segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Nós e as fornalhas ardentes



"Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das suas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer". (Daniel 3:17-18; NVI)

O livro bíblico de Daniel fala da experiência de três rapazes israelitas que, vivendo num país estrangeiro hostil, mantiveram-se fieis a Deus mesmo diante dos desafios enfrentados. Hananias, Misael e Azarias, cujos nomes foram mudados para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego (Dn 1:7), guardaram a fé no Senhor, apesar da cruel sentença de morte proferida contra eles.

Segundo o texto, quem não adorasse a estátua de ouro feita por Nabucodonosor, rei da Babilônia, corria o risco de ser imediatamente lançado numa fornalha de fogo ardente (Dn 3:4-6). Tratava-se de um decreto que não respeitava a liberdade de crença dos súditos, agredindo frontalmente as culturas dos povos conquistados.

Para um judeu seguidor dos ensinamentos de Moisés representa um grave pecado encurvar-se em adoração diante de uma imagem de escultura prestando culto a outro deus (ler Dt 5:7-9). Pois, sendo Deus um Ser totalmente transcendente, tal concepção exclui qualquer representação idólatra da Divindade sob a forma de objetos animados, bem como toda adoração da ordem criada (Dt 4:15-19).

Curioso como que a ameaça de uma morte torturante nas chamas de uma fornalha não acovardou aqueles três jovens! Nem tão pouco acomodaram-se com os elevados cargos que tinham no reino (Dn 2:49). Porém, continuaram firmes no propósito de não pecarem contra o Senhor.

Algo que acho bem interessante nessa passagem seria o fato dos três jovens desconhecerem se escapariam ou não do castigo. Eles responderam ao rei de cabeça erguida e se entregaram por completo à vontade divina. Se o Senhor desejasse, iria livrá-los da fornalha. Do contrário, morreriam queimados mas não adorariam a tal imagem.

Ora, fico pensando se realmente estamos dispostos a ser fieis a Deus mesmo sem sabermos se será da vontade do Senhor tirar-nos de uma complicada situação que surge em nossas vidas por recusarmos agradar ao mundo abstendo-nos do que é mal?!

Será que só iremos prestar a devida obediência a Deus apenas se estivermos imunes contra os acontecimentos desfavoráveis?!

Você estaria disposto a arriscar o seu emprego, todo o conforto que tem e até mesmo os bens que possui por amor ao Senhor?!

Que cada qual procure responder para si mesmo, mas o certo é que, na atualidade, a Igreja tem muitas vezes negado a fé por muito menos. E, embora vivendo num país onde há liberdade religiosa constitucionalmente garantida, não raras vezes os cristãos permitem corromper os seus valores a troco de benefícios pessoais. Deixamos de servir a Deus por oportunismo, vantagens imediatas, facilidades, comodismo, medo de praticar a justiça, constrangimento em desagradar alguém, avareza, apetite carnal compulsivo e indiferença pela dor alheia. Por nossa causa, o nome santo de Jesus é envergonhado na sociedade onde vivemos, sendo conhecida de todos a hipocrisia dos líderes que dizem seguir o Evangelho.

Quer vivamos em ambientes livres ou onde haja perseguição religiosa, precisamos ser fieis ao Senhor e preservarmos a essência dos elevados valores éticos, os quais se mostram a nós no modelo do varão perfeito que temos em Cristo Jesus. Toda a Lei de Deus se resume na prática do amor de modo que, tendo o nosso estre dado a sua vida por nós, devemos oferecer a nossa pelos irmãos (1Jo 3:16). E aí o verdadeiro amor manifesta-se por atitudes sinceras com coragem para dizer não às coisas ruins do mundo que seriam hoje os ídolos modernos.

Termino esse artigo desejando que os exemplos de Hananias, Misael e Azarias sirvam de inspiração para os cristãos da atualidade. Que possamos aprender a servir a Deus mesmo diante dos desafios e independentemente de alcançarmos ou não qualquer livramento imediato das situações, pois nada poderá nos afastar do amor do Senhor. Por onde venhamos a andar, a Divina Presença irá nos acompanhar.

Uma ótima tarde a todos!


domingo, 27 de setembro de 2015

Lembrando das palavras que um dia escrevi...

