domingo, 26 de julho de 2015

Reflexões sobre o episódio do jovem rico





"Certo homem de posição perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus. Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe. Replicou ele: Tudo isso tenho observado desde a minha juventude. Ouvindo-o Jesus, disse-lhe: Uma coisa ainda e falta: vende tudo o que tensdá aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem segue-me. Mas, ouvindo ele estas palavras, ficou muito triste, porque era riquíssimo. E Jesus, vendo-o assim triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. E os que ouviram disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? Mas ele respondeu: Os impossíveis dos homens são possíveis para Deus. E disse Pedro: Eis que nós deixamos nossa casa e te seguimos. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos digo queninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muita vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna." (Evangelho de Lucas, capítulo 18, versículos 18 a 30; versão e tradução ARA, sendo meus os destaques em negrito)

Como podemos verificar estudando os evangelhos da Bíblia, Jesus pregou repetidas vezes sobre o perigo das riquezas. Trata-se de algo que, hoje em dia, anda bem esquecido pelos cristãos brasileiros. Principalmente pelos que superestimam gozar uma vida próspera na Terra.


Possuir e administrar bens, por si só, nunca foi pecado nas Escrituras Sagradas, mas o apego ao dinheiro e o seu uso indevido são coisas manifestamente reprováveis. Assim, no episódio acima do homem rico descrito em Lucas, que é narrado também nos outros dois evangelhos sinóticos (Mc 10:17-31; Mt 19:16-30), encontramos mais um forte exemplo do ensino do grande Mestre. Algo que guarda uma forte relação com a passagem anterior quando o Senhor teria enfatizado sobre a necessidade de alguém receber o Reino de Deus como uma criança de colo (Lc 18:17).


Inicialmente, o que mais chama a minha atenção seria a pergunta do homem feita a Jesus que, no 1º Evangelho, nos é apresentado  como sendo um "jovem". Suas palavras parecem expressar uma preocupação voltada para o seu bem-estar pessoal após o túmulo. Ele já possuía uma confortável posição na Terra e pretendia conseguir algo a mais no futuro: a vida eterna. Trata-se da lógica egoísta de adquirir tudo para si, mas sem nada compartilhar com o próximo.



Contudo, ricos e pobres um dia passarão pela morte e, quando este fato acontece, todos perdemos os bens amealhados. O homem humilde deixa somente lembranças por algumas décadas, ou séculos, enquanto a partida do endinheirado origina uma guerra entre os seus herdeiros. Só que, daqui para lá, não há como carregar absolutamente nada de modo que os antigos faraós egípcios certamente cometeram tremendos enganos ao entulharem de coisas as suas pirâmides por esperarem fazer uso de tais objetos na outra vida.

A resposta de Jesus ao jovem rico é então acompanhada de mais uma pergunta. Por que ele seria considerado "bom"? Ou seja, para o Mestre nenhum homem deveria ser digno de receber esse adjetivo. Bom só existe um que é Deus, o único Ser Perfeito. Logo, seria um erro qualquer um de nós se considerar bom a ponto de achar que pode merecer algo do nosso Criador.

Dando continuidade, nosso Senhor citou a guarda dos principais preceitos da lei divina que todo judeu com mais de 12/13 anos de idade já conhecia ou, do contrário, não seria um bar mitzvah ("filho do mandamento"). Assim, o homem replica estar observando tudo aquilo desde a sua juventude. Pelo menos, na superfície da letra, ele estava seguindo aquelas principais normas do Monte Sinai (Ex 20:12-16), as quais Jesus citou.

Ocorre que servir a Deus não pode se resumir a uma mera observância de preceitos bíblicos. Nem mesmo da própria caridade! É preciso vivenciar a instrução divina e a colocar em prática dentro do nosso contexto de vida, conforme o desígnio do Altíssimo. O Mestre propõe então ao homem quatro ações no versículo 22 que destaquei em negrito: vender tudo e distribuir aos pobres, depois vir e segui-lo.

Curioso é que Jesus lhe pede para desfazer-se de tudo e não de uma parte. À primeira vista, isto parece ser uma loucura, ainda mais para quem nunca deve ter colocado as mãos num martelo ou numa enxada para trabalhar. Como sobreviver depois de dar tudo aos pobres se ele nem devia ter formação para serviços braçais? Como conseguir passar as suas noites acompanhando pelos povoados e cidades de Israel um pregador que nem tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9:58)?

