domingo, 29 de maio de 2016

A barbárie brasileira, o Estado ausente e a cultura do estupro




"Naquela época não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo." (Juízes 21:25; NVI)

A que ponto chega a humanidade? Os apocalípticos que me perdoem, mas não há nada novo debaixo do sol. O estupro coletivo da adolescente de 16 anos, ocorrido dia 21/05, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, lembrou-me aquela passagem da Bíblia quando os homens da cidade de Gibeá violentaram a concubina de um levita, conforme encontra-se narrado no capítulo 19 do Livro de Juízes:

"Mas os homens não quiseram ouvi-lo. Então o levita mandou a sua concubina para fora, e eles a violentaram e abusaram dela a noite toda. Ao alvorecer a deixaram. Ao romper do dia a mulher voltou para a casa onde o seu senhor estava hospedado, caiu junto à porta e ali ficou até o dia clarear. Quando o seu senhor se levantou de manhã, abriu a porta da casa e saiu para prosseguir viagem, lá estava a sua concubina, caída à entrada da casa, com as mãos na soleira da porta." (Juízes 19:25-27; NVI)

Apesar do Livro de Juízes mostrar a importância de um Estado presente, hei de reconhecer que as Escrituras Sagradas trataram a questão dos direitos da mulher de maneira incompleta já que, na referida passagem, o corpo da vítima é usado como uma troca para proteger a integridade física de seu companheiro não oficializado:

"Quando estavam entretidos, alguns vadios da cidade cercaram a casa. Esmurrando a porta, gritaram para o homem idoso, dono da casa: 'Traga para fora o homem que entrou na sua casa para que tenhamos relações com ele!' O dono da casa saiu e lhes disse: 'Não sejam tão perversos, meus amigos. Já que esse homem é meu hóspede, não cometam essa loucura. Vejam, aqui está minha filha virgem e a concubina do meu hóspede. Eu as trarei para vocês, e vocês poderão usá-las e fazer com elas o que quiserem. Mas, nada façam com esse homem, não cometam tal loucura!'" (Juízes 19:22-24; NVI) 

Sem dúvida que o texto bíblico acima registra a moral de uma época e num determinado local, sendo que a fala do anfitrião expressa uma menor importância que a mulher teria dentro daquela cultura esquecida dos valores éticos da legislação de Moisés. Tratava-se de um mundo essencialmente masculino, refém do milenar patriarcalismo, algo que esteve muito forte não só nas sociedades do antigo Oriente Próximo como também em Grécia e Roma. Aliás, não há como deixar de lembrar sobre o mítico estupro de Lucrécia, uma patrícia romana, o qual foi seguido do suicídio da vítima, tendo o acontecimento deflagrado um processo que culminou com a queda da monarquia de Roma e o estabelecimento da República.




Embora o cristianismo tenha valorizado a mulher, não houve uma educação capaz de promover o respeito pela vontade alheia durante a bimilenar existência da Igreja. Por exemplo, o sexo entre marido e mulher, sem que a esposa manifeste uma concordância, raríssimas vezes parece ter sido objeto de algum sermão proferido nos púlpitos das congregações religiosas. O foco das pregações até hoje ainda recai mais sobre o respeito pela companheira do próximo e as ideias de "pureza sexual", porém a limitação permanece quanto aos demais aspectos do tema.

Felizmente, no episódio do Rio, a vítima sobreviveu. Somente na quinta-feira (26/05) a adolescente foi levada para o Hospital Souza Aguiar onde passou por exames e tomou um coquetel de medicamentos para evitar a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis. No entanto, os abusos sofridos e que foram gravados no vídeo são revoltantes. Expõem uma inversão de valores éticos, uma total desumanidade e crueldade. Algo que não pode ficar por isso mesmo! Pois, como bem comentou a promotora de São Paulo Dra. Silvia Chakian numa matéria publicada pelo G1, trata-se da certeza da impunidade que esses criminosos têm ao cometerem a ação delituosa:

"A impunidade anda de mãos dadas com a violência. Precisa haver uma punição exemplar e essa punição tem que ser divulgada para que a sociedade saiba. Temos que conscientizar essa sociedade de que quem compartilha, quem faz piada, (está agindo de modo) tão grave quanto ao do estuprador." ('A Índia é aqui': Impunidade fez estupro coletivo virar motivo de ostentação, diz promotora)
 
Considero muito triste a decadência moral de nossa sociedade. O ocorrido prova que temos um Estado ausente, o qual tenta justificar a sua omissão na área de segurança pública como sendo impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sendo certo que os rigores da nossa legislação bem como os serviços educacionais deixam muito a desejar.


