quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Teologia do processo





Por Donizete.


A teologia do processo representa a tentativa de alguns pensadores cristãos contemporâneos de reconstruir a doutrina de Deus e toda a teologia cristã, para harmoniza-la melhor com as crenças modernas sobre a natureza do mundo. Os pensadores da teologia do processo partem da pressuposição prática de que a teologia cristã deve ser atualizada e revisada em cada nova cultura, à luz de seus interesses, questões e dúvidas específicas.

A rigor, se trata de uma resposta radical ao monergismo extremista agostiniano. Fundamentado no desejo de defender um conceito radical do livre arbítrio do ser humano, seus defensores negam que Deus saiba o futuro e que ele seja soberano sobre a história.

Antes porém, é bom observar que esta tendência filosófico-teológica não é uma exclusividade cristã. Mas teve sua gênese nos pensamentos de filósofos racionalistas do século XVII. Ela foi muito enfatizada nos ensinos que o filósofo judeu Baruch Spinoza, (fugindo da interpretação tradicional de seus compatriotas, como Maimônides por exemplo) empregou nas sinagogas portuguesas, e que teve grande influência não apenas entre os judeus secularizados. Ainda que ali, esta dialética se concentrava apenas nas questões que diferenciavam o teísmo do panenteismo. Atualmente, um significativo número de Rabinos também seguem esta tradição teológica.

É bom salientar que, alguns pensadores católicos romanos também aceitam alguns aspectos dela. Seu atrativo parece estar na solução que oferece para o problema do mal e do sofrimento dos inocentes. No século passado, as Guerras Mundiais e os holocaustos que as acompanharam desafiaram radicalmente as idéias de muitos teólogos a respeito de Deus e do sofrimento. A pergunta que insistia em não calar era: Onde estava Deus quando seis milhões de judeus foram executados em câmaras de gás e incinerados pelos nazistas? Para muitos teólogos contemporâneos, os horrores da guerra e do genocídio do século XX exigiam uma revisão radical das noções agostinianas do poder e da soberania de Deus. As respostas que o teísmo clássico fornecia a estas questões estavam longe de serem satisfatórias.

A questão era simples, se Deus pudesse impedir as chacinas de homens, mulheres e crianças inocentes, ele teria feito. O caso portanto é que ele não podia. Por esta razão, os estudantes de teologias encontraram consolo e refúgio, e por que não dizer as respostas, no conceito de Alfred Whitehead (1) sobre Deus como um “companheiro no sofrimento”.

Conflito existencial semelhante viveu o Pr Ricardo Gondim. Num texto escrito por ele horas após o terremoto seguido de Tsunami na Indonésia, onde dezenas de milhares de pessoas morreram, ele apresenta sua teodicéia. E no limite de sua consternação diante daquela tragédia, fez os mesmos questionamentos dos pensadores que viveram o horror das guerras mundiais. E neste mesmo texto ele admite que, diante de fatos como estes, muitos alicerces onde são montados os edifícios teológicos, demonstram total insegurança. Por isso precisam ser urgentemente revistos.

E não é por acaso que no Brasil, o principal articulador do teísmo aberto ou teologia relacional (2) como ele prefere chamar é o próprio Gondim. Em um de seus textos ele ilustra a relevância desse ensino da seguinte forma:

“Na teologia clássica o futuro já aconteceu, não apenas por determinação de deus, que exaustivamente decretou que todas as coisas (boas e ruins) acontecessem, mas também porque ele em sua onisciência já sabe de tudo o que vai acontecer como já “acontecido”... Assim, não sabemos como nos comportar direito quando oramos e nem sabemos agir quando coisas ruins acontecem. Quando algum mal acontece, dizem-nos que a vontade de deus nunca é frustrada, e que ele tem uma agenda secreta que ainda não entendemos. Tentam nos confortar afirmando que precisamos apenas acreditar que ele tem o melhor para nós... Assim, vivemos uma esquizofrenia espiritual tremenda, cremos em verdades dogmáticas e agimos contrários a ela. A teologia relacional traz consistência à nossa espiritualidade, pois reforça a nossa compreensão paternal de Deus, lança luz sobre nossa responsabilidade e nosso infinito privilégio de cooperarmos com o criador. Somos artesãos do futuro. Numa teologia relacional o futuro inexiste e Deus nos chama para sermos parceiros de sua construção.”

No princípio, as idéias de Gondim pareciam ser limitadas aos seus escritos e discursos, inclusive sendo combatidos com severas críticas por personalidades evangélicas tradicionais. Entretanto, noções similares começaram a aparecer em diversos setores, e defendidas por líderes de diversos segmentos evangélicos.

