domingo, 27 de março de 2016

Inovações na última Páscoa celebrada por Jesus



"Chegou o dia da Festa dos Pães Asmos, em que importava [sacrificar] comemorar a Páscoa. Jesus, pois, enviou Pedro e João, dizendo: Ide preparar-nos a Páscoa para que a comamos. Eles lhes perguntaram: Onde queres que a preparemos? Então, lhes explicou Jesus: Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem com um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar e dizei ao dono da casa: O Mestre manda perguntar-te: Onde é o aposento no qual hei de comer a Páscoa com os meus discípulos? Ele vos mostrará um espaçoso cenáculo mobilado; ali fazei os preparativos. E, indo, tudo encontraram como Jesus lhes dissera e prepararam a Páscoa. Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhe: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus." (Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos de 7 a 18; versão e tradução ARA - destaquei)

Tradicionalmente temos o hábito de fazer uma leitura da última Páscoa de Jesus e da Santa Ceia a partir de um ponto de vista, digamos, mais sacramental. Concebemos esse lindo episódio como uma ordenança do nosso Senhor que devemos repetir continuamente em sua memória, tendo por objetivo anunciar o Reino de Deus em sua plenitude (verso 18), o que coincide com a ideia sobre a segunda vinda de Cristo (conf. 1ªCo 11:26).

De fato, a celebração da Ceia corresponde a tudo isso. Porém, antes de mais nada, nunca podemos ignorar que ela foi e será sempre uma expressão da comunhão entre cristãos. Algo vivido espontaneamente por Jesus e seus discípulos ao redor de uma mesa, num ambiente de profunda e autêntica intimidade fraterna.

O dia da Festa dos Pães Asmos acontecia quando os judeus, segundo o calendário bíblico-religioso, sacrificavam o cordeiro pascal (Nm 28:16-25). Tratava-se de uma refeição que deveria ser comida por grupos de famílias israelitas exclusivamente no Templo (Dt 16:5-8), tal como teria sido a comemoração ocorrida durante o reinado de Josias (2Cr 35:1-19).

No dia da Ceia, no entanto, pode-se dizer que Jesus preferiu desafiar os costumes de sua cultura e não ir ao Templo desta vez como havia feito nos dias anteriores para ensinar lá o povo (Lc 21:37-38). Antes o Mestre enviou Pedro e João para que estes preparassem a Páscoa num local ainda desconhecido pelos demais discípulos em que o Senhor parece ter contratado secretamente com o proprietário do imóvel. Quando entrassem em Jerusalém, os dois apóstolos deveriam procurar por um homem portando um cântaro de água, algo incomum naqueles dias porque tais objetos costumavam ser carregados mais pelas mulheres. Os homens transportavam água em odres de pele. Logo, tudo indica que se tratava de um código de comunicação.

Ao que me parece pelos textos dos evangelhos canônicos, Jesus deveria saber que estava sendo traído e resolveu tomar as providências necessárias para que a sua prisão não ocorresse antes daquele importante momento. Se os demais seguidores conhecessem previamente onde seria a Ceia, Judas poderia aparecer no local acompanhado da guarda do Templo. Só que o Salvador pretendia se entregar voluntariamente num outro lugar e na hora que ele entendia ser oportuna.

A última Páscoa de Jesus foi de fato uma ocasião pela qual o Senhor aguardou ansiosamente antes de sofrer o martírio na cruz. Os versos 15 e 16 do cap. 22 de Lucas acima citados expressam o seu desejo intenso por estabelecer uma relação de comunhão com os seus discípulos. Algo que o ambiente do Templo não seria capaz de proporcionar. Neste sentido, vale a pena citar os pertinentes comentários do teólogo italiano Sandro Gallazzi:

"No templo, o centro é o altar. Imenso, visível: uma base de 10 metros, uma altura de 6 metros, o fogo dos sacrifícios sempre aceso. Os cordeiros eram distribuídos ao povo depois de ter sido degolados e depois de os sacerdotes ter recolhido o sangue e feito as prescritas aspersões rituais (2Cr 35,11). A páscoa, comida por todos, era precedida pelos holocaustos imolados no altar do templo. O altar que nos subjuga a Deus e a seus sacerdotes, é substituído pela mesa que nos faz iguais e irmãos (...) A imagem de uma multidão de gente de pé, ao redor de um altar fumegante, encharcado do sangue de milhares de cordeiros, é totalmente diferente de um grupo de amigos reclinados ao redor de uma mesa para condividir um prato de comida." (O Evangelho de Mateus - uma leitura a partir dos pequeninosComentário Bíblico Latinoamericano. São Paulo: Fonte Editorial, 2012, pág. 526)

Refletindo acerca do versículo 17 da passagem bíblica em estudo, encontro no Evangelho uma mensagem que vai bem além do simples ritual. A ordenança de receber e de repartir precisa tornar-se extensiva quanto à vida comunitária dentro da Igreja. Os discípulos deveriam partilhar tudo o quanto tinham afim de satisfazerem as necessidades dos seus irmãos. Quer fossem bens materiais, ensinamentos ou dons espirituais. O cálice do vinho tinto, um momento de alegria festiva dos judeus, deve levar o discípulo de Cristo a uma ação inclusiva de modo que a Igreja não poderia deixar de dividir com quem tem fome e sede. 

Uma conclusão que pode ser tirada é que a Igreja, por ser concebida como um ambiente de comunhão, deveria ser entendida como a formação de uma nova família, o que é diferente de uma reunião de "grupos de casas paternas". E talvez tenha sido este o recado que Paulo pretendeu passar para os membros da congregação em Corinto ao escrever a sua primeira epístola registrada no cânon do Novo Testamento. Significaria que quem não estivesse disposto a dividir, então que fizesse os seus banquetes particulares na própria residência, mas não trouxesse para o convívio da congregação os costumes desiguais de uma sociedade secular injusta:

"Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo." (1ªCo 11:20-22)

Sendo a Santa Ceia um memorial do que aconteceu na última Páscoa celebrada por Jesus, não podem os cristãos se esquecerem que foi dentro desse ambiente alternativo que se estabeleceu um novo pacto ou aliança. E, sendo assim, trata-se de algo muito mais profundo do que podemos imaginar pois tem a ver com as relações de fraternidade que a humanidade alcançada pela mensagem do Evangelho deveria estabelecer.

Desejo a todos uma excelente semana!


OBS: A ilustração acima refere-se a um fresco do Mosteiro Kremikovtsi, Bulgária, do século XVI. A autoria da foto, de 06/05/2011, é atribuída a Edal Anton Lefterov que a dedicou ao domínio público. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Last-supper-from-Kremikovtsi.jpg

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