quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Cristianismo x Islamismo: o inevitável Choque de Civilizações

"Nenhum de vocês crê verdadeiramente até que deseje aos outros o que deseja para si mesmo." Maomé, fundador do Islamismo

Por Hermes C. Fernandes

O mundo ocidental tem assistido horrorizado às barbáries perpetradas pelo mais cruel grupo terrorista dos últimos tempos: o Estado Islâmico. Diferentemente de outras redes terroristas como a Al-Qaeda, o EI tem empregado recursos dramáticos na execução de prisioneiros, filmando e difundindo pelas redes sociais imagens de decapitações em massa, afogamentos e incinerações de prisioneiros confinados em gaiolas, homossexuais empurrados do alto de edifícios, além de destruição de sítios arqueológicos importantes. Tudo isso, somado ao radicalismo religioso de alguns grupos do Islã têm despertado ojeriza por parte das sociedades ocidentais.

Lembro-me de que pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas, fui visitar minha irmã Odília que morava em Newark, cidade vizinha à Nova Iorque. Na manhã do ataque terrorista, ela tinha uma entrevista de emprego lá, mas graças à providência divina, perdeu a hora. Ao acordar, assistiu da janela do seu quarto à queda do World Trade Center. Foram dias de muita apreensão por parte da minha família que não conseguia contatá-la. Tão logo tive oportunidade, aproveitei minha ida à Flórida na companhia de um amigo para esticar até Nova Iorque. Na fila para embarcar, enquanto éramos minuciosamente revistados, mesmo depois de termos passado por detectores de metais, notamos que um homem que usava um turbante árabe passou direto. Todos na fila demonstraram preocupação com a cena seguindo-o indiscretamente com os olhos. Naqueles dias, qualquer um que embarcasse num voo comercial usando turbante era considerado um forte candidato a terrorista. Ao chegar na porta da aeronave, aquele homem abriu o paletó e exibiu à tripulação sua insígnia. Era um agente do FBI. Todos suspiraram aliviadamente. Mesmo assim, a tensão persistia. Durante todo o voo, duas comissárias de bordo se alternavam ao microfone, brindando-nos com um verdadeiro stand up comedy no afã de aliviar as tensões. Quando avistamos os arranha-céus da Big Apple pela janela, a tensão aumentou consideravelmente. Ninguém mais conseguia prestar a atenção nas comissárias. Bastou que as rodas do avião tocassem no solo para que os passageiros irrompessem num barulhento e demorado aplauso. Ufa! Havíamos sobrevivido.

Sinceramente, não queria estar na pele de um muçulmano que morasse ou pretendesse visitar os Estados Unidos naqueles dias.

Da última vez que morei com a minha família nos Estados Unidos, entre os anos de 2009 e 2011, meus filhos estudaram numa High School próxima de nossa casa em Lake Mary, na Flórida. Minha filha caçula, Revelyn, contou-me de sua preocupação com um colega Iraniano que era hostilizado pelos colegas. Como se não bastasse sua religião e nacionalidade, ele não sabia falar uma única palavra em inglês. Revelyn perguntou-me se haveria algum problema se ela se propusesse a ajudá-lo. Senti-me orgulhoso por sua iniciativa. Durante aquele período escolar, minha filha foi sua amiga e incentivadora.

Ser muçulmano não significa ser terrorista. Na verdade, ninguém deveria ser julgado por sua opção religiosa, nacionalidade ou etnia.

Enquanto minha filha fez amizade com um muçulmano, meu filho Rhuan fez amizade com uma jovem egípcia (bonita, por sinal), uma cristã copta, de uma família extremamente austera. Lembro-me do constrangimento que ele passou com o pai da menina ao visitá-la. Ele chegou em casa ofegante e visivelmente assustado, dizendo que nunca mais queria passar por aquilo novamente. O pai achou que ele queria pedi-la em namoro e praticamente o escorraçou da casa.

