sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Dê a liberdade de outrem o rejeitar





Confrades queria publicar um texto meu, todavia faz algum tempo, eu gostaria de escrever sobre este tema que o J.Lima de uma forma simples e clara fez esta mensagem. Não a transcrevi na sua íntegra, no entanto, toda a mensagem está no nosso blog para quem desejar conferir.

DÊ A LIBERDADE DE OUTREM O REJEITAR.

“Jerusalém! Jerusalém! Que mata os profetas e apedreja os que te foram enviados quantas vezes quis eu reunir os teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas e vos não quisestes.” 

E neste texto que nós lemos nós temos que transpor, nós temos que ir para a dimensão da fé, por que e não da razão? Porque Jesus faz uma confissão no mínimo difícil de se entender e porque não dizer impossível se entender de uma forma racional,   Ele diz: “quantas vezes Eu quis te juntar como a galinha faz com os seus  e não consegui. Nós vemos a confissão de um Deus onipotente, impotente, vou repetir, esta confissão de Jesus dizendo quantas vezes Eu quis e não consegui,” e se alguém quiser dizer que é por causa da humanidade dEle, que Ele estava vivenciando é interessante, mas não é a conotação do texto, primeiro porque Ele diz Eu quis, está no passado, segundo não há registro de Jesus tentando trazer Jerusalém para junto de Si a não ser antes da encarnação. Então aqui está uma confissão, primeiro, uma confissão da divindade de Jesus e da sua eternidade, eu disse passado. Segundo uma confissão de que a onipotência de Deus é regida, veja, eu vou falar aqui com muito temor e muito cuidado e vou explicar para que não haja mal entendido.

Deixa-me explicar com bastante clareza, não estou afirmando que Deus não é onipotente, não estou contrariando uma doutrina que é uma doutrina aceita por diversas denominações de origem diferente no sentido doutrinário, mas eu estou dizendo e vou dizer o que, que a onipotência de Deus não rege o homem, por quê? Porque Deus não se relaciona com o homem na dimensão do poder, mas sim na dimensão da liberdade. Isso significa que Deus abre mão do seu poder, veja, Ele abre mão de usar o seu poder para que o homem use a sua liberdade. Porque se Deus se relacionar com o homem usando o seu poder precisaremos então, excluir a liberdade do homem.

Eu sei que é um assunto um pouco difícil de se entender, mas é mais ou menos assim, ou Deus limita as ações dEle, limita a sua soberania, para que o homem tenha uma real liberdade ou livre arbítrio ou Deus usa o seu poder exclui o livre arbítrio do homem. Aliás, essa teologia da soberania de Deus em detrimento ou em cancelamento da liberdade do homem, ela existe e ela foi originada na reforma, a doutrina é chamada calvinista ou de Calvino que, aliás, não teve sua origem em Calvino, a origem foi no quarto século em Agostinho e qual o raciocínio? O raciocínio é o seguinte: se Deus é todo poderoso e usa o seu poder e faz a sua vontade, se a vontade de Deus é sempre perfeita, logo a vontade do homem tem que ser anulada. Então essa é uma doutrina que foi a força praticamente da reforma. Soberania divina em detrimento ou cancelamento da liberdade humana, mas nós não cremos assim.

Nós cremos que Deus é soberano ao mesmo tempo em que o homem é livre. Essa outra teologia é chamada de Arminiana, que também não teve a sua origem em Armínio e sim em Pelágio, contemporâneo de Agostinho. Veja no século quarto depois de Cristo, Agostinho defendia a soberania divina e não o livre arbítrio do homem, Pelágio defendia o livre arbítrio do homem. Porém Pelágio era um tanto extremista, ao ponto de dizer que Deus não era soberano. Praticamente agora na reforma Calvino ressuscita o pensamento de Agostinho defendendo a soberania divina e Armênio em contra partida defende a liberdade do homem. Porém Armínio não excluía a soberania divina, mas ele dizia o seguinte: se existe soberania divina como existe, e se existe liberdade humana, então, alguém tem que abrir mão de alguma coisa. Jesus aqui Ele diz o seguinte: quantas vezes Eu quis, mas não consegui ora, se o relacionamento de Deus para com o homem é um relacionamento de poder e quando eu digo relacionamento de poder eu estou falando de fazer com que a sua vontade sempre seja feita. Nós estamos falando então, de relacionamento com Espírito, por exemplo, da filosofia marxista, da filosofia da ditadura e do comunismo, onde sacrifica-se a liberdade da maioria para o governo da minoria, ou seja: se o relacionamento de Deus para com o homem é um relacionamento em que Deus vai sempre fazer a sua vontade, então o modelo de relacionamento é praticamente ditadura, onde a vontade do soberano é realizada.