No dia em que eu estava a rascunhar o original deste texto no meu caderno de anotações (não costumo postar diretamente no computador), veio-me a ideia sobre o desemprego que uma decisão radical daquele jovem rico poderia causar, isto é, caso ele resolvesse vender todos os seus negócios seguindo literalmente as recomendações do Senhor. Sendo a economia da época essencialmente rural, suponho que ele fosse dono de terras e aí pergunto quantas famílias não deveriam depender das suas fazendas trabalhando no plantio, na colheita, no armazenamento dos grãos, no pastoreio do gado e na comercialização dos produtos? Um outro que adquirisse suas glebas não poderia ser um padrão pior que roubasse as horas suadas de labor dos empregados, mentisse, matasse, cometesse assédio sexual contra as suas servas e desonrasse os empregados mais idosos? E no que mudaria o sistema exploratório o fato de alguém desfazer-se dos bens e consumi-los aliviando a fome de alguns pobres por algum tempo mas sem conseguir acabar com a causa da miséria?

Levando em conta esses questionamentos consideráveis, chego à conclusão de que o ensino de Jesus neste episódio seria mais de base principiológica. Vender tudo não pode significar a aniquilação de uma empresa! A ideia do Evangelho em sua essência seria adotarmos uma outra lógica na administração dos nossos recursos. O centro de tudo deve ser a promoção do bem do nosso irmão e não visarmos apenas o nosso interesse particular. Deste modo, se queremos entender o texto, precisamos ir além da literalidade. Senão vejamos o significado que pode haver em cada um dos quatro verbos mencionados na perícope citada:

- Vender: Jesus estava propondo ao homem que se desapegasse de tudo o quanto possuía. Este seria o primeiro passo na sua conversão. O coração dele deixaria de estar nas riquezas para focar nas coisas do Reino de Deus. Sem tal mudança interior, nada se realizaria. Ele continuaria sendo um rico religioso, mas infrutífero.

Distribuir os bens: Uma vez desapegado intimamente das riquezas, ele passaria a doar o que tinha para o benefício dos pobres. Precisaria procurar pessoas que necessitassem de ajuda e/ou pedir a terceiros para lhe ajudarem nessa tarefa. E, como a sua fortuna era muita, como nos diz  verso 23, talvez seria preciso um tempo enorme para conseguir doar tudo. Na atualidade, se um bilionário resolvesse fazer algo semelhante, o seu dinheiro até se multiplicaria enquanto estivesse dividindo-o e as suas necessidades materiais nem deixariam de ser satisfeitas. Lembremos do milagre da multiplicação dos pães!

Vir: Após aprender a compartilhar e a ser útil a todos (lógico que o seu dinheiro não precisava acabar), o homem estaria pronto para caminhar em direção ao discipulado. Só com a experimentação prática da repartição é que ele poderia compreender não só com a mente, mas com a alma, os profundos ensinamentos de Jesus. Do contrário, a escola do Mestre seria incapaz de lhe acrescentar qualquer coisa. Estaria  perdendo o seu tempo.

Seguir a Jesus: Finalmente, vivendo já o discipulado, ele conseguiria ser um agente da revolução do Reino de Deus. Se as ideias do Mestre propunham uma inversão de valores, como poderia um rico apegado aos seus bens seguir verdadeiramente um líder que pretendesse retirar o que a classe dominante tinha para repartir entre os pobres? Você conseguiria imaginar um burguês do século XIX financiando Karl Marx na Europa daquele tempo? No entanto, se o patrão passa a ser como um proletário e muda os objetivos de seu negócio, a empresa que ele tem vira uma estratégica fonte de recursos para custear as ações da caridade e de conscientização do grupo revolucionário.

Considerem que, após a repartição dos seus bens, o homem rico poderia encontrar "um tesouro nos céus", algo que obteria estando ainda vivo na Terra. Jesus não diz que a vida eterna esteja somente no além-túmulo, mas deve ser experimentada aqui pela descoberta da nossa razão existencial. Vale ressaltar que o homem não é um ser separado de toda a sua espécie e nem do Universo. Além disso, a vida, por ser um partilhar do nosso Criador, deve ser entendida como a manifestação de um Todo por mais que vejamos a nós mesmos como consciências individuais.