Assim sendo, carecemos ainda de um programa de educação sexual mais eficiente  nas escolas e fora delas capaz de prevenir melhor o estupro e combater a desigualdade de gênero. E, sem querer exagerar, entendo ser perfeitamente possível uma mulher andar peladona na rua e os homens respeitarem-na em todos os locais. Mesmo que o sujeito tenha uma reação instintiva ou venha a ingerir bebida alcoólica, o ato violento jamais se justifica. Aliás, como abordou a feminista Susan Brownmiller em sua obra Against Our Will: Men, Women, and Rape (1975), o estupro constitui uma forma de violência, poder e opressão masculina e não de desejo sexual. Ou seja, o delito seria uma forma consciente de manter as mulheres em estado de medo e intimidação, sendo oportuno meditarmos novamente na fala da ilustre promotora paulista na matéria jornalística citada:

"Não tem 30 monstros juntos. Não tem patologia nisso. É uma questão cultural. São 30 pessoas que participaram do crime e nenhuma delas agiu para evitar que aquele crime acontecesse. Isso revela uma sociedade criminosa e violenta contra a mulher. Que enxerga que o corpo da mulher é feito para o homem usufruir (...) Por tudo isso, esse caso precisa de uma punição exemplar. E acima de tudo, precisamos fazer um trabalho de educação de gênero, de respeito ao corpo da mulher e aos direitos dela"

Além disso, é preciso também mudar a mentalidade existente na sociedade de que a vítima possa ter dado causa à violência sofrida pelo seu modo de vestir ou agir. Lamentavelmente, esse ainda tem sido o pensamento de vários ilustres operadores do Direito tais como como advogados, delegados de polícia e até mesmo magistrados. Inclusive, não faz muito tempo, um policial do Rio de Janeiro, ao ser convidado para orientar a comunidade sobre segurança, disse que as mulheres poderiam evitar o estupro se "não se vestissem como vadias". Tal declaração causou muita indignação entre as lideranças feministas e pessoas esclarecidas da sociedade, motivo pelo qual foi organizada uma passeata no dia 26/05/2012, na Praia de Copacabana, a qual ficou conhecida como a Marcha das Vadias.

Nos estudos de vitimologia, busca-se, por exemplo, diagnosticar até que ponto o comportamento da vítima teria contribuído para a ocorrência de um delito. Mas data venia, não existe o mínimo respaldo para alguém afirmar que uma mulher vestindo trajes de "piriguete" facilitou o estupro! A atitude da vítima, neste caso, é bem diferente das situações em que, por exemplo, acontece um assassinato decorrente de briga em que um ofendeu a mãe do outro (mesmo assim não justificaria a morte). Logo, as mulheres não podem passar a viver sem liberdade de se vestir, ou de se expressar, por causa da existência de estupradores e nem justifica haver um abrandamento da pena do autor do fato com base na falta de indumentária da vítima.

Sendo a vítima prostituta, usuária de drogas ou esteja ela ainda no quarto com um homem, tendo um relacionamento afetivo por livre vontade, nenhum ato sexual pode ser praticado contra o seu consentimento. Deste modo, não há motivos para a sociedade tolerar que profissionais do sexo continuem sendo abusadas e humilhadas por se tratar de um atentado à dignidade humana, mesmo que o cliente venha a pagar pelos seus serviços.

Bem, se pensarmos como acontece um estupro, entendo que existe uma preparação do ato, uma cogitação e uma execução (fase da tentativa do delito). Em outras palavras, nenhum homem vê uma mulher em trajes sensuais e vai imediatamente estuprá-la. Antes, ele toma uma decisão em seu íntimo e resolve por em prática as ações necessárias para a satisfação de sua lascívia, mesmo sem a concordância da mulher, usando aí de violência ou de grave ameaça. Até mesmo fazendo uso da coação psicológica.

Na hipótese de um estupro coletivo, em que vários homens abusam de uma só mulher, temos ali uma situação que considero ainda pior. Até porque, no caso da jovem violentada no Rio de Janeiro, os criminosos manteriam um lugar específico para se aproveitarem de outras vítimas, sendo provável que outras jovens teriam sido levadas antes para aquele local de horrores. Logo, o episódio que chocou o Brasil tornou-se emblemático e demonstra a gravidade da questão da violência contra as mulheres no país (a cada dez minutos uma pessoa é estuprada, sendo quase 90% mulheres), tratando-se de uma violência patriarcal encarnada, mas que precisa ser combatida por toda a sociedade.


