segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Vanitas, Vanitatis!


por Matheus De Cesaro,

“Onde é que eu não entro? Onde é que eu não mando alguma coisa? Vou do salão do rico ao albergue do pobre, do palácio ao cortiço, da seda fina e roçagante ao algodão escasso e grosseiro.”

Machado de Assis “Elogio a Vaidade”





Nobres Amigos Confrades,

Ao dissertar  sobre vaidade, talvez a primeira lembrança que nossa mente nos traga, é que , vaidade é só vaidade”. Assim  já dizia o sábio Rei de Israel ao qual se chamava Salomão e nos conta a história bíblica cristã e a história judaica, que teria sido este homem um dos mais sábios de toda a humanidade. Um homem, rico, inteligente, com poder e supostamente castigado pela sua vaidade. Um homem que definiu em seus textos serem todas as atitudes vaidosas, vãs e fúteis, revelando-se no desejo de aparecer, de brilhar, de atrair a atenção dos outros, uma presunção ridícula e medíocre, um ato de vangloriar-se e ostentar uma posição, apresentar-se de forma grandiosa aproveitando-se do conhecimento, do poder sobre os mais fracos e dos menos favorecidos, enfim, tudo que pudesse o colocar em um nível aparentemente acima do que realmente e de fato fosse, dizia Salomão ser vaidade.

“Vaidade de Vaidades! Diz o Pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade”, “Avel Avalim! Amar Koelet, avel avalim! Col avel”, “Vanitas, vanitatis! Vanitas, Vanitatis! Et omnia vaitas” (Eclesiastes 1:2)

Quando fala-se em vaidade no sentido de como ela se manifesta no ser humano, alguns se escondem e fogem deste assunto, talvez por temor de terem que enfrentar a si mesmos, e depararem-se com os seus próprios “monstros internos”. Uma realidade que surge por meio do que Freud denominou de “sono do mundo”. Mas, ainda há alguns que buscam incessantemente atrapalhar este sono. Por isso nos dedicamos em lutar por essa compreensão de nós mesmos, seja na leitura, na escrita, no debate, nas divergências e nas concordâncias, enfim, vivemos em uma constante busca pelo entendimento dessa complexidade que forma nossas vidas.

Em contra partida, há outros que não fogem a esta realidade, porém se manifestam trazendo as mais variadas e bem estruturadas interpretações para definir e formar o conceito, parecendo até terem em mãos a fórmula secreta para vencerem esta paixão, mesmo sendo muitas destas dissertações vazias e superficiais se comparadas ao que realmente queremos compreender e investigar. O que hoje se tornou  muito comum, se tratando de qualquer assunto em que nos disponibilizarmos a dissertar. Ninguém mais fica para trás em uma discussão, basta ter acesso a internet, uma teclada ou outra em um computador ou até mesmo em um celular, e “bummm” bem ao estilo “Big Bang”, temos uma explosão de Phd’s em qualquer assunto que esteja em voga, basta o camarada entrar na “wikpédia” e terá condições de elaborar uma opinião convincente e bem estruturada sobre o termo discutido, para exatamente demonstrar sua vaidade no que faz alusão ao ato de conhecer o assunto em questão. E desta forma não passar a vergonha de assumir que de fato não compreende o que esta a dissertar. E segundo este tão “sábio e influente site”, podemos definir a vaidade da seguinte forma: 

“A vaidade (chamada também de orgulho ou soberba) é o desejo de atrair a admiração das outras pessoas. Uma pessoa vaidosa cria uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o objetivo de ser admirada.”

Não que este sentimento e busca de atrair atenção não venha mesmo revelar a vaidade, mas tal revelação é superficial e rasa, sendo que quando conjecturamos e supomos acerca da vaidade, podemos ir mais longe, podemos invadir e destrinchar com mais ênfase nossa própria natureza humana, tendo ciência de que tal paixão compõe nossa natureza. Em resposta ao que a “Wikipédia” define e aponta como vaidade, eu me recordo de um fragmento escrito por C S Lewis que diz,

"O prazer em ser elogiado não é orgulho ou vaidade. A criança a quem se da uma palmadinha nas costas por fazer bem uma lição, a mulher cuja beleza é louvada por quem lhe ama, a alma remida a quem Cristo diz, "procedeste bem", ficam satisfeitas e são desejáveis. Porque, aqui, o prazer assenta não no que somos, mas no fato de termos agradado alguém a quem queríamos precisamente agradar. O problema começa quando deixamos de pensar, "ele gosta de mim, que ótimo", para pensar, "que sujeito formidável eu sou, para ter feito isso". Quanto mais nos deleitamos conosco mesmos, e menos nos deleitamos com o elogio, piores nos estamos tornando... Se alguém deseja adquirir humildade, o primeiro passo é compreender que se é orgulhoso e vaidoso por natureza. Nada mais pode ser feito antes disso. E quando alguém pensa que não é orgulhoso, significa que ele é, na verdade, extremamente orgulhoso e esta impregnado pela vaidade. Não imaginem que se encontrarem um homem realmente humilde ele será o que a maioria das pessoas chamam "humilde", hoje em dia... Provavelmente só pensaremos que ele parece um indivíduo inteligente e bem disposto, e que tem um verdadeiro interesse pelo que nós dizemos a ele... Ele não estará pensando em humildade, ele não estará de modo algum pensando em si próprio!"

Logo, se percebe que a definição “wikpediana”, de fato é muito rasa e superficial, quando nos dispomos a buscar a compreensão desta complexa paixão.

E para expor e enfrentar um pouco de minha eterna companheira vaidade, é que decidi aqui dissertar um pouco sobre ela, hora amiga e companheira, hora vilã e traiçoeira, hora manifestando-se de forma visível, hora se ocultando, se escondendo e se mascarando na forma do bem, ou até mesmo do mal. Como diria Mathias Aires em Reflexões sobre a Vaidade,

“Vivemos com vaidade e com vaidade morremos; arrancando os últimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa fúnebre... No silêncio de uma urna depositam os homens a sua memória para com a fé dos mármores fazerem seus nomes imortais... A vaidade até se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura... Queremos que cada um de nós se entregue a terra com solenidade, e fausto, outra infeliz porção de terra: tributo inexorável!”

Não há como ignorar que diariamente esta paixão nos acompanhe, em discursos, atos, buscas, representações, enfim, em tudo o que somos sempre há um pitada desta tão assustadora paixão, a qual poderíamos afirmar talvez ser a mais sagaz e ardilosa paixão, não a toa que Mathias Aires ao falar sobre ela, dizia,

“De todas as paixões , a que mais se esconde é a vaidade, e se esconde de tal forma , que a si mesma, oculta, e ignora.”

O que mais me chama a atenção na verdade, não são aqueles que possuem a capacidade de em meio a facilidade digital elaborar conceitos e estruturar sistemas prontos para elucidar tal ato, e sim os que fogem do assunto por medo de se depararem consigo mesmos nas mais simples circunstâncias do cotidiano em que se esta inserido. Pois ao se escrever se esconde o desejo do reconhecimento em ser lido, ao fazer o bem se esconde o desejo de ser conhecido pelos seus atos, até mesmo no medo da morte escondemos o temor de não sermos lembrados e assim não sermos reconhecidos pelas nossas memórias.

Nestas situações é que percebo  a existência de dois grupos distintos, o primeiro composto por aqueles que reconhecem e temem a convivência com a vaidade,  a tratam como a grande inimiga na edificação e no  desenvolvimento de suas estruturas espirituais, materiais e sociais, estando sempre em combate, lutando contra uma paixão que na maioria das vezes é incompreendida e tratada como um mal absoluto, e irreparável, algo em suma, nocivo, prejudicial e que deve ser aniquilado custe o que custar. Estes não percebem que na vaidade também há o bem, e também há virtude na mesma proporção em que há este suposto mal tão temido. Desconsideram o dualismo que repousa sobre a paixão da vaidade “bem e mal”, trazendo sobre a mesma um determinismo negativo, que no fim não passa da mais concreta característica da vaidade, que se mostra exatamente na necessidade de tornar a paixão má em defesa de uma postura boa e livre da vaidade.

No segundo grupo estão aqueles que dizem conhecer a vaidade e não a possuir, aqueles que dizem estar preparados e prontos para viverem em si, a mais sublime forma de humildade, o que ao meu ver, é a mais autêntica forma de vaidade que podemos encontrar, o que popularmente chamamos de falsa modéstia.  A respeito destes Machado de Assis ao finalizar sua obra “Elogio da Vaidade” diz,

“Um levanta os ombros; outro ri de escárnio. Vejo ali um rapaz a fazer-me figas: outro abana tristemente a cabeça; e todas, todas as pálpebras parecem baixar, movidas por um sentimento único. Percebo, percebo! Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia.”

Fica muito claro que falar sobre vaidade exprime uma complexidade sem tamanho, nos aponta caminhos diversos, e conjecturas das mais variadas formas. Eu mesmo a tenho como parte inerente de minha pobre e mortal natureza humana, uma eterna companheira que do berço ao túmulo terei que conviver. Não há como aniquilar a vaidade, sem que eu próprio seja aniquilado, não há como descartar a vaidade como se ela própria fosse um sentimento ou comportamento individual. Estamos a mercê de uma paixão que nos alimenta e nos deixa com fome, que nos coloca em um patamar de destaque e que em um piscar de olhos nos leva a mais angustiante ruína.          

Deveríamos entrar com todas as nossas forças em uma queda de braços deveras inútil?

Ou o conhecimento, e o aprender como conviver, seria a atitude mais plausível?

Seria sensato explorar a vaidade no âmbito das virtudes que nela possam existir,  tendo o cuidado de não expor de forma hostil nossa eterna companheira?

Ou seria ainda, a vaidade simplesmente uma criação da psique humana, para então justificar o medo de assumir nossos próprios pensamentos, e nossas posições contrárias ao proposto?

“Digo a todos, porque a todos cobiço, ou sejais formosos como Páris, ou feios como Tersites, gordos como Pança, magros como Quixote, varões e mulheres, grandes e pequenos, verdes e maduros, todos os que compondes este mundo, e haveis de compor o outro; a todos falo, como a galinha fala aos seus pintinhos, quando os convoca à refeição, a saber, com interesse, com graça, com amor. Porque nenhum, ou raro, poderá afirmar que eu o não tenha alçado ou consolado.” (Machado de Assis, Elogio da Vaidade”




80 comentários:

  1. Nobres Amigos Confrades,

    Deixo aqui minha contribuição, para que possamos discorrer sobre um tema que neste ano muito me incomodou, e talvez por isso sinta o desejo de ler as opiniões, por mais divergentes que sejam ou não. Abaixo mais um fragmento de Mathias Aires que considero fantástico.