Durante a década de 90, enquanto exercia Fernando Henrique Cardoso o seu primeiro mandato como Presidente, a opinião pública ficou meio que surpresa quando lhe atribuíram a frase "esqueçam tudo eu escrevi", supostamente justificando a diferença entre o discurso que ele fizera no passado (como um crítico sociólogo autor de livros) e os atos de seu governo. Só que não demorou muito para que a suposta afirmação fosse colocada em dúvida como se lê neste trecho da entrevista concedida ao jornal O GLOBO do dia 24/08/1997:

"Esta frase que eu teria dito: 'Esqueçam tudo que eu escrevi', eu nunca disse a ninguém. Já perguntei um milhão de vezes: a quem eu disse, onde foi que eu disse, quando? Essa é uma frase montada para me embaraçar. Acontece exatamente o contrário: o que eu escrevi dentro das condições da época, tem bastante validade. Houve uma evolução, em alguns pontos, mas a maneira básica de encarar o mundo continua a mesma."

Verdade seja dita que a imagem de FHC como um sociólogo de esquerda perseguido pelo governo militar foi substituída pela figura presidencial. O público já não se baseou mais pela referência que uma parcela culta da sociedade tinha a seu respeito antes de ele ser nomeado ministro do Itamar Franco e se tornar o "pai" do Plano Real (1994). E acho que os jovens eleitores mais alienados, os quais estavam na minha faixa etária de seus 20 anos, simplesmente ignoravam o tempo em que S. Exa. ficou exilado na França...

Mas sem entrar no mérito dessa questão do século passado, será possível esquecermos as coisas que algum dia pensamos depois de tê-las confirmado por meio de palavras pronunciadas ou escritas?

Até que ponto as ideias construídas no passado não estão contribuindo para o nosso presente?

Sempre que releio um artigo escrito por mim anos atrás, encontro opiniões e conclusões que hoje já não tenho mais. Ou que já não encaro da mesma maneira. Noto apenas que já não sou mais o mesmo a nadar no rio de outrora, pois passo a andar por aí como uma "metamorfose ambulante" e me recusando a ficar petrificado dentro de um conceito fechado.

Tal flexibilidade tenho não somente em relação à Política, mas também ao conhecimento da História, do Direito e da Teologia. Pois é o que sinto quanto a um texto meu publicado no portal jurídico Jus Navegandi , cujo título era "Aspectos interessantes sobre o julgamento do apóstolo Paulo". Na época recebi muitos elogios e diversas pessoas enviaram e-mail através do site parabenizando-me pelo artigo. E houve até quem desejasse confirmar qual era a minha orientação religiosa dentro do cristianismo (se católico ou evangélico).

Fazendo cinco anos depois uma releitura, mantenho uma boa parte da análise feita por mim, mas confesso que, se fosse escrever novamente o artigo na atualidade, trataria de mudar algumas coisinhas principalmente quanto à historicidade dos textos sagrados, conforme a versão estabelecida pela ortodoxia cristã. Por exemplo, hoje duvido da atribuição de autoria feita pela Igreja Católica (e seguida pela maioria dos teólogos protestantes) quanto aos evangelhos e ao livro de Atos dos Apóstolos, os quais passei a considerar como obras anônimas. Outra mudança de concepção diz respeito à datação de tais obras que, no meu ponto de vista, não foram elaboradas antes das supostas perseguições de Nero, mas, sim, no século II.

De qualquer modo, por se tratarem de detalhes de pequena importância, não desisto de divulgar o artigo reproduzindo-o integralmente. Por isso, compartilho com vocês o mesmo conteúdo do texto publicado em janeiro de 2010, modificando apenas uns erros de português encontrados, mais precisamente quanto à colocação dos parágrafos:

Aspectos interessantes sobre o julgamento do apóstolo Paulo





O livro de Atos dos Apóstolos, o quinto do Novo Testamento da Bíblia, considerado também uma continuação do Evangelho segundo Lucas, contém preciosas informações não apenas de interesse teológico, despertando a atenção de historiadores e até mesmo de estudiosos do Direito. A empolgante narrativa de 28 capítulos começa na região de Jerusalém, com uma breve conversa entre Jesus e os apóstolos, alguns instantes antes de sua ascensão aos céus, e termina na cidade de Roma, com o apóstolo Paulo cumprindo a sua prisão domiciliar numa casa por ele alugada enquanto aguardava em custódia o julgamento de seu caso pelo imperador romano.

