quarta-feira, 15 de junho de 2016

A formação homofóbica nos meios familiar e religioso




Acompanhando o caso sobre a tragédia ocorrida recentemente na Flórida, EUA, surpreenderam-me os comentários homofóbicos feitos pelo senhor Seddique Mateen (foto), pai de Omar Mateen, o qual matou 50 pessoas numa boate LGBT de Orlando deixando outras 53 feridas. Tendo o genitor do assassino expressado tristeza por seu filho ter realizado o ataque, ele afirmou que "cabe a Deus punir os homossexuais". Senão vejamos as palavras divulgadas num vídeo que ele postou na rede social do Facebook:

"Meu filho Omar Mateen era uma pessoa muito boa. Era casado e pai de um menino. Respeitava sua família. Não sabia que tinha este ódio no coração (...) Estou profundamente triste e anunciei isso ao povo dos Estados Unidos (...) Cabe a Deus punir os homossexuais. Não corresponde a seus servos (...) Que Deus guie a juventude e permita a ela seguir o verdadeiro Islã." - destaquei

Embora nos falte elementos suficientes para melhor avaliarmos como teria sido a educação de Omar, podemos concluir que ele foi criado numa família com valores homofóbicos. O pai, embora demonstre reprovação pela conduta do filho, agravada por ter agido assim no Ramadã (mês sagrado dos muçulmanos), certamente considera um pecado o relacionamento afetivo entre pessoas do mesmo sexo. Tanto é que ele defende, ou aceita, uma vingança divina contra os gays.

Refletindo a respeito, pensei logo na nossa sociedade cristã hipócrita em que o pensamento de muitos cristãos talvez se assemelhe neste aspecto com o que externou o senhor Seddique. A maioria dos evangélicos brasileiros, por exemplo, acredita que os homossexuais, se não se converterem a Cristo e não pararem de agir conforme a orientação sexual que têm, irão para o inferno após morrerem. Aliás, este texto do Novo Testamento a seguir transcrito, referente a uma das cartas de Paulo á Igreja em Corinto, deixa claro como o cristianismo fundamentalista ainda lida com a questão da homossexualidade em relação à salvação:

"Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus." (1ª Coríntios 6:9-11; NVI)

Acredito que, se não fosse o abrandamento feito pela concepção cristã, a Igreja poderia muito bem estar matando homossexuais usando o nome de Deus e procurando sua fundamentação na Bíblia assim como muitos integrantes do Estado Islâmico agem com base nos textos que interpretam do Corão. Bastaria que para tanto se fizesse uma leitura literal desse verso da legislação de Moisés em que a execução dos gays é ali ordenada aos israelitas:

"Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte." (Levítico 20:13)

Fica evidente para mim que nem o pai do atirador e tão pouco a religião de sua família influenciaram diretamente na escolha do massacre na boate LGBT de Orlando. Porém, o ambiente no qual Omar vivia poderia ter sido preventivo do mal, caso não estivesse presente em seu meio a homofobia e outros preconceitos.

Por mais que um pai ou uma mãe tenha uma influência limitada sobre o filho, visto que este, com o livre arbítrio, decide o próprio caminho a ser seguido, nunca podemos ignorar a importância da educação. E, sendo assim, considero fundamental que, tanto numa casa quanto numa igreja, sejam transmitidos para as crianças valores humanizadores de tolerância e de respeito pela diversidade. Pois é algo que se encontra ao alcance de pais, educadores, padres e pastores.

Ainda que muitos critiquem os professores por abordarem o tema da homofobia nas escolas, entendo que o assunto deve permanecer em pauta. Pois é nos estabelecimentos de ensino que os alunos precisam aprender a conviver pacificamente com os coleguinhas que sejam diferentes, aceitando como normal algumas pessoas gostarem de gente do mesmo sexo. Do contrário, jamais que a intolerância terá fim no planeta. É como penso.


OBS: A foto acima é uma reprodução do Facebook, extraída do portal G1 em http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/06/pai-do-atirador-de-orlando-afirma-que-cabe-deus-punir-os-homossexuais.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário