sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A entrada triunfal e o modelo do governante humilde



Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: "Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo encontrarão uma jumenta amarrada, com um jumentinho ao lado. Desamarrem-nos e tragam-nos para mim. Se alguém lhes perguntar algo, digam-lhe que o Senhor precisa deles e logo os enviará de volta". Isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta: "Digam à cidade de Sião: ‘Eis que o seu rei vem a você, humilde e montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta’". Os discípulos foram e fizeram o que Jesus tinha ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou. Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: "Hosana ao Filho de Davi! " "Bendito é o que vem em nome do Senhor! " "Hosana nas alturas!" Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou agitada e perguntava: "Quem é este?" A multidão respondia: "Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia". (Mateus 21:1-11; NVI - destaquei) 

Na última semana que antecede o Domingo de Páscoa, os cristãos tradicionalmente celebram o chamado "Domingo de Ramos", comemoração que relembra a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém descrita pelos evangelhos. Trata-se de um episódio que, nos sinóticos, é seguido pela purificação do Templo judaico, quando o Mestre havia expulsado de lá os cambistas e vendedores de animais.

Entretanto, umas das cenas que mais caracteriza esse momento bíblico refere-se ao fato de ter Jesus montado num humilde jumentinho que, no relato de Mateus acima citado, seria então um animal bem novo necessitando até da companhia da mãe para ser periodicamente amamentado. E, como bem podemos observar pela leitura do texto, Jesus realmente planejou tudo aquilo consciente da passagem profética do livro de Zacarias.

Ora, antes mesmo daquela época, já era costume que um rei fosse honrado cavalgando um animal. Assim havia feito Davi na coroação de Salomão quando fez o herdeiro do trono entrar em Jerusalém montado na sua mula (conf. 1Rs 1:33-44). Por sua vez, o estender dos mantos pelo caminho do messias também guardava um significado semelhante como ocorreu na unção de Jeú como novo monarca de Israel (2Rs 9:13). Aliás, até na nossa história, encontramos as idealizações do Grito da Independência e da Proclamação da República com os seus principais personagens, D. Pedro I e Marechal Deodoro, em cima de um cavalo, a exemplo dos célebres quadros de Pedro Américo e Henrique Bernardelli, respectivamente.

Mas afinal de contas, por que teria Jesus se inspirado na leitura de Zacarias 9:9 ao invés de se apresentar de maneira que sugerisse um porte rígido e marcial, talvez sobre um daqueles imponentes cavalos árabes? Bem, se formos ao texto do profeta, acredito que encontraremos lá algo que nos leve à resposta desejada:

Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém! Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e os arcos de batalha serão quebrados. Ele proclamará paz às nações e dominará de um mar a outro, e do Eufrates até aos confins da terra. (Zacarias 9:9-10 - o destaque é meu)

Acredito, meus amigos, que a reivindicação messiânica exposta no episódio da Entrada Triunfal teve por objetivo promover uma inversão de valores. Antes de subir de Jericó para Jerusalém, a mãe de Tiago e João havia formulado um pedido bem "nepótico" a Jesus, querendo que seus dois filhos ocupassem as posições de maior destaque em seu futuro reino, assentando-se um à direita e o outro à esquerda. Mas a este respeito o Mestre muito bem respondeu quando os demais discípulos se indignaram contra a pretensão dos dois apóstolos:

Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos". (Mateus 20:25-28) 

O ministério de nosso senhor certamente teve um propósito diferente dos demais governantes e líderes revoltosos de seu tempo. Jesus veio com uma nova proposta que chamava de "Reino de Deus" onde os valores divergem da relação dominadora entre o monarca e seus súditos. Caberia ao rei e a seus ministros servirem ao povo buscando satisfazer às necessidades da população. E ainda que os presentes no episódio em comento não devessem ter tal concepção (suponho que muitos ali preferissem um messias montado num cavalão poderoso usado pelos soldados), será que aquele ato profético não teria deixado as pessoas com uma pulga atrás da orelha?

Hoje em dia, 125 aós após a Proclamação da República, muitos políticos brasileiros quando se candidatam nas eleições dizem que querem servir ao povo. Só que, na verdade, tudo não passa de mera demagogia pois o que temos visto por aí são prefeitos, governadores e parlamentares sendo muito bem servidos e ainda roubando o dinheiro público. Parece que o absolutismo monárquico ainda se encontra bem entranhado na maneira de pensar da sociedade brasileira não passando os discursos nos palanques de uma falsa humildade.

O fato é que só conseguiremos seguir os grandiosos passos do Mestre através de atitudes coerentes. Quer venhamos a exercer uma liderança política ou religiosa, precisamos cultivar um permanente hábito de doação em nossas vidas como fez Jesus ao se entregar "em resgate por muitos". Pois só assim estaremos revolucionando essa triste realidade de submissão e de exploração que acompanha a humanidade há milênios.

Um ótimo final de semana a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao afresco Entrada triunfal em Jerusalém, 1320, pintado por Pietro Lorenzetti (c. 1285 — 1348), o qual se encontra na Basílica de São Francisco, Assis, Itália, conforme extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Domingo_de_Ramos#/media/File:Assisi-frescoes-entry-into-jerusalem-pietro_lorenzetti.jpg

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Cristianismo x Islamismo: o inevitável Choque de Civilizações

"Nenhum de vocês crê verdadeiramente até que deseje aos outros o que deseja para si mesmo." Maomé, fundador do Islamismo

Por Hermes C. Fernandes

O mundo ocidental tem assistido horrorizado às barbáries perpetradas pelo mais cruel grupo terrorista dos últimos tempos: o Estado Islâmico. Diferentemente de outras redes terroristas como a Al-Qaeda, o EI tem empregado recursos dramáticos na execução de prisioneiros, filmando e difundindo pelas redes sociais imagens de decapitações em massa, afogamentos e incinerações de prisioneiros confinados em gaiolas, homossexuais empurrados do alto de edifícios, além de destruição de sítios arqueológicos importantes. Tudo isso, somado ao radicalismo religioso de alguns grupos do Islã têm despertado ojeriza por parte das sociedades ocidentais.

