segunda-feira, 27 de maio de 2013

Apocalíptica




Por Eduardo Medeiros



Os tempos da Guerra Fria foram tempos apocalípticos. O mundo vivia numa tensão diária por conta da polarização de forças políticas e econômicas entre o Império Americano e o Império Soviético. Por mais de uma vez, o mundo esteve a beira de uma guerra atômica, como no episódio da crise dos mísseis em Cuba, uma guerra que se fosse deflagrada, não haveria vencedores, só perdedores, pela imensa capacidade dos oponentes se autodestruírem, levando consigo, o mundo todo.


Existe um gênero literário forjado no antigo Israel - a Apocalíptica -  que é fruto desse estado de tensão destruidora, que sempre foi uma sombra na história do povo bíblico. A grande maioria dos livros apocalípticos foram escritos no chamado "período intertestamentário", que compreende mais ou menos os anos de 250 aC a 100 dC. Tais livros não podem ser bem compreendidos fora das circunstâncias religiosas, políticas e econômicas da época; tempos em que a esperança e temores do povo de Israel estavam à flor da pele. Segundo D.S. Russell, "A literatura apocalíptica é essencialmente literatura de um povo que não via nenhuma esperança para sua nação simplesmente em termos de política ou no plano da história"(p 35).

Foi um movimento literário e histórico judaico cujo temática era  a iminente convulsão social e terrena em grandes catástrofe cósmica com o ápice do curso predeterminado da história; nesse contexto, os "anjos as nações" desempenham um grande papel nesse drama cósmico.  O período de tempo mencionado, viu a enorme expansão da cultura grega que tinha começado com Alexandre Magno (336-323 aC) e continuado com seus sucessores; a apocalíptica judaica é em grande parte, um protesto contra muito dos valores que o helenismo representava.

As características principais dos escritores apocalípticos demonstram que eles se viam cercados por "outro mundo", cósmico, além do mundo presente, onde Deus morava na companhia de seus santos anjos. Deus era o "o Altíssimo", "o Antigo dos Dias", "o Senhor dos Espíritos", "o Transcendente" que habita o reino da luz; esse Deus controlava os destinos dos homens e das nações, que no fim julgaria todas as criaturas vivas e levaria todas as coisas à consumação. Mas havia um jeito de fazer uma ponte entre o mundo material e esse "outro mundo", ponte essa que levavam não somente à presença de Deus mas também aos segredos divinos. Duas das mais importantes "pontes" eram as visões em sonhos com suas viagens ao outro mundo e a mediação dos anjos.

Os escritores deixavam transparecer sua grande admiração por terem se tornado recebedores dessas revelações, de terem adentrado aos mistérios de Deus. A mediação de anjos é importante no gênero apocalíptico. Os anjos faziam uma dessas pontes entre o "lá e o cá". Na história do AT sempre podemos ver aparições angelicais, mas nos escritos posteriores a ele, "realçou-se enormemente este papel, sem dúvida refletindo influência de crenças persas e ilustrando ainda mais a evolução do pensamento dualista dentro do judaísmo em seu conjunto" (Russel p 143).

Essa ideia dos "dois mundos" pode também ser entendida como "duas dimensões" de tempo e espaço. J.J Collins definiu "apocalipse" como uma "forma de literatura revelatória que desvela um realidade transcendente que se deve entender em duas dimensões: é temporal (visando à salvação escatológica) e espacial (envolvendo outro mundo sobrenatural)" (Russel, p 144). Assim, no livro de Daniel, o Reino Celeste transcendente abala, na forma de de grande pedra cortada "por nenhuma mão" de uma montanha, todos estes reinos (reinos históricos) e os leva ao fim. (Dn 2.44); isso quer dizer que os valores transcendentais não estão escondidos em algum canto celeste, mas tem incidência visível na realidade desta vida, em suas políticas de tirania e opressão. No mesmo livro de Daniel capítulo 10, os "príncipes", que se referem aos anjos da guarda da Pérsia e da Grécia se confrontam com Gabriel, o anjo intercessor de Israel, companheiro do "príncipe" Miguel: "As batalhas combatidas por eles 'lá em cima' refletem e são determinantes das batalhas combatidas pelos homens e pelas nações 'daqui embaixo' ! (Russel, p 144).

