domingo, 21 de agosto de 2016

Manter-se sábio diante do "vinho"



"Disse comigo mesmo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade. Do riso disse: é loucura; e da alegria: de que serve? Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria, e entregar-me à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida." (Eclesiastes 2:1-3; ARA)

Entre o primeiro e o terceiro capítulos do livro bíblico de Eclesiastes, há várias partes que tratam sobre o trabalho e a sabedoria com foco na ideia de que, apesar da satisfação que encontramos em nos realizar nesta vida, qualquer ganho é cancelado pelo evento morte. Assim, nos onze primeiros versos do capítulo 2, o autor fala da vaidade das possessões e usa a metáfora do vinho.

Na história de Israel, o vinho sempre teve reconhecida a sua importância sócio-cultural. Embora a Bíblia contenha advertências diversas sobre o mal da embriaguez, jamais as Sagradas Escrituras censuraram as pessoas pela ingestão da bebida alcoólica. Por isso, muitas festas típicas do povo judeu sempre foram regadas a vinho assim como os casamentos. Aliás, na cerimônia celebrada pelo rabino, é costume oferecer dois cálices aos nubentes sobre os quais são recitadas as sete bênçãos (Nessuin Shevah Brachot) que simbolizam os sete dias da criação do mundo, a transformação da matéria para formar o ser humano, assim como a criação da mulher, que assegura a continuidade da espécie. 

Tal como no uso do vinho, há que se ter a devida cautela ou moderação diante das alegrias da vida. Ou seja, o que Salomão está dizendo na passagem citada é que, na experimentação das coisas prazerosas, não se pode negligenciar a orientação protetora da sabedoria, sendo fundamental mantermos a consciência de que as realizações terrenas não são de fato satisfatórias por razões de transitoriedade.

Acredito que manter esse entendimento, em nada prejudica o aproveitamento do que é bom. Pelo contrário, permite que possamos degustar melhor o sabor das coisas. Pois, da mesma maneira que um homem embriagado já não distingue mais as características de uma bebida fina, perdemos a boa percepção dos alegres momentos quando nos deixamos dominar pela matéria. Isto porque, neste caso, tornamo-nos escravos das riquezas e dos prazeres, os quais, não passam de "vento", segundo a linguagem metafórica do livro.

Ainda que a sabedoria e a insensatez sejam canceladas pela morte, melhor é viver como sábio do que permanecendo um estulto. Afinal, este ignora a "vaidade" das coisas enquanto o homem consciente consegue ser mais feliz sabendo quando se corre atrás do que é passageiro e aplicável tão somente a uma vida terrena.

Tenham todos uma ótima semana! 


OBS: Créditos autorais da imagem acima atribuídos a André Karwath, conforme consta no acervo virtual da Wikipédia em https://pt.wikipedia.org/wiki/Vinho#/media/File:Red_Wine_Glass.jpg

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Lacan e a Teologia Judaico-cristã






O francês, Jacques Lacan, filho de pais católicos, sob o pretexto de retornar o estudo da psicanálise onde o pai da psicanálise tinha deixado, empreendeu uma releitura do inconsciente freudiano surpreendentemente muito próxima dos conceitos da Teologia Judaico-cristã.

Mas o que levou Lacan a se interessar tanto pela Teologia Cristã, da qual o “Judeu infiel”, Freud, passou ao largo? Ressalte-se, aqui, que o Judaísmo de Freud nunca deixou de estar presente em seu inconsciente, como denota essa afirmação que fez em 1927: “o pai sempre esteve oculto por trás de toda figura divina, como seu núcleo”.

Lacan, por seu turno, empreendeu uma exegese pós moderna da bíblia. Foi com o auxílio da linguística que conseguiu realizar uma interpretação psicanalítica dos textos bíblicos mais articulada que a de Freud, que considerava os rituais religiosos uma neurose obsessiva.

No polêmico seminário “Nomes do Pai” , Lacan afirmou: “… É diante desse Deus (judaico) que Freud se deteve”.

Contudo, no que diz respeito ao Corão, tanto Freud quanto Lacan permaneceram praticamente mudos, talvez, quem sabe, pela razão de os muçulmanos não perceberem Deus como Pai, como também pela sua total rejeição à família da Santíssima Trindade. Os que seguem o Corão não admitem que Deus seja pai do messias cristão. O conceito de “Pai Celeste” para o muçulmano é uma blasfêmia. O Corão não comporta a dedução psicanalítica de que Deus é um “Pai Simbólico ou imaginário”, sucedâneo do pai natural, ou tutor, que a criança um dia teve, e que lá dos arquivos profundos e impossíveis de ser delatados da psique do adulto ocidental, continua a emitir suas ressonâncias.

