quinta-feira, 24 de julho de 2014

"Pai, por que me desamparaste?"





Os 4 evangelhos relatam cenários diferentes da crucificação. Nos evangelhos de Marcos e Mateus, as últimas palavras de Jesus foram: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste"? Em Lucas e João o cenário é diferente. Em Lucas Jesus pede ao Pai perdão por aqueles que o crucificam, promete o paraíso ao ladrão arrependido e termina dizendo "Em tuas mãos entrego o meu espírito" - morre quase serenamente, sem crise. Em João, o cenário é ainda mais diferente. Jesus diz à sua mãe e ao discípulo, que eles são filho e mãe, e diz: "Tenho sede" e morre dizendo "Tudo está realizado!". Aqui também não há palavra de revolta, abandono ou desespero!

Por que Marcos e Mateus são tão diferentes em seus relatos?

Uma interpretação antiga sugeria que Jesus teria dito "Meu Deus, meu Deus..." por que estava sofrendo as dores dos pecados de toda humanidade. Mas o que nos solta aos olhos, é que os escritores de Marcos e Mateus construíram suas narrativas baseadas no tema do Antigo Testamento do "Servo Sofredor", ou do justo que sofre. O livro de Jó é um exemplo que explora esse tema do justo que sofre injustamente. Mas as passagens mais significativas são os poemas do livro de Isaías 42, 49, 50 e 52-53.

Esses poemas falam de alguém cuja missão é sofrer injustamente, ser perseguido por ser justo, sofrer violência por não praticar violência, mas que resiste firme até implantar o direito  no país se tornando exemplo para o mundo todo. Foram esses poemas de Isaías que serviram de base para Marcos e depois Mateus escreverem seus cenários da paixão de Jesus. 

As palavras ditas por Jesus em Marcos e Mateus não são exatamente de Isaías, e sim, são o primeiro verso da oração de um pobre, inocente, perseguido e que e viu a morte de perto do salmo 22. O salmo tem duas partes: A primeira é a oração do pobre, justo e inocente ameaçado de morte. A segunda é de agradecimento a Deus porque "não desprezou nem desdenhou a desgraça do pobre" (v. 25)

Todos os detalhes da primeira parte do salmo 22 estão em Marcos e Mateus como antecedentes da crucificação. Os versículos 8 e 9 do salmo dizem: "Todos os que me veem zombam de mim, abrem a boca e maneiam a cabeça: Ele recorreu a Javé...pois que o salve! Que o liberte, se é que o ama de fato!" Também no verso 17, 18 e 19: "Um bando de malfeitores me envolve furando minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos. As pessoas me observam e me encaram, entre si repartem minhas vestes e sorteiam minha túnica".

Até o verso 22 o salmo reproduz a oração do pobre, do justo, do sofredor, e a partir do 23 segue-se a celebração de ação de graças que incluía um "sacrifício de comunhão", que era uma espécie de churrasco popular, para o qual eram convidados os pobres que viviam em torno do templo (v 27). O salmo lembra a súplica feita no momento de dor, mas no todo é a oração de ação de graças "porque Deus não desprezou nem desdenhou a oração de um pobre". Marcos e Mateus não poderiam ter escolhido melhor base para construir suas narrativas da crucificação. A mensagem estava dada.


9 comentários:

  1. Eles não são diferentes, eles se completam. Cada um fala do que mais tocou seu coração.

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    1. Bom dia, amiga!

      Eu entendo que é justamente essa diferença que os completa, Gui. E para mim não causa nenhum conflito já que os evangelhos foram obras não com finalidade histórica, mas de transmitir uma mensagem de salvação aos leitores e ouvintes. Daí a liberdade dos autores bíblicos nas suas abordagens sobre as narrativas e ensinos de Jesus.

      Um abraço.

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  2. Olá, Eduardo.

    A pergunta em destaque a ser feita seria por que Lucas é tao diferente em seu relato? Isto porque Marcos seria a fonte original dos sinóticos sobre a qual foram feitas duas versões paralelas: Mateus e Lucas.