    "A vaidade das letras é maior do que a vaidade das armas; estas sim têm ocasiões de maior pompa, de maior grandeza e de maior admiração; mas tudo nas armas é semelhante ao raio, cuja luz e estrépito se extingue em um instante. Os heróis nunca chegam a durar um século; as suas ações não duram mais, se a fortuna lhes não dá na república das letras alguma pena ilustre, que conserve a vida daquelas mesmas ações, já sucedidas, já passadas, e já mortas... O dano não costuma estar tanto donde se mostra, como donde se esconde: assim são as letras, e assim são as armas, estas fazem o rumor, aquelas o estrago; as armas fazem o mal, mas acabam com êle, as letras o mal que fazem, dura; as armas, causam; as letras, não; a espada nem sempre pode usar de fôrça, e de traição; a pena sempre pode ser traidora e aleivosa; é arma que não pode acautelar-se; quanto mais leve e mais sutil, mais perigosa: aqui vem a serem as letras de algum modo inexpugnáveis, e por consequência vaidosas, porque o ser invencível precisamente influi vaidade."

    Abraços, desde já grato pela leitura!

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    1. Poutz Matheus,
      teus textos estão cada vez melhores!

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  2. Parabéns , Matheus (pode ficar envaidecido – rsrs). Seu texto foi surpreendente e cortante como uma “espada de dois gumes”.

    A internet está aí para que exerçamos a mais sublime forma de poder: “a de jogar com as palavras” (rsrs).

    Para que exista o jogo se faz necessário a presença do OUTRO, como bem externou o homem primitivo quando inventou a linguagem, atribuindo o poder de sua imaginação a algo poderoso vindo de fora. E imaginou um Deus tremendo a falar: ”Não é bom que o homem esteja só!”. Assim, foi decretado o nascimento da vaidade, que no livro de Gêneses é descrita de forma metafórica ou alegórica. (rsrs)

    Envaideço-me daqui de longe, Matheus, só em pensar que esse pequeno fragmento que escrevi, junto com o seu grande fragmento textual, será objeto de reflexão por todos desta confraria. Mas não ficarei frustrado, se tal não ocorrer. Faz parte do jogo, entender que o silenciar também é uma forma de vaidade. (rsrs)

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  4. Escolhe teu diálogo
    e
    tua melhor palavra
    ou
    teu melhor silêncio.

    Mesmo no silêncio e com o silêncio
    dialogamos.


    (Carlos Drummond de Andrade — “Discurso da Primavera”)

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  6. Nobre Amigo Levi,

    Obrigado pelo elogio, que com certeza envaidece, mas como virtude no sentido de incentivo. Pois sendo eu ainda moço, um bebê neste caminho das letras, não há como sentir-se "envaidecido" com palavras de quem já esta nesta estrada a tanto tempo e expressam um apoio indescritível.

    Estariam estes que silenciam entre os que de fato temem encarar e se deparar com seus "monstros internos" rsrsrsrsrs... Eu quando comecei a meditar sobre isso no decorrer do ano, em muitos momentos tive por preferência silenciar... Mas quanto maior o silêncio, maior me era a incomodação... Conhecer nossa própria sombra, portanto, nos permite constatar que não somos tão inofensivos. Não há como não negar que as vezes não gostamos do sentimento decorrente do sentir-se acima de alguém. Quanto menos reconhecermos o escuro em nós mesmos, mais depositamos no outro o que existe de mais cínico, hipócrita e perverso... Como disse Jung, "Só vence monstros quem assume os seus próprios". Pergunta como "Por que você precisa chamar a atenção dos outros? Até onde vai sua vaidade?" com certeza incomodam e são um convite ao silêncio... Pois a vaidade, prefere manter-se escondida e camuflada internamente em nossa natureza.

    Interessante este comentário sobre a criação da mulher e o nascimento da vaidade... Se bem que partindo de alguém que estuda Freud como você se torna suspeito rsrsrsrsrs... Para a psicanálise de Freud a vaidade está ligada ao narcisismo, assim, atribuímos à feminilidade maior quantidade de narcisismo (vaidade), de modo a se evidenciar no fato de que, para ela, ser amada é uma necessidade mais forte que amar... Se bem que minha ideia não era discorrer sobre isso, embora o mesmo que desenvolve esta ideia também diz que a vaidade, quando bem administrada, é o motor das realizações.

    Em tempo, Freud e Jung para mim são muito feras!

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  7. Caro confrade Mateus seu texto realmente é uma grata surpresa já que trata de um assunto em questão a vaidade ampliando a mesma num sentido metafórico como "eterna companheira" dando a entender em meu ser vaidoso que sem ela teria minha vida um sentido. Será que a vaidade não é minha cara metade que vem me tirar da solidão da realidade e me ascender ao mais alto sentido de completar-me?

    Em minha lembrança da minha querida mãe entre tantas coisas agradáveis eu me lembro que quando já havia criado seus onze filhos e já bem enferma na cadeira de roda ela vaidosa como nunca se arrumava toda bela e se perfumava (como gostava do seu cheiro) tão enferma e ao mesmo tempo tão desejosa de viver e ser bonita para meu pai. Lembro-me que ao ser destruído seu mais desejoso sentimento que era um dia poder andar novamente ao levantar-se entusiasmada caiu ao chão e quebrou o fêmur ao que o médico lhe disse que ali acabara sua esperança de andar novamente definitivamente. Ela toda vaidosa e mesmo abatida se embelezava se perfumava só para meu pai olhar pra ela. Perguntei-lhe maldosamente certa vez ao vê-la na cadeira de roda o que a mantinha tão vaidosa, o que ela respondeu: a possibilidade de viver.

    Como você bem definiu esta dualidade que acompanha a vaidade "o dualismo que repousa sobre a paixão da vaidade “bem e mal”, trazendo sobre a mesma um determinismo negativo, que no fim não passa da mais concreta característica da vaidade, que se mostra exatamente na necessidade de tornar a paixão má em defesa de uma postura boa e livre da vaidade".

    Ela pode ser má mas ao mesmo tempo tão boa. Não saberia viver sem minhas vaidades, seria com certeza um sujeito depressivo sem ela, mais ainda do que sou.

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  8. continuando...

    Tive um amigo paraguaio que dizia: Quando saio de casa me armo até o pescoço e quando volto à casa eu me desarmo todo.

    Está um lugar onde a vaidade se dissipa em um instante: ao lado dos entes! Quer conhecer um sujeito de verdade pergunte à pessoa que convive com ele debaixo do mesmo teto.

    A vaidade é quase sempre enciumada e não aceita a outra cara metade.

    Quanto a psicologia o conhecer a si mesmo e descobrir ou tirar as máscaras pode ser algo muito bom se não for uma viagem ao fundo do poço onde a vaidade se retira para no lugar dela ficar a frustração.

    Mateus o fato de você se dizer novo, e isto não deixa de ser vaidade, já que ser novo é tão subjetivo, seu texto e seus comentários aqui na confraria nos mostra uma pessoa que viveu a vida intensamente a vaidade da procura. Por isso merece minha sincera admiração pela forma surpreendente ao primeiro texto seu apresentado entre nós.

    E se o maestro e mago Levi aprovou seria eu tão vaidoso em dizer ao contrário? rsrsrs

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  9. Mateus,
    Um pouco de vaidade faz mal não! Faz a gente se esforçar. No trabalho, em casa...por exemplo, é tão bom uma mulher vaidosa, que gosta de ser mulher, de se enfeitar... Uma pena que os maridos não exerçam com tanta frequência o elogio! (Viu maridos??) rsrs...Pra mim o chato e contraditório da minha vaidade é que ela se alimenta do q me causa imenso constrangimento. Por um lado, todos desejamos elogios e reconhecimentos mas alguns de nós não se sentem bem, perdem o rebolado e chamam isso de falsa modéstia, mas a modéstia pode até ser falsa,mas o desconforto é real. O que pode ser isso? Penso que ao ser elogiada é como se fosse descoberta. A pessoa captou minha necessidade, meu objetivo. Vaidade das vaidades rsrs... É por ai.
    Parabéns, Mateus! Vc caprichou!!!

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  10. Matheus, excelente estreia!

    vaidosamente declaro que a confraria fez uma ótima aquisição!!!

    Creio que a máxima do Qoélet "tudo é vaidade" é irretocável. Mas se tudo é, não pode deixar de ser; o que se pode é trabalhar o que se é de forma que sendo, não seja apenas para o que é passagem, fugaz, vento e brisa breve.

    Será?

    Defronto-me com outra máxima bíblica: nossas vidas são como folhas secas levadas pelo vento. Diante disso, onde o lugar da vaidade? A mesma morada eterna do sábio é também a do tolo.

    Desculpe, Matheus, teu texto levou-me a (tentar) filosofar. Mas filosofar também é vaidade...

    Preciso refletir melhor sobre isso; volto depois.

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  11. O playboyzinho chegou na gata e tal...
    e foi logo falando de como era um cara bacana e era assim e assado e
    nessa falou durante mais de uma hora sobre suas muitas qualidades.
    Até que disse pra garota : Olha..eu já falei muito de mim mesmo...
    fale você agora sobre mim!

    (tem gente que diz que essa história é real)

    Pois é... eu diria sem medo que domar a vaidade é assunto ultimo da sabedoria! O pincaro do auto-domínio! A mais sublime coisa almejável por um homem.Deve ser mais facil beber toda agua do mar.No entanto penso ser possível. E quero ser eu o unico a conseguir,e assim reservar desde já o lugar que João queria...o lugar à direita do Rei lá no trono da glória! Sério!

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  12. Em tempo :
    o texto todo está um primor,Matheus.Muito bom mesmo.
    Só não está melhor porque não fui eu que escrevi!
    Sério!

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  13. Nobre Amiga Mariane,

    Obrigado pelo elogio em relação ao texto.

    Acredito que o fragmento que citei do CS Lewis, expressa exatamente o que disse na questão de ser elogiada. Eu particularmente gosto de elogiar e ser elogiado, recebo e dou elogios no sentindo de estimular a outra pessoa.

    Olhe bem:

    "O prazer em ser elogiado não é orgulho ou vaidade. A criança a quem se da uma palmadinha nas costas por fazer bem uma lição, a mulher cuja beleza é louvada por quem lhe ama, a alma remida a quem Cristo diz, "procedeste bem", ficam satisfeitas e são desejáveis. Porque, aqui, o prazer assenta não no que somos, mas no fato de termos agradado alguém a quem queríamos precisamente agradar. O problema começa quando deixamos de pensar, "ele gosta de mim, que ótimo", para pensar, "que sujeito formidável eu sou, para ter feito isso". Quanto mais nos deleitamos conosco mesmos, e menos nos deleitamos com o elogio, piores nos estamos tornando..." CS Lewis

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  14. Nobre Amigo Gilberto,

    Muita linda a história de sua mãe. E ela nos dá uma evidência muita clara de que a "vaidade" também pode nos fazer bem. Veja que o fato dela se arrumar, se perfumar, se embelezar, não estava ligado puramente ao amor que tinha por ela mesma, e sim estava ligado ao sentimento que tinha pelo seu pai e pelo os que conviviam com ela, logo, isso lhe fazia bem, lhe trazia sentido a vida.