Lembro-me de que pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas, fui visitar minha irmã Odília que morava em Newark, cidade vizinha à Nova Iorque. Na manhã do ataque terrorista, ela tinha uma entrevista de emprego lá, mas graças à providência divina, perdeu a hora. Ao acordar, assistiu da janela do seu quarto à queda do World Trade Center. Foram dias de muita apreensão por parte da minha família que não conseguia contatá-la. Tão logo tive oportunidade, aproveitei minha ida à Flórida na companhia de um amigo para esticar até Nova Iorque. Na fila para embarcar, enquanto éramos minuciosamente revistados, mesmo depois de termos passado por detectores de metais, notamos que um homem que usava um turbante árabe passou direto. Todos na fila demonstraram preocupação com a cena seguindo-o indiscretamente com os olhos. Naqueles dias, qualquer um que embarcasse num voo comercial usando turbante era considerado um forte candidato a terrorista. Ao chegar na porta da aeronave, aquele homem abriu o paletó e exibiu à tripulação sua insígnia. Era um agente do FBI. Todos suspiraram aliviadamente. Mesmo assim, a tensão persistia. Durante todo o voo, duas comissárias de bordo se alternavam ao microfone, brindando-nos com um verdadeiro stand up comedy no afã de aliviar as tensões. Quando avistamos os arranha-céus da Big Apple pela janela, a tensão aumentou consideravelmente. Ninguém mais conseguia prestar a atenção nas comissárias. Bastou que as rodas do avião tocassem no solo para que os passageiros irrompessem num barulhento e demorado aplauso. Ufa! Havíamos sobrevivido.

Sinceramente, não queria estar na pele de um muçulmano que morasse ou pretendesse visitar os Estados Unidos naqueles dias.

Da última vez que morei com a minha família nos Estados Unidos, entre os anos de 2009 e 2011, meus filhos estudaram numa High School próxima de nossa casa em Lake Mary, na Flórida. Minha filha caçula, Revelyn, contou-me de sua preocupação com um colega Iraniano que era hostilizado pelos colegas. Como se não bastasse sua religião e nacionalidade, ele não sabia falar uma única palavra em inglês. Revelyn perguntou-me se haveria algum problema se ela se propusesse a ajudá-lo. Senti-me orgulhoso por sua iniciativa. Durante aquele período escolar, minha filha foi sua amiga e incentivadora.

Ser muçulmano não significa ser terrorista. Na verdade, ninguém deveria ser julgado por sua opção religiosa, nacionalidade ou etnia.

Enquanto minha filha fez amizade com um muçulmano, meu filho Rhuan fez amizade com uma jovem egípcia (bonita, por sinal), uma cristã copta, de uma família extremamente austera. Lembro-me do constrangimento que ele passou com o pai da menina ao visitá-la. Ele chegou em casa ofegante e visivelmente assustado, dizendo que nunca mais queria passar por aquilo novamente. O pai achou que ele queria pedi-la em namoro e praticamente o escorraçou da casa.

Quando estávamos para voltar para o Brasil, fizemos um Moving Sale, expondo nossos móveis e utensílios domésticos em nossa garagem com o objetivo de vendê-los por preços módicos. Nossa vizinhança era bem diversificada. Tínhamos vizinhos de várias partes do mundo, e muitos deles vieram checar nosso material. Chineses, judeus, mexicanos, porto-riquenhos, guatemaltecos e... egípcios. Isso mesmo. Aquela querida família encostou sua van em frente à nossa garagem e veio nos visitar. Não vieram para se despedir, nem para se desculpar pelo episódio em que meu filho foi escorraçado de sua casa, mas para aproveitar as pechinchas. Pechinchar é uma prática comum neste tipo de venda de garagem. Mas eles extrapolaram. O pai tinha um bloquinho nas mãos, onde anotava tudo, perguntando o preço de cada item. No fim, ele somou os valores e fez uma oferta bem inferior ao total. Tentei argumentar com ele, mas não deu. Acabei vencido pela sua insistência. Ele arrematou boa parte de nossas bugigangas. Até aí, tudo bem. Pelo menos nos livramos de tudo aquilo. O único problema é que eles ficaram de voltar mais tarde para pagar. Já faz quatro anos que retornamos ao Brasil e até agora, nada. Apesar do calote, eram cristãos coptas, da mesma tradição religiosa daqueles cristãos que foram decapitados pelo EI por não negarem sua fé em Jesus.

Jamais julgaria todos os cristãos coptas do mundo por causa da atitude daquela família. Assim como não julgo todas as igrejas brasileiras tomando por base algumas que usam os veículos de comunicação de maneira agressiva e antiética.

Posso assegurar que a maioria dos seguidores de Maomé não aprova o que tem sido feito em nome de sua fé por grupos fundamentalistas radicais. São homens e mulheres de bem, zelosos de suas tradições e valores, que trabalham com afinco para garantir a subsistência de suas famílias.

Assim como há maus cristãos, também há maus muçulmanos. Que direito temos de medir uns pelos outros?

Nem todo muçulmano é terrorista, como nem todo pastor é um explorador da fé, e nem todo padre é pedófilo. Cada um deve ser avaliado de per si. Pelos frutos conhecereis a árvore, alertou-nos Jesus.

