domingo, 5 de fevereiro de 2017

Um movimento que abalou o rei

"(...) o tetrarca Herodes soube de tudo o que se passava e ficou perplexo (...)" - Lucas 9:7; ARA


Um dos ingredientes do sucesso ministerial do Senhor Jesus foi ter apostolado (enviado) os discípulos para anunciarem as boas novas do Reino de Deus pelas aldeias e cidades de Israel. No capítulo 9 de Lucas, o autor fala de um tipo de estágio que aqueles primeiros seguidores fizeram ainda na companhia do Mestre, os quais deveriam imitar tudo aquilo que o Salvador já vinha fazendo anteriormente: curas, libertação do assédio espiritual maligno e a pregação do Evangelho (versos 1 e 2).

Deve-se observar que Jesus, o maior visionário de todos os tempos, estava criando um movimento de base popular capaz de incendiar o mundo pela mensagem transformadora do Evangelho. Movimento este que não necessitava de recursos financeiros, nem de uma sede fixa, inscrição no CNPJ do Ministério da Fazenda,, gráficas para a impressão de livros e tão pouco das redes sociais da internet. Os discípulos deveriam carregar o mínimo que necessitavam utilizar, dependendo exclusivamente da Divina Providência:

"E disse-lhes: Nada leveis para o caminho: nem bordão, nem alforje [bolsa de viagem], nem pão, nem dinheiro; nem deveis ter duas túnicas" (verso 3)

Notem que o escritor de Lucas foi propositalmente mais radical do que a orientação registrada no 2º Evangelho, no qual foi permitido levar ao menos um bordão (Mc 6:8). Penso que o autor sagrado, por causa de uma necessidade contextual de seus dias, pretendeu ressaltar a leveza da bagagem do discípulo comissionado. Não só para que eles alcançasse m uma maior disponibilidade para viajar como também desenvolvessem a fé pois, certamente, precisariam transmitir confiança aos seus ouvintes.

Assim como Jesus não centralizou o ministério que desempenhou na sua pessoa, o apóstolo itinerante seguiria o mesmo exemplo quando se colocasse a caminho. Em qualquer comunidade para onde fossem, fariam de uma casa de moradia o ponto de apoio para iniciarem a obra missionária. Teriam que contar com a hospitalidade alheia e, assim, desta relação bem próxima entre hóspede e anfitrião, seriam lançadas as primeiras sementes do Reino no local.

Embora o discípulo enviado também se dirigisse às multidões, ele teria a oportunidade de apresentar uma outra dimensão do Reino a uma família no abrigo acolhedor de um lar. Juntos com os anfitriões eles fariam refeições comendo à mesma mesa, compartilhariam algo de suas vidas, conheceriam os conflitos domésticos e participariam de alguma forma do drama da comunidade bem no interior da célula do tecido social. Quem os recebesse sob seu teto, ganharia um aprendizado de valor inestimável, sendo que o próprio discípulo aprenderia também.

Entre tantas famílias existentes numa cidade, os apóstolos só poderiam escolher uma só casa onde deveriam permanecer até partirem do lugar (verso 4). A meu ver, isto era uma estratégia e tanto do Mestre pois, através da obra feita num lar, o movimento do Reino iria desenvolver-se apoiado numa estrutura essencialmente humana onde o relacionamento interpessoal ocorre com maior intimidade.

O Evangelho não foi pregado para ser vivenciado somente em templos onde ninguém reside e onde o encontro entre as pessoas apresenta-se como algo distinto da realidade delas. O que assistimos muitas das vezes nas reuniões dominicais das igrejas é mais uma vida de aparência. Cuida-se, na verdade, de mais um programinha de caráter religioso em que cada qual veste a sua máscara de santidade. Terminada a missa/culto/sessão/palestra, todos retornam aos seus comportamentos superficiais de sempre, sem maiores envolvimentos espirituais entre si.

