segunda-feira, 22 de setembro de 2014

As neblinas que tentamos alcançar



"Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém: Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?" (Ec 1:1-3; ARA)

No começo deste ano de 2014, comecei a leitura do livro bíblico de Cohélet (Eclesiastes), o qual, segundo a tradição judaica, teria sido escrito pelo rei Salomão nos dias de sua velhice, pouco antes de morrer. Foi quando o sábio monarca de Israel também teria composto o Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos) e Mishlê (Provérbios).

Ainda que para muitos o livro pareça um tanto pessimista, eu diria que o seu autor habilmente provoca nos leitores um choque de realidade com o proveitoso fim de auto-questionarmos as nossas futilidades. A palavra traduzida em muitas bíblias como "vaidade" significa literalmente, no idioma original hebraico, os termos "sopro" ou "neblina". Ou seja, o homem passa a sua vida correndo atrás do não-substancial, das coisas incapazes de preenchê-lo, assim como a água nunca enche o mar, conforme a linguagem poética muito bem empregada no texto:

"Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr." (1:7)

Por mais que as coisas experimentadas pelos nossos sentidos possam proporcionar um imediato sentimento de realização, eis que, com a morte física dos corpos, as obras feitas "debaixo do sol" (ou "debaixo do céu") tornam-se completamente inúteis para o espírito humano. Para quem já não se encontra mais aqui perde todo o significado ter acumulado bens, títulos, fama, notoriedade, muitos seguidores nas redes sociais, prestígio e até mesmo o conhecimento.

Enfim, qual seria o proveito de muitas dessas realizações?

Isso é o que o livro nos propõe a pensar desde o seu começo até a sua conclusão. E aí eu coloco a seguinte questão: será que conseguiremos ficar verdadeiramente livres desse constante desejo de realizar algo?

Creio que faça parte da nossa existência corrermos sempre atrás de alguma coisa. Tal como a Terra gira e o vento sopra continuamente sobre a sua superfície, existe em nós o impulso, sendo certo que precisamos estar bem orientados interiormente em relação à vida para buscarmos as melhores coisas. Logo o livro vem nos ensinar a ter saudáveis atitudes.

Curioso que Cohélet costuma ser lido nas sinagogas judaicas durante o sábado de celebração de Sucót (Festa dos Tabernáculos). As palavras do "Pregador" são então lembradas pelos rabinos justamente numa alegre época de Israel, quando os celeiros encontram-se abastecidos de alimentos e o homem tem a oportunidade de se satisfazer com a sua porção nesta vida debaixo do céu.

Assim, Eclesiastes trás um importante ensino que não podemos negligenciar e daí o seu autor mencionar um tipo de conflito entre as gerações que vão e que vêm (1:4,10-11). Erramos muitas vezes por ignorar as experiências dos mais antigos, daqueles cujos olhos já não se deixam mais enganar por supostas novidades. Daí manter viva na consciência a memória histórica e exercitar a capacidade de reflexão pessoal tornam-se úteis ferramentas para não sairmos por aí tentando apalpar miragens.

Uma excelente semana para todos!


OBS: A imagem acima acima trata-se de uma ilustração do rei Salomão feita pelo artista francês Paul Gustave Doré (1832 - 1883). Extraí do acervo virtual da Wikipédia conforme conta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Dore_Solomon_Proverbs.png

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