sábado, 27 de fevereiro de 2016

A personalidade doente do autor do Apocalipse




Chego hoje à conclusão de que foi um tremendo erro histórico a canonização do Apocalipse pelos antigos padres, algo que, durante a Reforma Protestante, Lutero chegou a questionar, apesar de não ter se negado a traduzir Revelação (outro nome do livro) para o idioma alemão. 

Numa análise psicológica, o autor do Apocalipse expõe traços de uma personalidade doentia. O céu e o inferno talvez reflitam uma preocupante flutuação no seu humor. O fato de pessoas serem lançadas para sempre num terrível lago de fogo, que seria a "segunda morte", pode revelar a sua dificuldade de perdoar multidimensionalmente condutas injuriosas, difamatórias ou insultuosas, bem como indicia um repugnante apelo ao medo na causa do proselitismo religioso. 

Além disso, o João do Apocalipse (que para mim pode ser uma pessoa distinta do amável apóstolo de Jesus) não considera os seus opositores como mentes divergentes, mas, sim, como inimigos que devem ser abatidos com a vinda de Jesus. Isto evidencia uma incapacidade de conviver com o diferente, algo que também se repete na expulsão do diabo do céu, como se lê no capítulo 12:

"Houve então uma guerra no céu. Miguel e seus anjos lutaram contra o dragão, e o dragão e os seus anjos revidaram. Mas estes não foram suficientemente fortes, e assim perderam o seu lugar no céu. O grande dragão foi lançado fora. Ele é a antiga serpente chamada diabo ou Satanás, que engana o mundo todo. Ele e os seus anjos foram lançado à terra." (Ap 12:7-9; NVI)

Outro aspecto de sua personalidade é que ele se considera o portador de uma mensagem profética, a ponto de ameaçar quem alterar o seu escrito (Ap 22:18-19), prometendo também aniquilar os que não se enquadrarem em seu modelo comportamental:

"O vencedor herdará tudo isto, e eu serei seu Deus e ele será meu filho. Mas os covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os que cometem imoralidade sexual, os que praticam feitiçaria, os idólatras e todos os mentirosos — o lugar deles será no lago de fogo que arde com enxofre. Esta é a segunda morte (...) Felizes os que lavam as suas vestes, para que tenham direito à árvore da vida e possam entrar na cidade pelas portas. Fora ficam os cães, os que praticam feitiçaria, os que cometem imoralidades sexuais, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira. (Ap 21:7-8;22:14-15) 

Assim, ele demonstra um senso pessoal que não se harmoniza com os direitos dos outros, rejeitando as diferenças que possam existir no comportamento plural da humanidade, e ainda aparenta ter seus problemas com o sexo feminino (não sei se era um gay que vivia no "armário" da repressão ou um padreco misógina frustrado) a ponto de idealizar os 144 mil eleitos como rapazes virgens que "não se contaminaram com mulheres": 

"Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois se conservaram castos e seguem o Cordeiro por onde quer que ele vá. Foram comprados dentre os homens e ofertados como primícias a Deus e ao Cordeiro." (Ap 14:4)

Bem, essa foi a breve análise crítica e psicológica que fiz desse livro que, embora esteja na Bíblia, pouco nos edifica (não nego que haja uma ou outra frase interessante de ser trabalhada fora do contexto). Não sei o que o confrade Levi Bronzeado, sempre atento ao comportamento humano, vai achar das minhas colocações. Porém, peço favor aos leitores religiosos que não me apedrejem como herege. Na qualidade de livre pensador, tenho o direito de duvidar da organização do cânon bíblico e propor alterações. Aliás, há livros muito melhores do que Revelação, tanto atuais como antigos, mas permanecem fora da Bíblia...


OBS: A ilustração acima refere-se à obra João na ilha de Patmos, cuja autoria é atribuída aos Irmãos Limbourg (em neerlandês, Gebroeders Van Limburg, Herman, Paul, e Johan), os quais foram três famosos pintores neerlandeses renascentistas de iluminuras.

