quinta-feira, 21 de maio de 2015

Reflexões sobre a nudez de Noé


Umas das mais intrigantes passagens da Bíblia diz respeito a um episódio ocorrido na vida de Noé em que ele amaldiçoou um de seus descendentes por ter sido flagrado nu.

Segundo o texto de Gênesis 9:20-27, após o Dilúvio, Noé plantou uma vinha e, ao beber do vinho, embriagou-se a ponto de ficar nu dentro de sua tenda. Cam, um de seus filhos, ao saber da nudez de Noé, divulgou a notícia perante os seus dois irmãos, Sem e Jafé, os quais, cobrindo seus rostos com uma capa, vestiram o pai andando de costas. Então, quando despertou-se do estado de embriaguez, Noé amaldiçoou a Canaã, filho de Cam, abençoando a Sem e a Jafé.

Tal passagem, quando interpretada ao pé da letra, torna-se assustadora. Isto porque a leitura da tradução em português, sem atentar para os significados das palavras e, principalmente para o contexto profético em que se passaram os fatos, induz a uma equivocada ideia a respeito de Noé, como se ele tivesse sido um homem injusto e de uma incoerente severidade.

Há quem se utilize dessa passagem das Escrituras em conjunto com o texto do capítulo 3 de Gênesis em que Deus havia feito vestimentas para Adão e Eva depois que estes desobedeceram suas ordens. Uns ainda lembram do capítulo 18 de Levítico para tentar justificar que a nudez de alguém seria pecado. Porém, eis que inexiste qualquer mandamento contra a nudez ma Bíblia, sendo que as normas da legislação mosaica, quando falam de "descobrir a nudez" de alguém, referem-se às relações sexuais de incesto.

Até à queda, o homem e a mulher não sabiam que estavam nus. Contudo, após Adão e Eva terem quebrado a única regra existente (uma desobediência que nada teve a ver com o sexo), passaram a sentir vergonha de seus próprios corpos de modo que tentaram se cobrir confeccionando cintas de folhas de figueira para si. Deus, então, sentindo misericórdia de sua criação decaída, decidiu fazer vestimentas para Adão e para sua esposa, vestindo-os afim de que não mais se envergonhassem.

Curioso como que alguém pode envergonhar-se da forma como nasceu?! Mas nós acabamos nos sentindo assim de alguma maneira pelas pressões sociais. Pois, diferentemente dos animais, assimilamos valores que associam certos defeitos do corpo com padrões estéticos ou a nudez com pobreza/indignidade. Terrível a nossa espécie!

É certo que, no episódio mítico de Gênesis 3, o homem passou a sentir não só a vergonha do próprio corpo como também o medo a ponto de se esconder de Deus apenas por ouvir a sua voz no Éden, embora, nesta ocasião, já estivesse usando as cintas de folhas de figueira. E, a partir daí, percebe-se pelas narrativas posteriores da Bíblia que o relacionamento da humanidade com o seu Criador ficou profundamente afetado. Não por causa da nudez em si, mas sim pelo pecado da desobediência e de querermos ser iguais a Deus conhecedores do bem e do mal.

Pode-se dizer que, devido ao medo de sua malícia ser descoberta, o homem já não ousava mais aproximar-se de Deus com inteireza, de modo que as roupas e os sacrifícios de animais traziam um certo conforto quanto às práticas religiosas. E poucos alcançaram a graça divina a ponto de se sentirem à vontade na presença de Deus, como foi nos casos de Moisés, Abraão, Isaque, Jacó e do próprio Noé, além do rei Davi. Foram homens que conseguiam expressar seus sentimentos e desejos diante do Senhor.

Contudo, após o salvamento das águas do Dilúvio, Noé embriagou-se bebendo vinho, sem que o texto nos informe por qual motivo o patriarca de todas as nações teria ficado naquele estado. Será que fora por tristeza em razão do comportamento de seus descendentes? Ou teria sido um mero acidente pela descoberta das propriedades do vinho? Foram saudades de algum parente ou amigo morto pelas águas do Dilúvio? Desejava ele aliviar algum sentimento de culpa? Simplesmente não sabemos! E, se a Bíblia nada diz sobre a causa da embriaguez, acredito que é pelo fato do escritor sagrado deixar o campo aberto para reflexão de seus leitores.

