quarta-feira, 29 de abril de 2015

Trabalho e satisfação no Senhor Jesus




Por Marco Cruz

Um dos vários aspectos de como uma pessoa se vê e também é reconhecida é o seu trabalho, seja ele remunerado ou não.

Hoje em dia, em nossa sociedade, a instabilidade passou a ser uma característica do mercado de trabalho, e cada pessoa é pressionada a estar sempre se atualizando e desenvolvendo novas habilidades e competências para tentar se manter no emprego. Mesmo assim, apesar desses esforços, poderá perdê-lo caso não atinja metas e alvos. Ou seja, a possibilidade de desemprego é uma realidade e fonte de preocupação para muitos de nós. (Agora, imagine acrescentar a isso o fato de sua fé cristã “pesar” contra você na comunidade em que vive e trabalha.)

Entretanto, um outro aspecto do trabalho que passou a ser bastante defendido é que “devemos fazer apenas aquilo de que gostamos, devemos buscar a satisfação total”. Mas outros alegam que buscar somente satisfação em tudo o que fazemos é perigoso.

As Escrituras dão uma resposta completa sobre a ansiedade, a fonte de satisfação e a realização pessoal no trabalho: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança.” Cl 3.23

Porque a Palavra de Deus é válida em qualquer lugar do mundo – independentemente de cultura ou se é pobre ou rico –, tanto nós, cristãos brasileiros, quanto os cristãos perseguidos somos desafiados a ser testemunhas do Senhor no dia a dia e buscarmos a satisfação em Deus, inclusive no ambiente de trabalho.


OBS: O autor é Secretário Geral da Missão Portas Abertas Brasil, sendo que o presente texto é parte do editorial do número 5, ano 33, da revista mensal da organização. Já a ilustração acima eu a extraí de https://blog.guiabolso.com.br/wp-content/uploads/2015/03/felicidade-trabalho.jpg

terça-feira, 14 de abril de 2015

Quando os templos das igrejas se transformam em terríveis “zigurates”...




O livro de Gênesis conta uma breve história sobre a Torre de Babel. Segundo a narrativa, depois do Dilúvio, os descendentes dos filhos de Noé, quando chegaram à região de “Sinear” (sul da Mesopotâmia e do atual Iraque), decidiram construir uma enorme torre para que não se espalhassem. Deus, no entanto, não se agradou daquele projeto e os confundiu para que a humanidade se dispersasse:

No mundo todo havia apenas uma língua, um só modo de falar. Saindo os homens do Oriente, encontraram uma planície em Sinear e ali se fixaram. Disseram uns aos outros: “Vamos fazer tijolos e queimá-los bem”. Usavam tijolos em lugar de pedras, e piche em vez de argamassa. Depois disseram: “Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”. O SENHOR desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. E disse o SENHOR: “Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros”. Assim o SENHOR os dispersou dali por toda a terra e pararam de construir a cidade. Por isso foi chamada de Babel, porque ali o SENHOR confundiu a língua de todo mundo. Dali o SENHOR os espalhou por toda a terra. (Gn 11.1-9; Nova Versão Internacional – NVI)

Supõe-se que a Torre de Babel tenha sido um zigurate bem semelhantes aos que foram construídos na Babilônia durante o terceiro milênio antes de Cristo. O zigurate era um templo em forma de pirâmides terraplanadas e que tinha vários andares com adornos de possível significação cosmológica. Através do edifício, os povos da Mesopotâmia buscavam estabelecer uma conexão vertical entre a terra e os céus e, ao mesmo tempo, impunha-se uma conexão horizontal entre a cidade e as terras. Acreditava-se que, no topo do templo, a divindade descia para se encontrar com os seus seguidores.

