terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Do Talmude à Psicanálise




Apesar de Sigmund Freud ter resistido em associar a psicanálise ao judaísmo, o que podemos notar, é que ressonâncias da educação fornecida por seu pai, Jacob Freud ― profundo estudioso do Talmude ―, permeiam todo o seu pensamento e suas idéias.

Mas o que tem a ver o Talmude com a Psicanálise?

O Talmude, tanto o de Jerusalém quanto o da Babilônia, tem um processo interpretativo muito parecido com o usado por Freud. O psicanalista, Renato Mezan, chega a afirmar em seu livro ―”Psicanálise, Judaísmo, Ressonâncias” ― Editora Civilização Brasileira (pág. 153 - 154) ― que, “a psicanálise herdou do judaísmo, nada mais nada menos do que a técnica de interpretação, simplesmente transpondo o seu objeto do texto bíblico para o funcionamento psíquico. A atenção prestada pelos talmudistas à letra do texto bíblico encontraria seu correspondente na atenção prestada pelo psicanalista, nos mais íntimos detalhes do discurso do seu paciente”.

A maneira que o Talmude aborda o texto bíblico em seu nomadismo interpretativo multifacetado, a psicanálise, igualmente, sem se deter na literalidade da história do analisando, tem no vácuo do que não se encontrava dito na narrativa do paciente o seu modus operandi.

Freud chocou o mundo do seu tempo ao mostrar que o homem é interiormente ambíguo. Aquilo que ele afirma como sua verdade consciente é paradoxal ao conteúdo do inconsciente que jaz sob camadas profundas no seu aparelho psíquico. Enfim, a psicanálise, ao explorar os sentimentos paradoxais que residem na alma humana, reflete o talmudismo que, nas re-escrituras e re-interpretações dos sábios rabinos, revive um movimento contínuo de desconstruções, onde o dito e o não dito aparentemente contrários, coexistem harmonicamente.

A escritora e professora de psicanálise da UFRJ, Betty B. Fuks, em seu livro Freud e a Judeidade” ― Editora Zahar (pag 132 - 134), diz: “O Talmude, tanto quanto a Psicanálise, está comprometido com a pluralidade de sentidos e a produção de pensamentos. [...] O que se vê, pois, é que a tradição judaica de lembrar não consiste apenas e essencialmente na preservação de uma herança ou em uma transmissão mecânica da memória, mesmo que, na aparência, seja esta a impressão. Há uma dinâmica interpretativa no Talmude. A expressão talmúdica, Zakhor significa fazer da memória uma aventura de historicidade criativa  a partir de um conjunto de traços a serem re-escritos permanentemente a cada geração, por todos os sujeitos, mas sempre individualmente e diferencialmente. Em cada época, em cada geração, o leitor interpreta subjetivamente aquilo que lhe é transmitido, preservando as estruturas tradicionais da transmissão e assegurando-lhes continuidade”.

Tanto o método talmúdico quanto o método psicanalítico comungam de um mesmo olhar: ambas as instâncias reconhecem a relação do passado com o presente conjugadas na história afetiva do indivíduo. Séculos antes de Freud ler os sintomas, os sonhos e os lapsos, os antigos talmudistas já praticavam o exercício de permutar as letras do texto sagrado, segmentá-lo, introduzir espaçamentos, para fazer emergir uma interpretação sempre outra, transformando por completo o sentido do escrito ― Betty Fucs em “Freud e a Judeidade” (pag. 132)

Na observação dos seus pacientes, Sigmund Freud, fazia uma espécie de exercício, em tudo, idêntico ao que faziam os estudiosos do Talmude, na medida em que inter-relacionava de forma imbricada o tempo passado e o presente, evidenciando que a escritura psíquica é composta de inscrições que se repetem e se recriam durante o decorrer das épocas sucessivas da vida.

Segundo Betty Fucs, “foi na tradição da leitura talmúdica que Lacan encontrou referências para pensar o modelo de transmissão da descoberta freudiana. Javé de Lacan é um Deus habitado pelas paixões humanas” ― escreveu o talmudista e psicanalista, Gérard Haddad, em seu livro, O Pecado Original da Psicanálise.

Ao contrário do budismo, em que é recomendado que se purifique das três paixões fundamentais ― o amor, o ódio e a ignorância ― Javé não é desprovido de nenhuma delas[...]. [...] A psicanálise, talvez não seja concebível como nascida fora dessa tradição (hebraica). Freud nasceu nela e, como sublinhei, insiste em que só tem propriamente confiança, para fazer avançar as coisas no campo que descobriu, nesses judeus que sabem ler há muitíssimo tempo, que vivem ― é o Talmude ― da referência a um texto, afirmou Jacques Lacan, em seu seminário ― O Avesso da Psicanálise”.