De qualquer modo, o texto nos dá pistas sobre o porquê da maldição proferida por Noé contra Canaã, filho de Cam, num contexto em que a lei mosaica fala sobre as consequências da iniquidade dos pais até à terceira e quarta geração (Ex 20:5b). E mais ainda pelo fato da Bíblia justificar a conquista da terra dos povos cananeus pelos israelitas quando estes foram liderados por Josué.

Como escrevi antes, o homem passou a ter vergonha da nudez de seu corpo por causa do pecado, adotando o costume de se cobrir. E, desta maneira, flagrar intencionalmente a nudez de uma pessoa havia se tornado uma atitude de grande desrespeito, algo que jamais poderia ser praticado contra um ascendente na cultura do antigo Oriente Próximo. E aí, reanalisando o texto bíblico inicial, podemos perceber que Cam parece ter flagrado a nudez do pai por acaso O verso 22 do cap. 9º diz que ele viu seu pai nu sendo que a sua atitude posterior foi noticiar o fato aos seus irmãos.

Ora, cabe aqui as seguintes indagações: Por que Cam, ao invés de cobrir a nudez de seu pai, resolveu propagar a notícia perante os seus irmãos? E qual o motivo de apenas Sem e Jafé tomaram a iniciativa de vestir Noé?

Tenho pra mim que o pecado de Cam residia justamente na atitude de aproveitar-se da situação miserável em que o seu pai se encontrava ao invés de solucioná-la. Pois, ao divulgar a notícia da nudez de Noé para os seus irmãos, Cam estaria atentando contra a honra de seu genitor.

Baseando-me nesta passagem bíblica, consigo extrair um importante ensinamento que vai além das questões relativas à nudez física. Compreendo que se trata de uma atitude condenável expor as misérias pessoais de alguém, aproveitando-se de qualquer situação capaz de causar vergonha. Pois todas as vezes em que encontramos o nosso semelhante praticando algo equivocado ou desonroso, devemos mirar nos exemplos deixados por Sem e Jafé, abstendo-nos de fazer qualquer exposição do nosso próximo. Nunca podemos tentar tirar proveito do tropeço de algum parente, colega de trabalho, pastor ou irmão, pois é fundamental preservar a honra do outro, ajudando-o a se levantar. Afundar o outro, jamais!

Que possamos aprender com Sem e Jafé a ter compaixão do nosso semelhante em suas quedas tendo em mente que quem ama encobre.

Um ótimo descanso semanal a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se à gravura do pintor e desenhista francês Paul Gustave Doré, retratando Noé quando proferiu sua maldição contra o neto Canaã.

domingo, 10 de maio de 2015

A polêmica pregação de Paulo em Atenas




Na adolescência, época em que entreguei minha vida para Cristo, eu vibrava todas as vezes em que lia sobre as missões evangélicas do primeiro século no livro de Atos dos Apóstolos. Sonhava em sair viajando pelo mundo ganhando almas para Jesus. Contudo, acho que nem conseguia evangelizar meus colegas de escola, ainda mais quando vivi uma terrível fase de fanatismo religioso e que tanto afastava as pessoas de mim.

Anunciar Jesus às nações é algo bem mais difícil do que simplesmente convidar um vizinho ou um parente para ir conosco numa celebração religiosa, coisa que qualquer crente (e até pessoa não convertida) pode fazer. E para evangelizarmos de verdade é indispensável estarmos em sintonia com os planos de Deus porque alcançar o coração de alguém para a causa do Reino pode exigir uma verdadeira batalha espiritual.

O livro de Atos fala de um judeu chamado Saulo de Tarso, fariseu da tribo de Benjamim, e que veio a ficar conhecido também como Paulo. Ele, após perseguir a Igreja de Cristo, converteu-se ao Evangelho, passando a pregar tanto a judeus quanto aos povos estrangeiros que viviam na parte oriental do Império Romano. Foi inicialmente temido pelos discípulos do Senhor Jesus, visto que muitos duvidavam da sua conversão, mas não demorou muito e se tornou mais um apóstolo, palavra esta que significa "enviado". Empreendeu então três viagens missionárias, indo para lugares da Ásia Menor e da Península Balcânica, regiões consideradas ainda pagãs.

Nos tempos de Paulo, os gregos que, há três séculos foram os principais adversários dos judeus, povoavam boa parte da Ásia Menor, Egito, Macedônia e, obviamente, a Grécia, sendo que muito ódio existia entre os dois povos. Por sua vez, os judeus encontravam-se espalhados pela vastidão territorial do Império Romano, nas suas diversas províncias, prosperando em cidades situadas centenas de quilômetros da Palestina. Longe da terra de origem, essas comunidades judaicas mantiveram o hábito de se reunirem através das suas respectivas sinagogas, preservando as tradições e os costumes dos antepassados.