Concluindo, a literatura apocalíptica nasce da crise; nasce da situação histórica de Israel oprimido pela cultura grega e depois, no apocalipse cristão de João, na situação de perseguição por Roma. A visão de mundo da época, constituído pelas duas dimensões e pelo dualismo, vê no cenário terrestre o teatro de operações dos guerreiros celestes. Era exatamente esse clima apocalíptico que imperava nos tempos de Jesus, quando a "esperança de redenção do reino de Israel" estava na ordem do dia. Jesus de Nazaré, com certeza, não deixou de ser influenciado pela apocalíptica do seu tempo; ele também se via no plano terrestre participando de um drama maior, cósmico; sua chegada era a chegada do Reino Transcendente de Deus ao nível do imanente terrestre; uma das frases atribuídas a ele deixa essa perspectiva bem clara: "Eu via Satã caindo do céu" - os tronos da maldade e da opressão estavam caindo diante do Messias de Javé. Mas como sabemos, hoje, de uma ampla perspectiva histórica, parece que Satã caiu do seu trono mas depois voltou a tomá-lo de volta. A tão esperada redenção de Israel não veio pelo Messias Nazareno, que morreu perplexo pelo fracasso do seu intento; "Deus meu, por que me desamparaste", o clamor na cruz, lamenta o abandono de Deus ao "Projeto do Reino". Outra vez, precisava-se da Esperança; os seguidores do Nazareno postergaram o Reino para um futuro ainda incerto. Mas, nas palavras de Albert Schweitzer, Jesus colocara a grande roda da história para rodar, mas por fim, foi esmagado por ela.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Cristianismo em decadência.







Em 1900, 0 secretário geral da sociedade missionária norueguesa, Lars Dahle, considerou que todas as religiões fora o cristianismo, estavam moribundas, e que todas elas iriam desaparecer em breve. Com base em cálculos matemáticos, ele pôde predizer calmamente que, por volta de 1990, toda a raça humana teria sido conquistada pelo cristianismo.
 
Outro a fazer vaticínio semelhante foi o fundador da sistemática missiologia e renomado teólogo, Gustav Werneck. Em seus estudos ele fez uma distinção entre um fundamento “sobrenatural” e um “natural” para missão. No tocante ao primeiro, ele identificou dois elementos: a missão está fundamentada na escritura, particularmente na grande comissão de Mateus 28, e na natureza monoteísta da fé cristã. 

Igualmente importantes são as bases “naturais” para a missão. Daí ele colocou:

a, O caráter absoluto e a superioridade da religião cristã em comparação as outras;
b, a aceitabilidade e adaptabilidade do cristianismo para todos os povos e condições;
c, as realizações superiores da missão cristã nos campos de missão;
d, o fato de que o cristianismo tem mostrado, no passado e no presente, ser mais forte do que todas as outras religiões.

E com estas constatações, segundo ele era fácil prever que no decorrer do século XX o cristianismo iria dominar o mundo.

Ledo engano! Sabemos que definitivamente eles não estavam com a razão, visto que o cristianismo está perdendo terreno para outras religiões, sobretudo para o islamismo. 

A Europa presencia o fenômeno da descristianização e os EUA tem uma cristandade dominada pela anomia religiosa.

Em terras tupiniquins, o catolicismo é um dinossauro teimoso ao impor sua moral impraticável. O evangelicalismo é uma caricatura da essência da mensagem de Cristo.

O pentecostalismo, que a princípio parecia ser a salvação da falência iminente, até que deu uma sacudida na fé cambaleante dos cristãos. Mas um movimento carregado de misticismos malucos e dominado pelo anti-intelectualismo, só poderia produzir algo pior, isto é, o neo-pentecostalismo.

Num século marcado pelo pensamento livre, no campo das religiões não será o mais forte que sobreviverá. Mas sim o mais inteligente.


Donizete

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Conselhos que o padre não dá


"Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas louco; por que morrerias fora do teu tempo?" (Bíblia Sagrada. Eclesiastes 7:16-17. ARA)

A vida é o bem mais precioso que recebemos em nossa peregrinação na Terra. Preservá-la deve ser o principal alvo das igrejas, das ONGs, dos partidos políticos, do Estado e da sociedade em geral. Só que, em muitas das vezes, as regrinhas morais e religiosas podem favorecer até o mais grave dos pecados que é matar alguém (Êxodo 20:13 e artigo 121 do Código Penal Brasileiro).

Com minha relativa experiência de vida, com pouco mais de 13.500 dias e mais da metade deles sendo evangélico, venho observando que determinados fatos lamentáveis poderiam ser evitados se outras normas preceituais de menor importância fossem justificadamente "transgredidas" pelo agente do delito.

Em certa ocasião, um homem de religião cristã espancou a sua esposa até ela desmaiar dentro de casa. Por pouco não a matou com socos na cabeça e chutes em outras partes do corpo. Sentindo-se em seguida culpado pelo que fizera e vendo a mulher inconsciente estendida sobre o chão da sala, parou de bater tentando reanimá-la. Por fim, chamou a ambulância.

Felizmente a vítima se recuperou e preferiu deixar de registrar o episódio na Delegacia, dando mais uma chance ao agressor. Só que, dessa vez, ela impôs a condição de ambos procurarem o aconselhamento espiritual da igreja frequentada pelo casal e o marido aceitou conversar com o pastor expressando arrependimento pela violência perpetrada.

Sem entrar em maiores detalhes sobre essa situação concreta, ou especular se a manutenção do casamento foi a melhor escolha que tomaram (os dois estão juntos até hoje), levanto aqui uma hipótese considerando o que frequentemente ocorre no cotidiano nosso. Pois o que teria sucedido se um dos violentos golpes daquele marido atingisse fatalmente a sua mulher? Por acaso tal homem não teria passado da condição de trabalhador honesto para um criminoso procurado pela Polícia? E a jovem senhora de seus trinta e poucos anos não teria perdido tragicamente a vida?

Recordo que, enquanto estava refletindo sobre aquele problema, mesmo tendo na época uma visão de mundo mais "fundamentalista" e conservadora, cheguei a dizer para o pastor: "irmão, se a relação no casamento anda tão ruim assim e fugindo do controle, é melhor que haja o divórcio do que um homicídio ou uma lesão corporal com sequelas sérias".

Curioso que os valores religiosos que recebi ainda adolescente no meio batista até hoje me servem de desestímulo para eu advogar nesta triste e necessária área do Direito de Família que são as separações conjugais. No entanto, aprendendo com as experiências minhas e dos outros, tenho me sentido menos inapto para algum dia entrar no Fórum defendendo esse tipo de causa. E, indo mais além, acho que já sou capaz de pregar com ousadia numa congregação religiosa orientando as pessoas segundo a voz da consciência, mesmo de maneira contrária a certos dogmas do cristianismo ortodoxo.

Repito! Se um marido está tão insatisfeito por viver ao lado de sua esposa, não é melhor encarar logo o divórcio do que terminar matando a mulher por espancamento? Contudo, por causa de alguns freios de conduta da religião, como a ideia da indissolubilidade do vínculo matrimonial e a caracterização do pecado de adultério na hipótese de novas núpcias no civil com outra pessoa pelo cônjuge separado, as igrejas bitoladas dão ocasião a um sentimento verdadeiramente maligno - o desejo de matar. Se não dá para ter um segundo casamento "aprovado por Deus" (e pela comunidade), o devoto começa a pensar nos benefícios que a viuvez lhe proporcionaria...