E quanto ao EI? Como deveríamos nos posicionar quanto a esta milícia terrorista? Deveríamos pagar com a mesma moeda?

O EI é para o Islã o que as Cruzadas foram para o Cristianismo. Foram necessários séculos para que alcançássemos um grau de civilidade que nos permitisse perceber o quão distante estávamos daquilo que Jesus nos ensinara. E o que dizer da Santa Inquisição? Quantos foram condenados por tribunais eclesiásticos, sendo torturados com requinte de crueldade e queimados vivos por serem considerados hereges! Por que digo isso? Para relembrar que temos telhado de vidro.

O Islamismo é uma religião bem mais nova que o Cristianismo. Eu diria que é a caçula dentre as grandes religiões monoteístas. É inevitável que haja grupos sectários que não entenderam bem a proposta de sua religião. Quando digo “não entenderam bem”, estou afirmando que há muitas maneiras de se entender. Se nem a Bíblia está imune a interpretações equivocadas, que dirá o Alcorão. O problema não é o livro ou a religião em si, mas o estado do coração humano, carregado de ódio e preconceito.

Para que o ciclo do ódio seja quebrado, faz-se necessário apelarmos ao perdão, não à vingança.
Recentemente, foi criada a primeira brigada cristã iraquiana com a tarefa de retomar as cidades e localidades cristãs das mãos dos jihadistas do EI.

Os novos soldados marcharam e saltaram sobre pneus em chamas diante de uma fileira de autoridades curdas e assírias em Fishkabur, no nordeste do Iraque, lembrando cenas de produções cinematográficas americanas.

Após a invasão americana de 2003, muitos cristãos iraquianos deixaram o país, enquanto outros preferiram manter a discrição em um momento em que o país mergulhava na violência. Porém, alguns destes remanescentes decidiram tomar as armas nos últimos meses, formando várias milícias cristãs.

Não demoraria muito para que, imbuídos de um sentimento revanchista, as milícias cristãs se espelhassem em seus próprios inimigos. No dia 28 de maio de 2015, um soldado cristão membro das forças curdas decapitou um militante do EI na Síria. A decapitação do jihadista teria sido um ato de vingança pela morte de centenas de cristãos pelas mãos do EI, incluindo homens, mulheres e crianças. O soldado cristão escolheu matá-lo usando o mesmo método brutal de execução que se tornou uma marca do grupo terrorista, adicionando-se a isso o fato de ter sido obrigado a cavar a própria cova antes de ser executado.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma ONG exilada, sediada no Reino Unido, destacou que há muita discussão se “as ações do soldado cristão sírio não-identificado foram corretas ou morais sob a ótica do cristianismo”. Ainda segundo o artigo publicado pela ONG, se  “o motivo da decapitação foi uma vingança, o assassinato poderia ser interpretado como um crime de guerra”.[1]

Quem diria...uma ONG tendo que aguçar nossa consciência, lembrando-nos que condutas como esta destoam completamente do que foi ensinado por Jesus.

Em abril de 2012, o polêmico pastor norte-americano Terry Jones queimou exemplares do Alcorão, além de uma representação do profeta Maomé para protestar contra a prisão do pastor Youcef Nadarkhani no Irã. O Pentágono veio a público pedir que o pastor reconsiderasse os atos, alegando que seu inconsequente protesto poderia prejudicar soldados americanos no Afeganistão. Em 2010, ele já havia ameaçado fazer o mesmo, mas foi dissuadido pelas autoridades. Como previsto, o insano protesto provocou uma onda de violência no Afeganistão e no Oriente Médio.

Em 11 de setembro de 2013, Terry Jones foi detido na Flórida antes de queimar 2.998 exemplares do Alcorão como protesto pela passagem do décimo segundo ano de aniversário dos atentados que derrubaram as Torres Gêmeas, matando número equivalente de pessoas.

Por favor, alguém avise a este pastor que se sua intenção é a de chamar a atenção para si, ele conseguiu. Mas como efeito colateral, ele só fez aumentar a animosidade entre o mundo islâmico e o "grande Satã" (maneira como alguns islâmicos radicais se referem aos EUA).
Definitivamente, não precisamos de novas cruzadas. Aliás, jamais precisamos delas. Em vez disso, carecemos de homens e mulheres dispostos a levar a sério os ensinamentos de Jesus, permitindo que seu amor extrapole as fronteiras religiosas.

Jamais nos esqueçamos de que, na qualidade de seguidores de Cristo, “as armas de nossas milícias não são carnais, mas poderosas em Deus para destruição de fortalezas” (2 Co. 10:4). Portanto, em vez de balas, bombas, espadas, nosso arsenal é composto de amor, perdão, acolhimento e oração. As fortalezas contra as quais marchamos são as do preconceito, do ódio, do desamor e de tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana.

Em meio a tanto ódio, sempre nos surpreendemos com lampejos de amor.

No primeiro dia de fevereiro de 2011, o mundo foi impactado por uma foto postada no twitter em que cristãos coptas do Egito faziam um cordão de isolamento para proteger os muçulmanos em sua hora de oração em plena Praça Tahrir no coração da cidade do Cairo. Milhares de egípcios saíram às ruas para protestar contra o governo, sendo duramente recebidos por forças policiais. Chegada a hora em que os muçulmanos tradicionalmente se ajoelham em direção a Meca para orar, os cristãos presentes ao protesto formaram uma corrente humana para protegê-los dos cassetetes da polícia.

São exemplos como este que nos fazem voltar a ter esperança no convívio pacífico entre os homens.

Estes cristãos coptas decidiram viver o mandamento de Jesus às últimas consequências. Cada golpe que levavam nas costas para proteger os membros de uma religião considerada rival fazia-os lembrar das palavras de Jesus: “Amai-vos uns aos outros...”

