domingo, 27 de março de 2016

Inovações na última Páscoa celebrada por Jesus



"Chegou o dia da Festa dos Pães Asmos, em que importava [sacrificar] comemorar a Páscoa. Jesus, pois, enviou Pedro e João, dizendo: Ide preparar-nos a Páscoa para que a comamos. Eles lhes perguntaram: Onde queres que a preparemos? Então, lhes explicou Jesus: Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem com um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar e dizei ao dono da casa: O Mestre manda perguntar-te: Onde é o aposento no qual hei de comer a Páscoa com os meus discípulos? Ele vos mostrará um espaçoso cenáculo mobilado; ali fazei os preparativos. E, indo, tudo encontraram como Jesus lhes dissera e prepararam a Páscoa. Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhe: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus." (Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos de 7 a 18; versão e tradução ARA - destaquei)

Tradicionalmente temos o hábito de fazer uma leitura da última Páscoa de Jesus e da Santa Ceia a partir de um ponto de vista, digamos, mais sacramental. Concebemos esse lindo episódio como uma ordenança do nosso Senhor que devemos repetir continuamente em sua memória, tendo por objetivo anunciar o Reino de Deus em sua plenitude (verso 18), o que coincide com a ideia sobre a segunda vinda de Cristo (conf. 1ªCo 11:26).

De fato, a celebração da Ceia corresponde a tudo isso. Porém, antes de mais nada, nunca podemos ignorar que ela foi e será sempre uma expressão da comunhão entre cristãos. Algo vivido espontaneamente por Jesus e seus discípulos ao redor de uma mesa, num ambiente de profunda e autêntica intimidade fraterna.

O dia da Festa dos Pães Asmos acontecia quando os judeus, segundo o calendário bíblico-religioso, sacrificavam o cordeiro pascal (Nm 28:16-25). Tratava-se de uma refeição que deveria ser comida por grupos de famílias israelitas exclusivamente no Templo (Dt 16:5-8), tal como teria sido a comemoração ocorrida durante o reinado de Josias (2Cr 35:1-19).

No dia da Ceia, no entanto, pode-se dizer que Jesus preferiu desafiar os costumes de sua cultura e não ir ao Templo desta vez como havia feito nos dias anteriores para ensinar lá o povo (Lc 21:37-38). Antes o Mestre enviou Pedro e João para que estes preparassem a Páscoa num local ainda desconhecido pelos demais discípulos em que o Senhor parece ter contratado secretamente com o proprietário do imóvel. Quando entrassem em Jerusalém, os dois apóstolos deveriam procurar por um homem portando um cântaro de água, algo incomum naqueles dias porque tais objetos costumavam ser carregados mais pelas mulheres. Os homens transportavam água em odres de pele. Logo, tudo indica que se tratava de um código de comunicação.

Ao que me parece pelos textos dos evangelhos canônicos, Jesus deveria saber que estava sendo traído e resolveu tomar as providências necessárias para que a sua prisão não ocorresse antes daquele importante momento. Se os demais seguidores conhecessem previamente onde seria a Ceia, Judas poderia aparecer no local acompanhado da guarda do Templo. Só que o Salvador pretendia se entregar voluntariamente num outro lugar e na hora que ele entendia ser oportuna.

A última Páscoa de Jesus foi de fato uma ocasião pela qual o Senhor aguardou ansiosamente antes de sofrer o martírio na cruz. Os versos 15 e 16 do cap. 22 de Lucas acima citados expressam o seu desejo intenso por estabelecer uma relação de comunhão com os seus discípulos. Algo que o ambiente do Templo não seria capaz de proporcionar. Neste sentido, vale a pena citar os pertinentes comentários do teólogo italiano Sandro Gallazzi:

"No templo, o centro é o altar. Imenso, visível: uma base de 10 metros, uma altura de 6 metros, o fogo dos sacrifícios sempre aceso. Os cordeiros eram distribuídos ao povo depois de ter sido degolados e depois de os sacerdotes ter recolhido o sangue e feito as prescritas aspersões rituais (2Cr 35,11). A páscoa, comida por todos, era precedida pelos holocaustos imolados no altar do templo. O altar que nos subjuga a Deus e a seus sacerdotes, é substituído pela mesa que nos faz iguais e irmãos (...) A imagem de uma multidão de gente de pé, ao redor de um altar fumegante, encharcado do sangue de milhares de cordeiros, é totalmente diferente de um grupo de amigos reclinados ao redor de uma mesa para condividir um prato de comida." (O Evangelho de Mateus - uma leitura a partir dos pequeninosComentário Bíblico Latinoamericano. São Paulo: Fonte Editorial, 2012, pág. 526)

Refletindo acerca do versículo 17 da passagem bíblica em estudo, encontro no Evangelho uma mensagem que vai bem além do simples ritual. A ordenança de receber e de repartir precisa tornar-se extensiva quanto à vida comunitária dentro da Igreja. Os discípulos deveriam partilhar tudo o quanto tinham afim de satisfazerem as necessidades dos seus irmãos. Quer fossem bens materiais, ensinamentos ou dons espirituais. O cálice do vinho tinto, um momento de alegria festiva dos judeus, deve levar o discípulo de Cristo a uma ação inclusiva de modo que a Igreja não poderia deixar de dividir com quem tem fome e sede. 

