segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Sexo dos Anjos... Entrevista com Anja Arcanja - parte 1


Bem confrades, a pedido do Edu, nosso chefe mor, estou postando a 1° parte da entrevista que o Carlos convidou-me a responder, é um trabalho que tenho me dedicado muito e espero que o resultado final, seja valioso o bastante para que possa se transformar em um livro. 
postagem original feita em meu blog sob o link:




By Anja Arcanja e Carlos C. Cavalheiro


Muito se diz dos "sexo dos anjos" no sentido de que não tendo esses seres sexualidade, não haveria o que se discutir. Utilizando desse mote, e do uso no nick Anja Arcanja pela teóloga Rozana Madalena F. Souza, conhecida escritora, poeta, blogueira e controvertida e polêmica articulista, pensou-se numa entrevista com temas relativos à sexualidade, discutidos sob a ótica religiosa/teológica. A série de perguntas segue uma dinâmica fixa: cada tema possui três perguntas e três respostas. As perguntas serão todas feitas por mim, Carlos Carvalho Cavalheiro, historiador, teólogo, poeta e folclorista. As respostas serão todas dadas por Anja Arcanja.


Acompanhem conosco o andamento e o resultado deste inusitado trabalho.


Grato


Carlos C. Cavalheiro.

PRIMEIRO TEMA: COITO ANAL

Algumas traduções bíblicas, como a de João Ferreira de Almeida, muito popular no Brasil, traz o trecho de 1 Tm 1:10, no rol de pecados e profanações, a sodomia. Também na primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 6, versículo 10, aparece o sodomita como um daqueles que não herdarão o reino dos céus. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define a sodomia como “coito anal entre indivíduos do sexo masculino ou entre um homem e uma mulher”. Podemos, então, afirmar que sob a ótica bíblica o coito ou relação sexual anal é pecado?
(Carlos Cavalheiro)

Carlos, vou tentar responder sua pergunta de forma sucinta e objetiva, mas fugindo um pouco do que havia lhe proposto, isto porque você não especificou se tratar de relações apenas homoeróticas e sim de forma mais ampla e geral (tanto homo como hétero), mas isto é apenas por enquanto certo? Em chegando ao ponto de tratarmos apenas da questão homoafetiva, estarei abordando o tema de forma mais profunda, mas por enquanto, vamos começar assim, dando o pontapé inicial. Vamos lá?

Você cita o verso 10 do capitulo 1° da 1° carta a Timóteo que diz:
I Timóteo 1:10
10 - Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina,(…)

Mas deixa eu citar outro texto para que possamos entender um pouco mais do que se trata de fato:
I Corintios 6:9
9 - Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas,
10 - nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

Então aqui podemos observar uma sentença: não herdarão o reino do céu!
Bem, sua pergunta se refere a palavra sodomia ou sodomita, e se é pecado; pois bem, tomando por base a bíblia (mas especificamente a LEI MOSAICA), posso afirmar que sim! Sim, é pecado! Mas sendo pecado posso afirmar que todos que praticam tal ato estarão condenados e não herdarão o reino do céu? Sim! Posso dizer seguramente que todos que praticam tal ato, estão condenados, mas não só quem tais atos praticam, mas também os que praticam idolatria (seja ela qual for), adúlteros, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes, etc., ou seja, pela lei, todos estamos condenados, pois não há um justo sequer: Romanos 3:23
23 - Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;

Então se TODOS pecaram e destituídos estão, isto inclui sodomitas e fofoqueiros, ladrões e beberrões, idólatras e devassos, chicos e Franciscos! Mas então qual a solução para este entrave? Se estamos TODOS desligados, o que haveria de nos RELIGAR? O SANGUE DE CRISTO!

O Sangue de Cristo é o Re-ligare, e por intermédio deste sangue, somos justificados a alcançamos o beneplácito, o favor divino. Deus ao olhar para seus eleitos, não vê suas atitudes, não vê sua orientação sexual, não vê nossas falhas e pecados, mas sim, vê apenas o precioso sangue de seu Filho, sangue este suficiente para que Deus não impute sobre os que Ele escolheu, a sua Justiça, mas sim seu beneplácito. “Pois a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade por intermédio de Jesus Cristo”. (evangelho de João 1:17).  Este é o grande evento da Bíblia, toda a Bíblia aponta para este fato: a Verdade que se revelou em Cristo Jesus, Ele é a verdade. E por intermédio de seu Sangue, nos foi dada a graça e a lei se cumpriu em Cristo Jesus. Não necessitamos, portanto, estarmos sujeitos à letra da lei para nos achegarmos a Deus, não mais precisamos de sacrifícios. “porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras para que ninguém se glorie”. (Efésios 2:8,9). Nada podemos ou precisamos fazer para merecer a graça, pois graça é favor imerecido. Onde antes havia pecado, segundo a lei, hoje superabundou a graça. Deus vê todos na mesma condição, seja homo, seja hétero.  Mas o Sangue de Cristo nos purifica de todo pecado.

Bem, você poderá dizer que temos que procurar uma vida de “santidade e pureza” e que devemos nos abster de tais atos, porém eu replico: I Coríntios 11:6
6 - Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu.
(Não só este verso de 1Co-11 mas todo o capítulo)
Quem hoje segue este preceito a não ser em poucas igrejas? Este é o ponto! Devemos procurar ver e entender o contexto histórico-crítico e cultural e não apenas o contexto imediato em que foi escrita a Bíblia para termos de fato uma visão clara sobre a questão. Não podemos de forma alguma nos prender a textos sem nos basear no contexto para termos o pretexto de privar-nos em dar e receber prazer.
Lemos em Tito 1:15
15 - Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados.
O senhor criou nossos corpos e nenhuma parte deles é naturalmente imperfeita. Deus nos criou para que tenhamos vida em abundância e vivamos com prazer, sexo anal é apenas uma das maneiras de se chegar a este fim (seja numa relação homossexual ou heterossexual).

Não há mal nenhum em se praticar sexo anal, desde que haja respeito entre o casal (homo ou hétero) desde que haja o principal na relação: RESPEITO! Porque da condenação, já estamos livres.