Pouco mais de dois anos depois, em agosto de 2013, muçulmanos se uniram aos cristãos para protegerem suas igrejas de serem destruídas. Naqueles turbulentos dias, dezenas de igrejas e escolas, além de casas e lojas pertencentes a cristãos foram atacados no Egito por um grupo chamado Irmandade Muçulmana. Em um dos ataques, membros deste grupo jogaram coquetéis molotovs num centro comunitário cristão que ajuda crianças de rua, sejam elas cristãs ou muçulmanas. Apesar de ninguém ter ficado ferido, este ataque causou consternação entre muçulmanos e cristãos. Depois deste ataque, uma multidão formada por pessoas de ambas as religiões dirigiu-se a uma igreja para impedir que fosse depredada. Esta atitude desencadeou uma onda do bem em que cristãos e muçulmanos se uniram para apagar incêndios em igrejas ou conter ataques em outras cidades. Vigílias eram feitas ao redor de templos cristãos para impedir que fossem depredados.

Não precisamos concordar em tudo para que somemos esforços pelo bem comum. Mas, por mais constrangimento que possa causar em alguns, o fato é que muçulmanos e cristãos têm mais em comum do que a maioria esteja disposta a admitir.

O Deus a quem veneram é identificado como o mesmo que revelou-se a Abraão. "Allah" é simplesmente a palavra árabe para "Deus" (que também não é nome próprio). Basta pegar uma Bíblia ou Torá escritas em árabe, para constatar isso. É interessante reparar que o som da palavra hebraica "El" (de onde provém "El Shaday" e outros nomes compostos usados pelos hebreus em referência a Deus), assemelha-se mais ao som da palavra "Allah" do que o vocábulo português "Deus", que por sua vez se origina do vocábulo grego "Théos" usado fartamente nas epístolas paulinas. Isso se deve ao fato de que tanto o árabe, quanto o hebraico e o aramaico serem línguas semitas. Os hebreus comumente se referiam a Deus como "Eloha" ou em sua forma majestática "Elohim". Alguns acreditam que a palavra "Allah" seria uma corruptela de "Eloha."[2]

Apesar de judaísmo, cristianismo e islamismo terem conceitos diferentes acerca de Deus, eles O identificam como o Criador dos céus e da terra, sendo considerados "Fés Abraâmicas". Tanto judeus quanto muçulmanos, por exemplo, rejeitam as crenças cristãs da Trindade e da Encarnação Divina.  

Mesmo que não reconheçam a divindade de Jesus, prezam-no como o Messias[3] e um grande profeta. Seu respeito por Ele é tamanho, que cada vez que pronunciam o Seu nome, repetem a frase “Que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele”. Entre muitas coisas, eles creem em Seu nascimento virginal, nos milagres descritos nos evangelhos, em Sua ascensão ao céu e em Seu retorno no último dia. Eles também creem que não serão os únicos a serem salvos, “mas também os seguidores de outras religiões divinas e monoteístas quando praticam e seguem as suas doutrinas autênticas e puras as quais foram reveladas aos profetas Moisés e Jesus filho de Maria.”[4] e Obviamente que temos inúmeras diferenças que não podem ser desprezadas. Todavia, isso não nos impede de amá-los e respeitá-los em sua própria fé.

Uma das coisas que mais aborrecem a comunidade islâmica é o desrespeito à figura de Maomé, seu profeta. É difícil para um muçulmano compreender a razão pela qual Maomé tem sido execrado pelos cristãos, enquanto eles fazem questão de honrar a figura de Jesus.

Alguns mais radicais demonstram ser capazes de qualquer coisa para vindicar a honra de seu profeta. Não admitem brincadeiras, piadinhas, caricaturas envolvendo aqueles que consideram o mais importante porta-voz de Deus para a humanidade.

Mesmo sendo irrestritamente a favor da liberdade de expressão, penso que deveríamos, ao menos, respeitar a sua devoção e evitar profanar o que lhes é tão caro. Não é porque estamos acostumados a ouvir piadinhas envolvendo a nossa fé que vamos nos achar no direito de fazer o mesmo com a fé alheia.

O que o mundo espera de nós é que sejamos coerente com aquilo que Jesus nos legou. “Nisso conhecerão que sois meus discípulos”, afirmou, “se vos amardes uns aos outros.”

Somente um choque de amor poderá evitar um choque de civilizações.[5]

Enquanto muitos cristãos preferem manter distância do mundo islâmico, temendo por sua vida, ou por puro preconceito, um número crescente de muçulmanos tem se convertido a Cristo através de sonhos. De acordo com Karel Sanders, missionário cristão na África do Sul, 42% dos recém convertidos entre africanos muçulmanos vieram a Cristo através de sonhos e visões. O fenômeno também tem ocorrido entre outras comunidades muçulmanas, como os Tausugs nas Filipinas, onde muitos fiéis relataram ter visto Jesus em seus sonhos após o Ramadã (mês em que os muçulmanos praticam um ritual de jejum). Há relatos no Iraque, na Turquia, no Turcomenistão e Quirguistão.

O mesmo Jesus que apareceu a Saulo de Tarso no caminho de Damasco, segue se manifestando pelo mundo afora, sem respeitar nossas convenções e conveniências.

Talvez isso seja um recado claro à igreja, de que o mundo islâmico tem grande importância para Cristo. Mas para apresentar-lhes o evangelho, temos antes que aprender a amá-los, compreender suas tradições, despojando-nos de nossos preconceitos e receios.