Uma conclusão que pode ser tirada é que a Igreja, por ser concebida como um ambiente de comunhão, deveria ser entendida como a formação de uma nova família, o que é diferente de uma reunião de "grupos de casas paternas". E talvez tenha sido este o recado que Paulo pretendeu passar para os membros da congregação em Corinto ao escrever a sua primeira epístola registrada no cânon do Novo Testamento. Significaria que quem não estivesse disposto a dividir, então que fizesse os seus banquetes particulares na própria residência, mas não trouxesse para o convívio da congregação os costumes desiguais de uma sociedade secular injusta:

"Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo." (1ªCo 11:20-22)

Sendo a Santa Ceia um memorial do que aconteceu na última Páscoa celebrada por Jesus, não podem os cristãos se esquecerem que foi dentro desse ambiente alternativo que se estabeleceu um novo pacto ou aliança. E, sendo assim, trata-se de algo muito mais profundo do que podemos imaginar pois tem a ver com as relações de fraternidade que a humanidade alcançada pela mensagem do Evangelho deveria estabelecer.

Desejo a todos uma excelente semana!


OBS: A ilustração acima refere-se a um fresco do Mosteiro Kremikovtsi, Bulgária, do século XVI. A autoria da foto, de 06/05/2011, é atribuída a Edal Anton Lefterov que a dedicou ao domínio público. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Last-supper-from-Kremikovtsi.jpg

sexta-feira, 25 de março de 2016

Descelebrando o autocídio




Numa época do ano em que os telejornais exibem seguidas reportagens sobre as encenações da morte de Jesus, as quais marcam as tradições católicas da sexta-feira da Paixão, poucos são capazes de questionar a idealização feita do seu sacrifício.

Não é preciso ser teólogo para concluir que o personagem Jesus da Bíblia cometeu foi um obstinado autocídio. Basta alguém ler atentamente os evangelhos canônicos que os próprios textos sagrados mostrarão não só a voluntária entrega do nazareno diante dos soldados quando vieram prendê-lo, como também a sua completa falta de empenho em se defender das acusações imputadas nos julgamentos perante às autoridades e a conduta nada conciliadora que tinha com os líderes do judaísmo. Aliás, o violento episódio da expulsão dos vendilhões do Templo de Jerusalém (Mc 11:15-19; Mt 21:12-17 e Lc 19:45-48; conf. Jo 2:13-16) teria oportunizado a sua condenação por provocar uma preocupante desordem social num momento festivo.

Para a ortodoxia cristã, a escolha extrema de Jesus é revestida de nobreza e compreendida como necessária para que a humanidade alcançasse o perdão dos pecados por meio de uma punição substitutiva. Sua crucificação tornou-se tempos depois um ícone da estratégica proselitista adotada pelo cristianismo nos primeiros séculos da era comum ao enfrentarem o poderio imperial romano. Pessoas de todas as idades, inclusive crianças, foram induzidas pelos líderes eclesiásticos do período a fim de optarem pelo castigo e a morte.

Ocorre que o autocídio pode configurar insensatez e irresponsabilidade sob vários aspectos. A princípio, evidencia uma atitude anti-somática por provocar de modo voluntário uma situação que, consequentemente, violentará o corpo do mártir. Logo, ao lado do relato sobre a crueldade dos algozes, nota-se também no nazareno um certo desprezo por si próprio e pelo mundo a ponto de se entregar a uma auto-aniquilação.

Em seu livro Onde a religião termina?, o teólogo e ex-padre Marcelo da Luz faz críticas ferozes à idealização do fanatismo auto-sacrificatório ao considerar o martírio uma conduta contrária à evolução humana:

"O mártir, consciência lavada cerebralmente, julga dar o salto mortal certeiro à conquista da vida eterna, e despreza as chances de aprendizagem terrestre ainda ao seu alcance. Seu aparente amor à vida divina dissimula o medo do perene castigo e o ódio pela vida material à qual pensa abandonar definitivamente. Os mártires são suicidas religiosos totalmente inconscientes quanto ao caminho da evolução, o itinerário sempreaprendente da consciência ao longo do ciclo multiexistencial."(Foz do Iguaçu: Editares, 2011, pág. 144)

Entretanto, informa o autor em sua obra que, entre os cristãos considerados "gnósticos", havia "vários críticos à estratégia martiriológica", os quais possuíam "uma visão diferente do sacrifício de Cristo". Para estes, o sofrimento do salvador teria sido "apenas aparente", mas foram rejeitados pela ortodoxia religiosa que passou a acusá-los de heresias e excomungá-los.

Passado o período das perseguições religiosas ao cristianismo, o modelo máximo de devoção e de santidade idealizada no auto-sacrifício foi mantido pela ascese, incluindo as práticas de penitências, privações e diversas formas de masoquismo. Até hoje, nas tradicionais processões sobre a crucificação de Jesus, muitos cristãos chegam a se auto-flagelar. Nesta sexta-feira mesmo, assisti na TV o depoimento de um homem que afirmou ter caminhado descalço pelas ruas junto com a multidão de devotos em sua cidade.