RÉPLICA

[Carlos Carvalho Cavalheiro]: Entendo perfeitamente o seu ponto de vista, mas gostaria de aprofundar o debate sobre alguns pontos, especialmente aqueles que divergem da teologia tradicional. Você citou o livro de Romanos para falar sobre o pecado que atinge a todos. Pois bem, Paulo em Romanos inicia o debate dizendo que todos estamos destituídos da glória e que seremos condenados, porque todos pecamos.  Esse discurso ele continua nos capítulos seguintes e vemos em Rm. 5.12 a repetição: “assim a morte passou a todos os homens por isso todos pecaram”. Seguindo a lógica do seu discurso, Paulo diz que o pecado entrou no mundo por um homem (Adão) e faz a analogia com Cristo, o homem pelo qual o pecado foi tirado do mundo. Diz ainda que a graça superabundou sobre o pecado. Mas no capítulo 6, Paulo inicia assim: “Que diremos pois? Permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? “. Adiante, no versículo 6 do capítulo 6 do referido livro de Romanos, Paulo ensina que “o nosso velho homem foi com ele crucificado para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado”. Bom, sendo assim, e tendo dito o mesmo Paulo em outras oportunidades que a sodomia é pecado, não devemos entender que o homem que aceita Cristo como seu Salvador deva abandonar tal prática? Com relação a sermos salvos pela fé e pelo sangue redentor de Cristo, isto se coaduna com a teologia tradicional (basta se reportar ao mesmo livro de Romanos, 3:24 -27). Entretanto, um ponto básico da Hermenêutica diz que não devemos ver um assunto isoladamente, senão se comparada a tudo o que a Bíblia diz a esse respeito. Desse modo, Walter A. Henrichsen[1] afirma que uma doutrina não pode ser considerada bíblica a não ser que resuma e inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela. Com relação a doutrina de salvação, num contexto mais amplo, veremos que a fé e o sangue de Cristo dependem de outros fatores, como aceitação e arrependimento do pecador. O arrependimento, por exemplo, foi a tônica do discurso de Pedro no dia de Pentecostes (At. 2:37 – 38). Portanto, reconhecendo que a sodomia é uma prática pecaminosa de acordo com a Lei – e a Lei revela o pecado ao pecador (Rm 7.7), parece-me que justamente para que ele se arrependa – não haveria a necessidade, para se obter a graça da salvação, o arrependimento dessa prática? Por fim, se não há necessidade agora de observarmos nenhum preceito em relação ao pecado, por que Deus providenciou a expiação pela morte redentora de Seu Filho? Se o pecado seria tolerado depois de Cristo, qual foi a função de sua morte?



[1] HENRICHSEN, Walter A. Princípios de interpretação da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1997.

Réplica anja

Carlos, muito pertinente sua pergunta e sua avaliação, trazendo a tônica, a doutrina arminiana, que diz que devemos ser dignos de merecer a graça, algo contraditório, uma vez que a graça, é favor imerecido, concorda? Sendo assim, começo minha réplica citando alguns versos que trazem à tona a doutrina calvinista, esta sim, com muito mais embasamento nas Escrituras:

Salmos 139:16
16 - Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.
João 17:8,9
8 - Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste.
9 - Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.
Lucas 18:7
7 - E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?
Romanos 8:33
33 - Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.
Romanos 9:11
11 - Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)
Romanos 11: 5,6 e 7
5 - Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça.
6 - Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra.
7 - Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos.

Pois bem Carlos, note que citei vários versos procurando dar mais ênfase a carta aos Romanos, trazendo assim a tônica que nada podemos fazer para ser merecedores da graça e nem o arrependimento, somos capazes de ter se este não nos for dado por Deus: 
Atos 5:31
31 - Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados.
Ezequiel 36: 26,27
26 - E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.
Ezequiel 36:27
27 - E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.

Ezequiel 11:19
19 - E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne;

Tendo citado estes versos para mostrar nossa total incapacidade, pergunto, se Deus escreveu TODOS os meu dias em teu livro antes que nenhum deles existisse, como poderei fugir disto? Seria Deus tão injusto de por em meu coração um desejo em que, para estar em comunhão com Deus, devo abdicar de tal desejo?


NÃO!
Voltando um pouco mais, você me perguntaria: Mas você mesmo não me disse que sodomia é pecado? SIM! Pecado na lei mosaica, e para que serviu a lei? Simplesmente para mostrar nossa total incapacidade de cumprir os padrões pré-estabelecidos por deus, fazendo-se necessário,  o sacrifício vicário de Cristo.
Ou voltamos à Lei e a cumprimos na íntegra (sem tirar uma vírgula sequer), ou deixamos de fora toda a lei! Pois em se tentando cumprir a lei, falharmos numa vírgula sequer, seremos culpados por não termos cumprindo-a, entende? Então, como saber o que devemos cumprir e não devemos cumprir? Fácil! Tudo aquilo que me angustia a ponto de atrapalhar minha comunhão com deus, deve ser repensado, caso contrário, faça sexo anal, oral, homoerótico etc. e não carregue a menor culpa por isto.

Continuação da parte final da entrevista com o 1° tema na próxima postagem
Já está em  meu blog a 2° parte da entrevista, quem quiser conferir:

http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/07/parte-ii-o-sexo-dos-anjos-entrevista.html
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Carlos Carvalho Cavalheiro - Nasceu em São Paulo em 09 de maio de 1972. Formado em História, Teologia e Pedagogia. Pós-graduado em Gestão Ambiental e em Metodologia do Ensino de História. Professor de História na rede pública municipal de Porto Feliz. Escritor e poeta, escreveu os livros: "A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba"; "Folclore em Sorocaba", "Salvadora!", "Decobrindo o Folclore", "Scenas da Escravidão", "Histórias que não se contam mais - vol 1", "A História do Preto Pio e a fuga de escravos de Capivari, Porto Feliz e Sorocaba", "Histórias que não se contam mais - vol. 2", "O Peregrino do Caminho do Sol", "Moda da História de Sorocaba", "Vadios e Imorais", "O Mistério Revelado", "Memória Operária", "Folia de Reis em Sorocaba".
Foi co-diretor, juntamente com Adilene Cavalheiro, do documentário "Cantos da Terra".
Produziu os cds "Cantadores - o folclore de Sorocaba de Sorocaba e região" e "Passarela da Saudade" (Diolindo e Almeida).


Anja Arcanja é scritora e poetiza amadora e teóloga. Autora do blog “O mundo Da Anja” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/), um blog que conta com diversas parcerias e articulistas, voltado a discutir religião, filosofia, teologia, ateísmo, homossexualidade, sexualidade humana, entre outros temas de relevância; e do blog “Poemas e contos eróticos da Anja” (http://anjaarcanja.wordpress.com/), um blog de cunho erótico. Escreve ainda para os blogs “confraria teológica Logos & Mythos”, "Vida Sofista" e   “Fragmentos Ativos”, além de ter textos publicados em vários blogs e sites

sexta-feira, 27 de julho de 2012

PERDAS E GANHOS DOS CASAMENTOS ABERTOS

Reproduzo aqui, um artigo de Ricardo Donisete, escrito para o portal IG-SP, trazendo à tona a polêmica que envolve as questões sobre o poliamor, seus prós e seus contras. Alguns casais, tem saído do armário, talvez aproveitando o gancho da luta dos LGBTTT's por direitos, não sei se por isto, mas enfim, estão saindo do armário. Eu e o Anderson saímos faz algum tempo, isto nos trouxe alguns dissabores, mas nossa postura foi muito mais pra mostrar que, ao contrário do que muitos pensam, quem vive um relacionamento aberto, não é devasso, não come criancinhas, e são pessoas tão ou mais normais como qualquer outra. Vemos no relacionamento aberto uma opção de reavivar a chama da paixão que, com o passar do tempo, muitos casais deixam que se apague e um dos motivos que podem fazer com que se apague esta chama, é a infidelidade. Gostaria de discutir o tema nesta sala e espero que seja um debate proveitoso.


