domingo, 28 de setembro de 2014

Uma reflexão tirada do livro de Isaías



"Porque assim diz o SENHOR Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na confiança, a vossa força, mas não o quisestes." (Isaías 30:15; ARA)

Lendo este versículo enquanto estudava o livro bíblico de Isaías na manhã de um outro domingo, tive a atenção despertada para o significado de mais uma mensagem das Escrituras capaz de transcender os limites de seu tempo.

Contextualmente, o profeta estava advertindo o povo de Israel sobre a inutilidade da aliança militar que seus governantes vinham fazendo com o Egito. Pois, temendo a invasão do exército assírio, os príncipes de Judá enviaram uma comitiva de embaixadores ao faraó, buscando um apoio do país que era considerado a maior super potência do antigo Oriente Próximo. E, certamente, tal proteção envolveria o pagamento de pesados tributos que representariam a perda de uma boa parte da riqueza nacional (verso 6 do cap. 30).

Segundo o texto, Deus não estava aprovando aquele pacto, o qual demonstrava desespero ao invés de fé. Os filhos de Israel estavam voltando as suas expectativas para o auxílio humano ao invés de exercitarem a confiança no Onipotente, no Deus de relacionamento de seus ancestrais libertos da escravidão egípcia. Estavam esquecendo-se Daquele que tem em suas mãos o controle soberano da História.

Se avançarmos um pouco mais no livro, veremos nos capítulos 36 e 37 que o reino de Judá livrou-se da opressão do exército assírio sem receber nenhuma ajuda do Egito ou das forças armadas de qualquer outro país. Através de uma milagrosa intervenção divina, o acampamento inimigo foi aniquilado e Jerusalém conseguiu resistir à maior ameaça que enfrentaram no século VIII a.C.

"Então, saiu o Anjo do SENHOR e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco mil; e, quando se levantaram os restantes pela manhã, eis que todos estes eram cadáveres. Retirou-se, pois, Senaqueribe, rei da Assíria, e se foi; voltou e ficou em Nínive" (Isaías 37:36-37)

Diz-se, com base na Bíblia, que Deus não divide a sua glória com ninguém e esse proceder tem a sua razão relacional para que o homem aprenda a ter fé. As profecias de Isaías, cujo ministério ocorreu mais de 700 anos antes de Jesus, ainda servem de encorajamento para as experiências que temos hoje em dia. Tanto coletivamente (para a Igreja) quanto para a peregrinação pessoal de cada um.

Quantas vezes não nos sentimos ansiosos para resolver um problema grave? Se somos ameaçados por alguém, ou confrontados por qualquer circunstância desafiadora, logo tememos e, ignorando a fé, pensamos somente nas soluções humana possíveis. Dobrar os joelhos e colocar a cara no pó são umas das últimas coisas que costumam vir na cabecinha incrédula das pessoas. Principalmente de quem ainda não teve uma experiência de conversão ou, em algum momento, anda relaxando neste processo de se voltar para Deus (em muitas vezes este autor também se inclui entre os que vacilam na demonstração da fé diante das dificuldades apresentadas).

Na sua advertência, o profeta convoca a nação de Israel para se converter e creio que tais palavras não estão ali registradas inutilmente. Pois não restam dúvidas de que o relacionamento com Deus, o Santíssimo, só pode existir a partir do momento em que o homem tem o seu coração transformado. É quando reconhecemos a nossa condição de pecadores e optamos por uma mudança de rumo. Quando passamos a dar ouvidos atentamente à voz do Grandioso Rei do Universo com toda a reverência que lhe é devida.

Sendo restabelecido o nosso relacionamento com Deus, a fé passa a ser exercitada. Quando atravessamos dificuldades, sentimos então o desejo de dividi-las com o nosso bendito Pai Celestial deitando em seu colo. O Eterno torna-se então um amigo inseparável a quem passamos a buscar em todo o tempo. E aí, se formos perseverantes, Ele se tornará tudo nas nossas vidas.