Quando estávamos para voltar para o Brasil, fizemos um Moving Sale, expondo nossos móveis e utensílios domésticos em nossa garagem com o objetivo de vendê-los por preços módicos. Nossa vizinhança era bem diversificada. Tínhamos vizinhos de várias partes do mundo, e muitos deles vieram checar nosso material. Chineses, judeus, mexicanos, porto-riquenhos, guatemaltecos e... egípcios. Isso mesmo. Aquela querida família encostou sua van em frente à nossa garagem e veio nos visitar. Não vieram para se despedir, nem para se desculpar pelo episódio em que meu filho foi escorraçado de sua casa, mas para aproveitar as pechinchas. Pechinchar é uma prática comum neste tipo de venda de garagem. Mas eles extrapolaram. O pai tinha um bloquinho nas mãos, onde anotava tudo, perguntando o preço de cada item. No fim, ele somou os valores e fez uma oferta bem inferior ao total. Tentei argumentar com ele, mas não deu. Acabei vencido pela sua insistência. Ele arrematou boa parte de nossas bugigangas. Até aí, tudo bem. Pelo menos nos livramos de tudo aquilo. O único problema é que eles ficaram de voltar mais tarde para pagar. Já faz quatro anos que retornamos ao Brasil e até agora, nada. Apesar do calote, eram cristãos coptas, da mesma tradição religiosa daqueles cristãos que foram decapitados pelo EI por não negarem sua fé em Jesus.

Jamais julgaria todos os cristãos coptas do mundo por causa da atitude daquela família. Assim como não julgo todas as igrejas brasileiras tomando por base algumas que usam os veículos de comunicação de maneira agressiva e antiética.

Posso assegurar que a maioria dos seguidores de Maomé não aprova o que tem sido feito em nome de sua fé por grupos fundamentalistas radicais. São homens e mulheres de bem, zelosos de suas tradições e valores, que trabalham com afinco para garantir a subsistência de suas famílias.

Assim como há maus cristãos, também há maus muçulmanos. Que direito temos de medir uns pelos outros?

Nem todo muçulmano é terrorista, como nem todo pastor é um explorador da fé, e nem todo padre é pedófilo. Cada um deve ser avaliado de per si. Pelos frutos conhecereis a árvore, alertou-nos Jesus.

E quanto ao EI? Como deveríamos nos posicionar quanto a esta milícia terrorista? Deveríamos pagar com a mesma moeda?

O EI é para o Islã o que as Cruzadas foram para o Cristianismo. Foram necessários séculos para que alcançássemos um grau de civilidade que nos permitisse perceber o quão distante estávamos daquilo que Jesus nos ensinara. E o que dizer da Santa Inquisição? Quantos foram condenados por tribunais eclesiásticos, sendo torturados com requinte de crueldade e queimados vivos por serem considerados hereges! Por que digo isso? Para relembrar que temos telhado de vidro.

O Islamismo é uma religião bem mais nova que o Cristianismo. Eu diria que é a caçula dentre as grandes religiões monoteístas. É inevitável que haja grupos sectários que não entenderam bem a proposta de sua religião. Quando digo “não entenderam bem”, estou afirmando que há muitas maneiras de se entender. Se nem a Bíblia está imune a interpretações equivocadas, que dirá o Alcorão. O problema não é o livro ou a religião em si, mas o estado do coração humano, carregado de ódio e preconceito.

Para que o ciclo do ódio seja quebrado, faz-se necessário apelarmos ao perdão, não à vingança.
Recentemente, foi criada a primeira brigada cristã iraquiana com a tarefa de retomar as cidades e localidades cristãs das mãos dos jihadistas do EI.

Os novos soldados marcharam e saltaram sobre pneus em chamas diante de uma fileira de autoridades curdas e assírias em Fishkabur, no nordeste do Iraque, lembrando cenas de produções cinematográficas americanas.

Após a invasão americana de 2003, muitos cristãos iraquianos deixaram o país, enquanto outros preferiram manter a discrição em um momento em que o país mergulhava na violência. Porém, alguns destes remanescentes decidiram tomar as armas nos últimos meses, formando várias milícias cristãs.

Não demoraria muito para que, imbuídos de um sentimento revanchista, as milícias cristãs se espelhassem em seus próprios inimigos. No dia 28 de maio de 2015, um soldado cristão membro das forças curdas decapitou um militante do EI na Síria. A decapitação do jihadista teria sido um ato de vingança pela morte de centenas de cristãos pelas mãos do EI, incluindo homens, mulheres e crianças. O soldado cristão escolheu matá-lo usando o mesmo método brutal de execução que se tornou uma marca do grupo terrorista, adicionando-se a isso o fato de ter sido obrigado a cavar a própria cova antes de ser executado.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma ONG exilada, sediada no Reino Unido, destacou que há muita discussão se “as ações do soldado cristão sírio não-identificado foram corretas ou morais sob a ótica do cristianismo”. Ainda segundo o artigo publicado pela ONG, se  “o motivo da decapitação foi uma vingança, o assassinato poderia ser interpretado como um crime de guerra”.[1]

Quem diria...uma ONG tendo que aguçar nossa consciência, lembrando-nos que condutas como esta destoam completamente do que foi ensinado por Jesus.