União mais honesta ou imaturidade? As opiniões de Regina Navarro Lins e Flávio Gikovate sobre o poliamor






Com uma admirada relação de 18 anos com a atriz Julia Lemmertz, o global Alexandre Borges, de 45 anos, causou polêmica em entrevista recente ao declarar que o casamento aberto pode ser sim uma opção de relacionamento. Para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, relações que abrem mão da exclusividade sexual são tendência para o futuro. Mas qual futuro é esse? “Não é possível fazer uma previsão precisa, em 10, 20 ou 30 anos”.

Na opinião de Regina, os modelos tradicionais de relacionamento não estão dando conta de atender as necessidades de grande parte da população. “O número de pessoas infelizes, insatisfeitas e frustradas no casamento é imenso. Por quê? Porque nós vivemos sobre o mito do amor romântico, que prega várias mentiras: que as pessoas vão se transformar numa só, que nada mais vai lhe faltar, que o amado vai te completar em tudo, que quem ama só tem desejo pelo amado, não tem desejo por mais ninguém. É calcado na idealização”, analisa a psicanalista. Flávio Gikovate, psicoterapeuta e autor de vários livros, entre eles “Uma história do amor... Com final feliz” (MG Editores), discorda da ideia de que o casamento aberto possa ser cada vez mais comum. “Em minha experiência clínica e numa visão realista, não vejo os casais buscando esse tipo de contexto. A infidelidade exclusivamente sexual continua não sendo interessante para a maioria das mulheres, de modo que muitas acabam se envolvendo sentimentalmente. O envolvimento sentimental fora do casamento é sempre problemático e com frequência acaba sendo causa de separação”, aponta ele. “O casamento aberto é uma tentativa de conciliar o aconchego romântico com a liberdade das pessoas solteiras, e isso não creio que venha a funcionar. Não creio sequer que venha a ser ansiado pelas pessoas mais vividas e maduras”, completa.


A ideia do casamento aberto floresceu de maneira mais evidente nos anos 60 e 70, como uma das inúmeras consequências do surgimento da pílula anticoncepcional. “A ideia era dar liberdade sexual especialmente para as mulheres e para quem já estava casado e não havia tido experiências sexuais com outros parceiros antes do casamento, que acontecia muito mais cedo e com as moças inexperientes”, explica Gikovate.


Na época, ficaram famosas as chamadas “Festa das Chaves”, bem representadas no filme “Tempestade de Gelo” (1997), estrelado por Kevin Kline e Sigourney Weaver. Nessas ocasiões, os casais colocavam as chaves dos seus carros em um pote. No final da noite, as mulheres pegavam um chaveiro qualquer no recipiente e passavam a noite com o dono dele, que obviamente não poderia ser o seu marido.

Apesar de aberto, o casamento que permite relações extraconjugais também tem regras. “Toda relação é regida por códigos, que podem ser verbalizados ou não. As pessoas combinam o que elas querem pra vida delas. Algumas pessoas exigem que o outro conte. Eu acho uma bobagem, você tem que ter um espaço só seu, que o outro não entra. Eu já vi casais que dizem: ‘você só pode transar uma vez com cada pessoa’”, conta Regina. “Às vezes não precisa dizer ‘não gosto disso ou daquilo’, basta um comentário sobre um filme que você viu, o jeito que você conta, o sorriso que você dá. O outro vai percebendo o que você espera da relação e o que não espera”, prossegue a psicanalista.

“A regra é que não pode haver envolvimento emocional. Isso é curioso, pois não é coisa que se decide”, comenta Gikovate, jogando “água fria” na ideia do poliamor. “A monogamia não é natural e isso parece impressionar muito algumas pessoas. Acontece que quase tudo o que fazemos é antinatural: aprender a não urinar na cama durante a noite, respeitar as regras básicas de etiqueta”, continua o psicoterapeuta. “Outro aspecto é a dificuldade atual de homens e mulheres de aceitarem limitações ao pleno exercício de seus desejos, coisa própria de uma cultura que não valoriza esforços e sacrifícios e está sempre muito voltada para o prazer – como se todos tivéssemos nos transformado em crianças mimadas que não podem ser frustradas ou contrariadas”, finaliza.

Na defesa das relações múltiplas, Regina diz que as pessoas só precisam responder a duas questões quando estão numa relação. “As pessoas não têm que se preocupar se o seu parceiro transa ou não transa com alguém. Homens e mulheres só deviam responder: Me sinto amado? Me sinto desejado? Se a resposta for sim para as duas, o que outro faz quando não está comigo não me diz respeito, não é da minha conta. Se as pessoas entendessem isso, iam viver muito melhor”, sentencia.

segunda-feira, 23 de julho de 2012


PAGAM PARA ASSISTIR E AINDA DELIRAM COM A VIOLÊNCIA

Por Guiomar Barba

O filme “Menina de Ouro” com certeza comove o coração das pessoas que simpatizaram com a figura lutadora, honesta, sofrida do personagem Maggie. Os golpes com os quais ela quase imobilizou sua rival levaram seus torcedores ao delírio. Emoções semelhantes são despertadas também nos corações da torcida, que escolheu a maquiavélica prostituta Urso Azul.

É evidente que se o personagem Urso Azul houvesse lutado conforme as regras, sem fraudulência, não haveria “justificativas” que explicassem o delírio das multidões que não discutem o preço dos ingressos, a não ser que a violência só dói quando é contra a nossa própria pele ou contra a daqueles que realmente amamos.

Uma evidência palpável e lúgubre tivemos em uma reportagem do Fantástico no último domingo, dia nove, na entrevista com as atrizes Letícia Sabatella e Christiane Torloni. Algumas pessoas foram abordadas na rua sobre a violenta surra dada pelo personagem Melissa no personagem Ivone. Lembro-me apenas de duas pessoas que foram contra a violência, no entanto, algumas delas fizeram entusiasmada apologia à atitude da agressora; outras preferiam que a violência fosse contra o marido traidor, “mas que houvesse vingança.” No entanto, se alguém deseja mesmo saber mais sobre o quanto o ódio velado ocupa o coração de muita gente e está pronto a jorrar na hora em que acharem “justo”, dê uma passadinha no site indicado abaixo, veja o vídeo, mas não deixe de ler os comentários, talvez você não possa acreditar no sadismo que transborda do coração dos que opinam sobre o assunto. É estarrecedor... 

