segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pilatos – Uma caricatura da nossa neutralidade

nanihumor.blogspot.com

“Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso” Mateus cap. 27 vs. 24

Como bem disse o escritor inglês convertido ao catolicismo em 1926 Grahan Greene: “Preferiria ter sangue nas mãos a ter água como Pôncio Pilatos”.

Parece que o significado do nome Pilatos (Latim: Armado de Lanças) não fez jus ao personagem Bíblico, que se absteve de tomar uma decisão objetiva com medo de desagradar seus opositores e críticos judeus que estavam insatisfeitos com seu governo.

Ele não queria se envolver, tomar partido, mas era praticamente impossível, haja vista os ânimos alterados daqueles que queriam a crucificação do Cordeiro.

Apesar de sua consciência constatar a inculpabilidade de Jesus, sabendo que aquele processo era fruto de inveja religiosa, e mesmo após ser avisado por sua mulher de que teve sonhos perturbadores que a fizeram sofrer pelo Justo Nazareno, ele preferiu optar pela zona de conforto, se omitindo de sentenciá-lo ou absolvê-lo declaradamente, sendo assim conivente com a pressão do povo.

Desejar agir de forma coerente segundo nossas convicções, não é suficiente. Ele chegou a declarar: “Não vejo neste homem crime algum" Lucas cap. 23 vs. 4.

Faltou em Pilatos a radicalidade de assumir aquilo em que cria. O grande problema, é que essa decisão causaria a ele grandes transtornos, e seria o gatilho de uma perseguição ainda mais cruel e ferrenha, lhe privando dos benefícios e comodidades que a posição lhe conferia.

Essa falsa neutralidade que é filha da falta de personalidade, se caracteriza como deficiência de caráter, podendo se transformar em patologia da alma, haja vista as cobranças posteriores a que será submetida a consciência por ela ludibriada.

É o auto-engano associado a política da boa vizinhança. É a pacificação da consciência ao preço da falta de atitude e posicionamento. É a frouxidão de convicções mancomunada com a pseudo discrição. É conivência neutralizante em nome da falaciosa ordem e progresso. É a indiferença fraudulenta mascarada de movimento pela paz.

Para não arcar com as conseqüências e retaliação, Pilatos preferiu enviar Jesus a Herodes transferindo a decisão e responsabilidade para outro, o qual por sua vez o devolveu novamente, e que nas entrelinhas estava dizendo: “A batata quente é sua meu chapa, se vira!”

Não tem jeito. Mas cedo ou mais tarde teremos de encarar as encruzilhadas onde se fará obrigatório a tomada de decisões, opções e posicionamentos.

A neutralidade de Pilatos, era na verdade sua decisão e posicionamento por aquilo que lhe causaria menos prejuízo e desconforto.

E você, vai ficar neutro e indiferente? Pilatos é uma caricatura da nossa neutralidade quando não queremos nos envolver em processos desgastantes, que sabemos que irão nos fazer sofrer, optando assim covardemente pela omissão que nos proporciona a tão desejada “ilha da segurança”.

Muitos se omitem na neutralidade por não querer perder os benefícios do emprego, o cargo na Igreja que é a auto-afirmação diante da comunidade, a popularidade conquistada pela aclamação da massa, os títulos que massageiam o ego, a situação financeira que é resultado da conveniência e não da consciência, o status de pessoa centrada que é uma válvula de escape para as agonizantes indecisões, enfim... falta de bala na agulha para enfrentar as oposições com firmeza e honradez.

Não se esqueça que essa covardia de não querer dar a cara a tapa, pode ser o seu algoz no futuro!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fundamentalismo













  

  




Essa breve reflexão, serve como um convite para melhor entendermos o fenômeno e criar clareza sobre este tema tão polêmico, para podermos nós mesmos superar certas dimensões fundamentalistas embutidas em nossa cultura, quem sabe até em certos comportamentos pessoais.

Na verdade o termo fundamentalismo tornou-se a palavra de acusação em voga. Entretanto fundamentalista é sempre o outro. Quando é aplicado para nós mesmos, geralmente preferimos o emprego de outros termos.