Em abril de 2012, o polêmico pastor norte-americano Terry Jones queimou exemplares do Alcorão, além de uma representação do profeta Maomé para protestar contra a prisão do pastor Youcef Nadarkhani no Irã. O Pentágono veio a público pedir que o pastor reconsiderasse os atos, alegando que seu inconsequente protesto poderia prejudicar soldados americanos no Afeganistão. Em 2010, ele já havia ameaçado fazer o mesmo, mas foi dissuadido pelas autoridades. Como previsto, o insano protesto provocou uma onda de violência no Afeganistão e no Oriente Médio.

Em 11 de setembro de 2013, Terry Jones foi detido na Flórida antes de queimar 2.998 exemplares do Alcorão como protesto pela passagem do décimo segundo ano de aniversário dos atentados que derrubaram as Torres Gêmeas, matando número equivalente de pessoas.

Por favor, alguém avise a este pastor que se sua intenção é a de chamar a atenção para si, ele conseguiu. Mas como efeito colateral, ele só fez aumentar a animosidade entre o mundo islâmico e o "grande Satã" (maneira como alguns islâmicos radicais se referem aos EUA).
Definitivamente, não precisamos de novas cruzadas. Aliás, jamais precisamos delas. Em vez disso, carecemos de homens e mulheres dispostos a levar a sério os ensinamentos de Jesus, permitindo que seu amor extrapole as fronteiras religiosas.

Jamais nos esqueçamos de que, na qualidade de seguidores de Cristo, “as armas de nossas milícias não são carnais, mas poderosas em Deus para destruição de fortalezas” (2 Co. 10:4). Portanto, em vez de balas, bombas, espadas, nosso arsenal é composto de amor, perdão, acolhimento e oração. As fortalezas contra as quais marchamos são as do preconceito, do ódio, do desamor e de tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana.

Em meio a tanto ódio, sempre nos surpreendemos com lampejos de amor.

No primeiro dia de fevereiro de 2011, o mundo foi impactado por uma foto postada no twitter em que cristãos coptas do Egito faziam um cordão de isolamento para proteger os muçulmanos em sua hora de oração em plena Praça Tahrir no coração da cidade do Cairo. Milhares de egípcios saíram às ruas para protestar contra o governo, sendo duramente recebidos por forças policiais. Chegada a hora em que os muçulmanos tradicionalmente se ajoelham em direção a Meca para orar, os cristãos presentes ao protesto formaram uma corrente humana para protegê-los dos cassetetes da polícia.

São exemplos como este que nos fazem voltar a ter esperança no convívio pacífico entre os homens.

Estes cristãos coptas decidiram viver o mandamento de Jesus às últimas consequências. Cada golpe que levavam nas costas para proteger os membros de uma religião considerada rival fazia-os lembrar das palavras de Jesus: “Amai-vos uns aos outros...”

Pouco mais de dois anos depois, em agosto de 2013, muçulmanos se uniram aos cristãos para protegerem suas igrejas de serem destruídas. Naqueles turbulentos dias, dezenas de igrejas e escolas, além de casas e lojas pertencentes a cristãos foram atacados no Egito por um grupo chamado Irmandade Muçulmana. Em um dos ataques, membros deste grupo jogaram coquetéis molotovs num centro comunitário cristão que ajuda crianças de rua, sejam elas cristãs ou muçulmanas. Apesar de ninguém ter ficado ferido, este ataque causou consternação entre muçulmanos e cristãos. Depois deste ataque, uma multidão formada por pessoas de ambas as religiões dirigiu-se a uma igreja para impedir que fosse depredada. Esta atitude desencadeou uma onda do bem em que cristãos e muçulmanos se uniram para apagar incêndios em igrejas ou conter ataques em outras cidades. Vigílias eram feitas ao redor de templos cristãos para impedir que fossem depredados.

Não precisamos concordar em tudo para que somemos esforços pelo bem comum. Mas, por mais constrangimento que possa causar em alguns, o fato é que muçulmanos e cristãos têm mais em comum do que a maioria esteja disposta a admitir.

