quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

"O que não tem espada, venda a sua capa e compre uma"



"A seguir, Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e sem sandálias, faltou-vos, porventura, alguma coisa? Nada, disseram eles. Então, lhes disse: Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma. Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: 'Ele foi contado com os malfeitores'. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido. Então, lhe disseram: Senhor, eis aqui duas espadas! Respondeu-lhes: Basta!" (Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos de 35 a 38; versão e tradução ARA)

Este teria sido o último ensinamento de Jesus durante o momento da Ceia, segundo o 3º Evangelho. Trata-se de uma passagem bíblica cuja interpretação requer cautela a fim de não cairmos em sérios equívocos teológicos, pois, no passado, inúmeras guerras sangrentas foram travadas usando-se, inclusive, o santo nome de Cristo. E, por certo, o Mestre não estava a incitar violência física contra ninguém.

Inicialmente, precisamos contextualizar essa mensagem que, além de ser parte da instrução discipular final, foi precedida do aviso sobre a negação de Pedro. Jesus estava para ser preso e condenado à morte como se fosse um bandido da pior estirpe. Daí a citação de parte do versículo 12 de Isaías 53 feita pelo escritor do Novo Testamento. Nosso Senhor identifica a sua missão com a figura do "servo sofredor" idealizada pelo profeta.

Podemos afirmar que aquela teria sido a primeira adversidade que a Igreja suportou em sua bimilenar existência. Foi um teste de fogo diferente do comissionamento registrado nos capítulos 9 e 10 do 3º Evangelho (ler os artigos Um movimento que abalou o rei e Trabalhadores na seara do Senhor, publicados em meu blogue pessoal, os quais abordam as correspondentes passagens de Lucas). Em ambas as situações, o Mestre apostolou-os praticamente com a roupa do corpo. Não poderiam ter um par de sandálias (extra) ou alforje, o que seria um tipo de bolsa utilizada pelos peregrinos da Antiguidade a fim de carregarem suas provisões de viagem e pertences pessoais. Na cidade ou vilarejo onde entrassem, deveriam ser recebidos nas casas dos respectivos moradores, "comendo e bebendo do que eles tiverem" (Lc 10:7).

Tais experiências foram um bem sucedido estágio missionário em que os apóstolos tiveram de pregar sobre o Reino de Deus e ministrarem cura às pessoas sem a presença física do Mestre. Tudo lhes correu bem naquelas vezes, mas viriam ocasiões em que não encontrariam tanta facilidade. Por isso, precisariam ser prudentes porque enfrentariam um futuro perigoso. Da mesma maneira que Jesus, os seus seguidores também iriam passar por perseguições defrontando-se com uma forte resistência nos mundos físico e espiritual a ponto de tornar árdua, mas não impossível, a tarefa de construção do Reino dentro das complexas relações humanas.

Sem dúvida que há uma diferença enorme entre fazer belos sermões religiosos para uma plateia num auditório e mexer com determinados pontos críticos de uma sociedade. Ir para uma região do planeta e começar a organizar os trabalhadores explorados pelos seus patrões, dizer às mulheres oprimidas pela violência doméstica que passem a valorizar sua dignidade pessoal e denunciar a hipocrisia existente nos templos, bem como a corrupção nos palácios, certamente vai atrair uma oposição. Em tal hipótese, você já não será mais visto como um visitante ilustre bem-vindo no lugar. Os poderosos e os indivíduos de mentalidade conservadora/servil pedirão, no mínimo, que deixe a terra deles. Rebaixarão a sua reputação das colunas sociais para as páginas policiais a fim de que o discípulo de Cristo seja também "contado com os malfeitores".

Assim sendo, cumpre-nos vender a capa e comprar a espada, o que significa uma preparação interior para guerrearmos em prol da causa do Reino de Deus. Mas lembremos que nosso Senhor Jesus Cristo nunca falou para os seus discípulos reagirem com violência! Tanto é que, quando eles lhe apresentaram duas armas, o Mestre respondeu "basta". Isto é, ele quis dizer chega daquele tipo de conversa porque os apóstolos demonstravam não estar entendendo o sentido da mensagem recebida dando provas do quanto ainda estavam imaturos.

