segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"A avenida nos espera!"

Por Hermes C. Fernandes
(extraído do Facebook)

"Não porei coisa má diante dos meus olhos" (Salmos 101:3). Este foi o versículo bíblico usado por um tele-pastor que aproveitava o carnaval para convencer sua audiência a fazer a assinatura de seu canal. Outros se aproveitam da época para promover retiros que custam até um salário mínimo. Longe da TV e das ruas, os fiéis seriam mantidos guardados do pecado. Será? Há quem ensine que ao permitir que tais "coisas más" entrem nossa casa, estaríamos dando "legalidade" a todo tipo de espíritos malignos. Alguma base bíblica sólida para isso? Não!

Parafraseando Jesus, se nossos olhos forem bons, tudo será luz, mas se forem maus, estaremos em maus lençóis. Para Paulo, "todas as coisas são puras para os puros" (Tt.1:15). O mal não está na avenida! O mal está em nós, em nossa presunção, em nossos falsos escrúpulos, em nosso moralismo exacerbado. Portanto, se não para por coisa má diante dos nossos olhos, nunca mais nos olhemos no espelho. A recomendação de Paulo é que examinemos de tudo, mas retenhamos somente o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21).

Afinal, haveria algum problema em assistir ao desfile das escolas de samba? Estou convencido que não. Cabe a cada um examinar sua própria consciência e verificar se isso lhe convém ou não. Afinal, "todas as coisas nos são lícitas, mas nem todas nos convém". O que convém a um, nem sempre convém ao outro. Porém, aquele que assiste, não deve condenar o que não assiste e vice-versa.

Outra questão: e se tomássemos o desfile do Carnaval como analogia de nossa caminhada cristã? Certamente, a maioria discordará com veemência. Afinal de contas, o Carnaval é a festa pagã por excelência, onde, além de toda promiscuidade, entidades pagãs são homenageadas. Eu poderia gastar muitas linhas tecendo críticas justas a esta festa em que tantas famílias são desfeitas, e inúmeras vidas destruídas. Porém hoje, quero pegar a contramão.

Por que será que os cristãos sempre enfatizam os aspectos ruins de qualquer manifestação cultural? Se vivêssemos nos tempos primitivos da igreja cristã, como reagiríamos ao fato de Paulo tomar as Olimpíadas como analogia da trajetória cristã neste mundo? Ora, os jogos olímpicos celebravam os deuses do Olimpo. Portanto, era uma festa idólatra. Os atletas competiam nus. Sem contar as orgias e os sacrifícios que se seguiam às competições. Sinceramente, não saberia dizer qual seria pior, as Olimpíadas ou o Carnaval. Porém Paulo soube enxergar alguma beleza por trás daquela manifestação cultural. A disposição dos atletas, além do seu preparo e empenho, foram destacados pelo apóstolo como virtudes a serem cultivadas pelos seguidores de Cristo.

E quanto ao Carnaval? Haveria nele alguma beleza, alguma virtude que pudesse ser destacada do meio de tanta licenciosidade? Acredito que sim. Embora jamais tenha participado, talvez por ter nascido em berço evangélico tradicional, posso enxergar alguma ordem no meio do caos carnavalesco.

Destaco, em primeiro lugar, a criatividade dos foliões, principalmente dos carnavalescos na composição das fantasias, dos carros alegóricos, e do samba-enredo. É notória sua busca pela perfeição. Diz-se que o desfile do ano seguinte começa a ser preparado quando termina o Carnaval. É, de fato, um trabalho árduo que demanda muito empenho. Se houvesse por parte de muitos cristãos uma parcela da dedicação encontrada nos barracões de Escolas de Samba, faríamos um trabalho muito mais elaborado para Deus. Buscaríamos a excelência, em vez de nos contentar com tanta mediocridade. Tomemos por exemplo as composições musicais. Basta ouvir algumas estrofes para perceber o trabalho de pesquisa que envolve a composição de um samba-enredo. Sem contar as rimas ricas, as melodias marcantes, e a ousadia criativa das baterias. Enquanto isso, composições que visam louvar a Deus estão cada vez mais pobres, tanto do ponto de vista melódico, quanto do ponto de vista lírico. Não aguento mais temas repetitivos, tais como chuva, fogo, anjos e etc.

O desfile começa com a concentração. É ali que é dado o grito de guerra da Escola, seguido pelo aquecimento dos tamborins. A concentração equivale à congregação. Nosso lugar de culto (comumente chamado de “templo” ou “igreja”) é onde nos concentramos e aquecemos nosso espírito. Porém, a obra acontece lá fora, “na avenida” do mundo.

Gosto quando Paulo fala que somos conduzidos por Cristo em Seu desfile triunfal. O apóstolo compara a marcha cristã pelo mundo às paradas triunfais promovidas pelo império romano. Era um espetáculo cruento, no qual os presos eram expostos publicamente, acorrentados e arrastados pelas ruas da cidade. Era assim que Roma exibia sua supremacia, e impunha seu poder. Paulo toma emprestada a figura deste majestoso e horroroso evento para afirmar que Cristo está nos exibindo ao Mundo como aqueles que foram conquistados por Seu amor.

Muitos cristãos acreditam ingenuamente que a guerra se dá na concentração. Por isso, a igreja atual é tão ensimesmada, isto é, voltada para dentro de si. Ela passou a ver-se como um fim em si mesmo.

A avenida nos espera!

Encabeçando o desfile vai a comissão de frente, seguida pelo carro abre-alas. Compete aos componentes dessa comissão a primeira impressão. A comissão de frente da igreja de Cristo é formada pelos que nos precederam, que abriram caminho para as novas gerações. Não podemos permitir que caiam no esquecimento. Também são os missionários, que deixam sua pátria para abrir caminho em outros rincões. Grande é sua responsabilidade, e alto é o preço que se dispõem a pagar para que o Evangelho de Cristo chegue à populações ainda não alcançadas. Paulo fazia parte da comissão de frente da igreja primitiva. Escrevendo aos Coríntios, ele diz que sua missão era“anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós, e não em campo de outrem” (2 Co.10:16). Em bom português, o apóstolo dos gentios preferia pescar em alto mar, e não no aquário dos outros.

A Escola de Samba é dividida em alas, cada uma com fantasias e carro alegórico próprios. Porém, o samba-enredo é o mesmo. O que é cantado lá na frente, é sincronicamente cantado na última ala da Escola. A voz do puxador do samba, bem como a batida harmoniosa da bateria, ecoando por toda a avenida, garantem esta sincronia. Não pode haver espaços vazios entre as alas. Há harmonia até nas cores das fantasias. Ninguém entra na avenida vestido como quiser. Imagine se as variadas denominações que compõem o Corpo Místico de Cristo se relacionassem da mesma maneira, respeitando cada uma o espaço da outra, porém dentro de uma evolução harmoniosa.

No meio do desfile encontramos o casal formado pelo mestre-sala e pela porta-bandeira. Eles exibem orgulhosamente o pavilhão da Escola. Seus gestos e passos são cuidadosamente combinados, para que a bandeira receba as honras devidas. É triste verificar o quanto a bandeira do Evangelho tem sido chacoalhada, pois os que a deveriam ostentar, são os primeiros a desonrá-la com seu mal testemunho. Enquanto que os cristãos primitivos se dispunham a pagar com a própria vida para que seu testemunho de fé fosse validado e o nome de Cristo fosse honrado.

Ao término do desfile chega o momento da dispersão. É hora de partir, levando a certeza de que todos deram o melhor de si. Alguns saem machucados, com os pés sangrando, com as forças exauridas. Mas todos saem alegres, esperançosos de que sua escola seja a campeã. Aprenderam a sublimar a dor enquanto desfilam. Ignoram o cansaço. Vencem os limites do seu corpo. Tudo pela alegria de ver sua escola se sagrando campeã. Mas no fim, chega a hora de tirar a fantasia, descer dos carros alegóricos, cuidar das feridas nos pés. Mesmo assim, ninguém reclama. Todos exibem no rosto um sorriso de contentamento.

