sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A entrada triunfal e o modelo do governante humilde



Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: "Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo encontrarão uma jumenta amarrada, com um jumentinho ao lado. Desamarrem-nos e tragam-nos para mim. Se alguém lhes perguntar algo, digam-lhe que o Senhor precisa deles e logo os enviará de volta". Isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta: "Digam à cidade de Sião: ‘Eis que o seu rei vem a você, humilde e montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta’". Os discípulos foram e fizeram o que Jesus tinha ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou. Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: "Hosana ao Filho de Davi! " "Bendito é o que vem em nome do Senhor! " "Hosana nas alturas!" Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou agitada e perguntava: "Quem é este?" A multidão respondia: "Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia". (Mateus 21:1-11; NVI - destaquei) 

Na última semana que antecede o Domingo de Páscoa, os cristãos tradicionalmente celebram o chamado "Domingo de Ramos", comemoração que relembra a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém descrita pelos evangelhos. Trata-se de um episódio que, nos sinóticos, é seguido pela purificação do Templo judaico, quando o Mestre havia expulsado de lá os cambistas e vendedores de animais.

Entretanto, umas das cenas que mais caracteriza esse momento bíblico refere-se ao fato de ter Jesus montado num humilde jumentinho que, no relato de Mateus acima citado, seria então um animal bem novo necessitando até da companhia da mãe para ser periodicamente amamentado. E, como bem podemos observar pela leitura do texto, Jesus realmente planejou tudo aquilo consciente da passagem profética do livro de Zacarias.

Ora, antes mesmo daquela época, já era costume que um rei fosse honrado cavalgando um animal. Assim havia feito Davi na coroação de Salomão quando fez o herdeiro do trono entrar em Jerusalém montado na sua mula (conf. 1Rs 1:33-44). Por sua vez, o estender dos mantos pelo caminho do messias também guardava um significado semelhante como ocorreu na unção de Jeú como novo monarca de Israel (2Rs 9:13). Aliás, até na nossa história, encontramos as idealizações do Grito da Independência e da Proclamação da República com os seus principais personagens, D. Pedro I e Marechal Deodoro, em cima de um cavalo, a exemplo dos célebres quadros de Pedro Américo e Henrique Bernardelli, respectivamente.

Mas afinal de contas, por que teria Jesus se inspirado na leitura de Zacarias 9:9 ao invés de se apresentar de maneira que sugerisse um porte rígido e marcial, talvez sobre um daqueles imponentes cavalos árabes? Bem, se formos ao texto do profeta, acredito que encontraremos lá algo que nos leve à resposta desejada:

Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém! Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e os arcos de batalha serão quebrados. Ele proclamará paz às nações e dominará de um mar a outro, e do Eufrates até aos confins da terra. (Zacarias 9:9-10 - o destaque é meu)

Acredito, meus amigos, que a reivindicação messiânica exposta no episódio da Entrada Triunfal teve por objetivo promover uma inversão de valores. Antes de subir de Jericó para Jerusalém, a mãe de Tiago e João havia formulado um pedido bem "nepótico" a Jesus, querendo que seus dois filhos ocupassem as posições de maior destaque em seu futuro reino, assentando-se um à direita e o outro à esquerda. Mas a este respeito o Mestre muito bem respondeu quando os demais discípulos se indignaram contra a pretensão dos dois apóstolos:

Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos". (Mateus 20:25-28) 

O ministério de nosso senhor certamente teve um propósito diferente dos demais governantes e líderes revoltosos de seu tempo. Jesus veio com uma nova proposta que chamava de "Reino de Deus" onde os valores divergem da relação dominadora entre o monarca e seus súditos. Caberia ao rei e a seus ministros servirem ao povo buscando satisfazer às necessidades da população. E ainda que os presentes no episódio em comento não devessem ter tal concepção (suponho que muitos ali preferissem um messias montado num cavalão poderoso usado pelos soldados), será que aquele ato profético não teria deixado as pessoas com uma pulga atrás da orelha?

Hoje em dia, 125 aós após a Proclamação da República, muitos políticos brasileiros quando se candidatam nas eleições dizem que querem servir ao povo. Só que, na verdade, tudo não passa de mera demagogia pois o que temos visto por aí são prefeitos, governadores e parlamentares sendo muito bem servidos e ainda roubando o dinheiro público. Parece que o absolutismo monárquico ainda se encontra bem entranhado na maneira de pensar da sociedade brasileira não passando os discursos nos palanques de uma falsa humildade.

O fato é que só conseguiremos seguir os grandiosos passos do Mestre através de atitudes coerentes. Quer venhamos a exercer uma liderança política ou religiosa, precisamos cultivar um permanente hábito de doação em nossas vidas como fez Jesus ao se entregar "em resgate por muitos". Pois só assim estaremos revolucionando essa triste realidade de submissão e de exploração que acompanha a humanidade há milênios.

Um ótimo final de semana a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao afresco Entrada triunfal em Jerusalém, 1320, pintado por Pietro Lorenzetti (c. 1285 — 1348), o qual se encontra na Basílica de São Francisco, Assis, Itália, conforme extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Domingo_de_Ramos#/media/File:Assisi-frescoes-entry-into-jerusalem-pietro_lorenzetti.jpg

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