sábado, 31 de dezembro de 2011

Pastores leigos



"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;
Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, (Ef 4:11,13)"

Um assunto pouco discutido nos meios pentecostais, é a consagração de leigos para ocuparem uma cadeira nos púlpitos de nossas igrejas. Muito diferente de muitas igrejas tradicionais, onde é exigido além de vocação, uma boa formação acadêmica, ter no mínimo o grau de bacharelado, seguido de alguns anos de estágios, e assim mesmo só será credenciado após passar por uma rigorosa sabatina, onde o postulante ao ministério terá que provar que tem total domínio na área em que irá atuar, no caso, a teologia, ter pleno conhecimento da teologia sistemática, bem como todos os sistemas teológicos tanto extintos como vigentes.

Os critérios adotados por parte das denominações evangélicas, sobretudo as pentecostais para a ordenação de pessoas para o oficio ministerial são de uma pobreza sem tamanho. Há casos onde as regras são duas apenas. Ser batizados com o Espírito Santo e dizimista. 
Há alguns anos aconteceu um fato lamentável  numa grande denominação, onde foi feito um verdadeiro arrastão no seio da igreja na tentativa de agrupar um numero x de pessoas, homens e mulheres para ocuparem uma vaga de ministro do evangelho. Não haveria nenhum problema se tal evento não fosse de cunho político. Na verdade o que planejavam era tornar pessoas aptas para votarem numa determinada convenção. A ordenação em si não é o grande problema, mas sim os pressupostos que levaram a essa atitude.

Cito como exemplo casos que aconteceram no século XVIII, com avivamento da igreja em alguns países europeus, onde houve um crescimento sem precedentes na historia do protestantismo, como os Pietistas na Alemanha, os Moravianos na Europa central e até mesmo o metodismo Wesleyano na Inglaterra. A demanda exigia com urgência pessoas dispostas a serem enviadas como missionários desbravadores com a mensagem do evangelho reformado. Pelo que se tem noticia foi a primeira vez (com exceção da igreja primitiva) que foi levado em consideração mais o fator disponibilidade do que propriamente o preparo básico exigido para desempenhar tal função. 
Neste caso, especificamente, houve uma carência, uma necessidade urgente em função da demanda. Bem diferente do caso lamentável ao qual me referi anteriormente.

No meu ponto de vista, e acredito que seja o de muitas pessoas, é que há a necessidade sim, de que o vocacionado obtenha  certo grau de instrução no que se refere a teologia, para depois ter sua credencial de ministro do evangelho. 
A pergunta que se faz é a seguinte: se qualquer instituição séria, utiliza sempre o modelo convencional e histórico, porque então o pentecostalismo e suas vertentes continuam fazendo vista grossa a algo tão primário? A resposta tem um nome; pragmatismo. Nenhum outro movimento cristão cresce mais do que o pentecostalismo. Mas  sabemos que há um preço a ser pago por um crescimento insustentável. Qual é o preço? É o seguinte: o evangelicalismo pentecostal é rápido até demais na sua capacidade de agrupar pessoas sob suas respectivas placas denominacionais, porém frágeis, fragilíssimo, no que diz respeito ao preparo e a instrução intelectual de seus membros. Daí para o nominalismo, para a perda da identidade cristã e o apego a crendices é um passo.  

O texto de Efésios diz que o ministério foi instituído com vistas o aperfeiçoamento dos Santos, objetivo este que só poderá Ser alcançado com a habilitação e a capacitação daqueles que estão encarregados dessa missão

A realidade porém é outra . O que existe é uma grande quantidade de obreiros sem nenhuma qualidade, e as mensagens pregadas por eles seguem esta mesma ordem. O resultado não poderia ser outro; uma grande quantidade de crentes desejando ardentemente ouvir mensagens com conteúdo, no entanto são obrigadas a ouvir histórias e conceitos que aprenderam no jardim da infância. (Hb 5:11,14). 

