domingo, 26 de agosto de 2012

A importância da mente


Todos os fundamentalistas são intolerantes;  sua escassa cultura condena-os a serem assim.  Defendem o que é anacrônico e o absurdo, não permitindo que suas opiniões sejam censuradas pela experiência. Chamam de ateu ou herege aquele que busca uma verdade ou persegue um ideal. Os negros queimaram Bruno e Servet, os vermelhos decapitaram Lavoisier e Cherniel ignorando a sentença de Shakespeare. “O herege não é aquele que arde na fogueira, mas aquele que a acende”.
A tolerância dos ideais alheios é a virtude suprema dos que pensam e difícil e inaceitável para os semicultos. Exige um perpétuo esforço de equilíbrio ante o erro dos outros, ensina a suportar esta consequência legítima da falibilidade de todo juízo humano. Aquele que se esforçou muito para formar sua crença, sabe respeitar as dos outros.
A tolerância é respeitar nos outros uma virtude própria, a firmeza das convicções, reflexivamente adquiridas, faz estimar nos próprios adversários um mérito cujo preço se conhece. A crença, síntese de todas as renúncias, é também o ato de renunciar a pensar. Nas crenças tudo é regido pela lei do menor esforço e o lasso enferruja a inteligência. A caixa craniana dos fundamentalistas é um estojo vazio, não consegue raciocinar por si mesmo, como se lhe faltasse os miolos. Desconfia de sua imaginação fazendo o sinal da cruz ou ajoelhando quando esta o preocupa com suas heréticas tentações. Renega a verdade se ela demonstrar o erro de seus preconceitos. Houve astrônomos que se negaram a olhar o céu através do telescópio temendo serem desfeitos seus erros.
Ignoram que o homem vale pelo seu saber, negam que a cultura é a mais profunda fonte de virtudes. Suas crenças ressecadas pelo fanatismo de todos os credos, abrangem zonas circunscritas por superstições passadas.  Chamam suas preocupações de ideais religiosos e sagrados sem perceberem que são simples rotina enlatada, paródias da razão, opiniões sem juízo, representam o senso comum desenfreado sem o controle do bom senso. Incapazes de ativar sua própria inteligência. Preferem o silêncio e a inércia mental, não pensar é a única maneira de não errar. Seus cérebros são casas de hospedagens sem donos, os outros pensam por eles, que no íntimo agradecem este favor. Desconhecem que a educação é uma descoberta progressiva da nossa própria ignorância.
Se a humanidade dependesse dos crédulos nosso conhecimento não excederia os do nosso ancestral hominídeo. Nenhum crente teria descoberto que a mesma força que faz a lua girar para cima é a mesma que faz a maçã Newtoniana cair ao chão. Mas são capazes de criticar, se opondo levianamente, à células tronco, aceleração de partículas, teoria do campo unificado ou Bóson W, pois lhes faltam noção de grandezas.
Muitos vivem com um telefone celular no ouvido, têm em casa uma TV de plasma com tela de 42´ que recebe seus programas via satélites, mas não acreditam que o homem foi à lua e desconhecem o avanço tecnológico da ciência com os programas aeroespaciais. Não sabem o que é uma fibra ótica, uma litotripsia, uma angioplastia ou desconhecem a complexidade da maioria dos exames médicos reiterando a evolução da engenharia.
A imensa maioria dos homens pensa com a cabeça de um padre ou de um pastor espertalhão. Não entende a linguagem de quem lhe explique algum mistério do universo ou da vida, a eterna evolução de tudo o que é conhecido, a possibilidade de aperfeiçoamento mental na contínua adaptação do homem à natureza e por conseguinte ao universo. Para conceber uma perfeição exige-se certo nível ético e é indispensável alguma educação intelectual. Sem isto pode haver fanatismos e superstições, jamais ideais. Encontram nos líderes uma faísca capaz de acender suas paixões, serão ou podem ser sectários. E, nem sequer perceberão seu fundamentalismo. Todo sonho seguido por multidões só é pensado por poucos visionários que são seus amos. Isto não é predestinação, é suicídio intelectual.
Há homens intelectualmente inferiores à medida de sua raça, de seu tempo e de sua classe social que são os criminosos hediondos, párias, parasitas e indigentes. Também existem os superiores dos quais se destacam os cientistas, os gênios e os intelectuais notáveis. Entre uns e outros existe uma imensa massa impossível de ser caracterizada por inferioridade ou excelência. A história não sabe seus nomes, a arte os desenha como incolores, não são interessantes. Os moralistas os tratam com igual desdém; individualmente não merecem o desprezo que fustiga os inúteis nem a apologia reservada aos virtuosos. Sua existência é natural e necessária. Em tudo que possui graus há mediocridade. Na escala da inteligência humana, esta massa representa o claro-escuro entre o talento e a ignorância. Quer que eu desenhe?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Estou pessimista sou!



Por Donizete

Estou começando a ficar pessimista quanto ao encarar a vida e ver nela ainda que seja um fio de esperança. Seria isso uma conversão ao existencialismo filosófico ou é o primeiro sintoma de uma crise existencial por vir? Penso não ser nem um dos dois. Mas estou operando atualmente dentro de um sistema com visão de que não vale a pena acreditar no valor da existência. Que jamais vai haver melhoras à nível moral e material no mundo. E nem progresso nas condições sociais ou qualquer evolução para melhor, seja em que campo for.