    "Quanto a psicologia o conhecer a si mesmo e descobrir ou tirar as máscaras pode ser algo muito bom se não for uma viagem ao fundo do poço onde a vaidade se retira para no lugar dela ficar a frustração."

    Quando falo em enfrentar "monstros internos", na verdade não falo na intenção de aniquilar a vaidade ou quaisquer outras paixões que compõe nossa natureza, mas sim "trabalhar" elas, como bem mencionou o Eduardo. E esta ai a diferença que as vezes não percebemos. A vaidade não precisa ser aniquilada, e sim conhecida e trabalhada.


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  15. Mateus,
    Eu havia lido esse trecho e particularmente acho que não expressa tão bem e nem exatamente o que disse pois não se trata de desprezar o elogio, mas de sentir-se constrangida com ele o que me parece diferente. Disse haver uma contradição por desejar e por outro lado perder o rebolado. Mas não é sempre e nem todo tipo de elogio que provoca isso na maioria das pessoas e em mim, mas acredito que o cenário, a motivação e o interlocutor tenha muita influência nesse caso também. Valeu!

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    1. Nobre Amiga Mariane,

      Compreendo o que disse. Talvez não tenha me feito entender de forma clara, quando associei o seu comentário ao fragmento do Lewis.

      O que de fato quis elucidar, é que sentir-se bem ou constrangida (o que acontece na maioria das vezes), como disse Lewis não é vaidade no sentido negativo (que a grande maioria a tem).

      Em um dos nossos treinamentos, temos uma aula em que uma das dinâmicas é exatamente sobre a prática do elogio, a maneira, a forma, os meios de não fazer de um elogio um mero ato de bajulação. E com certeza, o o cenário, a motivação e o interlocutor são muito importantes e fazem a diferença.

      Abraços... :)

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  16. Nobre Amigo Eduardo,

    Existe uma citação do Carl Jung que muito me encanta e que a utilizo como lema lá no meu Boteco rsrsrsrs, ele diz:

    "Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana", Carl Jung.

    Eu quando analisava vaidade unicamente tendo a bíblia como base de estudo, não conseguia perceber ela, senão de uma forma pessimista e negativa. Em todas as vezes em que ela é mencionada, sempre é relatada como um mal a ser vencido. E na verdade, durante um longo tempo, sempre aceitei essa ideia de que a vaidade fosse de fato uma paixão inteiramente maléfica.

    Quando comecei a investigar um pouco sobre este tema, me deparei primeiro com Machado de Assis, que em Elogio da Vaidade, ele constrói uma ideia de "paixão invencível", como se ela estivesse no controle de tudo, e de fato, se não trabalharmos a paixão, ela toma as rédeas de nossas vidas com muita facilidade. Mas foi lendo Mathias Aires que percebi, que até o momento estava olhando para a vaidade no seu sentido mais simples e que é notável, o que poderíamos chamar de "narcisismo", exatamente o que acontece com o "playboy" da historinha do Joilson. Mas Mathias, faz uma dissertação belíssima em "Reflexões sobre a Vaidade dos Homens" acerca da forma como ela se esconde nas boas obras, nas boas atitudes, na escrita, na construção das amizades, enfim, faz uma análise bem mais clara sobre a velha máxima "Tudo é Vaidade".

    A diferença esta no trabalhar, e na forma como nos comportamos diante dela. Em uma entrevista concedida há algum tempo atrás, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso declarou que se considerava mais inteligente do que vaidoso. Esta afirmação foi interpretada como envolvendo um paradoxo. Com efeito, a vaidade de se considerar mais inteligente do que vaidoso parece ter sido tanta que não permitiu ao ex-presidente perceber a pouca inteligência de sua afirmação. Aprender a trabalhar nossa vaidade, em beneficio do que somos e podemos ser ao próximo, com certeza pode ser a melhor escolha.

    "teu texto levou-me a (tentar) filosofar. Mas filosofar também é vaidade... Preciso refletir melhor sobre isso; volto depois."

    Filosofar é aprender, é crescer, é buscar a compreensão de fatos que norteiam nossa vida, nosso mundo, nossa existência, e sendo assim é muito bom e agradável, nos torna melhores, (ou não, tudo depende de como trabalhamos as informações rsrsrsrs), logo, se filosofar é vaidade, esta aí mais uma evidência de que a vaidade repousa sobre o dualismo "bem e mal", não sendo uma paixão de natureza maléfica.

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  17. Nobre Amigo Joilson,

    Vou iniciar uma análise do seu comentário pelo término do mesmo.

    "Pois é... eu diria sem medo que domar a vaidade é assunto ultimo da sabedoria!"

    Eu concordo com você pelo seguinte. Enquanto estamos investigando fatos filosóficos que teoricamente não nos fazem mergulhar para dentro de nós mesmos, tudo é agradável, e se torna de certa forma mais fácil. Agora quando precisamos de uma real introspecção para trabalhar com a ideia, a coisa vai se complicando. Quando nos deparamos com um assunto que nos deixa desconfortável na cadeira, quando nos deparamos com uma ideia que nos deixa inquietos em relação a nossas atitudes, quando tudo implica em uma mudança muitas vezes radical de atitude e pensamento, parece que o chão desmoronou. Diria ser "assunto último" não pelo grau de complexidade ou dificuldade de entendimento, mas sim pela grande dificuldade que temos em nos conhecer, é aquela velha história de meter o dedo na ferida, e a gente sabe que isso dói, por isso se pudermos, vamos sempre deixando para depois rsrsrsrsrs

    Quanto ao exemplo do playboy... Um belo exemplo sobre "narcisismo". Conceito criado por Freud, que adotou o termo a partir do mito grego de Narciso. A origem da palavra Narciso em grego Narkissos, vem de Narkes, que significa entorpecimento, topor, inconciência. O Narcisista promove a constituição de uma imagem de si unificada, perfeita, cumprida e inteira. É aquele camarada que descreve a característica de personalidade de paixão por si mesmo, exatamente como fez o jovem diante da menina, pois ele não percebia nada além dele próprio.

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  18. Harold Kushner disse no início do seu livro que a questão que realmente importa é por que coisas ruins acontecem com pessoas boas. Qualquer outra discussão é pura diversão intelectual. Seu texto Matheus, suave e brilhantemente escrito é um convite para um diálogo nesse nível.

    Jesus disse certa vez que o reino dos céus é exclusivo para pessoas que possui coração de criança. E mais uma vez eu recorro à uma frase do Rabino supracitado que ilustra a razão de ser dessa sentença de Jesus: “as crianças perdoam rápido, e se reconciliam na velocidade da luz, pois preferem ser felizes a ter razão. São simples, e humildes, não se constrangem com vitórias e derrotas, pois não competem, apenas brincam. Não estão no jogo de quem é o maior e quem é o menor.” Isto é, vivem a vida na total ausência de vaidades.

    Mas a questão filosófica que emerge é até que ponto isso pode representar algo positivo para o ser humano? E em se tratando de algo que traz em seu bojo aspectos tão negativos, porque nem mesmo grandes espíritos, (usando a terminologia nietzschiana) conseguem se ver livre dele?

    Quanto ao sentido de “Hevel hahavelim” colocado pelo Eclesiastes, como futilidade, ilusão, inutilidade, vacuidade e etc. tomado ao pé da letra, seria um verdadeiro convite a total paralisia e estagnação do ser humano. Pois se tudo é, porque então querer ser e fazer? Se tudo é um vácuo, névoa de nada, bolha de sabão?

    Então prefiro tomar emprestado a figura da vaidade como colocado por Machado de Assis, e encarar a vaidade como fator de motivação para a realização de nossos projetos.

    Todos eles podem vir a ser tudo hevel hahavelim, mas antes de serem serão por uma fração de tempo o motor que moverá a minha vida.

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  19. Nobre Amigo Donizete,

    Concordo quando diz que levar ao pé da letra o sentido do texto em Eclesiastes é um convite a total paralisia e estagnação do ser humano. Pois quando afirmamos ser tudo vaidade, e esta ser de um todo má, o mais correto seria o abandono imediato de tudo. Ou seja, não faríamos mais nada nesta vida, e esta perderia todo o sentido.

    Agora quanto a afirmação do rabino ao dizer que as crianças não se preocupam em ser o maior ou o menor, tenho algumas considerações a fazer.

    Segundo estudiosos da psicanálise o narcisismo está presente no indivíduo desde a infância e, de acordo com estudos realizados nesta área, relaciona-se com a vaidade, entretanto, em alguns adultos verifica-se que houve uma falha no processo infantil, pois apresentam um desejo de retorno e permanência em atividades(prazerosas) que outrora deveria ter sido abandonadas e vencidas na infância. Na atualidade, as crianças que, há pouco tempo, deixaram as fraldas estão preocupadas com a aparência. O cuidado com o visual vai desde a arrumação dos cabelos até os saltos altos porque,e a menina buscando ser mãe como sua mãe, e o menino buscando ser pai como o seu pai, e assim vai se desenvolvendo uma necessidade de ser aquilo que ainda não são em essência.

    Marli Echeverria em "Perigosas Peruinhas 2004" esclarece que, para as meninas, vestir-se e maquiar-se como a mãe não é o problema em si, dado que, até certo ponto, isso é normal, entretanto a valorização excessiva da beleza estética, bem como a crescente preocupação infantil com esse aspecto, tornam-se prejudiciais, haja vista que “copiar modelo adulto é perfeitamente saudável, faz parte da infância. Mas é preciso saber diferenciar que criança não é um miniadulto” Já Iva Oliveira em "O que esta acontecendo com nossas crianças 2004" supõe que, quando a criança se veste diariamente, como adulto, pode correr o risco de perder sua identidade e, apesar de se embelezar como gente grande, ainda não está madura nem física, nem emocionalmente. A vaidade infantil pode ser valorizada desde que não haja erotização. Uma sandália de salto tem representações sensuais que precisam ser analisadas, por exemplo. A criança poderá expressar uma sensualidade que não saberá administrar ou, ainda, poderá sentir prazer em seduzir o outro. E com base nestes estudos sobre a formação das crianças que percebemos que o narcisismo que esta ligado a vaidade nasce na infância.

