domingo, 21 de junho de 2015

A transgressão dos falsos valores em favor da vida



"O Filho do Homem é senhor do sábado" (Lc 6:5)
"Que vos parece? É lícito, no sábado, fazer o bem ou o mal? Salvar a vida ou deixá-la perecer?" (Lc 6:9)

No capítulo 6 do Evangelho de Lucas, há dois episódios de controvérsia envolvendo Jesus, os fariseus e a interpretação sobre o quarto mandamento da lei divina - o Shabat.

Segundo a legislação mosaica, havia dois motivos básicos para o israelita praticar o repouso no último dia da semana: (i) o descanso e a benção de Deus após ter concluído a sua obra criadora, o que seria um argumento universal para os homens de todas as nacionalidades contemplarem a existência com base em Êxodo 19:11; e (ii) a libertação da escravidão egípcia de grande significação histórica para o povo judeu (Deuteronômio 5:15). Logo, podemos resumir que o Shabat reúne a celebração da vida e da liberdade, os dois bens mais caros para o ser humano.

Entretanto, nos tempos de Jesus, muitos já tinham perdido o entendimento sobre a razão da guarda dos preceitos bíblicos. No caso do sábado, o apego cultural-religioso havia se tornado tão excessivo que as pessoas já estavam se esquecendo da função maior da Lei divina que é dar uma instrução, orientação ou direção afim de vivermos melhor. Nunca para servir de instrumento opressivo contra o homem.

Conta o livro deuterocanônico de Macabeus que, pouco mais de um século antes de Jesus, houve um grupo de judeus que acabaram sendo exterminados porque recusaram a se proteger de um ataque inimigo em dia de sábado. Também a arqueologia nas terras palestinas descobriu informações sobre a existência de comunidades radicais de essênios na regão do Mar Morto onde houve membros que se recusavam até a defecar no dia de sábado. E, de acordo com a narrativa de Atos dos Apóstolos, a distância do local onde Jesus ascendeu aos céus até à cidade de Jerusalém é comparada à "jornada de um sábado", correspondendo a pouco mais de um quilômetro a quantidade máxima de passadas que as pessoas poderiam se deslocar no dia santo.

Muitos afirmam erroneamente que Jesus teria revogado o 4º mandamento do Decálogo e outros que, com sua ressurreição no domingo, operou-se uma substituição de dias. Só que nada disso consta na Bíblia e o que observo é uma nova maneira de se interpretar não somente o Shabat como todos os mandamentos dentro de uma perspectiva mais amorosa.

De modo algum o texto do livro de Lucas deve ser tomado como um anti-judaísmo e sim visto como uma oposição à religiosidade burra em geral. Questões como as que foram enfrentadas por Jesus seriam triviais para judeus liberais de quaisquer épocas. Nem entre os fariseus do final do segundo Templo parece ter existido uma unanimidade acerca do que seria permitido fazer aos sábados. Porém, todas as religiões têm os seus seguidores fundamentalistas e há quem culpe os livros sagrados por isso. No Israel atual, uma minoria ultra-ortodoxa opõe-se às visitas das mulheres judias ao Muro das Lamentações e alguns deles mais exaltados jogam até pedras nas ambulâncias que socorrem pacientes no dia santo.

Não vou falar tanto dos judeus radicais neste artigo. Antes prefiro comentar sobre as absurdidades do nosso meio cristão do que criticar especificamente aspectos de uma religião alheia. Não escrevo para arrancar aplausos do homem e, se sigo a Cristo, a causa do Filho do Homem indica o quanto devemos buscar a auto-reflexão voltada para nós mesmos e o grupo do qual fazemos parte. Tal desafio precisa ser encarado por mais que venhamos a ser rejeitados como indignos pelos próprios irmãos na fé.

Ora, o que significa ser o filho do homem "senhor do sábado"?

Neste primeiro episódio de controvérsia, os discípulos de Jesus foram repreendidos pelos fariseus por estarem colhendo e se alimentado de espigas num dia de sábado, sem fins laborativos mas sim conforme Deuteronômio 23:25 permite. Os religiosos censuravam-os por satisfazerem uma necessidade nutricional vendo ali com escândalo uma suposta quebra do mandamento. O Mestre, porém, lembrou-lhes sobre um acontecimento bíblico envolvendo Davi quando o grande herói de Israel e seus homens famintos, ao fugirem de Saul, foram procurar abrigo junto à comunidade sacerdotal (1 Samuel 21:1-6). Não achando outra coisa para comerem ali, só restavam os pães sagrados que eram de uso exclusivo do serviço do Templo (Lv 24:5-9):

"Deu-lhe, pois, o sacerdote o pão sagrado, porquanto não havia ali outro, senão os pães da proposição, que se tiraram de diante do SENHOR, quando trocados, no devido dia, por pão quente" (1Sm 21:6; ARA)

Manter a reverência pelos seculares mandamentos dos nossos ancestrais sempre será importantíssimo para a formação ético-espiritual do indivíduo. Porém, tal observância não pode se tornar um engessamento a ponto de ir contra às principais necessidades humanas de satisfação imediata e se tornar um atentado à própria vida. Foi a este respeito que acredito ter Jesus tomado posição. Jamais contra o Shabat.

No Evangelho de Marcos, texto que, provavelmente, já fosse conhecido pelos padres gregos autores de Lucas e de Mateus, a afirmação de que "o Filho do Homem é senhor também do sábado" vem precedida do ensino de que o repouso semanal fora instituído por causa do homem (Mc 2:27). Porém, na perspectiva do terceiro evangelho, o dito de Jesus ganha o sentido de que é possível interpretar a Lei divina contrariamente a uma visão restrita e fechada da letra, afim de ser alcançada a norma principiológica superior que é inspiradora das orientações contidas nos livros sagrados. E, na passagem de Lc 6:1-5, o Mestre está falando que o suprimento das necessidades alimentares deve prevalecer sobre uma proibição cultural estúpida, a qual nem ao menos permite que a pessoa prepare sua própria refeição.

No trecho de Lucas 6:6-11, a polêmica em torno de Jesus torna-se ainda maior e marca o início do momento em que o Mestre passará a ser odiado pelos religiosos de seu tempo e não apenas criticamente supervisionado. Ao entrar numa sinagoga em dia de sábado, o Senhor não recusou conceder a cura a um homem que tinha a mão direita ressequida. Fez parte de seu ensino, naquela ocasião, restabelecer a saúde de quem não a tinha totalmente, dando um sentido ao Shabat ali comemorado.

É certo que as mentes julgadoras daqueles fariseus ali presentes não foram capazes de compreender o benefício feito a um homem doente permitindo-lhe celebrar a vida e a liberdade com a alegria plenamente restaurada numa igualdade de condições com os demais devotos. Então, sabendo como aqueles teólogos de pensamento petrificado iriam interpretar o fato, Jesus adiantou-se em responder com sábias indagações como já citado:

"Que vos parece? É lícito, no sábado, fazer o bem ou o mal? Salvar a vida ou deixá-la perecer?"

Quantas vezes os religiosos cristãos de hoje não fazem dos mandamentos e obrigações eclesiásticas pretextos para se omitirem?!

Quando deixamos de atender  um necessitado posto por Deus em nosso caminho para não nos atrasarmos para um culto devocional, será que a frequência às atividades da igreja não se tornou uma vil desculpa para deixarmos de fazer o bem a alguém? Vejam, meus caros leitores, que já estou saindo da questão específica da guarda do sábado, a qual não é mais tão polêmica em nosso contexto de vida, para aplicarmos a essência daquele ousado ensino de Jesus a outros campos da vivência cotidiana. Acrescento que, nas áreas de estudo do Direito, é vasto o terreno onde leis novas e velhas podem ser instrumentalizadas conforme o princípio maior da dignidade da pessoa humana que move a nossa Constituição e todo o ordenamento jurídico pátrio. Aliás, eu poderia identificar tal norma com o amor de Cristo.

Antes de concluir, quero buscar corrigir uma injustiça histórica do cristianismo em relação ao Shabat que acabou importando no trágico rompimento do quarto mandamento pela Igreja. Nem me refiro tanto à mudança do dia santo para o domingo, mas sim do esvaziamento essencial do preceito bíblico. É que, com uma interpretação antijudaica dos evangelhos, corrompeu-se o ensino do Mestre e, com isto, viemos a perder a importância do descanso semanal a ponto de hoje em dia poucas vozes clamarem contra a lesiva permissão de todo o comércio abrir as suas portas de segunda à segunda.

Nossos massacrados trabalhadores, desde uma medida adotada no governo FHC, viraram escravos de seus patrões a ponto dos funcionários das padarias e dos supermercados nem sempre desfrutarem de um final de semana com a família. Por isso, temos hoje um preocupante sentimento de mal estar e de insatisfação na sociedade brasileira capaz d propiciar um clima de desequilíbrio social no país.

Creio que, sendo Jesus judeu, jamais ele pretendeu revogar o descanso sabático. Não foi sua proposta que hoje enchêssemos a agenda de atividades no dia que se destina ao repouso coletivo, o qual precisa ser fixo numa coletividade. Porém, o Mestre deixou claro que não devemos nos omitir em praticar o bem quando este precisa ser executado em seu devido momento. E aí cabe ao discípulo transgredir as concepções construídas sobre o cumprimento de um preceito para que a Lei divina, em seu ponto mais elevado, seja amorosamente cumprida.


OBS: A ilustração usada neste texto refere-se a um quadro do artista francês James Joseph Jacques Tissot  (1836-1902), pintado entre 1886 e 1894, onde ele retrata os conflitos experimentados entre Jesus e os fariseus. A obra encontra-se no Museu do Brooklyn, Nova York. Capturei a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brooklyn_Museum_-_Woe_unto_You,_Scribes_and_Pharisees_(Malheur_%C3%A0_vous,_scribes_et_pharisiens)_-_James_Tissot.jpg

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Ofendido com a encenação da crucificação na Parada Gay?



Por Hermes C. Fernandes (*)

A encenação da crucificação de Jesus em plena parada gay causou muito mal-estar entre cristãos de diversas matizes. Uns consideraram blasfêmia, outros, apenas deboche, mas a maioria entendeu como uma provocação aberta aos cristãos. 
Particularmente, não me senti nem um pouco ofendido ao ver uma ativista gay pregada numa cruz. Afinal, Jesus não morreu somente por héteros. Na cruz, Ele Se identificou com os excluídos, os oprimidos, os marginalizados, e ao fazê-lo, assumiu em Si todos os nossos pecados e mazelas, sejam de que natureza forem, inclusive sexual. Não há dilema humano que não caiba na cruz. 
O que vi representado naquela cena foi o sofrimento de um segmento que tem sido vítima de nosso preconceito, nojo e ódio. O que deveria nos incomodar não é a cena em si, mas aquilo que ela pretende denunciar. E por mais doloroso que seja admitir, temos engrossado o coro de seus algozes. Nossos discursos inflamados, travestidos de piedade cristã, só fazem fomentar ainda mais a intolerância e o desamor.
O que para alguns pareceu um insulto, para mim soou como um pedido de socorro. Se a intenção era apenas provocar, eles conseguiram. Provocaram o que já estava latente em nós, nosso ódio inconfessável ou nossa compaixão.
Sobre a cabeça do ativista crucificado uma placa que dizia "Basta de homofobia". Se isso não for um pedido de socorro, não sei o que é. 
Próximo dali, um grupo de cristãos conscientes exibiam uma faixa que dizia "Jesus cura a homofobia". Nem tudo está perdido. No meio desta loucura que se instalou em nossos arraiais, ainda restam alguns oásis de lucidez e misericórdia. Pena que seja uma minoria. E tomara que se torne uma minoria bem barulhenta. 
A maioria está tão obcecada com a ideia de curá-los daquilo que reprovam como conduta, que não percebe o quão doente está. 
Obviamente que políticos evangélicos que têm sido eleitos em cima desta guerra idiota vão aproveitar ao máximo o episódio para se auto-promover. Quanto mais animosidade entre cristãos e gays, melhor para eles. Só não vê quem não quer. 
E Jesus, será que Se ofendeu? Ora, se Ele foi capaz de rogar perdão por aqueles que o crucificavam pra valer, duvido muito que não tenha relevado o que não passou de uma representação artística. Não creio num Jesus ranzinza, insensível e incapaz de compreender nossas idiossincrasias e incongruências. Creio que do alto céu, Ele olhou com misericórdia aquelas milhões de pessoas que desfilavam na Avenida Paulista como ovelhas que não têm pastor. 
Quem sabe encontrou mais sinceridade em cima daquele trio-elétrico do que em cima de outros que desfilaram dois dias antes. Assim como encontrou mais fé num centurião romano idólatra do que nos religiosos escrupulosos que o seguiam. Imagino o quão ofendidos ficaram ao ouvirem dos lábios de Jesus: Nunca encontrei tamanha fé, nem mesmo em Israel. Em nosso caso, talvez o que sobre de fé esteja faltando de amor. 
Que tal se em vez de ficar colocando lenha na fogueira de nossa nada santa inquisição, não alimentamos o que ainda nos restou da chama do amor?

***

P.S. Duas passagens bíblicas têm sido usadas para justificar a revolta de muitos cristãos devido à crucificação encenada na Parada Gay. Uma delas está em Hebreus 10:29: "De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com o qual foi santificado e ultrajar o Espírito da graça? Pois conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo." Reparem que esta advertência é dirigida aos cristãos e não aos de fora. Está se falando de alguém que, uma vez santificado, insiste em profanar o sacrifício de Jesus e ultrajar o Espírito da graça. E sinceramente, é o que mais tenho visto por parte daqueles que destilam ódio em seu discurso pseudo-piedoso. Quem ultraja mais o "Espírito da Graça" senão aquele que se atreve a delimitar o perímetro de Sua atuação? Quem profana mais o sangue da aliança se não os que fazem do povo de Deus um meio de ganhar dinheiro e votos?  A outra passagem está em Gálatas 6:7: "Não vos enganeis. De Deus não se zomba. Tudo o que o homem semear, isso também ceifará." Basta uma conferida no contexto para verificar que Paulo está advertindo os que trocaram a graça pela lei, a misericórdia pelo juízo e que estavam justificando a si mesmos por suas obras. Ninguém tem zombado mais de Deus do que os cristãos. E não só isso: por nossa causa o caminho da verdade tem sido blasfemado pelos de fora (2 Pe.2:2). Eles têm como justo álibi uma suposta ignorância. Porém, nós não temos o direito de nos estribar em nossa nesciência.
Agora, cá entre nós... É impressão minha ou os gays se apropriaram "indevidamente" de uma mensagem que tem sido desprezada pelos cristãos? Ou alguém ouviu alguma menção à cruz de Cristo durante a Marcha pra Jesus?
A cruz segue sendo um escândalo. Talvez por isso já não é pregada como antes. Ela expõe as entranhas de nossa presunção, de nosso preconceito, de nossa vaidade, enquanto manifesta a glória de Sua escandalosa graça.

A propósito, não me sinto na obrigação de perdoar o que não considerei ofensa. E se este fosse o caso, meu perdão não se basearia no fato de "não saberem o que fazem". Pelo que tenho visto até aqui, eles sabem mais o que fazem do que muitos crentes sabem o que dizem. Mas se você, cristão, se sentiu ofendido, só lhe resta perdoar ou refletir sobre seu posicionamento. 

Só me resta agradecer à comunidade LGBT por nos fazer lembrar que ainda há uma cruz. 


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 (*) Texto extraído blog do autor na presente data e postado na origem dia 08/06/2015

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O dia em que Adão voltou ao Eden

Adão tinha acabado de completar seus novecentos anos. Fazia poucas semanas que Eva falecera e o homem estava muito triste na humilde caverna onde habitava naquela Mesopotâmia pré-histórica. Numa das paredes estavam os retratos desenhados dos dois primeiros filhos do casal que foram brutalmente assassinados a seu tempo. O mais novo pelo próprio irmão primogênito e este por um violento descendente da sua quinta geração de homens perversos chamado Lameque. Na gravura rupreste, o pai pintara os seus dois meninos ainda passeando alegremente no mato como se tudo estivesse indo bem. Na imagem, Caim cultivava uvas e Abel conduzia as ovelhinhas da família pelo pasto. Tudo em paz e na mais perfeita harmonia tal como tinha sido nos dias em que vivera no Éden.

Sem ter mais sentido para viver, Adão resolveu fazer suas trouxas e sair caminhando sem um rumo definido. Nada contou ao seu filho Seth que agora liderava a tribo em seu lugar e se encontrava absorvido com as mais diversas atividades como a defesa militar contra as invasões dos violentos descendentes de Caim e o controle de estoque de mantimentos. Só que para o pai Adão assistir a tudo aquilo só lhe causava mal já que toda a humanidade descendia dele. Tanto os filhos bons quanto os filhos considerados ruins.

Fazia uns cento e cinquenta anos que Adão nunca mais tinha deixado os limites da aldeia. Por não se lembrar mais daquelas centenárias trilhas, ele seguiu sempre rumo ao Ocidente a fim de evitar a forte claridade do sol da manhã que batia sobre seu rosto. Andou por horas sem parar e chegou até à margem esquerda do rio Tigre. Tentou atravessar das águas pisando sobre umas pedras, mas acabou escorregando e arrastado pela correnteza. Por sorte, o ancião conseguiu agarrar-se num tronco e não se afogou.

Tendo descido rio abaixo, Adão encontrou uma planície com águas mais tranquilas. Deixou o leito do rio caminhando por um banco de areia e se despiu para que as roupas pudessem secar rápido sob o calor do meio dia evitando pegar gripe. Pela primeira vez, em mais de oitocentos anos, ele voltou a caminhar nu.

“De que me valem as vestes nesta etapa da vida? Já não faço questão de manter qualquer status e que diferença há entre mim e os animais?”, pensou Adão consigo mesmo enquanto andava pela outra margem do Tigre enquanto as roupas e sua trouxa de mantimentos foram deixadas para trás.

Mais adiante, Adão deparou-se com um outro grande rio – o Eufrates. Sentindo cansaço físico intenso, ele se sentou debaixo de uma figueira e ficou contemplando a linda paisagem diante de seus olhos até que toda aquela geografia pareceu-lhe familiar.

“Uai! Estou bem na entrada do Éden! Foi justamente por aquela trilha que eu e a Eva fomos expulsos. Tempos depois ainda tentamos retornar, mas a espada refulgente não permitiu que entrássemos. Puxa vida! Como estarão as coisas por lá? Se o querubim não deixar que eu passe, pelo menos espiarei de longe e me lembrarei um pouco de como eram as coisas de antigamente antes de voltar ao pó de onde eu vim. Prefiro morrer com esta lembrança na minha mente.”

Cautelosamente Adão aproximou-se. Olhou para um lado e para o outro sem ver qualquer espada flamejante ou ainda algum querubim para guardar o acesso. Prosseguiu e foi penetrando naquele lugar paradisíaco onde passou seus melhores anos com Eva. Os pássaros cantavam alegremente e as árvores estavam carregadas de frutas: mangas, uvas, tâmaras, figos, jabuticabas, laranjas, maçãs, peras, pêssegos, romãs, mamões e bananas. Tanto o verde das folhas quanto o azul do céu brilhavam intensamente enquanto as águas dos outros dois rios menores, o Pisom e o Giom, continuavam tão transparentes como antes já que a humanidade ainda não tinha descoberto os malefícios da mineração.

Entretanto, mesmo com toda aquela beleza a sua volta, Adão não se sentiu nem um pouco satisfeito:

“Estou mais só do que antes do SENHOR extrair minha costela e me apresentar a Eva. Quando ponho qualquer uma dessas frutas em minha boca, não sinto mais o sabor delas. Tudo aqui pode ser muito bonito de se ver, mas é como seu eu não fizesse mais parte de nada. Que coisa estranha! O Éden parece ter virado mais um lugar comum e sem graça. Talvez ainda sirva para Matusalém e seus filhos da nova geração depois de mim virem morar aqui. Só que, no meu caso, apenas interessa as recordações de um passado que já não existe mais.”

Com profunda nostalgia, Adão lembrou então de cada momento vivido ali:

“Caramba! Era nesta prainha fluvial que eu e Eva vínhamos todas as manhãs ver o sol nascer. Ali, naquela cachoeira, tivemos uma maravilhosa tarde de amor abençoada pelo Criador. E bem pertinho desta árvore em minha frente, Caim adorava brincar com os macacos quando criança. Até hoje não sei onde eu estava com a cabeça quando resolvi comer do fruto proibido! Minha mulher pode ter sido enganada pela maldita serpente, mas eu sabia o tempo todo que estava errado. A culpa foi toda minha e não dela! Eu pequei!”

Indo em direção ao centro do jardim, Adão chegou ao local do crime onde ficaram as árvores da vida e a do conhecimento do bem e do mal que Deus lhe vedara experimentar. Porém, o homem encontrou de pé apenas a árvore da vida, aquela da qual comendo ele viveria eternamente. Então, aproximou-se, tocou no fruto e o arrancou do pé. Olhou para um lado e para o outro afim de ver se não teria algum anjo ou querubim por perto. E, quando ai levar o alimento à boca, pensou:

“Cara, o que pretende fazer?! Pára com esta palhaçada! Você vai transformar a sua existência num inferno eterno? Deixa a vida te levar! Perpetuar o tempo cronológico em nada lhe acrescentará e nem trará sua amada Eva de volta. A verdadeira vida está dentro de cada um e apenas é possível encontrá-la reconciliando-se com o Criador.”

Enterrando a fruta no solo, Adão chorou profundamente e pediu perdão por todos os seus erros. Afastou-se do local e foi fazer a sua cama próximo à entrada do Éden onde já estavam sua trouxinha de coisas e a roupa quase seca. Ali adormeceu direto até o sol raiar. Seu sono foi tão profundo como daquela vez quando Deus havia tirado sua costela para esculpir a mulher.

Na manhã seguinte, quando Adão abriu os olhos, ele viu outro senhor menos idoso do que ele vindo nu na direção do Éden. Não teve medo como na vez em que se escondeu de Deus entre as árvores do Paraíso e se apresentou.

- “Quem é?”

- “Pai Adão, sou eu Enoque, o profeta. Sou o primogênito de sua sétima geração. Vim ao seu encontro, debaixo de uma revelação divina, para levá-lo de volta para casa. Todos estão preocupados e fizeram um delicioso bolo de milho para festejarem o seu aniversário na caverna.”

- “Enoque, meu filho, desde que Matusalém nasceu, nunca mais recebi notícias suas. Por onde tem andado?”

- “Tenho caminhado diariamente com Deus, mas, dentro de algum tempo, já não mais estarei entre seus descendentes. Quando chegar minha vez de liderar a tribo, o comando deverá ser passado de meu pai Jarede direto para Matusalém. Este governará o mundo até que venha um grande dilúvio.”

- “E quando será isto, filho? Desde que deixei o Éden até hoje nunca choveu sobre a Terra!”

- “Não será algo para seu tempo, meu pai. Disse ao meu jovem neto Lameque que, quando o primogênito dele nascer, seremos todos consolados do nosso árduo trabalho. Só que, antes do fim, ainda temos uma obra a ser feita. Depois que Caim foi morto pelo outro Lameque, o bígamo, os dois filhos nascidos de Ada ficaram sem a companhia do pai porque este foi banido da comunidade devido ao homicídio praticado. Porém, um dos meninos é gente boa, diferente do Tubalcaim filho da Zilá. Por isso, nas três décadas que ainda te restam, importa que autorize o seu convívio entre os filhos de Seth e ensine as canções secretas do Paraíso para Jubal, filho de Ada. Ele tem o dom para tocar harpa e flauta. Também a filha que Zilá está esperando no seu ventre se chamará Naamá e será esposa do meu futuro bisneto, o qual se chamará Noé.”

- “Faz sentido, meu filho. Nem tudo está perdido. Vamos partir?”

- “Claro, meu pai. Mas antes coloque de volta as suas vestes. Sei que não precisamos mais delas, porém seus descendentes não entenderão caso te vejam chegando nu na aldeia. Pensarão que enlouqueceu ou que encheu a cara de vinho.”

- “Puxa vida! Foi tudo por minha culpa, Enoque. Eu devia ter recusado comer aquela fruta proibida...”

- “Não fica assim, pai Adão. Culpa não nos leva a lugar nenhum! Não penso que seja um homem mal, mas apenas um curioso. E, no fundo, Deus sabia que o senhor e a mãe Eva iriam comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, pelo que providenciou um antídoto antes de criar o mundo. Espero que, no futuro, a humanidade pare de culpá-lo por seus próprios fracassos e cada qual aprenda a assumir sua responsabilidade pelas decisões tomadas.”

- “Acho que, em maior ou menos grau, a responsabilidade precisa ser compartilhada com todos, Enoque. Mas não adiante nos queixarmos. Temos que plantar as sementes de um novo tempo desde já até que chegue o dia da promessa quando um futuro descendente de Eva pisará a cabeça daquela cobra má e esta lhe morderá o calcanhar. Foi isto que o SENHOR nos falou quando fui expulso do Éden e ainda não entendi direito o significado das palavras. Como você que é profeta entende isso já que Eva não teve nenhum filho que pareça com o prometido? Pensei até que fosse você, mas como falou de um futuro bisneto que salvaria o mundo de um dilúvio, agora estou ficando confuso...”

- “Pai Adão, esta promessa vai se cumprir uns dois milênios e alguns séculos depois do dilúvio. Alguma filha das filhas de Eva dará a luz a um varão com muita graça pelo sopro de Deus em seu ventre. Ele ensinará o amor a este mundo caído e destruirá as forças do mal. Por isso, ele deverá morrer e, com sua morte, aniquilará de vez todo o veneno da diabólica serpente. Inclusive o poder da morte”

- “Amém, meu filho! Eu creio nesta promessa mesmo sem ver o rosto do menino. Que cheguem logo os dias de seu glorioso reinado! Sinto desde já que a morte não tem mais domínio sobre mim. Aquilo que chamamos de morte é mera aparência. Minha alma vive! Aleluia!”

- “Glória a Deus, pai Adão! Estou vendo que o senhor nasceu novamente mesmo com novecentos anos. Mas agora é melhor irmos nos apressando. Vou ajudá-lo a atravessar o rio.”

- “Sim, meu filho. Vamos voltar logo. Ainda quero retornar esta tarde, comemorar meu aniversário e cumprir a missão que Deus ainda tem para mim nestes últimos trinta anos que me restam”.


OBS: A imagem acima foi extraída do acervo da Wikipédia e se refere a uma estatua gótica de Adão encontrada atualmente no Museu de Cluny, em Paris, França.