Sei que o pessimismo é antes de tudo existencial e metafísico. Mais são as contingências concretas e vividas empiricamente que nos traz esta sensação de impotência ante as demandas da vida. De ver as coisas acontecendo em total antagonismo com aquilo que objetivamente desejaríamos ver. O que faz suscitar a dúvida: será que a felicidade é quimera, pura ilusão? Como fumaça que se levanta mais logo se vai com o vento? Efêmera como a vida? Estou começando a acreditar piamente que Schopenhauer tinha razão ao dizer que viver é sofrer com pequenos instantes de felicidade. Sim, ele estava certo, pois a vida é de fato essencialmente tristeza e sofrimento. Note que no período em que estamos acordados são raros os lampejos de euforia alegria e prazer. No mais são momentos pautados pela preocupação, pelo “correr atrás de” ou “livrar-se de”, da “busca incessante por”. São momentos dominados pelo desejo que nos traz a lembrança de que algo nos falta, da saudade nostálgica, do tédio, da melancolia, da ansiedade angustiante e sentimentos outros, que se não são sofrimento em si, a linha que os separa é tênue demais para ser percebida. Até mesmo aqueles momentos de contemplação, onde temos a sensação de que nossos sentidos nos abandonam, também comunica tristeza e depressão. A tristeza está contida na voz do cantor. Nos versos do poeta.

A força que nos move e faz com que esta realidade tenha seu efeito nocivo atenuado, é a esperança que um dia, quem sabe, consigamos alcançar a tão esperada ataraxia. Mas aí também emerge outra questão não menos perturbadora. Que é o fato da ataraxia estar intrinsecamente associada à apatia, a total insensibilidade às paixões, ao desejo, ao prazer e a dor. Que felicidade é esta? Seria pior ao meu ver, viver cotidianamente estes ciclos intermináveis, irritantemente repetitivos. Sem a mínima dose de prazer. Melhor ficar como está.

Será que a existência é um completo sem sentido? Assim pensava Kierkegaard. Nestes mesmos termos ponderava Nietzcshe. Heidegeer que o diga. Sidarta Gautama afirmou que enquanto estivermos atados ao fio da nossa existência iremos sofrer. O velho Buda tinha plena razão ao dizer que o homem sofre ao nascer, sofre ao envelhecer, sofre quando se está enfermo, quando se une com aquilo que é des-prazeroso ou se separa do que lhe é prazeroso. Sofre ao não obter o que quer. Enfim, sofre quando morre.

Ser desiludido com sua própria existência não é prerrogativa dos fracos. Grandes espíritos também são. E tornou-se um sentimento tão comum que proliferam como praga os livros e palestrantes de auto-ajuda. Que prometem revolucionar os humores e expectativas das pessoas com receitas tolas e infantis, tipo: “pense positivo” “recite frases otimistas” “diga não ao pessimismo” e outros mantras ridículos que surtem efeitos apenas em espíritos fracos. Aliás, esta tem sido a tônica das mensagens pregadas também nos púlpitos de muitas igrejas.

É desonestidade intencional objetivar manter as pessoas presas nas rédeas da ilusão com promessas mirabolantes, gerando nelas a idéia de estarem vivendo num mundo surreal sob a expectativa de que mal nenhum os atingirá. Quando sensato seria dizer para as pessoas que o acaso é caprichoso. Por isso devem estar agradecidas pelo fato de terem sobrevivido por mais um dia, sem que um carro desgovernado atropele seus filhos que brincavam no play ground da escola, sem que o avião no qual viajou sua esposa tenha caído. Sem que tenha sido vitimado por um assaltante. Sem que seja atingido por uma bala perdida, ou acometido por uma doença grave qualquer. Enfim, considere-se um sujeito afortunado por ter sobrevivido por mais um dia nesta terra de ninguém. Um mundo sofredor. Inexoravelmente sofredor.  

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

“Eu sou você no futuro”


Por Noreda Somu Tossan

Gente! Cansei! Não quero mais falar de Deus! Deus não pode ser questionado. Deus jamais descerá ao nível do homem para provar que existe, portanto, vamos falar de outra coisa...sei lá, qualquer coisa.

Brincadeirinha, vamos falar do cara sim, pois assim ele ficará com raivinha de nós e quem sabe não nos aparecerá ou enviará um espírito destruidor para nos punir? (risos) 

Um dia no ano de 2062, perguntei para um velhinho passante, se ele tinha fé em algo, tipo...na ciência. Ele me fitou e disse: “A verdade não tem que ser aceita com fé. Fé é para os fracos! Eu até que creio na ciência, pois ela nos dá fatos, e contra fatos, muitas vezes não existem argumentos.

Taí, gostei desse cara. Mas quando achei que ele já tinha concluído seu raciocínio, ele bradou bem alto:


“A fé pode ser chamada de "falência intelectual". Se o único modo de você aceitar uma afirmação é tendo fé, então você está reconhecendo que ela não pode ser aceita por seus próprios méritos”.