Entre eles o influente Pastor Ed René Kivitz que também esboçou em alguns de seus textos, sua propensão a uma redefinição dos atributos de Deus e uma mudança nos paradigmas do pensamento, quando se propõe a encontrar a solução para o problema do mal.

Os defensores do teísmo clássico por sua vez, acusam os proponentes do teísmo aberto de possuírem no bojo dessa teologia traços panenteístas, de utilizar uma dialética hebraica bíblica que desconhece a realidade do mistério, de não saber lidar com as tensões existentes nas escrituras no que tange as revelações acerca da natureza de Deus. Segundo os críticos, esta teologia é uma forma inconseqüente de tirar das “costas de Deus”, a responsabilidade pelo sofrimento que há no mundo. Dizem que o resultado dessa boa intenção foi catastrófica. Sem contudo, apresentar uma refutação que enfraqueça as premissas que a teologia relacional usou como fundamento para o seu conceito.

Como me considero livre para pensar e tecer meus próprios fundamentos teológicos, baseados em premissas que em até certo ponto, extrapolam o que é aceito tradicionalmente, considero-me adepto da teologia progressista. (postura teológica que o Rev. Augustus Nicodemus educadamente desdenhou em seu livro “O ateísmo cristão e outra ameaças à igreja” capa utilizada na ilustração acima) Pois creio que a teologia é viva e dinâmica, jamais estática, assim como Deus também não. Por isso eu me recuso terminantemente ficar preso a qualquer sistema teológico, seja ele conservador ou liberal. Por esta razão não acredito que a melhor maneira de refutar o radicalismo calvinista, seja apresentar uma outra proposta não menos radical. Como no caso a teologia do processo fez.

Penso, que o importante seria não definir delimitações ou padronizar o modus operandis de Deus. A proposta da teologia do processo em promover radicalmente um esvaziamento de Deus em relação aos seus atributos não é das mais convenientes, por que não dizer tecnicamente impossível. Por outro lado manter a tradição milenar de atribuir aos propósitos secretos de Deus os acontecimentos trágicos que ocorrem, é prender o pêndulo na posição radicalmente oposta. Por esta e outras razões, uma visão teológica equilibrada se torna necessária para não desdivinizar Deus ao ponto de inferir que as situações fogem de seu controle, mas também não pressupor que Ele age motivado pelos sentimentos mais baixos que existem na natureza humana ou apresentar explicações evasivas em ralação ao problema do sofrimento no mundo.

Por isso, nada melhor do que evoluirmos junto à história. Não permitir que nossa teologia fique estagnada e se acomode em alguma radicalidade. Pois qualquer teologia radical terá sérios problemas e graves consequências.

Finalizo este texto com uma frase dita por um amigo certa vez: “a confissão de fé de quem é inteligente é construída na vida, na existência, no caminho. A estrada se abre enquanto se caminha e o caminho se faz enquanto anda nele”.


Abraços.


Notas:
       
1.     Alfred Whitehead. Um dos principais articuladores da teologia do processo na década de 30.

2.   Os termos teologia do processo, teísmo aberto e teologia relacional são intercambiáveis. Ainda que Gondim negue esta conexão, estudiosos afirmam que se trata na verdade de versões diferentes de uma mesma teologia.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

QUEM DISSE QUE ELAS NÃO SOFREM?







Por Guiomar Barba Rocha

Copio aqui, o comentário que fez o nosso Rodrigão, no blog da Anja e que mexeu profundamente com a minha feminilidade e amor por Jesus como filho de Deus.

Eu, todavia, vejo mais Jesus como uma consciência em evolução do que como um ser divino acima de todos nós. Vejo-o como o nosso gêmeo, pensando em sua pessoa como alguém profundamente humano que, inclusive, tinha sexualidade e não a ignorava. Alguém que, possivelmente, tenha tido até esposa ou quem sabe filhos. E nem descarto a ideia de que Jesus tenha se tornado amante de várias mulheres. Até porque, naquela época de machismo, elas deveriam ser bem mal amadas e acho que isto justifique ter um amante que ao mesmo tempo satisfaz a várias mulheres.” (SIC).


Com um pouco mais de sensibilidade, podemos entender que nenhuma mulher poderia se sentir bem-amada por um homem que divida sua cama com várias outras mulheres. Por melhor que ele seja como amante. Até mesmo porque seria bem natural que a uma ele se apegasse com um afeto maior, dedicando-se mais a este amor. Mesmo que este amor não lhe satisfizesse tão bem sexualmente, corresponderia em outras áreas mais difíceis para tantas outras mulheres.