Chega de impunidade! É hora de mudarmos esse quadro através das várias frentes possíveis. Seja quanto à vergonhosa impunidade, com a criação/aplicação de leis mais rígidas, mas também por meio da educação a fim de que seja tirada de nosso meio a nefasta cultura do estupro.

Uma ótima semana a todos!


OBS: A primeira foto trata-se de uma reprodução encontrada no G1 enquanto a segunda refere-se à obra Tarquínio e Lucrécia, uma pintura de 1571 feita pelo artista italiano Ticiano (ca. 1473/1490 — 1576), conforme extraí do acervo virtual da Wikipédia.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O que penso sobre o feriado de Corpus Christi...




Apesar de não ser um católico romano, um dos feriados que mais aprecio é o de Corpus Christi. Não pelas festividades religiosas, obviamente, mas, sim, pela época em que ele ocorre justo no saboroso final do outono do Hemisfério Sul.

Amo o frio que faz a partir da segunda quinzena de maio. São aconchegantes dias de curta duração, o ambiente do Sudeste brasileiro não se encontra tão seco como no inverno e os nossos corpos ainda não se sentem saturados das baixas temperaturas. O sol de meio dia é suportável e, se não estiver chovendo ou ventando forte, dá até para pegar uma praia das onze da manhã às três da tarde. À noite, considero prazeroso colocar um agasalho e sair para jantar num restaurante com minha mulher. Mesmo no lar, cai muito bem tomar aquela sopinha, comer um aipim cozido, saborear um mingau temperado com canela ou beber aquele chocolate bem quente. Até nas cidades litorâneas, como aqui no meu município de Mangaratiba, o tempo se torna suave e agradável no Corpus Christi.

No tocante às festividades dos católicos, tenho minhas reservas quanto a determinados atos praticados nas solenidades deles, os quais, em alguns aspectos, não me identifico. Porém, não posso deixar de compartilhar a admiração que sinto pela ornamentação dos logradouros públicos das cidades luso-brasileiras. Acho super bacana aqueles tapetes coloridos que compõem o caminho por onde passa a procissão religiosa. Nesta data (26/05), pude encontrar parte da rua Doze de Outubro toda decorada, na qual fica localizada a Paróquia de Nossa Senhora das Graças, entre as ruas Minas Gerais e Pernambuco daqui de Muriqui.




Em relação a esse costume tradicional dos "tapetes", não tenho nenhuma objeção. Muito pelo contrário! Vejo em tal momento não só uma manifestação da arte e da cultura como também uma bela oportunidade para que haja um entrosamento comunitário, algo que tem ocorrido com menos frequência no Brasil de hoje.

Numa época em que as pessoas já não se identificam tanto umas com as outras, com a violência assustando a todos nós, por que não fazermos das ruas uma quadro vivo de alegria, de fraternismo e de convivência humana? E que tal oportunizarmos o momento da confecção dos tapetes sacros para expressarmos algumas reivindicações sobre justiça social independentemente da religião de cada um?

Penso que as igrejas evangélicas brasileiras perdem muito por não comemorarem do jeito delas este feriado! Tudo bem que o Corpus Christi é uma comemoração dos católicos, surgida na época medieval, mais precisamente no século XIII, sem que tenha uma prescrição bíblica. Sabe-se pela História que fora instituída pelo então Papa Urbano IV (1195-1264) com o objetivo de testemunhar publicamente o mistério da Eucaristia segundo a crença na trans-substancialização do corpo de Cristo na hóstia, a qual é distribuída durante as missas. Todavia, nada impede que cada congregação cristã celebre o feriado a seu modo, conforme a visão espiritual do respectivo grupo, e preservando o que há de bom nas tradições populares.

No meu ponto de vista, devemos sempre procurar atualizar as tradições herdadas dos nossos ancestrais ao invés de rompermos totalmente com elas. No século XIII, Lutero e Calvino nem tinham nascido e a Europa Ocidental era ainda católica romana em sua totalidade. Nós, os brasileiros, adotamos o catolicismo como religião oficial até à Proclamação da República (1889) e recebemos dos portugueses os costumes dos tapetes. Só nas últimas décadas é que o protestantismo e o secularismo tornaram-se de fato expressivos em nossa sociedade de maneira que ainda há na memória de todos nós as lembranças registradas das festividades paroquiais muito mais marcantes até os anos 80 do século XX.