Sobre o sentimento de tristeza do homem rico, vejo-o com naturalidade porque se tratava de uma pessoa ainda apegada aos seus bens naquele momento, estando dividido. Não acho que ele teria se importado com o bem estar dos seus empregados como eu argumentaria com Jesus se estivesse no lugar dele. A preocupação principal do cara ainda era consigo mesmo. Tratava-se do horror de perder o seu status, o conforto e a sua estima na sociedade por mais que recebesse bajulações falsas dos que o procuravam por interesse. Com isso, todas essas preocupações podem tê-lo abrasado como as chamas infernais de uma fornalha, gerando aquela angustiosa sensação quando somos chamados para decidir algo tendo que abrir mão de qualquer coisa importante.

Muito difícil um rico dar o seu passo em direção ao Reino. Aderir a uma religião, virar católico/evangélico/espírita, ou ainda se filiar à ADHONP (Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno) seria moleza porque não exige grande esforço nas aparências externas. Mas como aderir a algo que vai contra o interesse das riquezas que possuímos? É preciso muita fé! Só assim é que o homem consegue vencer a falsa sensação de segurança proporcionada pelos bens materiais.

Jesus prossegue fazendo daquela situação uma oportunidade para ensinar os seus ouvintes sobre o grande perigo das riquezas (até a gestão dos negócios pode virar um risco para espiritualidade). Mais fácil é um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar na dimensão do Reino! Aí eu diria que o dinheiro pode acabar virando um ídolo em que, diante de determinados casos, só superamos a avareza desfazendo mesmo de tudo e colocando o dinheiro nas mãos dos outros.

Lendo o que Jesus teria dito, fico a indagar se seria difícil ou impossível um rico ser salvo? Porém, é certo que a menção do camelo seria metafórica, pouco importando se o Senhor estaria se referindo ao animal ou a umas cordas bem grossas uadas para amarrar os navios naquele tempo, as quais recebiam o mesmo nome do mencionado quadrúpede. A meu sentir, o Mestre foi propositalmente hiperbólico para enfatizar a necessidade de desapego que, no caso das pessoas ricas, exigiria um esforço ainda maior da parte delas tendo em vista a distância abismal que as separa dos pobres, aos quais pertenceria o Reino (Lc 6:20). Seria como na parábola do rico e do Lázaro em que as desigualdades sócio-econômicas formam um verdadeiro fosso entre um lado e o outro (Lc 16:26).

A pergunta dos ouvintes vai nos conduzir a um questionamento bem interessante. Pois, se Jesus havia dito ao homem rico que vendesse tudo, como as demais pessoas poderiam ser salvas se elas ainda deveriam possuir algum bem material mesmo não sendo de alta posição na sociedade? O que poderiam fazer?!

Verdade é que não podemos fazer absolutamente nada neste sentido. A salvação é um dom gratuito do Criador assim como a nossa vida. Parece até contraditório, mas não é. O homem pode dispor de tudo o que possui e guardar o Dez Mandamentos, mas não conseguirá jamais comprar a salvação porque esta não se vende. Ela é dada a todos generosamente e será sempre impossível alcançá-la por meio dos méritos pessoais.

Ora, mas o que é impossível para os homens é possível  para Deus! Os discípulos que, semelhantemente a Pedro, tinham deixado tudo para seguirem a Jesus, não precisavam alimentar nas suas mentes vãs preocupações sobre como seria o futuro deles por toda a eternidade. Se abrissem os olhos, veriam que já estavam recebendo o Reino de Deus no presente, tesouro este que é eterno e se encontra dentro da gente. Aliás, esta é uma dádiva liberada a todos os homens indistintamente, mas que nem todos aqui conseguem descobri-la porque se alienam. Sobretudo quando se envolvem com as riquezas.

A doação das riquezas nunca será ato de barganha para o homem adquirir a vida eterna. Porém, as atitudes que tomamos são indissociáveis em relação à fé e ao nosso estado existencial. Logo, devemos aprender a viver para o Reino no partilhar de Deus! Esta é a proposta do texto bíblico comentado em sua essência. Colocando tal objetivo em primeiro plano, todas as outras decisões precisarão ser tomadas em conformidade com a vontade divina na administração dos recursos por nós. Inclusive quanto aos bens das igrejas que, na grande maioria dos casos, constituem patrimônios de excessivo valor pecuniário, capazes de sugar a nossa atenção para geri-los.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Cristo e o jovem rico do pintor alemão Johann Michael Ferdinand Heirich Hofmann (1824-1911). Foi pintado em junho de 1889 e se encontra atualmente na Riverside Church, em Nova York. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Hoffman-ChristAndTheRichYoungRuler.jpg

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