Existem fundamentalismos em todas as áreas, ainda que em muitas delas, preferem o uso do termo “radicalismo”. Ele está presente nas religiões, na política, na economia, e, em tantas outras ideologias. Os fundamentalismos estão aí com grande ferocidade, e representa um risco para a pacífica convivência humana e para o futuro da humanidade.

O fundamentalismo cristão atual, que é o objeto de discussão nesta postagem, tem sua origem no protestantismo norte americano do século XIX. O termo foi cunhado em 1915, quando professores de teologia da universidade de Princeton (numa contra ofensiva ao liberalismo teológico nascente)  publicaram uma coleção de doze volumes com o título: “fundamentalismo. Um testemunho da verdade”.

Neles propunham um cristianismo extremamente rigoroso, ortodoxo, dogmático, como orientação contra a avalanche de modernização de que era tomada a sociedade norte americana.

A tese dos fundamentalistas no âmbito religioso é afirmar que a Bíblia constitui o fundamento básico da fé cristã e deve ser tomada ao pé da letra. O fundamento de tudo para a fé protestante é a Bíblia. Cada palavra, cada sílaba e cada vírgula, dizem os fundamentalistas, é inspirada por Deus. Como Deus não pode errar, então tudo na Bíblia é verdadeiro e sem qualquer erro. Como Deus é imutável, sua palavra e suas sentenças também o são. Valem para sempre.

Em nome deste literalismo, os fiéis opunham-se às interpretações da assim chamada teologia liberal. Esta usava os métodos histórico-críticos e hermenêuticos para interpretar textos escritos há dois, três mil anos.

Nos métodos supracitados, parte-se do princípio de que a história e as palavras não ficaram congeladas no passado. Elas mudam de sentido ou ganham novas ressonâncias com as mudanças dos contextos históricos. Por isso precisam ser interpretadas para que seja resgatado o sentido original.

Este procedimento para os fundamentalistas é ofensivo a Deus, obra de Satanás. A Bíblia, não precisa ser interpretada, ela á a Palavra de Deus, e o Espírito Santo ilumina as pessoas para compreender os textos. Por razões semelhantes se opõem aos avanços contemporâneos da história, das ciências, da geografia e especialmente da biologia que possam questionar a verdade bíblica.

Para o fundamentalista, a criação se realizou mesmo em sete dias. O ser humano foi feito literalmente de barro. Eva é tirada da costela física de Adão. O preceito “crescei e multiplicai-vos, enchei e subjugai a terra, dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre tudo o que vive e se move sobre a terra” deve ser tomado estritamente ao pé da letra, pouco importando-se essa dominação venha por em risco a biosfera. Mais ainda: só Jesus é o caminho, a verdade e a vida, o único e suficiente salvador. Fora dele há somente perdição.

Em face dos demais caminhos, o fundamentalismo é intolerante, na moral é especialmente inflexível, particularmente no que concerne a sexualidade e a família. É contra os homossexuais, o movimento feminista e os demais processos libertários em geral.

O fundamentalismo não é uma doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É assumir a letra das doutrinas e normas sem cuidar de seu espírito e de sua inserção no processo sempre variável da história.

Fundamentalismo representa aquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista.
Imediatamente surge grave conseqüência: quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade, e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro, e o desprezo, a agressividade, e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem conflitos religiosos com incontáveis vítimas.

Não há ninguém mais guerreiro do que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos e muçulmanos. Cada qual vive da convicção tribalista de ser o povo escolhido e o portador exclusivo da revelação do Deus único e verdadeiro.  


Bibliografia: Fundamentalismo. A globalização e o futuro da humanidade. Leonardo Boff.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Victorino Silva: És


Bem, caros confraternos hereges: Enquanto nossa amiga pastora Guiomar não posta um novo texto, convido a todos a relembrar um cantor que embalou meus anos de adolescentes na igreja. Vitorino Silva. Os cabelos já estão brancos, mas incrivelmente, a bela e potente voz de outrora, continua a mesma.


Boas lembranças...até me sinto elevado outra vez à uma dimensão onde a razão funde-se com a emoção e com a contemplação.
