Particularmente estou cansado de ouvir a Bíblia sendo pregada apenas em forma de alegorias. Sermão típico daqueles que não procuram se aprimorar na arte de elaborar sermões expositivos.  
Cabe então a pergunta, ser aperfeiçoado por quem? 

Abraços. Donizete.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

DEUS É CAPRICHOSO




“Sabemos que em todas as coisas Deus intervém para o bem dos que lhe amam.” (Romanos 8.28).


Ouvimos demasiado esta "celebre" frase: “Não foi a vontade de Deus.” Sequer questionamos ou analisamos o motivo dos nossos fracassos, dos nossos equívocos. É bem mais fácil nos escondermos atrás de um Deus caprichoso que simplesmente, sem palavras, sem respeito, trava o caminho que escolhemos seguir, e ainda nos deixa navegando à mercê da imensidão dos mares, sem bússola, e sob qualquer tempestade.

O nosso Adão continua procurando sempre alguém a quem acusar, jamais assume suas irresponsabilidades, sua falta de sensatez nas escolhas, seu desejo de conquistar sem o mínimo esforço. A nossa Eva continua buscando alguém em quem se apoiar para ver se dá certo. Gastar tempo analisando os prós e os contras é muito trabalhoso. Finalmente quando tudo vier abaixo, "foi esta a vontade do Pai!”

O que seria realmente a vontade de Deus para nós? Se acreditamos em um Deus que é pleno amor, concluímos que Ele tem prazer em nos ver realizados. Felizes com as nossas conquistas idealizadas e sonhadas por nós mesmos. Entenderemos que Ele é aquEle amigo com quem podemos compartilhar os nossos projetos; e como sendo sábio e conhecendo perfeitamente a nossa estrutura, aqui e acolá, Ele vai colocar diante de nós uma opção que se adequaria mais satisfatoriamente às nossas aspirações no nosso cotidiano. Sem embargo, será apenas um parecer, jamais uma imposição.

Por vezes, embora tenhamos apenas conhecimentos teóricos, achamos que as nossas escolhas são mais suficientes e desprezamos a sabedoria deste amigo que, não sendo soberbo, não nos abandonará à mercê de uma má sorte por havermos descartado a sua inteligente opinião. Seguimos teimosos no nosso hipotético entendimento... Às vezes até por caminhos mais rápidos, mas de repente, nosso mundo vai abaixo. Então exclamamos: “Castigo de Deus!”

Mais uma vez estamos equivocados atribuindo a Deus a consequência por nossos tropeços, nossas ações mal planejadas, nossas boas intenções fracassadas. “A vontade de Deus é perfeita para as nossas vidas.”

Quando, deliberadamente, buscamos a direção de Deus para algo que não estamos seguros se realmente é o melhor para nós, embora desejemos que fosse, e Ele nos traz uma resposta negativa, não é porque Ele é caprichoso, nem simplesmente, como muitos equivocadamente afirmam, que “Ele está quebrando o nosso EU”. Antes, porém, é exatamente como já dissemos acima, porque Ele conhece a nossa estrutura e sabe o que é realmente o melhor para nós.

Ouvi a história de uma senhora que quando ia vestir sua pequena filha para escola dominical, colocava sobre a cama dois vestidos e lhe ordenava escolher qual ela queria vestir, após a escolha feita, ela guardava o vestido escolhido e dizia você vai é com este para quebrar o seu EU.

Como muitos de nós agimos como esta senhora citada, tendemos a enxergar Deus da mesma maneira. Deixamos de ser conforme a Sua imagem e semelhança e passamos a construí-Lo à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.

Necessitamos crescer, reconhecer que devemos ser senhores das nossas ações; que podemos encaminhar nossos passos ao nosso bel prazer. Devemos reconhecer que somos livres para dar à nossa vida o sentido que bem entendermos; que estamos sujeitos apenas às leis naturais que regem o universo ou à nossa cultura, e que quanto a Deus, somos livres para tomá-Lo como Senhor ou não das nossas vidas. No entanto, particularmente, e sei que para milhões de outros, a melhor opção para termos uma vida menos trabalhosa e com acertos, é nos submetendo ao senhorio sábio de Cristo.

