sábado, 31 de agosto de 2013

JESUS E O REINO



Quando comparado com a pregação geral de Jesus e com os resumos que dela fazem os Sinóticos, o primeiro discurso de Pedro depois da ressurreição de Jesus deixa perplexo o leitor de Atos. Em resumo, Pedro diz à multidão de ouvintes, no dia de Pentecostes: “...Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais...Este homem, entregue...vós o matastes, crucificando-o...A este Jesus Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas...Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (Atos 2,22-24.32.36)

Que aconteceu com o “evangelho”? Aquilo no qual Jesus centralizava toda a atenção de seus ouvintes, ou seja, o Reino e sua proximidade, está ausente aqui. Pelo motivo que seja, desapareceu da mensagem a palavra central da boa notícia de Jesus. Tudo agora gira em torno do triunfo e da dignidade do próprio Jesus. É claro que o costume e, mais ainda, uma sutil manipulação da teologia hipnotizam, por assim dizer, o leitor cristão, fazendo-o pensar que, como se trata da Igreja, o acento colocado no triunfo de Jesus ressuscitado tem que, forçosamente, equivaler ao cumprimento da boa notícia da próxima chegada do Reino.

Ao chegar a esse preciso ponto, E. Schillebeeckx, (teólogo católico) escreve: “Equivocou-se Jesus, anunciando a vinda iminente do Reino de Deus?...A convicção cristã de que Jesus não se havia equivocado em sua experiência do abba (Pai) constituiu um dos elementos que levaram os cristãos a identificar o Reino de Deus pregado por Jesus com o Crucificado ressuscitado: nele chegou o Reino de Deus. Tal era a grande intuição de fé que os primeiros cristãos articularam anunciando que Jesus havia ressuscitado dentro os mortos”.

A experiência da ressurreição  é fruto e não a causa da intuição, da fé. Parece-me que se faz uma terrível violência à história de Jesus e de todo o seu trabalho anunciador do Reino, ao supor que as testemunhas dessa história veem, depois da ressurreição, o Reino como realizado.  O único motivo para crer nela (na ressurreição), uma vez que ainda se trate de crer, é – no fundo – a identificação com a luta histórica de Jesus pelo Reino, ou seja, opção pelos pobres. Mas, precisamente nos discursos de Pedro, esse período da vida de Jesus desapareceu.

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Juan Luis Secundo. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré. Dos sinóticos
a Paulo. Ed Paulus

domingo, 18 de agosto de 2013

"Verdades invisíveis" (o caso da maça, dos três reis magos e da Trindade)





Coisas que a Bíblia não diz explicitamente foram ditas explicitamente ao sabor da imaginação e da curiosidade dos teólogos. O primeiro caso: a maça como fruto proibido. A Bíblia diz que Adão e Eva comeram do fruto proibido da árvore  do conhecimento do bem e do mal mas não diz qual era esse fruto. Os judeus que escreveram o Talmud fizeram várias suposições: um figo, uma uva ou até o trigo. Um antigo texto judaico sugere que o fruto seria o tamarindo. Pensadores mulçumanos afirmaram que era uma  azeitona. Essa era uma questão erudita naqueles tempos!

 
Para os cristãos era importante saber qual o fruto já que os artistas precisavam saber como descrever a cena. Pinturas eram proibidas no judaísmo e no islamismo mas era fundamental no cristianismo. A igreja se dividiu por causa do fruto misterioso. O Ocidente de fala latina, optou pela uva, enquanto o Oriente de fala grega, optou pelo figo. Uma terceira via sugeriu que o fruto fosse uma maça (olha ela aí!) e foi logo aceita devido a um trocadilho: a palavra latina para “maça”, malum, também é a palavra para “mal”. A maça, nativa da Ásia, era também a fruta mais encontrada nos países não convertidos do norte da Europa. Havia também uma tradição que via na maça símbolo de conhecimento. Missionários cristãos, com a famosa habilidade de se apropriar de ideias e imagens pagãs, fizeram um inteligente uso dessa associação antiga em seus sermões.  Por volta do século XII, a maça foi firmemente estabelecida na imaginação cristã como o fruto que levou à queda.

 
Um segundo caso é dos “três reis magos”.  Somente o evangelho de Mateus cita-os mas não diz quem eram, quais seus nomes e nem diz que eram reis. Mas como a imagem desses magos se tornou importante no quadro geral do nascimento de Jesus, muito se especulou sobre isso. Afinal de contas, eles teriam sido os primeiros estrangeiros a adorar a Jesus. O grande teólogo egípcio Orígenes (sec III) disse que deviam ser três sábios, porque os presentes mencionados eram três. Em outras tradições os sábios são dois, quatro ou oito. Nas igrejas do Oriente dizia-se que haviam 12 deles e cada um conhecido pelo nome. Mas a noção de que eram três foi aceita no Ocidente por volta do século VI. A ideia de que eram reis foi sugerida pelo escritor romano Tertuliano, contemporâneo de Orígenes. O nome dos agora “Três reis Magos” aparece em um fragmento de um texto escrito por volta de 550. Diz: “Durante o reinado de Augusto, os magos lhe trouxeram(para Jesus) presentes e o veneravam. Os magos se chamavam Baltazar, Melchior e Gaspar”. Textos posteriores foram acrescentado detalhes aos Reis Magos, como o de que cada um deles era de uma raça diferente, um teor simbólico para demonstrar a autoridade do Messias sobre os gentios e judeus.  

