sexta-feira, 17 de junho de 2016

A pedra mágica do suborno em nossa sociedade corrompida



"Pedra mágica é o suborno aos olhos de quem o dá,
e para onde quer que se volte terá seu proveito."
(Pv 17:8; ARA) 

Embora escrita há milênios, a Bíblia continua sendo um tremendo manual de vida para a atualidade, um livro no qual as pessoas deveriam ler e meditar mais. Seus ensinamentos abordam os diversos aspectos de existência humana e podem falar muito à sociedade brasileira do nosso tempo em que a corrupção tornou-se algo tão habitual a ponto de virar até parte da cultura do povo (não são só os políticos que se corrompem).

O problema do suborno, sem dúvida, não ficou de fora das Escrituras Sagradas, pois é tratado em diversas passagens, tanto em Provérbios quanto em outros livros bíblicos, quer seja diretamente ou não. Pois, se bem pensarmos, eis que, desde os primeiros tempos da civilização, o homem procurou atalhos para o enriquecimento ganancioso de maneira que subornar uma autoridade pode propiciar ganhos fora do comum. Ou, no mínimo, funcionar como um facilitador para a satisfação de diversas necessidades do cotidiano.

Na citação feita acima, o sábio autor considerou o suborno com o uma "pedra mágica", algo capaz de realizar o desejo de quem dele se utiliza. E, sem fazer um julgamento moral (creio que por ironia), o escritor sagrado reconheceu os benefícios imediatos dessa prática ilícita que jamais é reprovada pela mente já cauterizada do homem que age de tal maneira. Porém, muita gente não percebe é que escolhas assim podem nos levar a um profundo abismo, tratando-se, pois, de um caminho enganoso. Senão vejamos o que Salomão teria escrito em outro verso de Provérbios, segundo a mesma tradução consultada acima:

"O que é ávido por lucro desonesto
transtorna a sua casa,
mas o que odeia o suborno, esse viverá."
(Pv 15:27)

Certamente que o termo "casa" pode, simultaneamente, ser aplicado à família, uma empresa, governo ou mesmo à nação. A primeira ideia é a de que alguém que se enriqueceu ilicitamente por meio da corrupção venha a colher os frutos de sua insensatez no futuro, trazendo maus resultados para os que estão em sua volta. E, se bem analisarmos, existe não somente o risco do indivíduo ser descoberto, responder a processo, e perder os bens adquiridos, como também ele irá transmitir péssimos exemplos de vida aos filhos e netos de modo que estes passarão a andar pelas mesmas vereadas dos pais.

Pensando nas consequências para um país, eis que a corrupção acaba virando um câncer! Pois, como existe uma propagação no meio social, o suborno acaba atingindo os baixos escalões dos governos. Com isso, não apenas ministros e altos magistrados exigem o pagamento de propinas de modo que um simples fiscal, ou atendente nas repartições públicas, passa a pedir uma "cerveja" para liberar documentos, localizar processos, prestar determinadas informações, encaminhar requerimentos, etc. Ironicamente, uns ainda têm a pachorra de se comunicar assim: "E aí? Vai me dar uma moral?"

Numa ocasião, o pastor presidente de uma igreja tentou justificar atitudes de corrupção. De acordo com o seu argumento, caso um guarda o parasse no trânsito e lhe pedisse um trocado, ele pagaria, tendo se respaldado nesta frase de Jesus dita lá no Sermão da Montanha: "não resistais ao perverso" (Mt 5:39). Porém, há que se ter muita cautela para não confundirmos o dar a outra face com a banalização do suborno.

Para quem exerce alguma atividade econômica, a propina já chega a fazer parte da contabilidade real de sua empresa, como temos visto nas investigações da Operação Lava Jato. Eu mesmo, um ano depois quando comecei a trabalhar com o comércio em Muriqui, deparei-me com uma situação que foi a entrada de vendedores piratas na praça justo nas épocas de maior movimento. Ou seja, surgiram camelôs irregulares de tudo quanto era canto oferecendo mercadorias a preços menores e de má qualidade, mas que interferiam na lucratividade de quem laborava no lugar há mais tempo, pagando os tributos e as taxas, quer fossem os donos de lojas ou os ambulantes habituais. Então, alguns colegas me disseram que iriam dar um "agrado" para os fiscais expulsarem os novos intrusos, pedindo que eu igualmente desse a minha contribuição diária de módicos R$ 5,00.

No início, achei tentador contribuir, mas não demorou para aquela situação incomodar lá no íntimo e precisei ser corajoso para posicionar-me diante dos demais companheiros afirmando que não pagaria a suposta graninha extra que um deles falou que levaria ao fiscal. Pesou em meu coração não foi a ilegalidade em si da conduta, mas, sim, a questão da injustiça contra o próximo. Pois muitos ali que já se encontravam estabelecidos no ramo também começaram a trabalhar informalmente e/ou não se encontravam em situação regular perante o Poder Público. Logo, preferi dizer não e sofrer constantes hostilizações e assédios do que compactuar com algo que a minha consciência não estava concordando.

Ensina também o livro de Provérbios que a aceitação de suborno perverte as veredas da justiça (17:23). Logo, pode-se facilmente constatar que o comportamento humano corrupto contribui danosamente para que a iniquidade se multiplique numa sociedade. Tem-se com isso o surgimento de máfias, mais prejuízos para a economia como um todo, subdesenvolvimento, aumento da pobreza e da violência. As pessoas prejudicadas acabam vivendo na marginalidade e podem facilmente partir para o mundo do crime. Principalmente quando falta num país melhores oportunidades de emprego, boas escolas bem como uma assistência governamental ampla e completa capaz de contemplar a todos os desfavorecidos.

Recusar a pedrinha mágica do suborno é, sem dúvida, a melhor escolha. Como cristãos, precisamos preferir andar pelo "caminho estreito" ao invés de trilharmos a "via larga da perdição". Não dá para servirmos a dois senhores e quem confia verdadeiramente em Deus deve aguardar fielmente a sua bendita provisão. Se uma porta fecha, outra pode se abrir. E, se o Senhor é o nosso Pastor, o que haverá de faltar como bem escreveu o salmista? Enfim, cabe aos crentes darem o bom exemplo. Pois creio que, como Igreja brasileira, assumindo um posicionamento honesto, seremos luz para essa nação envolta nas trevas da corrupção. 

Chega de consentir com a desonestidade!

Um ótimo final de semana a todos!


OBS: Este artigo é uma republicação atualizada do texto A pedra mágica do suborno na sociedade brasileira, originalmente publicado em meu blogue pessoal no dia 14/11/2014, sendo que a imagem acima trata-se de uma foto para divulgação do filme A Pedra Mágica, conforme consta em http://www.abril.com.br/entretenimento/fotos/ator-two-and-half-man-esta-pedra-magica-494782.shtml

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