Para concluir, esclareço que, de jeito algum, estou propondo que voltemos ao passado ou que as congregações evangélicas e espíritas submetam-se à autoridade de um pontífice pois isto, a meu ver, seria um atraso. Mas penso que a comemoração do feriado pode e deve contribuir para a unidade cristã de toda a Igreja independentemente dos seus variados segmentos. O pão e o suco tinto de uva ministrados durante a Santa Ceia, eu creio serem símbolos de uma realidade muito maior. Afinal de contas, dentro numa visão não institucionalizada, seríamos todos membros do Corpo de Cristo, o que, por sua vez, já revelaria o mistério eucarístico na qual realmente acredito.

Um ótimo feriado a todos!



OBS: As fotos acima referem-se aos tapetes que vi na data de hoje (26/05/2016) num trecho Rua Doze de Outubro, na qual encontra-se localizada a Igreja Nossa Senhora das Graças, em Muriqui, 4º Distrito de Mangaratiba (RJ).

domingo, 22 de maio de 2016

A fé de uma simples mulher




Embora já tenha lido o livro de Rute umas trocentas vezes desde os tempos de minha infância, eis que, durante a reflexão devocional de ontem, houve algo que chamou a minha atenção. Trata-se da espontânea confissão de fé da personagem, conforme consta na resposta dada à sogra Noemi, quando esta insistiu com as noras que retornassem para as casas de suas respectivas mães enquanto voltava de Moabe para Israel, seu país de origem.

"Rute, porém, respondeu: 'Não insistas comigo que te deixe e não mais a acompanhe. Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus! Onde morreres morrerei, e ali serei sepultada. Que o Senhor me castigue com todo o rigor, se outra coisa que não a morte me separar de ti!" (Rt 1:16-17; NVI)

Recordando-me de outras passagens bíblicas, considerei que a fé dessa humilde mulher estrangeira teria sobrepujado a de muitos notáveis homens quando decidiram seguir o Senhor. Inclusive em relação ao voto do patriarca Jacó, quando fugia ele de seu irmão Esaú e tivera a visão dos anjos passando por uma escada (conf. Gn 28:20-22). Pois, se meditarmos nas condições de pobreza em que Rute e Noemi se encontravam, sendo ambas viúvas e sem terem recebido qualquer promessa diretamente revelada sobre um eventual bem estar futuro em Israel, deve-se observar que se tratou de uma decisão puramente de amor. Um amor pela sogra e também pelo Deus a quem esta servia.

Em outras palavras, Rute não fez exigências condicionais de receber bens materiais na Terra Santa, nem de conseguir um marido que pudesse sustentá-la e torná-la mãe de filhos. Noemi a essa altura já seria idosa, havia se tornado uma mulher pobre e nada teria a oferecer para Rute a não ser a fé no seu Deus. Só que ainda assim ela não se importou com o que pudesse acontecer e, simplesmente, resolveu seguir em frente. Sua decisão foi dividir com a sogra a sepultura já que bênçãos visíveis não haviam.

Quem já leu esse pequeno livro da Bíblia sabe que, no final, Rute arranjou um bom marido dentre os familiares do falecido esposo de Noemi, vindo a se tornar bisavó do rei Davi. Seu nome é depois citado pelo Evangelho de Mateus na genealogia de Jesus, considerando-a umas das ancestrais de honra do Cristo ao lado de Tamar, Raabe, Bate-Seba e, obviamente, de Maria. E aí pouco importa a sua origem estrangeira e moabita (povo inimigo dos israelitas) porque para Deus não há acepção de pessoas.

Assim, aprendo com Rute que não devemos ter uma fé interesseira baseada numa relação de toma-lá-dá-cá com o Criador. Ela, no auge do sofrimento, talvez apenas soubesse que o Senhor "se lembrara do seu povo, dando-lhe pão" (1:6), sendo que a sua pertença à nação de Israel poderia ser recusada devido à inimizade existente com Moabe. Porém, a confiança no Deus de Noemi era tanta que nenhum desses detalhes influenciou na atitude tomada.

Termino esse artigo pedindo, em nome de Jesus, que seja gerada em nós uma fé honesta e desinteressada como a de Rute. Pois, nesse mundo cada vez mais difícil de se viver, fica inviável o homem querer caminhar sem Deus sendo que devemos fazer da Presença do Eterno o verdadeiro alvo a seguir. E que, na semelhança de Cristo, na rude cruz do Mestre, sejamos ali também sepultados para com ele renascermos.

