terça-feira, 27 de março de 2012

Sobre o Arquétipo Feminino ― “Maria Mãe de Deus”


Por Levi B. Santos  

Disse certa vez, Carl Jung, sobre o rico imaginário religioso: “A certeza interior do parentesco da psique com Deus baseia-se numa experiência arquetípica comprovada, em todas as épocas, pelas pessoas religiosas e criativas”.


Bernard Lewis, em seu livro: “O que Deu Errado no Oriente Médio” (página 79), afirma que “na tradição islâmica, a Trindade, cujo culto o Islã condena como uma blasfêmia quase politeísta, era formada por Deus, Jesus e Maria

Parece que no Cristianismo e Judaísmo que dominam a cultura ocidental, o lado feminino foi esquecido ou reprimido, tanto é que, nos seus dogmas não há lugar para a deusa mãe. Essas duas principais religiões de nossa cultura se concentram mais no masculino: Deus-Pai e Deus-Filho. Porém, é na vertente católica que surge a figura da “mulher santa”, como que para manter o equilíbrio entre os arquétipos masculino e feminino do mundo interior psíquico.

Jung sustentava que a ausência da figura arquetípica feminina no dogma religioso deixava a simbologia da psique capenga. Segundo ele, reprimir o feminino seria o mesmo que ferir a ALMA.

David E. Elkins, em “Além da Religião” (página 56) faz uma alusão muito curiosa sobre a mulher, em contraposição ao arquétipo patriarcal. Diz ele: “A Alma é associada às sombras, à lua e as coisas da noite”.

Carl Jung falava da alma como aquela ‘noite primitiva do cosmos’, antes que houvesse um ego consciente. Em nossa cultura tendemos associar as sombras com o mal. Mas as sombras são também associadas à força, à substância, ao mistério e ao princípio feminino. Por exemplo, a Madona Negra, uma imagem que sobreviveu ao catolicismo, é muito reverenciada como possuidora de um grande poder espiritual. O místico São João da Cruz disse que, ‘revelações e experiências espirituais acontecem à noite. Jung, falava do arquétipo da SOMBRA, sabendo de seu perigo tanto como fonte de paixão como de poder. Poetas e outros artistas descobriram que a criatividade autêntica geralmente provém do lado sombrio da alma’.

É sabido que as mulheres da Grécia Antiga prestavam oferendas às deusas a guisa de proteção. O Matriarcado, que precedeu ao Patriarcado, tinha o arquétipo da “Grande Mãe” em lugar de maior destaque.

Resquícios desse arquétipo matriarcal primitivo da civilização helênica mantém suas ressonâncias na religião católica: O movimento de renovação carismática, apesar de ter muitas características do pentecostalismo, por exemplo, enaltece e roga a virgem Maria.

A Maria retratada pelos pintores da antiguidade, assim como as imagens que ornam os templos católicos, configura-se numa mãe dócil e graciosa aconchegando o seu pequenino “menino-deus” nos braços. O fiel, inconscientemente, mitiga o seu desamparo e se sente confortado ao se vê refletido naquele bebê, como que re-experimentando a sensação do tempo em que se percebia como a própria extensão materna que lhe fornecia a seiva da vida, ― o leite.

 Há quem diga que foi logo após a queda do império romano, que a igreja primitiva helenizou Maria, “mãe de Jesus, colocando-a no pedestal que antes era o da deusa Diana de Éfeso.

Joseph Campbell, em seu livro ― ‘As Máscaras de Deus’, (página 63) diz que “na ‘cidade-templo’ da Ásia Menor, Éfeso (430 dC), teria se declarado que a virgem Maria fora verdadeiramente o berço de Deus, a grande deusa, a mãe de todas as coisas, representada por Àrtemis (Diana) com inúmeros seios. De acordo com a tradição grega, a Deusa dissera: ‘Eu sou a mãe sem consorte, a Mãe Original; todos são meus filhos, por isso ninguém jamais ousou aproximar-se de mim.’ ”

A humanidade na pré-história ―, dizem alguns historiadores ― passou por uma fase em que o feminino e o materno reinavam com toda sua força de atração simbólica, sexual e materna. Para o antropólogo suíço, Bachofen (1815 -1887), a figura de uma mãe bondosa e protetora da época do Matriarcado, pode ter impregnado o inconsciente do “homus religiosus”. O lado feminino e meigo, como ressonância desse tempo, pode ser percebido na oração da “Ave Maria” recitada solenemente nas escolas, igrejas, festas religiosas e em velórios:

“Ave Maria cheia de graça
Bendita sois vós entre as mulheres
E bendito é o fruto do vosso ventre
Jesus.
Santa Maria Mãe de Deus
Rogai por nós pecadores
Agora e na hora de nossa morte.  Amém”

Goethe foi um que também, sucumbiu à sublimidade desse arquétipo, ao escrever o poema: “O Eterno Feminino”:

‘Todo o efêmero
é apenas uma aparência.
O inacessível
aqui se torna acontecimento.
O indescritível
aqui é feito.
O ‘Eterno-Feminino’
para o alto nos arrasta.”