No dia a dia os nossos ouvidos são cheios através da mídia, amigos, vizinhos, da violência que banha de sangue as ruas; do lamaçal que forra o planalto e os passos da máquina governamental. Toda esta podridão provoca uma indignação que vai corroendo as nossas esperanças de um mundo melhor e mais justo e confirmando cada vez mais as profecias de que “Por se multiplicar a iniquidade o amor de muitos esfriará”. (Mateus 24.12).

Grande parte das mesmas pessoas que se revoltam diante das injustiças sociais grita e esbraveja nas arquibancadas dos ringues da vida: maaata! Acaaaaaba com ele(a)! Pula, espuma, fica histérica, e se o seu favorito ganha, volta feliz, comentando com o máximo prazer sobre as cenas mais sanguinolentas. Uma desconexão própria de pessoas que ainda não foram resgatadas, restauradas à imagem e semelhança de Deus, que é contra toda classe de violência e destruição. É o resultado da separação do homem com O Cristo, que soprou paz sobre seus discípulos.

A história da humanidade está marcada pela violência desde os tempos mais remotos. Lemos na bíblia, entre tantos outros, um apelo desesperado do profeta Habacuque, quando na sua angústia pergunta a Deus: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e Tu não me escutarás? Gritar-Te-ei: violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita. Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida. (Habacuque 1.2-4).

Em conversa com o profeta Miquéias, Deus, que vê todos os homens na face da terra, sentencia: “Ai daqueles que, no seu leito, imaginam a iniquidade e maquinam o mal! A luz da alva, o praticam, porque o poder está em suas mãos. Se cobiçam campo, os arrebatam; se casas, as tomam; assim, fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança. (Miquéias 2:1,2).

Encontramos tantos Neros na vida, pondo seus polegares para baixo recostado em pétalas de rosas, enquanto os que labutam para que “o juízo corra como as águas; e a justiça, como ribeiro perene,”(Amós 5.24) são chacoteados, reputados como homens frágeis, desprezíveis.
Quando vier o grande dia do Senhor, a justiça e o juízo prevalecerão sobre a terra! Portemo-nos como “débeis e desprezíveis” por agora, e vivamos em paz com a nossa consciência até que venha o Grande Juiz de toda a terra.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Assim Na Terra Como No “Céu”



Por  Levi B. Santos




Quis o destino que o patriarca e a matriarca da grande família partissem juntos dessa, para outra. Os amigos e os familiares do casal de velhos, depois de muitos entreveros, concordaram em fazer cerimônias fúnebres distintas, obedecendo aos ritos religiosos de cada um deles. É que o senhor Celestino de Jesus era um renhido protestante seguidor do Filho de Maria, e a senhora, Maria Anunciada da Conceição, uma católica devota de Nossa Senhora.

A um simples olhar, denota-se que a ancestralidade cultural dos pais dos defuntos está bem presente nos nomes que eles deram aos seus filhos, nascidos quase que na mesma época (1924 e 1926).


O gerente da maior empresa funerária da cidade, como sempre costumava fazer, perguntou ao familiar (contratante do enterro), qual era a religião que o casal professava, para preparar o ambiente de acordo com as tradições e rituais próprios dos falecidos. Ficou pasmo e quase sem fala, quando ouviu que deveria preparar dois velórios: um para o católico e outro para a protestante, em um só salão, ainda mais com a alegação extravagante de que as cerimônias seriam simultâneas, pois os velhos, nunca tinham deixado de viver juntos, se separando apenas nas ocasiões dos seus obsessivos cultos religiosos.

Depois de pedir um tempo para pensar, o vendedor de enterros chegou finalmente a uma genial solução: cobraria um preço mais alto e inovaria a indumentária de sua funerária, ao adquirir um biombo (espécie de cortinado retrátil de PVC na cor dourada) para separar os dois ambientes “pré-celestiais”, tudo em conformidade com os ricos castiçais e candelabros banhados a ouro de sua empresa.

Todos nós sabemos que um fato inusitado como esse, chega rapidamente aos ouvidos da população. E foi justamente o que aconteceu. 

O prefeito da cidade, eleito pelas duas maiores comunidades religiosas rivais, temendo grande tumulto por ocasião da dupla cerimônia fúnebre agendou uma reunião de urgência com sua equipe multi-denominacional de fiéis. Chegaram então a um consenso, afinal: nas cerimônias simultâneas nem o padre rezaria “Santa Maria, rogai por nós”, nem o pastor falaria que “só Jesus é o único intercessor entre Deus e os homens”. Ficou acertado, também, que uma história bíblica não poderia, em nenhuma hipótese, ser ventilada na dupla encomendação dos mortos: a parábola que mostra o pobre mendigo, Lázaro, sendo recebido no céu e um rico avarento nas chamas do inferno, gritando para que lhe molhem a língua. Ainda, duas passagens da Bíblia não poderiam ser tocadas: O pastor estaria proibido de ler uma parte que seus fiéis adoram muito ― àquela que os evangelistas atribuem a Jesus −, numa ocasião em que estava sendo importunado por sua mãe, quando assim falou veementemente: “Mulher, que tenho eu contigo?!”. O padre, por sua vez, estaria terminantemente proibido de citar a parte inicial do “Magnificat”: “Bendita és tu entre as mulheres”.

Quanto ao uso dos símbolos religiosos não houve questionamentos: o defunto protestante portaria a Bíblia sobre o pedestal funerário atrás do seu caixão, e a católica morta exibiria o Cristo crucificado num altar acima de sua cabeça. De maneira nenhuma seria permitido a cruzada, isto é, a passagem dos adeptos da Mãe de Deus  para o outro lado da cortina, reservada aos fieis do Filho de Deus, e vice-versa.


P.S.:
Dois dias depois do litígio “funéreo-eclesiástico”, tomei conhecimento de que blogueiros hereges tinham sido expulsos da cidade, por portarem a frente do prédio dedicado a velórios, uma faixa com um tal de “Pai Nosso Empresarial Gospel”, que apesar de não refletir a vontade de Deus, foi até considerado justo por alguns, por refletir exatamente a vontade do homem, tanto na Terra como no Céu. Para conferir esse “Pai Nosso” extravagante, mas real, basta clicar aqui





domingo, 15 de julho de 2012

O legado de Eva


Por Ricardo Lemgruber


Naquela manhã, as coisas estavam estranhamente diferentes. Depois de dias de trabalho muito fecundo e de um descanso merecido e regozijado, o Criador se viu diante de um dilema: manter as coisas como estavam e, do seu lugar, viver na contemplação da obra criada, ou, em lugar disso, mergulhar mais profundamente na criação e com ela interagir pessoalmente.

Foi o que fez: pela primeira vez, saiu de si e, esvaziando-se, penetrou no mundo Criado e armou sua habitação entre tudo que fora por suas mãos moldado e vivificado. Descobriu-se em meio a uma névoa densa e perdida por entre os vales e montanhas. Por mais que procurasse, não conseguia enxergar nada entre si e o horizonte, nada além do sereno madrigal que esconde e revela paulatinamente o que sob si adormece.