Quando Paulo chegava a uma nova cidade, primeiramente ele visitava a sinagoga onde seus irmãos judeus se reuniam. Com um profundo conhecimento sobre as Escrituras hebraicas, o "apóstolo dos gentios" buscava persuadir os ouvintes a respeito do messiado de Jesus. Uns criam e outros não. Porém, quando sua pregação era definitivamente rejeitada pela comunidade sinagogal, aquele corajoso rabino voltava o seu discurso para a conversão dos não judeus, o que era capaz de despertar a inveja, os ciúmes e o zelo religioso de seus compatriotas.

Em sua segunda viagem missionária, de acordo com o livro de Atos, Paulo estava percorrendo as cidades da Macedônia e já sofria as perseguições promovidas pelos seus irmãos judeus que se recusavam a aceitar Cristo. A ousadia por ele demonstrada ao pregar o Evangelho era marcante e incomodava a muitos que, certamente, não se conformavam em "perder" influência sobre seus seguidores, o que não é muito diferente do que ocorre hoje em dia no meio cristão disputado pelas instituições religiosas.

De acordo com os versos 13 e 14 do capítulo 17 do Livro de Atos, devido à situação exposta acima, Paulo não pôde permanecer mais tempo na cidade de Bereia para consolidar a obra evangelística que havia iniciado. Precisando sair às pressas do local, o apóstolo deixou ali os colaboradores Timóteo e Silas navegando pelo mar em direção ao sul, rumo à Grécia. Desembarcando em Atenas, Paulo ficou sozinho por uns tempos nesta importante cidade grega, enquanto aguardava em breve encontrar novamente os seus companheiros missionários.

Ora, Atenas foi a mais importante cidade grega da Antiguidade, berço da filosofia clássica, do conhecimento científico e da cultura ocidental. Uns quinhentos anos antes de Cristo, surgiram ali grandes filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, os quais tornaram-se influentes pensadores da humanidade, cujas ideias até hoje são estudadas nas nossas faculdades modernas achando-se presentes nos diversos ramos das ciências. E, mesmo na época da dominação romana, no século I da era cristã, os gregos impuseram-se perante os demais povos através de sua influente cultura. Tanto é que os livros do cânon do Novo Testamento foram escritos num dos idiomas gregos utilizados naquela época – o koiné.

Todavia, embora fossem homens cultos, os atenienses não conheciam o Deus judaico, pois se prostravam diante de imagens de escultura fabricadas pelas mãos humanas, acreditando na existência de deuses inventados pela fértil imaginação de Homero e seus ancestrais. Enquanto para os judeus a Divindade seria invisível aos olhos humanos e sem uma aparência física, eis que os deuses gregos seriam entidades antropomorfas.

Assim, pode-se dizer que Paulo estava bem no centro da civilização clássica da Antiguidade. Com os seus companheiros ausentes, ele se encontrava na milenar Atenas, cidade cujo nome era uma homenagem dos gregos à Atena. Esta era considerada por eles como sendo a "deusa da sabedoria".

Ora, o livro de Atos conta que Paulo, ao deparar-se com a idolatria reinante naquela cidade, indignou-se em seu espírito começando a pregar na sinagoga judaica aos sábados. Ele também anunciava o Evangelho todos os dias na praça de Atenas. Só que as suas pregações não vieram a ser aceitas por todos naquele lugar. Filósofos que seguiam duas escolas, os epicuristas e os estoicistas, contendiam com o apóstolo ao invés de abrirem seu corações para a Verdade.

Não pretendo aqui aprofundar muito sobre as correntes de pensamento filosófico da Grécia antiga. Porém, como o livro de Atos faz menção aos epicureus e aos estoicos, considero relevante para melhor entendermos a situação contextual ao menos definir quem eram tais grupos de pensadores e no que eles acreditavam.

Segundo a História, Epicuro teria vivido entre os anos de 341 a 270 a.C. e desenvolveu ideias pregadas por Aristipo, o qual, por sua vez, fora discípulo de Sócrates e dizia que o prazer seria o bem supremo da vida. Assim, para os epicureus a razão de viver do homem seria a busca do prazer que era alcançado através da ponderação e do autocontrole sobre os desejos humanos a fim de se alcançar o "prazer supremo". Dentro da perspectiva terrena que tinha quanto à vida, Epicuro considerava que, após morrer, o homem simplesmente deixaria de existir, de modo que para os epicureus só interessava saber viver o momento.