O apóstolo Paulo, sem dúvida, deu uma grande contribuição à expansão da fé cristã no século I da era comum. Depois de ter sido um implacável perseguidor da Igreja, Paulo converteu-se ao cristianismo e começou a pregar o Evangelho por diversas regiões da parte oriental do Mar Mediterrâneo, empreendendo três viagens missionárias que incluíram territórios atuais de Síria, Chipre, Turquia e Grécia.

Contudo, o ex-perseguidor da Igreja tornou-se perseguido. Em muitas das cidades nas quais Paulo exerceu o seu ministério apostólico, ele veio a sofrer uma forte oposição tanto de judeus quanto de pagãos, vindo a ser injustamente preso e violentado sem que houvesse qualquer condenação criminal contra ele. Na cidade macedônica de Filipos, Paulo chegou a demonstrar um razoável conhecimento a respeito dos direitos que tinha como cidadão romano quando as autoridades locais mandaram libertá-lo de sua prisão ilegal.

É importante lembrar que, nos tempos de Paulo, nem todos eram iguais perante as leis de Roma. Uns eram escravos e tratados como mercadorias. Outros eram meros estrangeiros para os romanos, embora vivessem dentro da circunscrição do Império pagando os seus pesados impostos. E existiam ainda aqueles que, por motivo de nascimento, ou de aquisição mediante algum pagamento ao governo, tornavam-se cidadãos romanos e que, portanto, passavam a ter alguns direitos naquela sociedade. Pois Roma era a cidade que governava o mundo no século I e, deste modo, quem tivesse a cidadania romana teria direitos protegidos pelas leis, entre os quais o de receber um julgamento justo, caso fosse feita alguma acusação.

Sendo assim, mesmo naquela época, uma autoridade não poderia jamais prender uma pessoa que fosse cidadão romano sem que houvesse um justo motivo. E muito menos castigar com açoites, dando um tratamento desumano, conforme tinha ocorrido com Paulo e Silas na cidade de Filipos. Logo, Paulo teve que ser libertado e ainda recebeu desculpas das autoridades locais pelo ocorrido.

Contudo, após concluir a sua terceira viagem missionária e retornar mais uma vez para Jerusalém, Paulo veio a enfrentar um processo criminal, o que desperta até hoje o interesse de muitos pesquisadores. Nesta ocasião, o ministério apostólico de Paulo já tinha muitos colaboradores. Lucas diz que, desta vez, quando o apóstolo retornou a Jerusalém, acompanharam-no vários discípulos oriundos de lugares anteriormente evangelizados na primeira e na segunda missão evangelística.

Ao chegar na cidade, Paulo é orientado por Tiago a submeter-se aos costumes dos judeus para evitar conflitos, pois alguns de seus compatriotas tinham espalhado boatos de que o apóstolo estaria negando a Moisés e ensinando os judeus a não circuncidarem mais os seus filhos. Entretanto, a atitude praticada por Paulo, no sentido de externar aos judeus a observância das tradições de seu povo, não foi capaz de evitar a sua prisão. E, justamente quando ele se encontrava no templo judaico, o apóstolo veio a ser repentinamente acusado por alguns de seus compatriotas por ter "profanado" aquele local introduzindo gentios ali, pelo que passaram a espancá-lo e toda cidade ficou tumultuada, de modo que o comandante as forças romanas em Jerusalém precisou intervir para fazer cessar a confusão. Paulo, então, escapou do linchamento, mas ficou detido.

Pouco depois de sua prisão, Cláudio Lísias, o comandante da fortaleza de Jerusalém, tomou a providência de enviar Paulo para o governador da província da Judeia, na cidade de Cesareia, a fim de zelar pela segurança do apóstolo por ser ele um cidadão romano. Lucas, em sua narrativa, chega a transcrever o teor da correspondência que comunicava a sua transferência:

"Cláudio Lísias ao excelentíssimo governador Félix, saúde. Este homem foi preso pelos judeus e estava prestes a ser morto por eles, quando eu, sobrevindo com a guarda, o livrei, por saber que ele era romano. Querendo certificar-me do motivo por que o acusavam, fi-lo descer ao Sinédrio deles; verifiquei ser ele acusado de coisas referentes à lei que os rege, nada, porém, que justificasse morte ou mesmo prisão. Sendo eu informado de que ia haver uma cilada contra o homem, tratei de enviá-lo a ti, sem demora, intimando também os acusadores a irem dizer, na tua presença, o que há contra ele." (ver Atos 23:26-30)

Nos primeiros momentos, a sua prisão havia ocorrido por causa de um tumulto na cidade de Jerusalém. Porém, ao chegar em Cesareia, Paulo passou a ser efetivamente processado pelo sumo sacerdote judeu que pretendia matá-lo como havia sido feito anteriormente com Jesus e com Estevão.
Nesta época, a sede do governo romano na região da Judeia não estava mais situado em Jerusalém e sim em Cesareia. Contudo, o Sinédrio ainda se reunia em Jerusalém onde também havia um comando das forças romanas e, ao que parece, seria uma unidade subordinada ao governador daquela província romana.

Para o comandante das forças romanas em Jerusalém seria mais tranquilo livrar-se de Paulo, mandando-o para junto do governador numa outra cidade, do que suportar toda aquela pressão dos judeus querendo assassinar um prisioneiro que portava a cobiçada cidadania romana. Mais uma vez, tal como no incidente de Filipos, Paulo havia prevalecido de sua cidadania romana, a qual iria lhe assegurar o direito a um julgamento justo, conforme as leis da época. Pois, se Paulo fosse apenas um judeu, provavelmente teria sofrido injustos açoites e teria sido entregue nas mãos dos seus compatriotas para ser julgado e condenado pelo Sinédrio por se tratar de uma questão meramente religiosa. E, caso viesse a ser linchado publicamente como foi Estevão, as autoridades romanas nem teriam com o que se preocupar, se não fosse ele um cidadão romano.

Ao ser conduzido preventivamente preso para a cidade de Cesareia, Paulo ficou distante do foco de tensão, de modo que o seu julgamento ali receberia menos pressões por parte dos judeus do que se fosse realizada uma audiência em Jerusalém.

Interessante perceber que todos esses acontecimentos no final colaboraram que Paulo fosse mais tarde dar prosseguimento ao seu apostolado na cidade de Roma, conforme se verá. Porém, Paulo precisou permanecer por pelo menos dois anos preso em custódia na cidade de Cesareia sob os cuidados do governador da Judeia devido à queixa apresentada pelos judeus, cinco dias depois de ter sido transferido de Jerusalém. Isto porque uma vez sendo formalizada a acusação, foi instaurado um verdadeiro processo criminal dentro dos moldes a época, segundo as leis romanas.

Embora na época não existisse ainda a separação entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, tal como nos dias de hoje, já era proibido uma autoridade condenar um cidadão romano a cumprir qualquer tipo de pena arbitrariamente. Pois, para que alguém fosse morto ou condenado a trabalhos forçados, seria preciso passar por um processo criminal com direito à defesa e à produção de provas, como que se encontra registrado por Lucas em Atos:

"A eles respondi que não é costume dos romanos condenar quem quer que seja, sem que o acusado tenha presentes os seus acusadores e possa defender-se da acusação" (Atos 25:16).

Como ocorre nos dias de hoje numa CPI do Congresso Nacional, o então governador da Judeia, Marco Antônio Félix, procurou tirar vantagens políticas e pessoais a respeito do caso Paulo. Lucas conta que Félix ficou protelando o andamento do processo de Paulo e, com frequência, mandava chamá-lo alimentando a vã expectativa de arrumar alguma propina (Atos 24:26).

Agindo com ousadia, Paulo certa vez chegou a pregar sobre Jesus para Félix e sua jovem esposa Drusila, filha do rei Herodes Agripa. Porém, o governador apenas sentiu-se amedrontado e se recusou a abraçar a fé, tendo mantido contatos com Paulo pelo período de dois anos, deixando-o encarcerado em custódia a fim de agradar os judeus e, talvez, aumentar sua influência política sobre a região.

Segundo a História, Félix tinha um casamento considerado adúltero com Drusila, sob o ponto de vista judaico-cristão, pois ela havia sido casada com Azis de Emesa e, portanto, jamais poderia contrair novas núpcias enquanto vivesse o seu marido. Porém, como ela era filha de Herodes Agripa, a afinidade com aquela influente família da Palestina poderia dar mais poderes a Félix na região.