Nesse instante, talvez acocorado e sentindo o cheiro da terra molhada, passou as mãos por sobre o solo e percebeu que estava na hora de um gesto último: modelou um indivíduo profundamente diferente de tudo que havia sobre a terra recém nascida, diferente de toda ave e todo réptil, diferente de todo mamífero e todo primata. Mas, curiosamente, intimamente a eles ligado e dependente. Com a argila úmida, moldou um ser de pé e com olhos mirados avante. Um indivíduo com o cérebro proporcionalmente maior e mais desenvolvido. Equipado com polegar invertido, capaz de pinçar, se movimentado com o indicador; com pernas fortes e bem articuladas, capazes de dar estabilidade e mobilidade; com aparelhos orgânicos estranhamente capazes de adaptação e sustento.

Não bastasse toda essa sofisticada máquina orgânica e tão prenhe de possibilidades, viu o Criador que lhe faltava o essencial. Viu que não haveria diálogo e era isso que mais interessava naquele momento. Todos – mesmo o Criador – buscamos sempre por comunicação. Por mais que persigamos a singularidade que nos dá a garantia de nossa individualidade, nunca deixamos de desejar ser comuns com o que e com quem nos cerca. Foi nessa ambiguidade perene que o Criador soprou o vento que Lhe alimentava desde a Eternidade e fez com que penetrasse pelas narinas daquele primeiro indivíduo, que abriu os olhos, os ouvidos, a boca e, talvez, tenha ameaçado os primeiros passos.

Assim foi o Natal de Adam. Nascido das mãos do Criador, era ambivalentemente terreno e divino. Terreno como todos os seus irmãos vegetais e animais, produzido com o que a terra tem de vivo em si e que se entrega tão generosa e potentemente. Divino como o Criador que desejava ardentemente alguém com quem se comunicar.

O Homem é Adam porque é filho de adamah (a terra úmida cheia de vida), mas é nephesh porque é filho do Criador, doador de toda Vida que há. Estava claro, agora, o que se queria dizer com “à nossa imagem e semelhança”; imagem e semelhança da Terra e de Deus. Esse somos nós, filhos da Terra e filhos de Deus!

Isso feito, o que parecia terminado se mostrara apenas começando. Num gesto pedagogicamente paterno, o Criador passou a ordenar o mundo criado e a ele dar a forma de um jardim em que havia árvores de todos os tipos e serventias. Árvores para apreciar, para comer, para aprender e para viver. Cada uma em seu canto, cada uma com sua particularidade. O Homem foi colocado no meio disso tudo e a ele foi confiada a missão de guardar o Jardim. Na planície (éden) espalhada, o Homem se viu com a nobre tarefa de nomear os bichos e plantas, além de regar dia-a-dia as pequenas mudas para fazerem-nas crescer e frutificar; com a missão árdua, mas utilmente digna, de domesticar e criar animais.

Foi nesse cenário: Criador, mundo criado e Homem semelhante ao Criador e ao mundo criado que se percebeu que algo estava, por incrível que pareça, incompleto. A obedecer uma lógica cartesiana, nada estava faltando; mas viu Deus que não era “bom” que o Homem ficasse só. Ainda que semelhante ao Criador e semelhante a tudo que o cercava, Adam estava, sim, só.

Foi aí, no instante da consciência da solidão, que Deus fez Adam dormir profundamente e dele retirou uma costela do peito e, da sua costela, fez emergir Eva e os entregou um ao outro. Viram-se nus, homem e mulher; e, ambos desenvergonhados, entrecuzaram-se os olhares e fizeram-se mutuamente seus, um do outro! Afinal, eram osso dos seus ossos e carne de sua carne. Eram como um só!

Juntos encontraram-se pelo Jardim e, no Jardim, gozavam da presença do Criador, como que num mundo em que Deus e Homem e Mulher são todos uma coisa só, indistintamente.

Lido dessa forma, o capítulo dois do livro de Gênesis nos faz crer que de Deus fez-se o Homem e, do Homem, fez-se a Mulher. Numa linha sucessória que garante ao macho a supremacia sobre a fêmea e que a coloca num patamar de igualdade relativa; igualdade porque é osso e carne do homem, mas relativa porque é dele criada e para ele dedicada.

Pensado numa cultura fortemente patriarcal, Gn 2 ajuda a legitimar o lugar do pai na casa. Dá à mulher um lugar secundário, embora cheio de afagos e juras de reciprocidade.

A questão, todavia, é que Gn 2 não termina no seu último versículo. É preciso ler Gn 3 para compreender melhor as coisas. Não vale, entretanto, lê-los como crônica da história; antes, como narração mítica, que faz compreender as coisas pelo seu avesso e por suas entranhas e não, simplesmente, pela superfície do texto.

Das muitas árvores no Jardim, havia uma proibida pelo Criador. Tratava-se da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ao que parece, até esse momento, Homem e Mulher não faziam escolhas e não decidiam por onde caminhar. Sem conhecer e distinguir entre bem e mal, a vida não passava de uma sucessão de dias e noites, indiscriminadamente dirigida pelo instinto.

E aí a história narra a entrada em cena de uma serpente que convencera Eva de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e esta, Eva, convenceu Adam a comer também do mesmo fruto. É muito curioso ler Gn 3,6 porque Eva viu que aquela árvore era boa para se comer. Afinal, era o fruto que os faria saber diferenciar o bem e o mal!

Não se pode fazer julgamento de valor nesse momento, afinal ainda não sabiam distinguir o certo do errado. O que é possível é fazer um juízo de fato: diante deles havia uma árvore que lhes daria o passe de entrada no mundo da Ética. Comeram!

A primeira reação foi enxergarem-se nus e, como consequência, cozeram vestes para se guardarem mutuamente. Em seguida, descobriram as dores do parto e do trabalho. Por fim, sentiram-se desconfortáveis com a presença do Criador no mesmo Jardim e se esconderam.

Embora a Tradição secular da Igreja tenha nos ensinado que Gn 3 trata de uma queda, os versículos 22 e 23 revelam algo surpreendente: “Eis que o Homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente: o Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.” Não fomos expulsos porque erramos ou desobedecemos, mas porque chegamos muito perto do Criador, mais perto do que fora planejado.

Considero que a Criação tenha encontrado seu ponto crítico não em Gn 1,26 ou em 2,7, quando Homem e Mulher foram criados à imagem e semelhança do Criador, antes, em Gn 3,6-7 quando Eva lançou-se corajosamente a experimentar daquela árvore e aprendeu a escolher, distinguir e decidir. Deixamos de ser simples imagem e passamos a ser como o próprio Deus, quando Eva nos incentivou a conhecer o bem e o mal e deles fazer distinção e por eles guiar nossas escolhas e decisões.