Este estilo de relacionamento é colocado, por exemplo, na monarquia. Na monarquia a vontade do rei é realizada e não a liberdade dos súditos. Só que Jesus aqui Ele diz o seguinte: não, Eu tenho poder, sempre tive poder, mas Eu fui frustrado. Ele diz: Eu quis e não consegui. E não adianta tentar com raciocínios filosóficos, tentar arrumar alguma coisa para dizer que a vontade de Deus não foi frustrada, porque não dá. Não tem jeito, o texto é claro, Eu quis e não consegui. Agora tem pessoas que acham que um Deus que limita a sua soberania, não é soberano, ledo engano. Governar um país ou uma nação com imposição, onde todos se submetem, acaba sendo fácil para quem governa. Difícil é governar um país onde as pessoas têm liberdade para contrariar a vontade do governante. Eu não vejo aqui, vamos dizer que a soberania é limitada, que Deus não tem poder, pelo contrário eu afirmo justamente o oposto. O oposto é verdadeiro, que precisa muito poder para manter um governo onde o rei respeita a liberdade dos súditos, é o caso aqui de Jesus. Ele diz, olha o meu governo, é um governo centralizado no amor, e o amor dá liberdade ao outro. O amor não coage, não pressiona o amor não busca os seus próprios interesses. E ai eu vejo algo muito maravilhoso aqui. Paulo escrevendo aos coríntios ele diz que o amor não busca os seus próprios interesses ai eu começo entender o amor de Deus, porque o amor de Deus não busca os interesses dEle, o amor de Deus busca os interesses do objeto do seu amor que é o ser humano, por isso Deus não violenta a liberdade do homem em aceitá-Lo ou rejeitá-lo. Jerusalém! Jerusalém! Quantas vezes Eu quis, nós vemos aqui uma confissão de um Deus onipotente, impotente, de um Deus que tem todo poder, se auto limitando, abrindo mão de exercer o seu poder. Não é que Ele perdeu o poder, pelo contrário, Ele fortaleceu o seu poder através da liberdade. [...]

Por J.Lima (professor, teólogo).


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Conflito Israelense – Palestino em Gaza e a “Palavra do Rabino”



Por Levi B. Santos
 

Notícias de guerras e escaramuças entre Israelenses e Palestinos da faixa de Gaza, já se tornaram algo tão previsível ou comum, que quase ninguém se debruça mais para comentá-las. Manchetes, fotos, vídeos de escombros e cadáveres despedaçados, misturados a fogo e fumaça já não despertam tanta curiosidade.

Vagando pela internet, eis que me deparei com o discurso do Rabino Yehudah Ben Yaakov, pronunciado em julho de 2006, por ocasião de uma das reedições desse eterno conflito pela “terra que mana leite e mel”; terra que na visão do grande patriarca, Abraão, um dia, Javé prometeu tomar dos Cananeus e seus descendentes para  entregá-la a sua descendência, via Isaque.

Enquanto lia a preleção do rabino, voei na imaginação à saga bíblica de um povo em busca da Terra Prometida ― terra que Canaã, o amaldiçoado por Noé (ou Javé), fez brotar tudo de bom, sendo por isso, fonte de toda inveja.  Canaã compreendia Gaza ao sul e Hamã ao norte, margeando a costa oriental do mediterrâneo. (Gênesis 10:15-19).

No livro de Gênesis, o patriarca Abraão, em seu imaginário, percebe um Deus a lhe mostrar uma vastidão de terras que se perdiam no horizonte. Javé lhe aparece dizendo: “É a tua posteridade que eu darei essa terra” (Gênesis 12: 7).

Ao mesmo tempo em que fazia uma reflexão sobre o texto do rabino Yehudah, lembrei-me da história que os evangelhos contam de um Judeu, a quem chamaram de Filho do Homem, mas precisamente àquela parte, parecidíssima com a visão que teve o patriarca Abraão. Uma autoridade aparece a Jesus, lhe prometendo uma imensidão de terra já habitada com uma condição, em tudo semelhante a do visionário maior dos israelitas: “Olha, tudo isso será teu, se me adorares” (Lucas 4:7). 

