segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A ideia de Deus como um “pastor”

O salmo 23 é um dos mais conhecidos da Bíblia pela fé que suas palavras transmitem ao leitor, proporcionando conforto e segurança para quem espera em Deus. Em seus seus versículos, o poeta descreve a solicitude divina para com os justos através de duas imagens, apresentando o Eterno como um pastor (versos 1 a 4) e também como um anfitrião que oferece um banquete a um convidado de honra (versos 5 a 6).

A princípio, para que possamos melhor compreender a ideia de Deus como um pastor, é importante nos familiarizarmos mentalmente com o meio ambiente seco da Palestina onde o salmista teria composto o seu belo poema no idioma hebraico. Pois, aqui no Brasil, em quase todas as nossas religiões onde a vegetação e a água costumam ser abundantes para a agropecuária (exceto o sertão nordestino), pode-se dizer que as ovelhas cuidam de si mesmas ficando soltas no pasto. Porém, em lugares semiáridos como são a nossa Caatinga e mais ainda o Oriente Médio, a presença do pastor é indispensável já que, por diversas vezes, é preciso conduzir o rebanho por horas pelas paisagens desérticas até encontrar água e pasto verde para os animais.

Sem dúvida que, nestes locais secos e de criação extensiva, as ovelhas acabam desenvolvendo uma relação de confiança em relação ao pastor, passando até a reconhecer a voz de quem lhes guia e protege. Pois, sem o pastor, as dóceis e domesticadas ovelhas simplesmente vagariam sem rumo pela hostilidade do ambiente desértico até morrerem de fome, sede, frio ou serem atacadas por um predador. Por isto, esses animais indefesos não seguem a nenhum outro que não seja o verdadeiro cuidador.

Para a história do povo israelita, guiado pelo deserto do Sinai após o êxodo egípcio, a imagem de Deus como pastor torna-se algo de fácil identificação cultural. De acordo com a Torá, os filhos de Israel viveram 40 anos sob a proteção do Eterno num ambiente. Foram milagrosamente protegidos do sol forte através de uma nuvem (durante o dia) e aquecidos por uma coluna de fogo (à noite), além de receberem o maná como alimento de domingo à sexta-feira com porção dobrada neste dia da semana para que não laborassem no Shabat. É como relata poeticamente o livro de Neemias num re-exame pós-exílico da lei mosaica:

“Todavia, tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir. E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede. Desse modo os sustentaste quarenta anos no deserto, e nada lhes faltou; as suas vestes não envelheceram, e os seus pés não se incharam.” (Ne 9.19-21; ARA)

Ora, ninguém precisa acreditar literalmente na ocorrência desses fenômenos. Toda a jornada de travessia dos israelitas pelo deserto é uma imagem da orientação do homem pela Torá em sua caminhada. Significa sermos guiados e cuidados por Deus na trajetória de vida através de uma experimentação mística, relacionando-se também com o aspecto coletivo e não se restringindo somente ao individual.

Voltando ao Salmo, cuja autoria é atribuída ao rei Davi, tem-se logo no começo o incentivo á confiança de que Deus irá suprir totalmente o seu “rebanho”, conhecendo as necessidades fundamentais das “ovelhas” melhor até do que elas mesmas. Então, tudo o que elas realmente precisam o Pastor irá lhes proporcionar ainda que nada Lhe seja pedido. E, como se vê, a grama não é seca, mas fresca, adequada para o animal deitar e repousar. Também as águas, ao invés de serem agitadas, são tranquilas e seguras, permitindo a ovelha saciar sua sede.

Tal cenário bíblico dos versos 1 e 2 parecem até a habitação celestial descrita no Apocalipse sobre a Nova Jerusalém. Porém, não é propriamente sobre o futuro que o salmista está falando, mas sim do conforto recebido no presente, capaz de levantar seus ânimos em meio às lutas do cotidiano. Assim, quando o versículo 3 fala em refrigério para a alma, certamente podemos entender isto como uma restauração das nossas forças espirituais em Deus. Isto porque é o Eterno quem sustenta a nossa vida pela sua Torá (orientação), dando-nos mais do que pão para o estômago.

