quinta-feira, 9 de abril de 2015

Reflexões sobre o Livro de Rute




Uma interpretação do Livro de Rute tem causado algumas polêmicas no meio cristão ultimamente. Trata-se da passagem em que Rute, seguindo as orientações de sua sogra, Noemi, aproxima-se de Boaz com uma certa dose de ousadia, sendo sugerido que talvez eles tivessem chegado a um envolvimento sexual antes do casamento.

Quase todos rejeitam a tese, mas há uma minoria de estudiosos fora da gaiola os quais afirmam que sim. Entretanto, vejamos o que diz a tradução do nosso texto bíblico em português, segundo a Nova Versão Internacional (NVI):

“Certo dia, Noemi, sua sogra, lhe disse: “Minha filha, tenho que procurar um lar seguro, para a sua felicidade. Boaz, senhor das servas com quem esteve, é nosso parente próximo. Esta noite ele estará limpando cevada na eira. Mas não deixe que ele perceba você até que tenha comido e bebido. Quando ele for dormir, note bem o lugar em que ele se deitar. Então vá, descubra os pés dele e deite-se. Ele lhe dirá o que fazer”. Respondeu Rute: Farei tudo o que você está me dizendo”. Então ela desceu para a eira e fez tudo o que a sua sogra lhe tinha recomendado. Quando Boaz terminou de comer e beber, ficou alegre e foi deitar-se perto do monte de grãos. Rute aproximou-se sem ser notada, descobriu os pés dele, e deitou-se. No meio da noite, o homem acordou de repente. Ele se virou e assustou-se ao ver uma mulher deitada a seus pés. “Quem é você?”, perguntou ele. “Sou sua serva Rute”, disse ela. “Estenda a sua capa sobre a sua serva, pois o senhor é resgatador.” (3.1-9)

Igualmente, na edição revista e atualizada de João Ferreira de Almeida, talvez a versão da Bíblia mais utilizada no Brasil hoje em dia, a tradução também manteve a expressão “descobriu os pés”, conforme se lê no versículo 7: “Havendo, pois, Boaz comido e bebido e estando já de coração um tanto alegre, veio deitar-se ao pé de um monte de cereais; então, chegou ela de mansinho, e lhe descobriu os pés, e se deitou.”

Com toda sinceridade (não escondo a minha falta de conhecimento a respeito do idioma original das Escrituras hebraicas), jamais posso aqui afirmar cabalmente o que significa o termo “descobrir os pés”, mas continuo guardando minhas reservas sobre a certeza das alegações quanto à suposta relação sexual entre Boaz e Rute que alguns reputam ter ocorrido naquele dia em que todos estavam comemorando colheita da cevada na eira do bisavô do rei Davi.

Todo estudo bíblico requer cautela! E, sendo assim, considero prudente investigarmos o contexto que envolvem os acontecimentos da época afim de que possamos buscar conclusões fundamentadas.

O Livro de Rute fala da história de um casal com dois filhos que migrou da cidade judia de Belém para o país de Moabe (a fértil região da Transjordânia). Por causa de um período de fome, Elimeleque deixou a terra da promessa e veio a falecer num país estrangeiro. Seus dois filhos, Malom e Quiliom, ao invés de seguirem o costume de procurar esposas israelitas, casaram-se com mulheres moabitas, Rute e Orfa. Entretanto, Malom e Quiliom também vieram a morrer de modo que Noemi tornou-se uma viúva sem filhos.

Naqueles tempos, a vida de uma viúva não era nada fácil. Se ela fosse jovem ainda poderia arranjar um novo casamento. Se tivesse filhos, seu sustento dependeria da assistência de seu descendente. Mas, se fosse uma mulher idosa e sem filhos, poucas chances teria de sobreviver, ainda mais num país estrangeiro onde lhe faltariam parentes mais próximos para prestar algum tipo de ajuda. E, por causa disto, muitos órfãos e viúvas passavam necessidades numa sociedade onde as mulheres tinham poucos direitos e ainda não disputavam o mercado de trabalho com os homens.

Prevenindo determinadas situações de risco social, a lei mosaica adotava mecanismos que evitariam o desamparo total às viúvas sem filhos, impondo à própria família do marido o dever de prestar a assistência. Deste modo, a Torá acolheu o costume do casamento de levirato que já existia entre os povos do Oriente, assim determinando em Deuteronômio:

“Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem filhos, então, a mulher do que morreu não se casará com outro estranho, fora da família; seu cunhado a tomará, e a receberá por mulher, e exercerá para com ela a obrigação de cunhado. O primogênito que ela lhe der será sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o nome deste não se apague de Israel. Porém, se o homem não quiser tomar sua cunhada, subirá esta à porta, aos anciãos, e dirá: Meu cunhado recusa suscitar a seu irmão nome em Israel; não quer exercer para comigo a obrigação de cunhado. Então, os anciãos da sua cidade devem chamá-lo e falar-lhe; e, se ele persistir e disser: Não quero tomá-la, então sua cunhada se chegará a ele na presença dos anciãos, e lhe descalçará a sandália do pé e lhe cuspirá no rosto, e protestará, e dirá: Assim se fará ao homem que não quer edificar a casa de seu irmão; e o nome de sua casa se chamará em Israel: A casa do descalçado.” (ARA, Dt 25.5-10)

Voltando à história de Rute, eis que a narrativa prossegue informando que Noemi resolveu retornar para sua terra em Belém de Judá. Orfa conformou-se em deixá-la e permaneceu em Moabe, na certa retornando para a casa dos seus pais. Rute, porém, insistiu em acompanhar sua sogra, escolhendo o seu povo e também o seu Deus, o que foi uma verdadeira decisão de fé, sem saber o que lhe aguardaria na terra de seu falecido marido.