Talvez a Torre de Babel pudesse ter sido um local de adoração a Marduque, deus babilônico considerado o protetor da cidade. Ou então, ainda não tinha qualquer ligação com a idolatria religiosa dos sumérios, mas talvez fosse o centro de um império que explorasse política e economicamente a população já que o capítulo anterior de Gênesis conta sobre o reino de Ninrode:

Cuxe gerou também a Ninrode, o primeiro poderoso na terra. Ele foi o mais valente dos caçadores, e por isso se diz: Valente como Ninrode”. No início o seu reino abrangia Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinear. Dessa terra ele partiu para a Assíria, onde fundou Nínive, Reobote-Ir, Calá e Resém, que fica entre Nínive e Calá, a grande cidade. (Gn 10.8-12; NVI)

Não importa o que possa ter sido historicamente a Torre de Babel, mas o certo é que aquela obra contrariava os propósitos de Deus e a sua ordem para que os homens se espalhassem pela superfície da terra (Gn 1.28 e 9.1,7). Por isso, o SENHOR trouxe-lhes o desentendimento afim de que o tal projeto não fosse adiante.

Mas o que a Torre de Babel tem a ver com as igrejas de hoje?

Eu diria que muita coisa. Principalmente quando nos deparamos com mega templos sendo construídos por certas instituições religiosas que visam em primeiro lugar o lucro, os interesses políticos e o crescimento em número de membros ao invés de verdadeiramente estarem alcançando almas para viverem o Reino de Deus. E, dentro deste contexto, projetos de igrejas faraônicas tornam-se excelentes oportunidades para se gastar os recursos das ofertas, as quais são obtidas através de insistentes campanhas milionárias com ilusórias promessas de riquezas e prosperidade para aqueles que contribuírem.

Um aspecto muito negativo que vejo nesses mega templos é a falta de comunhão entre o seus frequentadores. Tais igrejas geralmente são fortemente dominadas por um líder autoritário ou do contrário acabam se tornando uma Babel onde ninguém mais se entende (em Gênesis há um intencional trocadilho no texto do idioma original hebraico entre Babel e o vocábulo balal que significa “confusão” ou “mistura”). Os membros envolvidos com algum ministério passam a se tornar bajuladores do pastor e às vezes surge até um sentimento de divisão e de inveja entre as pessoas, ao invés de cooperação.

De modo nenhum quero me tornar preconceituoso contra as igrejas maiores como se todas elas fossem sempre erradas, manipuladoras e contrárias à obra de Deus. Porém, não me parece que muitos projetos de construção de grandes templos estejam de acordo com aquilo que os cristãos deveriam estar praticando, isto é, o “Ide” da grande comissão ordenada por Jesus.

Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”. (Mateus 28.28-20; NVI)

E disse-lhes: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”. (Marcos 16.15-18; NVI)

Ele lhes respondeu: “Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade. Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”. (Atos dos Apóstolos 1.7-8; NVI)

Infelizmente, encontra-se hoje igrejas que quase não investem em missões. Algumas enviam seus missionários para outras cidades e países mas, no meio de trabalho, suspendem a ajuda financeira. Outras igrejas gastam tempo e recursos apenas para administrarem a estrutura que criaram, tornando-se lentas demais para desenvolverem projetos evangelísticos eficientes até mesmo nos locais onde estão edificadas de modo que suas atividades acabam se restringindo na prática aos “cultos” da semana e programas nos meios de comunicação, sufocando outras iniciativas.

Ora, até que ponto a institucionalização está sendo útil à obra de Deus? Será que o excesso de estrutura já não está atrapalhando a Igreja no Brasil?

Na edição do volume 28, n.º 9 da revista da Missão Portas Abertas, há uma interessante matéria que fala acerca da China. A reportagem é uma convocação para que os cristãos se mobilizem em projetos de doação de Bíblias para os chineses. E, no texto “Mais Bíblias para a China?”, lemos uma discussão sobre quantos cristãos existem de fato naquele país:

“(...) A China é o país mais populoso do mundo, e, pela graça de Deus, o número de pessoas que se convertem a cada ano também é grande. Por causa do sistema de igrejas registradas (igrejas aprovadas pelo governo) e não registradas (igrejas ilegais), fica difícil saber exatamente qual é o real número de cristãos que existe no país. E este é um fator que faz com que existam duas versões sobre a distribuição de Bíblias na China. Dietrich Bauer, membro da Sociedade Bíblica da Alemanha, diz que o número oficial de cristãos na China é de 25 milhões. A pesquisa feita não inclui os membros de igrejas não registradas no governo. Se incluísse, este número chegaria a 100 milhões. Bauer declara que a falta de Bíblias não é fruto do comunismo, mas da escolha dos cristãos em não querer fazer parte do sistema de igrejas registradas pelo governo, já que só quem é registrado pode receber uma cópia das Escrituras. A Sociedade Bíblica do Reino Unido já em outra visão. Segundo sua pesquisa, o número de cristãos chega a 27 milhões, mas afirma que pode ser que haja mais de 90 milhões se os que fazem parte de igrejas não registradas fossem contados (…)”

Achei curioso que a maior parte dos cristãos chineses se congregam em igrejas clandestinas, mesmo tendo a possibilidade de serem institucionalmente reconhecidos. Mas será que não está sendo melhor assim?

Aqui no Brasil, onde o número de evangélicos não supera a quantidade de cristãos chineses, o que não faltam são nomenclaturas de igrejas. Se bobear, diariamente um ou mais templos são inaugurados e já não se tem a conta de quantas denominações existem ao todo. Mas onde é que estão as pessoas? O que elas andam fazendo para a obra de Deus? Ou em que ministério estão realmente atuando? Quais são suas reais expectativas? O que as motivam no dia a dia?

Penso que nós, os cristãos brasileiros, deveríamos nos importar menos com o trabalho institucional e focarmos mais no amor ao próximo. Ao invés de termos como maior objetivo o aumento do número de membros da nossa denominação ou do templo onde nos congregamos, por que não passamos a cultivar a nossa comunhão com mais simplicidade, sem manipulações ou jogos de poder? E pra que tanto apego ao dinheiro e coisas materiais? Será que a Igreja de Atos dos Apóstolos viveu uma utopia?

Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um. (Atos 4.32-35; NVI)

Depois do Brasil ter enfrentado o regime militar, vive-se hoje na ditadura do individualismo. Nosso povo perdeu o senso de comunidade e isto, lamentavelmente, reflete dentro das nossas igrejas. Logo, é preciso que resgatemos a vida comunitária, o que pode ser melhor experimentado dentro das congregações menores espalhadas pelos bairros e nas células, desde que fiquem livres das pressões centralizadoras das denominações.

Como seremos cristãos na comunidade?! Parece-me que este seja o grande desafio dos tempos atuais em que a Igreja (o povo de Deus) é chamado para sair da máscara dos grandes templos para levar o Evangelho a quem está no lado de fora. Ou seja, ao invés de chamarmos insistentemente as pessoas para virem nas reuniões de nossas igrejas, nós é que precisamos trazer a Igreja até elas, mostrando que nos importamos de verdade com o próximo, não nos esquecendo que há outros meios de evangelizar sem o uso da palavra.

Que Deus traga direções à sua Igreja no Brasil e sejamos capazes de obedecê-las!


OBS: A ilustração acima sobre a Torre de Babel é uma obra do pintor flamengo Pieter Bruegel, o Velho (1525/1530 — 1569), a qual extraí do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Babel#/media/File:Pieter_Bruegel_the_Elder_-_The_Tower_of_Babel_%28Vienna%29_-_Google_Art_Project_-_edited.jpg

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Reflexões sobre o Livro de Rute




Uma interpretação do Livro de Rute tem causado algumas polêmicas no meio cristão ultimamente. Trata-se da passagem em que Rute, seguindo as orientações de sua sogra, Noemi, aproxima-se de Boaz com uma certa dose de ousadia, sendo sugerido que talvez eles tivessem chegado a um envolvimento sexual antes do casamento.