Semelhantemente, todos estamos a caminho do fim do desfile. O momento da dispersão está chegando, quando deixaremos este corpo, nossa fantasia, e seremos saudados pela Eternidade. Que diremos nesta hora? Não haverá novos desfiles. Terá chegado o fim de nossa trajetória? Não! Será apenas o começo de uma nova fase existencial. Deixaremos nossas fantasias, para nos revestirmos de novas vestes celestiais. Falaremos como Paulo em sua carta de despedida a Timóteo:

“...o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Tm.4:6b-8).

Aproveitemos os instantes em que estamos na avenida desta vida, celebremos a verdadeira alegria, infelizmente ainda desconhecida por muitos foliões, e que não terminará em cinzas.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Um movimento que abalou o rei

"(...) o tetrarca Herodes soube de tudo o que se passava e ficou perplexo (...)" - Lucas 9:7; ARA


Um dos ingredientes do sucesso ministerial do Senhor Jesus foi ter apostolado (enviado) os discípulos para anunciarem as boas novas do Reino de Deus pelas aldeias e cidades de Israel. No capítulo 9 de Lucas, o autor fala de um tipo de estágio que aqueles primeiros seguidores fizeram ainda na companhia do Mestre, os quais deveriam imitar tudo aquilo que o Salvador já vinha fazendo anteriormente: curas, libertação do assédio espiritual maligno e a pregação do Evangelho (versos 1 e 2).

Deve-se observar que Jesus, o maior visionário de todos os tempos, estava criando um movimento de base popular capaz de incendiar o mundo pela mensagem transformadora do Evangelho. Movimento este que não necessitava de recursos financeiros, nem de uma sede fixa, inscrição no CNPJ do Ministério da Fazenda,, gráficas para a impressão de livros e tão pouco das redes sociais da internet. Os discípulos deveriam carregar o mínimo que necessitavam utilizar, dependendo exclusivamente da Divina Providência:

"E disse-lhes: Nada leveis para o caminho: nem bordão, nem alforje [bolsa de viagem], nem pão, nem dinheiro; nem deveis ter duas túnicas" (verso 3)

Notem que o escritor de Lucas foi propositalmente mais radical do que a orientação registrada no 2º Evangelho, no qual foi permitido levar ao menos um bordão (Mc 6:8). Penso que o autor sagrado, por causa de uma necessidade contextual de seus dias, pretendeu ressaltar a leveza da bagagem do discípulo comissionado. Não só para que eles alcançasse m uma maior disponibilidade para viajar como também desenvolvessem a fé pois, certamente, precisariam transmitir confiança aos seus ouvintes.

Assim como Jesus não centralizou o ministério que desempenhou na sua pessoa, o apóstolo itinerante seguiria o mesmo exemplo quando se colocasse a caminho. Em qualquer comunidade para onde fossem, fariam de uma casa de moradia o ponto de apoio para iniciarem a obra missionária. Teriam que contar com a hospitalidade alheia e, assim, desta relação bem próxima entre hóspede e anfitrião, seriam lançadas as primeiras sementes do Reino no local.

Embora o discípulo enviado também se dirigisse às multidões, ele teria a oportunidade de apresentar uma outra dimensão do Reino a uma família no abrigo acolhedor de um lar. Juntos com os anfitriões eles fariam refeições comendo à mesma mesa, compartilhariam algo de suas vidas, conheceriam os conflitos domésticos e participariam de alguma forma do drama da comunidade bem no interior da célula do tecido social. Quem os recebesse sob seu teto, ganharia um aprendizado de valor inestimável, sendo que o próprio discípulo aprenderia também.

Entre tantas famílias existentes numa cidade, os apóstolos só poderiam escolher uma só casa onde deveriam permanecer até partirem do lugar (verso 4). A meu ver, isto era uma estratégia e tanto do Mestre pois, através da obra feita num lar, o movimento do Reino iria desenvolver-se apoiado numa estrutura essencialmente humana onde o relacionamento interpessoal ocorre com maior intimidade.

O Evangelho não foi pregado para ser vivenciado somente em templos onde ninguém reside e onde o encontro entre as pessoas apresenta-se como algo distinto da realidade delas. O que assistimos muitas das vezes nas reuniões dominicais das igrejas é mais uma vida de aparência. Cuida-se, na verdade, de mais um programinha de caráter religioso em que cada qual veste a sua máscara de santidade. Terminada a missa/culto/sessão/palestra, todos retornam aos seus comportamentos superficiais de sempre, sem maiores envolvimentos espirituais entre si.