Penso que Gn 2 e 3 devam ser lidos de trás para frente. O que vem primeiro é a vida tal como ela é. A vida do trabalho, da dor, das alegrias e das decepções; a vida do parto, da terra seca e dos abrolhos. Depois é que vêm as tentativas de entendimento das coisas. Primeiro vem a vida, depois vem o texto.

Creio que o Israel de quatro ou cinco séculos antes da Era Comum estava em busca de respostas para o drama da vida. Talvez tenham visto que a vida é o que é por conta do imponderável que transcende a alçada de interferência humana (daí a majestade do ato criador de Deus), mas, também, e não menos importante, das escolhas feitas na própria vida por homens e mulheres de carne e osso.

É muito interessante que numa sociedade patriarcal, os autores de Gênesis tenham visto no encontro homem-mulher as razões de tudo: do mal e do bem. Tenham descoberto que foi em nome do encontro que homem e mulher decidiram ousar e arriscaram dar um passo adiante.

Eva nos ensinou que Adam sozinho não ousaria largar o Éden. Foi Eva que nos encorajou a enfrentar a natureza, a cultura, o trabalho, a família e a sociedade e nos ensinou o que significa a palavra Ética, porque, pela primeira vez, nos fez discernir entre o Bem e o Mal.

Talvez, então, fosse o caso de pensar com categorias que só mais tarde passariam a fazer sentido pleno: Deus que se fez Homem; Deus que se fez Mulher! Na Criação, já há, antevista, a Encarnação; o Verbo se fez carne e costela, se fez homem e mulher.

A exemplo do que aconteceu com Jesus – em Mc 7,24-30 (quando a mulher siro-fenícia o fizera ver que o amor de Deus supera toda fronteira e alcança a todos, indiscriminadamente) – Eva ensinou a Javé que a criação queria mais para si do que mera semelhança com o Criador; o ser humano exigia autonomia, criatividade e, por fim, liberdade.

E Deus que pensava, no início, em contemplar a obra criada e sua beleza, agora estava eternamente envolvido com as escolhas humanas, alegrando-se e sofrendo com as mesmas; por isso, nunca mais nos abandonou!


OBS: A ilustração acima, eu, Rodrigo Phanardzis Ancora da Luz, extraí do acervo da Wikipédia. Trata-se do quadro Adam und Eva do pintor alemão renascentista Lucas Cranach, o Velho (1472–1553)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Em Debate

Então,


como o Kilim não vai postar (está em viagem interplanetária, conforme noticiado), eu sugeri no Face que discutíssemos um tema aqui ao invés de colar um texto dele(já que ele não estará aqui para comentá-lo). Como alguns confrades concordaram(vocês sabem que a Anja criou um grupo no Face deste recanto?) mas até agora não sugeriram nada, vou então usar o meu poder divino e  sugerir um tema.

Como esses dias li alguns textos sobre  pessimismo, morte, sentido da vida, vazio existencial e principalmente, um texto falando do filósofo romeno Emil Cioran, conhecido como o "Rei dos pessimistas", "um cético a serviço de uma civilização em declínio", "teórico do suicídio", quero colocar na mesa esse tema para debate:


Afinal de contas, a vida vale a pena ser vivida apesar de todos seus dissabores, falta de sentido, tragédias pessoais e coletivas, violência? Há esperança depois da "morte de Deus"?


Taí um tema que o Edson e o Marcinho vão gostar de discutir.
Para quem nunca ouviu falar de Cioran(como eu mesmo), deixo abaixo algumas das máximas do seu pensamento destruidor de esperanças e contentamentos.


"Só vivo porque posso morrer quando quiser:
sem a ideia do suicídio já teria me matado há muito tempo"


"Objeção contra a ciência: este mundo não vale a pena ser conhecido"


"O paraíso é a ausência do homem"


"A consciência é bem mais que um espinho, ela é o punhal na carne"


"Acredito na salvação da humanidade, no futuro do cianureto..."


"Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato"





domingo, 8 de julho de 2012

DIÁLOGO COM BASE NO MÉTODO HISTÓRICO-CRÍTICO

                            



Por Donizete


Este texto abriga um diálogo entre eu (Doni), a Mari e o Edu, publicado originalmente na forma de comentários de um texto em meu blog.  O leitor detalhista poderá notar algumas frases desconexas, falhas na estruturação textual e até erros ortográficos. O que é normal por tratar-se de uma conversa casual e despretensiosa entre nós. A princípio pensei em fazer algumas adaptações, mas de comum acordo e com a intenção de preservar a originalidade do que pensamos naquele momento, preferimos não editar nada em nossas falas.

MARI. Gostaria de lhes fazer umas perguntas: sobre a interpretação bíblica, sempre soube que não se pode utilizar um versículo isoladamente para fundamentar uma doutrina. Mas qual deve ser o contexto? Um texto? Um capítulo ? Um testamento? Pois a Bíblia é um livro que é uma coletânea. Uns são proféticos, outros não. Uns canônicos, outros apesar de não canônicos também são utilizados como referência não é? Então qual é o contexto? A Bíblia como um todo? É sempre assim?

 DONI. Um dos problemas que surgiram após a divisão da Bíblia em capítulos e versículos, foi exatamente ao acenturar a possibilidade de se desconectar fragmentos de um texto, e particualizar uma interpretação que não estava originalmente no pensamento do autor. Infelizmente isso aconteceu com frequência. Por isso que uma das regras elementares da hermenêutica, é de que o contexto (macroexegese) deve ter a prioridade no entendiemnto das escrituras. Como não sou defensor da inerrância, não acredito que a Bíblia a si mesmo interpreta, como advoga alguns. Existem elementos da história e da ciência, que precisam ser adicionados para uma melhor compreensão. O entendimento do contexto literário e histórico também é fundametnal, pois muitos textos tiveram valor apenas temporal. Considerando também que todos os escritores bíblicos viveram num mundo pré-científico, e seu conhecimento do mundo era primitivo, segundo nossos padrões. Então não podemos adotar a cosmovisão deles e a partir dela buscar o modelo para nossa realidade. Outra regrinha básica da hermenêutica, é de que, se dois textos parecem contradizer um ao outro, o mais claro deve lançar luz sobre o ambíguo.

EDU:  Eu não seguiria essa regrinha não...Eu diria que quando dois textos bíblicos se contradizem (e existem centenas deles nessa situação) o problema é a diferente visão de cada autor sobre a questão tratada.

MARI:  Sabe que fiquei pensando em uma coisa. Se a Bíblia é um livro inspirado e seu objetivo é unidade, já que segundo dizem, ela é a única fonte que devemos adotar quando o assunto é Deus, não é uma contradição que haja tanta contradição? Pois até mesmo aquela questão sobre a imagem que podemos formar de Deus, a Bíbia apresenta duas versões: no velho testamento Deus iracundo, no novo, Deus pai bondoso. De um lado, um Deus que tudo faz por amor, do outro um Deus que é segundo dizem alguns "fogo consumidor". Então, essa história de texto mais claro não é subjetivo também?