O lendário anseio Abraâmico projetado em um Deus conduziu-me ao episódio descrito pelos evangelistas, como a “Tentação do Deserto”. O mito aqui reaparece com outra roupagem, ou pelo lado avesso da promessa javélica primitiva: o “messias” Yeshua rechaça de imediato o desejo de riqueza e de poder político ― promessa tentadora vinda da contra-parte de Javé. Alguns trechos dos evangelhos demonstram que o “Filho do Homem” entendia que o inimigo maior estava no próprio homem e que era no interior dele que se originava todo o conflito, exteriorizado naquilo que Hegel denominou de relação “Senhor e Escravo”.

Chesterton, falando sobre “Deuses e Demônios”, em seu livro “O Homem Eterno” (página 149 ― Editora Mundo Cristão), disse algo profundo que tem muito a ver com as guerras e conflitos insolúveis, como esse do oriente médio: “Qualquer que seja o desencadeador bélico específico, o alimento das guerras é alguma coisa na alma”.

Mas o israelense, de um lado, e o palestino do outro lado, talvez não saibam que dentro deles existe um arquétipo patriarcal defendendo-se de sua contraparte. Talvez não saibam que entranhado em seu emaranhado psíquico estão os velhos afetos antagônicos que permeiam o “inconsciente religioso coletivo” a que se referiu Jung em suas intermináveis análises psicoteológicas. Talvez não compreendam que a história mítica do Filho do Homem representa o Arquétipo da Alteridade, que está a convocar um encontro democrático entre polaridades opostas, pelo desapego a unilateralidade que impede de se aceitar as diferenças existentes entre filhos de um mesmo Pai.

O certo é que uma briga em nome de Deus, o poder político comprou para si. O rabino Yehudah Ben Yaakov, altaneiro, chega assim, a se expressar sobre o exclusivismo de seu Deus: “Cremos que Israel é a nação sacerdotal que D-us estabeleceu dentre todas as nações, para operar em nós”.
Não há nada mais poderosamente inflamável que uma afirmação dessa natureza, ainda mais, quando se sabe que o outro lado se apresenta também com um imaginário General a frente de seu exército.

Para uma reflexão apurada dos amigos leitores e debatedores, passo, sem mais delongas, ao texto emblemático do Rabino messiânico (de julho de 2006, mas bem atual) que colhi na internet, pelo famoso Google:


“A Palavra do Rabino”

A Sinagoga SHEAR YAAKOV, como congregação judaico-messiânica observante e praticante da Torah à luz da revelação de Yeshua HaMashiach, declara publicamente seu apoio incondicional ao Estado de Israel. O SHEAR YAAKOV está incondicionalmente compromissado com o Estado de Israel, apoiando, defendendo e abençoando-o em todas as áreas.
Israel está, uma vez mais, sendo atacado por aqueles que se prestam aos propósitos satânicos de tentar nos matar, roubar e destruir. Recomendamos a todos os que pautam suas vidas pelas Sagradas Escrituras:

1 – Vigilância

Precisamos estar atentos para não sermos confundidos pela mídia tendenciosa. Busquemos a verdade, tanto para compreender a situação de Israel e dos seus inimigos dentro do contexto da História, quanto para entender detalhes importantes dos acontecimentos destes dias. A mentira aprisiona e engana, mas a Verdade liberta. Leia os artigos Argumentos em defesa de Israel e A atuação da mídia no Oriente Médio e compreenda um pouco mais sobre o que se passa em Eretz Israel. Procuremos nos manter bem informados, acessando as notícias de fontes judaicas (veja em Links). Tenhamos senso crítico ao ler as declarações de alguns líderes mundiais (ONU, países europeus, governos latinos, papa, etc.) que mal conseguem disfarçar o velho ranço de anti-semitismo em suas declarações contra Israel e a favor dos nossos inimigos.

2 – Tefilah

Cremos que Israel é a nação sacerdotal que D-us estabeleceu dentre todas as nações, para operar em nós e através de nós. É importante que cada um assuma sua responsabilidade de estar intercedendo por Israel. Sabemos que o Estado de Israel não buscou a guerra, mas depois de ter sido atacado em seu próprio território, agora exerce seu legítimo direito de auto-defesa. Oremos para que Israel vença todas suas batalhas, e alcance seus objetivos militares da forma mais rápida e eficiente possível. Oremos para que ADOSHEM TZEVAOT esteja à frente das Forças de Defesa de Israel, capacitando nossos combatentes com destreza e habilidade, e protegendo-os em Seu Nome. Oremos também por nossos irmãos em Eretz que não estão no front, para que suas vidas sejam preservadas e cada um deles possa contribuir fazendo sua parte para a vitória de Israel. Oremos pelos soldados judeus seqüestrados, para que suas vidas sejam preservadas e possam voltar vivos para suas casas. Oremos pelas suas famílias e pelas famílias daqueles que perderam seus parentes e agora estão em luto. AQUELE que ressuscita os mortos também há de enxugar todas as nossas lágrimas e confortar todos os enlutados de Israel.