Guiomar Barba.





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publicado também em http://davidguiomar.blogspot.com/

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Aviso aos navegantes!








Mais um ano acabando...mais um natal chegando...o tempo passa, o tempo voa, e os bons debates continuam numa boa...Quero aproveitar este espaço para desejar um bom natal em família para os confraternos da Logos e Mythos, a todos  visitantes e leitores, e fazer alguns avisos sobre o blog.



Pronto, coloquei uma ordem de postagem. Não coloquei o JL pois ele não respondeu ao convite e parece mesmo não estar com tempo para participar. Por isso, segui a ordem de postagem que foi feita até agora e as próximas a postar serão Mari e Gui. (já que eu acabei postando o texto do(e para) o  Levi. Mas Levi, se quiser, você tem o direito de postar outro texto rs).



Os textos ficarão 4 dias sendo debatidos, e logo no quinto dia, o próximo na lista deve postar. Se não o fizer, por qualquer motivo, segue a listagem! Acho que ninguém deve ser "obrigado" a postar, claro, por isso, se é a sua vez  e você não quiser fazê-lo, avise logo com antecedência para que a dinâmica do blogue não perca solução de continuidade.



Estou muito satisfeito com o teor dos textos até agora. Foram bem debatidos e tiveram muitas visualizações como vocês podem ver nas estatísticas do blog. Espero que o Logos e Mythos  vire referência como um blog aberto a todas as tendências teológicas e onde as discordâncias são motivos de reflexões e não de combates acalorados em defesa de alguma  crença doutrinária. Aqui não há hereges nem ortodoxos, e sim, pessoas com diferentes níveis de fé e de visões que são inteligentes o bastante para concordar ou discordar em bases argumentativas sólidas, ainda que tal base seja o simples "eu creio".



A BIBLIOTECA DO BLOG



Na parte superior direita do blog coloquei uma página onde poderão ser baixadas revistas e livros. Eu estou aos poucos, colocando os meus arquivos digitais (que são muitos!) e quem desejar colaborar com a biblioteca, fique a vontade para fazê-lo. Vale até gibi do TEX (né, Doni???) rssss


Então acho que é isso. Qualquer observação, sugestão ou reclamação, deixe seu comentário. Abraços e beijos. 


Edu







quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

“Ateísmo 2.0” ― Reaviva o Sentimento “Religa-re”










O filósofo Alain de Botton na escadaria da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (foto: Orestes Locatel)




O ESCRITOR E FILÓSOFO ateu, Alain de Botton, natural de Zurique (Suíça) afirmou, recentemente, que o mundo necessita urgentemente de um “ateísmo 2.0”, que deixe de lado a luta histérica para provar que Deus não existe, a fim de tirar proveito do que as religiões têm a oferecer.No seu best seller, “Religião Para Ateus”, lançado esse ano pela editora Intrínseca, ele propõe um resgate de tudo que a religião reivindicou como domínio exclusivo de sua área que deveria pertencer a toda humanidade.

Para exemplificar o seu intento, afirmou: “o que existe de melhor no Natal gira em torno de temas da comunidade, festividade e renovação que, na sua ótica, antecedem o contexto em que foram colocados ao longo dos séculos pelo cristianismo”.

 Em uma recente entrevista à revista VEJA, Alain de Botton, quando perguntado por que achava que os ateus estavam exagerando no intelectualismo e na racionalidade, assim se expressou:

 “O ponto de partida das religiões é que somos crianças e que precisamos de orientação. O mundo secular em geral se ofende com isso. Essa postura ofendida pressupõe que todos os adultos são maduros e devem odiar o didatismo, a orientação e a instrução moral. Mas é claro que somos crianças, grandes crianças que precisam de orientação, de guias que nos lembrem como devemos viver, embora o sistema de educação moderna negue isso, ao nos tratar como seres demasiadamente racionais, razoáveis e controlados. Nós somos muito mais desesperados do que o nosso sistema de educação reconhece. Todos estamos à beira do pânico e do terror quase todo o tempo – e a religião reconhece isso”.