Se alguém pensa que as mulheres não sofrem, em uma cultura que considera natural um homem ter várias amantes, eu diria, ainda que talvez radicalizando, que, por exemplo, em uma cultura aonde o clitóris é extraído para que a mulher não tenha prazer, elas se dariam também por felizes.

Vejamos a história do trio “amoroso” Jacó, Raquel e Lia. Era costume a irmã mais velha casar antes da mais nova. Como era da cultura, o pai de Lia não teve em conta os sentimentos de Jacó e muito menos os dela quando a introduziu no quarto. Quarto este, por certo escuro, com Jacó não lúcido, Lia foi no lugar da Raquel, a quem, realmente, Jacó amava, havendo trabalhado por ela sete anos e estando disposto a trabalhar mais sete, sem que isto lhe parecesse muito, pelo tanto que a amava, vindo também a desposá-la após uma semana do casamento com a primeira.

A história revela o sofrimento da preterida Lia, quando disputava com a sua irmã o direito de uma noite com o marido de ambas, Jacó. Ora o impulso sexual não avisa quando vai chegar. Não importa se você está no seu mais profundo sono, repousando, assistindo algum filme interessante, etc. Ele chega e quer ser satisfeito. Por que controlar quando o cônjuge também está disposto? Mas que mágoa, que dor, que sentimento de relegada, não deve dominar uma mulher, que pertence a um homem entre várias outras mulheres? Que importa se quando ele está à disposição é um bom amante... O bom amante é aquele que não magoa, que não fere, que não trai, que trás o orgasmo para o corpo e para alma, que embriaga a mulher plenamente.

Jesus era um homem perfeito, pleno, mas veio com uma missão que estava acima das necessidades físicas do ser humano. Assim como havia mulheres mal-amadas, haviam homens mal-amados. Ele quis ajudar todos solucionar os seus problemas interiores, com ensinamentos de amor, de humanidade e curar as suas feridas. Porque só assim, o homem poderia desfrutar plenamente de todo bem destinado a si.

Supor que Jesus teria várias amantes, é nivelar Jesus a machistas, que fazem com as mulheres o que não gostariam de sofrer na pele, com nenhuma mulher, seja com a mulher amada ou com qualquer outra. Por outro lado, creio que os evangelhos não esconderiam se Jesus houvesse sido casado, uma vez que não diminuiria em nada o respeito que Ele inspirava com sua conduta perfeita. No entanto, vemos que Jesus não tinha nenhum relacionamento afetivo ou amoroso com mulher alguma, tanto que, quando na cidade de Sícar, os discípulos foram comprar pão e, ao voltarem, encontrando Jesus a conversar com uma samaritana, ficaram espantados de que Ele estivesse conversando com uma mulher.

Se simples mortais abdicaram de uma vida sexual ativa por se dedicarem única e exclusivamente ao reino de Deus, por que nos é tão difícil crer que Jesus não teve outra atividade a não ser estabelecer o seu reino aqui na terra, quando realmente era o mais necessário? Para finalizar, partimos também do principio que Ele era um homem ambulante, e estava sempre cercado por discípulos, o que lhe tiraria todo tempo necessário para dedicar a uma esposa e filhos, acarretando problemas à família.

Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? (Mateus 12.48).
Mas, respondendo ele, disse-lhes: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam. (Lucas 8.21).


 E, vendo as multidões, teve grande compaixão delas, porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor.” (Mateus 9.36).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ficha criminal-teológica dos Confrades, segundo Franklim Rosa



A pedidos insistentes e imperativos da confrade Mariani, o texto-homenagem(homenagem???? só se for para homenagear candidatos a fogueria santa(não a de Israel...) ) do confrade-sambista-humorista-penteca-desviado-dos-caminhos-do-sinhô, FRANKLIM ROSA.










Nossa Missão


Desviar da ortodoxia fundamentalista cristã evangélica, o maior número possível de crentes. Para isso, fornecemos subsídio heresiológico através do portal do além:



  Confraria Teológica Logos e Mythos


Corpo Docente do Recanto dos Hereges



As damas primeiro... pra ir pra fogueira também...





Mariani Lima – A Best HerejA. Com um jeitinho todo dengoso e capcioso essa professorinha que flerta com a doutrina espírita, faz uso de suas prerrogativas para desencaminhar os mais ortodoxos.










Guiomar Barba – A última das moecanas da tradição apostólica, aspirante a herege em processo de desintegração da ortodoxia fundamentalista.









Eduardo Medeiros de Jesus(E o pequeno futuro grande herege Eduardinho) – Herege Mor fundador da seita. Altamente periculoso devido a sua habilidade em articular com sagacidade. Conta-se em seu currículo de fascínora, "corrupção ativa" da juventude penteca os tal carioca.