Refletindo acerca disso, devo admitir que o cristianismo, apesar de sua bonita mensagem de amor ao próximo, trouxe ao mundo terríveis males ao alimentar o fanatismo bem como danosos sentimentos de auto-imolação ao invés de promover a cura contra esses transtornos psíquicos. Toda a idealização que se faz do martírio tem bloqueado até o momento o crescimento pessoal dos seguidores da religião, de modo que a libertação de tais imaturidades poderia muito bem significar a Páscoa que muitos em nossa sociedade tanto precisam para evoluir conscientemente.

Um bom feriado a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro A Crucificação (1622) do artista francês Simon Vouet (1590 - 1649), conforme extraído do acervo virtual da Wikipédia.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Um conselho de estadista na Bíblia




O livro bíblico de Êxodo conta um relato em que Moisés, quando guiava o povo de Israel pelo deserto da Península do Sinai, recebeu a inesperada visita do seu sogro Jetro. Este, no dia seguinte ao encontro com o genro, observou uma situação nada satisfatória no que diz respeito à administração da Justiça e resolveu dar um sábio conselho sobre liderança até hoje estudado e aplicado nos mais meios diversos da vida religiosa ou secular. Ou seja, teria validade tanto para igrejas, como para empresas, governos, escolas, ONGs, partidos políticos e até nos grupos de discussão das redes sociais. Mas vamos primeiramente ao texto antes de serem feitos alguns comentários:

"No dia seguinte Moisés assentou-se para julgar as questões do povo, e este permaneceu de pé diante dele, desde a manhã até o cair da tarde. Quando o seu sogro viu tudo o que ele estava fazendo pelo povo, disse: 'Que é que você está fazendo? Por que só você se assenta para julgar, e todo este povo o espera de pé, desde a manhã até o cair da tarde?' Moisés lhe respondeu: 'O povo me procura para que eu consulte a Deus. Toda vez que alguém tem uma questão, esta me é trazida, e eu decido entre as partes, e ensino-lhes os decretos e leis de Deus'. Respondeu o sogro de Moisés: 'O que você está fazendo não é bom. Você e o seu povo ficarão esgotados, pois esta tarefa lhe é pesada demais. Você não pode executá-la sozinho. Agora, ouça-me! Eu lhe darei um conselho, e que Deus esteja com você! Seja você o representante do povo diante de Deus e leve a Deus as suas questões. Oriente-os quanto aos decretos e leis, mostrando-lhes como devem viver e o que devem fazer. Mas escolha dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganho desonesto. Estabeleça-os como chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez. Eles estarão sempre à disposição do povo para julgar as questões. Trarão a você apenas as questões difíceis; as mais simples decidirão sozinhos. Isso tornará mais leve o seu fardo, porque eles o dividirão com você. Se você assim fizer, e se assim Deus ordenar, você será capaz de suportar as dificuldades, e todo este povo voltará para casa satisfeito'. Moisés aceitou o conselho do sogro e fez tudo como ele tinha sugerido. Escolheu homens capazes de todo o Israel e colocou-os como líderes do povo: chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez. Estes ficaram como juízes permanentes do povo. As questões difíceis levavam a Moisés; as mais simples, porém, eles mesmos resolviam. Então Moisés e seu sogro se despediram, e este voltou para a sua terra." (Ex 18:13-27; NVI - destaquei)

Certamente que muito podemos aprofundar acerca do chamado "princípio de Jetro". Entretanto, pretendo fazer aqui algumas breves ponderações quanto a esse interessante trecho da Bíblia, sendo certo que o primeiro ponto a nos chamar a atenção diz respeito à necessidade de um chefe formar outros líderes para apoiá-lo na árdua tarefa de desenvolver seu ministério, além de sucede-lo no futuro. 

Ora, a narrativa deixa claro que Moisés não tinha tempo e nem condições de resolver todas as demandas que surgiam no meio de seu povo. Nem tão pouco conseguiria dar orientações a todos. Ainda mais na sua época, muitos séculos antes de Montesquieu, em que as três funções estatais (administração, legislatura e judicatura) podiam se reunir nas mãos de um só líder. Logo, a concentração de tarefas nas costas de uma única pessoa tornava o seu serviço cansativo, moroso e insatisfatório para todos, levando uma nação ao inevitável esgotamento. Era chegado o momento de descentralizar.

É evidente que, com a distribuição do trabalho entre os novos colaboradores e Moisés, ficando este apenas com as questões de maior relevância para serem resolvidas, melhoraria consideravelmente a prestação dos serviços à população. Porém, para isto ser alcançado com  sucesso, tornavam-se fundamentais os investimentos na capacitação de lideranças bem como a seleção ética dos que seriam "dignos de confiança".