A figura da casa, e nunca o prédio de uma igreja, é que deve representar o movimento de Jesus em nossas mentes como um ideograma. A reunião das pessoas em templos só se justifica pela necessidade de um auditório e de se desenvolver outras atividades que precisem de espaço coberto. Só que tais locais em si mesmos não têm a essência de um cristianismo autêntico e verdadeiro e jamais serão extensões de uso pois é no ambiente familiar e inclusivo que as coisas precisam acontecer. A Igreja com "i" maiúsculo é uma realidade viva correspondente a uma enorme família presente no seio da comunidade onde se encontra estabelecida.

Contudo, seria possível que, ao chegarem numa cidade ou aldeia, os apóstolos de Jesus não fossem recebidos por ninguém. Numa época em que a hospitalidade ainda fazia parte dos costumes, deixar de acolher um pregador das boas novas talvez significasse mais do que indiferença pela condição vulnerável de um viajante e expressava um sentimento de repúdio à mensagem anunciada. Em resposta, Jesus orienta os seus discípulos a sacudirem a poeira dos pés "em testemunho" (verso 5).

Mas afinal, que costume era este? E por que os apóstolos deveriam agir assim?

Certamente que as pessoas daquela época entenderiam o recado e o motivo pelo qual os discípulos deveriam proceder daquela maneira publicamente. Nos tempos de Jesus, quando um judeu peregrino vinha da diáspora, era comum sacudir os calçados antes de entrar no território sagrado de Israel. Era como se eles estivessem se libertando da terra impura de onde tinham vindo para poderem pisar no solo da Terra Prometida.

No entanto, vejo no ato simbólico dos discípulos uma nova chance para a comunidade refletir e se abrir para as boas novas do Reino. Tratava-se de lembrar as pessoas de que a conduta delas não seria condizente com a pertença ao povo de Deus. Logo, quando o apóstolo vai ter que ir embora, por não ter sido recebido/escutado, sacudir a poeira não seria nenhuma expressão de desprezo ou de vingança.

Sem dúvida que aquele movimento incendiou a Galileia e deixou o rei Herodes bem preocupado. Ele que antes havia mandado decapitar João Batista, agora enfrentava algo muito mais forte e ameaçador para os seus interesses. Da maneira eficiente como Jesus estruturou a revolução do Reino seria impossível os governos do mundo conterem aquele novo processo histórico simplesmente apagando os líderes. Teriam que exterminar comunidades inteiras! Pois se tratava de um trabalho discipular que, aos olhos dos poderosos, multiplicava-se incontrolavelmente longe das portas dos palácios e dos templos sem a dependência de seus recursos econômicos.

Teria João ressuscitado dentre os mortos?

De certa maneira, sim. Os apóstolos eram agora vários clones do profeta que estavam surgindo naqueles povoados de Israel. A energia dos pregadores vinha da fé no Deus vivo e eles transmitiam isso às comunidades por onde passavam. Era mais fácil para eles organizarem-se a partir das casas das famílias humildes, lugares onde  os reis e os nobres não frequentavam porque amavam o luxo dos palácios. Parecia até que o profeta Elias tivesse retornado e voltado a caminhar nas estradas vestido com pele de cabra.

Se nos tempos de Acabe o perverso monarca de Israel não conseguiu achar Elias, também Herodes precisaria esforçar-se para ver se conseguiria encontrar Jesus (verso 9). Nosso Salvador também levava uma vida simples junto com seus discípulos e seus interesses não eram os mesmos daquele inescrupuloso governante. O Mestre não tinha nada a ver com os pseudo-evangelistas midiáticos do presente com seus carrões do ano, templos suntuosos e até aeronaves.

Na sequência da narrativa, isto é, no episódio da primeira multiplicação dos pães, Jesus vai continuar ensinando os discípulos a tarefa de anunciar as boas novas do Reino executando-as. Nos arredores de Betsaida, eles aprenderão a alimentar a alma das multidões, dando eles mesmos de comer (verso 13). Ao contrário dos reis que eram alimentados e servidos pelos impostos do povo, caberá ao apóstolo fazer o inverso.

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