Levi Bronzeado dos Santos – Cabeção pensante paraibano, mago psicanalista com especialização em lavagem cerebral de crentes evangélicos em cima do muro. Possui alto poder de sedução através de seus ensaios & prosas.






Rodrigo Phanardzis Âncora da Luz – Desviou-se da sã doutrina logo na sua puberdade para advogar a Teologia Relacional. Hoje é réu confesso com pena máxima de exclusão. Acusado também de nivelar todas as religiões no mesmo balaio cristão.







Donizete Aparecido Vieira – Apóstata assembleiano fundador do movimento esquerdista Assembereano. Ex professor de escola dominical excomungado por corrupção teológica de menores.





Franklin Rosa de Oliveira – Ex católico (viciado em hóstia), ex office-boy de mãe de santo (entregador de despachos), ex discípulo de Testemunha de Jeová, ex discípulo de Mórmon, ex pastor evangélico neo-penteca os tal (auto-excomungado por incompatibilidade teológica) com fortes inclinações terroristas cristãs.

(Obs do Edu: mas que foto é essa, meu deus...)














(Dossiê originalmente publicado no Conexão da Graça)

Paz No vale


Bem, amigos da Logos e Mythos, mas um carnaval se foi e o ano de fato começa. E vamos "começar" o ano de 2012 por aqui com uma tremenda Sessão Nostalgia. Todos sabemos de que antes de ser o rei do rebolado, Elvis teve sua passagem pela música religiosa cristã. E mesmo depois de se fazer o Rei do Rock, ele revisitou em seus shows a música gospel da qual sempre nutriu uma saudável e indizível "nostalgia".

Para o deleite dos saudosistas e dos apreciadores da boa música(gospel ou não), um clássico do gospel na voz inconfundível de Elvis: Paz no Vale.







Mui cansado estou,mas procuro o senhor
Dele a voz eu almejo ouvir
Na gloriosa manhã ou a noite ao dormir
Haverá paz no vale pra mim


Haverá paz no vale pra mim eu sei
Haverá paz no vale pra mim,senhor eu sei
Nem a sombra da noite ali verei
Haverá paz no vale pra mim


Quando o sol surgir no horizonte além
e mostrar todo vale em flor
Eu ali quero estar,mui alegre a cantar
Na presença do meu bom jesus

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Amargo Triunfo Teológico−Político


Por Levi B. Santos


Quando em junho de 1967 todos os judeus se emocionavam com a reconquista da velha Jerusalém, naquele histórico conflito a que se deu o nome “Guerra dos Seis Dias”, um rabino de nome Zalman Schachter, resolveu enviar uma carta a Ben Gurion. Ele fazia um alerta ao primeiro ministro de Israel, afirmando que aquele momento se revestia de uma grandeza histórica. Mas o interessante é que seu pensamento não estava em consonância com os gritos dos vitoriosos, os quais, como eufóricos vencedores do conflito, diziam: Jerusalém agora é nossa!.

O rabino, na contramão dos acontecimentos, fazia ali um pedido chocante: “exortava a Ben Gurion que declarasse imediatamente Jerusalém como um monumento internacional e que permitisse à cidade, justamente em sua reconquista pelos judeus, a realização de seu projeto histórico ― não o triunfo, mas a paz”.

Na carta, o rabino faz ver que “na própria história dos judeus o triunfo dos assírios, gregos, romanos, bizantinos, cruzados e otomanos era um metáfora de que o vencedor de hoje é o derrotado de amanhã. Quem vence produz um vencido. O triunfo representa a mais efêmera das seguranças e se coloca na cadeia sucessiva e interminável da violência”.

Nilton Bonder, atual presidente da Congregação Israelita do Brasil, em seu livro, “Judaísmo Para o Século XXI”, aproveita os argumentos interessantes do rabino, para uma reflexão sobre o outro lado do grande “triunfo” israelita sobre os seus países vizinhos, naquela memorável guerra.  Ele incita os judeus a uma auto-análise não só política como teológica.

Para Nilton Bonder, esse desejo de triunfo teológico foi o epicentro das guerras entre judeus, cristãos e muçulmanos. “Uma derrota dessa expectativa de triunfo de todos, seria a única esperança da paz”— conclui o líder Israelita.

Na visão de Bernardo Sorj, professor de História da Universidade de Haifa, Israel, PhD e em sociologia pela Universidade de Manchester (Inglaterra), o Estado de Israel “normatizado” de hoje paga um preço muito alto por renegar, esquecer as muitas correntes dos judeus da diáspora que não aceitaram se voltar para um passado extremista de defender a exclusividade JUDAICA sobre Jerusalém. O sionismo ao considerar “anormal” a heterogeneidade das correntes da diáspora, triunfou politicamente, mas foi derrotado pelo maniqueísmo retrógrado da percepção de um eterno conflito entre esquerda e direita, ou entre as categorias de judeus “ortodoxos” e judeus “hereges”.