Enfiei o rabinho entre as pernas e "sartei de banda", pois o cara era da pesada. Como sou muito chato, e o método que adotei para descobrir as “verdades” é o “socrático”, perguntei para ele se Jesus não fez o que dizem que fez para que nós fôssemos salvos. Ele nem sequer pensou para responder essa, foi logo vomitando: 

Velhinho:  Digamos que a redenção cristã se baseie em dois conceitos principais: “o sofrimento do indivíduo cancela o pecado do mesmo” e “o inocente (Jesus) pode cumprir a pena em lugar do culpado (nós)”. Fazer o inocente pagar pelo pecador, ainda por cima com um sofrimento improdutivo, não seria apenas um ato de vingança contra a pessoa errada e só faz juntar um mal a outro mal? 

Calei por um momento e respondi: Sim pode ser, mas o que dizer das bilhões de pessoas que acreditam que Jesus salva? Não seria presunção minha e sua, achar que nós estamos certos e elas erradas? 

O velhinho de cabelos brancos não me perdoou, deu-me outra cassetada: “ Mesmo que  5 bilhões de pessoas acreditem numa coisa que é estúpida, essa coisa continuará sendo estúpida”.

Eu: Então o inferno não existe? E nós ateus não iremos para lá? Por que o senhor é um ateu?

Velhinho: A Bíblia nos diz que Jesus foi sacrificado para nos redimir de nossos pecados e nos salvar do fogo eterno. A Bíblia também nos diz que se não acreditarmos nisto queimaremos no fogo eterno. Não é um pouco paradoxal essa afirmação? Meu jovem, eu posso dizer, sem medo de estar errado, que todos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que os crentes. Quando eles entenderem  porque é que rejeitam todos os outros deuses possíveis, entenderão porque é que eu rejeito o deus deles.

Eu: Mas o senso comum religioso nos diz que temos que aceitar os mistérios de Deus, e que no tempo certo tudo será revelado. A verdade deve ser aguardada. Dizem que eu faço perguntas demais. O que o senhor me diz sobre essa afirmação? 

Velhinho: Ora, é tão condenável não querer saber se uma coisa é verdade ou não (fé em Deus sem questionamentos), desde que ela nos dê prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro (pode ter sido roubado), desde que ele esteja na nossa mão.

Eu: Um amigo meu, chamado “capitão”, me disse uma vez que ser ateu é uma forma de crença. Ele não está meio certo? Outro amigo chamado “prodígio”, acredita que Deus protegeu Moisés e que ainda protege sua igreja até hoje. Como faço pra provar que ele está falando besteiras?

Velhinho: Não! O “capitão”  está totalmente errado! Onde já se viu?! Dizer que ateísmo é uma crença é o mesmo que dizer que careca é uma cor de cabelo. E para o prodígio, pergunte para ele se a “assembléia de Deus” onde ele congrega lá em Campinas tem para-raios no telhado. Se tiver, é por falta de confiança em Deus. (risos do velhinho). E mais, devemos sempre questionar essa lógica que afirma um Deus onipotente e onisciente, que criou um homem falível e o culpa por seus defeitos.

Eu: Então essa história de que Deus me ama e quer o meu melhor, não passa de papo furado? Eu não vou para o paraíso morar com Deus? O cristianismo nos garante o céu! (risinhos sarcásticos)

Velhinho: O cristianismo nos afirma que há um ser invisível, que vive no céu e micro-gerencia nossa vida, está atento a tudo que fazemos, o tempo todo. O ser invisível tem uma lista de 10 coisas (mandamentos) que ele quer que a gente cumpra. Se você infringir qualquer uma dessas coisas, o homem invisível tem um lugar super especial, cheio de fogo, fumaça, sofrimento, tortura e angústia onde ele vai lhe mandar viver, queimando, sofrendo, sufocando, gritando e chorando para todo o sempre. Mas ele ama você sim! (risinhos também sarcásticos do velhinho)

Eu: Opa! Peraí, o senhor, mesmo com esses cabelos brancos, não tem autoridade para falar essas coisas. 

Velhinho: Eu tenho tanta autoridade quanto o Papa. Eu só não tenho tantas pessoas que acreditam nisso.

Eu:
Então o senhor é a favor da separação entre Igreja e Estado? Nossa moral não está arraigada à Igreja? E essa herança religiosa não nos fez uma sociedade melhor, mais amorosa e justa?

Velhinho: Por favor, não seja tolo! Eu sou completamente a favor da separação da Igreja e do Estado. Minha idéia é que essas duas instituições nos fodem o suficiente individualmente, portanto, ambas juntas é a morte certa.
Eu: Será que algum dia conseguiremos fazer com que um crente deixe de acreditar e se torne um ateu como nós? O mundo seria mais amoroso se todos fôssemos crentes? Paulo e Jesus disseram que devemos amar uns aos outros assim como amamos ao nosso Deus. A fé não é uma “prova”, segundo Paulo?

Velhinho: Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências… Baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar. Como disse o ateu Friedrich Nietzsche: “Fé” significa não querer saber o que é a verdade. Eles (os crentes) dizem que acreditam na necessidade da religião… Mas eles não são sinceros! Eles acreditam mesmo é na necessidade da polícia! Amor ao “nosso” Deus? Por favor, não há no mundo amor e bondade bastante para que ainda possamos dá-los a seres imaginários. Uma visita ao hospício mostrará a você que a fé não prova nada.