Toda essa confiança, quanto mais for exercitada, produz uma paz e uma tranquilidade infinitas no nosso interior. Tornamo-nos crentes maduros e já não tememos mais o homem ou as situações adversas. Tudo o que sofremos é levado a Deus nas orações ainda que o Onisciente já pré-conheça as nossas petições antes de serem pronunciadas por palavras ou formadas em pensamento. Só que o ato de orar vai servir justamente para que mantenhamos a nossa comunhão e direcionemos todo o nosso ser para um propósito espiritual visto que, até morrer, nunca deixamos de ser carne (ter emoções que nos abalam ou pensamentos duvidosos).

Como resultado dessa conduta espiritual contínua vem o fortalecimento. Um homem, uma família, uma congregação e um povo que agem com confiança podem ser chamados de fortes. E isto não vem deles, mas de Deus que nos anima, orienta e jamais abandonará as ovelhas de seu pasto. Tal como escreveu o poeta autor do Salmo 121, um crente de verdade reconhece que o Eterno é como a própria sombra ao seu lado. Ele nos guarda em todo o momento e para sempre.


OBS: A ilustração acima retrata o profeta Isaías. Trata-se de uma obra feita em 1509 por Michelângelo (1475-1564) no teto da Capela Sistina, Vaticano. Foi extraída através do acervo da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Michelangelo,_profeti,_Isaiah_01.jpg

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

As neblinas que tentamos alcançar



"Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém: Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?" (Ec 1:1-3; ARA)

No começo deste ano de 2014, comecei a leitura do livro bíblico de Cohélet (Eclesiastes), o qual, segundo a tradição judaica, teria sido escrito pelo rei Salomão nos dias de sua velhice, pouco antes de morrer. Foi quando o sábio monarca de Israel também teria composto o Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos) e Mishlê (Provérbios).

Ainda que para muitos o livro pareça um tanto pessimista, eu diria que o seu autor habilmente provoca nos leitores um choque de realidade com o proveitoso fim de auto-questionarmos as nossas futilidades. A palavra traduzida em muitas bíblias como "vaidade" significa literalmente, no idioma original hebraico, os termos "sopro" ou "neblina". Ou seja, o homem passa a sua vida correndo atrás do não-substancial, das coisas incapazes de preenchê-lo, assim como a água nunca enche o mar, conforme a linguagem poética muito bem empregada no texto:

"Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr." (1:7)

Por mais que as coisas experimentadas pelos nossos sentidos possam proporcionar um imediato sentimento de realização, eis que, com a morte física dos corpos, as obras feitas "debaixo do sol" (ou "debaixo do céu") tornam-se completamente inúteis para o espírito humano. Para quem já não se encontra mais aqui perde todo o significado ter acumulado bens, títulos, fama, notoriedade, muitos seguidores nas redes sociais, prestígio e até mesmo o conhecimento.

Enfim, qual seria o proveito de muitas dessas realizações?

Isso é o que o livro nos propõe a pensar desde o seu começo até a sua conclusão. E aí eu coloco a seguinte questão: será que conseguiremos ficar verdadeiramente livres desse constante desejo de realizar algo?

Creio que faça parte da nossa existência corrermos sempre atrás de alguma coisa. Tal como a Terra gira e o vento sopra continuamente sobre a sua superfície, existe em nós o impulso, sendo certo que precisamos estar bem orientados interiormente em relação à vida para buscarmos as melhores coisas. Logo o livro vem nos ensinar a ter saudáveis atitudes.

Curioso que Cohélet costuma ser lido nas sinagogas judaicas durante o sábado de celebração de Sucót (Festa dos Tabernáculos). As palavras do "Pregador" são então lembradas pelos rabinos justamente numa alegre época de Israel, quando os celeiros encontram-se abastecidos de alimentos e o homem tem a oportunidade de se satisfazer com a sua porção nesta vida debaixo do céu.

Assim, Eclesiastes trás um importante ensino que não podemos negligenciar e daí o seu autor mencionar um tipo de conflito entre as gerações que vão e que vêm (1:4,10-11). Erramos muitas vezes por ignorar as experiências dos mais antigos, daqueles cujos olhos já não se deixam mais enganar por supostas novidades. Daí manter viva na consciência a memória histórica e exercitar a capacidade de reflexão pessoal tornam-se úteis ferramentas para não sairmos por aí tentando apalpar miragens.