Oremos também por aqueles que se colocam como nossos
inimigos, para que sejam libertos do jugo satânico que os faz atentarem não apenas contra nós, mas também contra suas próprias vidas ao se colocarem contra o D-us Vivo, o D-us de Israel. Oremos pelos árabes que não querem viver como terroristas nem desejam lutar contra Israel, mas que muitas vezes lhes faltam a força necessária para reagir aos apelos do Islã. Há alguns casos de ex-inimigos de Israel, que depois de terem experimentado a revelação de Yeshua HaMashiach tiveram suas vidas transformadas, e se arrependeram a tal ponto que hoje são sionistas fervorosos (Walid Shoebat).

Oremos também por todo o Israel que está na Galut, para que HASHEM nos ajude a ajudar nossos irmãos em Eretz de modo efetivo, e que não sejamos enredados pela inércia, omissão ou
contendas internas.

3 – Engajamento

Precisamos ter atitudes práticas que nos levem da preocupação contemplativa às ações pragmáticas. É importante que nos engajemos, de todas as formas possíveis, em ações efetivas a favor de nossos irmãos que estão em Eretz Israel. Se você quer fazer algo mais por Israel, visite http://www.yeshuachai.org

Acima de tudo, é importante estarmos conscientes de que a luta que travamos não é apenas material, não se limita a uma guerra entre homens e homens, mas transcende as interpretações políticas, históricas e ideológicas, pois é uma luta principalmente espiritual. Israel é o testemunho vivo, a evidência material, verificável até por ateus e agnósticos ao lerem seus jornais, da existência e da ação de D-us em nossos dias. Se Israel não existisse, as Escrituras poderiam ser contestadas como não sendo verossímeis, e a própria existência do D-us de Israel poderia ser negada. Mas nós judeus somos a prova viva e incontestável da veracidade de D-us e das Escrituras. Não ignoramos o ódio e as motivações satânicas dos que almejam a destruição de Israel. Essa guerra é espiritual, e nós, como sacerdotes em Yeshua HaMashiach, somos chamados à ação. Também sabemos, as Escrituras nos ensinam, que HASHEM usa situações como esta em que os inimigos nos afrontam, para tratar com Israel, levando-nos a fazer um auto-exame da nossa vida espiritual coletiva e individualmente, para que possamos ver onde erramos, nos arrepender dos nossos pecados, sermos purificados e nos consertar perante ELE. É tempo de jejuns, de muita tefilah, de muito estudo de Torah, de teshuvah, de buscarmos a face do nosso D-us, o D-us de nossos pais, Avraham, Yitzchak e Yaakov. ELE certamente nos sustentará na batalha e nos dará a vitória, e mais uma vez toda a terra saberá que há D-us em Israel.

Em Yeshua,
chessed v’shalom,
Rabi Yehudah Ben Yaakov


P.S.: 
E o rabino Yehudah Ben Yaakov termina a sua fala colocando mais lenha na “fogueira santa”, ao revisitar os velhos tempos do guerreiro “Deus dos Exércitos”- através da citação da parte final de I Samuel 17:46: “...e toda a terra saberá que há Deus em Israel”.

Site da imagem: odia.ig.com.br/portal/mundo

domingo, 18 de novembro de 2012

O Jesus Histórico: Critérios de pesquisa



"Deus meu, por que me desamparaste"?


Ninguém duvida que as fontes históricas sobre  Jesus são escassas. Pior ainda, as “melhores” fontes sobre ele, são também as mais problemáticas: os quatro evangelhos canônicos.  John Meier escreveu que


“Os Quatro Evangelhos são realmente fontes difíceis; o fato de serem os primeiros escolhidos da rede não significa a garantia de que eles reproduzem as palavras e os atos históricos de Jesus. Impregnados da fé pascal da Igreja primitiva, altamente seletivos e ordenados segundo diversos programas teológicos, os Evangelhos Canônicos exigem uma seleção minuciosa para deles se retirar informações confiáveis à pesquisa.”