Eu: O senhor não aprova nenhuma religião? Algumas proporcionam uma felicidade, mesmo que ilusória. Isso não é bom para ajudar-nos a encarar a vida dura? Pessoas são felizes em seus mundinhos!

Velhinho: Não importa o quão feliz me deixe, se não é verdadeiro, se não é real, muito obrigado. É assim que penso quanto aos deuses e mitos de todas as religiões
.
Eu: A religião parece ter um ponto fraco. O senhor poderia me dizer qual seria ele?

Velhinho: Não vou criar nada, apenas vou repetir o que Epicuro disse: Se Deus deseja impedir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. Se é capaz, mas não deseja? Então é malevolente. Se é capaz e deseja? Então por que o mal existe? Se não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus? Meu jovem, Se a ciência já mostrou que a bíblia está errada ao nos dizer de onde viemos, como podemos confiar nela ao dizer para onde iremos?

Eu: Para encerrar esta nossa proveitosa conversa, o que seria necessário para acabar com a fé de um crente?

Velhinho: É simples: Basta Deus existir!  Pois, se Deus existisse, a fé se tornaria desnecessária e todas as religiões entrariam em colapso.A verdade não tem que ser aceita com fé. Os cientistas não seguram suas mãos todo Domingo, cantando, “Sim a gravidade é real! Eu vou ter fé! Eu vou ser forte! Amém. Como já disse, a fé é a falência intelectual. Se o único modo de você aceitar uma afirmação é pela fé, então você está admitindo que ela não pode ser aceita por seus próprios méritos
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Muito obrigado por seu tempo, não vou mais aporrinhá-lo com minhas perguntas. Mas antes que fosse, gostaria de saber seu nome.

Velhinho: Meu nome é Edson Moura, mas todos me conhecem por Noreda.

Edson Moura

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Imaginem um mundo sem religião...







"Hipoteticamente falando, o mundo sem religião seria melhor ou pior do que este em que vivemos?"




Por  Ebenézer Teles Borges


A frase acima, usada como título para esse texto, é de autoria do cantor e compositor John Lennon e é citada por a Richard Dawkins no documentário "A raiz de todo mal" e no livro "Deus um delírio", nos quais ele argumenta com fervor e eloqüência em defesa de um mundo sem ataques suicidas, sem o 11 de setembro, sem o Talibã, sem as infindáveis guerras entre judeus e palestinos, sem muçulmanos, sem cristãos, enfim, um mundo sem religião. Você é capaz de imaginar como seria esse mundo? Eu bem que tentei imaginá-lo, mas me esbarrei em algumas limitações.

Até onde consegui pesquisar, não se tem conhecimento de nenhuma cultura que seja estruturalmente não religiosa ou atéia. Com efeito, ao longo dos séculos, o ateísmo foi sempre um fenômeno escasso, minoritário, periférico. Imaginar um mundo sem religião estando inserido em um mundo essencialmente religioso requer muita abstração e criatividade, a menos que tomemos um atalho e peguemos o nosso mundo, tal qual é, e simplesmente removamos a religião dele. Essa atitude, contudo, não me parece ser a forma mais honesta de lidar com a questão, mas foi o que eu fiz (e penso que seja o que muitos façam) ao aceitar o desafio de John Lennon em sua música "Imagine".

Para muitos, o mundo seria melhor se não houvesse religião. Alguns, pela forma como se colocam, parecem ter certeza disso. Sinceramente, não sei como chegaram a essa conclusão, mas não quero aqui polemizar sobre o que me parece ser resultado de escolhas pessoais. Quanto a mim (e aqui exponho tão somente meu ponto de vista numa reflexão sabática despretensiosa), estou inclinado a crer que a religião não seja a raiz de todo o mal, porque, para mim, religião não é "causa" e sim "efeito". Conseqüentemente, sua remoção não seria suficiente para o estabelecimento de um mundo novo e melhor, já que a verdadeira causa permaneceria.

É fato inegável que sempre houve atritos, conflitos e guerras baseados em princípios religiosos. Reconheço que, em nome de Deus muitas atrocidades foram cometidas. Lembro-me agora, para citar um exemplo, das Cruzadas que, sob o pretexto de reconquistar a cidade de Jerusalém – local sagrado para os cristãos – legitimou crueldades, saques, destruições e mortes, deixando um rastro de sangue ao longo de quase dois séculos de história (1096-1272). E tudo isso conduzido sob as bênçãos da igreja e, supostamente, com a aprovação do "Senhor dos exércitos, o Deus de Israel". Confesso-lhes que, ao refletir sobre esse capítulo sombrio de nossa história, sinto-me propenso a pensar que o mundo sem religião seria melhor que este em que vivemos.

Por outro lado, admito a existência de um outro lado da experiência religiosa que me faz hesitar em colocá-la no cadafalso. São casos como o do quase desconhecido frade franciscano Maximiliano Kolbe, que se voluntariou para morrer em lugar de um pai de família no campo de concentração nazista de Auschwitz. Durante a segunda guerra mundial ele abrigou muitos refugiados, incluindo aí dois mil judeus. Relatos como esse me comovem!

