quarta-feira, 18 de março de 2015

Deus em Jesus e em nós...



"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como a do unigênito do Pai." (Evangelho de João 1:14; ARA)

Para a grande maioria dos cristãos seguidores da ortodoxia religiosa (católicos e protestantes) Jesus é visto historicamente como Deus: a segunda pessoa da Santíssima Trindade e/ou o Verbo divino encarnado. Já para outros grupos minoritários do próprio cristianismo (gnósticos e espíritas) ou de religiões diversas, a exemplo de uma parte dos judeus e dos muçulmanos, o Mestre é considerado alguém igual a todos os demais da nossa espécie. Em outras palavras, ele seria um espírito evoluído que veio à Terra, um profeta ou um grande pensador da humanidade.

Não vou me meter nessa antiga e interminável controvérsia sobre a natureza de Cristo, a qual já foi motivo de inúmeros conflitos sangrentos no decorrer da história eclesiástica. As doutrinas dos variados grupos religiosos e as crenças individuais das pessoas tornam-se de pouca relevância para quem almeja desenvolver uma fé madura colocando-se na condição de eterno aprendiz ao invés de se arrogar dono da verdade. Aliás, na própria Bíblia encontramos uma pluralidade de concepções teológicas entre seus muitos personagens os quais tornaram-se homens de elevada estima pelas atitudes de fé desempenhadas diante das circunstâncias que enfrentaram. E todos eles certamente têm algo de útil a nos ensinar ainda que seja com os erros cometidos.

Pode-se dizer que a palavra cristo (gr. khristós) seria uma tradução grega para messias (hebr. mashíach), a qual quer dizer "ungido". Assim, na história de Israel, houve muitos homens que foram ungidos a exemplos dos reis e dos sacerdotes. E, na época do exílio babilônico (século VI a.C.), o capítulo 45 do livro de Isaías menciona o monarca Ciro da Pérsia como sendo um ungido do Senhor. Ou seja, um governante estrangeiro e de outra religião foi significado como uma espécie de "messias" para os judeus daquele tempo já que ele libertou a Israel autorizando o retorno do povo para a Terra Santa bem como permitiu a reconstrução do Templo de Jerusalém que fora destruído décadas antes por Nabucodonosor.

Contudo, para nós cristãos, Jesus da Galileia é compreendido como o nosso modelo de vida e o melhor revelador do caráter divino. Nele, a plenitude de Deus se fez acessivelmente manifesta por meio de seus atos amorosos para com o próximo. Pois, mesmo com suas condicionantes humanas, o Mestre buscou esforçadamente transcender as muitas limitações dos planos físico e cultural, não se negando a aliviar o sofrimento das pessoas, curando a filha de uma mulher estrangeira (mesmo entendendo inicialmente que seu ministério restringia-se às ovelhas perdidas de Israel), perdoando seus malfeitores na cruz, ensinando os discípulos a se preocuparem com as necessidades do próximo no caso da multiplicação dos pães, etc.

Em Jesus a mensagem divina para a humanidade se tornou concreta e palpável, tendo sido nosso Mestre o Cristo para a sua geração e para todas as outras posteriores. Nunca ninguém amou como ele! Porém, ainda que tendo um exemplo tão motivador, Deus quer contar hoje com pessoas igualmente dispostas a seguir as pegadas do Homem de Nazaré. Pois ainda que estejamos bem distantes da elevada estatura ética de Jesus, podemos e devemos desenvolver o nosso caráter afim de que nos tornemos seres humanos melhores capazes de inspirar a muitos de nossos irmãos como bem escreveu o apóstolo Paulo à Igreja:

"Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo" (1ª Epístola aos Coríntios 11:1)

Amados, creio que, se pudermos ter um pouquinho de Deus nas nossas vidas, não somente estaremos edificando a nós mesmos como também o ambiente social onde vivemos. Deixando de lado o livre curso dos nossos sentidos (egoísmo, iras, ganância, embriaguez, paixão lasciva, etc), podemos nos direcionar para condutas que são verdadeiramente amorosas e nos esforçarmos a cada dia afim de que uma boa ação se realize. Mesmo falhando ou tropeçando, precisamos seguir em frente com motivação no Evangelho do Reino do Senhor. E creio que nos comportando assim o mundo um dia conseguirá ver a Luz Divina brilhando nos rostos dos justos como bem ensinam as Sagradas Escrituras:

"Mas a vereda dos juros é como a luz da aurora,
que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito."
(Provérbios 4:18)

Uma ótima quarta-feira a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se a uma obra do artista Paul Gustave Doré (1832 - 1883), a qual foi extraída do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em https://pt.wikipedia.org/wiki/Fiat_Lux#mediaviewer/File:Creation_of_Light.png

Um comentário:

  1. Caros leitores,

    Trouxe mais um texto de meu blogue ara cá e penso que possamos discutir as ideias bíblicas e doutrinárias sobre a natureza divina de Cristo tornando a concepção mais universal e acessível.

    De que maneira um judeu de mente aberta poderia apreciar a ideia de um messias divino sem se sentir contrariado quanto à confissão monoteísta de Deuteronômio (de que o Eterno é Um)?

    Dá para lermos o Evangelho de João de um ponto de vista mais amplo do que os das doutrinas católica e protestante?

    A divindade de Cristo não poderia ser concebida como o aspecto divino que há em cada um de nós, residindo nas consciências das pessoas? E, neste sentido, o Cristo não estaria oculto em cada ser humano?

    Ficam aí questões para um debate teológico sendo que sou um defensor da sempre atualização das mensagens bíblicas conforme a linguagem e a cosmovisão de hoje para que a Igreja não se torne mera repetidora de conceitos prontos.

    Em minha página, não cheguei a receber nenhum comentário até o momento sobre o tema, mas espero que aqui possamos trocar algumas ideias.

    Um abraço.

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