Edward F. Edinger, em seu livro “O Arquétipo Cristão”, a respeito do mito da “Virgem Maria”, diz algo emblemático: “A virgindade de Maria configura-se como importante parte do simbolismo. Parece haver uma conexão arquetípica entre a virgindade e a capacidade de lidar com o “Fogo Sagrado” (energia transpessoal). Na Roma Antiga as virgens vestais eram as guardiãs da chama sagrada. Entre os incas peruanos mulheres virgens mantinham no templo um fogo santo”.

Adam Mclean, em seu livro “A Deusa Tríplice: Em Busca do Feminino Arquetípico” (página 7), diz algo significativo para nossa reflexão:


“A Deusa é um arquétipo eterno da psique humana, embora a desprezamos e reprimamos ou neguemos exteriormente a sua existência. Desde os primórdios de nossa civilização ela se revela a nós em desenhos  rupestres e em esculturas primitivas, nas grandes mitologias, manifestando-se na nossa cultura atual sob os mais diversos disfarces. Ela faz parte do tecido de nosso ser, com o qual toda a humanidade tem de se relacionar interiormente se desejarmos ter em nossas almas um equilíbrio de base. Ela é parte tão essencial da humanidade que, mesmo se, nos próximos séculos nos tornarmos filhos do Cosmo, deixando a Terra para trás em sua viagem para as estrelas, sem dúvida a encontraremos nas escuras profundezas do espaço”.



 Site da imagem: capelasaobenedito.org.br

sexta-feira, 23 de março de 2012

Os judeus e as mitsvót ou A pergunta do Czar




Parte do Muro das Lamentações(ruína do Templo judaico)



Existe uma história contada a respeito de um rabino que viajou a São Petersburgo nos idos do czarismo para fazer uma petição ao governo para que anulasse um decreto anti-semita que acabara de ser emitido. Quando ele fez sua solicitação ao primeiro-ministro, este retrucou, um tanto aborrecido: "Você pede nosso favor e misericórdia, contudo, todas as manhãs você diz uma oração louvando o Eterno por não havê-lo tornado gentio! Você zomba de nós e nos ridiculariza e agora quer nossa bondade"!



O rabino insistiu em que tratava-se de um mal-entendido: "Realmente fazemos esta declaração na oração matutina, mas não se trata de escárnio nem desprezo". "Não é certo que o judeu também agradece ao Todo-Poderoso por não havê-lo feito mulher"? - continuou o rabino. "Certamente não estamos ridicularizando nossas esposas e filhas. É que as mulheres e os gentios são eximidos de certas mitsvót, certos deveres e tarefas que acreditamos terem sido impostas a nós pelo Todo-Poderoso. Nós judeus somos um tanto estranhos neste sentido: agradecemos ao Todo-Poderoso porque, sendo do sexo masculino e judeus, temos a obrigação e a oportunidade de cumprir todas as Suas tarefas e mandamentos, Suas mitsvót"







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Fonte: A Ética do Sinai, Ed Sêfer



sexta-feira, 9 de março de 2012

A respeito da visão marxista sobre a origem do cristianismo

Por: Ivani de Araujo Medina



O século dezenove parecia que ia mudar o mundo de vez. A figura de Jesus Cristo, no meu entendimento mais acertadamente do “histórico” Jesus de Nazaré, havia escapado do iluminismo no século dezoito, porque, no fundo, se tratava de uma disputa entre a Igreja e a consciência laica protestante. Uma discussão em família, digamos assim. Quem tinha realmente o que dizer não foi ouvido. Ficaram-nos palavras soltas no ar e alguns nomes sem maiores conseqüências práticas. Abafados pelas circunstâncias e pelo poder de convencimento da maioria absoluta, os mais radicais eram constantemente lembrados pelas leis e pela própria sociedade de que as fogueiras da Inquisição haviam se extinguido, mas o chão continuava quente. O último brasileiro condenado pela Inquisição, João Henriques, preso nas Minas Gerais, onde vivia, morreu no auto-de-fé de 20 de outubro de 1748, em Lisboa. A última execução foi a do professor Cayetano Ripoll, realizada na Espanha em 1826; portanto, já no século dezenove.