A religião, no entender de especialistas, é um fenômeno "polissêmico". O que isso significa? Essa palavra, pouco usada em nosso dia-a-dia, deriva do grego "poli" (muitos) e "sema"(significado) e é empregada pelos estudiosos da religião para dizer que ela é um signo aberto, que pode assumir significados diversos de acordo com o contexto e ser usada para praticamente tudo. Em nome da religião estimulou-se a inquisição e a caça às bruxas; em nome da religião promoveu-se a arte e a poesia. Em nome da religião se mata; em nome da religião se salva. Em nome da religião, tudo pode ser justificado. É isso que os especialistas querem dizer quando se referem a ela como "polissêmica".


"Em nome da religião estimulou-se a inquisição e a caça às bruxas; em nome da religião promoveu-se a arte e a poesia."



Quando analisamos os textos sagrados nos quais as religiões se alimentam, fica mais fácil entender esse comportamento metamórfico que as caracteriza. Tomemos o cristianismo como exemplo, apenas por ser essa a religião com a qual temos maior afinidade. Em certa ocasião, Jesus disse que não veio ao mundo para trazer paz e sim espada (leiam em S. Mateus 10:34-36). Em outro momento ele afirma o contrário. Diz ele: "bem-aventurado os pacificadores" (leiam em S. Mateus 5:9). Afirmações como essas, aparentemente conflitantes e incoerentes, abrem margem para interpretações dúbias, divergentes, contraditórias, antagônicas. Qualquer um pode se sentir no direito de invocá-las ou interpretá-las em benefício próprio ou conforme a conveniência do momento, justificando assim tanto a guerra (por motivos "nobres", sempre) quanto a paz. Atualmente, presenciamos uma explosão de novas denominações religiosas cristãs, cada uma com suas singularidades e incongruências e todas ancoradas no mesmo texto sagrado. A natureza polissêmica desse texto sagrado favorece (e até justifica) esse fenômeno bizarro.

Com base no que foi colocado até aqui, parece-me razoável presumir que a religião, por ser polissêmica, isto é, aberta e sujeita a interpretações circunstanciais e influências pessoais, pode ser usada (e de fato tem sido usada) para apoiar movimentos que promovem tanto a paz quanto a guerra, tanto a concórdia quanto o conflito, tanto a vida quanto a morte. Ora, isso me leva a concluir que a religião em si não passa de um instrumento, que pode ser usado (e de fato o é) de acordo com a habilidade de quem o domina. E em sendo um instrumento, então não pode ser "a causa" do bem ou do mal, porque não há intenção em um instrumento.

Se me permitem a comparação, o mesmo pode ser dito a respeito da ciência. Ela também é um instrumento, uma ferramenta e, como tal, seu propósito é o propósito de quem a utiliza. Há quem faça bom uso da ciência, mas há também quem não o faça. Após a segunda guerra mundial, muitos se perguntavam se ainda era possível acreditar em Deus depois de Auschwitz. Por outro lado, outros também se questionam se ainda era possível acreditar na ciência depois de Hiroshima.

Não sei se estou conseguindo ser claro, mas o que estou tentando dizer é que, assim como a ciência, a religião não deve ser tomada como a "causa" de certos males que afetam nosso mundo e concluir que, sem ela, estaríamos mais próximos do paraíso terrestre. Isso porque, no meu entender, a verdadeira causa de tais males precede a própria manifestação religiosa.

Evidentemente, o que expus aqui é apenas o "meu" ponto de vista atual. Sei que muitos discordariam dele se porventura viessem a ler o que acabo de escrever. Por isso e de antemão, registro aqui meu sincero respeito e apreciação por essas opiniões contrárias. Contudo, reafirmo o que disse e que resumo da seguinte forma:

(1) O sentimento religioso é inerente ao ser humano. Conforme disse antes, não se tem conhecimento de qualquer cultura que seja estruturalmente não religiosa ou atéia. Em sendo assim, não consigo imaginar como seria um mundo sem religião, a menos que imagine um mundo sem seres humanos. Se a religião não existisse, nós a inventaríamos, talvez com outro nome, mas com essência semelhante.

(2) Entendo que os problemas que existem na sociedade são decorrentes da natureza humana. Somos seres belicosos, sedentos de poder e essencialmente egoístas. A própria sociedade (que também é uma invenção humana) se apóia nesse nosso egoísmo(aprendemos com o tempo a impor limites a esse egoísmo em troca de um bem maior). Em sendo isso verdade, então, com religião ou sem religião, continuaríamos a ser o que somos: egoístas, violentos e ávidos por poder.

E depois de tanto falar a pergunta persiste. Hipoteticamente falando, o mundo sem religião seria melhor ou pior do que este em que vivemos?

Não me parece que seja possível responder a essa pergunta de maneira honesta. Faltam-nos elementos para análise. Podemos fazer suposições. Podemos eleger uma das opções como preferida e elencar características positivas e/ou negativas para apoiar nossa escolha, mas o fato é que só conhecemos um mundo – o mundo com religião – e o outro não passa de uma hipótese ou utopia.

Julgo importante lembrar que, na maioria dos casos, as utopias são elaboradas não com o fim de se criar um novo mundo ou uma nova sociedade e sim reformar o mundo e a sociedade em que vivemos. Em sendo assim, vale à penas considerar a proposta de John Lennon e tentar imaginar como seria esse mundo sem cristãos, muçulmanos, budistas e outros rótulos religiosos que causam tantas divisões. Talvez esse exercício nos ajude a melhorar o mundo que conhecemos, a começar por nós mesmos.

