quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Decretado jejum contra a dengue




Está circulando nas redes sociais a matéria do portal G1 (clique aqui pata ler) a respeito do prefeito de uma cidade de Goiânia que criou o "DIA DE JEJUM MUNICIPAL", em 22/02, a fim de convocar a população para clamar a Deus por causa da epidemia de dengue na localidade.

Nem vou nem discutir a questão pelo ponto de vista jurídico, se o tal prefeito estaria ou não violando o laicismo estatal ao usar a forma de um decreto para fazer tal comunicação visto que fugiria do tema desta confraria. Porém, pretendo buscar quais os fundamentos teológicos para essa decisão e fazer uma análise bíblica do assunto.

Se pensarmos bem, exceto pelo fato do povo de Goiandira não ser judeu, mas essencialmente cristão, a postura do administrador tem a ver com a lógica predominante do Antigo Testamento. Tratar-se-ia da aplicação do festejado versículo 14 do capítulo 7 do livro de 2 Crônicas que assim diz: 

"se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra." (NVI)

Ora, a ideia expressa é que os males seriam causados pela conduta pecaminosa das pessoas. Ou seja, haveria uma relação moral de causa e efeito entre determinados problemas enfrentados (secas, doenças e guerras, por exemplo) com os "maus caminhos", mas que pode ser superada pela via do arrependimento. Logo, o que se vê na cidade goiana refletiria uma interpretação de tal passagem bíblica ainda que não ocorra a sua citação no texto normativo publicado.

Por sua vez, o ato do prefeito lembra a determinação do rei de Nínive narrada no livro do profeta Jonas. Pois, quando o monarca tomou conhecimento da ameaça de destruição de sua cidade, mandou que tantos os homens como os animais ficassem sem comer e beber de modo que a ira divina se conteve contra o lugar:

"E os homens de Nínive creram em Deus; e proclamaram um jejum, e vestiram-se de saco, desde o maior até ao menor. Esta palavra chegou também ao rei de Nínive; e ele levantou-se do seu trono, e tirou de si as suas vestes, e cobriu-se de saco, e sentou-se sobre a cinza. E fez uma proclamação que se divulgou em Nínive, pelo decreto do rei e dos seus grandes, dizendo: Nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma, nem se lhes dê alimentos, nem bebam água; Mas os homens e os animais sejam cobertos de sacos, e clamem fortemente a Deus, e convertam-se, cada um do seu mau caminho, e da violência que há nas suas mãos. Quem sabe se se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos? E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha anunciado lhes faria, e não o fez." (Jn 3:5-10; ACR)

Ainda assim, a própria Bíblia também desafia esse pensamento sobre a moral de causa e efeito. Além de Jó, cuja origem dos sofrimentos estava numa aposta entre Deus e o diabo, temos ainda os questionamentos do autor de Eclesiastes. Seria a ideia de que o mesmo resultado pode suceder ao ímpio e ao justo (Ec 9:2).

O fato é que, na relação de causa e efeito, o pecado cometido pela coletividade brasileira diz respeito aos criadouros do vetor da dengue que muitos moradores das cidades permitem proliferar debaixo do sol (e das chuvas). De acordo com o Dr. Anthony Érico Guimarães, PhD, pesquisador titular do Laboratório de Díptera Entomologia do Instituto Oswaldo Cruz - IOC/Fiocruz, no Rio de Janeiro (RJ), e especialista em Aedes aegypti, esse mosquito transmissor de doenças possui "hábitos domésticos", picando as pessoas de preferência durante o dia, principalmente nas primeiras horas da manhã ou no final da tarde. 

Ora, estamos carecas de saber a todo momento, conforme os telejornais e as campanhas de conscientização mostram, que os criadouros do Aedes estão localizados dentro e nas proximidades das casas! Desse modo, como o morador é o responsável principal, deve ele mesmo eliminar todos os recipientes capazes de armazenar água, como os pratinhos sob os vasos das plantas, pneus, garrafas, tampinhas de garrafas, latas e similares. Já aqueles recipientes que não podem ser eliminados, tais como caixas d’água, reservatórios, calhas, bandejas de aparelhos de ar condicionado e de geladeiras, fossos de elevadores, ralos entupidos, dentre outros, recomenda-se que sejam examinados e tratados semanalmente (sendo o reservatório sempre bem lavado e escovado, com trocas semanais da água, as eventuais larvas do mosquito dificilmente atingirão a fase adulta).

Quer se leve o problema da dengue para o lado metafísico ou não, verdade é que somos os responsáveis por essa epidemia que hoje afeta praticamente todo o país junto com a febre chikungunya e o zika vírus. A causa não é outra senão o ser humano que trás o terrível Aedes para morar com ele e disso precisamos nos arrepender tomando a atitude certa de parar de criar mosquitos.

5 comentários:

  1. Um mosquito esquisito que se adaptou muito bem nas terras de D. João VI, e parece que daqui não vai sair tao cedo.(rsrs) Apelar para so deuses é um retrocesso do governo e da saúde pública. E por falar em saúde, estamos perdendo a guerra para bactérias que vão se tornando, aos poucos, superbactérias. Para completar, temos hoje, a quarta parte dos antibióticos de duas décadas atrás. Ou seja, três quartos dos antibióticos da atualidade não fazem mais nenhum efeito sobre as sábias e fatais bactérias que proliferam até em hospitais. Pesquisa, que é bom, para produção de novos antibióticos praticamente inexiste.

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    1. Bom dia, Levi.

      Tenho as minhas indagações sobre o tratamento com os antibióticos. Tudo bem que sou um apoiador da homeopatia e da medicina alternativa, mas, ao que me parece, essas bactérias vão se tornando super resistentes justamente por causa do uso equivocado e excessivo de tais remédios.

      Infelizmente, os pacientes recorrem aos medicamentos diante de qualquer dorzinha, febre ou mal estar. Além da terrível auto-medicação, tem-se o marketing da indústria farmacêutica e a falta de uma educação social quanto à saúde. Algo que pouco se ensina numa aula de ciências dentro das escolas básicas.

      Pra mim, se as igrejas querem fazer algo efetivo no combate à dengue e promover a saúde das pessoas, deveriam os pastores educarem o público frequentador durante o culto, o que, no meu entender, seria ato de amor ao próximo e cumprimento da Lei de Deus. Mas, como bem tem colocado nas suas postagens, as "igrejas" de hoje são verdadeiros shopping centers. Claro que há exceções...

      Abraços.

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  2. A intenção do prefeito pode ser boa, mais seria muito mais útil se ele fizesse ampla campanha pela prevenção e eliminação dos focos do mosquito.

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    1. Ele não descarta essa ação, mas entendo que extrapolou ao utilizar a forma de um decreto para comunicar a sua intenção religiosa num Estado que é laico. Do ponto de vista teológico, não é difícil arranjar fundamentos mas, se refletirmos sobre o super comentado texto de 2Cr 7:14, parece-me que o "afastar dos seus maus caminhos" ocupa o centro da mensagem bíblica em tela e, obviamente, engloba tudo o quanto leva ao bem. Inclusive o comportamento preventivo contra o Aedes de cada um.

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  3. Para Marx, as concepções religiosas tendem a desresponsabilizar os homens pelas consequências de seus atos. Embora não seja correto absolutizar tal afirmação, é o que ocorre em muitos casos.

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