Um ótimo domingo a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro do artista inglês William Blale (1757 - 1827) que mostra Noemi tentando convencer suas duas noras, Rute e Orfa, a retornarem para as casas de suas respectivas mães, conforme extraí do acervo virtual da Wikipédia em https://en.wikipedia.org/wiki/Book_of_Ruth#/media/File:1795-William-Blake-Naomi-entreating-Ruth-Orpah.jpg

domingo, 8 de maio de 2016

Apesar da origem pagã e da mercantilização, o dia das mães tem importância bíblica...




Que essa curiosidade não chegue aos ouvidos dos religiosos fundamentalistas! Pesquisando certa vez na internet, fiquei sabendo que a mais antiga comemoração dos dias das mães tem suas origens mitológicas no paganismo. Na Grécia antiga, a entrada da primavera era festejada em honra de Rhea, a Mãe dos Deuses. Informa a Enciclopédia Britânica que:

"Uma festividade derivada do costume de adorar a mãe, na antiga Grécia. A adoração formal da mãe, com cerimônias para Cibele ou Rhea, a Grande Mãe dos Deuses, era realizada nos idos de março, em toda a Ásia Menor." - Enciclopédia Britânica, (1959), Vol.15, pág..849 apud Wikipédia in http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_das_M%C3%A3es 

Bem, é melhor eu ficar quieto, senão daqui a pouco ouviremos gente dizendo que o dia das mães é coisa do demo, muito embora a Bíblia ensine, no 5º mandamento do Decálogo, que devemos honrar pai e mãe (conf. Ex 20:12; Dt 5:16). Trata-se do primeiro mandamento com promessa e que de modo algum deve ser esquecido por causa da contribuição dos pais na ordem social criada. Ou seja, existe aí uma importância bíblica a ser considerada.

Mas, por outro lado, há que se ter cautela nos dias atuais apenas com a mercantilização dessa data, considerada o "segundo Natal" do comércio. Isto sim seria verdadeiramente preocupante! Aliás, a própria idealizadora do "Dia das Mães", a metodista norte-americana Anna Jarvis, após ter conseguido que o então presidente Thomas Woodrow Wilson reconhecesse as suas comemorações, em 09/05/1914, veio a lamentar por sua criação.

A meu ver, embora haja toda essa nefasta comercialização do Mother's Day, penso que a data precisa ser mantida e recupere o seu objetivo original assim como o Natal de Jesus. A melhor dádiva que um filho pode dar à mãe é a sua presença, não abandonando-a nas horas de dificuldade, dando-lhe alegrias verdadeiras, respeitando-a e amando-a.

No Brasil, o segundo domingo de maio foi oficializado em 1932 por Getúlio Vargas, atendendo aos pedidos feitos pelas feministas da época. E, em 1947, a data passou a fazer parte do calendário oficial da Igreja Católica. Tal como nos EUA, temos aqui os mesmos problemas com a mercantilização dessas comemorações familiares, sendo isto algo que apenas precisamos aprender a lidar, evitando que a compra de bens materiais se torne mais importante do que as carinhosas atitudes de afeto e a insubstituível presença frequente do filho.


OBS: Ilustração acima extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_das_M%C3%A3es#/media/File:Mothers%27_Day_Cake.jpg

domingo, 1 de maio de 2016

A dignidade do trabalhador na Bíblia



"Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado, seja ele teu irmão ou estrangeiro que está na tua terra e na tua cidade. No seu dia, lhe darás o seu salário, antes do pôr do sol, porquanto é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao SENHOR, e haja em ti pecado." (Deuteronômio 24:14-15; ARA)

Ao contrário do que muita gente pensa, a Bíblia possui diversas leis de caráter humanitário, escritas milênios antes da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Esta foi elaborada na época da Revolução Francesa e teve um foco maior nos aspectos dos direitos individuais das pessoas do que em relação às questões sociais, tornando-se bem permissiva quanto à exploração dos trabalhadores na era industrial. Pois, somente com o surgimento do movimento socialista, caracterizado por greves e manifestações dos operários nas ruas, foi que o Estado começou a preocupar-se efetivamente com a criação de normas capazes de limitar o abuso dos patrões.