E para concluir o tema, evoco as palavras do historiador e filósofo Dr. Leandro Karnal, professor na Unicamp, em um Café Filosófico que não canso de assistir: "Volto a insistir: ateísmo ou religião não tornam o mundo pior ou melhor, apenas tornam o mundo do jeito que ele é".

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publicado originalmente em 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Teologia e Alteridade




TEOLOGIA E ALTERIDADE

Mateus 25, 31 a 46

        Nesta palavra de Mateus, Jesus aparece como Senhor da vida e da história, o justo juiz, como Pastor das ovelhas nos oferece a justa recompensa.
Jesus é representado como o pastor que procura as ovelhas feridas e marginalizadas. Orienta-nos qual a postura que espera de cada um de nós como cristão ao relatar a passagem escatológica da sua volta!
Aqui não se discute o que é mais importante: a oração ou a ação? Mas deixa claro que toda oração que se preza leva a pessoa a ação do amor concreto, o amor aos mais sofridos.
Jesus deixa claro nesta palavra o grande critério que utiliza para o julgamento que é o amor para com os mais necessitados e marginalizados, nos quais as pessoas são convidadas a identificar sua presença.
Portanto temos que ter a coragem de assumir de uma vez por toda que religião não se faz com discursos e belas pregações e sim com atitude de amor a quem urgentemente e emergencialmente precisa de libertação.
        A pergunta e a resposta da passagem do evangelho de Mateus devem ressoar fortemente em nossos corações e nos levar a insistir decididamente ao encontro verdadeiro com Cristo acolhendo-o nos que sofrem injustiças.
Perguntar-lhe-ão os justos: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber, peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos, enfermo ou na prisão e te visitamos?”.
Responderá o Rei: “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizeste”.
Eis o grande critério para o julgamento: 
      O Pastor separará as ovelhas (os que acolheram os pequeninos) e dirá:
  “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o reino preparado para vós desde a fundação do mundo”.
        Aos cabritos (os que desprezaram os pequeninos) e dirá: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos”.
Não se trata aqui de um julgamento arbitrário, O Rei apenas mostra a verdade! Onde todos nós perderemos nossas máscaras e nos veremos como realmente somos. 
        Deus vai além dos rótulos, Ele vê o produto. Vai além das aparências, Ele vê os frutos. 
        Quem julga e dá a sentença somos nós mesmos, porque diante da evidência não há como escapar. 
Não há como fugir desta realidade, escondendo-se em uma espiritualidade convencional, descomprometida e alienante. 
        O mesmo Cristo que disse: “Isto é meu corpo”, disse também: “... todas as vezes que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos foi a mim mesmo que o fizestes”.
        A Adoração verdadeira a Jesus é a que nos leva ao amor aos mais pequeninos. 
        Toda espiritualidade equilibrada leva-nos necessariamente ao encontro do Cristo na face do irmão que sofre.
        O cerne da religião é a prática justiça!

       Alteridade (ou outridade) é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do "eu-individual" só é permitida mediante um contato com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro - a própria sociedade diferente do indivíduo). (Fonte: Wikipédia)
        Na relação alteritária, está sempre presente os fenômenos holísticos da complementaridade e da interdependência, no modo de pensar, de sentir e de agir, onde o nicho ecológico, as experiências particulares são preservadas e consideradas, sem que haja a preocupação com a sobreposição, assimilação ou destruição destas.
        A prática da alteridade conduz da diferença à soma nas relações interpessoais entre os seres humanos revestidos de cidadania.

        “Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas” (Martin Luther King).

         "Para que haja respeito entre todos é necessário que em todos haja um muito de alteridade". (Murilo Moiana)

A foto acima traz duas belíssimas imagens de São Francisco de Assis, na primeira à frente, uma escultura em barro do artesão alagoano, e um dos gênios da arte popular brasileira, Beto Pezão (José Roberto Freitas), com 30 centímetros de altura.
A imagem de fundo é um maravilhoso quadro de São Francisco, em óleo sobre tela, nas dimensões de 27 x 19 cm, com assinatura no canto inferior direito e no verso, do grande artista ítalo-brasileiro, Inos Corradin.
Nascido em Piemonte, começou a estudar pintura ainda na Itália, em 1945. Desembarcou no Brasil em 1950, aos 21 anos de idade, residindo inicialmente em Jundiaí. Sua primeira mostra individual ocorre na Galeria Oxumaré, na Bahia em 1953. Ao longo dos anos foram exposições Brasil a dentro, além de países como Estados Unidos, Argentina, Canadá, Alemanha, França, Israel, Holanda, etc.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Continuação da entrevista - 2° e última parte do 1° tema - Coito anal





Continuação da entrevista - 2° e última parte do 1° tema - Coito anal

TRÉPLICA

[Carlos Carvalho Cavalheiro] – Entendo que pela ótica calvinista os seus argumentos são procedentes. Queria fazer apenas algumas colocações em relação ao que você afirmou e mostrar uma outra possibilidade de interpretação. Embora em alguns pontos do que eu afirmei possam estar em consonância com a doutrina arminianista, em essência não me norteio por ela. Concordo com o que disse em relação a graça é favor imerecido, ou seja, não a alcançamos por obras “para que ninguém se glorie” (Ef. 2:8 – 9). Mas pense bem: se está sendo distribuída de graça não significa que eu posso denegá-la? Caso contrário, somos máquinas ao bel prazer de um “deus” que determina tudo.

