sábado, 4 de julho de 2015

A justiça e a assistência feitas no anonimato



"Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto ao vosso Pai Celeste. Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará." (Evangelho de Mateus 6:1-4; ARA)

Refletindo sobre este conhecido ensino de Jesus, tenho percebido que o seu alcance vai muito mais além da recomendação para não buscarmos uma glória pessoal humana. O Mestre veio mostrar à humanidade que o verdadeiro sentido da vida está na prática desinteressada do amor. O ser que alcança um certo nível de consciência e de compreensão existencial já não anseia mais por viver só para si. O egoísmo não o domina mais e ele pratica voluntariamente a assistência sem nenhuma necessidade de reconhecimento.

O desejo por ser reconhecido é algo comum entre as pessoas e eu diria que se trate até de um sentimento natural e bem espontâneo. Como partes integrantes de uma sociedade, aguardamos que os nossos pares nos tratem com a devida estima e dignidade, correspondendo à dedicação e ao afeto que temos para com o grupo.

Em ambientes formais, o reconhecimento ocorre como uma bajulação interesseira, o que é muito comum, por exemplo, num clube ou na política, quando alguns cidadãos são honrados publicamente na entrega de medalhas. E, diga-se de passagem, nem sempre a pessoa homenageada prestou bons serviços à coletividade como parece sendo que o ser nome pode ser escolhido por mera conveniência oportunística... 

Independentemente disso, a necessidade de reconhecimento persiste nas emoções de cada um e precisamos aprender a lidar com ela porque seria uma carência inata a todos. É nessas horas que travamos grandes batalhas com o ego. Praticar a justiça no anonimato implica em nos identificarem até como seres injustos pelo simples fato da coletividade desconhecer a nossa conduta e ainda fazer um mal juízo habitual. Quem não manda "tocar trombeta" por ter cumprido com o dever, ou praticado uma boa ação, algumas pessoas ficam achando que não foi feito nada e uns fazem acusações injustamente.

Como é difícil entendermos que não é preciso "provar nada pra ninguém", como diz a letra da música Quase sem querer do Legião Urbana. Pois penso que o maior desafio do anonimato esteja justamente aí. Você já venceu o sentimento de auto-glorificação e nem está buscando uma auto-promoção social, mas não se conforma em ser tratado como um zero à esquerda. Então, quanto mais faz pelas pessoas, mais aumenta a frustração e a reatividade a ponto do que parecia ser amor evidenciar-se como ódio.

Não é nada fácil seguir os passos de Jesus! O bendito Mestre nos mostrou um comportamento elevadíssimo no Sermão da Montanha que não pode ser facilmente alcançado. Pois se trata de um nível de maturidade ao qual talvez chegaremos quando subirmos mais na escala de crescimento espiritual. Para o momento, porém, já considero satisfatório que a trombeta seja tocada num tom mais baixo.


OBS: A ilustração acima refere-se ao célebre quadro O Sermão da Montanha (1890), pintura do artista dinamarquês Carl Heinrich Bloch (1834 - 1890).

2 comentários:

  1. Inacreditável,como vc. foi feliz no texto,valeu pura realidade.

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    1. Boa noite, Vera Lúcia.

      Obrigado por sua leitura e comentários.

      Vi há pouco no comecinho do Fantástico a interessante reportagem sobre um grande homem, falecido dia 01º deste mês, aos 106 anos, que saltou 669 crianças judias na época da 2ª Guerra, tendo se mantido por uns 50 anos no anonimato. Trata-se do britânico Nicholas George Winton. Ele organizou o resgate dos menores na antiga Checoslováquia, antes das suas deportações campos de concentração nazistas, salvando-as da morte certa em 1939.

      Durante mais de cinco décadas Nicholas não revelou esse trabalho humanitário para ninguém! Sua história só foi a público quando a esposa, Greta, descobriu no sótão de sua casa uma pasta que continha a lista das crianças salvas e cartas para os pais delas.

      Interessante, não?

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