O fato é que ninguém pode negar que nessas duas instâncias (Talmude e Psicanálise) sobrevivem o fascínio da escuta e a magia do falar contínuo de palavras singulares aparentemente dúbias, mas percebidas como únicas para cada ser humano. O Talmude e a Psicanálise apesar de possuir roupagens diferentes têm em comum a genial arte de interpelar o presente do ser humano sem descolá-lo do passado, como bem resumiu Renato Mezan, nessa frase:

Trata-se de abrir um espaço para pensar o lado obscuro e o terrível da natureza humana, sem fazê-lo desaparecer, mas sem tampouco sucumbir a ele”.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 02 de outubro de 2013



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Reflexões sobre o Salmo 88




Talvez o Salmo 88 seja um dos poemas mais evitados pelos leitores das Escrituras Sagradas. Segundo um comentário correspondente na Bíblia de Estudo de Genebra, trata-se da "mais deprimida de todas as lamentações do saltério".

O autor, que seria um homem aflito por uma provável doença, expressa toda a sua dor e solidão orando. Seus sofrimentos são atribuídos a Deus sendo isto a explicação do abandono pelos seus amigos, muito embora não esteja explícito o motivo da alegada ira divina (verso 7).

Sem entrar no mérito sobre a causa divina para os males do salmista, o que para mim seria mais um reflexo da cosmovisão dos antigos judeus, prefiro focar na questão do abandono do poeta pelos seus semelhantes, conforme cito a seguir:

"Afastaste de mim os meus conhecidos e me fizeste objeto de abominação para com eles 
(...)
Para longe de mim afastaste amigo e companheiro;
Os meus conhecidos são trevas."
(Versos 8a e 18; versão e tradução ARA)

O fato é que o sofrimento muitas das vezes parece não ter solução e a única coisa que nos resta nessas horas dolorosas é contar com a presença das pessoas mais próximas. Os amigos já não podem mais salvar ou socorrer o desesperado, mas encontra-se ao alcance deles darem atenção, consolo e força para que, se for o caso, padecermos em paz até a morte.

Dentro do contexto cultural da época pré-cristã, na qual o Salmo 88 foi escrito, a sociedade ainda via na doença uma espécie de maldição. Como no Livro de Jó, as pessoas entendiam que o sujeito enfermo estaria sendo castigado porque havia cometido algum pecado ou desobediência. Logo, até um homem aflito poderia se sentir o causador de seu sofrimento muito embora não fosse o caso do personagem Jó ou do salmista em comento, o qual fez esta indagação acerca do abandono em que se encontrava:

"Por que rejeitas, SENHOR, a minha alma e ocultas de mim o rosto?" (v. 14; ARA)

Reflitamos racionalmente! O que leva um ser humano a ocultar o rosto na hora da dor de seu semelhante?

Será que a dor do outro nos faz recordar da nossa própria fraqueza que tentamos a todo instante ignorar?!

Para melhor ilustrar esse artigo, lembremos de Jesus. Pois, enquanto o Mestre andava pelas poeirentas terras da Palestina anunciando a vinda do Reino e fazendo os milagres registrados pelos evangelistas, tanto os discípulos quanto uma enorme multidão o acompanhavam. Porém, a partir do momento da sua prisão, os seguidores preferiram fugir. A fraqueza do Filho do Homem, considerado até então um herói, naquele momento só foi capaz de atrair os zombadores e as corajosas mulheres no caminho do Calvário, as quais mostraram-se mais valentes que os apóstolos escolhidos.

Sem querer criar ilusões com a humanidade de natureza errante, creio ser possível abrandarmos o sofrimento alheio através de atitudes solidárias e afetuosas. Pois, mesmo sem parar todas as nossas atividades por causa de um moribundo (realmente a vida e o sistema produtivo cobram caro quando deixamos de lado as obrigações do cotidiano), acredito na eficácia dos pequenos sacrifícios em favor do próximo através de uma amável visita ao doente.

Tenham todos uma ótima semana!


OBS: Ilustração acima extraída de http://3.bp.blogspot.com/-dgxgUNDrT8g/UBf3LPZRH_I/AAAAAAAAE-0/JCsDvbj6FIw/s1600/Dios+m%C3%ADo,+no+me+dejes+solo.JPG