E é por causa disso que os pesquisadores determinaram alguns critérios  para que se pudesse discernir o que nos Evangelhos tem possibilidade de ser considerado histórico ou construção teológica dos seus autores.  Como decidir o que vem de Jesus e o que vem da teologia dos evangelistas? É consenso hoje que os quatro evangelhos foram escritos entre 40 e 70 anos após os eventos narrados; como se aproximar do  estágio mais primário da tradição evangélica, aproximadamente  entre 28 a 30 A.D?

Como citado antes, os pesquisadores determinaram alguns critérios para essa pesquisa. Um desses critérios, é o


O Critério do Constrangimento

Esse critério enfoca os atos ou palavras de Jesus que poderiam ter constrangido ou criado dificuldade para a Igreja primitiva. A Igreja nos seus primórdios dificilmente teria se afastado de sua linha para criar material que pudesse constranger seu criador ou enfraquecer sua posição nas discussões com os adversários. Seria mais provável que material constrangedor, originário de Jesus, tivesse sido suprimido ou atenuado nos estágios posteriores da tradição do Evangelho. Na verdade, podemos até perceber essa supressão ou atenuação progressiva ao longo dos Quatro Evangelhos.

Um exemplo disso é o batismo de Jesus. João considera Jesus superior a ele e sem pecado(entendimento da Igreja), como então Jesus se submeteria ao batismo de João, batismo para  arrependimento e pela remissão dos pecados?

Marcos, misterioso e lacônico, relata o evento sem qualquer explicação teológica para o fato de o superior e virtuoso se submeter a um batismo destinado a pecadores (Mc 1;4-11)

Mateus introduz um diálogo entre Batista e Jesus antes do batismo; João confessa-se indigno de batizar seu superior e só cede quando Jesus assim ordena, para que seu cumpra o plano de salvação de Deus (Mt 3:13-17, numa passagem marcada pela linguagem típica do evangelista).

Lucas encontra uma solução surpreendente para o problema, ao falar da prisão de Batista por Herodes antes de narrar o batismo de Jesus; essa versão sequer menciona quem batizou Jesus (Lc 3:19-22).

Já o Quarto Evangelho, envolvido numa luta com os discípulos contemporâneos de Batista, que se recusavam a reconhecer Jesus como o Messias, adota o expediente radical de suprimir inteiramente o evento do batismo de Jesus. Para o Evangelho de João, Jesus nunca foi batizado, o que estaria totalmente de acordo com o entendimento da divindade e superioridade de Jesus. Relata-se o testemunho do Pai e da descida do Espírito sobre Jesus, porém não nos é dado saber quando ocorre essa teofania. (Jo 1:29-34)

É bem possível que a Igreja de então, vendo-se “atrapalhada” com um acontecimento da vida de Jesus considerado cada vez mais embaraçoso, tivesse procurado atenuá-lo de várias formas, até que João Evangelista finalmente o suprimiu do seu Evangelho. É bastante improvável que a Igreja tivesse se afastado do seu caminho para criar a causa do seu próprio constrangimento.

Um outro caso de constrangimento: Jesus afirma não saber o dia e a hora exatos do fim, a despeito de os Evangelhos afirmarem que ele é o Filho, com o dom de predizer os acontecimentos até o fim dos tempos, inclusive sua própria vinda sobre as nuvens do firmamento. Mas no final do discurso escatológico de Marcos 13, Jesus diz: “mas a despeito daquele dia ou da hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão somente o Pai”(13:32). Não é de admirar que alguns manuscritos gregos posteriores simplesmente tenham omitido desse versículo as palavras “nem o Filho”. Um número bem maior de manuscritos não mencionam “nem o Filho” do versículo paralelo em Mateus(24.36), que foi mais amplamente usado do que Marcos na Igreja patrística – daí o desejo de suprimir a frase embaraçosa, especialmente vinda de Mateus. Em Lucas a frase nem aparece. Em João, não só nada semelhante é mencionado, como o Quarto Evangelho se afasta de sua linha para enfatizar que Jesus sabe de todas as coisas presentes e futuras e nunca é tomado de surpresa – por ex: Jo 5:6;  6:6;  8:14;  9:3; 11:11-15; 13:1-3.11.
Então, é bastante improvável que a Igreja tivesse se dado ao trabalho de inventar uma frase que enfatiza a ignorância do seu Senhor ressuscitado, apenas para voltar atrás e tentar suprimi-la.