    Flavio Gikovate em "Ensaios sobre o amor e a solidão 1998" nos fala que a vaidade possui uma dupla característica: faz o indivíduo sentir exagerada necessidade de chamar a atenção de outras pessoas, enquanto também está comprometida com os prazeres que derivam da constituição da identidade desse indivíduo. Concluindo, a vaidade, como o desejo imoderado de atrair admiração ou homenagens, acarreta implicações no desenvolvimento da criança que está passando pelo momento de construção de sua personalidade, por isso, a infância define toda a vida do adulto; por conseguinte, qualquer falha ocorrida em um dos processos pertinentes ao desenvolvimento infantil poderá afetar o psiquismo, gerando conflitos internos e, conseqüentemente, o comprometimento de suas relações com a sociedade.

    Sendo assim, é de se concordar com o rabino que as crianças tem maior facilidade em compreender e esquecer sentimentos como ira, raiva, dor, porém seria ingenuidade minha diante de estudos e evidências afirmar que não há na infância essa tendência narcisista em busca de ser o maior ou o melhor. A diferença mais uma vez se dá, na forma como trabalhamos isso com as crianças.

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  20. Narcisismo é a mesma coisa que vaidade?

    Fui criado num ambiente religioso onde a vaidade era uma inimiga mortal. Sempre fui ensinado a ser o "menor" para que a vaidade não me dominasse. Por isso, quando mais novo, sempre me colocava em segundo lugar(mesmo sabendo que tinha capacidade maior do que o primeiro) para que a vaidade não me fizesse pecar.

    Isso mudou depois. Colocar-se como "servo" do outro(para ficar no ambiente do NT)não significa se considerar pior do que o outro, pelo contrário; é saber que se é superior e ainda assim se disponibilizar para ser "servo". Essa atitude é uma "boa vaidade".

    Querem me aplaudir? receberei de bom grado os aplausos. Querem me criticar? receberei de bom grado(mentira!!!!)as críticas; querem me impor o posto de servo? Não aceito servir a quem impõe servidão.

    Filosofar é preciso!! O Qoélet era muito pessimista.

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    1. Quando eu tinha acho que uns 16 ou 17 estava elndo uma entrevista tipo "roda viva" no Pasquim em fins dos anos 80..e lá pelas tantas o Henfil tasca algo assim :
      ... pois é ... o padre fulano de tal é humildezinho que é uma beleza, é uma ternura o cara(ele falava d'uma pessoa concreta,não lembro o nome do tal padre)...mas o tal parece ser do tipo que reza 1h por dia pra ser escolhido como uma das 5 pessoas mais humildes do ano..rss
      .
      A coisa é 'tipo assim' , rss


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  21. Este comentário foi removido pelo autor.

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  22. Nobre Amigo Eduardo,

    Narcisismo é vaidade na forma que foi exemplificada pelo Joilson, em relação a beleza principalmente do corpo, tipo a síndrome de se manter a frente do espelho se auto elogiando. De fato, não seria aquela vaidade, a que Machado e Aires citaram em suas obras e que busquei dar ênfase.

    Segundo a lenda grega, Narciso era um jovem de extrema beleza e, ao ver sua imagem projetada no lago, apaixonou-se por ela. Ficou tão embevecido com seu reflexo que, debruçado sobre sua própria imagem, deixa-se morrer. A partir dessa lenda, Narciso passou a simbolizar aquele que se perde por interessar-se apenas por si, incapaz de relacionar-se com os demais. Na psicanálise, a vaidade está intimamente relacionada ao narcisismo, e Freud quando falava acerca do tema, sempre fazia uso do texto de Ovídio que trazia em si uma versão desta lenda de Narciso.

    Não diria ser a mesma coisa Eduardo, mas caminham juntas, de mãos dadas, embora minha ideia ao investigar a vaidade, esteja um pouco mais além do narcisismo, não tem como não dar umas pinceladas no mesmo.

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  23. Essa sua dissertação acerca da vaidade claramente ser manifestada ainda na infância, é a mais clara evidência de ela, poderíamos dizer, é intrínseca à nossa natureza. Pois desde nossa tenra idade, mesmo antes de sermos contaminados com o modelo competitivo do mercado adulto, no que diz respeito à sua aparência e status, já demonstra uma certa vaidade, talvez inocente vaidade, mas que não deixa de ter a mesma conotação da vaidade adulta.

    Contudo, acredito que os valores e importâncias do mundo infantil se enquadram numa esfera absolutamente fora das categorias do mundo dos adultos.

    Não acredito que a vaidade (na acepção negativa do termo) infantil vá além da dimensão da aparência.

    O Ed René Kivitiz, quando trata dessa questão nos diz o seguinte: "uma criança jamais perguntaria para Jesus “quem é o mais importante no reino dos céus?”, pois não lhes passa pela cabeça que um ser humano pode ser maior ou menor do que o outro em termos de valor intrínseco".

    aliás, nem imaginam que exista ou o que seja esse tal de “valor intrínseco". Isso é vaidade típica do nosso mundo.

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  24. Sem palavras: " Perguntei-lhe maldosamente certa vez ao vê-la na cadeira de roda o que a mantinha tão vaidosa, o que ela respondeu: a possibilidade de viver." A MÃE DO GIL).

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  25. Parabéns confrade, belo texto.
    "Quem me livrará da minha vaidade?"

    A falsa modéstia é o último requinte da vaidade.
    Jean de la Bruyere

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  26. Nobre Amigo Donizete,

    De fato, a criança não tem em si nem sequer a consciência da vaidade, quanto mais teria do mal ou bem que pode haver nela. Concordo com o que disse o Ed René, quando uma criança em algum momento demonstra essa atitude de vaidade negativa, tenho certeza que é inconsciente. E assim como você vejo a vaidade como intrínseca a nossa natureza, com o tempo, e o passar dos anos vai se desenvolvendo, e conforme o "trabalhar" (de novo esta palavra rsrsrs) vai trazendo a tona tanto maldade, como bondade, desde o berço a até a sepultura... Como disse Mathias Aires,

    "Com os anos imos mudando de umas vaidades para outras; não porque queiramos mudar de vaidade, mas porque algumas há, que em certos anos são
    incompatíveis, e só têm lugar em outros. A gentileza é a primeira vaidade, que a natureza nos inspira; vaidade simples, e inocente ainda quando é mentirosa: a natureza quer que nos amemos, por isso faz que nos vejamos dotados de uma forma, ou figura encantadora, fomos Narcisos logo no berço: a nossa imagem apenas acabada de formar, logo nos atrai; o vidro que a
    representa nos agrada, a lisonja, ainda quando ignoramos o artifício do cristal; e desta sorte imos passando sucessivamente a vida, entretidos em um labirinto de vaidades"

    Aliás, teve um tempo que escutei e li bastante Ed René Kivitz, um cara fantástico, acima da média no atual cristianismo supostamente protestante.

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  27. Nobre Amiga Guiomar,

    Obrigado pelas palavras de apoio e incentivo em relação a qualidade do texto.

    Interessante que em outras palavras, Jean De La Bruyere, fala o mesmo que Machado de Assis ao encerrar o Elogio da Vaidade.

    A falsa modéstia é o último requinte da vaidade. "Jean de la Bruyere"

    Vejo ali um rapaz a fazer-me figas: outro abana tristemente a cabeça; e todas, todas as pálpebras parecem baixar, movidas por um sentimento único. Percebo, percebo! Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia.
    "Machado de Assis"

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  28. Bom tema! Vou tentar responder objetvamente às perguntas formuladas pelo autor.


    "Deveríamos entrar com todas as nossas forças em uma queda de braços deveras inútil?"

    Eu diria que sim. Precisamos lutar para que a vaidade não nos domine, ainda que venhamos e perder inúmeras batalhas. Ou seja, tropeçarmos.


    "Ou o conhecimento, e o aprender como conviver, seria a atitude mais plausível?"

    Acho que isso integra a nossa luta constante contra a vaidade.


    "Seria sensato explorar a vaidade no âmbito das virtudes que nela possam existir, tendo o cuidado de não expor de forma hostil nossa eterna companheira?"

    Isto seria vel algo de bom na vaidade, o que, sinceramente, não consigo ainda digerir. Sei que muita gente acaba sendo motivada pelos sentimentos vaidosos. Certa vez um político desejou ganhar uma eleição porque teria se sentido "provocado" por seu adversário. E, no livro de Eclesiastes, o autor deixa a entender que grandiosas obras foram realizadas pelo sentimento de vaidade. Só que como resultado, temos aí no mundo o que chamo de um anti-Reino de Deus.


    "Ou seria ainda, a vaidade simplesmente uma criação da psique humana, para então justificar o medo de assumir nossos próprios pensamentos, e nossas posições contrárias ao proposto?"

    Se é criação da mente/alma humana, disto não tenho dúvidas. Mas pra mim a criaçao do termo vaidade decorreria justamente do reconhecimento de que tomamos posições em favorecimento do ego. Quando queremos fazer a nossa própria vontade e não a de Deus, cometemos o pecado da vaidade. Por exemplo, Deus quer que façamos algo para o bem do próximo afim de atender as necessidades do irmão. Já o nosso eu quer engrandecer a própria personalidade e até se aproveita de um ato caridoso para que a obra seja vista e admirada pelos homens. Não seria algo feito em oculto para que apenas o Pai Celestial contemple se agrade.

    Paz!

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  29. Estou aqui de camarote degustando a excelente interação entre os confrades.

    Mas aí, Matheus, o nosso amigo Edu falou numa “vaidade boa”. E o Rodrigo falou que a vaidade surge quando não fazemos a vontade de Deus.

    Em resumo, penso que Edu quis dizer que o dualismo “bem” e “mal” vai caracterizar a natureza da vaidade, se ela é boa ou má.

    Quanto ao comentário do nobre confrade Rodrigo que ligou a vaidade a um pecado contra Deus, me parece que isto implica também cair no dualismo de se pensar numa vaidade divina e em uma vaidade diabólica.

    O psicanalista da linha junguiana, Carlos Amadeu Botelho, em seu livro - “A Inveja Criativa”, diz algo interessante sobre a inveja, que eu penso que poderia ser aplicado ao conceito de vaidade. Ele fala numa inveja boa (a criativa) e uma inveja má (a destrutiva), em consonância com os conceitos freudianos de “Eros” e “Tânatos” e os afetos ambivalentes que caracterizam o humano.

    Como equacionar esse dilema, sobre a vaidade, caro Matheus e demais confrades?

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    1. Levi meu caro me perdoe a vaidade mas eu tinha que lembrar também de uma frase comum e bem religiosa: "Tenho orgulho santo" Já ouviu isso? rssrsrs

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    2. Caro Levi,

      Não sei se pode existir uma inveja que seja boa.