O Deus a quem veneram é identificado como o mesmo que revelou-se a Abraão. "Allah" é simplesmente a palavra árabe para "Deus" (que também não é nome próprio). Basta pegar uma Bíblia ou Torá escritas em árabe, para constatar isso. É interessante reparar que o som da palavra hebraica "El" (de onde provém "El Shaday" e outros nomes compostos usados pelos hebreus em referência a Deus), assemelha-se mais ao som da palavra "Allah" do que o vocábulo português "Deus", que por sua vez se origina do vocábulo grego "Théos" usado fartamente nas epístolas paulinas. Isso se deve ao fato de que tanto o árabe, quanto o hebraico e o aramaico serem línguas semitas. Os hebreus comumente se referiam a Deus como "Eloha" ou em sua forma majestática "Elohim". Alguns acreditam que a palavra "Allah" seria uma corruptela de "Eloha."[2]

Apesar de judaísmo, cristianismo e islamismo terem conceitos diferentes acerca de Deus, eles O identificam como o Criador dos céus e da terra, sendo considerados "Fés Abraâmicas". Tanto judeus quanto muçulmanos, por exemplo, rejeitam as crenças cristãs da Trindade e da Encarnação Divina.  

Mesmo que não reconheçam a divindade de Jesus, prezam-no como o Messias[3] e um grande profeta. Seu respeito por Ele é tamanho, que cada vez que pronunciam o Seu nome, repetem a frase “Que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele”. Entre muitas coisas, eles creem em Seu nascimento virginal, nos milagres descritos nos evangelhos, em Sua ascensão ao céu e em Seu retorno no último dia. Eles também creem que não serão os únicos a serem salvos, “mas também os seguidores de outras religiões divinas e monoteístas quando praticam e seguem as suas doutrinas autênticas e puras as quais foram reveladas aos profetas Moisés e Jesus filho de Maria.”[4] e Obviamente que temos inúmeras diferenças que não podem ser desprezadas. Todavia, isso não nos impede de amá-los e respeitá-los em sua própria fé.

Uma das coisas que mais aborrecem a comunidade islâmica é o desrespeito à figura de Maomé, seu profeta. É difícil para um muçulmano compreender a razão pela qual Maomé tem sido execrado pelos cristãos, enquanto eles fazem questão de honrar a figura de Jesus.

Alguns mais radicais demonstram ser capazes de qualquer coisa para vindicar a honra de seu profeta. Não admitem brincadeiras, piadinhas, caricaturas envolvendo aqueles que consideram o mais importante porta-voz de Deus para a humanidade.

Mesmo sendo irrestritamente a favor da liberdade de expressão, penso que deveríamos, ao menos, respeitar a sua devoção e evitar profanar o que lhes é tão caro. Não é porque estamos acostumados a ouvir piadinhas envolvendo a nossa fé que vamos nos achar no direito de fazer o mesmo com a fé alheia.

O que o mundo espera de nós é que sejamos coerente com aquilo que Jesus nos legou. “Nisso conhecerão que sois meus discípulos”, afirmou, “se vos amardes uns aos outros.”

Somente um choque de amor poderá evitar um choque de civilizações.[5]

Enquanto muitos cristãos preferem manter distância do mundo islâmico, temendo por sua vida, ou por puro preconceito, um número crescente de muçulmanos tem se convertido a Cristo através de sonhos. De acordo com Karel Sanders, missionário cristão na África do Sul, 42% dos recém convertidos entre africanos muçulmanos vieram a Cristo através de sonhos e visões. O fenômeno também tem ocorrido entre outras comunidades muçulmanas, como os Tausugs nas Filipinas, onde muitos fiéis relataram ter visto Jesus em seus sonhos após o Ramadã (mês em que os muçulmanos praticam um ritual de jejum). Há relatos no Iraque, na Turquia, no Turcomenistão e Quirguistão.

O mesmo Jesus que apareceu a Saulo de Tarso no caminho de Damasco, segue se manifestando pelo mundo afora, sem respeitar nossas convenções e conveniências.

Talvez isso seja um recado claro à igreja, de que o mundo islâmico tem grande importância para Cristo. Mas para apresentar-lhes o evangelho, temos antes que aprender a amá-los, compreender suas tradições, despojando-nos de nossos preconceitos e receios.



[1] http://www.ebc.com.br/observatorio-sirio-dos-direitos-humanos
[2] A palavra Alá está na origem de algumas palavras do português  como "oxalá" (w[a] shā-llāh, "queira Deus"), "olá", "olé" (w[a]-llāh, "por Deus") e "hala" (yā-llāh, "oh, Deus").
[3] Alcorão: 5:75
[4] Confira no site: http://www.ibeipr.com.br/perguntas_ver.php?id_pergunta=22
[5] Choque de civilizações é uma teoria proposta pelo cientista político Samuel P. Huntington segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos serão a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria

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OBS: Texto extraído do blog do autor em http://www.hermesfernandes.com/2015/08/cristianismo-x-islamismo-o-inevitavel.html

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