E se esse “deus” determina tudo, por que não criou o homem sem a capacidade de pecar? Se o homem pecou é porque teve escolha de pecar. Agora, se Deus criou o homem para lhe dar tanto trabalho assim, a ponto de ter de providenciar a morte de Seu Filho para redimir essa humanidade que tanto pecava, não parece que tenha o atributo da inteligência suprema, não? Desse modo, penso que o que você defende seria um determinismo mecanicista teológico no qual o homem é uma marionete nas mãos de um “deus” pueril. Por outro lado, a doutrina do livre-arbítrio é muito mais coerente do que a da predestinação calvinista. Todos os versículos apontados por sua argumentação levam a um ponto só: a onisciência de Deus. Isso é ponto pacífico.

Deus conhece a cada um de nós, o nosso coração (Is. 49:1; At. 13:22). E Deus faz planos a todos. Porém os homens podem seguir ou não os planos de Deus. Veja o que diz 1Sm. 13: 13: “Então disse Samuel a Saul: Procedeste nesciamente, e não guardaste o mandamento que o SENHOR teu Deus te ordenou; porque agora o SENHOR teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre”. Vemos claramente que Deus confirmaria o reinado de Saul sobre Israel se, e este condicional é essencial para o entendimento da passagem, o rei tivesse guardado o mandamento que o Senhor Deus te ordenou. Vemos o livre arbítrio, ou seja, a escolha e suas consequências em diversas passagens. Em Adão, por exemplo, que pecou porque desobedeceu ao preceito único estabelecido por Deus e por isso foi destituído das benesses do Paraíso. Davi, como já foi dito, era homem de coração de acordo com o próprio Deus, pecou e foi repreendido por Natã que proferiu a sentença de Deus: a espada não se apartará da casa de Davi (2Sm. 12:10). Por seus pecados, Davi não pôde construir o templo, o que foi feito por Salomão, homem que ainda no ventre da mãe, Deus o amou (2 Sm. 12:24).

Mas mesmo Salomão recebeu a ira de Deus por ter se tornado idólatra e “desviado seu coração do Senhor Deus de Israel” (1 Reis 11:9). Jesus Cristo foi tentado e a tentação significa que Ele tinha escolha. Poderia escolher entre o bem e o mal. E o que dizer do caso de Ananias e Safira, bem como do mago Simão? Todos convertidos, “aceitos”, andando com os apóstolos (será que como apóstolos não sabiam que estes não eram “predestinados”?). Mas todos esses perderam a sua salvação, porque a salvação não é algo que não se possa perder. Veja o que diz Pedro: “guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a firmeza e caiam” (2Pe. 3:17). Diante de todo esse exposto, pergunto: Se o livre arbítrio não existe, como se coadunam todas as passagens aqui expostas que apontam para o contrário? O que diria da afirmação de Agostinho: “Sem o livre arbítrio, não haveria mérito ou demérito, glória nem vitupério, responsabilidade nem irresponsabilidade, virtude nem vício”? Você argumenta, também, que a sodomia era proibida somente no Antigo Testamento, mas os versículos que apontei são todos do Novo Testamento... Como, então, dizer que não são mais válidos? Não seria o mesmo que dizer que o homicídio agora é permitido? E o ponto principal, ou seja, a pergunta inicial: a advertência contra a sodomia no Novo Testamento não é suficiente para afirmar que sodomia sim é pecado ainda hoje?

TRÉPLICA ANJA

Bem Carlos, você tocou num ponto chave, pois muito embora minha resposta esteja baseada na doutrina calvinista (que particularmente eu perceba ter mais embasamento bíblico), também não me norteio por ela e para mostrar que não devemos nos basear por doutrinas feitas por homens e que enaltecem os dogmas e suprimem a vida. Se por um lado a doutrina calvinista nos dá a impressão de sermos marionetes nas mãos de um deus pueril, por outro a doutrina arminiana diz que deus determina (ou predestina) conforme sua presciência, ou seja, deus, de antemão, conhecendo o coração do homem, predestinou, mas a base de tal doutrina, seria as escolhas do homem, ao contrário da calvinista, que diz que deus escolheu e pronto! Nada podemos fazer para mudar os desígnios divinos. Eu pergunto: será mesmo?

A Bíblia não é um livro que se possa ler e ser interpretado de forma literal, e dogmas, sempre devem favorecer a vida, e não a suprimir!

Entende a magnitude disto? Ou temos livre arbítrio, ou de fato, não temos liberdade. E se cabe a resposta de que “se nós temos o livre arbítrio para escolher ou não a Deus, Deus tem o mesmo livre arbítrio para mandar quem Ele quiser para o inferno”. Eu replico perguntando que se, o amor de deus é sobremodo maior que o amor do homem (supostamente ama-me mais que meus pais me amam), jamais se viu um pai ou mãe renegar a seu filho, mesmo que este seja um bandido, ou uma pessoa de má índole (exceto em raríssimas exceções), e deus agiria diferente de nós como pai/mãe? É este o amor de deus?