A Palavra de Deus, a qual também podemos entender por “instrução” (vocábulo mais adequado do que “lei” para traduzir Torá no nosso idioma), é também o caminho de justiça pelo qual a ovelha é guiada. Ou seja, quando permitimos que o Eterno nos dirija, podemos alcançar a verdadeira paz através de uma tranquilidade e de uma serenidade no nosso interior.

A esse respeito, a Bíblia é riquíssima em exortações. Os mandamentos divinos são orientações dadas aos homens para que todos possam viver bem e em harmonia com o Universo. Isso encontra-se explícito nos cinco livros da Lei de Moisés, no Salmo 1º que fala dos caminhos do justo e do ímpio, além de inúmeros outros poemas, provérbios e advertência dos profetas:

“Filho meu, não te esqueças dos meus ensinos e o teu coração guarde os meus mandamentos; porque eles aumentarão os teus dias e te acrescentarão anos de vida e paz. Não te desemparem a benignidade e a fidelidade, ata-as ao pescoço; escreve-as na tábua do teu coração e acharás graça e boa compreensão diante de Deus e dos homens. Com fia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal; será isto saúde para o teu corpo e refrigério, para os teus ossos.” (Pv 3.1-8; ARA)

Assim como um homem honrado cumpre com a sua palavra, mais ainda a instrução do Eterno não pode falhar e Ele nos conduzirá em paz pelos caminhos da vida. Tal como a gravidade atrai o corpo ao chão, os mandamentos divinos são leis que regem metafisicamente o Universo. E aí, reverenciar a instrução torna-se o primeiro passo para alcançarmos a sabedoria interior.

Na sequência, o salmista fala sobre a ausência de receio ou de temor do mal caso viesse a andar “pelo vale da sombra da morte”, o que traduz o apoio de Deus nos nossos momentos de adversidade. Segundo o teólogo congolês Nupanga Weanzana, doutor em estudos do Antigo Testamento pela Universidade de Pretória, África do Sul, a referida expressão poderia ser um local de perigo onde as ovelhas fossem vítimas de animais selvagens “ou um vale íngreme que o rebanho precisava escalar ao se deslocar de um pasto para outro” (Comentário Bíblico Africano, pág. 639). Para ele, esta imagem também lembra a experiência de Israel em sua jornada espiritual pelo deserto do Sinai fazendo uma referência a um trecho do verso 6 do capítulo 2 do livro de Jeremias que assim diz: “e sem perguntarem: Onde está o SENHOR, que vos fez subir da terra do Egito? Que nos guiou através do deserto, por uma terra de ermos e de covas, por uma terra de sequidão e sombra de morte, por uma terra em que ninguém transitava e na qual não morava homem algum?”

Aduza-se que o “vale da sombra da morte” poderia significar também uma descrição negativa do reino dos mortos que os antigos hebreus construíram em seu imaginário coletivo. Tanto é que Jó, no auge do seu desespero, chegou a pedir para Deus deixá-lo em paz antes de partir “para a terra das trevas e de sombra da morte” (ver Jó 10.20-22). Só que para o salmista não importaria por onde ele caminhasse porque a presença envolvente do Eterno seria suficiente para protegê-lo e ampará-lo nas diversas situações.

Sinceramente, eu não vejo outra maneira de viver plenamente saudável senão através da fé.

Quando colocamos a nossa confiança em Deus, sem reservas, nenhuma situação vai nos amedrontar. É claro que não estamos isentos de sofrer com as más notícias, perdas e acontecimentos ruins porque somos humanos, não de ferro. Contudo, no momento em que tomarmos consciência da Divina Providência operando a nosso favor, passamos a desfrutar da doce paz do Eterno em nossos corações mesmo que tudo esteja desabando ao nosso redor.