[1] http://www.ebc.com.br/observatorio-sirio-dos-direitos-humanos
[2] A palavra Alá está na origem de algumas palavras do português  como "oxalá" (w[a] shā-llāh, "queira Deus"), "olá", "olé" (w[a]-llāh, "por Deus") e "hala" (yā-llāh, "oh, Deus").
[3] Alcorão: 5:75
[4] Confira no site: http://www.ibeipr.com.br/perguntas_ver.php?id_pergunta=22
[5] Choque de civilizações é uma teoria proposta pelo cientista político Samuel P. Huntington segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos serão a principal fonte de conflito no mundo pós-Guerra Fria

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OBS: Texto extraído do blog do autor em http://www.hermesfernandes.com/2015/08/cristianismo-x-islamismo-o-inevitavel.html

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Ser FELIZ em Cristo



"Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se! Seja a amabilidade de vocês conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus. Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas. Tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim, ponham-no em prática. E o Deus da paz estará com vocês." (Filipenses 4:4-9; NVI)

A Bíblia pode ser mesmo considerada uma manual de vida e aplicável às diversas situações do nosso cotidiano? Acredito que sim, meus caros leitores, sendo possível construirmos uma interessante teologia da felicidade através de um estudo atento dos textos sagrados.

Na citação feita acima, o apóstolo Paulo escreve aos cristãos da cidade macedônica de Filipos que cultivassem a alegria entre eles. Era algo que deveria ser realizado de modo contínuo e "no Senhor", o que significa estarem sempre buscando meios de não se deixar dominar pelo sentimento contrário (a tristeza), reagindo com fé e colocando Deus em todos os aspectos de suas vidas.

Embora muitos céticos e ateus critiquem a nós cristãos, acusando-nos de criar uma "ficção religiosa" diante dos problemas, tenho aprendido que o exercício da fé ajuda a tornar o homem mais feliz no seu caminhar. Pois, quando nos deparamos com os desafios do cotidiano, com as perdas de bens ou de pessoas queridas, podemos colocar todas as situações diante do Senhor. Por meio da oração, encontramos paz, sabendo que temos ao nosso lado um Deus que é sempre presente: "Perto está o Senhor" (verso 5b).

Interessante que esse sábio ensino de Paulo tanto pode servir de antídoto contra a tristeza como para a ansiedade, ambos males que a todo instante afetam o homem moderno. E aí o autor fala de algo importantíssimo que seria a guarda do coração e dos pensamentos (v. 7).

Muitas vezes, amados, uma pessoa pode estar frequentando a sua congregação religiosa, fazendo rotineiras orações, agradecendo a Deus antes de cada refeição ingerida e até mesmo lendo a Bíblia todos os dias, porém ainda não sabe como monitorar o que pensa. As ideias ruins pousam em sua mente e fazem ninho ali. Tal como ocorre no primeiro exemplo da célebre Parábola do Semeador contada por Jesus nos evangelhos sinóticos (Mt 13:1-9; Mc 4:3-9; Lc 8:4-8), a boa palavra acaba sendo subtraída pelas notícias ruins dos jornais, pela futilidade de certos acontecimentos nos quais ficamos concentrados, pelas preocupações excessivas com as coisas terrenas (geralmente incertezas quanto ao futuro), temores irracionais, ideias maliciosas, etc.

Entretanto, o ensino final desse trecho do Novo Testamento que transcrevi mostra o quanto devemos conscientemente organizar os pensamentos. Cabe ao cristão selecionar e fixar na mente aquilo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, de boa fama, virtuoso e louvável. As ideias negativas podem até nos assaltar de maneira repentina e involuntária, contudo, ao diagnosticarmos a "invasão", cabe a nós tentar compreender a causa da tristeza ao mesmo tempo em que damos um pronto combate com os recursos espirituais disponibilizados por Deus: orar com fé e meditar nos bons ensinamentos.

No livro não canônico de Eclesiástico (não confundir com Eclesiastes), presente na Bíblia dos católicos, há uma interessante passagem que assim diz:

"Não entregues tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos. A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida. Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a Deus, e sê firme; concentra teu coração na santidade, e afasta a tristeza para longe de ti, pois a tristeza matou a muitos, e não há nela utilidade alguma." (Eclo 30:22-25)

Sem dúvida, prezados internautas, não existem razões para permanecermos tristes pelo resto da vida. Podemos até passar por momentos difíceis e atribulados que, por algum tempo, afasta o sorriso de nosso rosto. Entretanto, a melhor coisa a ser feita é superarmos, buscando a verdadeira harmonia com a santidade, o que, em outras palavras, significa adotar uma postura íntegra conforme os princípios éticos mais elevados.

Uma ótima quarta-feira a todos em Cristo Jesus!


OBS: Imagem extraída de http://blog.cancaonova.com/phn/files/2012/11/Felicidade_11.jpg

sábado, 15 de agosto de 2015

Assunção de Nossa Senhora

 “A mãe do meu Senhor!”

Palavra da Liturgia – Lc 1, 39 – 56. 
            
Estamos festejando a festa da Assunção de Nossa Senhora no céu! Depois de terminado o curso da vida terrestre, Maria foi assunta em corpo e alma à glória celeste, após a sua “dormição”. Eis um dos quatros dogmas de Maria em nossa Igreja: 1 – A Imaculada Conceição; 2 – A Maternidade Divina de Maria; 3 – Maria Sempre Virgem; 4 – Assunção de Nossa Senhora.
            
Quando falamos de Maria não falamos de um personagem qualquer, mas alguém muito especial e filha obediente de Deus.  Ninguém em terra, com exceção de Jesus, viveu Deus com tanta intensidade e amor como Maria viveu, porque nenhum amor é maior do que o amor de mãe. O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo, ele não obedece a leis, ele ousa todas as coisas. A mãe é aquela que assumi de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. O amor de mãe é o amor mais próximo do amor divino.
            