Nos países Islâmicos é mais complicado, não porque os muçulmanos não tenham inconsciente. O fato é que um xiita em crise jamais procuraria um analista. É mais provável que procurasse um líder religioso” disse Renato Mezan, em uma entrevista em 2006.

Jacques Lacan, no seminário 11 (falando sobre o Sujeito e o Outro) disse uma grande verdade: “cada um de nós é um Eu somente porque há um conceito de outro” ou seja, é pela existência do outro que definimos e redefinimos a nós mesmos.” Para Lacan o sujeito é sempre um efeito da linguagem de um Outro que lhe antecede. “Quanto mais o sujeito tenta resgatar a si mesmo, buscando a verdade de sua conduta, mais depara com algo não seu, que vem do outro”. O sujeito ao nascer no campo do outro a sua linguagem, em consequência, vai ser portadora dos significantes materno e paterno.

Não sei, mas pode ter sido as raízes do catolicismo bem plantadas em sua infância que intuiu em Jacques Lacan a ideia de criar o conceito de um “Grande Outro”. O que seria esse “Grande Outro” senão a imago paterna do Deus católico que nomeia mas não é nomeado, como fez seu pai, um padre católico que, em homenagem ao Grande Jacó, o nomeou de Jacques Jacó, em sua variante francesa.

Ao enunciar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem Lacan evoca a Teologia Judaico cristã. Valeu-se da interpretação metafórica do “...no início era a Palavra do prólogo do evangelho de João para explicar a esfera do inconsciente. Se no início era a palavra, pode-se concluir que o inconsciente tem a ver com a linguagem. Françoise Dolto (pediatra e psicanalista das crianças que perderam seus pais na primeira grande guerra mundial), em seu livro Tudo é Linguagem, disse: tudo que se refere ao agir das pessoas, ao que elas dizem, ao seu comportamento, estrutura a criança”.

A influência do catecismo católico que manejava quando criança, fez-se presente em suas elaborações psicanalíticas. Não foi à toa que em um dos seus mais concorridos seminários, denominado por ele Nomes do Pai, Jacques Lacan assim se referiu: “...é importante apontar que o conceito 'O-Nome-do-Pai' tem a ver com a religião e não com a ciência”. Ele considerava um paradoxo precioso o fato de o pai dar a seus filhos e filhas o nome pelo qual os judeus se referiam a Deus.

O trecho replicado abaixo, que trata principalmente do conceito “Nome do Pai”, evidencia o quanto ele bebeu da tradição judaica na formulação de seus conceitos psicanalíticos:

O Nome-do-Pai” é o próprio nó. E o que é um nó? É um furo e uma modulação em torno deste furo. O nome próprio é um furo(como a coisa não tem nome, dá-se um nome à ausência da coisa). Os judeus são muito claros a respeito daquilo que chamam de Pai. Enfiam-no em algum lugar do furo que não podemos sequer imaginar: Eu sou o que sou” isto é um furo, não é? Um furo(…) engole as coisas, e às vezes torna a cuspi-las. O que ele cospe? O Nome, o Pai como um nome”.

Quando afirma que o nome do Pai é um furo ele se reporta ao vazio do interior do vaso. O espaço vazio do vaso é estruturante. O furo deve permanecer lá, contornado pelas paredes do vaso. Adorar o contorno do furo, é o mesmo que idolatrar Deus ou fazer Dele um ídolo. Afinal, o que interessa é que o furo é um furo, como o célebre “Eu sou o que sou” relatado no livro de Gênesis.

Sobre os conceitos psicanalíticos criados por Jacques Lacan, Elisabeth Roudinesco, autora de sua única biografia, assim se referiu: “esta doutrina pertence a tradição cristã”.

Na páscoa de 1953 Lacan redigiu uma carta a seu irmão beneditino na qual reivindicava nas entrelinhas e sem ambiguidade o pertencimento de sua doutrina, à tradição cristã”. (Gérard Haddad)

A tradição judaico-cristã em suas obras falou tão alto, que o título Escritos posto na Capa do seu primeiro camalhaço, foi considerado por muitos dos seus seguidores, uma homenagem a velha bíblia de estudos em hebraico que levava sempre consigo a tiracolo, em cuja capa principal reluzia em letras douradas: “Escrituras Sagradas”

Gérard Hadadd, em O Pecado Original da Psicanálise - (Editora Civilização Brasileira -2012), nos dá uma ideia de como a vivência religiosa estava tão profundamente arraigada no inconsciente lacaniano. Diz Hadadd:

Em 1941, Sylvia, esposa de Lacan dá a luz a uma filha a quem ele chamou Judith, um perfeito nome judeu, já que significa simplesmente judia. Lacan queria uma filha, filha de Israel, e que disso trouxe a insígnia. Uma tal escolha não deixa de ser audaciosa e imprudente, naqueles anos em que o antissemitismo matava sem intimação”.