Nessas horas precisamos nos lembrar bem do “bordão” e do “cajado” de Deus, instrumentos com os quais os pastores traziam de volta a ovelha desgarrada e protegiam o rebanho do ataque das feras do campo. Pois, caso um lobo surgisse repentinamente, o cajado seria capaz de afugentar o predador e até mesmo evitar uma aproximação.

Bendito cajado!

Quer nos desviemos ou passemos por dificuldades, certamente o Eterno não nos abandonará porque Ele ama o seu povo. A sua proteção e a sua provisão jamais nos faltarão. Logo, devemos prosseguir confiantes, sabendo que um banquete espiritual aqui e agora nos aguarda. E que bondade e misericórdia vão nos acompanhar todos os dias de nossas vidas, tendo em Deus o nosso lar eterno, com quem estaremos para sempre unidos.

Uma boa semana e que possamos deixar Deus nos conduzir e nos saciar completamente. Segue aí um excelente vídeo encontrado no Youtube com o Salmo 23 cantado na língua hebraica:

OBS: A imagem acima trata-se da obra "O Bom Pastor", mosaico no Mausoléu de Galla Placidia, Ravenna, datado da primeira metade do século V da era comum. Já a segunda ilustração seria uma retratação do Salmo 23 da versão King James de 1880 em que ó provável autor talvez seja Edward Evans (1826-1905).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

União hipostática






Por Donizete Vieira


AS DOUTRINAS POSSUEM DIFERENTES níveis de importância, e  às vezes verdadeiros embates eram travados não pela palavra em si, mas por entendimentos provincianos da verdade. O escolasticismo(1) porém, enxergava esta questão sob outra ótica. Tanto o escolasticismo medieval como o protestante reformado considerava a sistematização do todo da doutrina cristã como A VERDADE.

O método escolástico vê todas as verdades no mesmo nível e considera a negação de qualquer parte do sistema a negação de todo o sistema. Não havia uma divisão sistemática, mas uma única estrutura que incorporava todo o conhecimento teológico, ou seja; um único sistema que abrangia todo o complexo doutrinário. Em função disso não faziam uma distinção qualitativa em torno das convicções teológicas. De modo que doutrinas consideradas secundárias dentro de um estudo sistemático, eram consideradas de igual valor às questões que envolvem a definição da natureza de Deus. Detalhes periféricos da teologia eram defendidos com o mesmo vigor com que defendiam as doutrinas cruciais do cristianismo. Estavam dispostos a encarar o paredão por questões mínimas da soteriologia, como fazem ainda hoje os monergistas radicais que tentam impor na base da força convicções que a tempo foram excluídas do rol das doutrinas essenciais para o cristão.

Nesta oportunidade colocarei para discussão aquele que é considerado o segundo maior desenvolvimento teológico da história da Igreja, que é a articulação da natureza da pessoa encarnada de Jesus Cristo, especificamente a doutrina das duas naturezas, a divindade e a humanidade. E a explicação de como as duas naturezas se unem numa só pessoa. (União Hipostática).

Desde o nascimento da igreja, havia um reconhecimento implícito de que Jesus, de modo singular, era plenamente humano e plenamente divino. A princípio a igreja não se preocupou em explicar a natureza da encarnação ou relacionar o divino com o humano na pessoa histórica de Jesus Cristo. As conclusões cristológias foram forjadas à medida que iam surgindo às controvérsias acerca desta doutrina.  

Assim como no caso de Ario, que criou a controvérsia em relação Trindade e à divindade de Jesus, o entendimento da pessoa de Cristo, mais especificamente sobre as duas naturezas, originou também através de polêmicas, neste caso, o entendimento só foi refinado e concluído em três controvérsias sucessivas. Para entender melhor as conclusões cristológicas que se tornaram definitivas no concílio de Calcedônia em 451, precisamos entender o clima teológico daquela época.