Nesse sentido, há que se verificar aí o papel educador do Estado. Jetro diz a Moisés que ele deve ensinar o Direito, sejam aos novos líderes como a todo o povo israelita. Logo, ele deveria investir tempo e recursos para que todos pudessem desenvolver a consciência dos seus direitos e deveres, o que podemos considerar como algo preventivo quanto ao surgimento de novos conflitos no meio social.

Considero que os educadores em geral, quer sejam os pais, professores e líderes religiosos, têm muitas das vezes falhado na transmissão de bons princípios éticos. Lamentavelmente, o ensino escolar tornou-se uma massacrante repetição de conteúdo pronto com poucas oportunidades para o desenvolvimento de atividades extra-classe, as quais nem sempre se voltam para o melhoramento do ser humano como pessoa. Nosso jovem é relativamente informado, embora deixe da escola básica sem aquilo que podemos chamar de formação.

Numa pátria que deveria ser educadora (até hoje nunca foi verdadeiramente para todos), carecemos muito da compreensão desse valoroso princípio legado aos povos pelas Escrituras Sagradas. Mas para não ser tão radical em minha crítica, recordo que, durante um tempo, tentou-se ensinar nos estabelecimentos estudantis brasileiros a matéria de Educação Moral e Cívica (EMC), criada na era Vargas. De acordo com o artigo 2º caput do então Decreto-Lei n.º 2.072, de 8 de março de 1940, tal disciplina tinha por objetivo formar na criança e no jovem uma consciência patriótica. Buscava inspirar no espírito do educando 

"o sentimento de que a cada cidadão cabe uma parcela de responsabilidade pela segurança e pelo engrandecimento da pátria, e de que dever de cada um consagrar-se ao seu serviço com maior esforço e dedicação"

Embora já esteja este blogueiro passando aqui para um outro assunto além da Teologia, quero somente concluir pela necessidade de formarmos nas crianças e nos jovens esse caráter cidadão, criando antes um curso nacional obrigatório de reciclagem dos professores. E aí eu diria que a educação precisa estar presente em toda a nossa sociedade sem excluir qualquer instituição estatal. Pois agindo assim estaremos formatando um ambiente propício para a transmissão de conhecimentos éticos, dando condições para que também as famílias participarem ativamente desse importantíssimo processo.


OBS: A ilustração acima refere-se à obra Moisés se despede de Jetro, pintado pelo artista holandês Jan Victors (1619 - 1676), com referência ao episódio bíblico de Êxodo 4:18. No quadro, Jetro encontra-se sentado à esquerda, em vermelho. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia, conforme consta em https://pt.wikipedia.org/wiki/Jetro#/media/File:Jan_Victors_003.jpg 

terça-feira, 15 de março de 2016

Quando o Messias bate à nossa porta...



“Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os seus anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram'. “Então os justos lhe responderão: 'Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?' “O Rei responderá: 'Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram'. “Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: 'Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram'. “Eles também responderão: 'Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?' “Ele responderá: 'Digo-lhes a verdade: O que vocês deixaram de fazer a algum destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo'. “E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna”. (Evangelho segundo Mateus 25.31-46; Nova Versão Internacional - NVI)

Ao proferir este ensinamento, provavelmente os ouvintes de Jesus já deveriam conhecer o trecho que fala dos pastores e das ovelhas do capítulo 34 do Livro de Ezequiel, onde o profeta diz que Deus julgará “entre uma ovelha e outra, e entre carneiros e bodes”(verso 17), numa evidente referência às pessoas da alta sociedade de Jerusalém que oprimiam os mais pobres. Assim, ambas as passagens bíblicas falam de um julgamento em relação ao rebanho, isto é, referem-se ao povo. E o Rei, descrito no Evangelho, corresponde ao Messias, o descendente de Davi que apascentará as ovelhas:

“Porei sobre elas um pastor, o meu servo Davi, e ele cuidará delas; cuidará delas e será o seu pastor. Eu, o SENHOR, serei o seu Deus, e o meu servo Davi será o líder no meio delas. Eu, o SENHOR, falei.” (Ezequiel 34.23-24; NVI)

No entanto, um ponto que muito me chamou a atenção na parábola de Jesus é que, durante o julgamento, o próprio Rei Ungido identifica-se com o sofrimento do seu povo, quando ele diz “o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. Ou seja, o Messias torna-se o nosso próximo!

Muitos, ao lerem este trecho do Evangelho, criam em suas mentes uma imagem de como será o julgamento final, enquanto outros põem em dúvida a doutrina da salvação pela graça. Só que o foco da mensagem é a prática do amor ao próximo manifestado no cuidado que precisamos ter quanto aos diversos tipos de necessitados. Isto porque a missão do Messias consiste na preparação do ser humano para que este compreenda e pratique o maior dos mandamentos – o amor.