És
Vitorino Silva

És o orvalho que nutre a rosa
És a rosa que enfeita o jardim
És o jardim que ornamenta a campina
És o campo radioso se fim
És um raio de luz entre a sombra
És a sombra suave e fiel
És o manto azulado do espaço
És o braço que me une aos céus

És o sonho ideal da poesia
Que irradia na rima do verso
Na candura do meu dia a dia
O segredo total do universo
És o berço que embala ao que nasce
És a face da alma remida
És degrau para eterna subida
És a vida meu Deus
És a vida

És a ponte que jaz sobre o abismo
És fonte dos mananciais
És o doce barulho das águas
No deserto és descanso de paz
Tú que reinas acima da morte
És o forte que sustenta a cruz
És o norte que orienta os filhos
És o brilho no olhar de Jesus

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Conflito Paulino nos “Lugares Celestiais”




Levi B. Santos


O Psicanalista, Roberto Girola, em um substancioso artigo que versa sobre o DESEJO, dentro do dinamismo psíquico, recorre a um trecho da carta atribuída ao apóstolo Paulo e endereçada aos Romanos. Diz ele, sobre a essência desse texto, aparentemente, de difícil interpretação: “é evidente a influência neo-platônica e, ao mesmo tempo, o fracasso dos ideais estóicos de auto-controle”. Nesse excerto paulino, podemos ver com fortes cores, a angústia do homem frente às forças inconscientes que o dominam. Vemos também a incapacidade do homem em conviver equilibradamente com suas vicissitudes e afetos paradoxais.
Trata-se do emblemático trecho de Romanos (7, 15 – 24):

“Efetivamente, eu não compreendo nada do que faço: o bem que eu quero, não o faço, mas o mal  que odeio faço-o. Ora se faço o que não quero, estou de acordo com a Lei e reconheço que ela é boa; não sou eu, pois, quem ajo assim, mas o pecado que habita em mim ― quero dizer em minha carne — o bem não habita. Querer o bem está ao meu alcance, não, porém praticá-lo, visto que não faço o bem, que quero, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, não sou quem age, mas o pecado que habita em mim. Eu, que quero fazer o bem constato essa lei em mim: é o mal que está ao meu alcance. Pois eu me comprazo na Lei de Deus, enquanto homem interior, mas em meus membros descubro outra lei que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros”. Infeliz que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?”.

O desabafo acima, muito bem concatenado, parece demonstrar que no peito de Paulo ardia um “duplo ser”: o da intolerância latente representada pelo legalismo autoritário Judaico (arquétipo patriarcal – de um Pai que necessita de súditos para O servir) e o do inconformismo em face da tolerância do “vinde como estás” do cristianismo (arquétipo da alteridade – de um Pai que desce ao nível do homem para servi-lo).

 R.N. Champlin e colaboradores – em sua volumosa coleção de seis volumes com mais de 4.000 páginas, na qual há comentários extensos, versículo à versículo do Novo Testamento, chega a citar um poema de Olavo Bilac, para exemplificar melhor o conflito psíquico Paulino, que em psicanálise é explorado como produto da ambivalência dos afetos, que caracterizam o humano:

Não és bom, nem és mau; és triste e humano...
Vives ansiando em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano

Pobre, no bem como no mal padeces
E, rolando num vórtice  vesano
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes
Não ficas da virtude satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem, juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.”

O ensaio “SOBRE OS NOSSOS DEMÔNIOS INTERIORES”, de Junho de 2010, que postei na C.P.F.G., o qual foi muito debatido em cerca de 120 comentários realizados pelos confrades, tem uma parte que mostra como, na visão mítica dos antigos, eram interpretadas as profundas forças obscuras da psique humana:

“Uma coisa não se pode negar: é a de que a guerra entre deuses e demônios vem se travando na mente dos religiosos desde épocas remotas. Com a descoberta do ‘inconsciente’, ficou claro que esses deuses e demônios que os antigos percebiam, nada mais são que produtos da psique humana traduzidos por eles como forças externas personificadas do mal e do bem. A figura do capeta, diabo ou demônio, ainda hoje, entre os fundamentalistas, é traduzida como potestades do ar que invadem a mente para guerrear contra deuses imaginários. É nesse grande palco mental denominado pelo apóstolo Paulo, de “lugares celestiais”, que se trava a imaginária luta entre as potestades divinas e diabólicas”.

