sábado, 26 de janeiro de 2013

A (má) aposta de Acab





Eduardo Medeiros


Quero fazer uma reflexão sobre um evento particular que se insere dentro do movimento profético de Israel. A ideia bíblica é a de que  Deus dirige a história como um soberano absoluto. Para alcançar sucesso no seu dirigismo celestial,  Deus pode até lançar mão de estratégias refinadas de enganação que ficariam até “bem” num soberano humano mas que cria sérios problemas teológicos quando este soberano é Deus. O movimento profético em Israel com quase toda certeza, se inspira nos movimentos proféticos das religiões cananeias. Há narrativas de profecias estáticas(1) cuja fórmula muito se assemelham àquelas encontradas nos profetas bíblicos. Como exemplo, vou destacar apenas uma: “A Estela de Zakir” conforme nos informe Luís Sicre(2):


Refere-se a eventos ocorridos por volta do ano 805 aC. O rei Zakir, ameaçado por uma coalização de outros sete reis...invoca o seu deus Baal-Samaim. Por meio de videntes e adivinhos obtém um oráculo favorável”. Diz o texto: “..Baal-Samaim me ouviu. Falou-me através de videntes e adivinhos e me disse: ‘ não temas. Eu te fiz rei e estarei junto a ti para libertar-te de todos estes reis que te cercam”


Esse oráculo em muito se assemelha tanto na forma quanto ao conteúdo a oráculos registrados pelos profetas de Israel. Há no texto de Zakir a eleição (“eu te fiz rei”) e a proteção (“estarei junto a ti”); o deus Baal-Samaim fala na primeira pessoa da mesma forma que nos oráculos bíblicos como por exemplo em Isaías 41.10: “Não temas, que eu estou contigo; não te angusties, que eu sou o teu Deus”. Gustav Holscher(3) é taxativo: “Israel adotou a profecia extática dos cananeus; esta provavelmente tem sua origem na Ásia Menor”.


Mas a análise mais equilibrada a se fazer sobre o assunto é que tanto Israel recebeu influência cananeia como também apresenta certa originalidade no conteúdo dos seus oráculos, principalmente como se apresenta no livro de Amós.

Vamos ao caso: Primeiro livro dos Reis, capítulo 22(paralelo em 1 Crônicas 18).


 Há três anos que Israel estava em paz com a Assíria. Por essa época, o rei de Juda – Josafá fez uma visita de cortesia ao rei Acab de Israel. Conversa vai, conversa vem, Acab comenta que a região de Ramot de Galaad sob domínio assírio, lhes pertenciam, mas que os dois reis nada faziam sobre isso. Acab então faz a proposta de irem à guerra, no qual é prontamente atendido. Mas Josafá pede que Acab consulte antes o oráculo do Senhor para saber se a guerra seria vencida. Acab então, reúne seus profetas (uns 400) e pergunta a eles se deveriam ir à guerra. A resposta dos profetas: “vai, o Senhor a entrega ao rei”. Não satisfeito com a resposta de 400 profetas, Josafá pergunta se não tinha mais nenhum profeta fora aqueles. Acab então diz que tinha mas que o sujeito era muito chato pois só profetizava desgraças para ele. Seu nome: Miquéias. Mas Josafá convence acab de mandar chama-lo. Quando Miquéias chega à presença dos reis é feita a pergunta: “podemos atacar Ramot de Galaad, ou desistimos?”.

Curiosamente, Miquéias responde que sim, que eles deveriam ir à guerra pois o Senhor os fariam vitoriosos. Acab desconfia. Deve ter pensado “esse profeta só me prediz desgraças e agora diz que vou ganhar a guerra”? Acab então repreende Miquéias e diz que ele deve dizer a verdade em nome do Senhor. Então Miqueias diz a “verdade”:


“Vi o Senhor sentado em seu trono. Todo o exército celeste estava em pé junto dele, à direita e à esquerda...” Aqui, Deus é visto (pelo escritor do relato) no estilo de um soberano, com sua corte de ministros, à semelhança das religiões antigas e das cortes de Israel e Juda´. Continua o relato e o Senhor perguntou: ‘Quem poderá enganar Acab para que vá e morra em Ramot de Gaalad? Uns propunham uma coisa e outros outra”... Quer dizer, Deus queria matar Acab e não sabia bem como fazer isso e pede o conselho dos ministros-espíritos. Continua o relato: “Então adiantou-se um espírito e, de pé diante do Senhor, disse: Eu o enganarei. O Senhor lhe perguntou: como? Respondeu: Irei e me transformarei em oráculo falso na boca de todos os profetas. O Senhor lhe disse: Conseguirás enganá-lo. Vai e faze-o”.


Intrigante cena esta, não? O autor do relato quer tentar explicar os complexos planos de Deus e seus modos de realiza-los. Mas eis a questão: Qual profeta é falso e qual profeta é verdadeiro nesse caso se ambos foram inspirados pelo mesmo Deus? Miquéias bem que tenta alertar Acab sobre os planos de Deus de mata-lo. A culpa pela falsidade do oráculo dos profetas de Acab era do próprio Deus, assim como o relato “verídico” do oráculo de Miquéias também. Mas o próprio ato de Miquéias revelar o verdadeiro intento de Deus é que fará o rei cair na armadilha divina...


 Resultado: Acab como já esperava, vê Miquéias lhe dizer um oráculo de desgraças e não confia nele (quando na verdade deveria confiar, mas Deus quer matá-lo e o espírito enganador da corte de Javé  fez o serviço direitinho), vai para a guerra e morre.

Essa narrativa, ficcional e teológica, quer fazer uma dialética com a história. Diante da crença que Deus é quem conduz a história, como explicar a morte de Acab senão por vontade divina? E não tem problemas de Deus manipular a veracidade das profecias para induzir e enganar Acab para que ele faça o que Deus quer. Para o leitor da época, estava tudo explicado e entendido.  




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(1) Estática - relativa ao êxtase; profetas que 
entravam em êxtase para profetizar.

(2)Sicre, José Luiz. Profetismo em Israel pp
226-228

(3) idem.

13 comentários:

  1. EDU

    Para aumentar a indigestão (rsrs):

    Ezequiel , diz claramente que “Deus engana por vezes os homens com falsas revelações. Vide o livro de Ezequiel (cap 14, 9): “e quando um profeta se enganar (um falso profeta) e pronunciar uma palavra, fui Eu, vosso Deus que enganei esse profeta”.

    O que se conclui de tudo isto?

    Simplesmente que as palavras preditas pelos profetas são frutos de sua imaginação, e variavam conforme o seu estado emocional, seu temperamento, sua belicosidade, se se encontrava triste ou alegre, afável ou irascível
    .
    Eliseu, foi um que para profetizar a Jeroboão, teve que pedir um instrumento musical para se acalmar e perceber a mente de Deus. Só depois que se deleitou com a música foi que profetizou coisas boas a Jeroboão e seus companheiros, coisa que antes, talvez dominado pela intranqüilidade (estava irado contra o Rei), não tinha condições de prever algo de bom. (II Reis 3, 15)

    Jeremias, deprimido, acabrunhado e dominado por um grande tédio, só conseguiu profetizar calamidades sobre os judeus, de tal forma que Josias não o quis consultar.

    No imaginário de Labão, Deus só podia se revelar como o Deus de Abraão, porque ele acreditava que cada nação tinha o seu Deus particular (Gênesis 31, 29).

    Bem , vou parar por aqui. Depois eu volto...

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  2. De fato estas pré-fecias soam estranho demais aos nossos ouvidos.

    O que devemos considerar é que os escribas, em muitos casos, eram religiosos imaturos que escreviam os fatos a posteriori. (como no caso os históricos Reis e Crônicas)

    O que registravam, era na verdade aquilo que concluíam.

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  3. Depois que passei a editar um blog pela possibilidade de passar a mensagem da cultura da não covardia, me encantei com esse universo e seu potencial, apesar de quase sempre não corresponder a expectativa, é impressionante. considero que o mundo carece disso que fazemos aqui de maneira que não gosto de visitar blogs e postagens interessantes sem fazer aquele sempre bem vindo comentário. Eu não sei exatamente como, mas esse post é muito.