Foi a partir do iluminismo que a história ensaiou seus primeiros passos, ainda tímidos, para fora dos domínios da religião. Tais reflexos no cenário cultural favoreceram o surgimento do marxismo no século dezenove, que criou uma nova expectativa de esclarecimento ao apresentar a religião como o ópio do povo. Parecia que também as antigas mentiras culturais apaziguadoras ruiriam de vez diante de tais descobertas, o que infelizmente não aconteceu.

Na Europa daquele século as novidades em todos os setores das sociedades, ou seja, produção, economia, finanças, medicina, artes, literatura, filosofia etc. coexistiam com uma dificuldade antiga: o ancestral ódio grego pelos judeus se estendera no tempo por intermédio do cristianismo. Na Europa oriental os pogroms atingiam fisicamente os judeus, enquanto na Europa ocidental o preconceito antijudaico se manifestava nas formas mais civilizadas concebidas e administradas pelo intelecto, como por exemplo, medidas restritivas aos empregos públicos e ao pequeno comércio. O pai de Marx se viu obrigado à conversão ao cristianismo para não perder o emprego. Trocando em miúdos: queriam expulsar os judeus da Europa. Essa situação explica o surgimento do Sionismo (retorno à Sion ou Jerusalém) e serviria como justificativa para a fundação do Estado de Israel, no século seguinte.

O progresso de algumas famílias judias no setor bancário, desde a Idade Média, por restrições impostas aos judeus ao longo do tempo quanto às atividades remuneradas, acentuava o despeito de alguns que se encontravam menos qualificados no livre mercado. De modo que, no mercado do dinheiro, especialmente, avançavam a passos largos os financistas judeus num continente que se industrializava e conseqüentemente dependia cada vez mais de financiamentos. Essa posição de vantagem de alguns judeus operou contrariamente a desgastada reputação daquele povo, até porque o mercado do dinheiro não dá exemplos de boa moral a ninguém. Quando depositamos no banco ninguém pergunta de onde aquele dinheiro veio, tampouco perguntamos para aonde o nosso dinheiro vai. Trocamos conveniências e ponto final. Em decorrência dessa prática, banqueiros como os Rothschild, durante a guerra civil norte-americana, financiaram ambos os lados do conflito. A filial de Paris financiou os confederados do sul e a filial de Londres os estados do norte. Os banqueiros ganhariam de qualquer maneira.

http://www.marxists.org/portugues/marx/1843/questaojudaica.htm

Os intelectuais que melhor podiam perceber o percurso do fruto do trabalho se manifestavam na esperança de reorganizar o mundo numa estrutura social teoricamente mais justa e construtiva. A miséria mais baixa coexistindo com a suntuosidade mais elevada feria a sensibilidade social de muitos. Naquela efervescência intelectual e humanista européia, a Alemanha vinha se destacando com seus filósofos e teólogos revolucionários. A consciência luterana, que havia ganhado espaço com a sua luta no século anterior contra a hegemonia da Igreja, se manifestava de maneira surpreendente deixando a cristandade de cabelo em pé. Seus teólogos levantaram questões com as quais nem podiam ser pensadas antes. Um deles mostrou-se tão sinceramente perigoso que foi varrido para baixo do tapete. Suas obras permaneceram em alemão enquanto as dos seus colegas de filosofia foram traduzidas para diversas línguas. Ele era igualmente antijudeu porque na prática o deus de Israel deixou muito a desejar ao entendimento dos que possuíam uma visão de mundo mais abrangente. Consideravam, todos eles, que o deus dos judeus era mesmo o dinheiro. Por outro lado, seus colegas teólogos sistemáticos mantiveram sobre aquele (varrido para baixo do tapete) um silêncio de morte.

Um filósofo alemão, chamado Georg Wilhelm Friedrich Hegel, fixou para a filosofia a tarefa de mostrar a evolução racional na história mundial. Ele lecionava na Universidade de Berlim e entre seus alunos mais brilhantes estavam Karl Marx, Friedrich Engels e Bruno Bauer entre outros. http://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel

http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx

http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Engels

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bruno_Bauer

Na sua contribuição para o esclarecimento do sobre a origem do cristianismo, Engels apresenta dois aspectos do seu entendimento num único parágrafo que resolvi comentar. O primeiro absolutamente correto. O segundo arrasta uma asa para a causa socialista sem perceber a dimensão daquilo que se articulava por trás daquela tolice aparente, atribuindo perspicácia somente ao imperador em função da uma visão mais filosófica do que historicista, no meu entendimento.