    Em Lucas, o autor sagrado parece ter optado por não acentuar o quão terrível foi a morte de Jesus, mas deixou registrada o que pode ter sido a última oração do Mestre, dando a entender o reconhecimento por ele de que a sua morte estava de acordo com a vontade do Pai. Temos aí a citação re-significada de um trecho do Salmo 31 onde Davi exprimiu a sua fé em Deus mesmo diante das adversidades e da angústia.

    O fato de Jesus ter recitado este poema bíblico, chamando Deus de "Pai" quando estava morrendo, sugere-nos um ensinamento que deve ser conservado no coração do crente nas vezes em que nos encontramos gravemente doentes ou sofrendo perseguições. Consideremos, pois, os sábios comentários do teólogo namibiano Paul John Isaak da Igreja Evangélica Luterana:

    "As palavras finais de Jesus morrendo sobre a cruz Pai nas tuas mãos entrego o meu espírito! também refletem sua fidelidade. Imediatamente após pronunciar essas palavras ele expirou (23:46). Jesus encerrou seu ministério terreno com uma oração tranquila, extraída de Salmos 31:5: "Nas tuas mãos, entrego meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade". Nesta oração, o crente declara sua absoluta confiança de que Deus o remirá. A versão de Lucas sobre a crucificação insiste em que Jesus confiou e teve fé em Deus até o fim. Após orar essas palavras, ele morreu. Deus nunca o perdeu de vista." (Comentário bíblico africano. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, pág. 1279)

    Sem dúvida essa é a preparação que necessitamos ter para enfrentarmos corajosamente a nossa passagem e também para fortalecermos os que estão prestes a partir por causa de alguma enfermidade ou acidente. Trata-se de uma situação com a qual muitos ainda não sabem lidar, quer sejam os próprios pacientes de um hospital ou os familiares do doente. Podemos e devemos orar pelo restabelecimento da saúde da pessoa, mas nunca nos esquecendo de que a morte física é um destino natural de todos. Um momento que precisamos encarar com fé e com esperança, colocando nas mãos de Deus tanto o corpo quanto a alma. O Eterno é fiel para nos salvar e não nos deixar perecer no mundo da inexistência.

    Curioso é que, no Salmo, o escritor bíblico anteviu o livramento divino em seu favor não permitindo que ele fosse entregue aos seus inimigos (Sl 31:8). No Calvário, porém, o Mestre estava aparentemente nas mãos dos soldados romanos e dos seus opositores que dele zombavam (Lc 23:35-36). Se Deus protegeu Davi de Golias, dos exércitos dos filisteus, da cólera de Saul, da revolta de Absalão e das espadas de tantos outros adversários, eis que, desta vez, permitiu que Jesus viesse a ser morto pelos seus perseguidores. E penso que um bom aprendizado pode ser encontrado quando voltamos ao capítulo 12:

    "Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer (...) Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais." (Lc 12:4,6-7)

    Assim, podemos entender que, no Calvário, o Senhor nos ensinou sobre a vitória que seu discípulo tem sobre a morte. Pois, compreendendo a realidade dessa maneira multidimensional, tornamo-nos capacitados para encarar os mais diversos desafios que se apresentam, inclusive as ameaças e tribulações por causa do Evangelho. Nada poderá nos fazer o homem!

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  3. Até então, a situação aparente de abandono havia motivado a zombaria das autoridades e dos soldados em relação a Jesus. Entretanto, assim que o Mestre expirou, o centurião ali presente soube reconhecer a integridade do nosso Senhor. Aquele oficial romano, provavelmente o responsável pelo destacamento encarregado de executar a sentença injusta de Pilatos, foi capaz de confessar algo que, dificilmente, alguém diria acerca de um condenado conforme os valores daquela época. Isto porque, no entendimento comum das pessoas, um homem justo jamais poderia morrer daquela maneira porque a Divindade não permitiria. Logo, a cruz de Cristo veio inaugurar uma nova maneira de pensar e o primeiro a crer nesta mensagem desafiadora foi exatamente um estrangeiro. Alguém que podemos reputar por ignorante em relação às Escrituras Sagradas mas que agiu com sabedoria superior a muitos sacerdotes e escribas, os quais seriam os teólogos da época.