3 comentários:

  1. O Apocalipse de João começa com: “Revelação de Jesus Cristo….”.

    Jung, que estudou profundamente a simbologia bíblica, entende que o discípulo visionário, simplesmente projetou sua sombra (agressividade sádica repressora ou desejo de vingança existente no Javeh judaico, conhecido pelo célebre olho por olho e dente por dente) no “messias recém- falecido”, desfigurando desse modo a figura de um ser misericordioso propagado nos evangelhos. O Jesus vingador/castigador do apocalipse, está muito longe da imagem acolhedora do Messias que se lê nos evangelhos apócrifos. (rsrs)

    Por outro lado, ou levando em consideração o mercado fundamentalista religioso da pós-modernidade, os arquétipos “céu” e “inferno” em sua interpretação literal fazem a festa. Esses arquétipos são o motor que faz inchar de gente as mega-igrejas. (rsrs)

    João, hoje em nossas terras, deixando a neurose eclesiástica de fora, seria um bilionário empreendedor de Javeh. Ou não, Rodrigão? (rsrs)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa essa análise do Jung. E, se pensarmos bem, o que tantos outros pregadores não fizeram e ainda continuam a fazer com Jesus?! Mas quanto ao Apocalipse, eu diria que poucos seriam os pontos de semelhança com o cristo dos evangelhos canônicos para não precisarmos falar dos apócrifos. Estes então trariam mais projeções pessoais ainda dos diversos autores e das fontes destes. E acho que nem o escritor do terceiro Evangelho alcançou o objetivo que pretendia quanto à apuração dos fatos por mais que tivesse tentado de coração sincero.

      Na atualidade, o Apocalipse continua sendo uma das principais matérias primas dos produtos oferecidos por esse mercado religioso. Enquanto o medo da morte serve como um apelo aos mais idosos, a ameaça de um fim de mundo com o julgamento final dos que não tiverem seus nomes no tal do "Livro da Vida" pode alcançar toas as gerações. Até as crianças que os líderes tentam poupar da sessão terror ocorrida nos cultos e nas escolas dominicais dessas "igrejas".

      Mas o Apocalipse não se resume apenas ao "céu" e "inferno". Os julgamentos contidos no livro através das aberturas dos selos, dos toques das trombetas e dos cálices de ira tornam-se interpretações dos acontecimentos presentes de modo que qualquer guerra no Oriente Médio, fatos político, a fome na África, bem como a epidemia de zika vírus tornam-se flagelos divinos para punir a humanidade pecadora. Também a desconfiança contra o outro é alimentada tipo a ascensão de um novo papa e os candidatos nas eleições presidenciais dos EUA (e até aqui no Brasil) podem se tornar pretensos anticristos. Só que poucos desconfiam de que, ao longo da história, a cristandade já teve muitas bestas e ouviu muito mais do que sete trombetas tocando... (rsrsrs)

      Mas será que o ser humano não sente a necessidade de alimentar essa neurose? Por acaso na literatura apócrifa não houve outros apocalipses? E por que motivos novas profetadas continuam surgindo no meio invangélico? Aliás, diga-se de passagem que, por um longo tempo, o segredo de Fátima em que, segundo a lenda, Maria teria aparecido a três crianças portuguesas no ano de 1917, também nutriu a mente dos católicos. E olha que estamos falando de uma igreja tradicional como são as protestantes da época da reforma.

      Excluir
    2. Em tempo!

      Já que mencionei o Segredo de Fátima, devemos lembrar que, no ano de 1917, o mundo ainda estava vivendo a Primeira Guerra Mundial e houve ainda a Revolução Russa que em que os bolcheviques começaram uma perseguição ao cristianismo.

      Bem, se considerarmos que cada "revelação" dessas segue o seu contexto histórico e social, o apocalipse das três crianças portuguesas estava de acordo com o momento vivido assim como foi com esse João em Patmos. Um cara que estando confinado numa prisão romana deseja ver seus adversários queimando numa fornalha. Problema é que um leitor de hoje torna-se incapaz de fazer uma análise teológica com base em acontecimentos passados e tal ignorância o torna refém de "pastores" oportunistas.

      Só Gézuis na causa! (rsrsrs)

      Excluir