A tradição oral da Igreja é frequentemente descrita como um jogo de “vale tudo”, com profetas carismáticos anunciando qualquer coisa como sendo palavras do senhor Jesus e contadores de histórias inventando relatos de milagres e exorcismos, conforme os modelos judaicos e pagãos.  Os autores dos Evangelhos então teriam simplesmente usado esse processo criativo, modelando a tradição oral de acordo com sua própria teologia redacional.
Tem-se a impressão que ao longo de todas as primeiras gerações cristãs, não havia testemunhas oculares que pudessem servir de verificação para as imaginações férteis, ou discípulos originais transformados em líderes que exercessem algum controle sobre a tradição que estava em desenvolvimento, ou então quaisquer atos ou palavras notáveis de Jesus que penetrassem, mesmo sem querer, na memória das pessoas.

Mas o fato de o material constrangedor ser encontrado até a época da redação dos Evangelhos nos lembra que, ao lado de um impulso criativo, havia também uma força conservadora na tradição dos Evangelhos. Ou seja, prováveis passagens originais de Jesus constrangedoras, sobrevivendo até à época de uma teologia já construída pelos evangelistas, como o já citado batismo por João, a traição de Judas, a negação de Pedro, a crucificação pelos romanos que provocaram várias e aflitivas reflexões teológicas. Nesse sentido, o critério do constrangimento tem uma grande importância para o historiador.

Mas nem tudo é assim tão simples com o critério do constrangimento, e ele possui suas limitações. Uma das limitações é que os exemplos bem definidos são poucos numerosos na tradição do Evangelho e um retrato de Jesus não poderia ser pintado com tão poucos relatos constrangedores. Uma outra limitação vem do fato de que muito do que hoje em dia podemos considerar constrangedor para a Igreja primitiva não o era necessariamente a seus próprios olhos, em seu tempo. Um exemplo é o “grito de desamparo” de Jesus na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste”?(Mc 15:34; Mt 27:46); as palavras são uma citação do salmo 22:1.

Esse caso parece ser claramente um caso de constrangimento; em Lucas, o lamento pouco digno é substituído por Cristo confiantemente entregando o espírito ao Pai (23:46) e, em João, por um grito de triunfo: “Está consumado!” (19:30). É verdade que o grito de desamparo não se adapta às proposições teológicas posteriores de Lucas e João. Contudo, estudos críticos da forma da Narrativa da Paixão mostram que os primeiros estágios da tradição da paixão usavam os salmos de lamentação do Antigo Testamento, especialmente os que falavam do sofrimento dos justos como um instrumento primário para a interpretação teológica da narrativa.   C.H. Dodd sustenta que para a igreja primitiva, o primeiro livro da Paixão de Jesus era formado pelos Salmos do sofrimento do justo.

Ao contar a história da paixão de Jesus com as palavras desses salmos, o relato o apresentava como aquele que obedecia ao padrão do Antigo Testamento de homem justo, atacado e levado à morte por malfeitores, mas vingado e enaltecido por Deus. Alusões desses salmos estão inseridos ao longa de toda narrativa da Paixão. Um bom exemplo é a divisão das vestes de Jesus: as palavras do Salmo 22:19 passam a fazer parte da narrativa em Marcos 15:24, Mateus 27:35 e Lucas 23:34; apenas João destaca as palavras como citação das Escrituras (19:24).

Os salmos de lamentação do Antigo Testamento, via de regra, levam enérgicas queixas a Deus; sua forma impetuosa – ou irreverente, aos nossos ouvidos – de se dirigir a Deus não expressa dúvida ou desesperança, mas apenas a dor de alguém que tem total confiança num Deus estranhamente silencioso, que pode vir em sua salvação, se assim o quiser. Desde o exílio da Babilônia até Auschwitz, os judeus religiosos vêm usando as palavras do Salmo 22 e outros lamentos, sem serem acusados por seus correligionários de descrença ou desespero.

Então, essas narrativas foram bem recebidas pelos primeiros cristãos judeus ou não. Se de fato Jesus pronunciou ou não esse lamento na cruz, o critério do constrangimento, isoladamente, não pode estabelecer a historicidade daquelas palavras. Não é impossível que todas as “sete últimas palavras”  de Jesus – inclusive o “grito de desamparo” – representem a interpretação teológica da Igreja primitiva e dos evangelistas. Concluindo, o que se quer dizer é que o critério do constrangimento, como qualquer outro critério, não deve ser invocado de forma descuidada ou isoladamente.

Por isso mesmo, não existe um só critério usado pelos pesquisadores do Jesus histórico; existem outros critérios como 

O critério da descontinuidade
O critério da múltipla confirmação
O critério da coerência
O critério da rejeição e da execução

Que deixarei para tratar oportunamente nos próximos textos.