Ao fim de dois anos depois, Félix foi substituído por Pórcio Festo em seu cargo. O novo governador, na certa desejando conquistar o apoio político dos judeus na região, planejou então realizar logo o julgamento de Paulo em Jerusalém e para isto convocou uma audiência em Cesareia para decidir sobre a questão.

Sabiamente, Paulo utilizou-se de um recurso previsto nas leis romanas – o apelo para César. Isto porque, naquela época, as leis garantiam a um cidadão romano o direito de requerer uma audiência com o imperador, caso entendesse estar sofrendo injustiças no seu processo.

Ao fazer uso desse instrumento jurídico (o apelo para César), Paulo estaria ganhando a sua passagem de ida para Roma, o que, em breve, iria lhe acontecer. Porém, antes disto, Paulo ainda iria prestou um depoimento perante o rei Agripa e à sua irmã Berenice, os quais vieram visitar Festo em Cesareia naqueles dias.

Assim, aproveitando a presença do rei Agripa na cidade, Festo resolve lhe expor o caso de Paulo pedindo-lhe uma orientação, pelo que o governador convocou uma nova audiência a fim de ser colhido mais um depoimento pessoal do apóstolo.

Embora a jurisdição de Festo tivesse sido esvaziada com o apelo de Paulo, o governador ainda pretendia obter o posicionamento do rei Agripa a fim de poder justificar qual seria o motivo das acusações que pesavam contra o apóstolo e que teriam dado ensejo à sua injusta prisão e à manutenção daquela absurda custódia. Festo acreditava que Agripa, por ser judeu, poderia ajudá-lo na compreensão daquele difícil caso para o qual ele não conseguia encontrar uma justificativa já que Paulo não cometera nenhum crime que contrariasse as leis romanas e tão pouco teria profanado a religião judaica. 

Pela lógica do sistema romano, Paulo jamais deveria ter ficado preso! Desde o momento em que foi agredido, em Jerusalém, cabia às autoridades romanas tê-lo protegido dos judeus que tentavam matá-lo, sem restringir-lhe a liberdade. Contudo, essas autoridades desejavam satisfazer às multidões conquistando o apoio político dos líderes judeus e, como não encontraram permissão das próprias leis para permitirem o linchamento de um cidadão romano em praça pública, ficaram todos embaraçados para decidir.

Ora, se dois anos antes Félix recebeu Paulo em Cesareia mantendo-o em custódia por todo este período, longe de Jerusalém, logo precisaria haver um justo motivo que justificasse esta providência excepcional. E, uma vez que outra autoridade assumiu o caso, cabia ao novo governador da Judeia (Festo) julgar Paulo, uma vez que ele havia resolvido levar o caso para Jerusalém a fim de dar andamento ao processo e lá proferir a sentença. Só que, com o apelo de Paulo ao imperador, Festo precisava escrever algo a respeito de seu prisioneiro. E, como não tinha o que dizer para justificar aquela prisão, aproveitou a presença de Agripa em Cesareia para lhe apresentar o caso confiando na possibilidade do rei identificar alguma conduta desabonadora capaz de justificar a restrição de liberdade praticada.

Ousadamente, Paulo aproveita aquela nova audiência perante Festo para pregar o Evangelho perante o próprio governador, Agripa, sua irmã Berenice e várias outras pessoas presentes, demonstrando pouca preocupação com o que poderia ser decidido a seu respeito.

Interessante que Paulo poderia muito bem ter reclamado das injustiças cometidas em seu processo, mas preferiu pregar sobre Jesus para esse público de autoridades corruptas e injustas, fazendo com que toda aquela situação se tornasse mais uma oportunidade para falar a respeito do Evangelho. Em Atos 26:1-23, Lucas reproduz o discurso de Paulo até ser interrompido pelo governador no versículo 24, sendo que a defesa de Paulo perante o rei Agripa representa um emocionante testemunho sobre a sua vida. Paulo não escondeu o seu passado perverso como perseguidor da Igreja e de ex-seguidor da seita dos fariseus. Mencionou sua conversão quando ia prender cristãos na cidade de Damasco, falou sobre a missão evangelística que recebeu e quanto ao trabalho eclesiástico que desempenhou durante seus últimos anos.