A religião que subjugou o Império Romano e dominou sem dúvida a maior parte da humanidade civilizada por 1.800 anos, não pode ser explicada apenas declarando ser ela uma tolice resultante de fraudes. Não se pode elucidar esta questão e ter sucesso na explicação da sua origem e do seu desenvolvimento sem partir das condições históricas sob as quais surgiu e alcançou o domínio da situação. Isto se aplica ao Cristianismo. A questão a ser solucionada, então, é: como aconteceu que as massas populares no Império Romano preferiram esta tolice — que era aceita, normalmente, pelos escravos e oprimidos — a todas as outras religiões, e, finalmente porque o ambicioso Constantino viu na adoção desta religião tola o melhor meio de elevar a si mesmo ao posto de autocrata do mundo romano. (Engels)

“A questão a ser solucionada, então, é: como aconteceu que as massas populares no Império Romano preferiram esta tolice — que era aceita, normalmente, pelos escravos e oprimidos — a todas as outras religiões,


Aconteceu por intermédio de um intensivo proselitismo cristão, introduzido por uma elite intelectual e dissidente grega, nas classes médias e altas (em resposta ao proselitismo judaico), e depois nas classes baixas por intermédio de homens treinados sob sua orientação. Os primeiros propagandistas cristãos chegaram a Roma, da Ásia Menor, principalmente, no século II, com a intenção de estabelecerem escolas para a formação dos homens da Igreja que atuariam junto às classes baixas. Em matéria de pedagogia não havia dificuldade. Posteriormente, com o apoio do estado e a proibição dos outros cultos, tudo ficou mais fácil. O cristianismo só começou a tomar vulto a partir do século IV, quando começou a colher as primícias da sua estratégia. Já no final deste século a violência cristã se espalhou pelo império convertendo à força, sangrando, assando os pagãos e superando em crueldade a Santa Inquisição, que, pelo menos, encenava um julgamento. Aqueles que resistiram à conversão já estavam condenados e quem nada tinha a perder, se entregava alegremente. O mundo antigo foi simplesmente suicidado e não superado por uma filosofia religiosa ansiada pelos povos.

“finalmente porque o ambicioso Constantino viu na adoção desta religião tola o melhor meio de elevar a si mesmo ao posto de autocrata do mundo romano.”

Constantino (nome comum na Grécia, em homenagem a ele) era o candidato natural dos gregos para o comando do Império Romano, tendo em vista o interesse cristão de chegar ao poder matando dois coelhos com uma só cajadada: dominar de vez os romanos e controlar em definitivo os judeus. Poderia o novo imperador contar com seus patrícios se eles contassem com ele também, uma troca justa. Constantino não era cristão, mas também nunca renegou a sua origem grega. Nasceu na Mésia (hoje a região que compreende a Sérvia e a Bulgária), como os seus pais (Constâncio e Helena), e não na Itália. O nome latino (talvez para não se demonstrar acintoso) parece uma concessão a cidade que lhes custeava a vida ou coisa parecida. Ser grego era chique, ser romano não. Ele desprezava Roma, e quando mudou a capital do império para a Ásia Menor entregou-a aos lobos. Cumpriu assim a profecia dos panfletos anti-romanos de influência judaica, circulantes na Ásia Menor, no século I. Esses panfletos eram da mesma linguagem do Apocalipse de João, cujo texto é pré-cristão e foi reaproveitado para cravar “historicamente” o cristianismo no primeiro século. Roma não recebia mais os tributos das províncias da Ásia; passou a pagá-los na condição de uma delas. Maior humilhação era impossível. Os romanos não perdoaram Constantino por isso. A filosofia não pode explicar a chegada do cristianismo ao poder pelas mãos de Constantino, qual a proposta hegeliana. De tola, essa cultura religiosa não tinha nada. Inventou uma imagem para si mesma a iludir incautos e angariar simpatias. O cristianismo foi simplesmente competente na sua estratégia. A objetividade (violência e crueldade) compensou os descuidos. Por outro lado, a história não permitiria mais do que tentativas de enganação nos seus domínios.

Um desentendimento intelectual separou Engels e Marx de Bauer. As críticas foram tão inevitáveis quanto demolidoras. No entanto, aqui me refiro a um comentário de Engels sobre o exagero que, segundo ele, Bauer havia incorrido nas suas críticas ao cristianismo.