      Será dualismo de minha parte? Não consigo diagnosticar agora. Porém, se a inveja é o que nos motiva a fazer algo que aparenterá ser bom, duvido que será mesmo bom. O outro não pode ser motivo para que eu vá em frente, mas o cuidado e a atenção da necessidade do próximo sim.

      Paz!

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  30. No acompanhamento de famílias em vulnerabilidade social é comum notarmos que a primeira característica a ser trabalhada nas pessoas que acolhemos é a falta de vaidade que caracteriza claramente que o assistido precisa reagir.

    As consequencias e sinais são sempre os mesmos: não possuir sonhos, não ter ambição alguma, a casa suja, as crianças sujas, roupa suja, e uma preguiça imensa.

    Num primeiro momento é comum julgarmos estas pessoas chamando-as de acomodadas. Conforme se trabalha com sua auto estima é possível verificar mudanças positivas e reações diversas surpreendentes.

    Os filhos crescem tendo muitas vezes como parâmetro os pais que vivem ou vegetam e por isso não basta apenas dar cestas básicas ou bolsas ou bolsa família se não tiver um trabalho bem feito de auto estima.

    É por exemplo gratificante quando você começa a notar que aquela pessoa começa a ficar vaidosa, a cuidar da sua beleza, a reagir positivamente para vida.

    Por isso preconceituosamente ouvimos falar que este "tipo de povo" é vagabundo. Lógico que existem raras exceções, mas a maioria deles não possuem referência alguma deste cuidar-se e amar-se.

    A questão não é a beleza, o luxo, mas esta vaidade de morar em um lugar digno, limpo, e com condições mínimas de vida.

    Certa vez eu disse a umas crianças de forma prepotente em um bairro carente que a prefeitura deveria tirar o povo deste lugar para um lugar mais digno. Elas arregalaram os olhos e disseram: Eu heim! Não quero sair daqui não, aqui o povo é simples e um ajuda o outro. Entendi que o ser humano mede sua satisfação pelo simples e que quando temos excesso de luxo perdemos a referência do que é ser feliz de verdade.

    O que as pessoas querem é o mínimo para viver. a vaidade neste sentido é que faz bem o excesso de vaidade que gera o desperdício enquanto o outro não possui o mínimo ao meu ver é agravante.

    E na minha opinião a pior vaidade é o egoísmo narcisista, aquele em que eu acho que sou o único na face da terra que merece o melhor. E os outros? Os outros são uns fracassados, preguiçosos, vagabundos, acomodados....

    Quantos talentos são desperdiçados no mundo por esta arrogância vaidosa de sempre nos acharmos que somos os escolhidos, os melhores...

    Neste campo social caros com confrades a vaidade passa longe e se não tomar cuidado esquecemos até de nós mesmos. Falo das pessoas honestas que tentam fazer algo, mas para os olhos do mundo vaidoso, este trabalho é uma perda de tempo e para a cabeça do sujeito que realiza tal obra quase sempre passa a ideia de fracasso profissional, pessoal, humano, atraso de vida...

    Caro EDU quanto ao Coelet ou Eclesiastes eu o vejo um sujeito realista!

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  31. Nobre Amigo Rodrigo,

    Muito interessante sua dissertação.

    "Quando queremos fazer a nossa própria vontade e não a de Deus, cometemos o pecado da vaidade"

    Para Santo Tomás de Aquino, um dos teólogos mais influentes do cristianismo, a vaidade é um dos sete pecados capitais. Vaidosa seria aquela pessoa que faz de tudo para atrair a admiração das outras pessoas. Para isso, ressalta demasiadamente seus pontos positivos e escode, camufla, seus aspectos negativos. A vaidade seria uma espécie de falsidade, já que a pessoa acabaria produzindo uma imagem não muito fiel de si mesma. Desse ponto de vista, a vaidade seria um pecado, enquanto virtuosa seria aquela pessoa que se mostra como é de fato, sem disfarce. Isso tem a ver com o próprio significado da palavra vaidade. Ela vem do latim vanitate, indicando aquilo que é vão, ilusório, passageiro. Aparência é diferente de
    realidade, certo? A aparência é algo vazio, oco, que pode desfazer-se a qualquer momento. Ela também é enganadora, porque encobre o real, impedindo que o vejamos como é de fato. Pois bem, vaidoso é aquele que vive de aparências. É aquele para quem mais vale o aparecer do que o ser.

    Considerando a vaidade (no meu caso como uma paixão que esta intrínseca a nossa natureza e não tendo muitas outras evidências além da bíblia e do que meus familiares me ensinaram para descrever a vaidade como pecado, eu confesso que me sentiria ingênuo ao fazer tal afirmação. Por isso nos comentários anteriores eu afirmei que a bíblia traz uma ideia muito pessimista e negativa sobre vaidade, a colocando sempre como um mal devastador. E se isso for mesmo uma realidade absoluta, se a afirmação de que a vaidade é pecado e produz um "anti-reino de Deus" for uma sentença verdadeira, o que diríamos da "mãe do amigo Gilberto"?

    Se o Eclesiastes diz, "tudo é vaidade", até o não pecar seria vaidade. O praticar bondade seria vaidade e assim pecado, o amar seria vaidade e assim pecado, o buscar pelo esforço o Reino de Deus (biblicamente falando) seria vaidade, logo, pecado.







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    1. Prezado Matheus,

      Eu diria que a vaidade é sedutora enquanto a realidade é o fio condutor de todos nós.

      Conforme você colocou, "até o não pecar seria vaidade" e estou entendendo o que quer dizer. Pois, de fato, existem pessoas que procuram produzir uma aparência de santidade por motivos vaidosos e não com a finalidade de agradar a Deus secretamente, na sinceridade do coração.

      Praticar a bondade, o amor, e buscar o Reino nunca serão vaidade, a não ser se nos enganarmos quanto à aparência. Ou se nos esquecermos da gratuidade divina em que nos tornamos agradáveis ao Eterno independente das obras. Pois quer eu peque ou não, sou aceito incondicionalmente pelo Pai. E aí não há nada a fazer para obter aplausos dos céus. Todavia, se alguém chamar a algum ato realmente bom de vaidade, aí talvez os comentaristas poderão divergir fartamente entre si rebatendo questões exclusivamente conceituais sobre o que vem a ser isto ou aquilo.

      Finalizo refletindo que pode haver diversos níveis de vaidade. Desde o explícito até o mais oculto. Hoje em dia fala-se muito na falsa humildade, o que, no meu entender, seria uma vaidade complexa. (rsrsrs)

      Quem aqui não é vaidoso? Todos somos! Só o Santíssimo, tal como Ele realmente é, pode ser considerado perfeito.

      Cordiais saudações.

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  32. Nobre Amigo Levi,

    Eu vejo a vaidade como simplesmente vaidade. Não consigo lhe atribuir adjetivos como na condição de atributos. Penso que de fato ela conforme trabalhada por nós mesmos em nosso cotidiano, as vezes nas situações mais simples do dia, ela pode resultar em ações, esta sim seguidas de adjetivos positivos ou negativos.

    Não acredito nesta ideia de vaidade divina e vaidade diabólica, mas não descarto que tanto o bem como o mal surgem e nascem por meio da vaidade. Como bem sinaliza Mathias Aires,

    "É raro o mal, de que não venha a nascer algum bem, nem bem, que não produza algum mal: como só o presente é nosso, por isso não nos serve de alívio o bem futuro, nem nos inquieta o mal que ainda não sentimos; um infeliz não se persuade, que a sua sorte possa ter mudança; um venturoso não crê, que possa deixar de o ser; a este a vaidade tira o menor receio; àquele o abatimento priva de esperança. Se fizermos reflexão, havemos de admirar o pouco que basta para fazer o nosso bem, ou o nosso mal: de um instante a outro mudamos da alegria para a tristeza, e muitas vezes sem outro algum motivo, que o de uma vaidade mais, ou menos satisfeita. Os homens não são todos igualmente sensíveis ao bem, e ao mal; a uns penetra mais vivamente a dor, a outros só faz uma impressão ligeira; o bem não acha em todos o mesmo grau de contentamento. Nas almas deve de haver a mesma diferença, que há nos corpos: umas mais débeis, e outras mais robustas; por isso em umas obra mais o sentimento, e acha mais resistência em outras; em umas domina a vaidade com império, e com furor, em outras só assiste como cousa natural; naquelas a vaidade é uma paixão com ímpeto, nestas é um vício sossegado, e sem desordem"

    Ao meu entender grande mal da vaidade não esta ligado a questão do "pecado", de se "errar o alvo", e sim esta ligado ao excesso de preocupações, provavelmente relacionadas à tentativa de manter essa aparência o tempo todo. E neste estágio, que surgem os atos mais nefastos, pois quando as coisas mesmo que vaidosas não ocorrem naturalmente, a tendência é de se fazer qualquer coisa para fundamentar a aparência desejada. Aqui, talvez seja onde nasce o pecado, ou que mencionaram ser divino ou diabólico.

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  33. O Levi agora tocou num assunto interessante: a vaidade divina.

    E não foi vaidade o que o Criador sentiu ao realizar sua obra de criação? Criava e dizia a si mesmo: "é bom"!!!! "Eu fiz uma coisa boa, eu sou bom por que criei algo bom". Creio que tal vaidade "criativa" é muito saudável à psiqué.

    Apesar de Jesus ter rejeitado o adjetivo de "bom mestre" - ninguém tem dúvidas de que ele foi um "bom mestre". Na resposta de Jesus não está sugestionada essa dualidade que o LEVI citou? "Eu posso ser um bom mestre, mas BOM MESMO é Deus"!!

    Mas então Jesus também teria a consciência de que poderia gerar em si "vaidade diabólica" ??

    É, parece que sim.

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    1. Caro Edu,

      Como vai?

      O Santo não é vaidoso. Porém, nossa limitada concepção a respeito do Divino faz com que criemos imagens de uma divindade vaidosa.

      Eu não conheço a Deus o suficiente e, quanto mais vejo a sua Glória, mais eu me abomino.

      Sobre aquela parte de Gênesis que diz que Deus declarou como boa a sua criação, vejo mais como uma constatação, uma benção, algo provado e aprovado, uma coisa que proporcionou prazer ao próprio Criador que é bendito para todo o sempre.

      A respeito da resposta dada por Jesus ao jovem rico, não consigo ver coisas negativas ali. Na perícope, o Senhor teria repelido a adulação e foi direto ao ponto que precisava ser tocado afim de que aquela alma se convertesse e entrasse no Reino. Ali Jesus não queria ser confundido como mais um "bom mestre", conforme muitos já o chamavam por desconhecê-lo e não entenderem a essência de sua Mensagem. Jesus trouxe o jovem para a realidade e o ensinou algo muito mais profundo do que a superficial guarda de mandamentos conforme a letra.

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  34. Este comentário foi removido pelo autor.

