclusões na célebre definição de Calcedônia:   

"Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade e perfeito quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e corpo; consubstancial ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade... Um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação..."

Devemos considerar também que no final do século XIX alguns teólogos europeus começaram a defender a encarnação de Jesus com outro conceito, A chamada “teoria Kenótica”. Kenosis vem do verbo grego kenoõ, que significa esvaziar. Ensino sustentado pela interpretação de Filipenses 2:5-8. Segundo essa tradição o texto sugere que Jesus renunciou de alguns atributos divinos (onisciência, onipotência, onipresença), enquanto estava como homem. Isso não era visto como imposição, porém, uma autolimitação voluntária de Cristo. Entretanto essa ideia de Cristo como uma manifestação do Logos esvaziada, nega automaticamente a sua divindade, ou a torna totalmente distanciada do Jesus Homem, e isso torna então o Filho de Deus uma criatura apenas.

O leitor pode perceber que muitos pregadores atuais usam essa definição teológica para explicar as duas naturezas de Cristo desconhecendo as implicações decorrentes dessa linha de pensamento. Contudo, e bom sabermos que nenhum estudioso renomado durante os 1800 anos de história da Igreja considerou o termo “esvaziou-se” entendendo que Jesus abandonara algum atributo divino. Esse “esvaziar-se” segundo a ortodoxia, não subtrai, mas adiciona a forma de servo e semelhança humana para cumprir uma missão: a morte na cruz. O apóstolo Paulo não tinha o objetivo de defender a tese do “esvaziamento” de Jesus, mas de convencer aos destinatários a fazer tudo com humildade. Para concluir, a união hipostática significa que as duas naturezas atuam juntas. Jesus não exerceu sua deidade em certas ocasiões e sua humanidade em outras. Seus atos sempre eram da divina e da humana. Essa é a chave para compreender as limitações funcionais que a humanidade impôs sobre a divindade. Sobre Jesus Paulo afirma  que: "Nele (o Jesus Humano) habita corporalmente toda a plenitude da divindade."

Um abraço, Donizete.



(1) Escolasticismo: 

Foi a tradição acadêmica das escolas medievais. Especificamente, porém, foi o método de reflexão filosófica e teológica esboçado de forma sucinta por Tomás de Aquino. O escolasticismo buscava sintetizar a filosofia clássica grega e romana com os escritos cristãos e as Escrituras, usando o aristotelismo e o platonismo.


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Bibliografia:
Uma introdução a teologia, Sawyer, M. James
Historia da teologia cristã, Olson, Roger

http://assembereano.blogspot.com/2011/08/uniao-hipostatica.html

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Mito como expressão da fé

J.Lima



A razão cientifica da modernidade tirou o assombro do mito; agora tudo que é verdade tem que ser cientificamente provado, mas a fé deve estar mais próxima do mito ou do logos? Tanto “mythos”, quanto “logos” significa palavra.

Os gregos da idade clássica, em Platão, separaram o “mythos” que é a palavra transmitida por via oral do “logos” diferenciando-a como a expressão do pensamento ou a exteriorização do pensamento que emana de dentro da mente do indivíduo, transformou-se no discurso racional, lógica!

Mythos é aceito sem questionamentos, faz parte das crenças e da cultura do povo, já o 
“Logos”, é a expressão do pensamento, por isso passível de ser questionado, testado, no tribunal do pré-conceito pela lei da razão, tendo a lógica como juiz, e a não contradição com júri, condenar ou absolver a expressão!

O Evangelho segundo João começa dizendo que no principio era o “logos” que estava com Deus e era Deus. Não poderia ele dizer que no principio era o 
“Mithos”? Visto que o mito não exige lógica, e sim expressa à fé? Imagine ele dizendo que “O mito se fez carne”!Tornou-se o caminho a verdade e a vida, pois o “logos” exige verdade, e a verdade tem a ver com a vida!

A verdade no mito, nada tem a ver com a lógica e sim com o paradoxo, o assombro, as contradições, por isso o 
“Logos”, na carne se tornou “mitos”, e ao se tornar carne, aceita não lógica da vida, por isso a verdade não é um conceito universal para todos, a verdade do mito aceita contradição, e apesar delas, sustenta a fé. 

A fé não precisa temer o mito, mas sim o logos, esse sim deve ser temido, pois quem nele se firma precisa das muletas, da razão. O mito carrega nas suas entranhas a fé, oferece caminho para as potencialidades da vida, do que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente, expressa o que a razão não decodifica, pois verbaliza as mais profundas aspirações do homem.

Mito 
“é a invocação daquilo que nomeia”, seja os deuses sejam os heróis, eles estão presentes de modo que “enunciar o mito implica sair do mundo dos fenômenos naturais, para entrar numa outra dimensão numa outra temporalidade, numa outra experiência que sacraliza o tempo e o espaço”

O Logos que se fez carne é mito?... E daí? Esse mito não é verdade para quem quer ver o logos na carne, mas quem não vê na carne o logos, crê que o 
“mito”

se fez carne, e é a verdade daquele que crê!




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publicado originalmente em: http://jl-reflexoes.blogspot.com/2009/12/mito-como-expressao-da-fe.html
J.Lima é professor e Mestre em Ciências da Religião