Na intenção de determinar, mesmo do ponto de vista literário, a influência de Philon, e sobretudo de Sêneca, sobre o cristianismo nascente, e de representar formalmente os autores do Novo Testamento como plagiários desses filósofos, é obrigado a retardar o aparecimento da nova religião em meio século, a rejeitar as narrativas de historiadores romanos que a isso se opõem e, em geral, a tomar graves liberdades com a história conhecida. Segundo ele, o cristianismo como tal só aparece sob os imperadores Flavianos, a literatura do Novo Testamento só sob Adriano, Antonino e Marco Aurélio. Portanto, Bauer faz desaparecer todo o fundo histórico para as narrativas do Novo Testamento relativas a Jesus e aos seus discípulos; resolvem-se em lendas em que as fases de desenvolvimento interno e os conflitos morais das primeiras comunidades são transpostos e atribuídos a personagens mais ou menos fictícias. Não são a Galiléia nem Jerusalém, segundo Bauer, os lugares de nascimento da nova religião, mas sim Alexandria e Roma. (Engels)

http://www.marxists.org/portugues/marx/1895/mes/cristianismo.htm

Em sua crítica a Bauer, Engels mais me chama atenção quando diz “a rejeitar as narrativas de historiadores romanos que a isso se opõem.” Que historiadores romanos são esses que confirmam o cristianismo no primeiro século? Suetônio, Plínio, o Jovem e Tácito? Quiçá Flávio Josefo? Essas fraudes desbotadas dos antigos cristãos? Parece que sim, do contrário a existência de Jesus de Nazaré há muito teria deixado de ser motivo de debates para ser uma evidência histórica. Sou obrigado a admitir que a versão oficial cristã fosse mais simpática a causa socialista do que às conclusões desconfortáveis de Bruno Bauer. Uma overdose de desilusão para a empatia que se acalentava entre o comunismo e o cristianismo não cairia bem na ocasião. Pelo pouco que sei, só não entendo como Bauer não se lembrou da hegemonia grega, desde os primórdios do cristianismo até Constantinopla. Isso fechava o raciocínio dele que sabia que o cristianismo não havia surgido diretamente do judaísmo, como seus colegas insistiam acreditar. Engels cria em cristãos de origem judaica quando a história sequer cita um. Quanto à vulgarização da concepção filoniana, a filosofia foi capaz de detectar, todavia, a confirmação pela história secular ou pela antiga história judaica é algo imprescindível, ao menos, aos personagens “históricos”. Não há por que se abrir mão desse rigor. Hoje aparecem alguns judeus confirmando o que nunca aconteceu, por diversos e inconfessados motivos. Não façamos caso destes, melhor ignorar. Pois é, foi um teólogo o primeiro “a tomar graves liberdades com a história conhecida” e a declarar que Jesus Cristo foi um mito criado no segundo século. http://plato.stanford.edu/entries/bauer/

Depois da morte de Bruno Bauer, Engels prestou sentida homenagem ao antigo amigo, exaltando a sua contribuição inestimável ao esclarecimento da história do cristianismo.

Bauer estudou esta pergunta até a sua morte [Como o cristianismo veio dominar o mundo?]. Sua investigação alcançou seu ponto alto na conclusão que o judeu de Alexandria, Filon, que ainda vivia por volta de 40 D.C., mas já era muito velho, foi o pai verdadeiro do Cristianismo, e que o estóico romano Sêneca era, por assim dizer, seu tio. A escrita numerosa atribuída a Filon que nos alcançou tem origem realmente em uma fusão alegórica e racionalisticamente concebida das tradições judaicas com as gregas, particularmente a filosofia estóica. Esta conciliação de perspectivas ocidentais e orientais já encerra todas as idéias essencialmente Cristãs: o pecado inato do homem, o Logos, a Palavra, que está com Deus e é Deus e que se torna o mediador entre Deus e homem: a compensação, não por sacrifícios de animais, mas trazendo-se o próprio coração a Deus, e finalmente a característica essencial que na nova filosofia religiosa, invertendo a ordem mundial anterior, busca seus discípulos entre os pobres, os miseráveis, os escravos, e os rejeitados, e menospreza o rico, o poderoso e o privilegiado, originando o preceito para menosprezar todo prazer mundano e mortificar a carne. (Engels)

“o judeu de Alexandria, Filon, que ainda vivia por volta de 40 D.C., mas já era muito velho, foi o pai verdadeiro do Cristianismo”