Quanto, porém, ao estoicismo, tratava-se de uma outra escola filosófica ateniense que também surgiu por volta do ano 300 a.C., fundada por Zenão de Cítio. Seus seguidores negavam a oposição entre o espírito e o corpo (para eles só haveria matéria) e acreditavam que a morte seria um acontecimento da natureza em que, devido a isto, caberia ao homem aceitar o destino que lhe estava reservado.

Deste modo, os estoicistas entendiam que viver conforme as determinações da natureza seria "agir dentro da razão". E, na época de Paulo, estes pensadores eram acentuadamente religiosos, tendo se tornado praticantes de um moralismo hipócrita e adorando diversos deuses, sendo que, curiosamente, a maioria de seus líderes, como Zenão e Sêneca, cometeram suicídio.

Mas, afinal, o que é que esses filósofos atenienses deveriam pensar a respeito das pregações que Paulo fazia todos os dias na praça da cidade?!

Em Atos 17:18, o autor relata fielmente as impressões que certas pessoas em Atenas pensavam sobre Paulo, para as quais Jesus parecia ser mais um deus estranho enquanto que a ideia da ressurreição não passaria de uma loucura. Isto porque para os epicureus aceitarem a ressurreição seria negar a inexistência do homem após a morte enquanto que para os estoicos uma fé dessas só poderia significar a recusa do homem em aceitar o seu destino natural, negando sua condição de matéria. E foi nesse ambiente, onde ao mesmo tempo havia muito conhecimento quanto às coisas terrenas e uma enorme rejeição em relação aos assuntos espirituais, que Paulo fez o seu discurso no Areópago ateniense.

O Areópago era um templo a céu aberto situado na parte alta da cidade, cujo significado é "Colina dos Ares". Era um local dedicado ao deus da guerra grego, onde a sociedade ateniense costumava se reunir para fins políticos, judiciais, culturais, religiosos ou filosóficos. Sua localização ficava numa colina próxima à acrópolis (a parte alta da cidade de Atenas) e, historicamente, foi o palco de grandes julgamentos e de decisões políticas que marcaram o mundo dos gregos na Antiguidade clássica.

Segundo o texto bíblico, as pregações de Paulo pareciam ter se tornado uma novidade naquela cidade de homens cultos e cheios de conhecimento. As pessoas queriam tirar suas conclusões a respeito daquele forasteiro considerado como um “tagarela” e que anunciava “estranhas” novidades. Com grande sensibilidade, o apóstolo procurou direcionar sua pregação para o público que havia se reunido a fim de julgar o seu discurso, sabendo ele que se tratavam de ouvintes sem a concepção de um Deus único, embora fossem extremamente religiosos.

Sabiamente, Paulo fez uma referência a um altar dedicado ao "Deus Desconhecido" encontrado no meio de tantos outros santuários erigidos para os deuses daquela cultura politeísta. Em seguida, revelou que esse Deus, o qual os moradores de Antenas verdadeiramente desconheciam, jamais precisaria de um santuário construído pelo homem e tão pouco de qualquer coisa que lhe pudesse ser oferecida. Prosseguiu explicando que esse Deus desconhecido é espiritual e não matéria, de modo que ninguém poderia encontrá-lo pelo tato, embora sua presença não esteja tão distante do homem.

Confirmando o papel de Deus como Criador (não só do mundo, mas também do homem), Paulo fez menção ao verso de um poeta helenista muito conhecido pelos atenienses, a fim de enfatizar que os homens foram gerados por este Deus desconhecido. Deste modo, pode-se dizer que, nos versos 22 a 29 do capítulo 17 de Atos, o pregador procurou estabelecer os princípios de sua pregação a partir da concepção de seu público para lhes transmitir a sua ideia acerca da Divindade a fim de que, quando apresentasse Jesus, os ouvintes não pensassem que se trataria de mais um deus para eles adorarem. Assim, tendo então caracterizado seu Deus, Paulo tentou direcionar a mensagem para a pessoa de Jesus, enfocando qual seria o propósito para o atual momento da manifestação da graça Daquele que criou todas as coisas, falando, finalmente, a respeito da ressurreição de Cristo (At 17:30-31).