A humildade de Maria a fez digna de todas as virtudes. Maria, assim como a lua que se deixa iluminar pelo sol, se deixa iluminar por Jesus. Sua intercessão é o reflexo desta luz que chega até nós que é Jesus.

Mesmo sendo a mãe de Deus, Maria não teve nenhum privilégio ou proteção, desde o seu sim, ela começou a viver o calvário e encarar a dor com fé, por isso ela era feliz, por que optou em viver o sonho de Deus em sua vida.

Diz na palavra deste final de semana que após a anunciação a Maria, o anjo afastou-se dela. Se você reparar na história de Maria em nenhum outro momento o anjo lhe apareceu, inclusive nos momentos de maior dor que foi o caminho do calvário. Por que será? Porque Maria viveu Deus na fé e não nos sinais visíveis, pois era uma mulher crente. Aliás, o seu sinal visível era Jesus!
            
Maria era pura e menina simples, muito nova, provavelmente uns quinze anos no máximo quando recebeu a notícia do anjo e como vivia a caridade, diz a palavra, que se levantou logo após o anjo anunciar que Isabel estava grávida e viajou aproximadamente uns 160 km até a casa da prima para ajudá-la e acolher-lha no amor de Deus. Humildade e acolhimento são atos cristãos.
            
Recebeu dois elogios de Isabel: “Bem-aventurada” e “Bendita”. Maria foi bem aventurada porque viveu em vida as bem-aventuranças e foi bendita porque carregou consigo o Verbo que se fez carne e portanto é Santuário da Vida.
            
Humildade não é se declarar fraca e sim reconhecer suas forças e suas fraquezas e perante isso buscar o seu melhor para Deus. Não dá para ignorar a figura da mulher em Maria até porque foi a mulher Maria que foi escolhida para suportar a dor de ver seu filho humilhado, crucificado e derramando até a última gota do sangue por todos nós. A sua postura diante de seu filho na cruz? Estava em pé! Maria disse sim até a morte, não só na alegria, mas principalmente na dor foi fiel. A serva Maria enfrentou a dor de mãe com a força da mulher.

Maria é a Arca da Aliança, àquela que carregou o Amor para humanidade ser liberta e salva. O ventre de uma mãe é feito de ternura e o filho que este ventre carrega é rodeado de conforto, proteção, intimidade. Ninguém em vida foi mais íntima de Jesus do que Maria.
            
Ela no evangelho se auto-intitulou no magnificat: pobre serva. Ela serviu na aceitação resignada, no silêncio do coração e principalmente na presença ao lado de Jesus até a sua morte. Costumo dizer que o amor de mãe é o que mais se aproxima do amor de Deus, consequentemente, a dor de mãe é a dor que mais se aproxima da dor do filho. Penso que Maria sentiu a pior dor que se possa ter: a dor onde você sofre por não poder sofrer no lugar de alguém que ama muito.
            
Por isso o mínimo que nós cristãos podemos fazer é venerar esta mulher para que se cumpra a Escritura: “Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada”.

Nenhuma criatura viveu Deus tão intensamente e intimamente como Maria viveu! Sua humildade foi tão grande que pelo seu silêncio de coração passou quase que despercebida não fosse a obediência daqueles que a proclamam Bem-Aventurada! Lucas e João dão destaque à figura de Maria! Lucas por causa da sua origem, era gentio, tinha uma visão de respeito à figura da mulher e João por ser o discípulo amado de Jesus o qual obedeceu a última ordem dada por Ele: acolher Maria como mãe. Só quem ama enxerga o valor de uma mãe!

Em um tempo onde estruturas, distribuições de “milagres e curas”, barulho, artistas da fé, teologia da prosperidade, interesse em ver sinais visíveis o tempo todo têm sido o norte da evangelização; o silêncio de Maria e a espiritualidade mariana é sem dúvida alguma o grande desafio a voltarmos os olhos para o que realmente importa: a humildade, a fé e o desapego de tudo para viver Deus! 

Maria dos pobres, dos que sofrem, dos humildes, dos pequeninos. Maria mãe de todos.

Com Maria, Deus manifestou seu poder, desconcertou os corações soberbos, derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes, saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos cumprindo a sua promessa.
            
Até mesmo o Profeta João Batista ainda no ventre de Isabel manifestou a alegria do encontro com Jesus no ventre de Maria e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

A mãe que apresenta o pai é também aquela que sempre apresenta o filho! Ter um encontro mariano é encontrar-se com Jesus, é ficar cheio do Espírito Santo, pois quem se aproxima de Maria tem a honra de encontrar-se com a mãe do meu Senhor! Haja felicidade para este encontro.

E você? Já teve a honra de encontrar a Mãe do meu Senhor? Viver a espiritualidade mariana é tornar-se verdadeiro adorador do Deus Único!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Farinha do mesmo saco! - O que a Bíblia diz sobre a homossexualidade



Por Hermes C. Fernandes

Você se considera tímido? Então, responda-me com sinceridade: como se sente ao saber que os tímidos encabeçam a lista dos que passarão toda a eternidade sendo torturados no inferno? Pelo menos é o que lemos em Apocalipse 21:8. Confira:

“Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos que se prostituem, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.”

Quando postei esta pergunta em meu perfil no facebook, a primeira resposta que obtive foi: “Sinto q se eu n for p o inferno de um jeito, vou de outro...rs”

Obviamente que esta resposta bem humorada está baseada na crença de que ir ou não para o inferno tenha a ver com o fato de constar de uma lista. Se depender exclusivamente disso, seria aconselhável dar uma checada noutras listas apresentadas nas Escrituras:
“Mas, ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira.”Apocalipse 22:15
E então, escapou desta? Você se considera um “cão”, seja lá o que isso signifique? Pratica feitiçaria? Anda se prostituindo por aí? Já matou alguém? Possui ídolos? Se prostra perante eles? Conta uma mentirinha de vez em quando? Não!? Tem certeza? Ok. Digamos que desta você escapou por pouco. Mas não termina aí. Vamos à próxima lista?