Muita gente tomou isso ao pé da letra, antes de verificar a situação dos judeus de Alexandria, no século I. Filon chefiou a comitiva judia que foi solicitar a atenção de Calígula para uma solução aos conflitos naquela cidade, juntamente com a comitiva grega, chefiada por Apion. Calígula sequer ouviu o representante judeu. As obras de Filon tinham por objetivo atenuar as dificuldades e não criar intencionalmente uma nova religião. Poderia até ter sido, caso ele viesse propondo reformas ao judaísmo. Mas isso nunca aconteceu, ele se afirmava e demonstrava ser um judeu como os outros. Morreu sem saber que a vulgarização da sua obra foi oportuna a outro tipo de judaísmo ─ o grego. A absorção da concepção filoniana e do estoicismo de Sêneca, deixa claro que o cristianismo não procede das classes baixas e nem diretamente do judaísmo. Além disso, sabemos que essa esponja ideológica (cristianismo), no atendimento às suas aspirações universais, absorvia as concepções religiosas vigentes que lhes parecessem vantajosas. Jamais existiu um judeu-cristianismo como as novelas relativas ao primeiro século e organizadas no Novo Testamento querem fazer crer. A existência dos nazarenos e dos ebionitas, certamente, nada tem a ver com isso. O que sei é que os nazarenos são do tempo de Jeremias e os ebionitas do tempo de Isaías. Alguém pode nos esclarecer isso, com base na história e não na teologia cristã? Teólogos geralmente defendem o seguinte:

O fato de termos farta documentação sobre o contexto religioso de Jesus de Nazaré e uma quantidade considerável de testemunhos independentes e antigos sobre Jesus nos permite interpretar criticamente esses testemunhos na tentativa de oferecer um quadro razoavelmente coerente sobre como ele foi compreendido em seu mundo. História e cultura, neste caso, história e expectativas religiosas, não se separam. (Paulo Augusto de Souza Nogueira)

Não há porque duvidar de que o coração da filosofia religiosa cristã seja natural de Alexandria (Filon); tenha enriquecido em Roma (Sêneca) e a sua metodologia operacional e campanha publicitária tenha se desenvolvido na Ásia Menor (patrística), onde foram fundadas as primeiras igrejas cristãs. E de lá, como se sabe, o cristianismo, se estendeu a Roma já com alguma familiaridade junto às classes altas e médias romanas, sob o liberalismo oportuno de Antonino Pio. O proselitismo judaico já havia preparado, involuntariamente, a maior parte do caminho. O conhecido teólogo irlandês, John Dominic Crossan, admite que o personagem Paulo costumasse ir às sinagogas judaicas do mundo grego não para converter os judeus, mas para resgatar os pagãos convertidos ou em processo de conversão ao judaísmo (que virada, não?). Habituados com as práticas, tradições e escrituras judaicas eles não tinham dificuldade em entender a teologia cristã. Claro que Paulo nunca existiu, foi baseado em outro (s) personagem (s) envolvido (s) direta ou indiretamente na questão. Evidentemente, com o judaísmo sob pressão pagã ninguém seria maluco ou estúpido diante de tamanho e infrutífero atrevimento. Coisa da teologia cristã sistemática que outro teólogo dissidente tenta reparar, e, nessa tentativa de reparação veio ele corroborar, em parte, com o nosso raciocínio.

Outra evidência da preocupação com o avanço do judaísmo sobre o mundo pagão foi que depois da chamada guerra romano-judaica de 66-70/3, foi instituído um imposto denominado fiscus judaicus, a ser pago por cada judeu (a exibição do pênis era obrigatória em caso de dúvida). Esta medida se prolongou além do necessário (restauração do templo de Júpiter Capitolino) a partir de Vespasiano. Por ser uma receita interessante e uma forma de dissuasão ás conversões de pagãos ao judaísmo, apesar de os romanos não permitirem a circuncisão daqueles, sua abolição é de data incerta. Alguns afirmam que este imposto durou até o século IV. Chamo atenção para o equívoco de alguns por terem imaginado que o judaísmo estava acabando depois da destruição do templo, da destruição de Jerusalém, da nova diáspora e da chegada de grande quantidade de desolados refugiados judeus à Alexandria. O desânimo de alguns não repercutiu com intensidade suficiente no moral da maioria para se concluir por tal possibilidade. Houve cuidado com a preservação da tradição e posteriormente foram concluídos os Talmudes, como uma forma de se enfrentar os novos tempos.

Chamo atenção também para a oportuna abolição da circuncisão a fim de facilitar a conversão ao concorrente arrivista. Promoção! Judaísmo sensacional! Sem circuncisão, sem rigidez mosaica, sem imposto e com direito a apedrejar pagãos e judeus tradicionalistas. Aproveitem! No século V, o bispo Cirilo disse que os judeus podiam escolher entre deixar Alexandria ou serem apedrejados. Os pagãos já haviam tomado as pedradas deles, somadas ao exemplo daqueles que foram assados em seus templos como motivação a conversão cristã. Mas os cristãos também levaram as suas. A história antiga indica, a despeito das dissimulações propostas a ela pela teologia, que o judaísmo resistiu bravamente a sua eliminação pela força, mesmo depois que os gregos conseguiram arrastar os romanos para a própria fé. Aliás, a história moderna também confirma essa tenacidade. Tal contenção não era assunto para amadores, certamente outros conhecimentos permearam essa história.