Quase todos rejeitam a tese, mas há uma minoria de estudiosos fora da gaiola os quais afirmam que sim. Entretanto, vejamos o que diz a tradução do nosso texto bíblico em português, segundo a Nova Versão Internacional (NVI):

“Certo dia, Noemi, sua sogra, lhe disse: “Minha filha, tenho que procurar um lar seguro, para a sua felicidade. Boaz, senhor das servas com quem esteve, é nosso parente próximo. Esta noite ele estará limpando cevada na eira. Mas não deixe que ele perceba você até que tenha comido e bebido. Quando ele for dormir, note bem o lugar em que ele se deitar. Então vá, descubra os pés dele e deite-se. Ele lhe dirá o que fazer”. Respondeu Rute: Farei tudo o que você está me dizendo”. Então ela desceu para a eira e fez tudo o que a sua sogra lhe tinha recomendado. Quando Boaz terminou de comer e beber, ficou alegre e foi deitar-se perto do monte de grãos. Rute aproximou-se sem ser notada, descobriu os pés dele, e deitou-se. No meio da noite, o homem acordou de repente. Ele se virou e assustou-se ao ver uma mulher deitada a seus pés. “Quem é você?”, perguntou ele. “Sou sua serva Rute”, disse ela. “Estenda a sua capa sobre a sua serva, pois o senhor é resgatador.” (3.1-9)

Igualmente, na edição revista e atualizada de João Ferreira de Almeida, talvez a versão da Bíblia mais utilizada no Brasil hoje em dia, a tradução também manteve a expressão “descobriu os pés”, conforme se lê no versículo 7: “Havendo, pois, Boaz comido e bebido e estando já de coração um tanto alegre, veio deitar-se ao pé de um monte de cereais; então, chegou ela de mansinho, e lhe descobriu os pés, e se deitou.”

Com toda sinceridade (não escondo a minha falta de conhecimento a respeito do idioma original das Escrituras hebraicas), jamais posso aqui afirmar cabalmente o que significa o termo “descobrir os pés”, mas continuo guardando minhas reservas sobre a certeza das alegações quanto à suposta relação sexual entre Boaz e Rute que alguns reputam ter ocorrido naquele dia em que todos estavam comemorando colheita da cevada na eira do bisavô do rei Davi.

Todo estudo bíblico requer cautela! E, sendo assim, considero prudente investigarmos o contexto que envolvem os acontecimentos da época afim de que possamos buscar conclusões fundamentadas.

O Livro de Rute fala da história de um casal com dois filhos que migrou da cidade judia de Belém para o país de Moabe (a fértil região da Transjordânia). Por causa de um período de fome, Elimeleque deixou a terra da promessa e veio a falecer num país estrangeiro. Seus dois filhos, Malom e Quiliom, ao invés de seguirem o costume de procurar esposas israelitas, casaram-se com mulheres moabitas, Rute e Orfa. Entretanto, Malom e Quiliom também vieram a morrer de modo que Noemi tornou-se uma viúva sem filhos.

Naqueles tempos, a vida de uma viúva não era nada fácil. Se ela fosse jovem ainda poderia arranjar um novo casamento. Se tivesse filhos, seu sustento dependeria da assistência de seu descendente. Mas, se fosse uma mulher idosa e sem filhos, poucas chances teria de sobreviver, ainda mais num país estrangeiro onde lhe faltariam parentes mais próximos para prestar algum tipo de ajuda. E, por causa disto, muitos órfãos e viúvas passavam necessidades numa sociedade onde as mulheres tinham poucos direitos e ainda não disputavam o mercado de trabalho com os homens.

Prevenindo determinadas situações de risco social, a lei mosaica adotava mecanismos que evitariam o desamparo total às viúvas sem filhos, impondo à própria família do marido o dever de prestar a assistência. Deste modo, a Torá acolheu o costume do casamento de levirato que já existia entre os povos do Oriente, assim determinando em Deuteronômio:

“Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem filhos, então, a mulher do que morreu não se casará com outro estranho, fora da família; seu cunhado a tomará, e a receberá por mulher, e exercerá para com ela a obrigação de cunhado. O primogênito que ela lhe der será sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o nome deste não se apague de Israel. Porém, se o homem não quiser tomar sua cunhada, subirá esta à porta, aos anciãos, e dirá: Meu cunhado recusa suscitar a seu irmão nome em Israel; não quer exercer para comigo a obrigação de cunhado. Então, os anciãos da sua cidade devem chamá-lo e falar-lhe; e, se ele persistir e disser: Não quero tomá-la, então sua cunhada se chegará a ele na presença dos anciãos, e lhe descalçará a sandália do pé e lhe cuspirá no rosto, e protestará, e dirá: Assim se fará ao homem que não quer edificar a casa de seu irmão; e o nome de sua casa se chamará em Israel: A casa do descalçado.” (ARA, Dt 25.5-10)

Voltando à história de Rute, eis que a narrativa prossegue informando que Noemi resolveu retornar para sua terra em Belém de Judá. Orfa conformou-se em deixá-la e permaneceu em Moabe, na certa retornando para a casa dos seus pais. Rute, porém, insistiu em acompanhar sua sogra, escolhendo o seu povo e também o seu Deus, o que foi uma verdadeira decisão de fé, sem saber o que lhe aguardaria na terra de seu falecido marido.

Pobre, retornou Noemi para Belém e, como não tinha recursos para comprar alimento, Rute precisou pedir aos fazendeiros da redondeza que lhe deixasse apanhar as espigas de cevada caídas pelo campos, conforme outro mecanismo de proteção social previsto por Moisés (Levítico 19.9-10; 23.22). Por acaso, Rute acabou entrando justamente nas terras de um parente do marido de Noemi que se chamava Boaz.

Tendo notado a presença de Rute nas suas roças de cereais, Boaz agiu generosamente com ela, permitindo não só a sua permanência naquelas terras como lhe ofereceu segurança, água para beber (em regiões do Oriente Médio este é um bem precioso) e alimento em quantidade suficiente tanto para Rute quanto para Noemi. Tal postura demonstra que Boaz era realmente um homem justo, pois conhecia também os seus deveres sociais como um parente próximo que tinha a obrigação de amparar pessoas do seu meio familiar nas situações críticas.


“Assim, passou ela [Rute] à companhia das servas de Boaz, para colher, até que a sega da cevada e do trigo se acabou; e ficou com a sua sogra.” (Rt 2.23)

Bem, com as explicações dadas até aqui, penso que temos uma certa base para compreendermos um pouco do que pode ter se passado no polêmico episódio do capítulo 3 do Livro de Rute, quando ela, ousadamente, descobre os pés de Boaz e se deita ao seu lado na eira.

Apesar do profeta Oseias ter se referido às eiras de cereais como lugares onde ocorriam frequentes imoralidades sexuais (Os 9.1), provavelmente por ocasião das festas de colheita durante a primavera do Hemisfério Norte, parece ser incompatível com o estilo de vida de um homem piedoso como Boaz incentivar o pecado da prostituição dentro de suas terras. E o próprio texto comprova a sua integridade quando Boaz havia dado ordens aos seus servos para que não a molestassem (Rt 2.9) e ainda se espantou quando acordou com uma mulher deitada aos seus pés (Rt 3.8).

Considerando uma possível interpretação literal, o ato de Rute ter descoberto os pés de Boaz pode ter sido um convite de casamento, lembrando-o acerca das obrigações quanto ao levirato, conforme a passagem citada em Deuteronômio 25.5-10. Numa época em que poucos conheciam a escrita, as pessoas também se comunicavam através de atitudes simbólicas de modo que a retirada dos calçados de Boaz por Rute, enquanto ele dormia, poderiam simbolizar um alerta quanto aos compromissos do parente próximo com a família dos falecidos Elimeleque e Malom.

Inegavelmente, a atitude de Rute foi bem diferente das práticas feitas pelas filhas de Ló (Gn 19.30-38), as quais, precisando gerar descendentes após a destruição de Sodoma, decidiram embriagar o próprio pai para dele conceberem, o que explica a origem incestuosa dos moabitas. O envolvimento entre Boaz e Rute baseou-se num relacionamento de compromisso e de amor, tendo tudo ocorrido conforme os planos de Deus. E, mesmo que Rute tenha se aproximado de Boaz com ousadia naquela eira, o que importa?