Numa reflexão profunda, iremos notar que os grandes mitos religiosos, como o da criação, no Gênesis, nos mostram em linguagem alegórica ou figurada a bipolaridade de nossos sentimentos. A psique do homem primevo, é representada pelo céu, andar superior, ou lugares celestiais, tendo no trono um Pai autoritário a comandar anjos “ovelhas” e anjos “bodes” em uma “eterna” guerra ou cruzada ―, numa analogia ao choque dos sentimentos antagônicos descritos por Paulo.

A solução, para que haja períodos de trégua ou armistício entre os nossos afetos paradoxais ― “anjos” e “demônios” ―, depende muito de que se tenha a percepção de um “Superego” ou um pai mais compassivo, menos cobrador e menos guerreiro.

 Quando se fala que alguém perdeu o equilíbrio, em linguagem mítica, podemos dizer que ele incitou seus anjos a uma guerra. Quando falamos que estamos em PAZ, na linguagem mítica, estamos a dizer que os nossos anjos (situacionistas e opositores) entraram em um acordo.

A batalha entre o ideal de “pureza ou santidade” e o nosso lado “sombrio ou escuro” jamais será vencida com ódio e repressão. Quanto mais integrarmos ou aceitarmos os nossos impulsos sombrios ou “abomináveis”, ao invés de tentar expulsá-los ou projetá-los no outro, mais estaremos longe dos efeitos destrutivos da cisão de nosso ser psíquico com toda sua gama de efeitos doentios e alienantes.

“Esse é o nosso “destino melancólico” desde o começo da história humana, e deverá permanecer enquanto houver vida humana consciente” (Paul Tillich – Teologia da Cultura – página 245)




Site da imagem: ciacristao.blogspot.com

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O "Diálogo" entre os apócrifos e os canônicos





Se você aprendeu no teu seminário ou na EBD da sua igreja que os livros apócrifos são "espúrios", "não inspirados",  saiba que essa afirmação é bem duvidosa. Existe uma grande possibilidade histórica de que tenha havido um frutífero diálogo ecumênico entre o mundo judaico e o mundo cristão através  dos apócrifos do Antigo Testamento em suas redações finais. E mais: muitos temas teológicos passaram a ser comum às duas tradições através desses livros.



Boa parte dos cristãos mais esclarecidos sabem que escritores do Novo Testamento conheciam e citaram os apócrifos do mundo judaico. O exemplo clássico é o da carta de Judas que nos v 14 e 15, cita diretamente o primeiro livro de Henoc 1,9 - que aliás é considerado canônico até hoje pela igreja copta. Existe também a alusão aos anjos que pecaram (Jd 6) e a comparação dos "astros errantes" (Jd 13). Temos também em Judas, clara referências ao Testamento dos doze patriarcas (Jd 7) e à Assunção de Moisés (Jd 9).



Mas o "diálogo" não ficou somente na carta de Judas. Veja abaixo uma amostra de semelhanças entre textos do Novo Testamento e textos apócrifos judaicos:



- O Apocalipse siríaco de Baruc (2Br 49,2-3) e 1 Co 15,35-40 se põem a mesma pergunta: com que corpos ressuscitarão os mortos?



- Ap 6.9-11 fala dos mártires que debaixo do altar perguntam pelo tempo que falta para a vingança. Encontramos as mesmas perguntas e respostas no quarto livro de Esdras (4.34-36)



- O discurso de Estevão em Atos(7.36.38-39.43) ecoa quase que literalmente a Assunção de Moisés 3.11-13. Influências desse apócrifo podem também ser encontradas em 2 Pd 2,3, 13; Mt 24.21; Mt 24,29.


- Encontramos paralelos interessantes entre o Apocalipse de Elias 1,7 e 1 Jo 2,15: "Não ameis o mundo nem o que está no mundo". Apocalipse de Elias 1,13 também aparece em Fl 3.9 "cujo deus é o ventre". O sinal na testa e o selo na mão de Ap 14.1,9 se encontra em Apocalipse de Elias 1,9 e 3,58.


