domingo, 26 de julho de 2015

Reflexões sobre o episódio do jovem rico





"Certo homem de posição perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus. Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe. Replicou ele: Tudo isso tenho observado desde a minha juventude. Ouvindo-o Jesus, disse-lhe: Uma coisa ainda e falta: vende tudo o que tensdá aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem segue-me. Mas, ouvindo ele estas palavras, ficou muito triste, porque era riquíssimo. E Jesus, vendo-o assim triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. E os que ouviram disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? Mas ele respondeu: Os impossíveis dos homens são possíveis para Deus. E disse Pedro: Eis que nós deixamos nossa casa e te seguimos. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos digo queninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muita vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna." (Evangelho de Lucas, capítulo 18, versículos 18 a 30; versão e tradução ARA, sendo meus os destaques em negrito)

Como podemos verificar estudando os evangelhos da Bíblia, Jesus pregou repetidas vezes sobre o perigo das riquezas. Trata-se de algo que, hoje em dia, anda bem esquecido pelos cristãos brasileiros. Principalmente pelos que superestimam gozar uma vida próspera na Terra.


Possuir e administrar bens, por si só, nunca foi pecado nas Escrituras Sagradas, mas o apego ao dinheiro e o seu uso indevido são coisas manifestamente reprováveis. Assim, no episódio acima do homem rico descrito em Lucas, que é narrado também nos outros dois evangelhos sinóticos (Mc 10:17-31; Mt 19:16-30), encontramos mais um forte exemplo do ensino do grande Mestre. Algo que guarda uma forte relação com a passagem anterior quando o Senhor teria enfatizado sobre a necessidade de alguém receber o Reino de Deus como uma criança de colo (Lc 18:17).


Inicialmente, o que mais chama a minha atenção seria a pergunta do homem feita a Jesus que, no 1º Evangelho, nos é apresentado  como sendo um "jovem". Suas palavras parecem expressar uma preocupação voltada para o seu bem-estar pessoal após o túmulo. Ele já possuía uma confortável posição na Terra e pretendia conseguir algo a mais no futuro: a vida eterna. Trata-se da lógica egoísta de adquirir tudo para si, mas sem nada compartilhar com o próximo.



Contudo, ricos e pobres um dia passarão pela morte e, quando este fato acontece, todos perdemos os bens amealhados. O homem humilde deixa somente lembranças por algumas décadas, ou séculos, enquanto a partida do endinheirado origina uma guerra entre os seus herdeiros. Só que, daqui para lá, não há como carregar absolutamente nada de modo que os antigos faraós egípcios certamente cometeram tremendos enganos ao entulharem de coisas as suas pirâmides por esperarem fazer uso de tais objetos na outra vida.

A resposta de Jesus ao jovem rico é então acompanhada de mais uma pergunta. Por que ele seria considerado "bom"? Ou seja, para o Mestre nenhum homem deveria ser digno de receber esse adjetivo. Bom só existe um que é Deus, o único Ser Perfeito. Logo, seria um erro qualquer um de nós se considerar bom a ponto de achar que pode merecer algo do nosso Criador.

Dando continuidade, nosso Senhor citou a guarda dos principais preceitos da lei divina que todo judeu com mais de 12/13 anos de idade já conhecia ou, do contrário, não seria um bar mitzvah ("filho do mandamento"). Assim, o homem replica estar observando tudo aquilo desde a sua juventude. Pelo menos, na superfície da letra, ele estava seguindo aquelas principais normas do Monte Sinai (Ex 20:12-16), as quais Jesus citou.

Ocorre que servir a Deus não pode se resumir a uma mera observância de preceitos bíblicos. Nem mesmo da própria caridade! É preciso vivenciar a instrução divina e a colocar em prática dentro do nosso contexto de vida, conforme o desígnio do Altíssimo. O Mestre propõe então ao homem quatro ações no versículo 22 que destaquei em negrito: vender tudo e distribuir aos pobres, depois vir e segui-lo.

Curioso é que Jesus lhe pede para desfazer-se de tudo e não de uma parte. À primeira vista, isto parece ser uma loucura, ainda mais para quem nunca deve ter colocado as mãos num martelo ou numa enxada para trabalhar. Como sobreviver depois de dar tudo aos pobres se ele nem devia ter formação para serviços braçais? Como conseguir passar as suas noites acompanhando pelos povoados e cidades de Israel um pregador que nem tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9:58)?

No dia em que eu estava a rascunhar o original deste texto no meu caderno de anotações (não costumo postar diretamente no computador), veio-me a ideia sobre o desemprego que uma decisão radical daquele jovem rico poderia causar, isto é, caso ele resolvesse vender todos os seus negócios seguindo literalmente as recomendações do Senhor. Sendo a economia da época essencialmente rural, suponho que ele fosse dono de terras e aí pergunto quantas famílias não deveriam depender das suas fazendas trabalhando no plantio, na colheita, no armazenamento dos grãos, no pastoreio do gado e na comercialização dos produtos? Um outro que adquirisse suas glebas não poderia ser um padrão pior que roubasse as horas suadas de labor dos empregados, mentisse, matasse, cometesse assédio sexual contra as suas servas e desonrasse os empregados mais idosos? E no que mudaria o sistema exploratório o fato de alguém desfazer-se dos bens e consumi-los aliviando a fome de alguns pobres por algum tempo mas sem conseguir acabar com a causa da miséria?

Levando em conta esses questionamentos consideráveis, chego à conclusão de que o ensino de Jesus neste episódio seria mais de base principiológica. Vender tudo não pode significar a aniquilação de uma empresa! A ideia do Evangelho em sua essência seria adotarmos uma outra lógica na administração dos nossos recursos. O centro de tudo deve ser a promoção do bem do nosso irmão e não visarmos apenas o nosso interesse particular. Deste modo, se queremos entender o texto, precisamos ir além da literalidade. Senão vejamos o significado que pode haver em cada um dos quatro verbos mencionados na perícope citada:

- Vender: Jesus estava propondo ao homem que se desapegasse de tudo o quanto possuía. Este seria o primeiro passo na sua conversão. O coração dele deixaria de estar nas riquezas para focar nas coisas do Reino de Deus. Sem tal mudança interior, nada se realizaria. Ele continuaria sendo um rico religioso, mas infrutífero.

Distribuir os bens: Uma vez desapegado intimamente das riquezas, ele passaria a doar o que tinha para o benefício dos pobres. Precisaria procurar pessoas que necessitassem de ajuda e/ou pedir a terceiros para lhe ajudarem nessa tarefa. E, como a sua fortuna era muita, como nos diz  verso 23, talvez seria preciso um tempo enorme para conseguir doar tudo. Na atualidade, se um bilionário resolvesse fazer algo semelhante, o seu dinheiro até se multiplicaria enquanto estivesse dividindo-o e as suas necessidades materiais nem deixariam de ser satisfeitas. Lembremos do milagre da multiplicação dos pães!

Vir: Após aprender a compartilhar e a ser útil a todos (lógico que o seu dinheiro não precisava acabar), o homem estaria pronto para caminhar em direção ao discipulado. Só com a experimentação prática da repartição é que ele poderia compreender não só com a mente, mas com a alma, os profundos ensinamentos de Jesus. Do contrário, a escola do Mestre seria incapaz de lhe acrescentar qualquer coisa. Estaria  perdendo o seu tempo.

Seguir a Jesus: Finalmente, vivendo já o discipulado, ele conseguiria ser um agente da revolução do Reino de Deus. Se as ideias do Mestre propunham uma inversão de valores, como poderia um rico apegado aos seus bens seguir verdadeiramente um líder que pretendesse retirar o que a classe dominante tinha para repartir entre os pobres? Você conseguiria imaginar um burguês do século XIX financiando Karl Marx na Europa daquele tempo? No entanto, se o patrão passa a ser como um proletário e muda os objetivos de seu negócio, a empresa que ele tem vira uma estratégica fonte de recursos para custear as ações da caridade e de conscientização do grupo revolucionário.

Considerem que, após a repartição dos seus bens, o homem rico poderia encontrar "um tesouro nos céus", algo que obteria estando ainda vivo na Terra. Jesus não diz que a vida eterna esteja somente no além-túmulo, mas deve ser experimentada aqui pela descoberta da nossa razão existencial. Vale ressaltar que o homem não é um ser separado de toda a sua espécie e nem do Universo. Além disso, a vida, por ser um partilhar do nosso Criador, deve ser entendida como a manifestação de um Todo por mais que vejamos a nós mesmos como consciências individuais.

Sobre o sentimento de tristeza do homem rico, vejo-o com naturalidade porque se tratava de uma pessoa ainda apegada aos seus bens naquele momento, estando dividido. Não acho que ele teria se importado com o bem estar dos seus empregados como eu argumentaria com Jesus se estivesse no lugar dele. A preocupação principal do cara ainda era consigo mesmo. Tratava-se do horror de perder o seu status, o conforto e a sua estima na sociedade por mais que recebesse bajulações falsas dos que o procuravam por interesse. Com isso, todas essas preocupações podem tê-lo abrasado como as chamas infernais de uma fornalha, gerando aquela angustiosa sensação quando somos chamados para decidir algo tendo que abrir mão de qualquer coisa importante.

Muito difícil um rico dar o seu passo em direção ao Reino. Aderir a uma religião, virar católico/evangélico/espírita, ou ainda se filiar à ADHONP (Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno) seria moleza porque não exige grande esforço nas aparências externas. Mas como aderir a algo que vai contra o interesse das riquezas que possuímos? É preciso muita fé! Só assim é que o homem consegue vencer a falsa sensação de segurança proporcionada pelos bens materiais.

Jesus prossegue fazendo daquela situação uma oportunidade para ensinar os seus ouvintes sobre o grande perigo das riquezas (até a gestão dos negócios pode virar um risco para espiritualidade). Mais fácil é um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar na dimensão do Reino! Aí eu diria que o dinheiro pode acabar virando um ídolo em que, diante de determinados casos, só superamos a avareza desfazendo mesmo de tudo e colocando o dinheiro nas mãos dos outros.

Lendo o que Jesus teria dito, fico a indagar se seria difícil ou impossível um rico ser salvo? Porém, é certo que a menção do camelo seria metafórica, pouco importando se o Senhor estaria se referindo ao animal ou a umas cordas bem grossas uadas para amarrar os navios naquele tempo, as quais recebiam o mesmo nome do mencionado quadrúpede. A meu sentir, o Mestre foi propositalmente hiperbólico para enfatizar a necessidade de desapego que, no caso das pessoas ricas, exigiria um esforço ainda maior da parte delas tendo em vista a distância abismal que as separa dos pobres, aos quais pertenceria o Reino (Lc 6:20). Seria como na parábola do rico e do Lázaro em que as desigualdades sócio-econômicas formam um verdadeiro fosso entre um lado e o outro (Lc 16:26).

A pergunta dos ouvintes vai nos conduzir a um questionamento bem interessante. Pois, se Jesus havia dito ao homem rico que vendesse tudo, como as demais pessoas poderiam ser salvas se elas ainda deveriam possuir algum bem material mesmo não sendo de alta posição na sociedade? O que poderiam fazer?!

Verdade é que não podemos fazer absolutamente nada neste sentido. A salvação é um dom gratuito do Criador assim como a nossa vida. Parece até contraditório, mas não é. O homem pode dispor de tudo o que possui e guardar o Dez Mandamentos, mas não conseguirá jamais comprar a salvação porque esta não se vende. Ela é dada a todos generosamente e será sempre impossível alcançá-la por meio dos méritos pessoais.

Ora, mas o que é impossível para os homens é possível  para Deus! Os discípulos que, semelhantemente a Pedro, tinham deixado tudo para seguirem a Jesus, não precisavam alimentar nas suas mentes vãs preocupações sobre como seria o futuro deles por toda a eternidade. Se abrissem os olhos, veriam que já estavam recebendo o Reino de Deus no presente, tesouro este que é eterno e se encontra dentro da gente. Aliás, esta é uma dádiva liberada a todos os homens indistintamente, mas que nem todos aqui conseguem descobri-la porque se alienam. Sobretudo quando se envolvem com as riquezas.

A doação das riquezas nunca será ato de barganha para o homem adquirir a vida eterna. Porém, as atitudes que tomamos são indissociáveis em relação à fé e ao nosso estado existencial. Logo, devemos aprender a viver para o Reino no partilhar de Deus! Esta é a proposta do texto bíblico comentado em sua essência. Colocando tal objetivo em primeiro plano, todas as outras decisões precisarão ser tomadas em conformidade com a vontade divina na administração dos recursos por nós. Inclusive quanto aos bens das igrejas que, na grande maioria dos casos, constituem patrimônios de excessivo valor pecuniário, capazes de sugar a nossa atenção para geri-los.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Cristo e o jovem rico do pintor alemão Johann Michael Ferdinand Heirich Hofmann (1824-1911). Foi pintado em junho de 1889 e se encontra atualmente na Riverside Church, em Nova York. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Hoffman-ChristAndTheRichYoungRuler.jpg

sábado, 18 de julho de 2015

O abismo posto "entre nós e vós"



"Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós." (Evangelho de Lucas, capítulo 16, versículos 25 e 26; versão ARA)

A parábola do rico e do mendigo (Lc 16:19-31) nem sempre parece ser corretamente interpretada conforme o contexto literário no qual foi escrita. Muitos pregadores fazem dessa passagem bíblica uma verdadeira sessão terror criando a partir de uma metáfora equivocadas doutrinas sobre céu e inferno. Ignoram eles que Jesus apenas teria se utilizado de uma representação popularmente propagandeada em seu tempo. Algo que, possivelmente, fosse usado pelos fariseus para expressarem a recompensa por um bom comportamento terreno do homem piedoso após a morte no encontro com os ancestrais judeus.

Por outro lado, observo que muitos fizeram dessa historieta um indevido consolo conformista para o pobre anestesiar-se de seus sofrimentos provocados pelos ricos. Em diversas épocas, a Igreja, sendo ela mesma a causa das desigualdades sociais, adotou um discurso imobilista afim de que as massas de trabalhadores explorados encontrassem algum contentamento com uma possível condição futura melhor do que o presente. Para tanto, bastaria ao homem ser obediente e dócil ao sacerdote e ao seu senhor. Se o patrão comete injustiças, o pobre não precisava ficar revoltado porque tormentos estariam reservados para o ímpio no além túmulo.

Acontece que o Reino de Deus não é isso! A verdadeira Igreja jamais pode omitir-se deixando de tomar decisões éticas e políticas para combater a pobreza. Fingir estar ao lado dos desfavorecidos e reprimindo as iniciativas revolucionárias dos excluídos, significa contribuir para perpetuar uma perversa condição de desigualdade no ambiente social. E, lamentavelmente, este tem sido o papel do cristianismo dominante por muitos séculos. Aqui mesmo no Brasil, houve padres católicos e pastores evangélicos que praticam um anti-reino ao se aliarem às elites na repressão do trabalhador e muitos ainda estão ao lado do poder. Estes são os lobos que fazem da religião um instrumento de dominação das massas, retirando do oprimido as oportunidades e escolhas mais básicas para o seu desenvolvimento livre.

Entretanto, para bem entendermos a mensagem de Jesus, devemos mergulhar no contexto literário do 3º Evangelho como já foi dito. O tema do décimo sexto capítulo trata da questão das riquezas e, no versículo 14, o autor sagrado diz que os fariseus seriam "avarentos". Assim, algo me diz que, ao contar essa parábola, o Mestre estava também criticando os religiosos de sua época, os quais separavam-se do mundo pelo moralismo excludente que praticavam.

Conforme analisado no artigo que escrevi em meu blogue Entrar no Reino de Deus, publicado em 08/09/2013, os fariseus não foram necessariamente pessoas ricas como os antigos sacerdotes levitas do Templo. Eles teriam sido representantes de uma classe média. Porém, faziam da reputação moral um ídolo ao qual se apegavam e pretendiam justificar-se pelas obras feitas (verso 15). Logo, eles seriam também uma espécie de avarentos da moral.

Não quero afirmar com isto que o comentado ensino de Jesus tenha se restringido aos fariseus ou aos religiosos apenas. Vejo na parábola uma dimensão até bem ampla pois ela abrange as escolhas de vida dos ricos e nos permitem construir uma teologia libertadora num discurso voltado para o social. Inclusive porque nosso Senhor teria reprovado o apego aos bens materiais. Sua instrução foi que as pessoas distribuíssem as riquezas e não se preocupassem em acumulá-las (Lc 12:33; 16:9; 18:22). Tanto é que ele se recusou a julgar a controvérsia sobre a repartição da herança (12:13-14), algo que estava completamente fora daquilo que o Reino de Deus propõe (ler outro artigo meu: "A vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui").

O que muito me chamou a atenção na parábola foi a separação entre o rico e o mendigo Lázaro. Tratava-se de uma realidade que já era pré-existente desde quando os dois estavam ainda na Terra. Embora o pedinte vivesse à porta daquele homem opulento, a sua presença ali era ignorada. Talvez até indesejada. E, neste sentido, quero citar aqui os comentários do teólogo namibiano Dr. Paul John Isaak, da Igreja Luterana:

"O pecado do homem rico é que ele não tinha coração. Olhava para um homem que tinha nome, mas não lhe perguntava o nome. Via a fome e a dor de Lázaro, mas não fazia nada a respeito. Aceitava a pobreza de Lázaro como parte da ordem natural das coisas e achava perfeitamente normal e inevitável que Lázaro permanecesse com fome, dor, sofrimento, doença e, finalmente, morte enquanto chafurdava no luxo. Não existe ninguém tão cego quanto aquele que não deseja ver. Após sua morte, o homem rico recebeu a punição devida àquele que não pratica ubuntu nem reconhecera que Lázaro era um ser humano semelhante a ele (16:23). Ele não reconhecera Lázaro como irmão e companheiro. Apreciando sua riqueza e saboreando a inveja que ela causava aos outros, ele não se deu conta, até que fosse muito tarde, de que a vida caracterizada pelo individualismo e pela recusa em partilhar o pão com o próximo é detestável aos olhos de Deus" (Comentário Bíblico Africano, editora Mundo Cristão, 2010, pág. 1267)

Assim, na perspectiva do Reino, opera-se uma formidável inversão de valores, mas o abismo entre o rico e o Lázaro continua. Se aquele banqueteava-se com egoísmo em sua mansão (versículo 19), há uma mesa bem farta preparada por Abraão no além para o indigente. A própria imagem de "seio" (v. 22) significa que Lázaro era convidado de honra naquela festa. Quanto às chagas do mendigo (v. 20), estas vão corresponder aos tormentos do rico no Hades, o "lugar dos mortos" em grego que, em muitas traduções, consta convenientemente como sendo o "inferno" (v. 23). E, diferentemente do rico, às vezes chamado de "Dives" em algumas versões bíblicas, eis que, na parábola, o que fora pobre nunca deixou de ter nome e o reconhecimento de sua dignidade humana por Jesus.

Na conversa com Abraão (vv. 24-31), observamos que a consciência do rico, mesmo no além, permanece cavando o abismo da separação social. Sua alma era incapaz de arrepender-se e ele continua pensando arrogantemente em benefício próprio. Supõe que pode mandar Lázaro cumprir uma ordem dele para aliviar seu sofrimento. Como não é possível haver o contato entre os dois, coisa que na Terra o rico deveria até rejeitar, o homem passa então a preocupar-se com o bem estar de seus familiares (vv. 27-28). E ainda assim sua inquietação permanece egoísta, sendo restrita aos que são do próprio sangue.

À réplica do rico, respondeu Abraão que os irmãos dele já tinham o testemunho de Moisés e dos Profetas (v. 29), isto é, as Escrituras Sagradas do Antigo Testamento que os fariseus já conheciam. Seria inútil que Lázaro ressuscitasse dentre os mortos para que se arrependessem. Se ignoravam a mensagem bíblica, que é bem clara quanto à obrigação de cuidado para com os pobres, não se deixariam convencer caso o mendigo fosse estar com eles.

Certamente que o autor sagrado estava referindo-se de algum modo à descrença dos mestres judeus de seu tempo quanto à ressurreição de Cristo pregada pela Igreja. Aí será preciso levarmos em conta o contexto histórico do leitor original que necessitava de uma explicação para o fato dos fariseus não terem seguido a Jesus, como também ter as esperanças alimentadas para prosseguir em sua caminhada espiritual, considerando que muitos cristãos primitivos deveriam passar por necessidades. Os membros das comunidades eclesiásticas dos primeiros séculos dependiam de um bom ânimo a fim de revolucionarem a dura realidade na qual viviam, mesmo que não viessem a presenciar as desejadas transformações históricas.

Para os fariseus que não eram lá tão ricos como o personagem sem nome da parábola, o abismo poderia ser representação da separação construída pelos religiosos quanto aos demais homens. De acordo com o Evangelho, eles eram incapazes de conviver com publicanos e meretrizes. O grande conhecimento bíblico que possuíam não era aplicado para buscar uma aproximação com as demais pessoas. Fechavam-se em suas congregações de santos enquanto muitos pecadores necessitavam de acolhimento. Desperdiçavam, assim, a oportunidade de usarem a Bíblia para transmitirem boas novas de perdão, de inclusão social e de restauração.

Há quem diga que Jesus teria proferido a parábola referindo-se aos saduceus. Os "cinco irmãos na casa do meu pai" (v. 28) corresponderiam aos cinco irmãos de Caifás, na casa de Anás, conforme documentado pelo historiador Flávio Josefo. Ou seja, segundo este entendimento, o sumo sacerdote e seus filhos não se arrependeriam mesmo depois da notícia da ressurreição do Senhor.

Mas o que dizer de nós, cristãos que temos não só Moisés e os Profetas como também o testemunho de Jesus em nossa tradição apostólica?! O que a Igreja tem feito para transformar a realidade social do planeta?!

Até quando vamos preferir nos fechar dentro das nossas congregações, preferindo o distanciamento do mundo nos retiros de Carnaval, enquanto que, nesses dias de pura ilusão, há vidas se afundando nas drogas e na embriaguez precisando do nosso apoio acolhedor?!

Será que vamos ficar dizimando para a edificação de templos enquanto há membros nas nossas próprias igrejas e em outros lugares do mundo passando por necessidades?!

Sem dúvida que a parábola do rico e do Lázaro continua sendo atual e aplicável para a nossa triste situação eclesiástica. Se o pastor Martin Luther King Jr. (1929-1968) ressuscitasse dentre os mortos e advertisse a Igreja sobre os excessos em seus shows gospel e a falta de caridade nos dias atuais, será que os líderes eclesiásticos deixariam se persuadir?! Ou logo não duvidariam do sonho ou da visão que tiveram voltando-se às velhas práticas rotineiras dentro de seus templos numa conformação com o atual sistema?

Mais do que nunca é preciso por fim a esse abismo enquanto estamos aqui. A Igreja precisa ser capaz de contribuir melhor para a inclusão social do pobre, do viciado, da prostituta, do homossexual, do portador de necessidades especiais e de todo e qualquer necessitado. Não podemos permitir que nem a moral religiosa ou os compromissos de nossas agendas atrapalhem! Se preciso for e houver condições pessoais de dar esse tipo de apoio, um ministro do Evangelho deve entrar até num boteco e ouvir o drama de um dependente alcoólico!

Lembro que, enquanto eu morava na cidade serrana de Nova Friburgo (RJ), uma senhora que é deficiente visual contou-me que, quando sua congregação começou, ainda sem CNPJ e sem sede, reunindo-se na sala de aula de um colégio, havia quem se importasse com sua condição e a conduzisse até as reuniões. Depois que o grupo cresceu e se tornou uma denominação local expressiva, ela começou a ficar esquecida. Ir à igreja tornava-se uma tarefa difícil por causa dos obstáculos das ruas e faltavam irmãos que se oferecessem para pegá-la em casa. Só que, como eu bem me recordo, o próprio templo onde eles se reuniam tinha escadas da portaria até o auditório, o que constitui uma barreira para a locomoção das pessoas portadoras de necessidades especiais. Um cadeirante tinha que ser carregado e as obras feitas no local, desde que a casa fora adquirida, jamais tinham previsto uma adaptação do prédio.

Verdade seja dita que precisamos aplicar melhor as finanças em projetos de combate à pobreza. Chega de edificar templos suntuosos e termos pastores dirigindo seus carrões enquanto ainda há gente no mundo carecendo da nossa ajuda material. Está na hora da Igreja retornar às raízes do Evangelho e fazer a revolução do Reino acontecer nos dias atuais.


OBS: A ilustração acima refere-se à obra do artista francês Paul Gustave Doré (1832-1883) retratando a parábola do rico e do Lázaro. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Gustave_Dore_Lazarus_and_the_Rich_Man.jpg

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Quando Deus nos abençoa por mãos estranhas




Em minha leitura sequencial do livro de Isaías, cheguei hoje aos sete primeiros versos do capítulo 45, quando o autor fala do rei Ciro da Pérsia como sendo o novo libertador do povo israelita. 

Possivelmente o profeta deve ter chocado os seus ouvintes quando se referiu a um rei estrangeiro como sendo um "pastor" de Deus (44:28) e mais ainda chamando-o em seguida de "ungido" (45:1). Isto porque o termo hebraico nas Escrituras que traduzimos como "ungido" não se costumava usar em qualquer outro lugar a não ser em relação a Israel. Para conhecimento do leitor, informo que a unção era derramada sobre os sacerdotes e os monarcas do próprio povo, a exemplo do que fizera Samuel com Saul e Davi, ou quanto a Salomão por Zadoque e Natã (ver referências bíblicas em Ex 28:41; 29:4-9; Lv 4:3,5,16 sobre os sacerdotes e 1Sm 2:10; 9:16: 10:1; 1Rs 1:34 acerca dos reis). Ocasionalmente, talvez profetas passassem por esse ritual como fizera Elias com o seu sucessor Eliseu (1Rs 19:16).

"(...) A palavra hebraica traduzida em português por 'ungido' tornou-se um termo técnico para indicar os ungidos do Senhor, geralmente com conotações régias. Esse título é, normalmente, traduzido por 'messias'. A palavra grega para 'ungido' é Christos (em português, Cristo, Mt 1:17)" - Comentários teológicos da Bíblia de Estudo de Genebra a 1Rs 1:34, 2ª ed., SBB, págs. 390 e 391)

Fazendo um mergulho na História, saberemos que, no século VI a.e.c, os judeus foram invadidos e levados cativos pelo exército babilônico. Esse exílio durou 70 anos e significou um período de muitas humilhações e opressões para o povo israelita como se lê abundantemente na literatura dos profetas referente à época. Aliás, o próprio Salmo 137 expõe isso de maneira bem clara ao iniciar em seu primeiro verso com estas palavras: "Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião".

Diferentemente do Êxodo egípcio, quando o Mar Vermelho teria milagrosamente se aberto e Israel foi guiado com prodígios no deserto árabe por intermédio de Moisés, eis que o livramento da Babilônia veio através de um rei estrangeiro. Ciro II teria sido um governante que, segundo o texto sagrado, nem a Deus conhecia (Is 45:4) e ainda assim foi um instrumento divino para abençoar a esmagada nação israelita tornando-se um tipo de messias para aquela geração desesperada.

O aprendizado que tiro dessa passagem bíblica em comento é que muitas soluções em nossas vidas podem vir de onde menos imaginamos ou aguardamos. Pessoas de outras culturas, religiões diferentes e de estilos de vida que não são o nosso muitas vezes surgem em nosso caminho para nos servir de auxílio nas mais diversas circunstâncias. Por exemplo, o cristão pode vir a receber um excelente emprego de algum patrão homossexual seguidor de outro credo (ou ateu) e ainda ser melhor tratado do que por um chefe que se diz "irmão". Outra situação que deve ser considerada é que a cura divina pode chegar até nós por meio da ciência, seja pelos médicos ou até pelo conhecimento empírico baseado nas tradicionais experiências de povos tidos como "pagãos" (discordo de quando alguém diz ser a acupuntura ou a homeopatia "coisas do diabo").

A leitura do texto de Isaías que estudei hoje nos mostra a superioridade do Criador bendito sobre tudo o que há no Universo. A fé monoteísta de que Deus é Um impede que se faça de qualquer outra criatura, mesmo do diabo, um outro ser divino. Por isso, a atitude sensata do cristão deve ser a colocação de todas as coisas debaixo do soberano propósito e governo do Senhor, livre de qualquer polarização que nossa mente faz:

"Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas." (Is 45:6-7)

Que possamos reconhecer o agir de Deus em nossas vidas e aceitarmos as soluções que o Rei dos reis coloca à nossa disposição!

Uma ótima quinta-feira a todos!


OBS: A ilustração acima refere-se a uma iluminura feita pelo pintor francês Jean Fouquet (1420 — 1481), mostrando Ciro II e os hebreus. Extraí do acervo virtual da Wikipédia em https://pt.wikipedia.org/wiki/Ciro_II#/media/File:Cyrus_II_le_Grand_et_les_H%C3%A9breux.jpg

sábado, 4 de julho de 2015

A justiça e a assistência feitas no anonimato



"Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto ao vosso Pai Celeste. Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará." (Evangelho de Mateus 6:1-4; ARA)

Refletindo sobre este conhecido ensino de Jesus, tenho percebido que o seu alcance vai muito mais além da recomendação para não buscarmos uma glória pessoal humana. O Mestre veio mostrar à humanidade que o verdadeiro sentido da vida está na prática desinteressada do amor. O ser que alcança um certo nível de consciência e de compreensão existencial já não anseia mais por viver só para si. O egoísmo não o domina mais e ele pratica voluntariamente a assistência sem nenhuma necessidade de reconhecimento.

O desejo por ser reconhecido é algo comum entre as pessoas e eu diria que se trate até de um sentimento natural e bem espontâneo. Como partes integrantes de uma sociedade, aguardamos que os nossos pares nos tratem com a devida estima e dignidade, correspondendo à dedicação e ao afeto que temos para com o grupo.

Em ambientes formais, o reconhecimento ocorre como uma bajulação interesseira, o que é muito comum, por exemplo, num clube ou na política, quando alguns cidadãos são honrados publicamente na entrega de medalhas. E, diga-se de passagem, nem sempre a pessoa homenageada prestou bons serviços à coletividade como parece sendo que o ser nome pode ser escolhido por mera conveniência oportunística... 

Independentemente disso, a necessidade de reconhecimento persiste nas emoções de cada um e precisamos aprender a lidar com ela porque seria uma carência inata a todos. É nessas horas que travamos grandes batalhas com o ego. Praticar a justiça no anonimato implica em nos identificarem até como seres injustos pelo simples fato da coletividade desconhecer a nossa conduta e ainda fazer um mal juízo habitual. Quem não manda "tocar trombeta" por ter cumprido com o dever, ou praticado uma boa ação, algumas pessoas ficam achando que não foi feito nada e uns fazem acusações injustamente.

Como é difícil entendermos que não é preciso "provar nada pra ninguém", como diz a letra da música Quase sem querer do Legião Urbana. Pois penso que o maior desafio do anonimato esteja justamente aí. Você já venceu o sentimento de auto-glorificação e nem está buscando uma auto-promoção social, mas não se conforma em ser tratado como um zero à esquerda. Então, quanto mais faz pelas pessoas, mais aumenta a frustração e a reatividade a ponto do que parecia ser amor evidenciar-se como ódio.

Não é nada fácil seguir os passos de Jesus! O bendito Mestre nos mostrou um comportamento elevadíssimo no Sermão da Montanha que não pode ser facilmente alcançado. Pois se trata de um nível de maturidade ao qual talvez chegaremos quando subirmos mais na escala de crescimento espiritual. Para o momento, porém, já considero satisfatório que a trombeta seja tocada num tom mais baixo.


OBS: A ilustração acima refere-se ao célebre quadro O Sermão da Montanha (1890), pintura do artista dinamarquês Carl Heinrich Bloch (1834 - 1890).