Na igreja dos séculos IV e V, existia duas escolas teológicas de fala grega. A de Alexandria, que por ser pesadamente influenciada pela filosofia platônica, tinha mais interesse pelas realidades espirituais, e sua tendência era enfatizar a divindade de Cristo em detrimento de sua humanidade. Um dos grandes defensores da ortodoxia nicena (referência ao concílio de Nicéia onde foi definida a doutrina da trindade), foi Apolinário, teólogo da escola alexandrina. Apolinário não admitia um Cristo plenamente humano. Sua teoria era de que, na encarnação, Jesus Cristo assumira corpo e alma humanos, mas o espírito (a mente racional) fora substituído pelo Logos divino, a segunda pessoa da trindade. A reação contra o ensino de Apolinário veio rapidamente, e seu ensino foi considerado herético pelo concílio de Constantinopla, no ano 381.

A segunda importante escola teológica de fala grega tinha sua sede em Antioquia. Essa escola estava interessada na interpretação histórica das escrituras e destacava a humanidade de Cristo. Embora não negasse a divindade de Jesus, sua atenção estava voltada para sua humanidade. Seu representante no que diz respeito ao entendimento das duas naturezas de Jesus foi Nestório, patriarca de Contantinopla. Nestório traçou, como era típico da escola de Antioquia, uma distinção acentuada entre a humanidade e a divindade na pessoa encarnada de Jesus. Esta distinção era tão acentuada que ele foi acusado de ensinar que Jesus era na realidade duas pessoas habitando um único corpo: o filho de Maria e o filho de Deus. O concílio de Éfeso em 429 condenou Nestório e sua doutrina dos “dois filhos.”

Vinte anos depois eclodiu outra crise cristológica. Dessa vez, o centro da controvérsia era Êutico, respeitado ancião de Contantinopla. Êutico, influenciado pela teologia espiritualista de Alexandria, ensinava que, após a encarnação, Jesus possuía apenas uma natureza, a divina. Acreditava que a humanidade de Jesus fora absorvida por sua divindade e que na encarnação as duas naturezas se fundiram para compor uma terceira, mais que humana e menos que divina, um “tertium quid” (“uma terceira coisa”).
Êutico e sua teoria, por fim, foi condenado em Calcedônia em 451. Note, portanto, que há uma diferença significativa entre as convicções dessas duas escolas. A primeira afirmava que as duas naturezas fundiram-se em uma só, a divina. A segunda reconhecia a dupla natureza de Cristo, porém criava um grave problema ao dividir em duas à pessoa de Cristo. Mais conforme já foi dito, o apolinarismo, bem como o nestorianismo e o eutiquismo foram devidamente condenados no Concílio de Calcedônia que formulou as suas conclusões na célebre definição de Calcedônia:   

"Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade e perfeito quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e corpo; consubstancial ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade... Um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação..."

Devemos considerar também que no final do século XIX alguns teólogos europeus começaram a defender a encarnação de Jesus com outro conceito, A chamada “teoria Kenótica”. Kenosis vem do verbo grego kenoõ, que significa esvaziar. Ensino sustentado pela interpretação de Filipenses 2:5-8. Segundo essa tradição o texto sugere que Jesus renunciou de alguns atributos divinos (onisciência, onipotência, onipresença), enquanto estava como homem. Isso não era visto como imposição, porém, uma autolimitação voluntária de Cristo. Entretanto essa ideia de Cristo como uma manifestação do Logos esvaziada, nega automaticamente a sua divindade, ou a torna totalmente distanciada do Jesus Homem, e isso torna então o Filho de Deus uma criatura apenas.