    Quanto às multidões ali reunidas, a morte de Jesus provocou uma angustiosa perturbação a ponto das pessoas se auto-flagelarem batendo no peito. Tratava-se, assim, de um sinal de profundo lamento que parece ter tomado conta de todos. Porém, a narrativa nada diz acerca da reação tida pelos discípulos. Estes testemunharam "de longe" os acontecimentos juntamente com as mulheres que acompanharam o grupo desde a Galileia (v. 49).

    Certamente que a morte de Jesus nos leva a refletir sobre o porquê da peregrinação que fazemos aqui nesta Terra. O Mestre não caminhou da Galileia para Jerusalém afim de cumprir com mais uma romaria religiosa. Ele veio entregar a sua vida numa cruz! Ali, como seus seguidores ainda distantes dessa compreensão, muitas das vezes contemplamos os fatos procurando entender qual o sentido dessa nossa missão. Aonde Deus pretende nos levar quando estivermos prontos?!

    Muito aprendemos com as experiências daqueles primeiros discípulos que testemunharam o sacrifício de Jesus. Mas é certo que tudo o que hoje sabemos ainda deveria estar encoberto para eles de modo que, desde a prisão do Senhor, todos estariam profundamente abalados e precisavam se manter distantes talvez por motivo de proteção. Mas o dia ainda chegaria em que muitos daqueles seguidores também precisariam passar pela cruz. Deste modo, entendemos que, assim como o Salvador deu a sua vida para nos resgatar do pecado, da ignorância e da morte espiritual, também somos chamados para nos dedicarmos ao ideal amoroso de Cristo. Trata-se de cumprir aquilo que Paulo recomendou numa de suas cartas afim de que apresentemos os nossos corpos "por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus" (Rm 12:1), o que, em outros temos, significa uma inteira submissão à vontade divina participando de sua obra.

    Tendo essa visão, irmãos, não dá para permanecermos de braços cruzados enquanto tantas vidas se perdem por causa das drogas, da criminalidade, da violência, da miséria, da alienação espiritual, da falta de fé e de esperança. Precisamos sair e proclamar as boas novas do Reino de Deus, anunciando que um outro mundo é possível. Declarando o quanto é grandioso esse amor do Criador, o qual nos aceitou incondicionalmente. Graças a Jesus, podemos convocar todos os homens para que se aproximem de Deus com acessibilidade total e irrestrita, sabendo que serão acolhidos pelo Pai Eterno.

    Um ótimo descanso semanal para todos!

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  4. Em tempo!

    Estou de acordo e me parece bem plausível a explicação para o uso do Salmo 22 os textos de Mateus e de Marcos.

    O fato é que, se Marcos antecedeu Lucas, realmente deve haver um motivo para o escritor do 3º Evangelho ter propositalmente modificado a sua narrativa, sendo que foi esta a minha abordagem nos comentários feitos acima.

    Abração!

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  5. Caramba, Rodrigo, nem li ainda seus comentários e já estou com preguiça....rsss

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  6. Rodrigo,

    você se ateve a fazer um longo comentário devocional sobre o assunto, o que não era minha intenção com o texto. É claro que se pode fazer uma interpretação devocional mas minha intenção é investigar realmente tais diferenças, e o por que delas. Será que tudo se resume a um completar o outro como diz a Guiomar?

    Estou certo que não.

