domingo, 17 de julho de 2016

A evolução de Deus



"E sucedeu que o Senhor arrependeu-se do mal que ameaçara trazer sobre o povo."  (Êxodo 32:14; NVI)

Sem querer aqui gerar controvérsias quanto à ideia da imutabilidade de Deus, tida praticamente como um dogma em todo o cristianismo, pretendo promover uma breve reflexão sobre a conceituação que construímos sobre a Divindade, a qual certamente evoluei acompanhando a nossa trajetória humana.

Na Bíblia, mais precisamente nos livros de Moisés, temos narrativas em que Deus teria se "arrependido" de seus feitos ou intenções ao mesmo tempo em que, na passagem de Números 23:19, nega-se qualquer possibilidade de arrependimento por parte do Senhor. Para explicar tais divergências, há na Teologia vários argumentos, inclusive sobre a tradução do hebraico para o português, o que não me interessaria tratar aqui porque não corresponde ao meu objetivo com esse texto.

Entretanto, quando consideramos os livros sagrados como uma coletânea de impressões humanas sobre a Divindade, torna-se fácil concordar com o citado arrependimento de Deus bem como com a maneira pela qual o Eterno passa a lidar com seu povo no avançar da história mítica de Israel. É o que fica caracterizado nos escritos dos profetas a exemplo do início do livro de Naum sobre a ira do Senhor contra os inimigos da nação:

"O Senhor é Deus zeloso e vingador; o Senhor é vingador e cheio de furor; o Senhor toma vingança contra os seus adversários, e guarda a ira contra os seus inimigos. O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente; o Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés." (Naum 1:2-3; ACR)

Tem-se com isso a ideia de uma Divindade nacional vingadora dos adversários embora disciplinadora do próprio povo. Se os israelitas guardassem os mandamentos, seriam abençoados na terra. Porém, caso viessem a se desviar, iriam ser lançados fora de Canaã, sofrendo de vários males como consta no capítulo 26 do livro de Levítico:

"Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, Então eu vos darei as chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua colheita, e a árvore do campo dará o seu fruto (...) Mas, se não me ouvirdes, e não cumprirdes todos estes mandamentos, E se rejeitardes os meus estatutos, e a vossa alma se enfadar dos meus juízos, não cumprindo todos os meus mandamentos, para invalidar a minha aliança, Então eu também vos farei isto: porei sobre vós terror, a tísica e a febre ardente, que consumam os olhos e atormentem a alma; e semeareis em vão a vossa semente, pois os vossos inimigos a comerão." (Levítico 26:3-4,14-16; op. cit.)

A meu ver, nenhuma dessas ideias é de se desprezar pelos atuais estudiosos da Bíblia. Pois, muito pelo contrário, elas devem ser vistas como leituras que o homem antigo fazia da realidade em que significava o relacionamento ético com Deus e com o próximo, quer no plano individual ou coletivo. Deste modo, se determinados princípios de vida fossem observados, eles seriam bem sucedidos no que realizassem.

Mas, ainda nas Escrituras Hebraicas, verifica-se nos livros de sabedoria, principalmente em Eclesiastes, que a concepção de uma Divindade castigadora dos maus e recompensadora dos justos torna-se passível de questionamento já que o infortúnio e as coisas boas da vida podem ocorrer com qualquer pessoa: 

"Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los." (Eclesiastes 9:2; NVI)

Posteriormente, no cristianismo, a mudança conceitual sobre Deus foi tão grande que criou uma nova religião distinta do Judaísmo, seja porque rompeu com valores culturais próprios dos israelitas como também pela outra visão de mundo que o Novo Testamento trouxe junto com as doutrinas posteriores da Igreja. E, sem pretender afirmar que uma tradição seja superior a outra (até porque o Judaísmo igualmente evoluiu nesses últimos dois milênios), podemos considerar que houve a adoção de pensamentos mais inclusivos para que fossem colocados no Reino os impuros pecadores e as nações gentílicas. Claro que todos condicionados a um proselitismo religioso dependente da conversão pelo exercício da fé assim como os judeus de nascimento precisariam "nascer de novo".

Já nas últimas décadas, em que pese o fundamentalismo pentecostal de muitas igrejas evangélicas, surgiu a tendência de despir Deus de qualquer religião. No catolicismo romano, por exemplo, para neutralizar os efeitos do dogma papal de que "fora da Igreja não há salvação", surgiu a ideia de "cristãos anônimos", expressão típica da teologia do jesuíta alemão Karl Rahner (1904 - 1984). Com seu lúcido pensamento, ganhou força no meio cristão a aceitação do ecumenismo e da pluralidade de crenças, ainda que poucos hoje em dia o considerem (mesmo entre os católicos).

Acredito que essa conceituação evolutiva sobre a Divindade nunca terminará pois se trata de uma busca e de uma construção sempre transcendentes no homem, embora tenhamos as nossas limitações para compreender a perfeição. Pois o que conseguimos alcançar de que seria mais elevado encontra-se perceptível apenas em nós mesmos pela prática do amor fraternal, quando vivido de maneira ampla e universal. Afinal, se somos capazes de aceitar o outro, independentemente de nacionalidade, etnia, credo religioso, classe social ou orientação sexual, desejando estender a salvação até para os que não vieram a reconhecer o senhorio de Jesus Cristo, por que Deus estaria num plano inferior ao nosso fazendo acepção de pessoas?

Para concluir, torço muito por essa evolução humana acerca das ideias sobre a Divindade. Pois ainda projetamos em Deus muitos dos nossos recalques, frustrações e sentimentos de intolerância, além das ideologias que seguimos. Só que nenhuma destas vestes resistem diante do Transcendente cuja extensão infinita  encontra-se para além dos nossos olhares físicos ou metafísicos.

Uma ótima semana a todos!


OBS: Ilustração acima extraída de http://www.webalice.it/bmaurys/cristo.gif

2 comentários:

  1. O PAI imaginário(Javeh) do judaismo antigo é muito parecido com o Pai imaginário do muçulmano de hoje(Alah). Claro que a intolerância claro é inata do homem, mas por um mecanismo de negação é projetada no deus do outro.

    Era assim no Estado Hebreu e continua sendo revivido no Estado Islâmico nos dias atuais. Mas o fato é que o ocidente da religião do Filho amoroso desse Pai autoritário não tem conseguido fazer valer o lema utópico de Igualdade, Liberdade e Fraternidade bradado na França iluminista. O ódio sempre foi o prinipal afeto entre os exércitos de javéh e os exércitos de Alah. São como água e óleo não se unirão nunca.

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    1. Pois é, Levi. Teme-se agora que, por causa de uma meia dúzia de radicais, toda a comunidade muçulmana na França e outros países da Europa comecem a ser perseguida por uma onda de xenofobismo.

      Acredito que houve evolução do Islã, porém o fundamentalismo permanece tal como ainda existe minoritariamente entre alguns judeus que habitam o interior do Estado de Israel e, pasme, nem fazem o planejamento familiar, gerando compulsivamente mais filhos e avançando sobre os territórios palestinos.

      Porém, falando da nossa civilização cristã (ou pós-cristã), é preciso que as nossas soluções sejam baseadas nos basilares princípios éticos e considero ser preciso melhorar as condições de vida nos países periféricos para ocorrer um esvaziamento estratégico da Europa e uma tranquilidade para a preservação de uma cultura libertária construída nesses últimos 200 anos.

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