quarta-feira, 24 de abril de 2013

Edifício em ruínas





Por Rubens Alves




Lembro-me, com nítida precisão, do momento em que tive a percepção intelectual que libertou a minha razão para pensar. Eu estava no seminário. Repentinamente, com enorme espanto, percebi que todas aquelas palavras que outros haviam escrito no meu corpo, não haviam caído do céu. Se não haviam caído do céu, elas não tinham o direito de estar onde estavam. Eram demônios invasores. Abriram-se-me os olhos e percebi que essa monumental arquitetura de palavras teológicas que se chama teologia cristã se constrói, toda, em torno da ideia do inferno. Eliminado o inferno, todos os parafusos lógicos se soltariam, e o grande edifício ruiria.

A teologia cristã ortodoxa, católica e protestante, excetuada a dos místicos e hereges, é uma descrição dos complicados mecanismos inventados por Deus para salvar alguns do inferno, sendo o mais extraordinário desses mecanismos o ato de um Pai implacável que, incapaz de simplesmente perdoar gratuitamente (como todo pai humano que ama sabe fazer), mata o seu próprio Filho na cruz para satisfazer o equilíbrio de sua contabilidade cósmica. É claro que quem imaginou isso nunca foi pai. Na ordem do amor, são sempre os pais que morrem para que o filho viva.

Hoje, as ideias centrais da teologia cristã em que acreditei nada significam para mim: são cascas de cigarra, vazias. Não fazem sentido. Não as entendo. Não as amo. Não posso amar um Pai que mata o Filho para satisfazer sua justiça. Quem pode? Quem acredita? Mas o curioso é que continuo ligado a essa tradição. Há algo no cristianismo que é parte do meu corpo. Sei que não são as ideias. Que ficou, então?

Foi numa Sexta-Feira da Paixão que compreendi. Uma rádio FM(Amparo) estava transmitindo, o dia inteiro, músicas da tradição religiosa cristã. E eu fiquei lá, assentado, só ouvindo. De repente, uma missa de Bach, e a beleza era tão grande que fiquei possuído e chorei de felicidade: “A beleza enche os olhos d’água” (Adália Prado). Percebi que aquela beleza era parte de mim. Não poderia jamais ser arrancada do meu corpo. Durante séculos, os teólogos, seres cerebrais, haviam se dedicado a transformar a beleza em discurso racional. A beleza não lhes bastava. Queriam certezas, queriam a verdade. Mas, os artistas, seres coração, sabem que a mais alta forma de verdade é a beleza. Agora, sem a menor vergonha, digo: “Sou cristão porque amo a beleza que mora nessa tradição. As ideias? Chiados de estática, ao fundo...” Assim, proclamo o único dogma da minha teologia cristã erótico-herética: “Fora da beleza não há salvação...”

quarta-feira, 10 de abril de 2013

NIETZSCHE SERIA MESMO ATEU?

Por Guiomar Barba.



Confrades, creio que neste vídeo temos uma riqueza infinita de detalhes da vida do grande Nietzsche, que muito se assemelha aos nossos desajustes em diferentes esfera da vida e outros pontos temos em comum. 

Estou fascinada, muitas impressões confirmadas. Vamos aos comentários.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

“Deus” e o “Diabo” no Planalto Central


Por Levi B. Santos




Javé e Satanás da idade média estão em alta nos últimos dias, aqui nas Terras de Dom João VI. Aliás, eles nunca perderam o seu status de fascínio no mundo judaico-cristão. Ao invés de se procurar entender que essas figuras míticas que Jung as denominou arquétipos, representam os afetos paradoxais da psique do homem religioso ocidental, o crente, em um maniqueísmo perverso, quer por que quer “purificar a sua alma” através da projeção do “mal” que há em si no outro que não reza por sua cartilha.

Essa luta inglória impiedosamente difundida pelo marketing da Salvação (e das Trevas) fortalece os maniqueístas − supostos oráculos de Deus. O pentecostalismo, especialmente, não sobreviveria sem esse combustível altamente inflamável.

Recentemente, a figura de Satanás veio à tona através do atual Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (CDHC) ― membro da maior instituição pentecostal das Américas ― as Assembléias de Deus do Brasil.

O ministro-deputado evangélico dirigindo-se, num culto, aos seus fiéis eleitores disse em alto e bom som, que o cargo no qual está investido, antes era de Satã, e agora é de Deus (Javé), salientando que muitos do exército Satânico estão estrebuchando de raiva porque, “pela primeira vez na história, um Homem de Deus cheio do ‘Espírito Santo’ conquistou espaço no Congresso”. (Clique aqui para ler a matéria), o que, em outras palavras, corrobora com a máxima de Sartre: “O Inferno são os Outros”.

O ministro, penso eu, pode estar se respaldando no Moisés bíblico e sua odisséia através do deserto, quando planejou tomar a terra do amaldiçoado Canaã, para colocar lá um povo escolhido e abençoado por Deus. A Canaã, no caso do imbróglio governamental, seria a CDHC; o Moisés moderno seria o pastor assembleiano-profeta-de-Javé que, tomando o cargo das mãos do Diabo, o purificaria de todo o mal.

Não tenho a menor idéia de como agirá o Pastor Javeliano, se o seu caso terminar nas mãos dos dois condenados pelo STF, que, pasmem, presidem a Comissão de Justiça da Câmara.  Aí, a coisa pode engrossar de vez.

Pelo visto, o Planalto Central de Brasília vai estremecer, bem à moda vétero-testamentária. O pior é que os do lado de Satanás inventaram de marcar uma reunião na próxima terça-feira (dia 09) para decidir o caso do pastor-deputado do PSC. Só podia ser coisa do cão, pois nesse mesmo dia, segundo o pastor presidente da CDHC, um exército de 24.000 pastores assembleianos da CGADB estará realizando a sua Convenção Geral em Brasília. É bom salientar que esse séquito de profetas de Deus está pronto para desfraldar a bandeira do Bem contra os seguidores do Baal Brasiliano (Clique aqui para se inteirar)

Dilma (será a mulher vestida de sol do apocalipse?) disse no Vaticano que o Papa é argentino, mas “Deus é brasileiro”. Foi sábia ao usar, no local certo, esse famoso bordão. É que os votos da imensa comunidade evangélica, que no dizer do pastor-deputado é muito maior do que a comunidade de Baal, pode lhe dar de novo o comando da nação cujo Deus é o Senhor.

Na imaginação de muitos, Javé, já sussurrou aos ouvidos de seu afiliado-mor, algo mais ou menos assim: “se o PT não se converter dos seus maus caminhos e te abandonar, meu servo, eu retirarei o apoio do meu povo a Dilma em 2014”.

Na contra mão do que imagina o representante de Javé no Brasil, os evangelhos contam que o Diabo veio até o Messias, pedir seu apoio, dizendo em linguagem de hoje: “olha, isso tudo será Teu se votares em mim!” Naquela ocasião, o Mestre prontamente recusou a propina, dizendo: Xô Satanás, o meu reino não é desse mundo”. Mas isso foi muito antes da fundação do Constantianismo, quando nem se sonhava ainda com o Neo-pentecostalismo de resultados.

Bom é ficarmos atentos para não sermos surpreendidos no Grande Dia do Senhor. Quem poderá saber se na próxima semana, Brasília, não será transformada no Armagedon de que fala o livro “Apocalipse” − de João? (rsrs)



Site da Imagem: cabonews.com.br