No livro “Religião Para Ateus”, ele descarta os dogmas e o sobrenatural, mas faz uso das ferramentas empregadas pela religião para mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular.

Há descrições ousadas, como esta de retirar da missa e dos cultos elementos para imaginar como deveria ser o modelo do seu restaurante comunitário, que cognominou de Ágape:

“Tal restaurante teria uma porta aberta, uma modesta taxa de entrada e um interior projetado para ser atrativo. A distribuição dos assentos romperia os grupos e as etnias em que normalmente nos segregamos; parentes e casais seriam separados e amigos seriam favorecidos em detrimento de familiares. Todos teriam segurança para se aproximar e dirigir a palavra sem medo de rejeição ou censura. Pelo simples fato de ocuparem o mesmo espaço, os convidados estariam — como em uma igreja — sinalizando sua adesão a um espírito de comunidade e amizade. A proximidade exigida por uma refeição — algo que tem a ver com passar as travessas para os outros, pedir o saleiro a um desconhecido — perturba nossa capacidade de nos agarrar à crença de que estranhos que vestem roupas incomuns e falam com sotaques distintos merecem ser atacados ou mandados para casa [...]. [...] Graças ao restaurante Ágape, nosso medo de estranhos diminuiria. O pobre comeria com o rico, o negro com o branco, o ortodoxo com o secular, o bipolar com o equilibrado, trabalhadores com gerentes, cientistas com artistas.” (Religião para Ateus – páginas 37 e 40).

Freud, foi um que pretendeu, talvez de forma inconsciente, purificar a religião de suas impurezas. Ao sustentar o objetivo do desenvolvimento humano amparados nos seguintes ideais: razão, verdade, logos, amor fraternal, estava, na verdade, corroborando com os princípios éticos de todas as grandes religiões, quer orientais, quer ocidentais, baseadas nos ensinamentos de Confúcio, de Buda, dos profetas e deJesus.

Jung, por sua vez, tratou de transpor para a linguagem psicanalítica, a experiência religiosa de submissão a um poder superior, sucedâneo do pai natural, que no caso da religião é simbolizada por Deus, Javé, Buda, etc, naquilo que foi denominado por ele de"arquétipo patriarcal".

Auguste Comte quis fundar uma religião que não se agarrasse às tradições eclesiásticas, descartando alguns dos seus elementos beligerantes, ao mesmo tempo em que se aproveitou dos aspectos mais relevantes e racionais da Eclésia, para utilizá-los em sua excêntrica teoria.

No fundo, no fundo, não vejo outra coisa em Freud, Jung, Comte e no novato Alain de Botton, que a presença do nobre sentimento RE-LIGARE, afeto este, exteriorizado pela preocupação em compreender as experiências interiores do homem religioso e sua necessidade de rituais de limpeza, cuja finalidade é a de reduzir o próprio sentimento de culpa internalizado em seu ser.

Erich Fromm, discípulo de Freud, certa vez, dissertando sobre o sentimento religioso, disse: "Se focalizarmos nossa atenção na compreensão da realidade humana que preside às doutrinas religiosas, verificaremos que a mesma realidade serve de alicerce a diferentes religiões, e que atitudes humanas opostas se ocultam atrás de uma mesma religião. Por exemplo, a realidade emocional que preside aos ensinamentos deBuda, de Isaías, Cristo, Sócrates e Spinosa, é essencialmente a mesma; o anseio pelo amor, a verdade e justiça caracteriza-a" (Psicanálise e Religião - páginas 77 e 78).