Horas atrás antes de publicar originalmente este artigo no meu blogue, em 25/09/2010, ao acessar um site judaico, encontrei a transcrição desse interessante conto que me pareceu bem adequado para fins de reflexão, sendo que destaquei em negrito o trecho que considero mais pertinente:


Uma escola espiritual ia muito bem até que, um dia, seus membros começaram a tentar mostrar uns aos outros que o jeito pessoal de cada um deles era o jeito mais correto de se louvar a D-us.
Isso obviamente começou a causar desavenças e as pessoas que frequentavam a escola começaram a sair. A escola começou a ficar vazia.
Foi quando eles receberam a visita de um tzadik e perguntaram-lhe como fazer para que a escola voltasse a prosperar.
O sábio ficou lá uma semana e, antes de ir embora, lhes disse: "Eu não sei qual é o problema da escola de vocês. Só sei que um de vocês é o Mashiach."
Eles ficaram perplexos com tal afirmação e começaram a especular, cada um por si, sobre qual deles seria o tal Mashiach escondido. Assim sendo, começaram a pensar coisas do tipo: "Fulano poderia ser o Mashiach, pois veja como ele ora com fervor e paixão", ou "Siclano poderia ser o Mashiach, pois ele tem o coração mais puro de todos".
Desta maneira, eles começaram a se olhar apenas com Amor e, assim, tiraram a casca de seus corações que impedia que eles se conectassem pelos corações. Essa conexão é a que permite que entendamos que o outro está muito certo no caminho dele e que, nós não temos o direito de julgar se tal caminho é mais ou menos verdadeiro do que o nosso.
Assim, com essa aura de amor voltando a reinar ali, a Shechinah voltou a pairar sobre eles e as pessoas voltaram a frequentar a escola.
(extraído de http://yedacabala.blogspot.com/2010/06/pureza-do-coracao.html)


Muito bem! Tal como ocorreria numa sinagoga judaica, maiores perplexidades no meio dos cristãos podem ocorrer se algum pastor anunciasse em púlpito, que o Messias estivesse no meio da congregação. Talvez alguns de nós suspeitaríamos da idoneidade do pregador supondo ser ele um falso profeta seguidor do anticristo, pois muitos de nós entendemos que qualquer um que for pregado como Messias será um usurpador. Todavia, se prestarmos a atenção na essência do referido conto, entenderemos que o sábio da história não tinha por objetivo afirmar que um dos integrantes da escola fosse de fato o Messias tão esperado por Israel. O que ele disse serviu para despertar a consciência dos discípulos afim de que, tentando reconhecer o outro como o Messias, eles se reconectassem ao amor.

A ideia do ensino é que sempre quando acolhemos um irmão necessitado, estamos fazendo isto ao próprio Cristo. E aí cabe um questionamento complementar. Pois como poderemos amar a Deus, a quem não vemos, se deixamos de amar o próximo? Na primeira epístola de João, o amor que um homem diz ter por Deus é sabiamente confrontado pela prática de amor ao próximo já que podemos ver e tocar o nosso irmão:

Se alguém afirmar: "Eu amo a Deus", mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão. (1Jo 4.20-21; NVI)

Por acaso temos condições de cuidar de Deus ou de Jesus? Lógico que não! Até porque, segundo os evangelhos, ao ressuscitar e ascender aos céus, Jesus assentou-se à destra do Pai, recuperando toda a majestade que tinha antes da criação. Logo, só poderemos mostrar o nosso amor pelo Messias tratando sem nenhum interesse próprio das necessidades dos irmãos.

Mas o que poderemos dizer acerca do julgamento contido na parábola de Jesus? Então aqueles que não demonstrarem amor estarão condenados ao fogo do inferno?

Bem, não podemos cometer o erro de achar que as Escrituras foram feitas para nos meter medo e pavor de Deus. Contudo, o sentido do ensino contido nos Evangelhos vem mostrar ao leitor o quanto é preciso examinar a cada dia os nossos corações se realmente estamos dispostos a agradar a Deus materializando o benefício diretamente ao próximo.

Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade; e tranquilizaremos o nosso coração diante dele quando o nosso coração nos condenar. Porque Deus é maior do que o nosso coração e sabe todas as coisas. (1Jo 3.18-20; NVI)


Toda essa exposição nos leva a refletir para que sejamos mais atentos às situações em que a vida nos coloca para nunca deixarmos de amar! Pois é pelo amor que seremos reconhecidos como "ovelhas" e não como "bodes", sabendo que, nesta perspectiva, o Messias pode estar a qualquer momento batendo à nossa porta.


OBS: A imagem acima refere-se à situação dos refugiados em Budapeste, Hungria, feita pelo cineasta brasileiro Márcio-André numa viagem à Europa durante o segundo de semestre de 2015, conforme extraído de uma página de notícias no portal da EBC em http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/09/confira-imagens-da-estacao-onde-os-refugiados-se-abrigaram-na-hungria