Além de Paulo ter informado ao rei sobre o seu passado e a sua vocação apostólica, ele também contextualizou o seu julgamento dentro de uma visão religiosa, "por causa da esperança da promessa que por Deus foi feita" (At 26:6-7), explicando que o motivo pelo qual chegou a ser preso foi o fato de anunciar o arrependimento e a conversão (Atos 26:20-21).

Curioso que, mesmo interrompido pelo governador (Atos 26:24), Paulo conseguiu completar a sua mensagem abordando os principais aspectos da evangelização cristã: o sacrifício de Jesus, a necessidade de arrependimento e de conversão a Deus, bem como a ressurreição dos mortos. Ao prestar um depoimento sobre a sua vida, Paulo foi capaz de reunir na sua mensagem todos os pontos essenciais de uma pregação, agindo com ousadia e liberdade diante de reis e das autoridades da época, ainda que estivesse aparentemente algemado.

Segundo a narrativa de Lucas em Atos, verifica-se que o governador Festo resolveu interromper a pregação de Paulo chamando-o de louco. E, quanto ao rei Agripa, mesmo conhecendo as Escrituras e o que diziam os profetas a respeito de Cristo, preferiu afirmar que "por pouco" teria se tornado um cristão.

De acordo com a História, havia rumores na época de que Agripa vivia uma relação incestuosa com sua irmã Berenice, a qual foi mais tarde amante do imperador Tito. O seu apego ao poder político e a um estilo de vida fora dos padrões judaico-cristãos podem ter se tornado um impedimento para que se convertesse ao cristianismo. Contudo, ao se retirarem do local da audiência e se reunindo separadamente, Festo e Agripa concordaram entre si que Paulo nada havia praticado que merecesse a morte ou a prisão (Atos 26:31).

Dando uma solução para o caso de Paulo, Agripa resolve proferir o seu parecer pela absolvição do apóstolo, justificando a permanência da sua custódia apenas pelo fato do recurso interposto à César (Atos 26:32), como se o uso deste instrumento processual de defesa tivesse sido desnecessário.

Assim, reconhecendo a inocência de Paulo, as autoridades romanas da região da Judeia estavam se justificando formalmente diante do imperador, no sentido de que Paulo era realmente inocente e só estava sendo enviado para Roma porque recorreu para César ao invés de ter aceitado o julgamento ali na Palestina.

Deste modo, Paulo seguiu para Roma com um parecer em favor de sua inocência, o que só contribuiu para a sua absolvição, o que, de fato, veio a ocorrer, segundo sabemos pela História da Igreja, visto que a decisão do imperador não consta registrada na Bíblia.

Importante esclarecer que a decapitação de Paulo, ocorrida anos depois, em nada tinha a ver com os acontecimentos relacionados à sua prisão descrita em Atos dos Apóstolos. Pois, ao deixar Cesareia em um navio, Paulo ainda permaneceu em custódia e continuou neste estado ainda por mais dois anos em Roma (Atos 28:30).

Outra observação relevante é que até então não tinha se levantado nenhuma perseguição declarada do Império Romano contra a Igreja. Os fatos descritos no Livro de Atos dos Apóstolos diziam respeito à intolerância de integrantes do judaísmo e a incidentes ocorridos em algumas cidades com os gentios como em Filipos (Atos 16:16-24) e também em Éfeso (Atos 19:23-41).

Para a época em que foi escrito, Atos dos Apóstolos, ao mesmo tempo, alcançou o objetivo de manter registrada a história inicial da Igreja e, principalmente, encorajar os demais cristãos que tão logo seriam massacrados por Nero, o qual, dentro de um contexto diferente das passagens narradas por Lucas, mataria Paulo e também a outros discípulos contemporâneos a Jesus.

Não demorou muito, Jerusalém veio a ser destruída pelas tropas de Tito durante o governo de seu pai, o general Verpasiano, sucessor de Nero. O templo judaico, tal como fora profetizado por Jesus no Evangelho de Mateus, foi verdadeiramente devastado pelas tropas romanas, restando apenas pedras e ruínas. 