Contudo, as Escrituras Sagradas sempre cuidaram da proteção e do bem estar dos economicamente mais fracos. Mesmo numa época em que ainda havia a escravidão (nada comparado com as atrocidades praticadas contra os negros no nosso período colonial), os autores bíblicos tiveram verdadeiros vislumbres da justiça social. Segundo a tradição judaico-cristã, foi Moisés quem determinou aos israelitas o pagamento em dia do salário dos trabalhadores levando em conta ai a natureza alimentar da obrigação. Como grande legislador que se tornou, ele não desejava que o povo liberto da opressão dos faraós egípcios agisse de modo semelhante aos seus algozes do passado. Daí a preocupação tanto com os estrangeiros quanto com os nacionais.

O fato é que a pobreza pode acabar virando uma condicionante da liberdade. O trabalhador, por ter que suprir as suas necessidades básicas e da família, aceita, por livre e espontânea pressão, receber salários que são aviltantes. Isto sem nos esquecermos da sua exposição aos riscos profissionais de periculosidade e insalubridade, além da penosidade de determinadas tarefas. Ou seja, o condicionamento faz com que o indivíduo abra mão da qualidade de vida que deveria gozar e, dependendo do caso, negocie até uma parcela da dignidade pessoal que lhe resta.

Assim sendo, penso que não dá para falarmos em direitos trabalhistas sem levarmos em conta a efetividade das políticas públicas de inclusão social, algo que, de uma maneira primitiva, mas atual, foi tratado também na Bíblia, conforme lemos consultando novamente o livro de Deuteronômio:

"Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas cidades, na tua terra que o SENHOR, teu Deus, te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás as mãos a teu irmão pobre; antes lhe abrirás de todo a mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade (...) Livremente, lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres; pois, por isso, te abençoará o SENHOR, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes. Pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra." (Dt 15:7-8,10-11)

Nesta outra passagem citada, mais do que uma simples orientação, pode-se verificar um princípio a ser seguido. Não importa se a assistência será prestada pelo particular ou pelo Poder Público (hoje em dias é mais adequado que se faça obrigatoriamente pelo Estado), o certo é que ela deve ser suficiente e jamais guiada por segundas intenções. Tanto as doações quanto os empréstimos sem usura devem ser aplicados de acordo com as necessidades em cada caso, juntamente com serviços públicos de qualidade para atender os menos favorecidos.

No Brasil de hoje, apesar de ter ocorrido alguns avanços consideráveis nas políticas sociais durante os melhores anos da era petista, muito ainda precisa ser concretizado. Nem todos os trabalhadores conseguem sair do aperto do aluguel e terem a sua casa própria! A inflação abocanha boa parte da renda das pessoas fazendo com que o aumento salarial dado no começo do ano se perca nos meses seguintes. Isto sem nos esquecermos de que os impostos estão por toda parte, em quase todos os produtos e serviços consumidos, mas retornam de maneira bem desproporcional para a população com meios de transporte super lotados e um SUS que mal funciona. Uma doença pode facilmente desestabilizar a vida de quem labora por causa das dificuldades de atendimento na rede pública de saúde e das humilhações que, com frequência, ocorrem nas perícias médicas do INSS.

Porém, como consequência da boa política assistencial, tem-se um benefício coletivo que é a prosperidade geral da nação, como se lê na segunda citação bíblica que fiz acima. O risco de haver pobreza sempre será uma constante em qualquer sociedade por mais que ela evolua. É justamente por isso que a assistência não pode jamais ser negada a quem de fato precisa dela e deve haver continuidade. Logo, fazer uso eleitoreiro das bolsas sociais seria uma enorme perversidade como muitas das vezes ocorre na nossa nação.

Neste primeiro de maio (coincidentemente é o nome da rua onde moro em Muriqui), apesar de nos depararmos com tantas injustiças ainda praticadas, o trabalhador sempre deve comemorar com satisfação a sua data. Precisamos cultivar em nós a esperança por um futuro melhor, transmitindo-a às gerações seguintes e fortalecendo cada vez mais as lutas coletivas por um Brasil digno a fim de que realmente nos tornemos um "país de todos". Pois, como disse o salmista,

"o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente" (Sl 9:18).

Um ótimo feriado para todos!


OBS: A foto acima refere-se a uma manifestação ocorrida na cidade do Porto, Portugal, no dia 1º/5/1980. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia com atribuição de autoria a Henrique Matos, conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:1%C2%BA_Maio_1980_Porto_by_Henrique_Matos.jpg