O utilitarista religioso ocidental é aquele que continua eternamente na frente do espelho a perguntar: “Há alguém de quem você goste mais, meu Deus?”. E de acordo com o que o fiel deseja em seu inconsciente, a imago paterna lhe responde: “NÃO”. Na psique do fiel intolerante, revela-se, por conseguinte, um Deus intolerante que ordena a destruição ou o não reconhecimento do outro.

Spinoza, em seu “Tratado Teológico Político” – Editora Martins Fontes (página 44), sobre esse Deus que se revela segundo a própria imaginação humana, diz o seguinte: “Conta-se que Moisés pediu a Deus que o deixasse vê-Lo; mas como Moisés não tinha nenhuma imagem de Deus formada no cérebro, e dado que Deus, não se revela aos profetas senão em conformidade com a sua imaginação, não lhe apareceu sob nenhuma imagem”.

 “Jerusalém se transformou em símbolo do triunfo, e se há algo que a paz não é... é ser fruto do triunfo”.

O sonho que orientou um sionismo triunfante, é que tem balizado e incentivado em nossas terras o grande mercado de almas. Não é à-toa que o Marketing da Salvação é um dos mais poderosos aqui entre nós. Seu lema é sempre vitória, e nunca derrota, nem nunca convivência pacífica entre os de identidades diferentes.

Hoje, mais do que nunca, se faz necessário refletir sobre o que move o marketing da salvação: se ele passa, necessariamente, pelo “triunfo” imaginário da fé de um grupo e na praga da conversão do outro, todos estarão perdidos.

Site da imagemexame.abril.com .br

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Diálogo entre os apócrifos e os canônicos 2





Esta é a segunda parte do texto "Diálogo entre os apócrifos e os canônicos"


O livro da Vida de Adão e Eva originalmente escrito em hebraico  antes de 70 E.C e que teve uma tradução grega da qual surgiu uma tradução em latim que é na verdade, uma nova narrativa, demonstra bem esse diálogo dos textos de tradição hebraico com a tradição cristã. O texto em latim reinterpreta o messianismo judaíta numa perspectiva cristã; Gênesis 3,15 é relido desde Cristo. “Quando passarem 5.228 anos, virá à terra o Cristo, o muito amado Filho de Deus, para animar e ressuscitar o corpo de Adão e de todos os mortos”.  Encontramos aqui uma interessante interpretação messiânica cristã, enraizada numa interpretação judaica. No novo texto também aparece a visão da virgem com um menino crucificado nos braços, lembrando a mulher e sua descendência ferida pela serpente.

Começa a ser construído o pensamento teológico que virá a ser cada vez mais comum ao judaísmo e ao cristianismo: todos os males são consequência da culpa do pecado de Adão e Eva, o que o cristianismo posteriormente vai chamar de “pecado original. Consolida-se também no pensamento cristão o dualismo corpo/alma; no livro, a alma de Adão será entregue no céu ao arcanjo Miguel, enquanto o corpo de adão será enterrado pelos anjos, no paraíso, junto com o corpo de Abel.

O 4Esdras, que junto com 3Esdras que fazem parte da Vulgata como livro canônico, nasce no contexto da grande pergunta que mexeu com a cabeça e com o coração dos judeus, depois de 70 E.C: Por que o nosso Deus Todo-Poderoso deixou que a santa cidade de Jerusalém fosse destruída pelos romanos?  É um texto originalmente judaico, ao qual autores cristãos acrescentaram os primeiros e os últimos capítulos. O corpo judaico, porém, é também recheado de mensagens que foram lidas em comum por judeus e cristãos, a ponto de ser considerado livro inspirado.

A explicação encontrada é que todos os males está no “coração mau” com o qual, depois do erro de Adão, todos nascem, inclusive Israel. Nem a Torá livra do pecado: Deus a entregou no Sinai sem tirar o coração mau(4Esd 3,19-22). A lei, aos poucos, foi abandonada e ficou só o coração mau. Jerusalém foi entregue aos babilônicos e aos romanos porque seus habitantes repetiram o erro de Adão.