Creio que a teologia da substituição ─ a idéia de que o Velho Testamento passava a ser (teologicamente) de direito exclusivo dos cristãos (prova material da conspiração grega); de que os judeus foram destituídos por deus de toda proteção e santidade da própria religião; de que o cristianismo seria a continuação aprimorada do antigo judaísmo; de que somente o cristianismo conduziria o Homem à salvação etc. ─ dissipe qualquer dúvida quanto ao fato de o cristianismo ter sido a única solução encontrada para a contenção do judaísmo e a evidência da conspiração grega. Ao seguirmos, tão somente, as pegadas dos personagens mais manifestos dessa parte da história (romanos, judeus e gregos), uma conclusão se impõe sem dificuldades: eram os gregos os que mais tinham a perder. Se o mundo judaizasse a forra haveria de ser na base do dente por dente, olho por olho. Também por isso, eles perderam muito para não perderem tudo. Mudaram para permanecer, e permaneceram nas ciências, nas artes, na língua, na arquitetura, em parte da religião e em nosso modo de pensar, sempre questionando tudo.

Lutar por uma ideologia é brigar por um poleiro na mesma gaiola. Libertar-se da gaiola é mais interessante aos livres pensadores. O entendimento disso é fundamental, pois o entranhado preconceito antijudaico faz por onde nos impedir a compreensão da parte mais interessante da história que, justamente por causa dele, carece de melhor investigação e esclarecimentos. Durante muito tempo a versão socialista para o surgimento do cristianismo foi a mais festejada pela intelectualidade emergente. Porém, muita água continua passando por baixo dessa ponte.

Como o que não mata fortalece, o preconceito antijudaico tem servido de tônico ao judaísmo desde o mundo antigo e ninguém se dá conta. É bom que lembremos que a sua causa primária está no distanciamento exigido pela própria religião judaica. Entretanto, se o judaísmo é um monte de bobagens que funcionam muito bem, do contrário nem estaríamos falando nele, algo da maior importância nos escapa, e não há de ser com antolhos que desvelaremos esse segredo. Nada das suas conseqüências nefastas pode ser desarticulado sem uma compreensão exata de sua causa e efeito. Além do que já conhecemos do judaísmo, com a fábula cristã passada a limpo ele se tornará mais evidente naquilo de que precisamos nos acercar. Aí então, poderemos formar um amplo e penetrante conceito. Antes disso, eu não acredito que nos seja possível um entendimento claro, produtivo e construtivo.

A história não deveria servir de abrigo à ideologia alguma, sim oferecer com isenção as experiências passadas às vivências presentes e futuras. É o que penso. Isto resume o porquê da minha referência aos jovens hegelianos. Aproveito para manifestar a minha satisfação de poder contar com as informações e os pensamentos de vocês.

Obrigado.


Nota: Comparando a história a um filme, que é constituído por inúmeros fotogramas, nada impede que se comente uma seqüência de fotogramas independentemente. Isto se justifica porque o foco da minha pesquisa está, em princípio, no século I da E.C., no qual se alega ter surgido o cristianismo. Com muita paciência vim descobrir a existência de um embate cultural naquele século, embate que é negado por alguns. Curiosamente, vim saber recentemente que muitos se deram ao trabalho de escrever livros nos quais negam o que, segundo eles, nunca aconteceu. Só rindo mesmo. Naquela seqüência selecionada, os judeus estavam levando a pior e as minhas conclusões levaram a alguns a considerar que eu tomava partido deles. No entanto, quanto mais eu estudo o assunto, mais serenamente reafirmo as minhas polêmicas conclusões. Elas se justificam nas seqüências anteriores e posteriores dos incontáveis fotogramas da história. Ao advogar a história contra a penetração ideológica e mesmo a sua submissão a essa praga, pude perceber, ainda mais, as dificuldades que um preconceito milenar pode trazer ao entendimento contemporâneo. O pior é que esse preconceito é dos dois lados, tem frente e verso. Daí a paródia: “em terra de cego quem tem um olho, errei!” Uma visão independente leva tempo para se assentar num meio social, ou seja, ser aceita como tal e não ser entendida como o que não é. Pensar custa sempre mais caro e exige mais paciência.


Ivani de Araujo Medina é carioca e residente no Rio/RJ. Estudou na antiga Escola Nacional de Belas Artes e pesquisa a história mundana do cristianismo, focalizando os quatro primeiros séculos. http://www.4shared.com/document/vAZUJY6B/Por_que_o_cristianismo.html?

