quarta-feira, 19 de junho de 2013

Efeito colateral dos dogmas



Donizete Vieira



Até o século XIX a ideia de que as doutrinas cristãs haviam passado por processos de desenvolvimento soava como heresia em ouvidos ortodoxos. Porém esse pensamento veio a ser referência na altíssima atividade teológica daquele século.

Alguns defendiam a tese de que a evolução teológica não era nada mais do que um desenvolvimento previsto e que já estava implícito na mensagem original.

Entretanto, Adolph Von Harnack e outros teólogos de seu tempo, viam na história dos dogmas da igreja o abandono progressivo da mensagem original de Jesus, que não era acerca de Jesus. Segundo Harnack, o que Jesus pregou foi a paternidade de Deus, a fraternidade universal, o valor infinito da alma humana e o mandamento do amor. Foi depois, por um processo que levou anos, que Jesus veio a ser o centro e a essência da sua mensagem foi perdida. Os dogmas estabelecidos não alinharam Jesus à sua mensagem.

Outro crítico da dogmatização foi Albrecht Ritschl. Esse influente teólogo do século XIX afirmou que a religião, mais particularmente o cristianismo, não é uma questão de especulação metafísica, nem de sentimento subjetivo, mas de vida prática.

Segundo ele o pensamento transcendente a nossa esfera gera um comportamento demasiadamente frio, e não obriga a quem segue esse caminho a um compromisso com o outro. Individualmente, todo esforço pessoal visa o enlevo espiritual próprio. No aspecto coletivo, primariamente preocupa-se com a alma da pessoa. Toda a atenção é voltada para essa dimensão. Esse misticismo típico em ambientes da igreja, cria pessoas individualistas com sua atenção voltada para a subjetividade em detrimento à atenção às carências humanas reais e imediatas.

Não há como discordar desses dois pesos pesados da teologia. Pois o centro dos ensinamentos de Jesus foi o Reino de Deus e a ética do Reino, que é a organização da humanidade mediante a ações inspiradas no amor.


sábado, 15 de junho de 2013

Amor "incondicional"?



Por Donizete Veira



Quem disse: Se alguém disser: amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso... E nós temos dele este preceito: que quem ama a Deus ame também a seu irmão? João, o apóstolo.

Mas quem odeia os nicolaítas? Quem tem sede de vingança e quer atirar Jezabel num leito de doença e fazer seus filhos morrer de peste? Quem não é capaz de se contentar apenas com fantasias sanguinárias? O mesmo Apóstolo João.

Jung explica!

Esta alteração de humor ou irascibilidade, não revela necessariamente um psicopata desequilibrado, mas sim um indivíduo religiosamente apaixonado, que, apesar de estar consciente da incomensurabilidade de Deus, pode afirmar que quem ama a Deus e seus semelhantes pode receber a "gnose", mas que, após receber este conhecimento de Deus, viu, quão temível e violento é o seu caráter; por esse motivo sentiu como o seu evangelho do amor era unilateral, e com a convicção de que Deus pode ser amado mas deve ser temido, escreveu o apocalipse, completando assim o primeiro com um evangelho do temor.

Esta natureza paradoxal do homem, que o torna capaz de amar e desejar o mais cruel castigo ao desobediente fornece as bases para sua concepção acerca de Deus, que o divide em seus contrários e o deixa entregue a um conflito aparentemente sem solução.

Chegamos ao ponto de concluir que as mesmas restrições que permeia as relações humanas no tocante ao amor é encontrado em Javé. Logo, amor incondicional não pode ser encontrado nEle.

Audodidatismo teológico





Por Donizete Vieira


Autodidatismo, uma saída para a teologia brasileira.


Não podemos ignorar que existem igrejas que prezam pela qualidade tanto espiritual como intelectual dos seus líderes.

Porém esta formação, na maioria absoluta dos casos é feita através de seminários ou faculdades indicadas pelo próprio ministério onde ele está filiado.

Este modelo cria obreiros com cabresto, sem ação, pensamento ou visão autônoma.
E acontece em qualquer modelo de governo eclesiástico. Seja ele congregacional, episcopal ou presbiteriano. Nenhum deles foge dessa regra.

Alguns líderes para se verem livres destas rédeas fundaram suas próprias comunidades, contudo estruturada com uma liderança ultra-centralizadora, o que faz descambar de vez! Pois estes menosprezam qualquer órgão de ensino teológico, tendo em suas alas apenas sessões de treinamento para que os obreiros sigam a risca as orientações de seu líder máximo.

É bom também lembrar que em todos esses casos, o objeto de estudo são as cosmovisões dos pioneiros das suas respectivas tradições, de modo que o estudante parte para a Bíblia apenas para ratificar os pressupostos que a priori já foi estabelecido como regra de fé e prática daquela facção.

Encontrar na atualidade um seminário inter denominacional, totalmente independente, com autonomia de cosmovisão, sem "rabo preso" com qualquer tradição ou movimento, pelo menos a nível de Brasil, eu diria que, é como encontrar uma agulha no palheiro.

Até mesmo os institutos de apologética seguem esta mesma lógica!

Por isso que no meu ponto de vista, em termos de teologia, o AUTODIDATA está alguns passos a frente dos que não são!





domingo, 2 de junho de 2013

Rumo a uma comunidade alternativa.



Por Donizete Vieira



É interessante analisar as causas e efeitos das mudanças que ocorreram sistematicamente na história da igreja.

Por exemplo: O liberalismo teológico foi um meio de salvação da teologia no contexto do iluminismo. Menos de um século depois já não servia mais para uma igreja que ainda não havia rompido radicalmente com os princípios das “solas” dos reformadores.

Seu retorno ao velho paradigma associado ao movimento carismático emergente produziu um enrijecimento ainda maior da sua doutrina. O pentecostalismo fundamentalista tem ali a sua gênese.

O pentecostalismo por sua vez pareceu ser a salvação da igreja, pois teve um crescimento vertiginoso. Entretanto isso é visto apenas pela ótica do pragmatismo.

Mas e agora, com a iminente derrocada desse movimento, que teve sua raiz ferida com o advento do neo-pentecostalismo, que rumo tomará a igreja?

Com a inserção cada vez maior de seus jovens em ambientes acadêmicos, gerando neles uma visão mais crítica, qual serão as respostas apresentadas pela liderança eclesial?

Esperemos pra ver! Mas pode ser que a tão sonhada mudança (se é que irão ocorrer de fato) no Vaticano provoque algumas também nos meios protestantes.

Enquanto isso vou continuar sonhando em ver estabelecido um modelo alternativo de comunidade, livre desse pragmatismo utilitarista selvagem que vê no capital seu principal indicador de sucesso.

Com uma releitura da Bíblia divorciada desses elementos místicos que insistem em se opor à lógica e a inteligência.

Com sua teologia contextualizada, dialogando afinadamente com outras tradições, mas sobretudo com as demandas humanas, tendo suas bases estabelecidas em baixo. Logicamente.