- Os sinais de conflito que preparam a chegada do fim em Mc 13,7-8 encontram-se também nos Oráculos Sibilinos 3,635, em 4 Esdras 13,31, em 2 Baruc 27.5 que no v 12 anuncia também: "um irmão entregará seu irmão à morte, um pai o filho; os filhos denunciarão seus pais e os farão morrer..."


Existem várias outros exemplos  mas estes já bastam para que se veja como os apócrifos influenciaram textos do Novo Testamento. Isso mostra também que os autores do NT conheciam, estimavam, valorizavam e dialogavam com esta literatura que, posteriormente chamada de apócrifa, circulava, sem censura, nos meios judeus e cristãos.



Muitos destes livros chegou até nós do mundo judaico  após uma releitura cristã. Os cristãos leram, usaram, interpolaram, releram estes livros a tal ponto que, em muitos casos, fica difícil definir o que pertence ao original judaico ou ao posterior intervenção cristã.


Bom, termino aqui para que o texto não fique cansativo, mas volto com a continuação desse texto na próxima rodada.




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As informações do texto constam de um artigo escrito por Sandro Gallazzi  na Revista de Interpretação Bíblica Latino-Amricana, edição 40, ed Vozes que por sua vez, cita a obra de Alejandro Diez Macho, Apócrifos del Antigo Testamento, vol 1, ed Cristandad, Madri, 1984

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Eu ainda pego esse Adão!




“E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me. E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi” Gênesis cap. 3 vs. 9 ao 12

Fracasso, frustração, sofrimento, são só algumas palavras que traduzem a experiência do nosso pai e irmão de afinidades na alma Adão.

Minha intenção não é colocar em discussão o personagem histórico versus o mito Adão, e sim expor o caminho comum a todos interpretado nesse que tinha todo um contexto favorável para fazer a diferença, mas que relativizou o poder de escolha não ouvindo o conselho da Sabedoria: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”.

Nossa primeira reação quando o assunto é o dito cujo do Adão, é assumirmos uma postura idealizada de que se fôssemos nós os protagonistas do Éden, as coisas seriam diferentes. Será?!

Com muita freqüência, costumo ouvir a frase: “ EU AINDA PEGO ESSE ADÃO quando chegar no céu,!”

Adão vulgarizou o que era sagrado, profanou o que era santo, desprezou o que era para ser valorizado não tendo a percepção que justamente aí residia o sucesso e o fracasso de seu futuro e de toda a sua posteridade.

Talvez você esteja se perguntando: “Será que ele está falando da árvore?!”

Não. Estou falando da opção por aquilo que traz vida e bem, e que nos aproxima da realização como seres humanos melhores!

Nós demonizamos e crucificamos o Adão que é um protótipo nosso com riqueza de detalhes e que, não queremos ou não temos a honestidade de assumir.

Esse Adão somos nós, quando não valorizamos “O Conselho” e fazemos mau uso da capacidade de escolher, optando por aquilo que é imediato, transitório e satisfaz a curiosidade represada.

Esse Adão somos nós, quando não admitimos nossos erros e queremos evitar o confronto porque ele expõe nossa nudez moral.

Esse Adão somos nós, quando queremos justificar um erro transferindo a responsabilidade para outro, não tendo assim que enfrentar a vergonha de conhecer nossas poderosas fragilidades.

Esse Adão somos nós, quando negligenciamos o que proporciona vida, e sofremos a conseqüência de uma consciência culpada que agora é lacerada pela auto-destruição de um ser que se percebe como vítima de si mesmo.

Esse Adão somos nós, quando deixamos vulnerável gratuitamente, aqueles que deveriam ser o alvo de nossa proteção, cuidado e carinho.

Esse Adão somos nós, e por que nós somos em Adão, existe a possibilidade real de um novo capítulo nessa história, pois o segundo Adão nos redimiu do primeiro, nos pacificando com o ABBA: “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante... O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu.” 1ª Coríntios cap. 15 vs. 45,47