A figura da casa, e nunca o prédio de uma igreja, é que deve representar o movimento de Jesus em nossas mentes como um ideograma. A reunião das pessoas em templos só se justifica pela necessidade de um auditório e de se desenvolver outras atividades que precisem de espaço coberto. Só que tais locais em si mesmos não têm a essência de um cristianismo autêntico e verdadeiro e jamais serão extensões de uso pois é no ambiente familiar e inclusivo que as coisas precisam acontecer. A Igreja com "i" maiúsculo é uma realidade viva correspondente a uma enorme família presente no seio da comunidade onde se encontra estabelecida.

Contudo, seria possível que, ao chegarem numa cidade ou aldeia, os apóstolos de Jesus não fossem recebidos por ninguém. Numa época em que a hospitalidade ainda fazia parte dos costumes, deixar de acolher um pregador das boas novas talvez significasse mais do que indiferença pela condição vulnerável de um viajante e expressava um sentimento de repúdio à mensagem anunciada. Em resposta, Jesus orienta os seus discípulos a sacudirem a poeira dos pés "em testemunho" (verso 5).

Mas afinal, que costume era este? E por que os apóstolos deveriam agir assim?

Certamente que as pessoas daquela época entenderiam o recado e o motivo pelo qual os discípulos deveriam proceder daquela maneira publicamente. Nos tempos de Jesus, quando um judeu peregrino vinha da diáspora, era comum sacudir os calçados antes de entrar no território sagrado de Israel. Era como se eles estivessem se libertando da terra impura de onde tinham vindo para poderem pisar no solo da Terra Prometida.

No entanto, vejo no ato simbólico dos discípulos uma nova chance para a comunidade refletir e se abrir para as boas novas do Reino. Tratava-se de lembrar as pessoas de que a conduta delas não seria condizente com a pertença ao povo de Deus. Logo, quando o apóstolo vai ter que ir embora, por não ter sido recebido/escutado, sacudir a poeira não seria nenhuma expressão de desprezo ou de vingança.

Sem dúvida que aquele movimento incendiou a Galileia e deixou o rei Herodes bem preocupado. Ele que antes havia mandado decapitar João Batista, agora enfrentava algo muito mais forte e ameaçador para os seus interesses. Da maneira eficiente como Jesus estruturou a revolução do Reino seria impossível os governos do mundo conterem aquele novo processo histórico simplesmente apagando os líderes. Teriam que exterminar comunidades inteiras! Pois se tratava de um trabalho discipular que, aos olhos dos poderosos, multiplicava-se incontrolavelmente longe das portas dos palácios e dos templos sem a dependência de seus recursos econômicos.

Teria João ressuscitado dentre os mortos?

De certa maneira, sim. Os apóstolos eram agora vários clones do profeta que estavam surgindo naqueles povoados de Israel. A energia dos pregadores vinha da fé no Deus vivo e eles transmitiam isso às comunidades por onde passavam. Era mais fácil para eles organizarem-se a partir das casas das famílias humildes, lugares onde  os reis e os nobres não frequentavam porque amavam o luxo dos palácios. Parecia até que o profeta Elias tivesse retornado e voltado a caminhar nas estradas vestido com pele de cabra.

Se nos tempos de Acabe o perverso monarca de Israel não conseguiu achar Elias, também Herodes precisaria esforçar-se para ver se conseguiria encontrar Jesus (verso 9). Nosso Salvador também levava uma vida simples junto com seus discípulos e seus interesses não eram os mesmos daquele inescrupuloso governante. O Mestre não tinha nada a ver com os pseudo-evangelistas midiáticos do presente com seus carrões do ano, templos suntuosos e até aeronaves.

Na sequência da narrativa, isto é, no episódio da primeira multiplicação dos pães, Jesus vai continuar ensinando os discípulos a tarefa de anunciar as boas novas do Reino executando-as. Nos arredores de Betsaida, eles aprenderão a alimentar a alma das multidões, dando eles mesmos de comer (verso 13). Ao contrário dos reis que eram alimentados e servidos pelos impostos do povo, caberá ao apóstolo fazer o inverso.