Quanto a esta sua fala, Carlos: “Mas todos esses perderam a sua salvação, porque a salvação não é algo que não se possa perder”; temos aqui um problema, pois segundo o que dizem ter sido dito pelo próprio Jesus, vemos em João 6:37: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.

Mas sigamos em frente, e para isto, vamos voltar ao inicio, para que possamos seguir e vejamos o termo hebraico e grego para a palavra:

Na verdade na bíblia nem há o termo sodomia e sim sodomita.

Sodomita

Grego: Arsenokoitesum
Que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual

Hebraico: Qadesh
Prostituto de templo masculino

A palavra SODOMIA é encontrada no latim, e refere-se a todo e qualquer tipo de perversão sexual, seja hétero, seja homossexual, e entre eles o sexo anal.

Mas porque eu voltei ao início? Simplesmente para citar o que você, Carlos, diz: “Você argumenta, também, que a sodomia era proibida somente no Antigo Testamento, mas os versículos que apontei são todos do Novo Testamento... Como, então, dizer que não são mais válidos?”

Exato! A lei serviu apenas para mostrar que ninguém capaz de cumpri-la, e quanto aos textos que você cita serem encontrados no Novo Testamento, eu pergunto-lhe: sendo Paulo um fariseu, conhecedor de TODA a lei, não lhe parece que ele possa ter estado preso a tais conceitos ao escrever suas cartas?  Os escritores bíblicos não poderiam escrever presos a tais conceitos da época? Qual seria de fato a vontade de deus? Qual o motivo dele (Deus) ter em Jesus humanizado? Seria para nos ensinar como sermos divinos? Ou para nos mostrar como sermos de fato humanos? 

Se formos sempre fazer uma análise rasa dos textos bíblicos, e interpretá-los no sentido literal, teremos grandes problemas. Desde nossa alimentação, até as nossas vestimentas. E devemos sempre ter em mente que a Lei foi escrita para o povo Judeu. Qual foi a intenção de Deus ao passar estes estatutos e leis aos hebreus? O que significava este código de santidade passado ao povo judaico?

Este conjunto de leis e código de santidade para nada mais serviam a não ser para mostrar a total incapacidade e inabilidade em cumprir tal aliança firmada entre Deus e o povo escolhido, fazendo-se necessário, portanto, a Cruz, o sacrifício vicário de seu Filho Jesus. Estas leis e a aliança firmada com o povo judeu apontavam para Jesus, nada mais.
Paulo não tinha o ministério da incircuncisão? Por acaso ele obrigava os gentios a se circuncidarem? NÃO! 

Vejamos: Romanos 3:29,30
29 - É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente, 30 - Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão.

Somente no judaísmo pregava que as relações sexuais tinham como único fim a máxima exigida por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”.

E como então poderemos hoje querer aderir ao ministério da circuncisão e exigir que passemos a observar certos preceitos que foram entregues somente aos judeus, não sendo exigido aos gentios que observasse uma vírgula sequer desta lei? Entende onde quero chegar quando digo que “ou devemos cumprir toda a lei, ou então, pela graça que nos foi derramada por intermédio do sangue de Cristo, não cumprir nada”? Ou tudo, ou nada! Simples assim!

Façamos agora (e pra finalizar) uma análise dos termos hebraico e grego:
Lemos no original Grego: Arsenokoitesum que literalmente significa: que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual.

Mas no Antigo Testamento (todo escrito em hebraico e aramaico) lemos: Qadesh

Que significa: prostituto de templo masculino. (não interprete como sendo um costume apenas dos gentios, mas sim do povo Judeu, pois era costume entre os judeus, misturar o culto ao deus hebreu com diversas formas de cultos pagãs, o que mostra que a lei se referia apenas ao povo judeu).

Percebe a sensível diferença? PROSTITUTO DE TEMPLO! Pessoas que usavam a prostituição como forma de culto, e, portanto, eram tidas pelo deus hebreu como sendo abomináveis.

Mas não devemos deixar de lembrar que a palavra sodomia que se apresenta no latim apenas, e abre o leque para perversões sexuais, seja entre homossexuais, seja entre heterossexuais, e nada mais foi que um dos muitos erros não somente de tradução, mas de interpretação contidos na bíblia. Muitos mitos são construídos sobre pesados escombros, consequentemente, basta removê-los para que o alto edifício dos velhos e falsos conceitos caia por terra. O significado de sodomia que hoje lemos nos melhores dicionários não passa de produto de um equívoco que dura há séculos e insiste em permanecer de pé.

Finalizando, eu repito que deus humanizou para que fôssemos humanos, demasiadamente humanos e é pela igreja nos impor seus dogmas e religiosidade que descri do deus da igreja. E tenho comigo que, se existe um deus que conspire contra a liberdade humana, eu repudio este deus, ele é meu inimigo, e eu dele.

Muitos hoje me dão o rótulo de ateia, até mesmo eu  faço isto, mas não gosto de rótulos, de caixas e de algemas, sou livre, vivo livre, sendo humana. 

Anja_Arcanja®