Pobre, retornou Noemi para Belém e, como não tinha recursos para comprar alimento, Rute precisou pedir aos fazendeiros da redondeza que lhe deixasse apanhar as espigas de cevada caídas pelo campos, conforme outro mecanismo de proteção social previsto por Moisés (Levítico 19.9-10; 23.22). Por acaso, Rute acabou entrando justamente nas terras de um parente do marido de Noemi que se chamava Boaz.

Tendo notado a presença de Rute nas suas roças de cereais, Boaz agiu generosamente com ela, permitindo não só a sua permanência naquelas terras como lhe ofereceu segurança, água para beber (em regiões do Oriente Médio este é um bem precioso) e alimento em quantidade suficiente tanto para Rute quanto para Noemi. Tal postura demonstra que Boaz era realmente um homem justo, pois conhecia também os seus deveres sociais como um parente próximo que tinha a obrigação de amparar pessoas do seu meio familiar nas situações críticas.


“Assim, passou ela [Rute] à companhia das servas de Boaz, para colher, até que a sega da cevada e do trigo se acabou; e ficou com a sua sogra.” (Rt 2.23)

Bem, com as explicações dadas até aqui, penso que temos uma certa base para compreendermos um pouco do que pode ter se passado no polêmico episódio do capítulo 3 do Livro de Rute, quando ela, ousadamente, descobre os pés de Boaz e se deita ao seu lado na eira.

Apesar do profeta Oseias ter se referido às eiras de cereais como lugares onde ocorriam frequentes imoralidades sexuais (Os 9.1), provavelmente por ocasião das festas de colheita durante a primavera do Hemisfério Norte, parece ser incompatível com o estilo de vida de um homem piedoso como Boaz incentivar o pecado da prostituição dentro de suas terras. E o próprio texto comprova a sua integridade quando Boaz havia dado ordens aos seus servos para que não a molestassem (Rt 2.9) e ainda se espantou quando acordou com uma mulher deitada aos seus pés (Rt 3.8).

Considerando uma possível interpretação literal, o ato de Rute ter descoberto os pés de Boaz pode ter sido um convite de casamento, lembrando-o acerca das obrigações quanto ao levirato, conforme a passagem citada em Deuteronômio 25.5-10. Numa época em que poucos conheciam a escrita, as pessoas também se comunicavam através de atitudes simbólicas de modo que a retirada dos calçados de Boaz por Rute, enquanto ele dormia, poderiam simbolizar um alerta quanto aos compromissos do parente próximo com a família dos falecidos Elimeleque e Malom.

Inegavelmente, a atitude de Rute foi bem diferente das práticas feitas pelas filhas de Ló (Gn 19.30-38), as quais, precisando gerar descendentes após a destruição de Sodoma, decidiram embriagar o próprio pai para dele conceberem, o que explica a origem incestuosa dos moabitas. O envolvimento entre Boaz e Rute baseou-se num relacionamento de compromisso e de amor, tendo tudo ocorrido conforme os planos de Deus. E, mesmo que Rute tenha se aproximado de Boaz com ousadia naquela eira, o que importa?

Na atualidade, infelizmente temos visto o oposto nas relações entre homens e mulheres. As pessoas trocam determinados tipos de afeto e se relacionam sexualmente sem que haja qualquer tipo de compromisso. Sem estarem de fato se amando, as pessoas “ficam” numa só ocasião e depois um descarta o outro como se fosse objeto de consumo. Já não se vê mais santidade nos namoros e a relação sexual tornou-se algo banalizado, praticado num contexto meramente carnal onde se busca apenas o prazer.

Nos dias de hoje, para muita gente o casamento tornou-se mais uma celebração festiva do que um acontecimento de importância espiritual. Por motivo de tradição, é comum as pessoas casarem-se nas igrejas, mas nem sempre elas têm a consciência do compromisso que aquela união representa. Com pouco tempo de matrimônio, muita gente quebra a aliança com seu cônjuge pelos mais fúteis motivos.

Tenho pra mim, que o casamento não acontece apenas dentro das igrejas ou nos cartórios de registro civil. Em termos espirituais, basta que haja a união entre um homem e uma mulher para que o casamento ocorra perante Deus. Daí, tenho seguido a interpretação de que pessoas que já vivem em união estável devem ser acolhidas como se casadas fossem nas nossas comunidades cristãs, de maneira que devemos reconhecer e prestigiar a aliança já existente entre elas.

Alguém talvez possa perguntar: a Bíblia não rejeita a fornicação? Sim e este vocábulo é expresso nas nossas traduções em português, mas é preciso distinguir um casal que não assinou os papéis matrimoniais do comportamento imoral adotado pelo mundo em que pessoas solteiras transam sem nenhum compromisso umas com as outras. E, neste sentido, se houve algum envolvimento sexual entre Rute e Boaz antes do matrimônio, o que não acredito, obviamente que, em tal hipótese, estaríamos diante de uma situação bem diferente do que se vê hoje em dia por aí. Na cultura judaica daqueles tempos remotos, até a violação de um noivado era equiparada ao crime de adultério, muito embora o sexo antes do matrimônio entre pessoas desimpedidas não configurasse delito algum. Apenas era algo contrário aos costumes sociais.


OBS: A ilustração inserida no artigo refere-se ao quadro Rute e Boaz pintado por Julius Schnorr von Carolsfeld (1828).

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