Na atualidade, infelizmente temos visto o oposto nas relações entre homens e mulheres. As pessoas trocam determinados tipos de afeto e se relacionam sexualmente sem que haja qualquer tipo de compromisso. Sem estarem de fato se amando, as pessoas “ficam” numa só ocasião e depois um descarta o outro como se fosse objeto de consumo. Já não se vê mais santidade nos namoros e a relação sexual tornou-se algo banalizado, praticado num contexto meramente carnal onde se busca apenas o prazer.

Nos dias de hoje, para muita gente o casamento tornou-se mais uma celebração festiva do que um acontecimento de importância espiritual. Por motivo de tradição, é comum as pessoas casarem-se nas igrejas, mas nem sempre elas têm a consciência do compromisso que aquela união representa. Com pouco tempo de matrimônio, muita gente quebra a aliança com seu cônjuge pelos mais fúteis motivos.

Tenho pra mim, que o casamento não acontece apenas dentro das igrejas ou nos cartórios de registro civil. Em termos espirituais, basta que haja a união entre um homem e uma mulher para que o casamento ocorra perante Deus. Daí, tenho seguido a interpretação de que pessoas que já vivem em união estável devem ser acolhidas como se casadas fossem nas nossas comunidades cristãs, de maneira que devemos reconhecer e prestigiar a aliança já existente entre elas.

Alguém talvez possa perguntar: a Bíblia não rejeita a fornicação? Sim e este vocábulo é expresso nas nossas traduções em português, mas é preciso distinguir um casal que não assinou os papéis matrimoniais do comportamento imoral adotado pelo mundo em que pessoas solteiras transam sem nenhum compromisso umas com as outras. E, neste sentido, se houve algum envolvimento sexual entre Rute e Boaz antes do matrimônio, o que não acredito, obviamente que, em tal hipótese, estaríamos diante de uma situação bem diferente do que se vê hoje em dia por aí. Na cultura judaica daqueles tempos remotos, até a violação de um noivado era equiparada ao crime de adultério, muito embora o sexo antes do matrimônio entre pessoas desimpedidas não configurasse delito algum. Apenas era algo contrário aos costumes sociais.


OBS: A ilustração inserida no artigo refere-se ao quadro Rute e Boaz pintado por Julius Schnorr von Carolsfeld (1828).

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O homem que ajudou Jesus a carregar a cruz



"E, como o conduzissem, constrangendo um cireneu, chamado Simão, que vinha do campo, puseram-lhe a cruz sobre os ombros, para que a levasse após Jesus." (Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículo 26; versão e tradução ARA)

Nas narrativas sobre o martírio de nosso Senhor, os evangelhos falam de um curioso personagem que teria acompanhado Jesus em sua dolorosa caminhada rumo ao Calvário. Trata-se de Simão de Cirene.

Normalmente era o próprio condenado quem carregava a parte horizontal de sua cruz, o que, de acordo com a História, significava um tipo de submissão forçada da pessoa ao poderio romano. Também seria uma forma de humilhar mais ainda o indivíduo sentenciado. Principalmente se o apenado fosse considerado um revoltoso.

Supõe-se que a esta altura Jesus já estivesse fisicamente enfraquecido por causa dos pesados açoites que costumavam anteceder as crucificações, sendo que a barra por ele transportada poderia pesar até uns vinte quilos. A informação sobre o castigo perverso de açoitamento consta relatado no texto do 2º Evangelho (Mc 15:15). Assim, os soldados obrigaram que um homem circunstancialmente presente carregasse o madeiro indo atrás do Senhor.