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  35. Nobre Amigo Gilberto,

    Não seria Eclesiastes um pessimista realista? kkkk

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  36. Nobre Amigo Eduardo,

    Muito pertinente seu último comentário.

    Estive pensando sobre isso certa feita. Poderíamos arriscar dizer que tudo que Deus criou, o fez porque no primeiro ato viu que era bom, e isso lhe envaideceu. E assim, podemos afirmar que mesmo por meio da vaidade, produzimos coisas boas, e pessoas são beneficiadas e assim se cumprem a lei áurea do evangelho que é o amor fraterno.

    E aew? Alguém já quer aceitar Jesus??? (brincadeirinha) kkkk

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  37. Como diz nosso caro confrade mateus em seu texto:

    “Temos uma explosão de Phd’s em qualquer assunto que esteja em voga, basta o camarada entrar na “wikpédia” e terá condições de elaborar uma opinião convincente e bem estruturada sobre o termo discutido, para exatamente demonstrar sua vaidade no que faz alusão ao ato de conhecer o assunto em questão.”
    Não poderia deixar de fazer uso desta ferramenta para mostrar o meu PHD nesta interessante Informação coletada:

    No Antigo Testamento a palavra vaidade aparece mais de cem vezes e foi traduzida de três palavras hebraicas, a saber: 1. Nadab que significa oco, vazio. 2. Hebel que significa inútil. 3. Shaw que significa ludíbrio ou falsidade. Das cem vezes que aparece a palavra vaidade, jamais, em toda a Bíblia significa se embelezar ou andar bem arrumado, com adornos e etc.

    No Novo Testamento temos sete palavras gregas para a tradução vaidade que são: 1. Kenós, que signfica vazio, essa palavra aparece 18 vezes no Novo Testamento. 2. Kenophonia, som inútil, termo que aparece 2 vezes no N.T. 3. Mátaios, "inútil" aparece seis vezes 4. Mataiotes, "inutilidade" 3 vezes. 5. Maten, "em vão" duas vezes. 6. Eikê "à toa" cinco vezes. 7. Doreán "sem preço".

    A vaidade, portanto é um termo genérico para coisas vazias.

    Os filósofos sínicos pensavam que o desprendimento das coisas materiais era uma virtude de alto padrão para o caráter de uma pessoa. Os cínicos (conhecidos como filósofos pobres) não se apegavam com as coisas materiais, portanto eram conhecidos como pessoas não vaidosas.

    Um desses filósofos, chamado Diógenes, um dia chegou para Platão que era um filósofo rico e disse: posso limpar meus pés pobres e sujos na sua vaidade, referindo-se a um lindo tapete vermelho que tinha na casa de Platão.

    Platão respondeu dizendo: pode limpar a sua vaidade na minha vaidade.

    Portanto aquele sujeito que tenta exteriormente mostrar uma simplicidade forçada no fundo não é um vaidoso querendo se parecer um virtuoso?

    Não foi a estes que Jesus advirtiu diversas vezes a respeito das aparências?

    Por isso sou mais o Eclesiastes... tudo é vaidade rsrsrs

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    1. Nobre Amigo Gilberto,

      Excelente explanação etimológica do termo rsrsrsrs.

      Agora quanto a sua pergunta: "Portanto aquele sujeito que tenta exteriormente mostrar uma simplicidade forçada no fundo não é um vaidoso querendo se parecer um virtuoso?"

      Minha resposta só poderia ser "é óbvio". kkkkkkk

      Mas me diga: Sendo tudo vaidade, e sendo você mais Eclesiastes. Isso me leva a entender que você então não faz ligação da vaidade com o "pecado" em si, e sim como parte de nossa natureza. Pois se tudo é vaidade, as virtudes também se enquadram neste "tudo", logo, o homem virtuoso também esta vulnerável a vaidade, e esta sendo pecado, desmonta o caminho bíblico para a vida bem-aventurada. É isso, ou eu estou tendo uma compreensão errada do que afirma?

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  38. Caminho “perigoso” mas real, Edu. (rsrs)

    Concluindo, creio não restar dúvida quanto ao que você, Edu, sabiamente (olha aí o elogio) tirou de sua cachola: “Eu (Deus) fiz uma coisa boa, eu (Deus) sou bom por que criei algo bom". Diria que o que aí se ressalta é a Vaidade humana sublimada em um Deus.

    O homem, cuja principal característica é a VAIDADE, sem a qual nada faria, encontrou uma maneira de imaginar este afeto inconsciente: foi através da projeção em um “Grande Outro”.

    O homem se envaidece quando cria ou recria algo, desde que exista o outro para que ele se sinta gratificado.

    Quando falei em vaidade divina, o fiz, no sentido de fazer ver que o homem sacraliza seus sentimentos projetando-os numa autoridade divina. Conclusão: Não é Deus que é vaidoso e sim próprio homem. A história de Deus e o seu Opositor é, no fundo, a história dos sentimentos e afetos ambivalentes do homem, contada de forma mítica ou alegórica.

    A "Vaidade diabólica" ocorre quando eu demonizo os afetos que considero indesejáveis. E para isso, também é necessário a presença do outro (o bode expiatório) - rsrs

    O prólogo de Gêneses é simplesmente sensacional quando interpretado como uma metáfora dos nossos sentimentos ambivalentes. Ele retrata a nossa guerra secreta, particular e mal resolvida pela falta de SÍNTESE entre os pólos aparentemente contrários de nossa psique.

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    1. Nobre Amigo Levi,

      Agora é a sua vez de envaidecer-se rsrsrsrsrs Como debater com alguém com tamanha bagagem, conhecimento e facilidade de deixar claro o que nossas mentes teimosas insistem em manter no escuro? kkkkkk

      "O homem se envaidece quando cria ou recria algo, desde que exista o outro para que ele se sinta gratificado"

      É que anteriormente falamos. A vaidade como "motor das realizações" segundo Freud.

      Confesso que sou ainda novato nesta área, mas muito me encanta e estimula. E seus comentários abrem algumas portas que já vislumbrava, porém temia relacionar com minhas ideias. Realmente, a forma mais eficaz de se aprender e crescer é compartilhando ideias.

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  39. Mateus você me fez este interessante questionamento:

    Mas me diga: Sendo tudo vaidade, e sendo você mais Eclesiastes. Isso me leva a entender que você então não faz ligação da vaidade com o "pecado" em si, e sim como parte de nossa natureza. Pois se tudo é vaidade, as virtudes também se enquadram neste "tudo", logo, o homem virtuoso também esta vulnerável a vaidade, e esta sendo pecado, desmonta o caminho bíblico para a vida bem-aventurada. É isso, ou eu estou tendo uma compreensão errada do que afirma?

    Permita-me respondê-lo com objetividade fatiando-o rsrsrsrs

    "Mas me diga: Sendo tudo vaidade, e sendo você mais Eclesiastes. Isso me leva a entender que você então não faz ligação da vaidade com o "pecado" em si, e sim como parte de nossa natureza".

    O que é "pecado"? Partindo do ponto de vista que pecado é todo ato prejudicial, e assim que eu o vejo. Logo se a vaidade está prejudicando é pecado. Se a vaidade lhe traz algo de bom é graça. O que necessariamente não quer dizer que não seja da natureza humana a vaidade, assim como o pecado e a graça.

    então você ainda diz:

    " Pois se tudo é vaidade, as virtudes também se enquadram neste "tudo", logo, o homem virtuoso também esta vulnerável a vaidade"

    Se as virtudes são graças e portanto nos fazem bem e bem ao outro, então graça é de graça, e portanto quem se vangloria dela, não tendo mérito em tê-las já que recebeu de graça é vaidade. Sendo assim o homem virtuoso é vulnerável no sentido de que sua virtude é uma graça e não um mérito pessoal.

    Como bem disse Jesus: "De graça recebestes, de graça dai"

    Logo não vejo a virtude em si como vaidade, mas tê-la como mérito pessoal é vaidade.

    e você conclui:

    "desmonta o caminho bíblico para a vida bem-aventurada"

    Se o pecado é algo prejudicial, portanto inimigo da felicidade, as virtudes são caminhos para vida bem feliz (aventurado) pois é graça.

    Aventurar-se nas virtudes é sabedoria, orgulhar-se da prática das virtudes é vaidade.

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  40. Nobre Amigo Gilberto,

    Obrigado pela sua resposta, e em tempo, lhe digo ser bem estruturada.

    Mas ainda me fica um "pulguinha atrás da orelha" para que mantenha ainda o meu título de "chato e rabugento" rsrsrsrsrs

    Quando diz,

    "Logo não vejo a virtude em si como vaidade, mas tê-la como mérito pessoal é vaidade"

    Isso não desconstrói a ideia de que "tudo é vaidade"... Ou seja, não seria melhor dizermos, "nem tudo é vaidade"?

    Deixo claro, que entendi o seu ponto de vista, e o respeito por isso. Meu questionamento é só para ver se sai água da pedra kkkk

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  41. Mateus

    Você tem razão parece haver ai uma contradição.

    Mas veja a virtude não nos pertence, pois é uma graça que pertence a outrem. Enquanto pecado sim nos pertence.

    Sendo a virtude um ato que não é meu logo não pode ser vaidade. A vaidade está no ser virtuoso.

    Eclesiastes quando diz que tudo é vaidade debaixo do sol ou céu imagino eu que se refere as coisas que nos pertencem. Neste quesito ele enxerga aquilo que passará.

    Lembro que para o eclesiaste não havia a ideia de eternidade. No século I antes de Cristo esta ideia começa a se formar e hoje o cristianismo vê a salvação como algo que será conquistado pelas virtudes e atos bons que realizamos. O que eu discordo!

    A virtude não é uma vaidade enquanto não nos pertence, o sentir virtuoso sim é uma vaidade.

    A questão virtude é tão subjetiva e relativa, pois esta sujeita a diversos fatores e ocasiões da vida. Por isso sentir-se bom ou virtuoso é uma vaidade.

    Pois então eu creio que quando chega a idade avançada isto fica muito claro pois a partida parece iminente e a vida parece ser uma vaidade sem fim.

    Sei alá se compliquei ou me expliquei kkkkk

    Na minha concepção pessoal de vida entendo que das vaidades que existem debaixo do céu vale a pena optar por aquela que nos faz bem. O que não deixa de ser vaidade.

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  42. Nossa! Matheus chegando atrasadíssima e tentando pegar o fio da meada, mas sem medo de lhe envaidecer mais que já és (rsrs) magnífico seu ensaio e já aviso, irei replicar em seu marcador no meu blog viu? rsrsrs

    Nem adianta dizer que li todos os comentários que estarei mentido! (li os do Levi, e mais alguns outros), mas em relação ao texto Matheus, eu não fujo de minha vaidade. Mas é como sempre digo: "tudo que é demais sobra e tudo na medida certa pode ser bom e muito bom".(rsrs) volto depois (nosso pc chegou agorinha a tarde)

    Em tempo: Levi, como o face me proibiu de enviar msg, eu lhe mandei uma msg pelo face do Anderson ok? dá uma olhada lá?)

