quinta-feira, 21 de maio de 2015

Reflexões sobre a nudez de Noé


Umas das mais intrigantes passagens da Bíblia diz respeito a um episódio ocorrido na vida de Noé em que ele amaldiçoou um de seus descendentes por ter sido flagrado nu.

Segundo o texto de Gênesis 9:20-27, após o Dilúvio, Noé plantou uma vinha e, ao beber do vinho, embriagou-se a ponto de ficar nu dentro de sua tenda. Cam, um de seus filhos, ao saber da nudez de Noé, divulgou a notícia perante os seus dois irmãos, Sem e Jafé, os quais, cobrindo seus rostos com uma capa, vestiram o pai andando de costas. Então, quando despertou-se do estado de embriaguez, Noé amaldiçoou a Canaã, filho de Cam, abençoando a Sem e a Jafé.

Tal passagem, quando interpretada ao pé da letra, torna-se assustadora. Isto porque a leitura da tradução em português, sem atentar para os significados das palavras e, principalmente para o contexto profético em que se passaram os fatos, induz a uma equivocada ideia a respeito de Noé, como se ele tivesse sido um homem injusto e de uma incoerente severidade.

Há quem se utilize dessa passagem das Escrituras em conjunto com o texto do capítulo 3 de Gênesis em que Deus havia feito vestimentas para Adão e Eva depois que estes desobedeceram suas ordens. Uns ainda lembram do capítulo 18 de Levítico para tentar justificar que a nudez de alguém seria pecado. Porém, eis que inexiste qualquer mandamento contra a nudez ma Bíblia, sendo que as normas da legislação mosaica, quando falam de "descobrir a nudez" de alguém, referem-se às relações sexuais de incesto.

Até à queda, o homem e a mulher não sabiam que estavam nus. Contudo, após Adão e Eva terem quebrado a única regra existente (uma desobediência que nada teve a ver com o sexo), passaram a sentir vergonha de seus próprios corpos de modo que tentaram se cobrir confeccionando cintas de folhas de figueira para si. Deus, então, sentindo misericórdia de sua criação decaída, decidiu fazer vestimentas para Adão e para sua esposa, vestindo-os afim de que não mais se envergonhassem.

Curioso como que alguém pode envergonhar-se da forma como nasceu?! Mas nós acabamos nos sentindo assim de alguma maneira pelas pressões sociais. Pois, diferentemente dos animais, assimilamos valores que associam certos defeitos do corpo com padrões estéticos ou a nudez com pobreza/indignidade. Terrível a nossa espécie!

É certo que, no episódio mítico de Gênesis 3, o homem passou a sentir não só a vergonha do próprio corpo como também o medo a ponto de se esconder de Deus apenas por ouvir a sua voz no Éden, embora, nesta ocasião, já estivesse usando as cintas de folhas de figueira. E, a partir daí, percebe-se pelas narrativas posteriores da Bíblia que o relacionamento da humanidade com o seu Criador ficou profundamente afetado. Não por causa da nudez em si, mas sim pelo pecado da desobediência e de querermos ser iguais a Deus conhecedores do bem e do mal.

Pode-se dizer que, devido ao medo de sua malícia ser descoberta, o homem já não ousava mais aproximar-se de Deus com inteireza, de modo que as roupas e os sacrifícios de animais traziam um certo conforto quanto às práticas religiosas. E poucos alcançaram a graça divina a ponto de se sentirem à vontade na presença de Deus, como foi nos casos de Moisés, Abraão, Isaque, Jacó e do próprio Noé, além do rei Davi. Foram homens que conseguiam expressar seus sentimentos e desejos diante do Senhor.