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  4. Levi, muito bem observado de como o profeta precisava antes de um "clima" para entrar em contato com Javé! Javé enganava e desenganava os profetas quando queria, ou seja, fazia o povo ouvir "falsas profecias" dado por ele mesmo...mas ele é soberano, rei, e rei e soberano pode tudo!!

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  5. Gabriel,

    Valeu pelo comentário, tamo aí, sempre pensando e procurando novas respostas para velhas perguntas.

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  6. Edu, este relato bíblico não me foi desvendado até hoje... rsrs

    " Qual profeta é falso e qual profeta é verdadeiro nesse caso se ambos foram inspirados pelo mesmo Deus?

    Eu entendo que as profecias dos 400 profetas que estavam enganando Acab, não procediam de Deus, tanto que Josafá discernindo, pediu um outro profeta de Deus.

    O mensageiro que foi chamar Miquéias lhe disse: "Os profetas são unânimes em falar a favor do rei. Procura falar como eles e predizer o sucesso."

    Miquéias havia dito que não diria outra coisa a não ser o que Deus realmente havia mandado. E o que ele diz, após ironizar com Acab?

    "Eu vi todo o Israel disperso pelas montanhas como um rebanho sem pastor. E Iahweh me disse: Eles não tem mais senhor, que cada um volte em paz para a sua casa! (Morte de Acab).

    Fica muito estranho saber que Miquéias falou a verdade para Acab através da sua profecia e depois ele mesmo dizer que Deus colocou um espírito de engano na boca dos 400 profetas... Talvez fosse uma dedução de Miquéias ou ironia.

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  7. Levi, veja na tradução Jerusalém: "E se o profeta se deixar seduzir e pronunciar uma palavra, Eu, Yahweh, seduzirei esse profeta e estenderei a minha mão contra ele, exterminando-o do seio do meu povo, Israel. (entende-se seduzir como atrair?)

    Quanto a Elizeu, que realmente significava a música? Para mim, tem um sentido profundo, porque tenho várias e várias experiências de ouvir Deus através do louvor e ver as coisas realmente se cumprindo.

    Eu creio Levi, que o acabrunhamento de Jeremias era muito justo, o motivo era exatamente porque ele profetizava o que não desejava,vejamos:

    " Sirvo de escárnio todo o dia, todos zombam de mim. Porque sempre que falo devo gritar, devo proclamar: "Violência e opressão!"
    As profecias de Jeremias provocavam ódio, violência contra ele, a ponto dele amaldiçoar o dia em que nasceu.

    No caso de Labão, também discordo, rsrs Os próprio Jacó, Isaque e outros, muitas vezes se referiam a Deus como o Deus dos seus pais: "Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o temor de Isaque não fora comigo, por certo me despedirias agora vazio. Deus atendeu à minha aflição, e ao trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite. (Gênesis 31:42)

    Apesar de Labão possuir ídolos em sua casa, na conversa que ele teve com Jacó quando o perseguiu, ele deixou claro que acreditava plenamente, em Deus: "Se afligires as minhas filhas, e se tomares mulheres além das minhas filhas, ninguém está conosco; atenta que Deus é testemunha entre mim e ti." Gênesis 31:50

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  8. Gui, para um texto que não "lhe foi desvendado até hoje" até que você tenta razoavelmente salvar a reputação de Javé...rssss

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  9. Edu quem não precisa de defensores é Deus, mas se vamos debater o tema, temos que ler com atenção rsrs

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  10. Pois então, amiga, leia com mais atenção:

    É verdade que o autor quer fazer uma distinção entre "falsos" profetas e "verdadeiros" profetas. Os profetas de Acab, claro, são da primeira categoria. Mais o que chama a atenção no texto é que o profeta tido como "verdadeiro" também mente, e mente em nome de Javé; e também os falsos profetas mentem por causa de Javé!!

    Miquéias a princípio também diz que Acab deve ir à guerra - ou seja - concorda com os falsos profetas. Mas o que embola todo o relato é que Javé não aquenta mais Acab e quer se livrar dele. Então Miquéias "entrega" o plano de Javé. é como ele dissesse: "Acab, Javé quer te matar, então não vá à guerra pois eu vi Israel disperso..."

    Miquéias então diz o que "viu": Javé chamou seus ministros para uma reunião política. Tema em pauta: como enganar Acab e levá-lo para a guerra para morrer. Um dos ministros de Javé expõe seu plano de inspirar mentiras aos profetas de Acab para que ele vá à guerra. Javé acha um bom plano e dá a ordem para seu ministro executá-la.

    Miquéias, ao contar o que realmente Javé queria fazer com Acab, não é levado à sério, já que para Acab, Miquéias sempre lhe profetiza o que ele não quer ouvir...

    É isso que você tem que resolver, Gui: Javé inspira a mentira nos profetas de Acab para executar seu plano de assassinato, e sabe que Miquéias ao "entregar" o que ele pretende fazer, irá produzir em Acab o desejo oposto do que ele disse, ou seja, ir à guerra!!!

    Dá pra levar essa história mesmo ao pé da letra? dá mesmo para imaginar a cena real de Javé numa reunião ministerial traçando planos para matar Acab??

    Se para você dá, amiga, aconselho-te a aprender a ler a Bíblia.

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  11. Edu, num complica querido rsrs

    Veja que os profetas de Acab estavam "profetando", eles queriam apenas agradar Acab, quando o mensageiro vai buscar Miquéias, exige que ele diga o mesmo que eles. Ora, ora Edu, está claro!

    Quando Miquéias chega ele ironiza, ele diz o mesmo que os outros profetas. E Acab entende perfeitamente que ele está zombando, tanto porque ele tinha consciência do que andava fazendo. Imediatamente Miquéias, entrega a mensagem "Eu vi todo o Israel disperso pelas montanhas como um rebanho sem pastor. E Iahweh me disse: Eles não tem mais senhor, que cada um volte em paz para a sua casa!" (Morte de Acab).

    Esta profecia era exatamente o cumprimento da seguinte: "Elias apresentou-se diante dele e disse: "Eis a Palavra do Senhor: 'Os cães lamberão o teu sangue onde lamberam o de Nabot e Jezabel será devorada pelos cães!".
    Três anos depois, Acab foi gravemente ferido numa batalha contra o rei da Síria. Levaram-no num carro e à tarde ele morreu. Ao lavarem o carro, os cães vieram lamber o seu sangue." (1Reis 21.19) Acab já sabia que a sua morte havia sido apenas adiada...

    Portanto, amigo, se Miquéias já havia entregado a profecia que se cumpriu cabalmente, a história da reunião só pode haver sido da cabeça dele. Ora,se Deus tinha intenção de que ele fosse para a guerra enganado, para morrer, por que Ele usou Miquéias para avisar que ele iria morrer?

    Veja que Miquéias diz que Deus falou para o espírito: tu o enganarás e serás bem sucedido. A verdade é que ele não foi enganado, não foi bem sucedido. Miquéias profetizou sua morte e assim sucedeu.

    Bom Edu, acho que eu já havia deixado claro que não acreditava nesta reunião ministerial, quando falei no primeiro comentário "Fica muito estranho saber que Miquéias falou a verdade para Acab através da sua profecia e depois ele mesmo dizer que Deus colocou um espírito de engano na boca dos 400 profetas... Talvez fosse uma dedução de Miquéias ou ironia.

    "irá produzir em Acab o desejo oposto do que ele disse, ou seja, ir à guerra!!!"

    Esta é uma dedução sua, porque Acab nunca foi de obedecer as ordens de Deus, segundo a história ele foi um dos piores reis seguindo os conselhos maldosos da sua Gezabel.

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  12. pelo menos você admite que Miquéias também mandou uma "profetada" quando disse da tal reunião ministerial de Javé. E para mim fica evidente que Acab iria fazer exatamente o contrário do que Miquéias lhe dissesse. Ou seja, se Miquéias disse que Israel iria ser derrotado, então ele iria mesmo para contrariar o profeta que não fazia parte da sua corte.

    No final das contas, todo o relato se torna fictício e simbólico pela evidente ficção do centro do relato que é, exatamente, a reunião de Javé tomando conselhos de seus espíritos enganadores de reis desavisados.

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