Observa-se que Paulo utilizou uma abordagem adequada destinada ao público para o qual pregou. Ali ele não citou nada a respeito da História dos judeus, conforme costumava fazer nas sinagogas, visto que nenhuma relevância haveria para evangelização dos gregos se houvesse falado quem foi Abraão, Moisés ou Davi. E também não faria sentido informar detalhes sobre a vida de Jesus e o seu ministério na Palestina, pois se tratavam de acontecimentos desconhecidos para aquelas pessoas que pouco devem ter ouvido falar de fatos que aconteceram há aproximadamente duas décadas num lugar distante em torno de 1000 quilômetros da Grécia com o qual jamais tiveram alguma identidade.

Para aqueles homens bastaria que cressem na existência do Deus único, arrependessem dos pecados e aceitassem o sacrifício de um varão chamado Jesus que veio ao mundo morrer pela humanidade, o qual ressuscitou. Para isto, seria suficiente que aqueles ouvintes entendessem que Jesus seria o homem destinado por Deus para julgar o mundo com justiça e que para a confirmação de tal propósito este Deus o ressuscitou dentre os mortos.

Lamentavelmente, a maioria dos homens e mulheres que estavam presentes no Areópago ateniense jogaram fora uma grande oportunidade naquele dia. Tal como fazem muitos intelectuais das universidades nos dias atuais, os sábios de Atenas deixaram obscurecer seus entendimentos pelas suas próprias convicções filosóficas, passando a ridicularizar Paulo por causa da ideia da ressurreição. O excesso de crítica fez com que eles se tornassem soberbos e deixassem de refletir! E, apesar de suas filosofias e do conhecimento científico que armazenavam, eles anularam a si mesmos quando resolveram interromper a pregação de Paulo, deixando de experimentar algo que seria fantástico para a vida deles.

Percebendo que a motivação daqueles homens era zombar da mensagem anunciada ao invés de ouvi-la, Paulo retirou-se dali. Porém, o livro de Atos que alguns homens agregaram-se ao apóstolo, dentre os quais estava um juiz chamado Dionísio e uma mulher com o nome de Damaris, a respeito de quem muito pouco se sabe. E, apesar de poucas pessoas terem se reunido a Paulo, acredita-se que houve algumas conversões nesta primeira visita apóstolo a Atenas, o qual prosseguiu dali para outra cidade grega chamada Corinto, onde então foi fundada uma grandiosa igreja, destinatária de algumas epístolas de autoria do apóstolos, das quais foram preservadas somente duas.

Sempre que leio sobre o discurso de Paulo em Atenas, várias indagações surgem em minha mente. Inicialmente questiono por que o autor de Atos registrou um evangelismo aparentemente mal sucedido? E também passa pela minha cabeça se Paulo teria em algum momento falhado na sua pregação?

Sobre a primeira pergunta, entendo que, assim como a Bíblia não esconde as falhas humanas de caráter e nem as provações, também não oculta o fracasso. No ministério de Jesus em Nazaré, os Evangelhos informam que poucos milagres o Senhor realizou na cidade onde fora criado por causa da incredulidade das pessoas de lá.

Atualmente consigo extrair ensinamentos do evangelismo de Paulo em Atenas, hoje considerado por mim como um empreendimento espiritual muito bem sucedido, apesar do pequeno número de pessoas alcançadas. Jesus mandou que seus discípulos fossem ao mundo e pregassem o Evangelho a toda criatura de modo que todo e qualquer lugar do planeta onde haja gente deve ser alvo das missões.

No próprio livro de Atos, quando Paulo já se encontrava preso e sua pregação fora rejeitada pelos judeus de Jerusalém, o próprio Senhor Jesus havia aparecido para Paulo encorajando-o com estas palavras: "Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma" (Atos 23:11). Mesmo sem os saduceus e fariseus do sinédrio judaico terem recusado a se converter (e ainda tramavam matar Paulo), Jesus demonstrou contentamento com o ministério de seu apóstolo.

Igualmente percebo que, na cidade de Atenas, Paulo cumpriu a sua missão, pregando o Evangelho para aqueles ouvintes de coração endurecido, embora fossem homens de grande cultura. Pois, mesmo que a maioria dos atenienses tivesse inicialmente rejeitado a Jesus por causa da loucura da ressurreição, as boas novas já estavam anunciadas e servindo de testemunho.