Interessante é que, mesmo sendo ainda crianças na fé, aqueles seguidores de Jesus vão conseguir superar a prova pela qual passariam dentro de algumas horas. O Mestre previu que eles tropeçariam, mas nunca deixou de acreditar no sucesso de sua Igreja. Posteriormente, todos, exceto Judas, tornaram-se valorosos guerreiros. Aprenderam a preservar a fé diante das dificuldades que se apresentavam. Pedro pode ter negado a Jesus por três vezes antes que o galo cantasse, mas sabemos, conforme as tradições cristãs, que o apóstolo também enfrentou uma cruz quando martirizado em Roma décadas mais tarde. Aliás, a ele é atribuída a autoria deste texto epistolar abaixo que foi dirigido aos leitores que não conheceram pessoalmente o Salvador por serem de outras regiões distantes de Israel::

"Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais [afligidos] contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, obtendo o fim de vossa fé: a salvação da vossa alma." (1ªPedro, capítulo 1º, versículos de 6 a 9; ARA)

Embora não seja esse o mal que desejamos, devemos aprender a ver no enfrentamento da adversidade uma oportunidade para crescimento espiritual e fortalecimento da fé. Da mesma maneira que o fogo é utilizado para a purificação de metais preciosos, as provações podem contribuir para que uma superficial profissão de fé venha a se tornar algo bem radicado e firme nos propósitos divinos. Afinal, são situações indesejadas mas capazes de fazer do crente fiel uma verdadeira peça de joalheria.

Tenham todos uma excelente tarde de quinta-feira!


OBS: Este artigo é uma republicação adaptada e corrigida da postagem que fiz em meu blogue pessoal dia 17/11/2013 num estudo sequencial sobre o Evangelho de Lucas. A ilustração acima refere-se a uma antiga espada utilizada na época romana. Extraí a foto do acervo virtual da Wikipédia conforme consta disponibilizada em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Spatha_end_of_second_century_1.jpg

2 comentários:

  1. Rodrigo, quero dizer que quando fui tomado pela ideia de que a covardia é o mal.
    Um dia assistido o filme Paixão de Cristo me tocou o fato da passagem mais marcante de tudo que existe no mundo ser justamente a imagem de um homem martirizado na cruz. Parti então para ver quais outras referencias poderia encontrar na bíblia sobre a questão da covardia, não vi nada no sentido que buscava até me deparar com outra passagem das mais sanguificativas, um ato de covardia(Caim e Abel) no princípio da trajetória humana no mundo. Acho que já te falei sobre isso, nos tantos cometários que já trocamos a anos.
    Mas só por ai, deu para confirmar que o tema é sim de suma importância, por estar presente em passagens das mais significativas da bíblia. Outra coisa que me surpreendeu foi a referencia a Jesus como um general de exércitos no que seria a batalha do apocalipse. Uma batalha final antes que a promessa de cumpra? É claro que considero que tudo deva ser interpretado com muito critério e jamais ser base para ideias fundamentalistas, mas dentro do que busco, não deixa de ser marcante.
    Agora essa passagem que você menciona, que me era desconhecida, é deveras significativa e enigmática Então, lhe disseram: Senhor, eis aqui duas espadas! Respondeu-lhes: Basta!" Eu precisaria saber o sentido exato da palavra BASTA. Mistério amigo, mistério! De maneira que sigo acreditando fortemente em uma Cultura de Não Covardia!
    Um abraço!

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    1. Olá, amigo.

      Será que esse "basta" não pode significar um ponto final naquele diálogo já que os discípulos demonstraram não estar compreendendo a essência da mensagem do Mestre?

      Sobre a batalha do Armagedom, eis outra passagem bíblica que requer mesmo cautela. A divisão da humanidade em ovelhas e bodes nunca pode justificar atitudes exclusivistas tomadas nesta vida. Do contrário, lembrando de outra parte da Bíblia, o joio vai acabar sendo arrancado com trigo...

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