Uma excelente semana para todos!


OBS: A imagem acima acima trata-se de uma ilustração do rei Salomão feita pelo artista francês Paul Gustave Doré (1832 - 1883). Extraí do acervo virtual da Wikipédia conforme conta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Dore_Solomon_Proverbs.png

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O que Jesus disse e ainda não conhecemos?




Na fase conclusiva sobre o estudo que fiz em meu blogue pessoal sobre o Evangelho de Lucas, no ano de 2013, deparei-me com alguns questionamentos na internet acerca do período de 40 dias em que Jesus teria permanecido com seus discípulos transmitindo-lhes supostos ensinamentos não divulgados pelos textos canônicos. Embora o referenciado livro bíblico não dê nenhuma indicação de tempo, sabemos pela leitura de Atos dos Apóstolos (uma continuação do 3º Evangelho), que, até o momento de sua ascensão, nosso Senhor havia dado "mandamentos por intermédio do Espírito Santo". E isto realmente abre espaço para várias indagações. Principalmente quando, na literatura não oficial (tida por "apócrifa" pela ortodoxia cristã), encontramos referências a uma suposta "doutrina secreta" do Mestre.

De acordo com algumas histórias, Jesus teria estado com seus seguidores por dezoito meses (Adversus Haereses I 3:2) enquanto que, em outras, o tempo total das aparições do Cristo ressurreto duraram quinhentos e quarenta e cinco dias (Ascensão de Isaías 9:16). Já o Pistis Sophia, um livro "gnóstico" combatido pelo apologeta Irineu de Lyon no mencionado Adversus Haereges (literalmente Contra Heresias), informa que esse espaço de tempo foi de longos doze anos, cerca de quatro vezes o ministério terreno do Senhor na Palestina. E, neste contexto, há quem acredite ser as sentenças do Evangelho de Tomé a reunião dessas "últimas palavras" do Salvador.

Seja como for, o certo é que há inúmeras especulações acerca desses ensinamentos "misteriosos" em que hoje pesquisadores científicos e amadores esforçam-se por restaurar a partir de fontes encontradas/recuperadas pela Arqueologia. O fato do catolicismo que se oficializou em Roma no século IV ter destruído inúmeras obras reputadas como "heréticas" tem levado muitos nessas últimas décadas a alimentarem a crença de que, procedendo assim, aproximarão do que teria sido o cristianismo primitivo ainda mitologizado como um modelo perfeito de Igreja.

Considerando a decepção que há hoje em dia com o meio religioso, tanto entre evangélicos como no catolicismo, com sacerdotes acusados de corrupção e de pedofilia, consigo compreender melhor o porquê dessa busca por um outro cristianismo. Contudo, fico a indagar se o aprendizado de um novo conteúdo informativo fará uma diferença substancial para a humanidade. Questiono se muitos não estariam querendo fazer dos livros redescobertos pela Arqueologia uma espécie de "pílula" para resolverem essa necessidade de orientação/conhecimento espiritual quando, na verdade, podemos encontrar Deus dentro de nós mesmos e sermos guiados pelo seu Espírito Santo.

Não pretendo de modo algum desestimular as pesquisas arqueológicas, históricas e teológicas sobre um outro cristianismo que de fato existiu nos primeiros séculos da nossa era e foi tão perseguido pelos católicos antigos. Muito pelo contrário! A ampliação da nossa enciclopédia sempre haverá de ser algo proveitoso para os mais diversos fins e a humanidade tem o seu direito de saber. Paulo mesmo orientou os tessalonicenses que examinassem tudo retendo o que fosse bom (1Ts 5:21). Somente não concordo que a mera leitura de qualquer escrito, por si só, promoverá uma experiência transformadora. E digo isto até mesmo em relação à Bíblia que considero a minha bússola da qual não me desfaço por mais que a ciência avance e várias concepções filosóficas modernas tenham surgido. As Escrituras Sagradas continuam sendo minha companheira de todas as horas e que não deixo aberta num dos Salmos pegando poeira na estante, mas consulto frequentemente suas páginas.

Voltando a Lucas, consta no verso 45 do capítulo 24 que Jesus "abriu o entendimento" dos discípulos para que eles compreendessem as Escrituras. E, deste modo, falando numa linguagem popular, penso que a experiência da ressurreição fez "cair a ficha" no coração deles. Os ensinamentos transmitidos que durante a vida terrena do Mestre nem sempre bem compreendidos, começaram então a fazer sentido juntamente com uma nova maneira progressista de interpretação da Bíblia. Lembremos também da palavras dos anjos ditas às mulheres quando foram ao sepulcro levar aromas (Lc 24:5-9) e dos dois discípulos de Emaús (24:30-31). Aliás, foi o que tratei em algumas postagens feitas em dezembro no meu blogue, as quais se referem ao capítulo final do 3º Evangelho: "Ele não está aqui, mas ressuscitou" (17/12/2013), Caminhando e conversando com Jesus (19/12/2013) e Compreendendo as Escrituras (22/12/2013).

Respondendo à pergunta formulada no título deste artigo, eu diria que há ainda muita coisa que hoje precisamos conhecer para darmos um salto de qualidade na nossa caminhada espiritual. Falo em conhecer não apenas com a mente, mas num sentido espiritualmente mais íntimo. Pois não basta alguém simplesmente decorar um conteúdo ou entendê-lo pelas razões da lógica. Deve-se buscar uma experiência com a Palavra da mesma maneira que um homem só conhece a sua esposa quando se relaciona com ela na privacidade matrimonial, dentro de um contexto verdadeiramente amoroso.

Sendo assim, precisamos aprender mais sobre o amor fraternal através da prática de atos condizentes com este princípio basilar que rege toda a Lei de Deus e sua aplicação.

Precisamos desenvolver um profundo sentimento de respeito pela Vida que há em nós, no nosso semelhante e também nos seres das outras espécies, pois só assim estaremos verdadeiramente reverenciando o grande Arquiteto do Universo.

Precisamos entender que somos todos iguais em direitos e, portanto, devemos saber partilhar o nosso excedente com quem tenha falta de alguma coisa.

Precismos tomar a consciência de que todos cometemos erros de modo que não podemos ser tão intolerantes, arrogantes e julgadores quanto às falhas dos outros.

Precisamos enfrentar com fé os desafios que se apresentam no nosso cotidiano ao invés de alimentarmos dentro de nós o medo, a inútil ansiedade e a paralisia espiritual que é a falta de esperança.

Precisamos sentir fome e sede de justiça, esforçando-nos coletivamente para construir um mundo melhor para a nossa geração e dos nossos descendentes mesmo que não venhamos a ter filhos biológicos.

Precisamos ter a simplicidade de uma criança arrancando de dentro todo o orgulho que nos mata interiormente e impede que contemplemos as coisas do Reino de Deus.

Precisamos não abandonar a vigilância e nem a rotina oracional afim de estarmos sempre prontos para uma boa obra e olhando para os acontecimentos em nossa volta na perspectiva do Cristo, sendo certo que o nosso Jesus sempre buscou cumprir fielmente a vontade do Pai.

Tudo isso e muito mais encontra-se suficientemente documentado nas palavras atribuídas ao Mestre Jesus, o qual, por sua vez, soube dar um adequado significado à Lei de Moisés e aos Profetas numa sensível conexão com o tempo. E, se formos competentes em assimilar a essência dos ensinamentos que ele nos deixou (não basta apenas alguém memorizar), promoveremos uma diferença transformadora neste planeta gestificando a Mensagem pelas ações realizadas.

Que o Espírito de Deus nos ilumine!


OBS: A ilustração acima trata-se de um manuscrito do Evangelho de Lucas datado do século III. Encontra-se na Chester Beatty Library, Dublin, Irlanda. Extraí a foto do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:P._Chester_Beatty_I,_folio_13-14,_recto.jpg