quinta-feira, 2 de abril de 2015

O homem que ajudou Jesus a carregar a cruz



"E, como o conduzissem, constrangendo um cireneu, chamado Simão, que vinha do campo, puseram-lhe a cruz sobre os ombros, para que a levasse após Jesus." (Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículo 26; versão e tradução ARA)

Nas narrativas sobre o martírio de nosso Senhor, os evangelhos falam de um curioso personagem que teria acompanhado Jesus em sua dolorosa caminhada rumo ao Calvário. Trata-se de Simão de Cirene.

Normalmente era o próprio condenado quem carregava a parte horizontal de sua cruz, o que, de acordo com a História, significava um tipo de submissão forçada da pessoa ao poderio romano. Também seria uma forma de humilhar mais ainda o indivíduo sentenciado. Principalmente se o apenado fosse considerado um revoltoso.

Supõe-se que a esta altura Jesus já estivesse fisicamente enfraquecido por causa dos pesados açoites que costumavam anteceder as crucificações, sendo que a barra por ele transportada poderia pesar até uns vinte quilos. A informação sobre o castigo perverso de açoitamento consta relatado no texto do 2º Evangelho (Mc 15:15). Assim, os soldados obrigaram que um homem circunstancialmente presente carregasse o madeiro indo atrás do Senhor.

É interessante como que o autor sagrado fala de um personagem que, mesmo fazendo um papel secundário, teve o seu nome expressamente mencionado. Isto nos leva a considerar que este Simão, cujos filhos o relato paralelo de Marcos diz se chamarem Alexandre e Rufo (Mc 15:21), provavelmente veio a se tornar uma personalidade conhecida na Igreja Primitiva junto com os membros de sua casa. Aliás, é no mínimo intrigante o fato de Paulo, nas saudações que fez em sua carta dirigida aos crentes de Roma (Rm 16:13), alistar justamente o nome de um Rufo e ainda ressaltar o acolhimento da mãe deste .

Ao vir do campo para a cidade, Simão nem poderia imaginar o destino que o aguardava naquele trajeto. O homem simplesmente estava passando e os soldados resolveram abordá-lo para que prestasse um serviço obrigatório. Aliás, o conquistador estrangeiro, agindo com certo desprezo e arrogância em relação aos povos dominados, parecia não respeitar limites para dispor dos súditos do Império Romano em proveito de suas atividades, impondo-lhes absurdas corveias.

Outro detalhe interessante acerca desse Simão seria sobre a sua origem/procedência. Diz o texto que ele era de Cirene, um porto do Norte da África, situado na atual Líbia. Provavelmente ele fosse um judeu que deveria ter vindo a Jerusalém para participar da Páscoa que é uma das principais festas dos israelitas. Percorreu longas distâncias por mar e por terra e teve uma inesperada experiência quando chegou na Palestina, o que acredito tê-lo marcado profundamente.

É certo que a imaginação nos permite elaborarmos os mais belos contos envolvendo esse personagem, conforme talvez se encontre na literatura apócrifa, mas todas as narrativas que forem inventadas logicamente nos levariam a meditarmos sobre a sua conversão pessoal. Pois, se pensarmos bem, Simão precisou desenvolver fé para encontrar num crucificado o seu Senhor e conseguir entender as coisas além dos acontecimentos visíveis.

Se ele e Jesus vieram a se comunicar verbalmente, não sabemos. Tenho pra mim que isto dificilmente aconteceu porque não estavam andando lado a lado e o Mestre já deveria ter se enfraquecido pela perda de sangue durante o duro castigo com açoites. Só que nem sempre nos expressamos apenas com palavras. Atitudes e gestos podem penetrar profundamente no coração do receptor. Basta que o destinatário da mensagem encontre-se suficientemente aberto para ela.

Mais um detalhe que visualizo neste episódio teria sido que Simão de Cirene figurou ali a autêntica natureza do discipulado de Cristo, a qual consiste em tomarmos a cruz e seguirmos a Jesus (Lc 9:23; 14:27). Acredito que a sua mente só veio a compreender aqueles acontecimentos mais tarde e a experiência que teve indo atrás do Mestre na certa contribuiu para edificar a vida dos demais irmãos na Igreja. Se nenhum dos apóstolos conseguiu seguir o Senhor até ali (eis aí um bom contraste em relação às impensadas palavras ditas por Simão Pedro de Lc 22:33), sabemos que Deus providenciou um outro companheiro para aliviar Jesus naquele difícil momento.

Finalmente, devemos considerar que o ato praticado por Simão de Cirene não ficou esquecido. Aquele encargo que os romanos impuseram a um transeunte fizeram dele um personagem privilegiado na memória da Igreja. Seu nome veio a se tornar conhecido entre os cristãos, ensinando-nos sobre a importância de ajudarmos uns aos outros a levarmos as nossas cargas. Aprendemos assim que devemos valorizar mais as oportunidades concedidas pela vida quando, circunstancialmente, precisamos ajudar o irmão a carregar a sua cruz. É quando entramos na história da vida de alguém e Deus nos usa para que o sofrimento do outro se torne suportável.


OBS: A ilustração acima refere-se a uma escultura do artista alemão Valentin Kraus (1873-1941) retratando Simão de Cirene ajudando Jesus a carregar a cruz rumo ao calvário. A obra encontra-se na Igreja de São Nicolau, em Munique, Alemanha. A foto é atribuída a Andreas Praefcke, sendo material dedicado ao domínio público e disponibilizado no acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:M%C3%BCnchen_Alt%C3%B6ttinger_Kapelle_Kreuzweg_05.jpg

Um comentário:

  1. Afim de manter o blogue atualizado, compartilho aqui o artigo que havia publicado em minha página dia 02/12/2013, o qual é pertinente ao período da Páscoa.

    Um bom feriado a todos!

    ResponderExcluir