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Bibliografia: Meier, John P. Um judeu marginal - repensando
o Jesus histórico, 3a edição, ed Imago


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Seria Paulo universalista?



Durante á história da igreja, aconteceram diversas mudanças de paradigmas envolvendo até mesmo as doutrinas centrais da fé cristã. Uma delas é a soteriologia, divisão da teologia sistemática que estuda a salvação humana.

Cada religião oferece um tipo diferente de salvação e possui sua própria soteriologia. Algumas dão ênfase ao relacionamento do homem em unidade com Deus, outras dão ênfase ao aprimoramento do conhecimento humano como forma de se obter a salvação.

Na ortodoxia cristã, a salvação é estabelecida através de Jesus Cristo. A soteriologia no cristianismo estuda como Deus separa as pessoas condenadas pelo pecado e os reconcilia com Deus. Os cristãos recebem o perdão dos pecados, vida e salvação adquirido por Jesus Cristo através de seu sofrimento inocente, morte e ressurreição após sua morte. Esta graça da salvação é recebida sempre pela fé em Jesus Cristo, através da palavra de Deus. Note que, nesta breve inserção estão inclusos todos os elementos que envolve um estudo com perspectivas soteriológicas.

Mas pretendo chamar a atenção para os diferentes modelos de salvação. Em dado momento da história, a salvação era projetada para o âmbito da objetividade e da prática, em outros para a subjetividade e abstração. Durante a maior parte do tempo a salvação esteve ligada ao campo físico e tangível, em outros a salvação é sempre associada à esfera espiritual, metafísica. Grupos cristãos advogam que a salvação é holística, abarca o indivíduo na sua plenitude, enquanto outros defendem uma tricotomia, e que a parte onde à salvação é levada ao efeito, é apenas a espiritual.

É nessa discussão que incluímos Paulo como personagem principal. Visto ser ele um grande empreendedor no campo missionário, sempre anunciando o evangelho de Cristo, do qual ele afirmou que não se envergonhava, porque era o poder de Deus para a SALVAÇÃO de todo aquele que crê.

Surge então uma pergunta pertinente: Salvação do que, visto que Paulo não possui uma doutrina de inferno? Qual seria então a essência da mensagem pregada por Paulo tanto a Judeus como aos gentios?

Seria importante considerar que o cristianismo teve sua nascente no judaísmo. E precisamos entender que a salvação no judaísmo não tem o mesmo sentido salvífico do cristianismo. No judaísmo não há promessas de um mundo porvir, nem paraíso, e nem inferno. De modo geral a ideia de salvação no antigo testamento é essencialmente materialista. Está sempre ligada à libertação de perigos, cura de enfermidades, e por fim, a vitória final sobre os inimigos e a possessão definitiva de Sião.

Uma similaridade entre o judaísmo e o cristianismo é no tocante a ressurreição. Contudo ela é baseada em premissas diferentes. A salvação final para o judaísmo não é exclusiva dos judeus. Mas se estende a todos os homens de bem, seja qual for o seu credo, que pautaram sua vida em padrões éticos e de justiça. Mesmo aqueles que não agiram tão bem, mas são capazes de arrependimento, merecem sobreviver por todos os tempos, quando o Messias chegar.

Voltando nossa atenção para os evangelhos, notamos que salvação na perspectiva de Lucas, tinha a mesma conotação do período vétero- testamentário. O professor e escritor Eben Hans Scheffler, em seu tratado sobre Lucas-Atos, afirma que Lucas emprega uma “linguagem de salvação” quanto a um espectro muito amplo em circunstâncias humanas – o fim da pobreza, discriminação, doença, possessão demoníaca, pecado, etc... Ou seja, era associada ao sofrimento econômico, social, político, físico, psicológico e espiritual.
Segundo Scheffler, para Lucas a salvação é, sobretudo, algo que se realiza nesta vida, hoje. Citando especificamente, as palavras de Jesus registradas em 4:21; 19:9; 23:43. Para Lucas, salvação é salvação presente.

E em função disso, (visto ser Lucas colaborador de Paulo em suas viagens missionárias) que é importante realçar que a mensagem evangelística de Paulo não é uma mensagem negativa. Ele não tem a incumbência de anunciar uma destruição arbitrária do mundo em um apocalipse vindouro, onde os bons seriam separados dos maus, sendo que, apenas os primeiros seriam dignos de uma bem-aventurança na eternidade.