Vários outros exemplos de livros hebraicos com interpolações e reinterpretações cristãs poderiam ser citados, mas para não  alongar muito, passo  à conclusão que é: O cristianismo primitivo dialogou com os textos da tradição judaica canônica e apócrifa. Às vezes parecem dominar razões apologéticas onde se busca mais do que um diálogo, usar a obra do outro para legitimar o nosso pensamento. Outras vezes, porém, parece estar sendo autorizada, através de uma espécie de batismo cristão, uma obra judaica considerada importante e interessante para a comunidade. Seja qual for o objetivo desta interação, não resta dúvida que os apócrifos judaicos eram lidos, eram conhecidos, eram meditados e celebrados ao mundo cristão ou, pelo menos, ao mundo judeu-cristão.

Fica portanto algumas perguntas:

O que é canônico e o que é apócrifo? Como se chegou a esta distinção?  Quem quis e por que quis afastar da comunidade a proclamação da palavra contida nesses livros? Por que hoje não lemos mais estes textos que alimentaram as primeiras gerações de cristãos? Por que surgiu esse abismo entre judaísmo e cristianismo, já que ambas tradições possuem a mesma raiz?


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As informações do texto constam de um artigo escrito por Sandro Gallazzi na Revista de Interpretação Bíblica Latino-Amricana, edição 40, ed Vozes que por sua vez, cita a obra de Alejandro Diez Macho, Apócrifos del Antigo Testamento, vol 1, ed Cristandad, Madri, 1984

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

“Curai os enfermos”

Ultimamente tenho pensado sobre os “dons de curar”, os quais podem ter se manifestado verdadeiramente nos primeiros momentos da história eclesiástica e no período bíblico.

Citando o Santo Irineu em seu livro Além de toda a crença, a historiadora Elaine Pagels trás informações de que os milagres talvez pudessem fazer parte do cotidiano da Igreja no século II ou, ao menos, integrassem os discursos dos primeiros padres:

“Curamos os doentes impondo as mãos sobre eles, e expulsamos demônios (...) Até ressuscitamos mortos, muitos dos quais continuam vivos entre nós e perfeitamente saudáveis”.

Ao comissionar os discípulos para uma espécie de estágio experimental, Jesus orientou-os a oferecer cura aos enfermos, o que consta no modo imperativo em alguns textos dos evangelhos:

“Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10.8; ARA).

Novamente, após ter ressuscitado, Jesus dá a ordem evangelística aos seus seguidores (Marcos 16.15). Esta é acompanhada pela manifestação das atividades de cura, exorcismos e a fala de “novas línguas” (glossolalia?), além de uma proteção sobrenatural contra a ingestão de veneno ou picada de serpentes (versos 17 e 18).

Lendo os textos do Novo Testamento, podemos constatar que essas coisas teriam sido confirmadas tanto no ministério de Jesus quanto dos seus discípulos (ver livro de Atos dos Apóstolos). E, igualmente, nas passagens das Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento), podemos encontrar profetas como Elias e o seu sucessor Eliseu agindo como canais de milagres para o povo de Israel, precedendo assim aos relatos dos Evangelhos.

Ainda criança, por absorver um pouco da visão do tradicionalismo católico (se bem que a minha família não era religiosa), eu aceitava os milagres de uma maneira muito restrita. Assistindo uns filmes sobre Jesus em épocas de feriados santos, a ideia que fazia era de que as curas de cegos e de paralíticos estivessem relacionadas à bondosa pessoa de Jesus por ele ser considerado Deus. Porém, como o Cristo da Igreja foi morto e, quarenta dias depois de sua ressurreição, “subiu aos céus”, meu pensamento era que as curas prodigiosas só ocorreram mesmo durante o curto tempo da encarnação.

Quando tinha 10 anos e estudava catecismo num colégio de freiras de Juiz de Fora para poder receber a “primeira comunhão”, a vovó materna tornou-se frequentadora assídua da Igreja Universal do Reino de Deus. Nas férias de meio de ano de 1986, ao passar umas semanas em sua casa no Rio de Janeiro, fiquei perplexo com as supostas cenas de curas e de exorcismos presenciadas nas reuniões da IURD. E ali foi-me apresentada uma outra ideia de milagres como sendo um acontecimento contínuo, amplo e igual aos tempos de Jesus. Deste modo, as curas propagandeadas pelo bispo Edir Macedo na rádio Copacabana pareciam manifestar-se poderosamente nos prédios dos antigos cinemas comprados pela seita, como se a igreja dele fosse a verdadeira.

Apesar de ouvir muitos “testemunhos de fé” sobre cura divina nos cultos e nas pregações da IURD, nada de especial ocorria comigo durante os momentos de “oração forte” aos quais me submetia junto com a vovó. Ao comando do pastor, eu colocava aos mãos sobre os olhos e aguardava ficar livre da miopia e dos óculos dentro de instantes. Só que nada acontecia e eu me sentia até rejeitado por Deus quando abria as pálpebras sem conseguir enxergar com nitidez os objetos e pessoas mais distantes de mi. Ficava então indagando por que outros recebiam as bençãos e eu não. E, na minha mente, considerava as hipóteses sugestionadas pelos líderes e mebros da seita de que estivesse "faltando fé" pra receber a cura.