O leitor pode perceber que muitos pregadores atuais usam essa definição teológica para explicar as duas naturezas de Cristo desconhecendo as implicações decorrentes dessa linha de pensamento. Contudo, e bom sabermos que nenhum estudioso renomado durante os 1800 anos de história da Igreja considerou o termo “esvaziou-se” entendendo que Jesus abandonara algum atributo divino. Esse “esvaziar-se” segundo a ortodoxia, não subtrai, mas adiciona a forma de servo e semelhança humana para cumprir uma missão: a morte na cruz. O apóstolo Paulo não tinha o objetivo de defender a tese do “esvaziamento” de Jesus, mas de convencer aos destinatários a fazer tudo com humildade. Para concluir, a união hipostática significa que as duas naturezas atuam juntas. Jesus não exerceu sua deidade em certas ocasiões e sua humanidade em outras. Seus atos sempre eram da divina e da humana. Essa é a chave para compreender as limitações funcionais que a humanidade impôs sobre a divindade. Sobre Jesus Paulo afirma  que: "Nele (o Jesus Humano) habita corporalmente toda a plenitude da divindade."

Um abraço, Donizete.



(1) Escolasticismo: 

Foi a tradição acadêmica das escolas medievais. Especificamente, porém, foi o método de reflexão filosófica e teológica esboçado de forma sucinta por Tomás de Aquino. O escolasticismo buscava sintetizar a filosofia clássica grega e romana com os escritos cristãos e as Escrituras, usando o aristotelismo e o platonismo.


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Bibliografia:
Uma introdução a teologia, Sawyer, M. James
Historia da teologia cristã, Olson, Roger

http://assembereano.blogspot.com/2011/08/uniao-hipostatica.html

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Mito como expressão da fé

J.Lima



A razão cientifica da modernidade tirou o assombro do mito; agora tudo que é verdade tem que ser cientificamente provado, mas a fé deve estar mais próxima do mito ou do logos? Tanto “mythos”, quanto “logos” significa palavra.

Os gregos da idade clássica, em Platão, separaram o “mythos” que é a palavra transmitida por via oral do “logos” diferenciando-a como a expressão do pensamento ou a exteriorização do pensamento que emana de dentro da mente do indivíduo, transformou-se no discurso racional, lógica!

Mythos é aceito sem questionamentos, faz parte das crenças e da cultura do povo, já o 
“Logos”, é a expressão do pensamento, por isso passível de ser questionado, testado, no tribunal do pré-conceito pela lei da razão, tendo a lógica como juiz, e a não contradição com júri, condenar ou absolver a expressão!

O Evangelho segundo João começa dizendo que no principio era o “logos” que estava com Deus e era Deus. Não poderia ele dizer que no principio era o 
“Mithos”? Visto que o mito não exige lógica, e sim expressa à fé? Imagine ele dizendo que “O mito se fez carne”!Tornou-se o caminho a verdade e a vida, pois o “logos” exige verdade, e a verdade tem a ver com a vida!

A verdade no mito, nada tem a ver com a lógica e sim com o paradoxo, o assombro, as contradições, por isso o 
“Logos”, na carne se tornou “mitos”, e ao se tornar carne, aceita não lógica da vida, por isso a verdade não é um conceito universal para todos, a verdade do mito aceita contradição, e apesar delas, sustenta a fé. 

A fé não precisa temer o mito, mas sim o logos, esse sim deve ser temido, pois quem nele se firma precisa das muletas, da razão. O mito carrega nas suas entranhas a fé, oferece caminho para as potencialidades da vida, do que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente, expressa o que a razão não decodifica, pois verbaliza as mais profundas aspirações do homem.

Mito 
“é a invocação daquilo que nomeia”, seja os deuses sejam os heróis, eles estão presentes de modo que “enunciar o mito implica sair do mundo dos fenômenos naturais, para entrar numa outra dimensão numa outra temporalidade, numa outra experiência que sacraliza o tempo e o espaço”

O Logos que se fez carne é mito?... E daí? Esse mito não é verdade para quem quer ver o logos na carne, mas quem não vê na carne o logos, crê que o 
“mito”

se fez carne, e é a verdade daquele que crê!




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publicado originalmente em: http://jl-reflexoes.blogspot.com/2009/12/mito-como-expressao-da-fe.html
J.Lima é professor e Mestre em Ciências da Religião