Amigos, penso que este deve ser o nosso papel. Devemos comunicar o Evangelho com todos os recursos à disposição, sejam armas espirituais, talentos pessoais, conhecimento científico, discurso eloquente e criando pontos de identificação com o ouvinte. Por sua vez, uma vez alcançando vidas, devemos nos preocupar com o discipulado dos novos convertidos, ensinando-lhes os passos de Cristo com muito amor. E quer sejam muitos ou poucos, não importa. Todos são destinatários do amor divino que em Jesus foi manifesto.

Uma ótima semana a todos e um feliz dia das mães!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Salmo 16 e a plena satisfação do homem em Deus




Embora o Salmo 16 não seja lá tão recitado quanto o 23 ou o 91, trata-se de um texto da Bíblia que exprime uma total confiança e satisfação do escritor sagrado no Senhor. Após fazer a sua confortante leitura neste último sábado, pude constatar um sereno estado de tranquilidade de um poeta que descobriu em Deus a inesgotável Fonte de vida e de prazer interior.

Neste hino, cuja autoria é atribuída ao rei Davi, não me parece que o salmista estivesse passando por uma crise presente capaz de o abalar. Observo em suas palavras um sentimento de superação e de equilíbrio, apesar de ele começar a oração pedindo o socorro divino (verso 1), de modo que, mesmo se estivesse suportando alguma dificuldade, a sua alma estava na mais profunda paz.

Durante a leitura, chamou a minha atenção o desapego do autor no tocante às coisas materiais quando ele diz não possuir outro bem senão o Senhor (v. 2), declarando, metaforicamente, ser Deus a "porção" de sua herança", o seu "cálice" e o sustento de sua "sorte" (v. 4). Ou seja, o texto expressa a consciência de que todos os recursos desta Terra seriam transitórios e perecíveis de maneira que o homem só alcança a verdadeira Vida no relacionamento que estabelece com o seu Criador.

Assim, essa vida em Deus torna-se para o salmista o que há de mais excelente em todo o Universo, ainda que Davi fosse um rico monarca de Israel morando num palácio em Jerusalém. Pois ele acha no Senhor sabedoria, segurança, bem como uma inegável alegria. E, num vislumbre da eternidade, já não teme mais a morte física por se sentir, a meu ver, tão arraigado no Autor da Vida a ponto do mero falecimento do corpo ser incapaz de destruí-lo:

"porque tu não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu santo sofra decomposição. Tu me farás conhecer a vereda da vida, a alegria plena da tua presença, eterno prazer à tua direita." (versos 10 e 11 conforme a tradução da Nova Versão Internacional)

Estes versos acima transcritos, embora citados no Novo Testamento quando Pedro e Paulo falam da ressurreição de Jesus (conf. Atos dos Apóstolos 2:25-28; 13:35), eis que, no Salmo 16, têm uma aplicação imediata ao próprio escritor e aos homens que se consagravam a Deus em santidade. De qualquer modo, está implícita na mensagem a ideia da eternidade da alma que seria o real sentido de alguém se levantar dentre os mortos. Cuida-se de algo que muitos consideram como "multi-existencial", projetando a vida consciente para além da atividade cerebral.

A nossa mente envolvida nas questões materiais talvez não consiga compreender em detalhes esses "caminhos da vida", os quais permanecem ainda que meio misteriosos para a humanidade. Contudo, devido ao elevado nível relacional do poeta bíblico com Deus, quaisquer inquietações acerca do além-túmulo estavam pacificadas para ele. A Divina Presença tornava Davi completo a ponto dele se tornar participante da vida eterna estando ainda na sua peregrinação terrena. Logo, a plena satisfação desfrutada no Criador bendito certamente iria se perpetuar por todos os tempos.

Acredito, meus amigos, que esse desejado estado de plenitude espiritual só conseguimos alcançar pelo total desapego das riquezas, dos prazeres, da fama, das compulsões, das manias, dos rancores e das preocupações com as coisas do cotidiano. Muitos de nós, na qualidade de aprendizes da escola da vida, estamos apenas no começo dessa caminhada. Porém cada progresso que fazemos hoje já proporciona enormes benefícios para o nosso ser aproximando-se mais de Deus.

Uma ótima semana a todos e tenham uma segunda-feira abençoada.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Davi Tocando a Harpa (1670) do artista holandês Jan de Bray (c.1627 – 1697), conforme extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/Psalms#/media/File:David_Playing_the_Harp_1670_Jan_de_Bray.jpg