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  43. Nobre Amigo Gilberto,

    Eu considero muito interessante e pertinente essa distinção que faz entre a essência e a origem do pecado e da virtude. E respaldado nesta linha de raciocínio que propôs quero ressaltar que, sendo assim, a vaidade não pode ser nem um, e nem outro, embora de acordo como for trabalhada, enfrentada, e administrada pode gerar tanto um, como o outro (pecado e virtude).

    Seria esta mais uma evidência de que esta paixão é uma característica da "alma ou psique" (como prefiram chamar), assim como emoções, sentimentos e vontades? Seria esta, mais uma evidência de que esta não pode de forma alguma ser aniquilada, e que teremos que conviver com ela do berço a sepultura?

    Imagine você, um homem desprovido de emoções, de sentimentos ou de vontades... Imagine como seria seu dia-a-dia, sua vida, seus afazeres... Acredito que, nós, desprovidos de vaidade, seriamos um tanto quanto sem graça, por isso Deus nos dotou dela... E como toda ferramenta quando usada da forma certa executa seu trabalho brilhantemente, assim a vaidade nos estimula, e nos é como um motor, uma mola propulsora em nossas realizações... Do contrário, no seu mau uso, resulta em nossa própria ruína e destruição.

    E tudo isso, escrevo, sem fazer uso do conceito de "eternidade" que sabiamente nos disse ser desconhecido de Eclesiastes... Afirmo estas coisas em relação ao que é propriamente deste mundo e que por questões relacionadas a criação da "moral", umas chamamos virtudes e outras pecado.

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  44. Mat e Gil:

    mas se levarmos em conta que a vaidade pode ser boa ou má, então tudo é de fato, vaidade. Vaidade boa ou vaidade má. Mas será as "vaidades boas" livres de maldade?

    As "virtudes" não são nossas? Então são de quem? Ainda que nossas virtudes venham de Deus, elas no momento em que entram em simbiose com a natureza humana(digamos assim), se maculam; torna-se "virtude-desvirtuada". Pois tudo o que é produzido pelo ser humano - ainda que seja o bem - está contaminado pelas nossas ambiguidades. Ou não?

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  45. É, Levi, parece ser inquestionável que os narradores bíblicos sacralizaram seus(bons) sentimentos no Grande Outro e seus maus sentimentos no outro Grande outro...rss

    Mas isso é um pepino que os teólogos da confraria terão que descascar.

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  46. Mateus muito bom!

    Você fez a seguinte pergunta:

    Seria esta mais uma evidência de que esta paixão é uma característica da "alma ou psique" (como prefiram chamar), assim como emoções, sentimentos e vontades? Seria esta, mais uma evidência de que esta não pode de forma alguma ser aniquilada, e que teremos que conviver com ela do berço a sepultura?

    Creio que sim por sim negar esta "paixão", emoções, sentimentos e vontades não passa de mera vaidade de quem acha que pode transcender o que é humano querendo ser divino apenas.

    Como sabiamente você expressou:

    "Imagine você, um homem desprovido de emoções, de sentimentos ou de vontades... Imagine como seria seu dia-a-dia, sua vida, seus afazeres... Acredito que, nós, desprovidos de vaidade, seriamos um tanto quanto sem graça, por isso Deus nos dotou dela... E como toda ferramenta quando usada da forma certa executa seu trabalho brilhantemente, assim a vaidade nos estimula, e nos é como um motor, uma mola propulsora em nossas realizações... Do contrário, no seu mau uso, resulta em nossa própria ruína e destruição".

    Existe algo mais sem "graça" do que o sujeito que se acha perfeito, iluminado e por isso mesmo superior espiritualmente falando a ponto de esconder seus sentimentos, suas fraquezas construindo uma imagem sacra de si mesmo desprovido de toda vaidade?
    Não é a toa que gente assim prefere enxergar o "pecado" (sempre no outro) ao invés de valorizar a "graça".

    Edu você fez questionamento difícil:

    Mas será as "vaidades boas" livres de maldade?

    Eu creio que sim desde que esta vaidade traz algo bom. Creio na dualidade existente dentro de todo ser humano: a bondade e maldade. Em qualquer uma destas duas realidades o ser humano é surpreendente.

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  47. Edu apesar de você se referir ao Levi e aos teólogos rsrsr permita-me ser um intruso nesta sua frase:

    É, Levi, parece ser inquestionável que os narradores bíblicos sacralizaram seus(bons) sentimentos no Grande Outro e seus maus sentimentos no outro Grande outro...rss

    Aqui teria muito o que falar. Então pra não cair na tentação de exagerar eu perguntaria o que são maus sentimentos? O que são bons sentimentos?

    Em outras palavras nem sempre "maus" sentimentos são maus e nem sempre bons sentimentos são bons.

    O sujeito nervoso começou a xingar falar palavrões e a desabafar suas raivas. É um mau sentimento? Não e Sim. Sim se isto trouxe consequências negativa a ele e a outrem e Não se o ajudou a descarregar se tivesse guardado lhe poderia fazer muito mau para sua saúde.

    E assim também serve na questão do sentimento bom. Haja vista a famosa frase de boa intenção o inferno está cheio. rsrsrs

    Mas eu concordo com sua frase em questão das atribuições que fazem a estes sentimentos. O que gera de certa forma contradições aos montes.

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  48. Só para constar:

    o blog do Mathues-cabeleira-ungida-das-sete-tranças-de-sansão já faz parte da nossa lista de blogues.

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  49. GIL,

    você está certo, meu caro teólogo.

    o pepino ao qual me refiro é a questão de que Deus na Bíblia tem características(sentimentos,vontades,moralidade,etc)que é uma projeção de seus seguidores.

    Os proponentes da moralidade como virtude divina dizem que nosso senso moral é uma prova de que ele vem de uma instância superior - Deus.

    Então quem está com a razão? Quem vai de "cá prá lá" ou de quem vem de "lá prá cá" rsss

    mas esse é um outro assunto que quem sabe, algum teólogo vai futuramente discorrer aqui.

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  50. Nobres Amigos Gilberto e Eduardo,

    Nietzsche aqui diria, que o homem em sua vaidade cria Deus sua imagem e semelhança rsrsrsrsrs

    Os últimos comentários de vocês, sobre bem e mal, são muito "relativos" como todo dualismo. A pergunta instiga, mas a resposta que segue, dada pelo Gilberto é bem consistente.

    Conheço um camarada que joga futebol comigo. Fora de campo é uma moça, e em campo é um valente... Quando erra, ele próprio se xinga, e isso em um tom alto, raivoso e até grosseiro... Olhando isso, eu ficava assustado e pensava, "esse rapaz deve ter sérios problemas", olhando de fora parecia que aquilo era um mal que mais cedo ou mais tarde traria consequências ao rapaz... Depois de alguns anos jogando juntos, tomei a liberdade de perguntar, porque ele era tão severo consigo mesmo... E o porque tamanha ira, em apenas um jogo de futebol?

    A resposta dele, de certa forma me surpreendeu, pois veio a ser exatamente o contrario daquilo que havia pré-conceituado... Ele disse: "A vida é tão complicada, é família, trabalho, preocupações o tempo todo, e nesta esfera eu tenho que manter a calma, seguro a onda, engulo sapos, e muitas vezes tenho que assumir calado que errei... Aqui, é o único lugar que posso soltar tudo, extravasar, me libertar dessa ira, e sempre que acaba a partida, parece que me sai todo o peso das costas, isso me faz muito bem".

    Enquanto me preocupava que aquilo pudesse fazer mal ao rapaz, na verdade lhe fazia bem. E assim é com tudo que se relaciona a moral, virtudes, pecado, graça, sentimentos, emoções, vontades, tudo muito relativo.

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  51. Matheus, muito bom! Chegando atrasado e sem ter muito a acrescer, vou deleitar-me nos comentários e principalmente em seu ensaio, que merece ser replicado nos 4 cantos desta blogfera sem lei!

    Posso faze-lo em meu cantinho?

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  52. Nobre Amigo Anderson,

    Sinta-se a vontade!

    Abraço :)

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  53. Matheus!


    O Edu, vaidosamente, botou mais lenha na fogueira santa das “vaidades” (rsrs)

    Em consonância com o texto postado cuja essência foi retirada do livro de Eclesiastes, quero dizer que a máxima nada há de novo debaixo do sol. continua a vigorar entre nós. O que há , simplesmente, são novas atualizações do que já existia em tempos remotos.

    O volumoso livro - “Tratado Teológico- Político” (editora Martins Fontes) de Espinosa, foi publicado pela primeira vez no longínquo ano de 1670. Observei em sua leitura, rasgos de uma psicologia nascente, fonte da qual todos estudiosos da psique beberam. Espinosa revela de modo incomum as nuances profundas dos afetos ambivalentes de que tanto a psicanálise ainda se debruça para estudá-las e esmiuçá-las.

    Vejam bem a afirmação preciosa de Espinosa (página 114) dessa sua emblemática obra:

    Toda gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de Deus, que ensina aos homens a verdadeira virtude ou beatitude, ou caminho da salvação: na prática, porém, o que se verifica é completamente diferente. Boa parte, inclusive dos teólogos, está preocupada é em saber como extorquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e arbitrariedades, corroborando-as com o que entendem como autoridade divina. [...]. [...] É ver como andam quase todos fazendo passar por palavras de Deus as suas próprias invenções.”

    Mais na frente, na página, no meio de sua obra de mais de três séculos, Espinosa faz uma citação, que poderia muito bem ser atribuída a um exímio psicoteologista, da atualidade, quando assim diz:

    “O estilo da profecia no V.T. variava segundo a eloqüência e temperamento do profeta. Todos os exemplos mostram que Deus não possui nenhum estilo peculiar de falar e que, conforme a erudição e os dotes do profeta, assim Ele será requintado, lacônico, severo, rude, prolixo ou obscuro”

    Feuerbach, duzentos anos depois de Espinosa, dizia a mesma coisa com uma roupagem mais moderna. Se não vejamos essa pergunta que ele deixa no ar, na página 84 do seu fenomenal livro ― “A essência do Cristianismo”:

    “ Não é o amor de Deus pelo homem a base e o centro da religião, esse amor do homem por si mesmo, objetivado, contemplado como a mais alta verdade, como a mais alta essência do homem?”

    “Vossos deuses se baseiam numa conclusão, cujas premissas são vossos impulsos sensoriais, paixões, vaidades. Vosso Deus é o vosso instinto sensorial, vosso céu somente o campo aberto das paixões em geral restringidas à vida burguesa, à vida real”. (página 205).