Por tais motivos, pode-se dizer que a maioria dos livros do Novo Testamento, entre os quais Atos e os três primeiros Evangelhos, foram escritos justamente antes da grande perseguição que se levantou por Nero e da destruição de Jerusalém. Não só para que houvesse memória histórica dos acontecimentos sobre a formação da Igreja como também para encorajamento dos cristãos diante das perseguições futuras. E, sem dúvida, Lucas encontrou a melhor maneira para encerrar o seu segundo livro, mostrando Paulo cumprindo dando continuidade ao seu ministério apostólico na cidade de Roma (Atos 28:30-31).


OBS: A ilustração acima refere-se a um quadro pintado por Rembrandt (1606 - 1669) retratando o apóstolo Paulo na prisão. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_the_Apostle#/media/File:Paul_in_prison_by_Rembrandt.jpg 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Compreenda e aprenda a viver o seu tempo!



"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
há tempo de nascer e tempo de morrer;
tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar e tempo de curar;
tempo de derribar e tempo de edificar;
tempo de chorar e tempo de rir;
tempo de prantear e tempo de saltar de alegria;
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras;
tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;
tempo de buscar e tempo de perder;
tempo de guardar e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar e tempo de coser;
tempo de estar calado e tempo de falar;
tempo de amar e tempo de aborrecer;
tempo de guerra e tempo de paz."
(Eclesiastes 3:1-8; ARA)

Estamos diante de uma das mais comentadas passagens da Bíblia muito citada nas pregações religiosas e na literatura em geral devido à grande sabedoria contida em tais palavras. Porém, também é um texto que nos leva a concluir sobre a limitação do nosso conhecimento acerca da própria existência de modo que sentimos dificuldades para compreender qual o "tempo determinado" ou "apropriado".

Muitas vezes erramos por ignorar as estações da vida sendo hoje grande o número de pessoas frustradas por conta disso. Numa época em que a juventude é excessivamente valorizada (por causa dos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade e sua mídia), há quem acabe não cultivando corretamente a maturidade que chega no decorrer dos anos.

Talvez ainda se encontre bem distante do alcance humano estabelecer tendências para todas as coisas pois isso importaria em controlar a dimensão do tempo. Mal conseguimos descobrir quando é a época adequada para certas atitudes. Ou melhor, nem sempre somos capazes de definir a conduta correspondente ao momento atual. Seja em relação à nossa idade, ao contexto histórico e aos diversos períodos de crise que atravessamos, bem como das coisas pertinentes ao nosso próximo.

Por outro lado, tal dificuldade pode estar relacionada com a nossa falta de sensibilidade e até mesmo com a ideia equivocada de que iremos determinar os acontecimentos futuros. Pois, embora dotados do livre arbítrio, nem sempre podemos modificar conforme o nosso bem querer toda a realidade que há em volta. Às vezes seremos mais felizes aceitando alguns fatos superiores à nossa vontade do que passarmos a vida lutando contra eles.

Assim, creio que essa limitação de certa maneira ajuda a nos aproximar de Deus. Pois desconhecendo o homem o seu futuro (Ec 3:11), ele passa a desenvolver uma atitude de reverência para com o Eterno (3:14). Com isso, temos a oportunidade de nos arrepender dos pretensiosos erros e trilharmos o caminho de retorno para o Criador bendito.

Acredito que é andando com Deus e cultivando uma espiritualidade autêntica que conseguimos entender melhor o tempo. Seguindo pelas veredas de luz de sua Palavra, podemos ver claramente onde os pés estão pisando. Então, quando chega cada estação da vida, sentimo-nos mais preparados para enfrentar os desafios que se apresentam e encontramos o verdadeiro propósito existencial capaz de proporcionar satisfatória realização ao nosso espírito. E, como disse o salmista, "nas Tuas estão os meus dias" (Sl 31:15a).

Enfim, você pode aceitar as condições do tempo ou ser esmagado por ele! E esta escolha sábia cabe a cada um fazer e não podemos tomar decisões por ninguém.

Que o Eterno ilumine os nossos caminhos e sejamos guiados pelo seu Santo Espírito!


OBS: Ilustração acima extraída do acervo virtual da Wikipédia sendo a autoria do trabalho atribuída a Meinolf Wewel, conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Jahreszeiten_Jahresringe.jpg