domingo, 24 de agosto de 2014

Águia ou Abutre?



Nas traduções da Bíblia em português, o texto de Êxodo 19.4 diz:

Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias, e vos trouxe a mim;
(Almeida Corrigida e Revisada Fiel)


vistes o que fiz aos egípcios, e como vos tenho trazido sobre asas de águia para junto de mim.
(versão católica)


Vocês viram o que fiz ao Egito e como os transportei sobre asas de águias e os trouxe para junto de mim.
(Nova Versão Internacional)


Mas no texto hebraico, o termo não é "águia" e sim, "abutre" como bem traduz a versão mais literal de André Chouraqui:

"Vistes o que fiz a Misraîms e como vos trouxe sobre asas de abutres para vos fazer vir a mim"

 O autor bíblico provavelmente está se referindo ao Gyps fulvus, este bicho aqui embaixo.



Segundo  “The Ten Commandments: A Short History of An Ancient Text”, de Michael Coogan, Por que comparar o Senhor Deus a um comedor de carniça? Bem, porque o folclore sobre esses bichos entre os antigos israelitas dizia que, quando os filhotes começavam a aprender a voar, pulando do ninho, os pais rapidamente saíam voando por baixo e apoiavam os abutrezinhos nas suas costas, até que seus músculos estivessem suficientemente desenvolvidos para baterem as asas sozinhos. É uma metáfora de solicitude, portanto — apesar da comparação aparentemente pouco lisonjeira. 


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citado por Reinaldo Blog, da Folha SP

domingo, 10 de agosto de 2014

Rios no deserto: um comentário sobre Isaías 35




A linguagem poética dos profetas bíblicos nem sempre é bem compreendida pelo leitor fantasioso. Muitos se alienam em suas tentativas vãs de encontrar previsões para os acontecimentos do futuro folheando as páginas das Escrituras sendo que, na verdade, os autores sagrados estavam bem focados na situação do momento presente em que foi comunicada a mensagem.

Lendo Isaías 35, percebo ali uma pregação bem profunda  capaz de nos levar a um auto-conhecimento. Pois, embora seja identificada com o ministério de cura praticado 700 anos depois por Jesus, conforme os versos 5-6a, há algo muito mais além da literal abertura dos olhos aos cegos, do desentupimento dos ouvidos dos surdos, do fim da paralisia dos coxos e do desenrolar da língua dos mudos.

No contexto de Isaías, o profeta teria falado ao povo de Israel na ocasião das invasões dos assírios. Mas, na época dos redatores do livro, bem depois de sua morte, suponho que a experiência foi atualizada conforme os últimos instantes do exílio babilônico ou até mesmo quando os judeus teriam retornado para a terra de origem no final do século VI a.C. Só que, em qualquer tempo ou lugar, existirá sempre algo em comum capaz de atualizar aquela pregação milenar.

O texto do capítulo 35 aborda vários sentimentos humanos e nos aponta o caminho para a verdadeira felicidade. Vamos então ao comentário que podemos fazer ao texto bíblico analisando cada trecho da profecia.

Nos versos 1 a 2, o autor proclama uma promessa e usa a aridez da terra como metáfora. Ele prega a mudança de paisagem do deserto que se comparará à verdejante região do Líbano. E, antes que alguém faça uma interpretação de cunho sionista em favor da irrigada agricultura de Israel atualmente, eu diria que Isaías estava referindo-se mais profundamente à restauração do ser humano. Ou melhor, dos nossos corações.

Pessoas amargas, infelizes, deprimidas e desesperançadas podem ser mudadas pela glória de Deus. O "deserto" que há em seus corações, ainda que devastado pelos acontecimentos negativos que marcam a trajetória humana, a ponto de destruir sonhos, pode ser transformado em um lindo "pomar". Por isso o texto nos incentiva a recobrarmos os ânimos, não permitirmos que o medo nos acorrente e que venhamos a crer na operação salvadora de Deus (versos 3 e 4). Do Deus que tem o controle da história e aguarda nas suas mãos o momento certo de agir na caminhada de um povo e na vida de cada pessoa individualmente.

Por muitas vezes, os acontecimentos ruins e o pecado vão fechando a nossa  visão da realidade espiritual. Quanto mais o homem afasta-se de Deus, mais escuros ficam os seus horizontes e ele não consegue enxergar mais além das circunstâncias (cegueira). Torna-se insensível à voz do Espírito (surdez) a ponto de se perder nos caminhos por onde anda. Por fim, ele acaba se paralisando diante dos desafios que se apresentam (torna-se coxo) e a sua língua já não louva mais ao seu Criador (vira um mudo). Porém, quando abrimos as portas do coração para o mover divino, o milagre da ressurreição para a eternidade acontece. É quando, poeticamente falando, rios brotam no deserto transformando toda a paisagem seca do nosso interior. A sede que há em cada um de nós é preenchida pela Divina Presença.

Nos versos 8, 9 e 10, o profeta fala de um "Caminho Santo". Trata-se, pois, de uma estrada espiritual que exige uma inclinação para a pureza e para a santidade de quem se propõe a passar por ela. Deus, o Santíssimo, exige que todo aquele que O busca deixe o pecado através de um arrependimento sincero. Do contrário, não conseguimos nos apossar da Sião Celestial.

Certamente que, enquanto estivermos contaminados com os valores mundanos, em que estes interferem na nossa maneira de agir, vamos permanecer com as expectativas voltadas para o pecado. Erramos por procurar a felicidade nos prazeres, no acúmulo de poder e nas riquezas. Assim, nutrimos o engano dentro de nós, distanciando-nos cada vez mais da verdadeira Vida proposta por Deus aos homens. Vida esta que é revelada em Cristo - o Caminho Santo que se faz visível e palpável pelo exemplo de obediência trilhado por Jesus de Nazaré.

Mesmo sendo Santo, esse Caminho é posto para os pecadores passarem. Isto é, para os remidos, para quem aceitou o resgate divino do reino da maldade. Desta maneira, a pregação de Isaías torna-se uma espécie de Evangelho para todos os tipos de gente porque propõe uma aceitação do indivíduo pelo perdão incondicional e promete aos que atenderem seu chamado à experimentação da verdadeira alegria. Um gozo que é permanente ao invés do prazer passageiro do pecado ou da glória das riquezas que logo murchará.

Termino este texto desejando que a prática do bem e do amor torne-se algo no qual tenhamos prazer. Que possamos interiorizar os princípios da Lei de Deus em nossos corações, mergulhando por inteiro na Palavra. Pois, como disse o salmista, trata-se de lâmpada para os pés e luz no nosso caminho.

Tenham todos uma boa semana!


OBS: A foto acima trata-se de uma imagem do rio Jordão cruzando o deserto da Judeia em Israel. Foi extraída da internet em http://exegeserbiblica.webnode.com.br/news/uma%20introdu%C3%A7%C3%A3o%20%C3%A0%20geografia%20do%20mundo%20biblico/