É interessante como que o autor sagrado fala de um personagem que, mesmo fazendo um papel secundário, teve o seu nome expressamente mencionado. Isto nos leva a considerar que este Simão, cujos filhos o relato paralelo de Marcos diz se chamarem Alexandre e Rufo (Mc 15:21), provavelmente veio a se tornar uma personalidade conhecida na Igreja Primitiva junto com os membros de sua casa. Aliás, é no mínimo intrigante o fato de Paulo, nas saudações que fez em sua carta dirigida aos crentes de Roma (Rm 16:13), alistar justamente o nome de um Rufo e ainda ressaltar o acolhimento da mãe deste .

Ao vir do campo para a cidade, Simão nem poderia imaginar o destino que o aguardava naquele trajeto. O homem simplesmente estava passando e os soldados resolveram abordá-lo para que prestasse um serviço obrigatório. Aliás, o conquistador estrangeiro, agindo com certo desprezo e arrogância em relação aos povos dominados, parecia não respeitar limites para dispor dos súditos do Império Romano em proveito de suas atividades, impondo-lhes absurdas corveias.

Outro detalhe interessante acerca desse Simão seria sobre a sua origem/procedência. Diz o texto que ele era de Cirene, um porto do Norte da África, situado na atual Líbia. Provavelmente ele fosse um judeu que deveria ter vindo a Jerusalém para participar da Páscoa que é uma das principais festas dos israelitas. Percorreu longas distâncias por mar e por terra e teve uma inesperada experiência quando chegou na Palestina, o que acredito tê-lo marcado profundamente.

É certo que a imaginação nos permite elaborarmos os mais belos contos envolvendo esse personagem, conforme talvez se encontre na literatura apócrifa, mas todas as narrativas que forem inventadas logicamente nos levariam a meditarmos sobre a sua conversão pessoal. Pois, se pensarmos bem, Simão precisou desenvolver fé para encontrar num crucificado o seu Senhor e conseguir entender as coisas além dos acontecimentos visíveis.

Se ele e Jesus vieram a se comunicar verbalmente, não sabemos. Tenho pra mim que isto dificilmente aconteceu porque não estavam andando lado a lado e o Mestre já deveria ter se enfraquecido pela perda de sangue durante o duro castigo com açoites. Só que nem sempre nos expressamos apenas com palavras. Atitudes e gestos podem penetrar profundamente no coração do receptor. Basta que o destinatário da mensagem encontre-se suficientemente aberto para ela.

Mais um detalhe que visualizo neste episódio teria sido que Simão de Cirene figurou ali a autêntica natureza do discipulado de Cristo, a qual consiste em tomarmos a cruz e seguirmos a Jesus (Lc 9:23; 14:27). Acredito que a sua mente só veio a compreender aqueles acontecimentos mais tarde e a experiência que teve indo atrás do Mestre na certa contribuiu para edificar a vida dos demais irmãos na Igreja. Se nenhum dos apóstolos conseguiu seguir o Senhor até ali (eis aí um bom contraste em relação às impensadas palavras ditas por Simão Pedro de Lc 22:33), sabemos que Deus providenciou um outro companheiro para aliviar Jesus naquele difícil momento.

Finalmente, devemos considerar que o ato praticado por Simão de Cirene não ficou esquecido. Aquele encargo que os romanos impuseram a um transeunte fizeram dele um personagem privilegiado na memória da Igreja. Seu nome veio a se tornar conhecido entre os cristãos, ensinando-nos sobre a importância de ajudarmos uns aos outros a levarmos as nossas cargas. Aprendemos assim que devemos valorizar mais as oportunidades concedidas pela vida quando, circunstancialmente, precisamos ajudar o irmão a carregar a sua cruz. É quando entramos na história da vida de alguém e Deus nos usa para que o sofrimento do outro se torne suportável.


OBS: A ilustração acima refere-se a uma escultura do artista alemão Valentin Kraus (1873-1941) retratando Simão de Cirene ajudando Jesus a carregar a cruz rumo ao calvário. A obra encontra-se na Igreja de São Nicolau, em Munique, Alemanha. A foto é atribuída a Andreas Praefcke, sendo material dedicado ao domínio público e disponibilizado no acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:M%C3%BCnchen_Alt%C3%B6ttinger_Kapelle_Kreuzweg_05.jpg