Contudo, após o salvamento das águas do Dilúvio, Noé embriagou-se bebendo vinho, sem que o texto nos informe por qual motivo o patriarca de todas as nações teria ficado naquele estado. Será que fora por tristeza em razão do comportamento de seus descendentes? Ou teria sido um mero acidente pela descoberta das propriedades do vinho? Foram saudades de algum parente ou amigo morto pelas águas do Dilúvio? Desejava ele aliviar algum sentimento de culpa? Simplesmente não sabemos! E, se a Bíblia nada diz sobre a causa da embriaguez, acredito que é pelo fato do escritor sagrado deixar o campo aberto para reflexão de seus leitores.

De qualquer modo, o texto nos dá pistas sobre o porquê da maldição proferida por Noé contra Canaã, filho de Cam, num contexto em que a lei mosaica fala sobre as consequências da iniquidade dos pais até à terceira e quarta geração (Ex 20:5b). E mais ainda pelo fato da Bíblia justificar a conquista da terra dos povos cananeus pelos israelitas quando estes foram liderados por Josué.

Como escrevi antes, o homem passou a ter vergonha da nudez de seu corpo por causa do pecado, adotando o costume de se cobrir. E, desta maneira, flagrar intencionalmente a nudez de uma pessoa havia se tornado uma atitude de grande desrespeito, algo que jamais poderia ser praticado contra um ascendente na cultura do antigo Oriente Próximo. E aí, reanalisando o texto bíblico inicial, podemos perceber que Cam parece ter flagrado a nudez do pai por acaso O verso 22 do cap. 9º diz que ele viu seu pai nu sendo que a sua atitude posterior foi noticiar o fato aos seus irmãos.

Ora, cabe aqui as seguintes indagações: Por que Cam, ao invés de cobrir a nudez de seu pai, resolveu propagar a notícia perante os seus irmãos? E qual o motivo de apenas Sem e Jafé tomaram a iniciativa de vestir Noé?

Tenho pra mim que o pecado de Cam residia justamente na atitude de aproveitar-se da situação miserável em que o seu pai se encontrava ao invés de solucioná-la. Pois, ao divulgar a notícia da nudez de Noé para os seus irmãos, Cam estaria atentando contra a honra de seu genitor.

Baseando-me nesta passagem bíblica, consigo extrair um importante ensinamento que vai além das questões relativas à nudez física. Compreendo que se trata de uma atitude condenável expor as misérias pessoais de alguém, aproveitando-se de qualquer situação capaz de causar vergonha. Pois todas as vezes em que encontramos o nosso semelhante praticando algo equivocado ou desonroso, devemos mirar nos exemplos deixados por Sem e Jafé, abstendo-nos de fazer qualquer exposição do nosso próximo. Nunca podemos tentar tirar proveito do tropeço de algum parente, colega de trabalho, pastor ou irmão, pois é fundamental preservar a honra do outro, ajudando-o a se levantar. Afundar o outro, jamais!

Que possamos aprender com Sem e Jafé a ter compaixão do nosso semelhante em suas quedas tendo em mente que quem ama encobre.

Um ótimo descanso semanal a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se à gravura do pintor e desenhista francês Paul Gustave Doré, retratando Noé quando proferiu sua maldição contra o neto Canaã.

2 comentários:

  1. Rodrigo, a chave do motivo dessa narrativa você deu em "E mais ainda pelo fato da Bíblia justificar a conquista da terra dos povos cananeus pelos israelitas quando estes foram liderados por Josué". Essa era a justificativa primeira da construção da narrativa: conquistar Canaã por que lá nos primórdios, Noé já tinha amaldiçoado o povo cananeu. Evidentemente, não há prova histórica nenhuma de que um filho de Noé fosse o antepassado do povo cananeu, mas a justificativa era necessário.
    Isso não quer dizer que não se possa tirar do texto outros significados como você fez.

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    1. Caro Edu, como eu havia lhe respondido no Facebook, embora para os nossos dias a questão territorial dos israelitas já não importe tanto, valem os ensinamentos éticos que podem ser fundamentados ou ilustrados pelas belas narrativas do texto bíblico.

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