quinta-feira, 10 de março de 2016

A comunhão entre Moisés e um sacerdote politeísta



"Jetro, sacerdote de Midiã e sogro de Moisés, soube de tudo o que Deus tinha feito por Moisés e pelo povo de Israel, como o Senhor havia tirado Israel do Egito. Moisés tinha mandado Zípora, sua mulher, para a casa de seu sogro Jetro, que a recebeu juntamente com os seus dois filhos. Um deles chamava-se Gérson, pois Moisés dissera: "Tornei-me imigrante em terra estrangeira"; e o outro chamava-se Eliézer, pois dissera: "O Deus de meu pai foi o meu ajudador; livrou-me da espada do faraó". Jetro, sogro de Moisés, veio com os filhos e a mulher de Moisés encontrá-lo no deserto, onde estava acampado, perto do monte de Deus. E Jetro mandou dizer-lhe: "Eu, seu sogro Jetro, estou indo encontrá-lo, e comigo vão sua mulher e seus dois filhos". Então Moisés saiu ao encontro do sogro, curvou-se e beijou-o; trocaram saudações e depois entraram na tenda. Então Moisés contou ao sogro tudo quanto o Senhor tinha feito ao faraó e aos egípcios por amor a Israel e também todas as dificuldades que tinham enfrentado pelo caminho e como o Senhor os livrara. Jetro alegrou-se ao ouvir todas as coisas boas que o Senhor tinha feito a Israel, libertando-o das mãos dos egípcios. Disse ele: "Bendito seja o Senhor que os libertou das mãos dos egípcios e do faraó; que livrou o povo das mãos dos egípcios! Agora sei que o Senhor é maior do que todos os outros deuses, pois ele os superou exatamente naquilo de que se vangloriavam". Então Jetro, sogro de Moisés, ofereceu um holocausto e sacrifícios a Deus, e Arão veio com todas as autoridades de Israel para comerem com o sogro de Moisés na presença de Deus." (Êxodo 18:1-12; NVI - destaquei)

Estava lendo esta passagem na manhã desta quarta-feira junto com a minha esposa Núbia e me veio à ,mente a ideia de como Moisés, o maior de todos os profetas das Escrituras hebraicas, soube lidar com as diferenças culturais e religiosas no convívio com outros povos.

Enquanto os antigos hebreus estavam adotando o monoteísmo (crença num Deus único), as demais nações possuíam cada uma delas um panteão próprio, praticando o politeísmo. Aliás, isto sempre foi algo constante entre os povos espalhados pelos cinco continentes, sendo comum haver também a concepção de um Deus Supremo.

Contudo, no reencontro entre Moisés e o sogro, este manteve-se de certo modo politeísta. Jetro reconheceu o livramento do Senhor quanto ao cativeiro egípcio dos filhos de Israel e identificou o Altíssimo como sendo "maior do que todos os outros deuses" (verso 11).

O mais interessante nesse episódio foi que Moisés não condicionou o sogro a aderir por completo às suas concepções. Eles celebraram uma espécie de culto ecumênico ao Supremo conforme o costume da época de oferecimento de sacrifícios de animais e fizeram depois uma refeição em conjunto.

Hoje em dia, a palavra ecumenismo é equivocadamente demonizada entre a maioria dos evangélicos brasileiros, os quais vivem engaiolados num prejudicial sectarismo religioso. Qualquer ato de culto coordenado com uma liderança de outra religião, até mesmo com católicos ou com espíritas kardecistas (que também são cristãos), caracteriza-se para eles como "coisa do diabo" e, portanto, um suposto pecado.

Entretanto, ser ecumênico não significa adotar um amálgama de crenças. Antes seria reconhecer aquilo que existe em comum com o outro e buscar um entendimento através das semelhanças ou dos pontos de identificação. Nem que seja em relação às causas sociais mais urgentes.

Outra coisa interessante nessa visita de Jetro a Moisés é que o grande líder dos hebreus se dispôs a aprender algo novo com o culto sacerdote de Midiã, homem com quem teria dividido o mesmo teto por quatro décadas em seu exílio. O sogro, além de resgatar o papel da família, ao trazer para a comunidade israelita a esposa e os dois filhos de Moisés, também passa a dar importantes conselhos nos versículos seguintes de 13 a 27 do capítulo 18 de Êxodo, orientando sobre como poderiam ser julgadas as causas de povo de uma maneira mais organizada. Em sua proposta (obviamente sem o moroso sistema recursal brasileiro), caberia a Moisés decidir os processos mais graves ou relevantes enquanto as demandas simples seriam de competência dos juízes a serem estabelecidos. 

Ora, será que os cristãos também não poderiam aprender coisas boas nos contatos com as outras religiões?! 

Por que grande parte das igrejas evangélicas, principalmente as pentecostais, ainda prefere dar as costas para a sabedoria milenar de outros povos que tanto produziram conhecimento empírico hoje aplicável nas áreas da Medicina, Filosofia, Política, Economia, Psicologia e em outras ciências mais?

Embora Jetro fosse um midianita e, talvez, descendesse de Ismael e de Abraão, segundo algumas interpretações das fontes textuais dos versos 25 e 36 de Gênesis 37,  devemos sempre levar em conta o fato dos diversos povos do planeta acreditarem numa Divindade Suprema. Aliás, diga-se de passagem que, na tradição yoruba, que é a origem do candomblé, vários povos do oeste africano sub-saariano têm em Olorum o Criador do Òrun e do Àiyé, o universo conhecido ou ainda desconhecido por nós. Seria para eles o Ser Superior e Criador dos orixás e da humanidade.