Ora, bem sabemos hoje que, o anseio de paz, de fraternidade e de comunhão entre os diferentes, são ressonâncias de um desejo primitivo de RE-LIGAÇÃO ao "Éden idílico"impresso na gênese de nossa formação (real conceito de religião). Esse sentimento indestrutível arquivado indelevelmente na memória tanto do ateu, quanto do não ateu, como um motor, está sempre funcionando no sentido de expandir os anseios e desejos humanos por um mundo melhor e mais justo.


Levi B. Santos
Guarabira, 04 de dezembro de 2011
publicado originalmente no  Blog do Levi Bronzeado

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Jesus histórico: uma busca interminável










A PRIMEIRA VEZ que eu tomei conhecimento da expressão  “Jesus histórico” fiquei intrigado.  Para mim só existia um Jesus, aquele que é retratado nos evangelhos e nas epístolas paulinas. Ele era Deus, apesar de ser também humano, possuía a mesma natureza de Deus e fazia parte da segunda pessoa da Trindade. Consequentemente, também achava que o Jesus dos evangelhos e o Jesus das epístolas  eram o mesmo.  Não que eu compreendesse esses conceitos plenamente, mas os aceitava pela fé; mas minha fé era do tipo “aceito pela fé mas eles são verdadeiros e não admitem contestação”; vejo hoje que isso é um paradoxo, pois se aceito alguma coisa pela fé, é por que não tenho a certeza cabal empírica e sensível que tal coisa é verdadeira; a certeza da fé é de uma natureza diferente da certeza que eu tenho que se me jogar do  vigésimo andar de um prédio, eu estarei morto. A não ser, é claro, que aconteça alguma variável totalmente inesperada.

DEPOIS QUE DESCOBRI que existia um Jesus histórico que não necessariamente era o mesmo do Jesus da fé, passei a contragosto, a ler tudo o que eu pudesse sobre o tema. Depois de várias leituras, fiquei convencido de que existiu um “Jesus real” e um “Jesus ideal”; um Jesus que foi apenas um homem de visão existencial surpreendente e o Jesus que era(ou se tornou) Deus. Confesso que isso abalou bastante minha fé. Como eu poderia ter a certeza da fé num Jesus que era outro? Um desconhecido pela maioria dos cristãos que nunca ouviram falar dessa discussão  Jesus histórico x o Jesus da fé?

MEU PRÓXIMO PASSO foi tentar conciliar o Jesus da fé, o Jesus que eu cultuava na igreja como Filho de Deus e “verdadeiramente Deus”, o Jesus que provocava em meu coração um transbordante fluxo de alegria e energia, com o Jesus humano, agitador social messiânico  e reformador das tradições da sua religião que eu tinha descoberto. Confesso outra vez que isso não foi ( é) uma tarefa fácil. Sempre que eu ouço uma palavra pastoral onde esse Jesus mítico da fé é tomado como o “Jesus real” fico com vontade de interpelar e dizer que existe  um outro Jesus desconhecido pelos cristãos e que conhecê-lo é imprescindível para aqueles que desejam uma fé mais madura e mais esclarecida.

MAS É POSSÍVEL encontrar esse “Jesus histórico” nas páginas do Novo Testamento? Ao que parece, não totalmente, mas com as ferramentas metodológicas certas, pesquisas arqueológicas e de fontes fora da Bíblia, pode-se vislumbrar esse Jesus humano  que transformou a história do Ocidente. Como já vimos no texto do Doni, equilibrar o entendimento dogmático cristão que Jesus tinha duas naturezas, uma humana e outra divina, ambas operando plenamente na mesma pessoa, não foi estabelecido sem controvérsias que persistem até hoje. Por muito tempo eu não quis saber desse “Jesus histórico humano” pois ele me soava como herético, mas na verdade, descobri que herético mesmo são as diversas ideias que se tem do Jesus da fé; mesmo que sejam “heresias” do ponto de vista da história.