    Você começou fazendo uma análise histórica e teológica, no entanto, e é sobre ela que quero falar. Você respondeu à Guiomar que

    "os evangelhos foram obras não com finalidade histórica, mas de transmitir uma mensagem de salvação aos leitores e ouvintes"

    Os evangelhos não são obras com finalidades históricas - logo, não devemos lê-los como se tudo narrado fossem fatos históricos, acontecido. Eles são antes de tudo, teológicos. Ora, na verdade, nenhum dos autores evangélicos estavam lá na hora da crucificação.

    Os relatos são claramente construções teológicas. Marcos e Mateus que são evangelhos visivelmente mais judaicos, quiseram passar a figura de Jesus naquele momento fazendo uma identificação com a figura do justo que sofre do AT, daí terem usado trechos inteiros do salmo 22 e colocados na boca de Jesus.

    A intenção era passar a mensagem (como você destacou) que Jesus era um justo que estava sofrendo, a exemplo da tradição do Justo Sofredor do AT.

    Identificação.

    Por isso também não estou preocupado em simplesmente apontar as diferenças e bradar aos quatro ventos que os evangelhos são contraditórios. Na verdade eles não o são. São apenas escritos com interesses teológicos diferentes.

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  7. O não conhecimento do Jesus histórico, Eduardo é a mola propulsora da construção do DOGMA que sustenta a fé do cristão. O Jesus Histórico foi abafado pela construção mítica. Ao longo dos séculos uma imagem arquetípica de um Filho de Javé que veio restaurar um “reino” que não é desse mundo impregnou o inconsciente coletivo do mundo ocidental.

    Até o abandono do messias na cruz, é um arquétipo: significa o luto ou a morte do Pai Todo Poderoso.

    “O Filho, no final, adere a um Pai não-poderoso que, cala-se diante da maldade humana. No Filho se revela precisamente um pai esvaziado de sua potência, entregue e abandonado às conseqüências, felizes ou infelizes, da liberdade e do desejo humanos”. (Philipe Julien)

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  8. Prezado Edu,

    Já me interessei mais pelas questões sobre a historicidade de Jesus, mas cheguei à conclusão de que é o devocional que realmente interessa para a cristologia que empreendo. O filósofo Immanuel Kant tinha como foco aquilo que chamou de "fé moral", buscando elevar-se até ela, arquétipo de pureza ética. Feuerbach, ao comentar sobre suas teorizações, assim treria escrito:

    "(...) a pessoa histórica de Jesus, enquanto histórica, não contém qualquer valor em si. A história pode nos dizer dele o que quiser. Nesse sentido é interessante notar que, em Kant, jamais aparece o nome de 'Jesus', que designaria o homem histórico, mas o termo 'filho e Deus', 'protótipo' etc., para o ideal de perfeição, e 'mestre', 'homem Deus' etc., para o homem concreto. O significado de sua pessoa só poderá estar em relação com o ideal da humanidade." (Cf. F. J. Herrero, Religião e História em Kant, trad. J. A. Ceschim, São Paulo, Loyola, 1991, pp. 178-179)

    Neste sentido, sendo Cristo "o arquétipo da humanidade em sua perfeição", considero de pouca utilidade o aspecto histórico que, em Kant, poderíamos chamar de "contingente" a ser separado, passando a mergulhar consciencialmente no ensino que o autor sagrado busca nos transmitir.

    A investigação das diferenças não é descartada nos métodos de estudo que empreendo. Muito pelo contrário. Procurar entender por que o escritor de Lucas preferiu uma outra narrativa, ao invés e levar o leitor crente a conflitos de coerência bíblica, deve é levá-lo a refletir sobre uma mensagem específica do autor e que tem a ver com a nossa edificação e elevação ética. Concordo quando o irmão coloca que os relatos dos evangelhos "são claramente construções teológicas", mas vale sempre buscarmos qual o sentido de tais construções.

    Enfim, não estou a discordar de seu texto e, como havia trabalhado sobre Marcos e Mateus, achei que poderia complementar compartilhando algo sobre Lucas, acreditando que o escritor do 3º Evangelho, embora não tivesse presenciado os sofrimentos do Senhor na cruz, certamente deve ter lido Marcos.

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