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Gezuiz dos Evangélicos e o Jesus dos Evangelhos



O “populesco evangeliquês”, tem uma facilidade imensa de estereotipar num pacote pronto e fechado, suas concepções idealizadas acerca da identidade e personalidade de Jesus de Nazaré.

É por esta razão, que existem “zilhões” de expressões comunitárias de cultos e serviço ao “divino”, com configurações que são tão antagônicas entre si, quanto o “ocidente dista do oriente”.

Toda essa parafernália hibrida do imaginário religioso, torna-se um grande empecilho para muitos daqueles que ainda não se familiarizaram com a mensagem da cruz manifestada na pessoa do Filho de Deus.

Essa imagem idealizada do Nazareno, impede que as pessoas agasalhem com naturalidade e bom grado a proposta das boas novas no coração, por conta dos excessos de zelo, legalismo e radicalidade fundamentalista.

A falsa idéia de “preservação da identidade e da tradição”, tem sua fundamentação numa espiritualidade que é divorciada de humanidade e que é gerada na mentalidade rígida dos “guardiões da ortodoxia”, que conceberam um Cristo alienado a inerente fragilidade, falibilidade e sensibilidade do ser humano, embora no seu discurso propalem o contrário.

Essa elaboração cristianizada pré-condicionada, produz discípulos da esquizofrenia, divulgando uma imagem intragável do evangelho, instalando assim sentimentos de aversão na percepção daqueles que estão “de fora dos portões”.

Sei que não é seguro generalizar, mas o que escrevo é uma constatação pessoal da maior parte do contexto religioso onde estou inserido e, por isso, é que me restrinjo a comentar exclusivamente sobre esse movimento em particular.

Quando fazemos uma leitura dos Evangelhos com as lentes da “descomplexidade”, desenvolvendo o exercício simples de imaginar como Jesus se movia na vida e no caminho daqueles que estavam em contato com Ele, obrigatoriamente chega-se à conclusão de que: O Gezuiz dos Evangélicos é um, e o Jesus dos Evangelhos é outro.

O Gezuiz dos Evangélicos, é um ser alienado e anti-social que prima pela vida monástica do deserto da consagração pessoal, segregado do convívio com gente, para se apresentar nas ambiências religiosas com ares de “Super- Mashiach”, não tendo assim de se contaminar com o mundo perdendo o status de “espiritual”. Ele só tem permissão de trafegar na santidade das catedrais, nas liturgias mórbidas dos templos “consagrados ao Senhor”, nas convenções denominacionais, nos retiros espirituais, nas escolas bíblicas dominicais. Ele presenteia com passaporte para o tormento eterno, aqueles que não se enquadram nos seus “elevados padrões morais”. Esse Gezuis que é uma caricatura da jactância do “clube dos iluminados e diferenciados”, rotula como filho das trevas todos aqueles que não pertencem a “confraria congênita protestante”. Ele não tolera ser contrariado, e exige uma estética impecável com relação a “indumentária e aparência pessoal dos santos”. Esse Gezuis, concede poderes especiais e faz conluios de hierarquia com o clero, para cercear a liberdade dos leigos que precisam de um treinamento especial para serem porta-vozes dos oráculos divinos.

O Jesus dos Evangelhos, é o Deus que se envolve e se move na alegria em que experimenta sua criatura se fazendo festivo, celebrando e “curtindo” a vida. É o Deus que gosta de “dança” e “churrascada” pra comemorar a conversão “dos Mateus”, que salva uma festa de casamento, pois afinal de contas ele também gosta de diversão e de um bom vinho, que aceita prontamente o convite para uma reunião de descontração e bate-papo na casa do amigo Lázaro, que se mistura com o povão, pois eles são a Sua motivação. Ele faz a inclusão dos excluídos, e proporciona cura e perdão para os inadequados pela religião. Ele não faz da fraqueza alheia um bichinho de estimação, que é alimentado sarcasticamente todas as vezes que se quebra os “votos de castidade institucional”. A todos Ele dá liberalmente e uni-lateralmente da Sua Graça, não admitindo moeda de troca ou pagamento de indulgência com exercícios espirituais, padronizações morais e compensações monetárias. Na sua perspectiva, está fora de cogitação toda manipulação mistificada da fé para atrair sua atenção, nem “salzinho”, nem “rosinha”, nem “óleozinho”, tem o poder de impressioná-lo ao nosso favor, somente Sua disposição em nos encontrar é que O satisfaz plenamente. O Jesus dos Evangelhos não é seletivo, Ele é abrangente na Sua misericórdia e proposta de eternidade, e foi por isso que se manifestou ao mundo: para desfazer as obras do diabo e dos crentes também!