    Feuerbach, endeusado por Freud, nada mais fez que uma leitura mais científica de Espinosa.

    Apesar da evolução perfeccional das obras dos artistas ou cientistas, o barro com que eles trabalham é o mesmo barro dos primórdios.

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  54. O comentário acima que, vaidosamente fiz, foi provocado por essa assertiva Eduardiana, ressaltada abaixo: (rsrs)

    ... "o pepino ao qual me refiro é a questão de que Deus na Bíblia tem características(sentimentos, vontades, moralidade, etc) que é uma projeção de seus seguidores".

    Passo a bola para vocês...

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  55. Levi, eu sou fã desse tal de Espinosa. Mesmo que ainda não tenha lido o seu tratado político-teológico(uma falha grave da minha parte) e ter lido apenas partes separadas da sua Ética. Mas como já li muito sobre Espinosa, conheço um pouco o seu pensamento.

    O fato da personalidade do profeta ditar como Javé falava é bem visível numa análise literária dos livros proféticos do AT. Mas para isso, nossos irmãos ortodoxos tem uma resposta na ponta da língua: "Deus falou respeitando o estilo e a cultura de cada autor".

    Será que nossos teólogos assinariam em baixo de tal afirmativa?? rsss

    É como você bem disse, amigo, "nada há de novo debaixo do sol", citando outro grande filósofo existencialista(antes de haver existencialismo).

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  56. "Deus falou respeitando o estilo e a cultura de cada autor". (Edu)

    Espinosa empreende uma inversão na ordem do que está acima escrito, fazendo ver que tudo nasce do estado imaginário em que se encontra o indivíduo.

    Para esse filósofo, uma coisa só é sagrada enquanto os homens religiosos a considerarem como tal. O patriarca Jacó chamou casa de Deus a um determinado lugar onde estava mentalmente em paz consigo mesmo. Porém este mesmo lugar foi designado pelos profetas que não toleravam outros deuses, como casa da iniqüidade, ao verem os israelitas de forma prazerosa oferecendo sacrifícios há outros deuses que não Javé.

    Isaias via um serafim de seis asas. Ezequiel vê animais de quatro. Isaias vê Deus vestido e sentado num trono régio. Ezequiel O vê como uma chama. Cada um percebe a “Imago Dei” conforme o estado psicológico, ou imaginário em que se encontra em determinado momento.

    Com a descoberta do inconsciente por Freud e Jung, ficou mais fácil entender em toda sua amplitude o que Espinosa, sem o conhecimento científico de hoje, queria demonstrar.

    Em analogia ao nada há de novo debaixo do sol de Eclesiastes, Freud e Jung bem que poderia ter dito: nada há de novo no que descobrimos , pois Baruch de Espinosa, quase quatro séculos atrás, já o definia à sua maneira. (rsrs)

    Desculpa aí, Matheus, pelo indevido atalho realizado que , apesar de não ter nada a ver com a VAIDADE do texto em pauta , refletiu um pouco do meu desejo (vaidoso) de um dia conhecer melhor os meandros da alma humana. (rsrs)

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  57. Nobre Amigo Levi,

    Tudo que possa se acrescentar, e contribuir sempre sera bem-vindo, seja de forma direta e ligada ao texto intimamente, ou por meio de uma atalho, como você próprio denominou.

    Sou também fã de Baruch, e tenho como uma de minhas prediletas literaturas o "Tratado da Correção do Intelecto", embora sejam leituras de linguagem mais complexas, são ótimas.

    Realmente, analisando a ideia de Deus, pelas visões dos profetas em particular, é de se perceber sim, que havia uma influência psicológica. É como o que chamo de "politeísmo das necessidades" do AT (podem dizer que estou viajando), que ocorre por meio dos múltiplos Javés, que no final irá resultar em um só, Jeová Jiré, Jeová Rafá, Jeova Shammah, Jeova Nissi e por ai vai... Hora Senhor dos Exércitos, hora Senhor da Paz... Ao ler o AT, percebe-se de forma muito nítida, essa influência do estado psicológico dos povos na idealização dos seus deuses.

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  58. Levi,

    a afirmativa ortodoxa deveria então ser dita da seguinte forma:

    "Cada profeta falou de Deus a partir das suas próprias experiências emocionais, culturais, psicológicas, políticas, teológicas..."

    Frase também cujo conteúdo nada tem de novo...rsss

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  59. Matheus,

    Gostei de sua expressão; “Politeísmo das necessidades” ― Um bom tema para ser explorado futuramente (rsrs)

    Não sei se sua frase pode ser assim reverberada: “Politeísmo dos impulsos inconscientes”, ou dos “Desejos reprimidos”.

    “Os egípcios diziam que os deuses tinham nariz chato e eram negros. Os trácios, que eles tinham olhos verdes e cabelos ruivos” (Xenófanes de Colofão) (kkkkkk)

    Mas cadê os teólogos (ortodoxos ou não) ???

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  60. Nobre Amigo Levi,

    Estava trabalhando em um artigo, mas dei um descanso a ele sobre exatamente isso, "O Politeísmo Das Necessidades ou se preferir a Mitologia Gospel" kkkkk

    Acredito que, quanto ao "teólogos", é um pouco complicado debater algo que se torna impossível sem introspecção, e se há algo que me parece por medo nos teólogos em um sentido geral é essa tal "introspecção" rsrsrs Pois encontrar consigo mesmo pode derrubar tabus e paradigmas que até então são suficientes e apropriados.

    Acredito que me parece haver uma debanda estratégica kkkkkkkkkkkkkk

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  61. Levi Matheus Eduardo

    Como acrescentar algo tão bem desenhado por vocês....

    Show de bola os comentários e eu vejo bem por aí mesmo.

    Aí surge uma dúvida: este jogo de vaidades de teólogos e pensadores ou de fundamentalistas em questão de doutrinas estabelecidas não poderia trazer problemas maiores diante de tantos pensamentos. Ou seja para uma religião se relacionar com Deus ao deixar as vaidades livres não tornaria inviável a caminhada de seus seguidores? Já que como bem definiu o LEVI cada expressa sua forma de ver Deus a partir de si mesmo?

    Sei que vocês jogarão pedra em mim rsrsrs mas eu defendo a religião quando a mesma enquanto instituição deva ter sua doutrina pré estabelecida o que chamamos de dogmas e caminhe ou aceite quem quiser.

    Assim como defendo a liberdade do indivíduo pensar livremente desde que sua vaidade não o leve ao iluminismo de achar que suas ideias são superiores a ponto de achar que elas em si sejam verdades absolutas e prontas. Neste caso qual a diferença entre os conceitos fechados e os que ele definiu como novos?

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  62. “...eu defendo a religião quando a mesma enquanto instituição deva ter sua doutrina pré estabelecida o que chamamos de dogmas e caminhe ou aceite quem quiser. “

    Gil,

    Jacques Lacan, que fez a releitura das obras de Freud, disse certa vez que a religião começa onde se para de ler . O que nos faz partir para a leitura e releituras (ressignificações), senão o exercício da dúvida, que me parece não combinar com o dogma ?

    No que concerne a segurança protagonizada pela religião, Gil, pagamos caro por dessacralizar seus dogmas. (rsrs)

    Mas como não o fazer, se já não suportamos mais a fixidez das letras do texto bíblico, e por isso mesmo estamos levando-o ou desejando que ele se torne uma obra aberta ao infinito da subjetividade de cada ser.

    Entendo que toda e qualquer leitura imutável, isto é, dogmática, impede a produção de pensamentos. O dogma tornando fixo a atuação de Deus, ou de uma autoridade rígida internalizada na psique (que eu traduzo como imago patriarcal), termina por levar o fiel a projetar o seu lado obscuro e indesejável naquele que a religião denomina de profano, ou “bode expiatório”. (rsrs)

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  63. Levi

    Como sempre foi excelente seu cometário e eu penso assim até porque minha visão de "mistério" não é aquilo que não entendemos e compreendemos. Mas algo que por mais que consigamos definir ainda há muito o que se revelar. Não gosto de jogar debaixo do tapete do mistério as perguntas que não consigo responder. Então seu último comentário eu não tenho o que acrescentar.

    Mas rsrsrs na questão prática da religião o fato de as pessoas terem a "liberdade" do uso de interpretação da bíblia e da doutrina de certa forma não contribui muito mais para interpretações errôneas e fundamentalistas que geram a todo instante novas denominações, grupos fundamentalistas e consequentemente as baboseiras que vemos o tempo todo gente dizendo a respeito de Deus?

    Eu por exemplo não vejo com entusiasmo a ideia de que a bíblia deva ser lida e interpretada por "fiéis" que não gostam de pensar e estudar. Na minha opinião é um estrago maior. Isto acontece não só no cristianismo mas em toda religião. Como também acontece na ciência e outras áreas.

    A Banalização de ideias e comportamentos está ao meu ver mais nestas interpretações livres do que nas questões teológicas definidas.

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    2. Gil

      Mas as interpretações estapafúrdias das Escrituras, de resíduo claramente patológico, são “ossos do ofício”. Consolemo-nos.

      Embora os riscos da “navegação” sejam grandes e medonhos, “Navegar é preciso, viver não é preciso”. (rsrs)

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  64. Gil,

    A liberdade de interpretação das escrituras teve sua gênese na doutrina luterana da universalidade do sacerdócio dos crentes. Alguns que defendem a centralização, consideram este fenômeno como sendo um efeito colateral da reforma. Entretanto, mesmo se Lutero não tivesse promovido esta abertura, o monopólio da verdade sucumbiria diante das esteiras do iluminismo. Era uma questão de tempo!

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  65. Doni


    Foi boa a sua intervenção.

    Aí eu pergunto:

    melhor viver o dogma em Latim, sem questionamentos, como era antes da Reforma, ou correr os riscos de navegar num mar de interpretações ao gosto da “vaidade” ou desejo de cada ser humano em sua subjetividade?

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  66. Doni e Levi

    é verdade até existem muitas vezes interpretações simples do povo a partir de experiências pessoais que convencem mais que teólogos. Foi vaidade minha achar que não deveria haver esta liberdade de interpretações rsrsrs

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  67. Nobres Amigos Confrades,

    Agradeço de coração aos comentários que expressaram apoio e principalmente os divergentes que me levaram a pensar, buscar um pouco além do que já estava se acomodando em minha mente.

    Já temos diversos outros assuntos interessantes em voga nesta postagem, por isso, creio que finda-se por hora este momento de reflexão e abre-se a porta para um novo texto.

    Mais, uma vez agradeço a contribuição de cada confrade, e lhes retribuo um fraterno e sincero abraço!

    :)

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