É nesse sentido que David Bosch, em seu livro, Missão transformadora, afirma que a mensagem de Paulo é iminentemente positiva. Todas as vezes que ele faz menção da ira de Deus, é apenas no sentido de fazer um contraste sombrio de uma mensagem caracterizada por boas novas.
Segundo Bosch, “Deus já veio a nós em seu filho e retornará em glória. A missão de Paulo é o anúncio do senhorio de Cristo sobre toda a realidade e um convite para submeter-se a Ele; através da sua pregação, Paulo deseja evocar a confissão ‘Jesus é o Senhor!’. A boa nova é que o reinado de Deus, presente em Jesus Cristo, reuniu a todos nós sob o juízo e, no mesmo ato, reuniu a todos nós sobre a graça. Mas isso não implica que o evangelho seja uma introspecção mística ou a salvação de almas individuais, retirando-nos de um mundo perdido e lavando-nos para a segurança da igreja. Trata-se, pelo contrário, de uma proclamação de um novo estado de coisas que Deus iniciou em Cristo, que diz respeito as nações e à integralidade da criação e culmina na celebração da glória final de Deus.”

Desse modo, Paulo tem em sua missão, o objetivo de ampliar já no mundo presente, o domínio do mundo vindouro de Deus. Na sua concepção, o reino de Deus havia sido inaugurado, e sua mensagem consistia em anunciar esta verdade.

Significa dizer então que Paulo era um “UNIVERSALISTA” no sentido de prever a salvação derradeira de toda a humanidade? Algumas de suas afirmações parecem asseverar que tão somente uma parte da comunidade humana será salva; outras aparentam sugerir que, no final, todas as pessoas serão salvas.

O professor do novo testamento Eugene Boring, publicou recentemente um artigo esclarecedor e provocativo sobre esse tema.
Segundo Boring, “uma minoria de estudiosos sustenta que Paulo é, efetivamente, um universalista; subordinam, então, os textos particularistas aos universalistas. A maioria parece enveredar para a direção oposta: subordinando as passagens universalistas às particularistas, concluem que Paulo é, na verdade, um particularista. Outras tentam solucionar o problema sustentando que há um desdobramento progressivo em Paulo, que vai do “particularismo” ao universalismo”.

Para tentar solucionar as afirmações conflitantes em Paulo, ou tentar pelo menos harmonizá-las, devemos compreender que ele era um pensador coerente, mas em certos assuntos não era sistemático.

Boring diz que, no tema em discussão, Paulo opera com duas imagens aparentemente antagônicas. “Nas denominadas passagens particularistas, a imagem abarcante é a de Deus-juiz. Nesta imagem existem “vencedores” (aqueles que são salvos) e “perdedores” (aqueles que se perdem, mesmo que Paulo, inclusive aqui, não aprofunde a questão do destino dos condenados; Como já foi dito, Paulo não possui uma doutrina de inferno.) Nas passagens “universalistas” por seu turno, o motivo dominante é Deus-o-rei. Enquanto que o Deus-juiz separa, Deus-o-rei une a todos em seu reinado.”  

Por isso se torna inevitável as perguntas: até que ponto é viável ou possível fundir essas duas imagens em uma só? Até que ponto posso me permitir a prerrogativa de escolher entre “particularismo” e “universalismo”? Existe uma maneira de tornar harmônica duas afirmações colidentes?

Bosch diz que, “Nenhuma opção faria jus às delicadas nuanças do pensamento paulino. Paulo está em condições, por um lado, de proclamar, com certeza absoluta, que Deus será tudo em todos e que toda língua confessará a Jesus como Senhor. Concomitantemente, ele é capaz de insistir na missão cristã como um dever ao qual não é possível renunciar. As pessoas precisam se “transferir” da velha realidade para a nova mediante um ato de fé e compromisso, pois só Cristo pode salvá-las. Cada qual carece ouvir o evangelho da justificação pela fé. A justiça de Deus não se torna efetiva automaticamente, mas necessita ser apropriada pela fé, o que só é possível onde às pessoas tiverem ouvido a proclamação do evangelho.”  

Por isso se vê nas entrelinhas, que Paulo, na maioria das vezes, se abstém de afirmar inequivocamente a salvação universal; o impulso para tal noção e feita pela ênfase na responsabilidade e obediência daquelas pessoas que ouviram o evangelho. Neste sentido é que torna relevante a resposta humana. A salvação oferecida por Deus é universal, mas nunca chega ao ponto de anulá-la.

Por Donizete

Bibliografia: Missão transformadora, David Bosch