DONI: O Antigo Testamento foi escrito numa conjuntura em que a religião era estatal. Javé era Deus dos exércitos, guerreiro e vingativo. A figura do diabo ainda não exista. Não era considerada naquele contexto. O fator causalidade era considerado de forma acentuada no pensamento hebreu. E boa parte desse pensamento continuou vigente na igreja nascente. Lembra de Ananias e safira, e o castigo imediato sofrido por Herodes? Ambos os casos relatados no livro de atos. A questão é que os escritores atribuíram a Deus a responsabilidade inclusive por estes atos.  Mas na verdade Mari, Deus sempre foi o mesmo! A conjuntura é que determinava quais seriam seus atributos mais atuantes, a partir da interpretação de cada escritor. Lembra que na idade média, a própria igreja colocou uma armadura em Jesus e o convidou para as cruzadas? É uma questão de cosmovisão!

EDU: Destaco sua pergunta: "não é uma contradição que haja tanta contradição?" Eu te respondo, não! Seria esquisito sim, se uma coletânea de textos religiosos escritos num período de 1600 anos se harmonizassem perfeitamente uns com outros. Aí sim, teria algo de muito errado. As contradições da Bíblia são o reflexo do pensamento e da fé do Israel antigo; os escritores bíblicos não eram anjos e sim, homens, com todas as suas contradições, ambiguidades e visões particulares do mundo e de Deus. Num cenário assim, o contraditório é esperado e até desejável. Logo, esqueça daquelas teorias ortodoxas da "inerrância bíblica" e da "inspiração plena ou verbal".

MARI. Eu já esqueci!!! rs... E meu questionamento foi feito porém sob essa ótica de quem acredita nisso piamente. Como acreditar na inerrância diante desses dados? Isso que você falou é o que eu acredito também, já falei isso em outros comentários. O que quis saber é como que a teologia afirma que a bíblia foi inspirada por Deus, e nesse caso é a verdade absoluta, como ela explica essa contradição e consegue afirmar tudo isso? A partir de quando essa idéia acompanha a igreja? Foi logo que a bíblia foi compilada? Foi por causa de algum dado histórico ou naturalmente se aceitou que o texto bíblico é a verdade sobre Deus? Enfim, em qual momento a bíblia foi santificada como a quarta pessoa da trindade?

EDU. Sou um questionador dessa confissão. Na verdade, Deus nunca falou uma única palavra do que está escrito na bíblia, cada escritor, profeta, rei, soldado, pescador, farizeu, etc, lhe pôs as palavras em sua boca conforme recebia do próprio inconsciente. Os fundamentalistas, autores da doutrina da inerrância, costumam fazer verdadeiros exercícios para conciliar as contradições (ou cosmovisões) diferentes da bíblia, já que eles não aceitam que haja tais cosmovisões. Até hoje os conservadores evangélicos gostam de citar textos do AT para justificar algum padrão moral, se esquecendo de levar em conta todo o contexto em que tais livros foram escritos. E digo mais, muita coisa no NT também segue o mesmo caminho, ou seja, textos que nada têm a nos dizer se forem lidos literalmente. Relativizar ensinos bíblicos é necessário para não se cair em anacronismos. Mas os ortodoxos se arrepiam quando ouvem dizer que a bíblia deve ser relativizada e continuam tomando para si (e querendo impor aos outros) ensinos que já não tem nenhum valor prático para o homem pós-moderno.(e até mesmo para a prática de fé do homem pós-moderno)
Por outro lado, quando descobrimos que a bíblia possui uma camada de leitura mais profunda do que o literal que está na superfície (como fazem e fizeram muitos rabinos e cabalistas), então descobriremos de fato, tesouros escondidos no texto bíblico.

DONI. Com a reforma protestante, um lema ganhou destaque: “sola escriptura”, mas o conceito de inerrância como conhecemos hoje, só ganhou força mesmo no início do século XX, com o advento do movimento fundamentalista, que tentava com isso conter o avanço do pensamento liberal. Mas este pensamento retrocede no mínimo ao momento histórico em que foi fechado o Cânon do novo testamento! Entretanto, ainda que muitos não aceitem, existem controvérsias sobre o resultado dessa deliberação. Alguns estudiosos supõe que pode ter havido falha, tanto na seleção como no critério para concluir a canonicidade de um escrito. Tanto é verdade que Martinho Lutero depreciava as carta de Tiago, Hebreus, e até o Apocalipse. Ele colocava em cheque a canonicidade destas epístolas.
Pode ser que algum livro de autoridade tenha ficado de fora da lista? Só os fundamentalistas admitem que não.

EDU. Existem narrativas bizarras sobre a forma de se chegar ao cânon do NT. Uma dela nos diz que os evangelhos escolhidos foram quatro, por que dentre outras coisas, quatro eram os pontos cardeais...(citado por Voltarie) imagina se dá para levar essa construção canônica como algo inspirado pelo espírito santo?

MARI. Edu, não seja MALÉFICO! rs.. Eu pensei que houvesse motivos mais profundos para escolha dos livros. Outra coisa, se Deus escolheu os simples, por que deixaria um livro com tanta complexidade? Veja que para fazer uma interpretação, é preciso fazer certas análises e conhecer o contexto histórico e etc...

DONI. A premissa de que devo ser capaz de abrir a bíblia e compreendê-la porque ela é a palavra de Deus é falha. Essa ideia foi concebida pelos pietistas, que criam na clareza das escrituras. Para eles as escrituras era simples o bastante para que uma criança a compreenda. Veja que os pietistas criaram suas próprias doutrinas, se isolaram por serem diferentes, resultado: O movimento não resistiu por muito tempo. O problema começa Mari, com a simples constatação de que a Bíblia não foi escrita na nossa língua. Nesse primeiro estágio já nos tornamos dependentes da credibilidade dos tradutores. Aí que se encaixa a tarefa do teólogo, que diga se passagem é complexa demais! Porque à Bíblia não é uma teologia sistemática, e nem nos apresenta exposições doutrinárias organizadas. Cabe aos teólogos esse trabalho.

EDU. Estes devem andar de  mãos dadas na desconstrução da dogmática.

sábado, 7 de julho de 2012

Ave, Maria!


Amigos confrades, 


Depois de mais uma rodada de boas conversas, chegamos a mais uma "Sessão nostalgia", e desta feita, essa parada "do coração" (ainda que nosso confrade Mirandinha não o tenha), terá um clássico da devoção católica: Ave, Maria! cantada por Fafá de Belém por ocasião de uma das visitas do papa João Paulo II ao Brasil.



Essa é para o Levi(que sugeriu), e para nossos confrades católicos, GIL E JOÃO.


Coroando a postagem, uma poesia da nossa confrade MARI(que finalmente resolveu estrear na Logos e Mythos como autora e não só como (perspicaz) comentadora.