A meu ver, pastores evangélicos e líderes dos grupos afro-brasileiros deveriam se reunir periodicamente para celebrarem o Deus Supremo e combaterem a intolerância religiosa cada vez mais crescente na nossa sociedade durante os últimos anos (lembremos sempre da pedrada que uma menina de 11 anos levou no ano passado quando saía de um terreiro de candomblé na companhia da avó). Logo, estabeleceríamos melhor os limites da convivência, criaríamos um permanente canal de diálogo inter-religioso e formaríamos uma maior abertura para um partilhar de experiências construtivas oportunizando o anúncio das boas novas cristãs sem qualquer domínio cultural, respeitando-se as diferenças.

Assim, acredito que o significado interpretativo de cada língua confessar a Jesus, conforme consta numa das epístolas paulinas (Fp 2:11), inclui um aprendizado não destrutivo das demais culturas. Paulo e outros autores do Novo Testamento, ao esculpirem os fundamentos da futura fé cristã em grego, certamente sabiam o quanto a Igreja precisava ainda se enriquecer recebendo contribuições dos diversos povos com suas literaturas, pensamentos e ciências. Do contrário, todos os escritos apostólicos teriam que ser redigidos nos idiomas semitas da Palestina (hebraico e aramaico) e jamais poderiam tomar de empréstimo aspectos literários ou filosóficos da cultura helênica.

A fim de concluir, torço para que a cristandade abra a mente no decorrer deste século. Desejo que tanto os evangélicos como os seus irmãos católicos convivam com maior proximidade entre si e com as demais tradições religiosas do planeta. E, finalmente, que brote o entendimento comum no lugar da desagregadora discórdia proselitista ainda promovida por diversos pregadores oportunistas.


OBS: A ilustração acima refere-se à obra do artista francês James Tissot (1836 - 1902) que retrata o reencontro entre Jetro e Moisés narrado no capítulo 18 de Êxodo, conforme obtido através do acervo virtual da Wikipédia em https://fr.wikipedia.org/wiki/Jethro#/media/File:Tissot_Jethro_and_Moses.jpg

sábado, 5 de março de 2016

Um texto meu sobre a fé de cinco anos atrás

Há cinco anos atrás, quando faltavam alguns meses para conhecer a Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola - C.P.F.G. e este blogue sobre Teologia nem existia, escrevi um texto na minha página pessoal do Blospot sobre como significava as minhas experiências de fé há cinco anos atrás em meio às dificuldades e problemas que enfrentava.

De lá para cá, muita coisa mudou em minha vida. Nem tanto pelos debates que passei a ter com mentes ateias e liberais na blogosfera, mas pelo próprio desgaste das lutas do cotidiano, maturidade pessoal e uma descrença cada vez maior na literalidade dos milagres. Porém, já naqueles dias, eu estava começando a aprender que não deveria depender de resultados alcançados para desenvolver a minha espiritualidade.

Vale a pena conferir até mesmo para podermos debater um pouco acerca da experiência humana fé.


Momentos de Fé




“A fé requer incerteza, confusão” (Philip Yancey)

Hoje acordei bem cedo, às seis horas e vinte minutos, a fim de levar minha esposa ao ortopedista. Desde sexta-feira da semana passada, ela vem se tratando de uma dor no joelho esquerdo numa clínica da cidade, sendo que eu tenho lhe acompanhado nestas consultas.

Desta vez, não cheguei a acordar um pouco antes para fazer minha leitura matinal da Bíblia como de costume, pois fui dormir bem tarde e não nego que tenho passado por um certo desgaste. Há quase um ano que tenho buscado assisti-la com mais atenção nos seus diversos tratamentos médicos, entrando, inclusive, na fila do SUS apenas para tentar marcar consultas médicas, as quais geralmente ocorrem dias ou semanas após. E, depois de ter começado o ano de 2010, ainda não a levei na nutricionista e nem no dermatologista. Sua cirurgia da vesícula ainda está indefinida porque estamos buscando um hospital que faça através de laparoscopia para evitarmos os risco de uma operação aberta.

No entanto, enquanto aguardava o atendimento médico na manhã de hoje, fui tomado por um forte sentimento de frustração. Por volta das sete horas da manhã, quando chegamos na clínica (particular), esta nem ao menos havia sido aberta e os pacientes já formavam fila em pé no lado de fora. Depois, ainda ficamos esperando o médico chegar, os idosos serem atendidos e finalmente chamarem-na por volta das nove e meia.

Além de vê-la com dor, eu não podia esconder o meu desconforto não só por estar envolvido naquela situação. Sentia o cansaço de uma noite mal dormida, as preocupações em dar andamento às minhas atividades (trabalhar, pagar contas, atender pessoas), bem como sentia o mal estar intestinal, recusando-me a utilizar o banheiro coletivo apesar de ser relativamente limpo. Enfim, não desejava estar ali e gostaria muito que minha esposa não passasse por tantos problemas de saúde.

Enquanto ainda esperávamos pelo médico, resolvi refrescar a cabeça e fui até a padaria tomar um café, deixando minha esposa aguardando no desconfortável banco de madeira da clínica. Ao retornar, o médico ainda não estava e a frustração não me deixava.