 
Uma terceira questão é a “Trindade”. De onde vem a Trindade se em nenhum lugar da Bíblia se fala nela? Nem Jesus nem os apóstolos falaram de uma Trindade. Os primeiros cristãos eram judeus impregnados com a fé monoteísta: um só Deus e não “três”. Mas esses cristãos também criam que Jesus era o Messias e “o Filho de Deus” que havia morrido para livrá-los do pecado, o que implicava em dar a Jesus um certo “ar divino”. Isso foi um grande problema para os primeiros teólogos cristãos. A expressão “Filho de Deus” sugere que Jesus tinha sido criado por Deus, e assim, inferior ao Pai; como ele poderia então perdoar os pecados? Mas se ele fosse Deus ao lado do Pai, como ficava a crença no monoteísmo? E para complicar mais as coisas, havia o Espírito Santo, que era entendido como a força onipresente de Deus na terra.

 
Assim, a natureza de Cristo e do Espírito Santo foi objeto de muitos debates nos dois primeiros séculos da era cristã. Era preciso solucionar essa questão teológica, mas só no século IV, quando o imperador Constantino se  tornou cristão que o problema seria resolvido.  A questão tinha-se reduzido a dois pontos de vistas distintos, ambos apoiados em versículos bíblicos. A maioria dos bispos dizia que Cristo e o Espírito Santo sempre haviam existido junto com Deus-Pai, eram da mesma essência (homoousian) e que eles eram três pessoas numa Divindade. A outra crença minoritária defendida pelo teólogo de Alexandria Ário e também aceita por diversos cristãos, defendia que  apenas o Pai era Deus e de que Cristo era subserviente a ele e de que o Espírito Santo era subserviente a Cristo. Cristo seria semelhante em essência ao Pai(homoousion) e criado por ele.

 
Em 325, um concílio com 300 bispos foi convocado em Nicéia para resolver a questão.Ário compareceu mas foi rejeitado, e sua facção foi derrotado no voto. Os bispos então elaboraram uma relação de palavras que definiam os elementos essenciais da fé cristã. Esse documento, é o Credo Niceno, que ainda hoje é recitado nas igrejas:“Creio em um só Deus, pai todo-poderoso (...); e em um só senhor Jesus Cristo, filho unigênito de Deus (...)gerado, não feito, da mesma substância do Pai (...). Creio no Espírito Santo (...)que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado (...)”. A doutrina da Trindade se transformou na pedra de toque da ortodoxia cristã. Os arianos perderam a discussão e foram declarados hereges e perseguidos até sumirem.


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Referências:"Como Tudo Começou" - 
a história por trás do mundo atual. Ed Seleções

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Considerações sobre as cartas aos Tessalonicenses



A segunda carta aos Tessalonicenses foi escrito para contestar o ponto de vista que o “Dia do Senhor está próximo” (2:2):

“que não vos deixeis abalar, assim tão depressa, em vossas convicções, nem vos alermeis com alguma pretensa revelação do Espírito ou alguma instrução ou carta atribuída a nós e que desse a entender que o dia do Senhor já está chegando”

O autor da carte diz que o fim não seria logo, pois antes, deveria acontecer algumas coisas: A revolta geral contra Deus, o surgimento do anti-Cristo que tomará seu lugar no Templo judaico, declarando-se Deus, fazendo milagres e sinais. Só depois disso viria o Dia do Senhor.

Mas há uma divergência séria entre a primeira carta e a segunda, se ambas foram escritas por Paulo. A primeira carta aos  Tessalonicenses também foi escrita para tratar do fim dos tempos, na volta de Jesus. (1 Ts 4:13-18). Paulo escreveu essa carta porque os membros da congregação de Tessalônica tinham sido ensinados por ele que o fim era iminente; ia se dar logo, naqueles dias. A congregação ficou então perturbada pois vários de seus membros tinham morrido antes do retorno de Jesus. E agora? Perderiam eles a oportunidade de serem levados com Jesus? Então Paulo escreve para tranquiliza-los. Ensina que os mortos serão os primeiros a serem arrebatados no segundo advento de Jesus, pois todos ressuscitariam antes.

Paulo escreve (1 Ts 5.1-2) que o advento de Jesus será repentino e inesperado,  que produziria repentina destruição, por isso os tessalonicenses deveria estar preparados para não serem pegos de surpresa. Mas em 2 Tessalonicenses diz que o fim não será imediato pois haverá claros sinais para indicar que está próximo o fim; Sinais estes que ainda não tinham surgido. Na carta de 2 Ts Paulo escreve “vos dizia isto quando estava convosco” (2;5). Mas se Paulo já tinha dito estas coisas por que a congregação ficara preocupada com os que haviam morrido? Eles saberiam que o fim não era imediato, que teria vários eventos antes.

Então estamos diante de dois problemas: o tema central das duas cartas não batem; uma contradiz a outra. Solução? Existe uma ampla concordância que a primeira carta aos Tessalonicenses é autêntica de Paulo, mas não a segunda. Mas há também o problema das duas cartas serem muito parecidas tanto em estilo quanto em vocabulário.  Mas isso não prova que ambas foram escritas por Paulo, pois se alguém escreveu em nome dele, faria de tudo para imitar seu estilo e vocabulário.

Mas por que este autor desconhecido teria imitado a Paulo mas ter escrito o oposto do que ele escrevera antes, na primeira carta? Podemos imaginar algumas respostas para isso: uma mudança na situação da igreja; talvez o autor não tenha compreendido bem a primeira carta; isso já acontecera antes como podemos ler em Rm 3.8.


É possível também que as altas expectativas dos cristãos perto do fim do século I tenham levado um autor desconhecido nas igrejas de Paulo a escrever 2 Ts para acalmá-los um pouco, dizer que o fim chegaria sim, mas que não seria imediatamente. Ou esta é a solução, ou temos que admitir que Paulo contradisse a si mesmo na segunda carta; ou ainda, que ele mudou de ideia e estava enganado na primeira carta.