Maria, Mãe e Filha de Deus




Dizem alguns: 
Deus não é mãe
Mãe é Maria
Se Deus fosse mãe  não daria 
Seu filho pra morrer por ninguém

Jesus, Deus encarnado
Morreu crucificado
Tendo aos pés a mãe maria
Que por ele morreria
Mesmo tão necessitada!

Da cruz Jesus a mirava
Com olhos de salvador
Do chão ela fitava
O filho -seu grande amor

Deus do céu esconde a face
Do que a mãe certamente via?
Jesus padeceu na cruz
No chão padeceu Maria!

Mas quem estava ao redor
Diz que ela não teve medo
Jesus antes de partir
Compartilhara um segredo:

Mãezinha, na cruz sou eu: Deus!

E ela de mãe fez-se filha
Agora compreendia
Que Deus sabia ser mãe
E se entregara por  Maria.

(Mariani Lima)






terça-feira, 3 de julho de 2012

“PRO MULTIS”


“PRO MULTIS”


Os católicos que participam das Santas Missas se deparam na Consagração com a seguinte passagem, independentemente da Oração Eucarística proclamada: “Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna Aliança, que será derramado por vós e por TODOS para a remissão dos pecados”.


O advérbio “todos” não está nem consoante a Tradição da Igreja e muito menos consoante a Bíblia. Foi uma interpretação muito forçada a reboque do infeliz Concílio Vaticano II, que por força de um ecumenismo desmedido, procurou atrair para o redil da Igreja outras denominações com resultados desastrosos, o que qualquer espírito minimamente cauteloso concluiria que muito mais do que agregar ajudaria a dispersar as ovelhas do rebanho.


O fato é que os católicos mais ortodoxos sempre criticaram esta indevida interpretação, firmes que são na “Missa de Sempre”, instituída pelo Concílio de Trento pelas mãos de Sua Santidade, o Papa São Pio V, onde no lugar do advérbio “todos”, sempre se proclamou “muitos”.


Em meados do mês de abril o Santo Padre Papa Bento XVI encaminhou uma carta à “Conferência Episcopal Alemã” a respeito do “pro multis”, ordenando que se retorne ao vocábulo anterior, desprezando a interpretação em benefício da tradução pura e simplesmente.


Deveras! De onde pode surgir uma interpretação tão desarrazoada senão pelas inteligências muito cômodas que permeiam nosso século, onde para se salvar basta dizer “Jesus, Jesus, Senhor, Senhor, creio em Ti, teu sangue me remiu?"


São Paulo, quando se pronunciou expressamente sobre a Eucaristia, o fez no sentido restrito; também no Velho Testamento o Livro de Isaías traz referência do mesmo conteúdo, como se verá.


Tomemos os sinóticos em sua disposição literal, não sem antes observar que se São João não traz a repetição das palavras da benção, insere a “Oração Sacerdotal” a endossar e se afinar com as disposições sinóticas, principalmente no magistério de São Lucas.


Lemos em São Mateus (26, 28): “Porque este é o meu sangue, o sangue da Aliança, que vai ser derramado por MUITOS para a remissão dos pecados”. Bem assim, São Marcos (14, 24): “Este é o meu sangue, o sangue da aliança, que vai ser derramado por MUITOS”.


Nada de "todos". São Lucas aparentemente restringe ainda mais ao escrever (22,20): “Este cálice é a nova Aliança do meu sangue, que é derramado por vós”.


Por vós! Então só aos presentes à Santa Ceia? Ou a eles e a todos os que viriam depois, todos os filhos de Deus dispersos, que chamados, aceitaram a conversão (Jo, 11, 52)?


Evidentemente que a leitura só pode ser esta, ainda mais quando agregamos ao pronome “vós” o sentido maior, amplo e fundamental que Jesus confere na Oração Sacerdotal (Jo, 17, 20-21):


“Não rogo somente por eles, mas também por todos aqueles que hão de crer em mim pela sua palavra. Que todos sejam um! Meu Pai, que eles estejam em nós, assim como tu estás em mim e eu em ti. Que sejam um, para que o mundo creia que tu me enviaste”. 


E em outra passagem ao esboçar a doutrina do “Corpo Místico”, que São Paulo retomará e desenvolverá de forma brilhante e arrematada na Primeira Carta aos Coríntios:


“Vós já estais limpos por meio da palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em mim, como eu em vós. Como um ramo, se não permanecer na videira, não poderá dar fruto por si mesmo, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele produz muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer” (Jo, 15, 3-6).


Nem todos os ramos permanecem unidos à videira, pelo que o advérbio “todos” é impróprio e mal ajambrado, inserido na Liturgia de forma totalmente errônea, acalentando um cristianismo de ocasião.


O Apóstolo das Gentes, referindo-se expressamente à consagração e às palavras da benção, assim escreve aos coríntios, retomando o sentido dado por São Lucas:


“Jesus tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: ‘Isto é meu corpo, que é dado por vós; fazei- isto em minha memória’. Do mesmo modo, após a ceia, tomou o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; toda vez que o beberdes, fazei-o em minha memória’” (1Cor, 11, 23-25).


Em outra epístola, referindo-se ao âmbito do alcance da Salvação, que extravasa as fronteira do judaísmo para ser acessível a todos os que abraçarem a fé, escreve:


“Os que ele conheceu previamente, também os predestinou a reproduzirem a imagem de seu filho, para que este seja o primogênito entre os muitos irmãos. E aqueles que ele predestinou também os chamou, e aos que chamou também os justificou e os que justificou, também os glorificou” (Rm, 8, 29-30)


Encontramos a totalidade das gentes? Ou só aqueles predestinados? Fica claro então que morreu por todos aqueles que foram antes chamados, justificados e glorificados, ou seja, um “resto” escolhido pela graça (Rm, 11,5).


Exatamente no sentido de parte e não do todo, damos com a seguinte passagem de Isaías, onde se diz que “por suas dores, meu servo justificará muitos, tomando sobre si as iniqüidades deles” (53, 11) 


Na justificação pelo servo sofredor de Isaías, 53, que a Tradição da Igreja sempre viu a pessoa de Jesus, vemos que não há universalidade, mas uma “grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap, 7,9). Muita gente, muitas pessoas; não toda a gente, nem todas as pessoas.


Portanto, urge que a Igreja obedeça ao brado de Sua Santidade, retome a tradição pré conciliar e o reto caminho bíblico para lembrar que “muitos” não são “todos”. E, se há uma multidão nos céus que não se pode contar, é certo que não é a totalidade dos homens, até porque uma grande multidão não são todos; e segundo o próprio Mestre, “muitos são os chamados, poucos os escolhidos” (Mt, 22, 14), ou seja, a salvação nunca foi universal, mas “pro multis”.




Postado a pedido de João Cirilo nobre confrade católico