ESPERO NOS MEUS próximos textos abordar esse tema da historicidade do homem Jesus  e do Deus-Homem Jesus; Não pretendo colocá-los cada um de um lado do ringue para brigarem, mas procuro afirmar um sem negar o outro; mesmo que hoje me soe bem estranho dizer que Deus se encarnou num homem se tornando Deus-Homem ou Homem-Deus e que ele foi um judeu, praticante da religião que ele mesmo estabelecera para seu povo.

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Ilustração: revolução.net
Este foi um retrato que pesquisadores fizeram de como Jesus deveria ter sido, baseados em pesquisas históricas e antropológicas do povo israelita do primeiro século. Causa um choque em nós, acostumados com o Jesus europeu, loiro, olhos azuis e cabelos longos escovadinhos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Além do bem e do mal


“E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva” Gênesis cap. 32 vs. 30

Ambigüidade, sagacidade, habilidade de trafegar entre o sagrado e o profano são só algumas expressões que definem um dos mais polêmicos e controversos personagens da Bíblia.

Quem em sua honesta auto-avaliação, nunca teve um dia(s) de Jacó na vida?

Admirado por alguns, desprezado por outros e totalmente insignificante por aqueles que fogem de si mesmo não querendo ou não tendo a coragem de assumir um pouco que seja desse que é um rascunho bem definido de todos nós.

Um típico exemplo de como a escandalosa e indecifrável Graça de Deus pode ser projetada em personalidades nada convencionais e totalmente contraditórias as concepções elaboradas pelas cartilhas da moralidade desprovidas do sentimento de identificação com a própria natureza, equivocada quanto a imagem de si mesmo.

Só muda o endereço e o momento dos acontecimentos, mas a história alimentada por uma biografia que de inusitada passa a ser padronizada e repleta de altos e baixos, assume personalidades bem conhecidas do nosso cotidiano a começar por nós mesmos.

O que fica bem associado entre Jacó e nós, é que somos definidos e absorvidos pelas pessoas prioritariamente pelas nossas visíveis ações, ainda que o todo do contexto e do conteúdo do nosso interior seja a expressão da verdade de quem somos e de como fazemos a leitura da vida com as suas diversas dinâmicas e propostas.

Por esta razão, é que Jacó encarna bem a lição de que “o que se planta é o que se colhe”, independente da consciência ou inconsciência, boas ou más intenções com que traduzimos na prática nossas convicções.

A crise de “to be or not to be: that’s the question” se instala de vez, quando somos visitados por um insight da benevolência Divina, é aí exatamente que entramos numa luta pelas rédeas da nossa existência, que só conseguimos equilibrar quando aceitamos o fato de que A GRAÇA está além do bem e do mal.

Mesmo depois de discernir e ser discernido pela revelação de uma experiência com a DIVINDADE inerente a qualquer mero mortal, o “to be or not to be: that’s the question” continua latente e bem presente nas nossas inclinações que agora “devem satisfação” a duas realidades com potencial de nos conduzir em caminhos de plenitude e novidade e caminhos de obscuridade.

A pergunta que não cala é: E a Graça continua como habitante do meu ser? A resposta é: Sempre!

Sempre porque ela não se decifra com códigos de ética moral, sempre porque ela escandaliza até mesmo os pudores de quem se percebe impróprio e que se sente constrangido com a decisão unilateral do Criador em re-inventar uma relação com sua criatura que era irremediável pela própria consciência.

Jacó é a representação da possibilidade de pacificação da alma a nossa disposição mesmo envolvidos em sentimentos de inadequação, rejeição e menosprezo, pois é aí que reside a GRAÇA da GRAÇA, que não imputa, mas absolve, sempre nos convidando a um relacionamento que nos conduza em escolhas de paz consigo mesmo, como conseqüência da decisão de invocá-la nos sucessos e retrocessos da vida, sabedores de que é o imerecimento mesmo que nos credencia a sermos alvo das mãos estendidas do SER que é PAI.