Recordo que, quase quatro anos após aquele episódio perturbador narrado acima, o pastor presidente da igreja onde eu me reuni por meia década na Região Serrana do Rio, pediu meu auxílio para aconselhar juridicamente um outro casal que tinha se agredido mutuamente dentro do próprio templo. A esposa estava doida para fazer um B.O., mas, se isto se confirmasse, registando-se o local do crime, seria um escândalo com a possibilidade de envolvimento da denominação religiosa nas páginas policiais de algum jornal (é comum haver funcionários públicos na Civil que informam a imprensa). Então, fui procurado pela liderança eclesiástica justamente para tentar um acordo entre os dois (por panos quentes) e, infelizmente, não me posicionei como deveria agir conforme a ética. Horas depois, eu me arrependi amargamente pelo papel de banana que fiz quando fui chamado ao gabinete pastoral, pois deveria ter dito o seguinte pra ela:

"Filha, se hoje ele foi capaz de te bater dentro da igreja, não falta muito para este cara mandar você numa hora dessas para o cemitério. Levante-se daqui, vai logo até à 151ª DP e represente contra ele fazendo em seguida o exame do corpo de delito. Não se sujeite à violência e se lembre que você é mãe. Se ele quer ficar com outra, deixa pra lá e dê logo o divórcio..."

Hoje estou lutando para libertar cada vez mais o meu pensamento da gaiola do fundamentalismo religioso. Atualmente, não só sugiro a separação para os relacionamentos perigosos e de traição como defendo outras bandeiras realistas capazes de chocar tanto a evangélicos quanto a católicos:

-> É melhor um marido insatisfeito pedir o divórcio da esposa do que matá-la a porrada.

-> É melhor um ex-viciado em cocaína fumar seu cigarrinho inocente da Souza Cruz do que não conseguir controlar sua ansiedade, entregar-se à bebida e depois retornar para as drogas. Contrair um câncer vai ser menos mal do que morrer de overdose com uma seringa nas mãos.

-> É melhor que um adolescente com tesão a flor da pele vá se masturbar no banheiro olhando para a última edição da Playboy, do que cometer um ato de estupro. Antes ele procurar uma prostituta na esquina e ir com a mulher pra um motel do que atentar contra a liberdade sexual de qualquer pessoa! Se vier a se tornar uma só carne com a meretriz no mundo espiritual, as consequências serão bem menores em todos os planos existenciais.

-> É melhor não dar o dízimo na igreja e contribuir com importâncias menores, dentro de suas possibilidades econômicas, do que ofertar e passar fome, não pagar as dívidas com terceiros, deixar de assistir os pais idosos, atrasar a pensão dos filhos menores, etc.

-> É melhor dar atenção para alguém que esteja sofrendo do que dispensar o apoio espiritual ao irmão com o pretexto de participar de mais um culto religioso para ficar "firme na igreja".

-> É melhor declarar de vez sua incredulidade, encarando de frente a crise e as dúvidas, do que esconder os sentimentos, fingindo diante dos irmãos como se tudo estivesse indo bem.

-> É melhor ensinar os jovens na Escola Bíblica Dominical a usarem preservativos porque, se os hormônios ferverem e eles vierem a fornicar, o pastor não vai precisar ficar sabendo depois de que as adolescentes da igreja engravidaram durante o retiro de Carnaval. Ou que foram infectadas com o vírus HIV que é muito pior.

-> É melhor encaminhar a pessoa ao médico para confirmar a ocorrência de uma suposta cura milagrosa do que instigar o auto-engano religioso e amanhã a enfermidade evoluir.

Podem alguns cristãos radicais me chamarem de relativista que não me incomodo. Eu reverencio os mandamentos mas não sigo dogmas. Aliás, como teria dito o ancião Hillel, rabino que viveu alguns anos antes de Jesus, os quarenta dias de Moisés no Monte Sinai, quando o profeta recebeu a Torá, podem ser perfeitamente resumidos pela elevada prática do amor ao próximo. Pois é buscando o bem do outro que se cumpre adequadamente a Lei de Deus ao invés de prestarmos uma obediência cega aos preceitos escritos.