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.”  
1 Coríntios 6:9,10

A coisa agora começou a apertar pra você, não? Já está até suando frio, hein? Mas que bom que você não é o que se poderia chamar de devasso, muito menos de adúltero... quer dizer, desde que não leve em conta aquela estória de que basta uma olhada para a mulher alheia e você já adulterou com ela...  Mas, tudo bem, né? Ninguém é de ferro. Mas pelo menos, você não é GAY! Isso mesmo! Tudo, menos isso.  Você pode até ser um maldizente (vulgo, fofoqueiro), mas não anda por aí desmunhecando. Quer saber... Deus nem vai se importar com os outros itens da lista. Desde que você não seja gay.

Está vendo como a gente trata logo de arrumar uma desculpa para salvar nossa pele? O importante é garantir que você esteja dentro e não fora, incluído e não excluído dos VIP’s que herdarão o reino dos céus.

É relativamente fácil dar uma manipulada quando nossas vicissitudes se encontram perdidas entre tantas outras. Parecem ser apenas detalhes que passam despercebidos. Mas aquela lista de Apocalipse é intragável. Pelos simples fato de ser encabeçada por uma vicissitude que julgamos ser trivial. Sete em cada dez pessoas se consideram tímidas. E agora?

Já sei. Há uma saída! Vamos vasculhar o texto em seu idioma original. Quem sabe a palavra “tímido” tenha outro significado. Talvez assim, a gente consiga salvar a pele de muita gente, inclusive a nossa.

Depois de uma breve pesquisada, a gente descobre que a palavra traduzida por “tímido” naquela passagem é ‘deilos’, encontrada em outros dois textos do Novo Testamento. Vamos dar uma conferida neles para ver se a gente escapa da lista?

Ambas as passagens relatam o episódio em que Jesus socorreu os Seus discípulos numa tempestade que quase os levou ao naufrágio (Mt.8:26, Mc.4:40). “Por que sois tão tímidos?  Ainda não tendes fé?”, repreendeu-os Jesus.  Concluímos daí que a tal timidez de que fala Apocalipse deve estar ligada à falta de fé. Não é o nosso caso, não é mesmo? Quer dizer... pensando bem, houve momentos em nossa caminhada em que nos intimidamos diante das circunstâncias. Ser “tímido” não teria a ver com ser introspectivo, calado, ter pavor de falar em público, e sim com sentir-se intimidado diante de uma situação. Então, sinto em lhe informar que por mais que nos desdobremos para fazer uma exegese que livre a nossa cara, estamos todos numa situação delicada.  Então, que tal colocar tudo isso na conta da misericórdia divina? Se Jesus pôde sair em socorro daqueles discípulos, certamente se compadecerá de nós e não nos deixará de fora.

Concordo plenamente. Só não concordo quando usamos duas medidas. Uma para livrar nossa pele, e outra para condenar os que consideramos indignos de desfrutar da mesma salvação. Esquecemo-nos de que estamos todos no mesmo barco, enfrentando a mesma tempestade. Somos humanos. Falíveis. Vulneráveis. Desesperadamente carentes da graça de Deus.

Reparou que numa das listas que apresentei acima encontramos os “efeminados” e “sodomitas”? É baseada nesta lista que afirmamos com convicção de que homossexuais são indignos de serem alcançados pela mesma graça que nos alcançou.

Que tal sermos honestos para fazer o mesmo tipo de exegese que fizemos para tentar salvar a pele dos tímidos?

O termo grego traduzido por “efeminados” é “malakoi”, que pode ser literalmente traduzido como “mole”, “macio”, “suave ao toque” (algo como “molengão”).  Alguém sem fibra, que se entregava facilmente diante de uma situação de pressão. Em época de implacável perseguição contra os cristãos, o mínimo exigido de um seguidor de Cristo é que fosse firme. O termo “malakoi” aponta para uma inaceitável fraqueza de caráter. Por que traduziram este termo como “efeminado”? Porque nas culturas antigas, a feminilidade era vista como sinônimo de fragilidade. Seria mais ou menos como dizer a um filho hoje em dia: Seja homem! Não seja uma mulherzinha! É óbvio que o objetivo de quem usa tal expressão não é diminuir o valor da mulher, mas encorajar o filho a portar-se varonilmente.  

Dicionários teológicos associam malakos (singular de “malakoi”) a um homem afeminado, mas reconhecem que o termo pode significar pessoas promíscuas, isto é, dadas aos prazeres da carne, tanto homens, quanto mulheres.  Porém, há estudos que relacionam malakoi com a prostituição masculina praticada na época de Paulo, principalmente em Corinto, cidade famosa por sua depravação sexual.

Já o termo “arsenokoitai”,  traduzido como “sodomita” na versão de Ferreira de Almeida, só passou a se referir a prática homossexual a partir da Alta Idade Média. Etimologicamente, o radical linguístico “arsen” significa macho, enquanto “koitos” significa leito. Bem da verdade, “arsenokoitai” é um termo de significado obscuro, que não possui qualquer registro na literatura clássica grega. O que levou alguns a considerar tratar-se de neologismo do próprio Paulo. Convém lembrar que há uma enorme quantidade de vocábulos do grego clássico usados para designar o comportamento homossexual, porém, Paulo não lançou mão de nenhum deles.  Logo, podemos deduzir que o apóstolo estivesse falando de algo bem particular e não propriamente da homossexualidade. A Bíblia de Jerusalém, considerada uma das melhores traduções das Escrituras, traduz o termo “arsenokoitai” como “pessoas de costumes infames”.

É plausível crer que Paulo estivesse se referindo à prática da prostituição cúltica tão disseminada no império romano, onde homens, independentemente de sua orientação sexual, tinham relações tanto com pessoas do mesmo sexo, quanto com do sexo oposto, atribuindo a isso um valor devocional.  

Festas religiosas como a dedicada a Dionísio, deus do vinho (conhecido também como Baco; daí o termo “bacanal”, festival de Baco) eram verdadeiras orgias, onde famílias inteiras se entregavam aos prazeres desenfreados da carne, julgando com isso estarem cultuando ao seu ídolo.

É também neste contexto de idolatria que Paulo expressa seu repúdio no primeiro capítulo de sua epístola aos Romanos, onde denuncia aqueles que, “dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis”(Rm.1:22-23). Razão pela qual “Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador”(vv.24-25). Repare que tudo começa na idolatria. Este é o contexto imediato. Como juízo, Deus os entrega a si mesmos, como se dissesse: É isso mesmo que vocês querem? Então, lá vai...

A partir deste ponto, Paulo descreve as tais “paixões infames” às quais Deus os abandonou.
“Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.” Romanos 1:26-27
Interessante notar que, se a interpretação que tem sido feita está correta, é a primeira vez que encontramos nas Escrituras qualquer menção à homossexualidade feminina. Em Levíticos 18:22 lemos sobre a proibição de homem deitar-se com outro homem como se fosse mulher, mas não vemos nada acerca da mulher que se relaciona sexualmente com outra.  Acho que isso mereceria certa atenção. Porque se o assunto é, de fato, homossexualidade, então, não se poderia deixar de fora as mulheres. Há quem acredite que Paulo teria corrigido isso.

Será que Paulo estava falando de homoafetividade? Ou estaria falando de uma prática diretamente ligada à idolatria?

Imagine homens de orientação heterossexual mantendo relações homossexuais só para agradar a uma divindade pagã! Pois era justamente isso que acontecia naquela sociedade. Nada mais antinatural. Por isso, eles se embriagavam e usavam máscaras. A embriaguez era para tomar coragem e desafiar sua própria natureza. A máscara era para proteger o anonimato, e assim, ajudá-los a lidar com a culpa e a vergonha. Não se tratava de homossexualidade propriamente, mas de orgia, de promiscuidade elevada ao mais alto grau. Seres humanos reduzidos a objetos de prazer. Tudo em nome do culto a uma divindade pagã.

Assim como é antinatural a um homem ter relações com outro homem, sendo ambos héteros, também é antinatural forçar um homossexual a casar-se com alguém do sexo oposto para suprir as expectativas da sociedade de prima pela hipocrisia.

Mas digamos que a exegese apresentada aqui não o tenha convencido. Você prefere crer que homossexuais estão fadados a serem punidos para sempre no inferno, desde que sua própria timidez seja alvo da misericórdia divina.  Que tal se avançarmos um pouco na leitura de Romanos 1?

A severidade com que Deus julgará os idólatras, também julgará os que não se importaram de ter conhecimento de Deus (e aqui, o apóstolo mira sua metralhadora giratória para os judeus), que, mesmo não praticando tais coisas, aprovavam os que a praticavam (v.32). Por isso, o mesmo Deus que entregou os gentios às suas próprias paixões, também os entregou “a um sentimento perverso,  para fazerem coisas que não convêm; estando cheios de toda a iniquidade, fornicação, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia” (vv. 28-31).

E por falar em lista, sabe o que mais me chama atenção nesta em particular? O último item.  De que adiantaria escaparmos de todas as listas apresentadas nas Escrituras, mas cairmos justamente no último item desta?

A falta de misericórdia nos faz inescusáveis perante Deus. Não foi à toa que Jesus disse que bem-aventurados são os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia. Sinceramente, espero ser contado entre estes. Se tiver que pecar pelo excesso, que peque pelo excesso de misericórdia e não de juízo.

O objetivo de Paulo nos primeiros capítulos de Romanos é mostrar que todos somos farinha do mesmo saco. Judeus e gentios, héteros e homossexuais, homens e mulheres, só escaparemos do severo juízo divino se formos tão misericordiosos com os outros quanto somos condescendentes conosco mesmos.  “Portanto”, arremata o apóstolo, “és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer se sejas, pois te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro” (Rm.2:1). 

Quando vejo o sofrimento de milhões de seres humanos, reputados como escória pelo simples fato de serem gays, meu coração é tomado de misericórdia. Não me vejo à vontade diante de um discurso odioso, que, direta ou indiretamente, fomenta o preconceito. Quando recebo e-mails e mensagens in box de seres humanos dispostos a tirar a própria vida por não se aceitarem, ou por não conseguirem lidar com a pressão social, meu coração se enternece. Foi o que senti ao assistir ao vídeo postado por Viviany Beleboni, a transexual que encenou a crucificação na Parada Gay deste ano em SP, que em prantos denunciou a agressão sofrida por alguém que a chamava de "demônio" e dizia "Você não é de Deus!" Com o olho roxo e feridas à faca abertas no rosto e no braço por uma faca, Viviany lamentava o episodio. Como ela, muitos têm sido agredidos e até mortos por causa de sua orientação sexual. Espero que este singelo texto ajude a desarmar espíritos e conduzir-nos pelas sendas da compreensão, do amor e da misericórdia. 




OBS: Texto extraído do blog do autor em http://www.hermesfernandes.com/2015/08/farinha-do-mesmo-saco-o-que-biblia-diz.html