Em O Triunfo da Religião, Lacan, enfim, reconhece “o poder da religião ao dar um sentido às formas mais insólitas da experiência humana”. Entretanto, não deixa de dar uma alfinetada ao dissertar sobre o lado avesso da função consoladora da religião:

a religião é feita para isso, para curar os homens, isto é, para que não percebam o que não funciona”.

Ao forjar a célebre pergunta “O que o Outro quer de mim?”, Lacan, com o auxílio da linguística, pode perceber claramente que o inconsciente é o discurso do outro. Bem antes, ele já entendia que na psique do seguidor da cultura judaico-cristã, o inconsciente era estruturado como o discurso ou o Desejo de um Grande Outro, arquétipo que no mundo ocidental costuma ser chamado Deus, ou Pai celestial. No Cristianismo, é o desejo internalizado de um Grande Outro a que se refere Lacan ou de um Pai, (da tradição judaico cristã), que prevalece sobre o desejo do Filho: “… contudo não seja feita a minha vontade, mas a tua.” (Lucas 22. 41-42) A ambivalência do homem nascido na cultura judaico-cristã que projetava em seu Deus Desejos e contradesejos exercia uma tremenda fascinação em Lacan. Fascinação essa advinda de seus próprios afetos ambivalentes: é que ele sentia tanto empatia quanto antipatia à religião dos judeus. Quando retornou a falar sobre seu concorrido seminário O Avesso da Psicanálise em numa longa entrevista em 1968, fez questão de acentuar a semelhança entre o midrash, a arte judaica de ler a Bíblia, e a psicanálise.

Gérard Haddad, um dos discípulos mais famosos de Lacan, foi, talvez, quem mais disseminou pelo mundo o conteúdo dos seminários lacanianos e sua correspondência com a religião deduções conceituais, em sua maioria, atreladas aos símbolos da cultura judaico-cristã. Sobre as incursões exegéticas psicológicas que Lacan empreendeu nas muitas leituras de sua Bíblia em hebraico, Haddad chegou a dizer algo emblemático em sua obra “O Pecado Original da Psicanálise”:

Não é ilegítimo considerar a psicanálise, sobretudo na sua origem, como produzida por essa Coisa judaica. Ela nasceu justamente sobre as ruínas do judaísmo e alimentou-se de seus restos. […] O mito fundador do judaísmo, o “sacrifício de Abraão”, Lacan transformou no equivalente do Complexo de Édipo, como mostra esse trecho de sua obra escrita em 1938, Os Complexos Familiares na Formação do Indivíduo (Outros Escritos Lacan Zahar editora, edição 2003): '[…] ao advento da autoridade paterna corresponde uma moderação da repressão social primitiva. Legível na ambiguidade mítica do sacrifício de Abraão, que, além do mais, o liga fundamentalmente a expressão de uma promessa, esse sentido não é menos visível no mito de Édipo'”.

O certo é que Lacan tomou emprestado muitos elementos míticos da cultura judaico-cristã para elaborar sua exegese psicoteológica, como o autor do livro das Edições Loyola “A Bíblia Pós Moderna – Bíblia e Cultura Coletiva(página 202), faz ver:

Uma dificuldade no desenvolvimento de um discurso psicanalítico apropriado a textos teológicos surge porque o conteúdo inconsciente é, em grande parte, visto de forma não discursiva, em termos de campos de força, imagens e arquétipos, e, por isso, não podem ser lidos da mesma forma que a linguagem teológica. É exatamente aqui que Lacan revela a possibilidade de unir o inconsciente ao discurso teológico… Lacan atribui caráter linguístico e textual ao próprio inconsciente. Nessa perspectiva, textos teológicos e manifestações do inconsciente são homólogos e abertos à estratégias interpretativas comuns”.

Em 1991, na comemoração dos dez anos da morte do pensador e católico rebelde Jacques Lacan, a revista CULT nº 77, publicou o artigo Um Morto Contra a Morte” de autoria do psicanalista Fabio Herrmann , encimado por um subtítulo ousado e provocador, que reproduzo abaixo:

Lacan é como Cristo que fala por parábolas, para que, nesse caso, tendo ouvidos para ouvir, não ouçam aqueles que não merecem”.

No seu resumido artigo, sobre as analogias que Lacan, em seus longos e enigmáticos seminários, fez da Teologia Judaico-Cristã com a Psicanálise, assim se expressou Fabio Herrmann:

...a obscuridade do cânon interpretativo propicia, inelutavelmente, o efeito magistral: na incerteza, faz-se mister um intérprete autorizado, já que a evidência se escondeu. Como nas religiões, o sentido vago favorece a proliferação de mestres e discípulos”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de agosto de 2016