De lá pra cá muita coisa mudou e fui amadurecendo espiritualmente, tendo me interessado bastante por estudar a Bíblia. Conheci o entendimento de outras igrejas evangélicas mais céticas às atividades de curandeirismo dos pentecostais e que, neste ponto, não se diferem muito do tradicionalismo católico. Fui pra uma igreja batista renovada que não aceitou os batismos católico e da IURD, de modo que passei pelas águas mais uma vez. E, recebendo uma sólida formação doutrinária ali, passei a aceitar a ocorrência de milagres nos dias de hoje, desde que condicionados à vontade divina e que se operariam em contextos levemente distintos daqueles vistos nos meios neo-pentecostais.

Recordo-me do dia em que a então missionária Valnice Milhomens visitou aquela igreja em que eu, desde os tempos da IURD, estava super ansioso para ser agraciado com o “batismo no Espírito Santo”, o que, por uns tempos, via até como um pré-requisito para a salvação. Na ocasião, orei ardentemente entre pessoas que se amontoavam e se apegavam umas nas outras. Aí, quando menos dei conta, estava eu deitado no chão como se uma força poderosa vindo de cima tivesse me derrubado. Nesta hora, uns irmãos vieram orar impondo as mãos sobre minha cabeça para que eu “falasse em línguas”. Só que não houve jeito, mas saí do culto sugestionado que teria recebido o tal batismo.

Semanas depois, fui duvidando daquela experiência no meu íntimo. Cheguei ao ponto de suspeitar que alguém do meu lado tivesse me movimentado enquanto orava na “busca do Espírito”, de modo que a tontura pudesse ter decorrido de uma situação indutiva sem nenhum acontecimento sobrenatural. E, por muito tempo, este questionamento colocou-me em conflitos com a minha fé de adolescente imaturo.

Não faz muito tempo, um jovem perguntou-me pela internet sobre o que consistiam as “línguas dos anjos” das quais Paulo se refere na epístola aos Coríntios (1Co 13.1).

Seriam tais línguas realmente um fato sobrenatural ou um modo de expressão usado pelo autor para escrever sobre o amor? Foi mais ou menos isto que ele quis saber conforme o teor da mensagem escrita em internetês:

“eu tenho duvida a respeito ao dom de linguas q paulo fala pq acredito q seja outro idioma pq paulo andou por varios lugares c idiomas diferentes pq acho q hashalabasuriancas eh viagem kkk e lingua dos anjos acredito q paulo fala metaforicamente + paulo fala q eh p edificaçao propria + como uma pessoa vai edificar a si mesma se ela mesma n entende o q ela fala? + paulo fala p a pessoa orar p interpretar e q a pessoa fala misterios a Deus tipo e Paulo fala q haja interprete p outras pessoas serem edificadas tipo acredito q ou seja uma parada mt sobrenatural ou eh um idioma jah existente, qual a sua opiniao em relaçao a isso?”

Respondi então ao rapaz com as palavras a seguir transcritas do meu Facebook, tendo alertado-o que, embora pudéssemos compreender melhor pela experimentação, eu duvido de muitas das manifestações que se vê por aí no meio pentecostal:

“Sinceramente não tenho muito a opinar sobre algo que careço de experimentação. Muita coisa sobre o cristianismo primitivo perdeu-se durante a história eclesiástica, assim como dos antigos hebreus (p. ex. o "transe profético" do livro de I Samuel). Existiu de fato uma "língua dos anjos" ou o autor de 1Coríntios fala apenas metaforicamente no cap. 13 sobre a excelência do amor? Não sabemos. Logo, restam-nos apenas inconclusivas hipóteses. Abraços.”

Voltando à questão da cura e refletindo sobre o que diz a Bíblia, eis que, no capítulo precedente ao amor, Paulo faz uma lista de dons espirituais concedidos por Deus. Ali, o apóstolo menciona os “dons de curar” e as “operações de milagres”, além da “variedade de línguas” e a “capacidade de interpretá-las” (ver 1Co 12.8-10), dando a entender que também são capacidades buscadas pelas próprias pessoas da congregação (verso 31a).

Ora, o que significa “procurar os dons espirituais”? E em que isto poderia ser aplicado em relação à ordem dada por Jesus para que os seus discípulos curassem os enfermos?