Contudo, naquele angustiante momento, algo surpreendente aconteceu comigo!

De repente, olhei para todas aquelas pessoas que estavam ali e fui tomado por um forte sentimento de compaixão. Pensei no sofrimento de todas elas, bem como na funcionária que chegou atrasada para abrir a clínica e no médico que todos os dias encara aquela rotina de atender dezenas de pacientes, o que, no final das contas, deve ser cansativo por mais que ele ganhe relativamente bem com aquela atividade. Então fechei meus olhos por alguns instantes e orei em pensamento por todas aquelas pessoas que ali estavam.

Tal atitude mudou radicalmente o que eu vinha sentindo. As cólicas intestinais não passaram e nem o meu cansaço. Também nem o médico chegou imediatamente após. Porém, mudou dentro de mim a maneira de encarar aquela situação. Eu já não me sentia mais vítima de um problema e já não estava mais sendo governado pela situação fática. Comecei a reconhecer a presença de Deus na minha vida e agradecê-Lo por me ajudar em tantas outras coisas. Passei a ver aquela experiência como algo gratificante, uma oportunidade para poder glorificar a Deus. Então comecei a confortar minha esposa e lhe dizer palavras de encorajamento.

Situações reanimadoras como esta da manhã de hoje passaram a ocorrer com mais frequência nos últimos meses em outras ocasiões que experimentei na minha vida.

Houve uma época em que eu me abandonava diante dos problemas. Começava a me sentir só e perdia a consciência da presença de Deus.

Certa vez, quando estava começando a enfrentar meu dia, precisei lutar contra a insegurança e as expectativas das coisas que ainda me aconteceriam. Foi quando então eu me recordei das últimas palavras de Jesus registradas no Evangelho de Mateus: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (28.20b).

Na época de minha infância e começo da pré-adolescência, eu sentia uma nostalgia quando estava terminando de ler os Evangelhos e me deparava com a ascensão de Jesus. Ficava até mais triste com a sua subida aos céus do que com a sua morte porque agora já não temos mais a sua presença física no nosso meio. Ficava imaginando como seria bom se Jesus tivesse permanecido até hoje nesta terra encontrando-se conosco.

Contudo, o Senhor não nos abandonou! E a ascensão aos céus significa que Jesus continua presente em nossas vidas ainda que não o estejamos vendo. Ao lado do Pai e em nós pelo Espírito, Ele continua conosco de uma forma ainda mais especial, conduzindo-nos a experiências fascinantes a cada momento. E, no meu caso, isto vem ocorrendo quando, mesmo em meio às situações do cotidiano, lembro de sua Palavra e decido vivê-la.

De uma outra vez, estava eu indo para o Fórum sentindo o dissabor dos problemas e das lutas que enfrento. Minha mente estava atribulada e mergulhada nas situações cotidianas. Então, lembrei-me que o Senhor não nos prometeu um mar de rosas, mas sim aflições. Na noite da Ceia, horas antes de ser preso, Jesus disse aos seus discípulos: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33)

Prossegui então minha caminhada para o Fórum meditando na parte final deste versículo, trocando a ordem da frase com minhas palavras: No mundo já vencido por Jesus devo ter bom ânimo, mas passarei por aflições. Assim, refletindo na Palavra, fui recuperando meus ânimos e entregando toda a minha ansiedade a Deus naquele momento.

Deste modo, meus caros leitores, tenho percebido que a nossa fé é gerada nesses momentos de dúvida e de dificuldade, quando as coisas neste mundo só nos transmitem incertezas e falta de clareza. É quando nada de sobrenatural no mundo físico acontece, mas decidimos servir a Deus mesmo sem respostas que satisfaçam todas as nossas indagações. Quando tudo nos leva a duvidar e, apesar da ausência de provas, resolvemos crer (confiar) por mais que nossa a mente não queira acreditar.

Lembrar da Palavra de Deus sem dúvida é algo que considero fundamental nessas horas difíceis. Porém, é preciso que, em tais situações, a gente seja capaz de decidir crer, o que independe de meramente acharmos que a Bíblia seja verdadeira ou que Deus de fato existe. Então, quando decidimos crer, obedecemos e agimos conforme a Palavra manda. É aí que a fé se revela e mostra que ela é viva.

O autor anônimo da Epístola aos Hebreus, ao comentar sobre os heróis da fé do Antigo Testamento, diz que eles “da fraqueza tiraram força”, conforme consta no verso 34 do capítulo 11, o que, a meu ver, caracteriza muito bem o que é ter fé.

Que Deus abençoe sua vida e que você possa manifestar fé em todos os momentos de sua caminhada!


OBS: A ilustração acima refere-se à escultura Alegoria da Fé do artista espanhol Luis Salvador Camona (1708 - 1767), sendo os créditos autorais da foto atribuídos a Luis García, conforme consta no acervo virtual da Wikipédia em https://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%A9#/media/File:La_Fe_(L.S._Carmona,_MRABASF_E-108)_01.jpg