Sem dúvida que o emprego dos dons espirituais deve estar voltado para a satisfação das necessidades das pessoas pertencentes a uma comunidade eclesiástica. Tanto é que, no capítulo 14 da epístola, Paulo orienta os seus destinatários a buscarem o “dom de profecia” numa comparação com a utilidade (circunstancial?) das línguas. E o capítulo 13, situado entre os direcionamentos do 12 e do 14, esclarece sobre o contexto amoroso no qual as atividades espirituais devem ser desenvolvidas.

Mesmo sem experimentar ministerialmente os “dons de curar” faço aqui algumas suposições sobre o que vem a ser isto.

Estaria este dom relacionado à percepção ou ao diagnóstico do estado de saúde físico, mental e espiritual da pessoa enferma?

Por acaso o desenvolvimento de um dom de cura não teria mais a ver com a sensibilidade de quem se dispõe a promover a saúde total dos outros?

Pode-se dizer que, em suas origens, os estudos e práticas da Medicina sempre estiveram ligados à busca de explicações sobrenaturais, tal como fazia Hipócrates que viveu entre os anos 460 a 377 antes da era comum, assemelhando-se de certo modo com a percepção dos hindus e chineses. Antes dele, magos egípcios tentavam curar pessoas através de encantamentos e práticas baseadas na tradição empírica. E, na Bíblia, tem-se o diagnóstico da “lepra” pelos sacerdotes hebreus através da observação (ver capítulo 13 de Levítico).

Neste sentido, eis que, no começo da era cristã, mesmo com os relativos avanços obtidos pelos gregos sucessores de Hipócrates, a saúde humana ainda era relacionada com a fé nos deuses, com as bênçãos e maldições decorrentes da obediência aos preceitos religiosos, a prática de rituais, sacrifícios, uso de amuletos, etc. No próprio Judaísmo antigo, podemos constatar pela leitura bíblica de que a doença era encarada como uma situação decorrente do pecado. Tanto é que, no capítulo 9 de João, o autor mostra os discípulos perguntando a Jesus se a enfermidade de um cego de nascença seria decorrente de seu próprio pecado ou de seus pais. Já em outras situações descritas pelos evangelhos, tem-se uma ligação direta entre um assédio demoníaco e o estado de saúde do sujeito.

Felizmente a Medicina avançou muito. Tanto em termo de diagnóstico quanto aos métodos de tratamento hoje empregados. Desvinculado dos dogmas religiosos, o saber científico contribuiu para libertar a humanidade de terríveis preconceitos e das maneiras equivocadas de se lidar com os problemas. Porém, a grande maioria dos nossos doutores parece ter perdido aquela sensibilidade que poderíamos chamar de visão holística, alienando-se quanto à dimensão espiritual. E isto se vê claramente quando os médicos entopem os seus paciente de remédios. Principalmente os antidepressivos e drogas para aliviar dores ou inflamações.

Acredito que, mesmo nos dias de hoje, os “dons de curar” continuam tendo lugar na nossa sociedade, funcionando como uma respeitável leitura da realidade total com possibilidade de se harmonizar com a ciência. Pois, ajudar uma pessoa a tomar consciência da relação que há entre o seu modo de vida errado e a enfermidade pode significar a cura dos doentes como talvez acontecesse nos tempos bíblicos.

Logicamente que há muita enganação nos meios daqueles que dizem oferecer curas espirituais ou falam em “métodos alternativos”. Ainda mais quando a proposta está baseada na concessão de resultados imediatos ou em barganhas financeiras, criando expectativas em torno de uma ação mágica. Uns usam os nomes de Jesus, Maria, de anjos, entidades das religiões afro, cristais, energia cósmica ou “cirurgias” de espíritos “iluminados”. Porém, há sempre uma negação da graça nesses casos.

Lembrando o já citado versículo do Evangelho de Mateus, de graça nós recebemos e, de graça, devemos compartilhar. Logo, se o conhecimento foi dado graciosamente por Deus, o exercício dos dons de curar jamais deve ser transmitido em cursos com fins lucrativos, sendo que a transmissão de conhecimentos sobre cura precisa estar baseada no amor e buscando sempre o bem das pessoas da comunidade na qual nos encontramos.

Espero que a Igreja deste século XXI possa voltar-se com sinceridade e seriedade para estudos sobre a cura para que, deste modo, comece a oferecer aquilo que de alguma maneira pode ter sido parte integrante das boas novas de Jesus.


OBS: A ilustração acima retrata a cura de um cego feita por Jesus. Foi pintado com óleo sobre madeira, por volta da metade do século XVII, pelas mãos do pintor francês Eustache Le Sueur (1616–1655). A obra encontra-se na galeria de imagens do palácio de Sanssouci, situado em Potsdam, Alemanha.